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sexta-feira, 7 de junho de 2013

Creedence Clearwater Revival - "Cosmo's Factory" (1970)


ANDRÉ : É...é uma pesquisa sobre o tipo de música
que as pessoas preferem.
Será que o senhor podia me responder algumas perguntas?

GORDO: Tu quer saber o tipo de música que eu prefiro? Rock.

ANDRÉ: Rock. Tem alguma banda preferida?

GORDO: Creedence.
diálogo do filme 
"O Homem que Copiava"



Não sei se alguém lembra, mas nos anos 90 o Guarani de Campinas tinha um jogador chamado Creedence Clearwater. Não jogava nada. Centroavante daqueles grandalhões, plantados, estáticos. Me chamava a atenção um pai chegar ao ponto de batizar o filho com o nome de uma banda de rock. Tem que gostar muito. Tem que ser muito boa a banda.

Na época eu não conhecia o grupo, mas sempre tive curiosidade de ouvi-los. Conheci, efetivamente, tarde, apenas quando vi o filme “O Homem que Copiava”, no qual em uma cena, ao som de um rock'n roll empolgante, o protagonista André, numa locadora de vídeo, pergunta para um cliente de fones de ouvido, um gordo que via com frequência por ali, qual seria sua banda favorita, ao que o homem desconfiado pela abordagem estranha, responde “Creedence”, quando então revela-se para o espectador que a música de fundo da cena era na verdade a que o cliente ouvia nos seus headfones, seguindo-se a partir dali  uma emocionante cena de assalto e perseguição.

Acho que ali foi definitivo para eu curtir Creedence. Nesse meio tempo, entre o filme e os dias atuais, conheci mais algumas coisas, descobri que já tinha ouvido em outros comerciais de TV, que algumas coisas que eu conhecia eram deles e eu sequer sabia, e assim fui gostando cada vez mais. Passei a querer muito ter algum disco dos caras mas encontrava coisas caras, passava alguma prioridade na frente, ou mesmo, não sabia exatamente o que adquirir. Foi por intermédio do meu Sagrado Livro "1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer" que eu tive a dica do álbum “Cosmo's Factory”, que entre algumas outras da banda ali destacados, me pareceu o mais interessante pela descrição da resenha e pelo fato de ter a tal música do filme. O curioso é que nunca o encontrava. Me deparava com outros da banda mas nunca com este que estava decidido a comprar. Mas eis que há pouco tempo topei com ele por aí e não hesitei. Finalmente tinha o meu Creedence!

“Cosmo's Factory” abre com a interessantíssima “Ramble Tamble”, uma canção que começa enérgica, num ritmo alucinante, para depois mergulhar numa viagem psicodélica, algo meio progressivo, com um belíssimo, longo e arrastado solo de guitarra de interlúdio, para no final ganhar ritmo novamente e encerrar em grande estilo. “Before You Accuse Me”, que a segue, é uma versão mais encorpada do clássico de Bo Diddley, embora não consiga por essa consistência superar a original. A dobradinha na sequência é pra quebrar tudo: “Travelin' Band”, a tal música do filme, e “Ooby Dooby”, que a segue, são duas pedradas enlouquecidas, bombásticas! Rock'n roll de primeira! Dois petardos frenéticos de fazer o cidadão sair dançando esteja onde estiver.

“Lookin' Out My Backdoor” e “Up Around the Bend” salientam mais o sotaque caipira característico da banda e presente na maioria das músicas; “Run Though the Jungle” é forte e intensa com destaque para o baixão poderoso e imponente; e “Who'll Stop the Rain”, um dos maiores sucessos da banda é uma canção folk-rock com um certo apelo pacifista, muito comum àquele início dos anos 70.

Imortalizada na voz de Marvin Gaye, “I Heard It Through the Grapevine” ganha uma versão extensa com ares grandiosos, numa execução impetuosa, cheia de energia, com bateria alta e vocal rasgado em determinados momentos, nesta que é uma das grandes músicas do álbum que poderia tranquilamente encerrá-lo tal a sua monumentalidade, mas que ainda tem adiante “Long As I Can See the Light”, uma soul-music chorosa e melancólica que, aí sim, o encerra, diga-se de passagem muito dignamente, cumprindo perfeitamente o papel de faixa final de um grande disco.

Agora entendo porque Creedence é a banda preferida do carinha do filme, na locadora. Agora entendo porque é a banda preferida de tanta gente e é essa verdadeira lenda do rock. Agora entendo porque um pai chega a ponto de pôr num filho o nome de uma banda... Não...Não. Na verdade, aí eu já acho um pouquinho demais. É muito bom, mas não é pra tanto. Menos, menos...

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FAIXAS:
  1. Ramble Tamble
  2. Before You Accuse Me
  3. Travelin' Band
  4. Ooby Dooby
  5. Lookin' Out My Back Door
  6. Run Through the Jungle
  7. Up Around the Bend
  8. My Baby Left Me
  9. Who'll Stop the Rain
  10. I Heard It Through the Grapevine
  11. Long as I Can See the Light
A edição de aniversário de 40 anos do álbum, em CD, traz ainda três faixas extra:
12. Travelin' Band (demo tape)
13. Up Aropund the Bend (ao vivo)
14. Born on the Bayou

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cena do assalto - "O Homem que Copiava"

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Ouvir:


quinta-feira, 6 de junho de 2013

Em Algum Lugar do Futuro...








trabalho da disciplina de Desenho III para a faculdade de arquitetura
lápis aquarelado sobre sulfite 29,7x21cm (1998)

cotidianas #228 - O Piadista


Niltinho sempre se dava bem com as mulheres.
Era impressionante.
Não que fosse um absurdo, Niltinho não era uma cara que pudesse se dizer, assim, monstruoso, horrível ou algo do tipo. Não. Mas era impressionante tamanho sucesso e eficácia.
E não tinha mulher difícil. Não tinha conquista impossível. O Niltinho mirava, atacava e era certeiro. Invariavelmente ganhava.
Mesmo quando estava com um de nós, os rapazes da turma por perto, fazia questão de ir sozinho até a mulher. Se dirigia à vítima, falava alguma coisa, despertava o interesse e logo o que se se via a pantera jogar o pescoço para trás e desandar numa risada gostosa. Sempre acontecia. Sempre riam. O que ele falava? Alguma piada, por acaso? Vá lá se saber. Nunca deixou que nenhum de nós o acompanhasse quando ia abordar uma presa. Mas independente do que falava, de como falava, de como abordava, era infalível. Voltava ele, no mínimo, com um número de telefone anotado num guardanapo.
Chegamos a perguntar para uma conhecida nossa, garota do bairro, que crescera junto com a gente, se tornara um mulherão e que, claro, já havia ficado com o Niltinho, o que viam naquele cara. A resposta dela foi simplesmente:
- Ah, sei lá. Acho que ele me faz rir.
Certa vez, na balada, eu que não tinha o mesmo sucesso do meu amigo pegador mas também tinha meus momentos, saí da festa com uma bela mulher morena, bastante apreciável, mas nada comparável à amiga dela, que ficou com o Niltinho, e que era simplesmente de fechar o comércio. Acabamos no apartamento que as duas dividiam e tendo as coisas ficado quentes para ambos os casais, fiquei na sala com a bela morena e o Niltinho foi com a de cabelo castanho para o quarto.
A morena foi simplesmente espetacular... Mas isso apenas durante o pequeno período que conseguimos nos concentrar no que fazíamos, pois uns 10 minutos depois do Niltinho ter entrado no quarto com a outra garota, risadas ensandecidas e incontidas irromperam do quarto.
Incessantes.
Incontroláveis.
Só parava para tomar fôlego, para respirar, mas logo voltava mais aguda e mais forte ainda.
Eu e a morena paramos o que estávamos fazendo, nos olhamos interrogativamente e voltamos nossos olhos para a porta do quarto como se pretendêssemos ter uma visão de raio-X e entender o que estava acontecendo lá dentro. Não conseguimos mais fazer nada aquela noite. As risadas eram o que se poderia chamar de selvagens.
Pela manhã, me recompondo no sofá, enquanto a garota dormia, vi sair do quarto a bela parceira do meu amigo, só de calcinha e cobrindo os seios com o antebraço.
- Ai, desculpa. Não sabia que você tava aí ainda - disse levemente encabulada.
- Desculpa você - disse calçando os sapatos - eu ainda aqui na sua sala.
- Que nada - fez ela já despreocupada com minha presença e com seus trajes menores.
Ia se dirigir ao banheiro quando me ocorreu um comentário que poderia ser muito esclarecedor no caso do Niltinho:
- O meu amigo deve ser muito bom de contar piada, não? Dava pra ouvir daqui sua risada.
- Piada? - fez ela arregalando os olhos - Aquilo foi muito SÉÉÉRIO! - completou com um ar grave entrando finalmente no banheiro.
Ainda pude ouvir lá de dentro um:
- Nossa...
Aí sim, fiquei embasbacado e mais intrigado que nunca.
O que me restava era acordar o meu amigo e ir embora dali.
No caminho, no carro ainda perguntei para ele, o que havia acontecido. Ele se limitou a responder que ela havia gostado dele.
Ótimo. Muito esclarecedor.
No chopp do dia seguinte contei para o resto da turma do episódio. Ficaram loucos! Qual era o segredo? Como podia? Chegou o Niltinho na roda e o colocamos contra a parede, pressionamos. Nada. Só aquela tranquilidade: "Eu falo o que elas querem ouvir". Não bastava. Cercamos por todos os lados mas era como se não houvesse mistério no que fazia. Simplesmente chegava e fazia.
Nisso, entre um choppinho e outro, avistamos uma loira fenomenal numa mesa próxima à nossa, no bar. O que eu posso dizer é que às vezes Deus nos sai com alguma coisa realmente absurda e aquela era uma delas. Resolvemos desafiar o Niltinho. Àquelas alturas já nem era mais pelo segredo, pelo mistério, não era um teste, uma vez que tínhamos praticamente convicção de que ele conseguiria facilmente, era mais pela confirmação, pelo evento, pelo acontecimento em si:
- Niltinho, quero ver tu conquistar aquela lá. Não, aquilo já nem é mais mulher. eu nem sei dizer o que é tudo aquilo mas aquilo não pode ser um ser humano.
- Deixa a moça lá. Vamos continuar nosso papo aqui. - dizia ele fingindo contrariado.
- Tu tá arregando? Será quer tu não pode com essa?
- Deixa pra lá.
- Ah, tá com medo! - zombaram os outros para encorajá-lo.
- Não, não é... Tá bom, tá bom, eu vou lá. O que que 'cês querem, que eu dê um beijo, que eu traga um telefone, que eu traga ela pra sentar aqui?
- Ah, qualquer coisa. Vai lá, vai lá - insistimos já nem nos preocupando alguma prova da conquista, pois sabíamos que o Niltinho não era de se vangloriar à toa. Se ele dissesse que tinha marcado um motel, a gente acreditaria.
Levantou-se, dirigiu-se à mesa onde a deusa estava com outra amiga e falou dirigindo o olhar para a loira:
- Oi, meu nome é Nilton, tudo bem?
A loira apenas assentiu.
- Posso sentar?
A loira fez cara de indiferente.
- Posso te perguntar uma coisa? - lançou ele - Tu conheces aquela do papagaio?




Cly Reis

terça-feira, 4 de junho de 2013

Jamelão - "Jamelão Interpreta Lupicínio Rodrigues" (1972)





“Eu não sou músico, não sou compositor,
não sou cantor, não sou nada.
Eu sou é boêmio.”
Lupicínio Rodrigues


Há quem ironize que Lupicínio Rodrigues era, como cantor, um grande compositor. O célebre músico gaúcho é, inegavelmente, um dos maiores nomes da história da música brasileira, precursor do chamado samba-canção, antes mesmo de contemporâneos seus como Cartola, Herivelto Martins e Nelson Cavaquinho. É reconhecido nacionalmente – mesmo nunca tendo saído da (até hoje) nada promissora mercadologicamente terra-natal Porto Alegre – e já foi gravado por centenas de intérpretes das mais distintas gerações e vertentes, que vão de Orlando Silva a Elis Regina, de Ângela Maria a João Gilbertode Isaura Garcia a Caetano Velosode Nelson Gonçalves a Arrigo Barnabé. Mas era comum acharem que Lupi não servia para cantar. A voz miúda, a la Mário Reis, dolorida como suas letras, não tinha, principalmente naquele longínquos anos 30, quando surgiu para a música, nada a ver com o, este sim, apreciado vozeirão dos cantores impecáveis e técnicos da Rádio Nacional, a “Globo” da época, primeira era Vargas.

Há controvérsias. Tanto que o histórico “Roteiro de um Boêmio”, álbum com quatro discos de 78 rpm gravado em 1952 por Lupicínio com seu vocal original, daquele jeito mesmo, cool e sutil, é considerado por fãs como o definitivo registro do autor de “Se Acaso Você Chegasse”. Mas o jornalista e compositor Hamilton Chaves, mesmo tentando dar uma força ao amigo, mandou-lhe ver na veracidade: “Tu não é cantor, rapaz. Põe na tua cabeça! Neste país subdesenvolvido, cantor é quem tem voz operística”. O próprio Lupi sabia que estava longe de um Caruso. Considerava-se, antes de tudo, um boêmio – o que, de fato, era acima de qualquer coisa. As paixões, os remorsos, as angústias, as brigas, as bebedeiras, as traições, as desilusões, enfim, tudo o que há de mais intenso e sentimental vivido por ele de bar em bar pelas ruas da cidade servia de substrato para o universo de suas composições. Misto de Lord Byron com Nelson Rodrigues, este dândi do subúrbio compôs, fosse sozinho ou com parceiros de copo e canção (como Alcides Gonçalves, Felisberto Martins e David Nasser), obras-primas do chamado samba “dor-de-cotovelo”, uma magnífica metonímia inventada por ele próprio para classificar seu estilo mais característico.

Porém, como dizia outro célebre sambista, Ataulfo Alves, “a maldade desta gente é uma arte”, e a desconfiança com sua autointerpretação sempre pairou, ainda mais por quem, a estas alturas, já tinha sido imortalizado na voz de Francisco Alves, Cyro Monteiro e uma penca de cantores “oficiais”.

Até que surge alguém para dar ponto final à discussão. Amigo pessoal de Lupicínio desde quando, excursionando pelo Rio Grande do Sul nos anos 50, o conheceu, o ilustre Jamelão se encantou com a obra de Lupi e passou a incluir suas músicas em seu repertório tanto de shows como em discos. Autointitula-se, então, sem o menor zelo, como seu principal intérprete. E tinha razão. Nem a impostação excessiva, nem o minimalismo asséptico, mas, sim, um canto possante com toques da malandragem do morro. A lapidação disso está em “Jamelão Interpreta Lupicínio Rodrigues” (Continental, 1972), que traz 12 joias representativas do tesouro que é a obra deste autor, desde as primeiras canções “Meu Pecado” e “Sozinha”, os sucessos radiofônicos “Exemplo” e “Vingança” até clássicos absolutos, como “Nervos de Aço” – aqui, bonita num compasso mais ligeiro que o normal.

Carrancudo e de personalidade forte, Jamelão, antes de tornar-se marca registrada do Carnaval do Rio de Janeiro como o maior puxador de sambas-enredo pela escola Mangueira, desde os anos 60, já era conhecido nas gafieiras como crooner por sua voz encorpada tomada de intensidade e sentimento. E o cancioneiro de Lupicínio fecha totalmente com isso. Acompanhado da excepcional Orquestra Tabajara, uma big-band ao estilo dos grandes grupos de jazz norte-americanos, Jamelão dá um verdadeiro show. Os arranjos, notados com perfeição pelo maestro Severino Araújo, também caem como uma luva, o que não é de se estranhar, uma vez que a melodia lupiciniana, marcadamente escrita em tom menor, carrega com bastante originalidade o arrebatamento sensual do tango e a breguice cult do bolero - além, é claro, da malemolência do samba carioca. Jamelão, por sua vez, solta o gogó a serviço da obra do amigo, um constante flerte entre o vulgar e o sofisticado, entre o coloquialismo e a alta literatura, entre a ironia e o drama. As versões incluídas neste trabalho ganham, assim, a força interpretativa do cantor e o apuro das harmonias, achando a roupagem certa que a música do mulatinho merece.

“Vingança”, de abertura pontuada no naipe de sopros, é notável. “O remorso talvez seja a causa/ Do seu desespero/ Ela deve estar bem consciente/ Do que praticou/ Me fazer passar tanta vergonha/ Com um companheiro/ E a vergonha/ É a herança maior que meu pai me deixou”. Versos de um gênio. A interpretação, que parece sair do âmago de Jamelão, é intensificada pela orquestração, que intercala o andamento suave do piano com os arroubos emocionados da orquestra. “Ela disse-me assim”, a respeito da culpa torturante de um homem pego com as calças na mão pelo marido da amante com ela, é outro destaque do disco: cadenciada, sentida, quase chorosa.

Mais uma história tragicômica é contada em “Um favor”, em que um pobre-diabo pede a quem lhe possa ajudar a encontrar a amada que lhe deu um pé na bunda (“Faça esse mundo acordar/ Para que onde ela esteja/ Saiba que alguém rasteja/ Pedindo pra ela voltar”). O arranjo é especial, principalmente na “deixa” metalinguística da letra ao clamar que músicos e seus instrumentos auxiliem neste chamado desesperado. Claro que a “flauta o trombone e clarim” atenderam. E assim segue em todas as faixas, repletas de dor, angústia e amores não correspondidos como é típico na música de Lupicínio Rodrigues. E Lupicínio Rodrigues cantado por Jamelão, aí mesmo que fica insuperável.

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FAIXAS:

1. Meu recado (Felisberto Martins/ Lupicínio Rodrigues)
2. Homenagem
3. Sozinha
4. Um favor
5. Exemplo
6. Quem há de dizer (Alcides Gonçalves/Lupicínio)
7. Cigano (Martins/Lupicínio)
8. Amigo ciúme (Onofre Pontes/Lupicínio)
9. Torre de babel
10. Nervos de aço
11. Ela disse-me assim
12. Vingança

todas de Lupicínio Rodrigues, exceto indicadas

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Ouça:




segunda-feira, 3 de junho de 2013

cotidianas #227 - Interferência


Desde que comprara aquele walkie-talkie para o filho a atividade mais comum entre os dois naquela casa era pai num quarto e o menino em outro brincando de bombeiro, de detetive, de polícia ou qualquer coisa que minimamente sugerisse comunicação por rádio. Não era de grande alcance, era bem fraco o sinal do brinquedo, mas entre um cômodo e outro da casa, até que dava conta.
- Gavião para Falcão-Vermelho, Gavião para Falcão-Vermelho, responda... Tshhhc
- Falcão-Vermelho na escuta... tshhhc - respondia o garoto - ... pode falar... tshhhc
- Gavião em posição para ataque. Alvo na mira... tshhhc
E era aquilo o dia inteiro quando o pai-coruja, aquela verdadeira criança grande podia estar em casa e brincar com o guri que recém tinha completado seus 4 anos.
O único inconveniente do brinquedo, além das ralhações da esposa dizendo que o marido não crescia, que não tivera infância e tudo mais, eram as interferências. Volta e meia, no meio da brincadeira, entre uma chamada do Falcão-Vermelho para o Gavião, surgia a voz de alguém no interfone do prédio, o locutor da TV ou algum pedaço de chamada telefônica. No início o pai se incomodou um pouco com o fato, mas depois, sendo um brinquedo, já não dava mais bola para aquilo. Era só ignorar.
Tinha de tudo: pedido de pizza, namorados apaixonados, reclamação de telefonia e até brigas de casal. Certa vez, uma dessas rusgas, em particular, lhe chamou a atenção pela agressividade. "Se eu souber que tu tá com aquele cara eu te mato...tshhhc" ouviu do outro lado da linha atrapalhando o chamado da ambulância do filho. "Nossa!", pensou. Mas não deu muita bola como de costume. "Esse pessoal vive brigando. "Marido ciumento é fogo", ainda falou sozinho antes de ir para a cozinha imitando o barulho da sirene da ambulância, enlouquecendo a esposa.
Mas certa tarde, brincando novamente com o menino, voltou a ouvir, provavelmente, a mesma voz ameaçadora. Devia ser uma nova briga do mesmo casal.
Entrecortada, picotada entre falhas, chiados e atrapalhada pelos apelos do filho para continuar brincando, podia ouvir:
- ... Eu não te disse... tshhhc... com ele?... tsssshhhc. Eu não...tschhhc...?
- Pai, vamo brincá?
- Espera, filho, espera um pouco.
- ... não te amo mais... tshhhc... tschhhhc... é que é homem  de verdade! Eu vou morar com e...tshhhhc - respondia zombeteira uma voz de mulher.
- Paiêêê.
- Espera, deixa o pai ouvir - impaciente para o filho
- Uéééé - e saiu a criança abrindo o berreiro pela casa afora.
- ...te disse, eu te disse... tshhhhc... te matar... tssshhc... encher de bala.
E não ouviu mais nada. O homem havia desligado.
Que coisa. Que violência!
Será que faria o que tinha prometido?
Que nada! Esses cornos são assim mesmo. Prometem fazer mas vão pro bar encher a cara. Deixa isso pra lá.
Percebendo que tinha ignorado o filho por alguns instantes, tratou de chamá-lo, consolá-lo e voltar à brincadeira.
- Tango/1, qual sua posição. Responda, Tango/1...tshhhc.
Ao que o garoto voltou animado com seu walkie-talkie em punho respondendo a localização do Tango/1.
No dia seguinte, ao abrir o jornal deu com a notícia, "MULHER É MORTA A TIROS NA CAPITAL".
Teria sido?
Não, não podia ser.
Tinha ouvido tudo, sabia quem tinha cometido o crime mas não podia ajudar em nada. E além do mais, como é que ia dizer à polícia que tinha ouvido tudo por causa de uma interferência em um walkie-talkie de brinquedo? Mas nem sequer tinha certeza de que era a mesma mulher, de que o homem resolvera cumprir a ameaça, de que tinha usado arma de fogo...
Não, provavelmente não era o mesmo crime.
Melhor voltar a brincar com guri e esquecer essa bobagem toda:
- Viatura 344, viatura 344... tshhhc... Verificar ocorrência... tshhhc... Mulher baleada, ex-marido suspeito. Câmbio... tshhhhc
- Indo para o local, ... tshhhc... Câmbio.
- ...eu queria fazer um pedido: é uma pizza grande quatro queijos.
- ...Tssshhhhhhhhc...



Cly Reis

Corrosion









fotos: Cly Reis

O Frango Atirador


sábado, 1 de junho de 2013

Gilberto Gil e Jorge Ben - "Gil & Jorge / Ogum-Xangô" (1975)



Acima, a capa original de 1975,
abaixo a do relançamento em 1991
"Para mim não dá mais"
Eric Clapton,
desistindo do ritmo da jam session
que teria originado a gravação do disco



Seria de se admirar, talvez, se se dissesse para algum desavisado que apenas numa descontraída e despretensiosa jam entre dois amigos, madrugada adentro num estúdio tenha surgido um dos grandes álbuns da discografia nacional. Seria de se espantar, sim, até saber-se que estes dois personagens são nada mais nada menos que Gilberto Gil e Jorge Ben, e que encontravam-se, ambos, no auge de suas formas artísticas e criativas.
Em "Gil e Jorge - Ogum/Xangô", de 1975, trabalho frequentemente apontado por muitos como o maior disco nacional de todos os tempos, os protagonistas apenas com seus violões, acompanhados somente por dois músicos de apoio, dão um show de musicalidade, inventividade, criatividade e técnica em sessões musicais totalmente livres, alegre e espontâneas.
Canções já gravadas, como "Nêga", de Gil ganha uma energia toda nova com o violão singular e as improvisações vocais de Jorge Ben apoiando a interpretação cheia de sensualidade de Gil. "Essa é pra Tocar no Rádio", também de Gilberto Gil,tem um embalo e uma vibração contagiante, diferente da levada jazz acelerada da versão que apareceria posteriormente em "Refazenda". Das já conhecidas até então de Jorge Ben, "Morre o Burro Fica o Homem" fica mais descontraída que a original; "Quem Mandou (Pé na Estrada)", conhecida na versão de Wilson Simonal tem performance vocal destacada de Gil dando suporte à voz principal do parceiro; e "Taj Mahal", clássico de Jorge, por sua vez ganha uma versão quilométrica na qual os dois se soltam e estraçalham os itens, âmbitos, critérios e possibilidades.
"Jurubeba" é um show de improvisações e de genialidade dos dois, desde a técnica dos violões, às brincadeiras vocais de Gil, às palhaçadas do Babulina imitando um anúncio publicitário da planta.
Como é comum em grandes discos, a abertura e o final são de tirar o fôlego: "Meu Glorioso São Cristóvão" a primeira do disco é uma louvação lenta e arrastada, entoada verdadeiramente como uma oração, de maneira  emocionante por Jorge Ben; e "Filhos de Gandhi", na verdade a penúltima faixa, um longo ponto de afoxé, uma evocação aos orixás, cadenciada, imitando a levada de um berimbau, dessa vez com interpretação espetacular de Gilberto Gil, numa faixa que quanto mais vai-se desenvolvendo mais vai crescendo até se transformar num épico monumental com um final grandioso. Depois dela ainda aparece a faixa "Sarro", vinheta curta que apesar de todo o valor musical da improvisação jazzística do baixo e vocal de Gil, serve mesmo para recuperar o fôlego depois da espetacular faixa anterior e dizer adeus em grande estilo.
Sim, amigos, de uma simples sessão musical com dois violões, muitas brincadeiras, improvisações e 'alguns estímulos'..., é claro, nascia um dos maiores discos da MPB. Dizem que tudo teria se originado, noites antes, numa festa da gravadora, na qual teria estado nada mais nada menos que Eric Clapton, que impressionado com o que aqueles dois rapazes faziam ali, tocando livremente, inventando, interagindo, teria-se aventurado a tocar com as duas figuras, mas após uma longa bateria, teria 'pedido água' tal a intensidade, grau improvisação e duração da sessão dos dois brasileiros. O resultado da brincadeira teria impressionado tanto o pessoal da gravadora que estes teriam mandado Gilberto Gil e Jorge Ben imediatamente para o estúdio para reproduzir o mais fielmente possível, mas com o máximo de espontaneidade, o que protagonizaram informalmente noites antes.
Não sei se é verdade. Parece que sim.
De todo modo, independente da lenda, trata-se de um do ponto alto das carreiras de dois dos grandes artistas da música brasileira e que juntos produziram uma obra à altura de suas importâncias e expressividades. Álbum espetacular, básico, indispensável, fundamental.

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FAIXAS:
1. Meu glorioso São Cristóvão (Jorge Ben)
2. Nêga (Gilberto Gil)
3. Jurubeba (Gilberto Gil)
4. Quem mandou [Pé na estrada] (Jorge Ben)
5. Taj mahal (Jorge Ben)
6. Morre o burro, fica o homem (Jorge Ben)
7. Essa é pra tocar no rádio (Gilberto Gil)
8. Filhos de Gandhi (Gilberto Gil)
9. Sarro (Jorge Ben - Gilberto Gil)


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Ouça:
Gil e Jorge Ogum-Xangô

quinta-feira, 30 de maio de 2013

cotidianas #226 - Baque Virado





Nossa Senhora,
Seu moço!
Qué qui se assucedeu
Cá’quele nêgo?
Pleno cortejo
do Nazaré da Mata
qui’u hôme
me inventa de, no meio da embolada
Morrer de embolia.

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Baque Virado
(da série “Maracatus e Arrebóis”)

Coração da Máquina















"Coração da Máquina"
Reis, Cly

terça-feira, 28 de maio de 2013

Wayne Shorter - "Night Dreamer" (1963)



“Este disco é um marco para mim,
pois veio em um momento em que eu
 estava entrando em uma nova fase como autor.
E também eu sabia que
 em meu primeiro álbum para a Blue Note
eu teria que dizer algo substancial.”
Wayne Shorter,
no texto do encarte original


São inúmeros os discípulos de Miles Davis no universo do jazz. A lista vai de mestres geniais como Chick Corea, Herbie Hancock, Sonny Rollins, John McLaughlin e John Coltrane – para mim, o maior deles. Mas talvez o mais fiel aluno tenha sido outro genial jazzista: o saxofonista Wayne Shorter, lenda viva da música mundial. De estilo arrojado tanto nos improvisos quanto nas harmonias, Shorter começou na cena em 1959 na banda bebop de Art Blakey, a The Jazz Messengers, pela qual não só ajudou a gravar álbuns memoráveis, como, hábil e líder, tornou-se logo o diretor musical do grupo. Além disso, como todos da sua geração, foi fortemente influenciado pelo jazz em escalas do “divisor de águas” "Kind of Blue", de Miles (1959), passando, tempo depois, a formar o aclamado “segundo grande quinteto” do mestre, juntamente com Hancock, Ron Carter e Tony Williams. Tudo isso deu embasamento para Shorter, valendo-se de todas estas referências, gravar, em 1963, seu grande trabalho: o encantador “Night Dreamer”, onde se nota um compositor maduro e criativo, além de um instrumentista virtuoso.

Depois de três LP’s pelo selo Vee-Jay, onde ainda se percebe um artista em busca de identidade própria, “Night Dreamer”, seu primeiro pela mais cultuada gravadora do jazz, a Blue Note, é o acerto da medida: cool, sofisticado, intenso, coeso. Tudo favorecendo: a técnica de estúdio Rudy Van Gelder, a produção caprichada de Alfred Lion e esplêndida arte, na foto borrada de Francis Wolff e o design de Reid Miles. Campo preparado para um disco impecável. Como o título sugere, começa numa atmosfera de sonho com a arrebatadora faixa-título, em que o piano de McCoy Tyner anuncia, em acordes ondulantes e oníricos, a beleza da melodia modal que se forma a seguir com o restante da banda (e que banda!): Lee Morgan (trompete), Reggie Workman (baixo) e Elvin Jones (bateria). O chorus, sobre o andamento cadenciado e bluesy de Jones e dos dois tempos de quatro do piano, desenha um riff pegajoso que, entre leves ascendências e declives, surpreende pelas dissonâncias sem, contudo, se afastar do coração do ouvinte. Espiral como um sonho, volta, no fim da série, para o acorde inicial. A mesma ideia circular serve de concepção para os improvisos, momento em que Shorter dá um verdadeiro show de tempos, variações e groove. Há claras inspirações no fraseado econômico e certeiro de Miles, inclusive na repetição da famosa frase de trompete que antecede o solo histórico de Coltrane em "Freddie Freeloader", do “Kind of Blue”, que Morgan pronuncia rapidamente mas com exatidão, numa visível homenagem. No final, ao invés de toda a banda tencionar para cair junta, o mais comum à época, Shorter subverte, desfechando-a em pleno solo ascendente, em ritmo aberto.

Os anos como cérebro da The Jazz Messengers deram à Shorter a cancha de produzir adaptações tão primorosas como a de "Oriental Folk Song", uma canção tradicional chinesa em que o músico recria o tema original timbrística e harmonicamente, compondo um jazz novamente complexo em construção, mas orgânico a quem ouve. A introdução em tons orientais abre espaço para uma segunda e intermediária parte com o chorus de tempos longos e articulados. Porém, a música progride ainda mais, e uma terceira sequência atinge outra envergadura, subindo a gradação em uma interpretação vigorosa de toda a banda.

“Virgo”, uma das mais lindas baladas do cancioneiro jazz, vem em seguida, e aqui Shorter novamente arrebenta, mas não da forma carregada como nas primeiras faixas, mas, sim, em solos lânguidos e perfeitamente pronunciados. Sem pressa e repleta de sussurros, pausas e desvelos; sensual como uma transa apaixonada madrugada adentro. É tão incrível que, mesmo empunhando um saxofone tenor, há momentos em que parece estar tocando um sax alto, tamanho rebuscamento que extrai das notas graves e na modulação que atinge com o instrumento. Para arrematar, um breve solo enlevado à capela, só sax e ouvidos. Perfeita.

Embalada e não menos saborosa, “Black Nile” vem com toda a banda em altíssimo nível de performance. É, seguramente, a mais “agitada” do disco, que só veio a acelerar-se um pouco mais já na sua segunda metade. No entanto, o tom suave que perfaz o álbum é novamente demarcado em "Charcoal Blues", em que o saxofonista exercita pequenas variações sobre o riff, numa simplicidade mais uma vez com ares de Miles Davis, inclusive pelo visível apreço pelo blues. Nesta, McCoy Tyner merece atenção especial na manutenção da base e, principalmente, em seu solo.

Nada mais perfeito para terminar uma noite de fantasia do que com o próprio “Armageddon". Considerada por Shorter como o ponto focal do álbum, contém como mensagem a força da dualidade do ser humano na última batalha entre o bem e o mal. Por isso, as notas reflexivas e densas, mas nem por isso menos belas. Nela, sonho passa a significar utopia, alucinação. “A minha definição do julgamento final é um período de esclarecimento total que vai descobrir o que somos e por que estamos aqui", disse o compositor sobre esta obra. Não sei se um dia chegaremos a isso, mestre Shorter, mas certamente sua música nos eleva a um ponto que, mesmo que apenas como meros sonhadores de uma noite qualquer, talvez consigamos revelar algo tão profundo de nós mesmos.

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Corrijo em tempo um erro desta resenha: “Night Dreamer” não é O grande trabalho de Wayne Shorter, mas, sim, seu PRIMEIRO grande trabalho. Em plena atividade mesmo prestes a completar 80 anos, o músico lançou este ano um novo CD, o elogiado “Without A Net”. Mas para alguém dono de uma obra tão extensa e marcante, eleger apenas um disco como o melhor é tarefa impossível. Basta lembrar-se de outros grandes discos solo, como ”Ju-Ju” (1964), “Speak no Evil” e “The Soothsayer” (ambos de 1965), os trabalhos com uma das pioneiras do jazz-fusion, a Wheater Report, nos anos 70, ou as parcerias, como os que gravou com Milton Nascimento, Carlos Santana e Joni Mitchell.

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FAIXAS:
1. Night Dreamer - 7:15
2. Oriental Folk Song - 6:50
3. Virgo - 7:00
4. Virgo (alternate take 14) – 7:03
5. Black Nile - 6:25
6 Charcoal Blues - 6:50
7. Armageddon - 6:20

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Ouvir:



quinta-feira, 23 de maio de 2013

cotidianas #225 - 25 Minutos para Partir



Bem eles estão construindo forcas do lado de fora da minha cela, tenho
25 minutos pra partir.
E a cidade toda está esperando para me ver gritar, tenho
24 minutos para partir.
Bem, eles me deram alguns feijões para minha ultima refeição, tenho
23 minutos pra partir.
Mas ninguém perguntou como eu me sentia, tenho
22 minutos para ir.
Bem eu escrevi para o Governador e todos seus malditos assessores  com
21 minutos pra ir
E escrevi para o prefeito, mas ele tinha saído para almoçar, tenho
20 minutos pra ir.
Então o xerife disse, cara vou te ver morrer, tenho
19 minutos pra ir.
Então eu ri na sua cara e cuspi nos seus olhos, tenho
18 minutos pra ir.
Ai vem o padre pra salvar minha alma, com
13 minutos pra ir.
E ele está falando sobre queimar, mas estou com tanto frio, tