trecho do texto narrado por Vincent Price na música "Thriller"
Na Semana de aniversário de um ano da morte de Michael Jackson, mesmo não sendo fãzaço, não posso ignorar um dos discos que mudaram a história da música, e não apenas dela como do comportamento, dos costumes, da moda, da mídia e etc.
Como não destacar um álbum que até hoje é o mais vendido de todos os tempos, que fez do artista nada mais nada menos que o rei do pop e que teve a música que revolucionou a linguagem do videoclipe e da exposição de artistas em TV para sempre? É lógico que os méritos não ficam limitados a isso. Sonoramente a obra acaba sendo uma das que melhor aproxima toda a musicalidade de cultura negra tentada, experimentada, inventada até então do grande púbico. Funde-se funk, soul, jazz, disco, R&B de uma maneira tal que acabou por se consolidar como a fórmula certa do pop (digo "certa" no sentido de alcançar-se grandes vendagens, popularidade e público; porque em qualidade, na minha opinião Prince, por exemplo, já havia atingido isso antes e continuou com maior qualidade ainda depois, mas isso, lá, é outra história). Mas criar-se uma "fórmula" para algo tão popular infelizmente tem seu preço, e as as gerações seguintes acabaram vendo então este monte de ccantores de hip-hop, meninas rebolando com vozinhas sensuais, múscas ruins sustentadas apenas por mega-videoclipes e artistas que se baseiam mais em performances coreográficas do que na música.
Sou um daqueles que acham que Quincy Jones inventou Michael Jackson e que o dito Rei do Pop sem ele seria somente mais um na cena, mas não posso deixar de valorizar o resultado da acolhida deste brilhante produtor a um, até então, potencial "menino-prodígio". E se o que se deu desta adoção foi "Thriller" há de se reconhecer que acabou sendo uma das uniões mais felizes da história da música.
******************** Recentemente saiu uma versão comemorativa dos 25 anos do álbum com as faixas originais, vídeos, inclusive com o clássico clipe da faixa-titulo, e remixes com versões com alguns desse pessoalzinho aí que eu disse que formam o "legado" do Jacko: Kanye West, Fergie, Akon e will.i.am. Ou seja, as faixas Bônus, são ônus na verdade.
FAIXAS ORIGINAIS 1982: 1. "Wanna Be Startin' Somethin'" M.Jackson 6:03 2. "Baby Be Mine" R.Temperton 4:20 3. "The Girl is Mine" (com Paul McCartney) M.Jackson 3:42 4. "Thriller" R.Temperton 5:58 5. "Beat It" M.Jackson 4:18 6. "Billie Jean" M.Jackson 4:54 7. "Human Nature" J.Bettis, S.Pocaro 4:06 8. "P.Y.T (Pretty Young Thing)" J.Ingram, Q.Jones 3:59 9. "The Lady In My Life" R.Temperton 4:59 *a edição especial de 2008 conta com uma faixa com a locução de Vincent Price, a mesma da música "Thriller"
EXTRAS EDIÇÃO 25 ANOS: 1. "The Girl is Mine" com will.i.am 2. "P.Y.T (Pretty Young Thing)2008" com will.i.am 3. "Wanna Be Startin' Somethin'" com Akon 4. "Billie Jean" com Fergie 5. "Human Nature" com Kanye West 9. "For all Time" unreleased track from original sessions
DVD DA EDIÇÃO DE 25 ANOS: 1. "Billie Jean" (videoclipe) 2. "Beat It" (videoclipe) 3. "Thriller" (videoclipe) 4. "Billie Jean" (apresentação na festa de 25 anos da Motown na qual imortalizou o passo conhecido como "Moonwalk"
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Aí o clipe de "Thriller" o video que revolucionou o gênero. Praticamente um curta-metragem dirigido por John Landis ("Os Irmãos Car-de-Pau" e "Um Lobisomem Americano em Londres"). Este pequeno filme além virar referência e objeto de imitação, consolidou a linguagem do videoclipe e elevou definitivamente os lançamentos de músicas e álbuns a outro patamar.
Nunca fui muito fã de Michael Jackson ainda que reconheça plenamente sua importância, originalidade e, por que não, genialidade. A música pop do início dos anos 80 deve a ele e sua ousadia boa parte da sua propagação mundo afora. Era momento do final do punk, da modinha new-wave, da decadência da disco e de uma falta de identidade da música negra. Ele e seu padrinho, não menos genial, Quincy Jones, botaram tudo no liquidificador e praticamente solidificaram a linguagem pop de uma época. "Off the Wall" e "Thriller" são inegavelmente marcos da música. Este segundo, além da qualidade musical e inovação, apresenta seus impressionantes números de vendagem imbatíveis até hoje e acabou também por tornar-se um marco na história do videoclipe com aquele pequeno filme de terror da faixa título "Thriller", que revolucionou a linguagem do gênero.
Respeito muitíssimo toda sua história, obra , influência, mas acho que a essas alturas não vai fazer mais falta nenhuma enquanto artista. Não o via mais capaz de produzir alguma coisa de relevante. Já fazia algum tempo não saía dele nada que valesse a pena. Com boa vontade, o "Bad" ainda tinha alguma sobra de genialidade mas com certeza muito pouco, e a partir dali foi cada vez menos e seria cada vez menos ainda daqui para a frente.
Como homem, então, não se tem o que falar. Se autodestruindo, se autodeformando, destruindo sua fortuna, imagem e reputação. Sua atual contribuição humana era ainda menor do que a musical.
Costumo dizer que o que eu gosto eu tenho em casa e, apesar de ter na minha prateleira de CD's o "Off the Wall" e o "Thriller", eles não são meus, são da minha esposa. Ou seja, reconheço tudo que fez, toda sua história, mas não é dos meus preferidos, não. Não me prendo muito a estilo de música. Não gosto simplesmente porque o fulano é metal, ou deixo de gostar porque é funk, mas no caso de Michael Jackson, acho que seu estilo é fundamental para que não o aprecie muito. Não gosto muito daquele estilo de pop, aquele jeito, sabe? E MJ foi ficando cada vez mais repetitivo e o pior, imitando a si próprio incansavelmente e isto não aguento nem com os artistas que gosto muito.
Em uma brevísima visita do meu irmão que mora em Porto Alegre, ao Rio de Janeiro, recebi dele de presente alguns filmes em DVD. Havia pedido que me conseguisse o filme “Demons”, um terror italiano produzido por Dario Argento e dirigido por Lamberto Bava, do qual sempre gostamos mas depois de termos visto uma vez, alugado em VHS, nunca mais havíamos encontrado. É bem Dario Argento mesmo. Pessoas convidadas a uma sessão de cinema ficam presas lá e por conta de uma máscara antiga vão se transformando em zumbis e devorando uns aos outros, transformando assim os outros em mortos vivos. Ótimo pelas nojeiras, mortes, zumbis e também pelas metáforas (por incrível que possa parecer) sempre presentes nos filmes do mestre Argento, ainda que não dirigido por ele, mas certamente na linha de frente do trabalho. Obra de arte gore!
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"FOME ANIMAL" de Peter Jackson (1992)
Outro dos presentes foi "Fome Animal” ("Braindead") , que, por mais incrível que possa parecer, é de Peter Jackson, diretor da “Trilogia dos Anéis” e “King Kong (2005)”, mas que aqui é lixo puro na sua MELHOR forma. Um terrir podre cheio de brutalidades, sadismo, mortos-vivos, piadas infames e sangue jorrando à reviria. Imperdível pra quem curte o gênero!
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"THRILLER - A CRUEL PICTURE" de Boa Arne Vibenius (1974)
Mas o melhor e mais inesperado dos presentes foi “Thriller – A Cruel Picture” , que em princípio, pelo título, julguei tratar-se mais ou menos da mesma coisa, mas que soube depois ser algo assim como um predecessor de “Kill Bill”, por assim dizer. Aquela coisa toda de uma mulher mortal, vingança, artes marciais já poderia ser suficiente para associar as duas obras, mas some-se a isso o tapa-olho que a protagonista usa, a roupa amarela, o duelo, os sons repetitivos e perturbadores em várias cenas, e saberemos de onde, mais uma vez, Tarantino chupou algumas cenas e inspirações para realizar sua obra de dois volumes. (No que não há problemas algum, pois provavelmente ele assumiria).
O lance todo é que uma garota que não fala devido ao trauma devido a um estupro na infância, trabalha numa fazenda e um dia, após perder um ônibus, inocentemente pega carona com um sujeito que acaba levando-a para a casa dele, a droga, a vicia em heroína e a mantém dependente disso e fazendo assim com que ela se prostitua para sustentar o vício forçado. Só que, depois de muito, indignada pelas humilhações dos clientes impostos, pela morte de seus pais provocada pelo gigolô e pela morte de uma amiga que fez no prostíbulo, guarda dinheiro para pagar treinamentos em luta, tiro e direção que faz em seus momentos de folga, já planejando sua cruel vingança.
O filme tem problemas de roteiro em determinados momentos, cenas dispensáveis como as de sexo explícito, atuações péssimas de atores semi-amadores, mas as cenas de luta e tiroteio são absolutamente fantásticas com um super câmera lenta que confere uma intensidade toda especial a estas cenas.
Outra cena fantástica pelo grotesco, repugnante e pelo realismo é a que o homem que a raptou , insatisfeito com o tratamento que ela dera a um cliente, vaza-lhe o olho com um bisturi, o que é mostrado claramente e sem cortes. O segredo da cena? Foi filmada com um cadáver. E, a própósito: lâmina no olho não lembra alguma coisa? "Um Cão Andaluz" talvez? (foto ao lado)
Pois é. Esse é o barato de um filme como este. Ao mesmo tempo que consegue ser genial, ter referências tão significativas como Buñuel, servir de referência para a posteridade, e ser em determinados momentos tão tolo, tão mal-acabado, tão tosco. É exatamente esse o charme do cinema trash, do underground, do filme B. Por estas coisas que gostamos de filmes que são muito ruins mas são muito bons e "Thriller" é um destes. Mas neste caso acho que prevalece o muito bom.
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Em tempo, obrigado, Dã!
Adorei os filmes.
É impossível assistir à cinebiografia de algum artista que se admira sem relacionar com a própria vida. Ainda mais aqueles que fizeram parte da SUA biografia. Foi o que me aconteceu vendo "Michael", do cineasta Antoine Fuqua. As lembranças da infância, quando eu, com 4 para 5 anos de idade, ia pra frente da TV dançar igual a Michael Jackson em "Thriller", nos idos de 1982/3, vieram à mente. O icônico videoclipe, que impressionara o mundo inteiro com sua abordagem e qualidade cinematográficas, foi um de impacto gigante para mim à época, um dos primeiros contatos com cultura de massa que aquele pequeno menino negro do Sul do Brasil teve juntamente com os desenhos animados da TV aberta.
Somente este contexto já é suficiente para me aproximar tanto do filme, que reduz minha chance de não gostar. Afinal, o aguardado longa de Fuqua, sucesso de bilheteria, é, sim, apreciável, mas abertamente comercial. Com a direção tecnicamente perfeita e a abordagem pop, como lhe é característico, o cineasta, um dos eminentes negros do cinema norte-americano atual, conta a história do maior astro pop de todos os tempos (interpretado por seu sobrinho Jaafar Jackson) de forma cronológica, porém com um recorte acertado, haja visto que não vai até a sua morte. Pegando do começo da vida artística, ainda criança com os irmãos companheiros de Jackson 5, passando pela ascensão da carreira solo, vai até o fatídico momento em que Michael se desenvencilha do opressor pai, Joe - vivido por Colman Domingo, num papel digno de indicação a Oscar. As belas cenas musicais e o realismo de diálogos ajudam a cumprir bem esse recorte narrativo, que nada mais é do que a escolha central da trama: a conturbada relação de Michael com o pai.
No que se refere a Joe Jackson, cabe uma reflexão sociológica. Afinal, como o histórico de racismo, intolerância e perseguição aos negros nos Estados Unidos gerou pais de família afro-americanos rancorosos, mesquinhos, infelizes e invejosos! E pior: dada a baixa autoestima deles, revoltados com uma sociedade que lhes esmagou e não lhes deu oportunidade de brilharem com seus talentos individuais, usam esses sentimentos somenos, justamente, contra aqueles que deviam amar. É o caso de Joe e o caçula Michael, mas também com outros artistas negros do século 20, como Ike Turner para com a esposa Tina Turner e o pastor C. L. Franklin com sua filha Aretha. Todos psicologicamente doentes e tiranos domésticos. Incapazes de admitir que seus próximos são, sim, astros com mais brilho que eles, entram em rota de colisão e numa cruzada para obscurecê-los. É triste de se ver tamanha perversidade, mas explicável em um contexto maior.
Domingo na pele do perverso Joe Jackson: digno de Oscar
Afora isso, o filme também é incisivo ao apresentar um Michael dono de si e não um artista apenas talentoso levado pela mão por responsáveis como muito se propagou. O empresário John Branca e o produtor Quincy Jones, a quem ele respeitava e admirava, não comandavam, mas, sim, o próprio Michael. Sua consciência de homem preto, inclusive - algo pelo qual também sempre foi duramente criticado em razão do branqueamento da pele e das cirurgias plásticas descaracterizantes - é consistentemente rechaçada na cena em que ele, em 1983, bate pé diante do diretor da sua gravadora para que seu clipe fosse o primeiro de um artista negro a rodar na MTV. E foi.
Para quem acompanhou Michael Jackson desde criança até a fase adulta sabe que muito do que é mostrado faz sentido, mas também que há um cuidado em tratar de temas delicados. Porém, essa é a hora de trazer à tona essas delicadezas, se não, fica estranho.
E é aí que a proximidade de fã com a obra do artista faz com que seja impossível não se notar as lacunas. Quanto mais fã, aliás (e nem sou o maior conhecedor de MJ, repleto de ardorosos apaixonados pelo mundo todo), mais se sabe dos fatos verídicos. E me refiro a lacunas importantes, basais. Em "Michael", um dos assuntos faltantes foi criticado antes mesmo do filme ser lançado: o nebuloso (mas possivelmente verdadeiro) caso de abuso sexual sofrido por ele na infância. Nem uma menção, mesmo que sutil para não escancarar algo tão traumático? Pesa negativamente, uma pena.
Outro ponto faltante: onde está Diana Ross? E Stevie Wonder? Ambos admirações de Michael e com quem ele conviveu, tocou, filmou e gravou. Não foi possível incluí-los no roteiro? Foi uma opção? Há questões contratuais que impeçam? Verba para pagar direitos de imagem duvido que os produtores não tivessem.
O que me pesou também foi a ausência de referência ao filme "O Pequeno Príncipe", de 1974. Falou-se acertadamente de Gene Kelly, James Brown, Charles Chaplin e Fred Astaire, inspirações mais óbvias de Michael. Mas seria importante informar a quem não sabe de onde vieram várias de suas referências coreográficas: da dança da serpente no deserto, brilhantemente coreografada pelo ator e dançarino Bob Fosse. Há gestuais idênticos aos eternizados por Michael, dentre os quais o famoso passo Moonwalk, marca registrada de MJ. Tiveram medo de expor Michael e ferir sua imagem? Embora a clara semelhança da dança de um e de outro, não parece uma mera imitação e, sim, uma forte inspiração, por isso não faria nenhum mal em se revelar isso ao grande público. Ao contrário: traria mais uma das referências pop que a genial cabeça de Michael conseguia reunir e devolver em forma de arte.
A semelhança das danças de Michael Jackson e Bob Fosse
De tudo que não está em "Michael", no entanto, o que mais me ressenti foi não se mostrar com mais detalhe o processo criativo do Rei do Pop ao compor. Há vídeos de matérias jornalísticas que registram esse processo, algo absolutamente fascinante de se ver, ainda mais considerando que ele, dono de ouvido absoluto, não precisava (assim como Elis Regina e Lupicínio Rodrigues) tocar nenhum instrumento para saber exatamente o que queria em sua música. Fuqua opta por evidenciar mais o processo de criação coreográfica - o que faz com perfeição nas cenas de "Beat It" e "Thriller" -, mas dá menor relevância para a invenção musical. No máximo, situa o conceito impulsionador de determinadas canções, como coisas que ele via na TV. Como fã, saí frustrado por isso, pois esperava por mais.
Cinebiografias não são necessariamente completas, é certo. Mas quem vê, por exemplo, "O Tempo não Para", sobre Cazuza, sente falta de se mencionar ou representar Ney Matogrosso, pessoa sabidamente fundamental na vida íntima e artística do autor de "Ideologia". Contudo, não dá para alguém que conhece o objeto do filme fechar os olhos para o que (não) está vendo. Ainda mais, quando se tratam de informações importantes.
Há representatividade e "lugar de fala" na direção de Fuqua, uma vez que somente os tempos atuais deram condições a uma produção dessas ser realizada por um cineasta negro. Para ele, pessoalmente, deve ser uma realização abordar um ídolo formativo. Entendo isso. No entanto, fica por aí a reserva autoral. O final de "Michael", que deixa reticências para uma sequência, fecha a tampa dessa abordagem excessivamente comercial da obra: recorta-a até um ponto bem estipulado, mas, fatalmente, não a desfecha com o impacto que merecia. Como geralmente ocorre, o lado business compromentendo o artístico. Mas para um cineasta que esticou até a inanição uma franquia que começou legal como "O Protetor", não é de se estranhar que ainda produza tantas sequências de "Michael" quanto as de "Velozes & Furiosos". E o público do entretenimento, sem maiores distinções, vai adorar.
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Trailer de "Michael", de Antoine Fuqua
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"Michael"
Direção: Antoine Fuqua
Gênero: Drama/Biografia/Musical
Elenco: Jaafar Jackson, Nia Long, Laura Harrier, Juliano Krue Valdi, Miles Teller, Colman Domingo
Transcorrido um quarto do século 21, já é possível, enfim,
vislumbrar o que de melhor aconteceu no cinema neste período. E ao que se pode
extrair de amostra desses 25 anos, o século da informação ou da pós-verdade
ainda tem muito o que apresentar de bom. Afinal, foram 25 anos que o cinema viu
o mundo se transformar. O 11 de setembro de 2001 foi o estopim para uma série
de reconfigurações e a certeza de que não apenas o terrorismo se tornaria uma
ameaça constante às nações como trazia a mensagem de que ninguém mais estaria
seguro. Nem a razão mais está a salvo.
Reconfigurações, inclusive, econômicas. A China, então a
“ameaça comunista”, enfim pôs em prática seu modelo de Capitalismo Socialista e
se tornou a segunda potência do mundo. Além do enfraquecimento dos Estados
Unidos (que Trump quer agora reverter a qualquer custo), a Rússia também adere
de vez ao capitalismo, fortalecendo-se, porém com um ditador moderno à frente. Afora
isso, guerras na Europa e no Oriente Médio, aquecimento global, polarização
ideológica, avanço da extrema-direita, ecos do fascismo, crescimento dos
movimentos migratórios, pandemia... Ufa! O que mais deve vir por aí? Angustia até
de pensar.
Refletindo de forma direta ou não essas transformações, o
cinema segue firme com produções que pululam de diversos lugares do
mundo, seja nas Américas, África, Ásia ou na velha Europa. Mas com mudanças de
cenário. Alguns polos se fortaleceram, como a América Latina de Argentina e
Brasil. No Oriente Médio, o Irã, cada vez mais reprimido, continua mesmo assim
a resistir e fazer um cinema de alta qualidade expressiva. Mas também Líbano, Palestina,
Iraque, Israel, Arábia Saudita e outros.
A África é outro continente que despontou nestas duas décadas e meia. Embora não superem os aqui listados, é inegável que os países africanos, cujas descolonizações são ainda muito recentes, chegaram ao século 21 produzindo bastante, bem e em vários países, como Senegal, África do Sul, Mauritânia, Quênia, Uganda, Nigéria e outros. Títulos como "Black Tea" (2024), "Heremakono – Esperando a Felicidade" (2020), "Timbuktu" (2014) e "Atlantique" (2019), se não pareiam, deixam viva a esperança de ser ver na tela um cinema africano consolidado internacionalmente.
Em compensação, o cinema
soviético, tão abundante e diverso em todo o século 20, fragmentou-se assim
como o seu antigo território. E mesmo os Estados Unidos viram grandes alterações
de rota. Os estúdios enfrentem novos desafios, como o streaming, a serialização
e a “marvelização”. A dianteira da indústria cinematográfica estadunidense, até
então sem precisar olhar para o retrovisor, passa a preocupar-se com o desgaste
do imperialismo. Megaproduções como “Megalópolis” e “O Brutalista”,
definitivamente, não representam mais o que representavam antes.
Além da afirmação de alguns realizadores, como Jordan Peele,
Bong Joon-ho e o brasileiro Kléber Mendonça Filho, este começo de era confirma
a excelência daqueles que já vinham contribuindo com suas obras para a
construção dessa arte ao longo das últimas décadas – casos de Woody Allen, Clint Eastwood e Pedro Almodóvar. Assim, listamos 25 filmes representativos
desses 25 primeiros anos, de 2001 até o ano atual. Não necessariamente um por
ano, mas numericamente um símbolo que antecede os próximos 75 ainda a serem
lançados e descobertos.
Alguns perguntarão, com justiça: “e as mulheres?” Sim, elas
cada vez mais se tornam protagonistas. Justine Triet, Greta Gerwig, Sofia Coppola, Chloé Zhao, Samira Makhmalbaf, bem como as veteranas Jane Campion, Kathryn Bigelow e as que se foram recentemente Chantal Akerman e Claire Denis. Aqui,
cinco delas figuram, mas tranquilamente poderia haver mais. Imagine-se quantas
realizadoras ainda vêm por aí neste louco planeta em constante ebulição.
A relativa facilidade de se montar essa lista traz consigo
certa irresponsabilidade e aquela velha questão: a incompletude. É possível
abarcar tanta produção em apenas pouco mais de duas dezenas de títulos? Não
deveria haver (e possivelmente caiba) muito mais pesquisa e aprofundamento? Estes
são DE FATO os mais representativos, simbólicos ou melhores em qualidade
fílmica? Perguntas sem respostas. Talvez, precise-se de mais
um quarto de século ou mais para entender o que condiz ou não. Porém, num
primeiro momento, estes foram os filmes que saltaram à memória, e isso,
independente de um revisionismo ou limitantes, quer dizer, sim, alguma coisa. Se
poderiam ser outros? Poderiam, mas tais obras certamente brigariam para estarem
nesse rol. Quem sabe, os celebrados Gaspar Noé, Yorgos Lanthimos, Mati Diop ou Darren Aronofsky não pintem com aquele filmaço inquestionável ainda? Há tempo e
competência para isso.
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01.“Parasita”, Bong Joon-ho (2019)
Definitivamente, o melhor filme dos últimos anos – e do século. O thriller do talentoso Bong Joon-ho arrebatou em 2019, por puro mérito, não apenas a Palma de Ouro em Cannes como, mais ainda, os Oscar de Filme e de Filme Estrangeiro! Um feito jamais igualado. “Parasita”, afinal, tem tudo o que um grande filme moderno pode: drama social, crítica ao capitalismo, humor ácido, suspense e, por vezes, toques de terror gore. Tudo numa direção absolutamente criativa, fotografia precisa, roteiro cheio de reviravoltas e atuações brilhantes. Tem mais da metade de século 21 para acontecer, mas não vai ser fácil equiparar com esta obra-prima sul-coreana que redirecionou o olhar do mundo no cinema.
02.“A Cidade dos Sonhos”, David Lynch (2001)
Lynch nos deixou no último ano, mas legou uma obra tão marcante quanto explorável. Afinal, é dele o cinema mais misterioso já realizado em mais de 100 anos de arte cinematográfica. “A Cidade dos Sonhos” é, além de seu melhor neste século, possivelmente sua melhor realização, e olha que estamos falando de filmes como “Veludo Azul”, “Eraserhead” e “Coração Selvagem” neste páreo. Mas definitivamente a onírica e assustadora obra sobre a atriz que se muda para Los Angeles e tem sua memória e sonhos entrelaçados com a matéria da própria cidade é insuperável. Tanto que ocupa a 8ª posição no ranking de 250 filmes "The Greatest Films of All Time" da tradicional revista Sight & Sound e é considerado o melhor filme entre os 100 da BBC neste século, o qual mal começava e Lynch já dava as cartas.
03.“Corra!”, Jordan Peele (2017)
Quando Jordan Peele estreou no cinema com “Corra!” já se
sabia que ali nascia um ícone do cinema moderno. Negro, talentoso e com muita
coisa a dizer, Peele surpreendeu o mundo do cinema – e o gênero de terror – com
um filme que imediatamente foi elevado à categoria de obra-prima. Também
pudera: a história do jovem fotógrafo Chris, que descobre uma sinistra rede de
tráfico de negros para perturbadores finalidades rendeu ao diretor mais de 150
prêmios, incluindo o Oscar de Melhor Roteiro Original. “Corra!” redefine o
terror no cinema. Em tempos de George Floyd, o terror não vem de fantasmas, zumbis,
monstros ou extraterrestres. Vem de gente branca racista e supremacista.
04.“Retrato de uma Jovem em Chamas”, Céline Sciamma (2019)
Quanta delicadeza e força expressiva para contar uma história de algo que passou a ser um dos temas mais recorrentes dos tempos atuais, que é o LGBTQIAPN+, quando nem se pensava em classificar assim esses grupos. Céline Sciamma se esmera em contar a história de Marianne, uma jovem pintora francesa, no século 18, com a tarefa de pintar um retrato de Héloïse, com quem se vê cada vez mais próxima e atraída. As mesmas travas, os mesmos preconceitos, as mesmas opressões dos tempos atuais. Mas, otimistamente falando, a mesma possível liberdade de amar a quem se quiser mesmo que isso, necessariamente, gere consequências – ontem e hoje. Entre os diversos prêmios que "Retrato de Uma Jovem em Chamas" recebeu, o merecidíssimo César de Melhor Fotografia.
05.“Menina de Ouro”, Clint Eastwood (2004)
O velho Eastwood, hein? À época, com seus 74 (hoje, quase centenário), depois de produzir sempre bem e bastante e de já ter posto seu nome na história do cinema norte-americano com filmes como “Bird” e o oscarizado “Os Imperdoáveis”, vem com essa obra-prima ao mesmo tempo delicada e pesada, triste e tocante. Tanto é que arrebatou a Academia em 2004, levando 4 dos 7 Oscar que concorreu: Melhor Filme, Diretor, Atriz e Ator Coadjuvante. A habilidade do experiente Eastwood em lidar com a luz e o mergulho nas sombras, seja no sentido estético quanto figurado, é de abismar. Impossível sair de uma sessão de “Menina de Ouro” sendo a mesma pessoa que entrou.
Clintão com a oscarizada Hillary Swank em um dos melhores filmes do século
06.“O Pianista”, Roman Polanski (2002)
Daqueles filmes talhados a obra-prima. O tarimbado Polanski, cujo nome está gravado na história do cinema por filmes como “O Bebê de Rosemary”, “Chinatown” e “Cul-de-Sac”, acerta em tudo em “O Pianista”, uma obra pungente e necessária, inclusive para o próprio Polanski, judeu que perdera os pais no Holocausto. O filme venceu Palma de Ouro, Bafta e Cesar, mas o Academia do Oscar dos Estados Unidos, país onde Polanski é considerado fugitivo por um crime de estupro nos anos 70, não cedeu. Deu ao filme as estatuetas de Melhor Ator, Roteiro Adaptado e de Diretor, o qual o diretor recebeu e agradeceu via vídeo bem longe, na Europa. A de Filme, no entanto, não. A aclamação veio naturalmente.
07.“O Segredo dos Seus Olhos”, Juan José Campanella (2010)
A Argentina já vinha preparando o terreno para que o mundo a reconhecesse como uma das principais produtoras do cinema da atualidade desde os anos 80. O Oscar de Filme Estrangeiro para “A História Oficial”, sobre a ditadura no país, já anunciava isso. Porém, o amadurecimento do cinema local e a formação de cineastas e profissionais do audiovisual colocaram o cinema a América Latina em real evidência no século 21 pela primeira vez. Ah! tem mais um fator a favor de "O Segredo dos seus Olhos", que se chama Ricardo Darín. O grande ator do novo cinema argentino é a cara dessa geração não poderia estar de fora daquele que é, mesmo com outros grandes concorrentes, o melhor filme da Argentina do século até aqui. Tanto que o Oscar de Filme Estrangeiro veio de novo, inevitavelmente. Naquele 2009, não teve pra ninguém com esse thriller que junta suspense, policial, romance, comédia e o velho dedo na ferida dos argentinos com a ditadura.
08.“A Pele que Habito”, Pedro Almodóvar (2011)
Almodóvar é aquele diretor que é tão talentoso, que pode se
dar ao luxo de fazer filmes menos expressivos dentro daquele seu universo
kitsch e absurdo para, do nada, criar uma obra-prima surpreendente. “A Pele que Habito”, além de contar com velhos parceiros (Antonio Banderas, Marisa Paredes,
Jean-Paul Gaultier, Alberto Iglesias) é, sem dúvida, uma revitalização do
cinema do próprio cineasta espanhol, o filme que o reinventou (como se não
bastasse já haver se reinventado outras várias vezes anterior e
posteriormente). Espécie de “O Médico e o Monstro” com ares da bizarrice que
marca os roteiros de Almodóvar: sexo, culpa, vingança, problemas psicológicos.
Uma ressignificação de obras anteriores como “Matador”, “Ata-me” e “Carne
Trêmula”.
09.“Onde os Fracos não têm Vez”, Joel e Ethan Coen (2007)
Se nos anos 90, os Coen já haviam realizado sua obra-prima, “Fargo”, nos 2000 o seu grande filme é “Onde os Fracos não têm Vez”. Quase um aperfeiçoamento de “Fargo” em alguns aspectos, seja na trama errática, na câmera observante, na presença de personagens amorais ou na estética inospitaleira, o filme troca o branco da neve do primeiro pela aridez dos tons terrosos do deserto. E também volta a explorar a fragilidade do humanismo diante da brutalidade da sociedade. E ainda tem aquele que é um dos mais assustadores e marcantes psicopatas da história do cinema, o assassino de aluguel Anton Chigurh, vivido brilhantemente por Javier Barden. Arrebatou 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor, Roteiro Adaptado e Ator Coadjuvante, além de ganhar três BAFTA, dois Globos de Ouro, American Film Institute e o National Board of Review of Motion Pictures.
10.“Cidade de Deus”, Fernando Meirelles e Katia Lund (2007)
Talvez apenas “Ganga Bruta”, “Rio 40 Graus”, “Terra em Transe”, “Dona Flor e Seus Dois Maridos” e, agora, "Ainda Estou Aqui", se equiparem em importância a “Cidade de Deus” para o cinema nacional. Determinador de um “antes” e um “depois” na produção audiovisual não apenas brasileira. Pode-se afirmar que influenciou de Hollywood a Bollywood, ajudando a provocar uma mudança nos conceitos da indústria cinematográfica mundial. Ou se acha que "Quem quer Ser um Milionário?" existiria sem antes ter existido "Cidade..."? Fernando Meirelles, bem como alguns atores e técnicos, ganharam escala internacional a partir de então. Tudo isso por conta do extraordinário filme, autoral, pop e inovador em estética, narrativa, abordagem e técnicas. Entre seus feitos, concorreu ao Oscar não como Filme Internacional, mas como Filme e Diretor, outra porta que abriu para “Ainda Estou Aqui”.
A última frase dita no filme, na voz do célebre personagem Aldo, o Apache (Brad Pitt) é: "acho que eu fiz minha obra-prima". Está certo que Aldo se referia ao ferimento a faca que marcou na testa do igualmente histórico personagem Cel. Hans Landa (Christopher Waltz), mas é inegável que a frase é propositalmente ali posta por Quentin Tarantino por este reconhecer, sem falsa modéstia, que havia chegado, sim, à sua melhor realização. Ao menos, a mais madura e a mais bem produzida entre todos os seus nove longas. Se “Pulp Fiction” marcou uma nova era do cinema de autor nos anos 90, nos 2000 não tem igual a "Bastardos Inglórios". "Éum bingo!"... é assim que se diz na América: "um bingo"?
12.“A Fita Branca”, Michael Haneke (2009)
É difícil escolher um Haneke, esse cineasta peculiar que desde os anos 80 produz um cinema marcado pelo olhar crítico dos padrões da sociedade ocidental e o consequente declínio da moral hegeliana. Porém, “A Fita Branca”, além de seu congelante p&b e as assustadoramente reais atuações dos atores mirins, tem a incisividade de identificar o "ovo da serpente", ou seja: os impulsos que levaram às Grandes Guerras, tão definidoras de caminhos do mundo no século 20, principalmente da Europa, Cannes, que não é boba, identificou a essencialidade do filme para a cinematografia moderna dando-lhe a inconteste Palma de Ouro de 2009.
13.“Roma”, Alfonso Cuarón (2019)
Há quem o considere "Roma" o filme mais injustiçado do Oscar dos últimos tempos, visto que merecedor do de Melhor Filme Estrangeiro, que venceu, como também de Melhor Filme, dado naquele 2019 ao contestado "Green Book". A triste história da empregada Cleo na Cidade do México nos anos 70 é contada com um misto de poesia, realismo e fatalismo pelo diretor Alfonso Cuarón, que também roteiriza, produz, edita, fotografa e conduz a própria câmera num p&b capaz de reinventar memórias. E quão potente é a sutil alusão à antiga cidade italiana, berço da civilização moderna. Seria mesmo uma sociedade "civilizada"? Além do Oscar, levou Leão de Ouro em Veneza, Globo de Ouro, Bafta e Chritcs Choice.
14.“Bacurau”, Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (2019)
O pernambucano Kléber Mendonça Filho realiza, sem sombra de dúvida, o cinema mais completo do Brasil nos últimos anos. Sua filmografia de longas é só acerto. Primeiro, “O Som ao Redor”. Depois, “Aquarius”, passando por este e o documentário “Retratos Fantasmas”. “Bacurau”, no entanto, é daqueles filmes sui generis, um faroeste sertanejo sobre limpeza cultural, resistência ao imperialismo e o império da violência. Um retrato do Brasil ameaçado pelo fascismo e pela consequente americanização das mentes. Com a edição característica e as marcas da maneira de filmar de Kléber (fusões, zoons, closes x planos abertos), tem na trilha e nas atuações naturais outras de suas forças. Por imperícia da Academia Brasileira de Cinema, não foi o escolhido para concorrer pelo Brasil ao Oscar de Filme Estrangeiro, feito que somente agora “Ainda Estou Aqui” atingiu. Se tivesse ido, tinha boas chances. O próprio Bong Joon-ho, vencedor dessa categoria com “Parasita”, disse que ‘Bacurau” “tem uma energia única, traz uma força enigmática e primitiva.” É.
15.“A Vida dos Outros”, Florian Henckel von Donnersmarck (2006)
Retratos da Alemanha Oriental ainda hoje não são muito comuns no cinema. Talvez por vergonha do que acontecia de ruim do lado vermelho do Muro, talvez porque a vida fosse, de fato, muito monótona que não inspirasse filmes sobre aquela realidade. Este brilhante filme de Florian Henckel von Donnersmarck é, de certa forma, um pouco dessas duas coisas: uma mostra de que não era uma maravilha a vida sob o regime socialista alemão e que, sim, os dias não tinham muito sabor. Ao vigiar 24 horas a vida do escritor Georg Dreyman e de sua namorada a mando do governo, o militar Gerd Wiesler começa aos poucos a se dar conta da existência do amor, do companheirismo e da dor existencial de viver num país coercitivo e punidor que ele mesmo ajudava a manter. "Abaixo às ditaduras", sejam elas do lado que for. Oscar, César, British Academy e Donatello de Melhor Filme Estrangeiro, entre outros, "A Vida dos Outros" foi apontado pela revista National Review como o "O Melhor Filme dos Últimos 25 anos". Não podemos estar tão errados em elencá-lo também.
Memorável filme de von Donnersmarck reflexiona aquilo que o séc. 20 não ousou, que é a crítica à ditadura - inclusive, as de esquerda
Iñarritu apareceu para o mundo do cinema no seu México natal, mas em seguida foi absorvido pela indústria dos Estados Unidos. Entre erros e acertos, completou sua trilogia iniciada em “Amores Perros” com “21 Gramas” e “Babel”, derrapou no confuso “Biutiful” e conquistou o Oscar com o ousado “Birdman”. Mas foi na narrativa tradicional de "O Regresso", ao contar a história real de vingança do personagem Hugh Glass, num inóspito Oeste norte-americano do século 19, que o cineasta foi só acerto. Teve como aliados, bem verdade, Leonardo DiCaprio atuando e Ryuichi Sakamoto na trilha. E a cena do ataque do urso?! O que é aquilo?! Só ela, já valia.
17.“Zona de Interesse”, Jonathan Glazer (2024)
Somente a abertura do filme, com quase 1 minuto de tela preta sobre um som tenso, insistente e inconclusivo, já demostra a personalidade deste impactante filme. Difícil, aliás, encontrar alguém que não guarde o impacto que o filme lhe causou ao mostrar com crueza a comparação entre desumanidade e a normalidade da vida de uma abastada família alemã vizinha do campo de concentração de Auschwitz. “Zona de Interesse” não tem, inclusive, muito enredo. E um roteiro de poucos acontecimentos, que se presta a evidenciar sem filtros a perversidade humana. Filme que encerra a linha de títulos pós-Segunda Guerra inaugurado simbolicamente em 1947 com “Alemanha Ano Zero”, de Roberto Rosselini. O Oscar de Melhor Filme Internacional era-lhe certo, como de fato foi.
18.“Match Point”, Woody Allen (2024)
Woody Allen é como Paul McCartney ou Caetano Veloso na música: não precisa provar nada depois do que já realizou. O cineasta dos geniais “Manhattan”, “Hannah e suas Irmãs”, “Crimes e Pecados” e outros já deixou sua contribuição para a história do cinema há muito tempo. Mas ele entrou os anos 2000 produzindo. E bastante. Após um período um tanto oscilante em termos de qualidade, Allen vem com este filme surpreendente, que começa parecendo uma comédia romântica, vira um drama, passa a ser um policial, até tornar-se um suspense eletrizante. Há outros de Allen de até mais sucesso deste período, como “Vicky Cristina Barcelona”, “Para Roma com Amor” e o queridinho “Meia-Noite em Paris”, mas nenhum bate “Match Point”, um filme único em sua extensa filmografia.
19.“Melancolia”, Lars Von Trier (2011)
Lars Von Trier surgiu na Dinamarca dos anos 80 com um cinema autoral, criou e passou pelo Dogma 95 nos anos 90, chegou a Hollywood nos anos 2000 e tornou-se uma lenda viva do cinema mundial. “Melancolia”, seu 22º longa, parece arrecadar todas essas experiências, mas de uma maneira ainda assim particular. Estão nele o cinema de arte dos primeiros filmes, a câmera na mão e a montagem naturalista do Dogma e a convocação de grandes astros (Kirsten Dunst, Kiefer Sutherland, Charlotte Gainsbourg). Mas mais do que isso: "Melancolia" tem uma narrativa absolutamente instigante em uma ficção científica que faz uma metáfora da insustentabilidade dos cansados padrões sociais. O que isso resulta? Em catástrofe. Questionamentos urgentes que os novos tempos de pós-verdade exigem.
20.“O Pântano”, Lucrecia Martel (2001)
O cinema argentino conta com vários outros cineastas talentosos. Porém, nenhum deles possui um estilo tão pessoal como o de Lucrécia Martel. Dona de um cinema de linhagem moderna carregado e perspicaz, ela vale-se da dificultação do olhar e da fragmentação narrativa para expressar sentimentos e angústias da sociedade contemporânea, adentrando nas profundezas de seus personagens. Exímio em expressar esse universo, “O Pântano” fala sobre duas famílias que, em meio a um verão infernal na cidade de La Cienaga, entram em conflito. Texturas, sensorialidades e densidade se homogeinizam para expor tensões interpessoais, que se encaminham fatalmente para o pior. Uma reflexão visceral sobre classe, natureza, sexualidade e política, e uma das mais aclamadas estreias de realização contemporâneas. Prémio para Melhor Primeira Obra no Festival de Cinema de Berlim.
21.“Holy Spider”, Ali Abbasi (2022)
Asghar Farhadi, Jafar Panahi, Mohammad Rasoulof, Nafiseh
Zare e Peivand Eghtesadi são todos realizadores iranianos com grandes obras e que
mantêm o alto nível do cinema deste complicado país islâmico. Outro cineasta,
Ali Abbasi, no entanto, foi quem produziu aquele que pode ser considerado o
mais impressionante filme desta safra do século 21 no Irã. "Holy Spider" acompanha a aterrorizante história real do serial killer mais temido do Irã,
"Spider Killer", que atuou entre os anos de 2000 e 2001, vitimando 16
prostitutas em nome de uma jornada "espiritual" de limpar a cidade da
corrupção e imoralidade. Este thriller policial desvela uma série de padrões
sociais muito arraigados na sociedade islâmica com os quais a jornalista Arezoo
Rahimi precisa se deparar. O anseio pela mudança da condição da mulher vem
novamente à tona como em diversos outros filmes iranianos. Porém, parece que
algo está evoluindo – mesmo que ainda seja mais vontade que realidade.
22.“Encontros e Desencontros”, Sofia Coppola (2003)
Pode-se contar nos dedos os cineastas que, de largada, fizeram seu melhor filme. Nem Renoir, nem Pasolini, nem Ophuls, nem Wilder, nem Kubrick. Nem mesmo Francis Ford Coppola, pai de Sofia que, esta sim, conseguiu tal feito. “Encontros e Desencontros”, o apaixonante e originalíssimo romance passado numa Tóquio tão populosa quanto inóspita, é um marco do cinema feminino neste século. Referências a Ozu, a Tati, a Tarkowsky, a Wenders. Mas, principalmente, a própria Sofia, que formula um cinema com a sua cara: profundo, plástico e autoral. Um dos grandes vencedores do Globo de Ouro daquele ano, ganhou como Melhor Filme em Comédia ou Musical, Ator em Comédia ou Musical (Bill Murray) e Roteiro, categoria na qual foi também premiado no Oscar. Que debut!
23.“Drive my Car”, Ryūsuke Hamaguchi (2021)
Contar bem uma história é a essência do cinema. Agora, contar bem uma história longa e cheia de detalhes e encadeamentos sem perder a fruição é digno de aplauso. É o que o cineasta Ryūsuke Hamaguchi fez ao adaptar para a tela o conto do renomado escritor japonês Haruki Murakami. Em suma, embora todos os minutos das praticamente 3 horas de duração de "Drive my Car" sejam totalmente aproveitáveis, o filme nada mais é do que a narração da história de duas pessoas solitárias que encontram coragem para enfrentar o seu passado. Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, não teve pra outros em 2022. O Japão, aliás, sempre tão essencial para o cinema, segue rendendo bons frutos. Filmes como “Assunto de Família”, “Pais e Filhos” e “Monster” bem podiam estar aqui também.
24.“O Cavalo de Turim”, Béla Tarr e Ágnes Hranitzky (2011)
O velho fazendeiro Ohlsdorfer e sua filha dividem um cotidiano dominado pela monotonia. A realidade dos dois é observada pela vista da janela e as mudanças são raras. Enquanto isso, o cavalo da família se recusa a comer e a andar. O filme é uma recriação do que teria ocorrido com o animal após ter sido salvo da tortura pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche durante uma viagem a Turim, na Itália. Este "épico do nada" foi o canto-do-cisne do aclamado diretor húngaro Béla Tarr, que disse que o filme aborda “o peso da existência humana”. Takes longos, poucos diálogos, trilha econômica e plasticidade carregada e altamente poética, marcas que Tarr dividiu a direção em sua última obra com a esposa e constate colaboradora Ágnes Hranitzky. Prêmio FIPRESCI e do Grande Júri em Berlim.
25.“Ainda Estou Aqui”, Walter Salles Jr. (2024)
Muito se falou nos últimos meses do filme que, enfim, conquistou o tão
almejado Oscar para o Brasil. Somente por isso, o longa de Walter Salles já
garantiria seu posto entre os mais importantes deste quarto de
século 21 ao recolocar a América do Sul no mapa mundial da indústria do cinema.
Porém, "Ainda Estou Aqui" é mais do que somente sua simbologia. De um roteiro cirúrgico e
atuações marcantes, principalmente da oscarizável Fernanda Torres, tem
o poder de tocar o espectador e de saber contar com sensibilidade uma história
real e tão universal, que trata, antes de tudo, sobre liberdade. Além do Oscar e do Globo de
Ouro para Fernandinha, vários prêmios de fina estirpe assinalam isso, como Veneza, Goya e Miami.
E fechamos com Fernandinha, que fez história no cinema brasileiro (e latino-americano) neste final de primeiro quarto de século 21
PS: Mesmo não incluídos na lista acima, merecem “menção honrosa” estes outros 25, pois são todos excelentes filmes, que bem podiam estar ali: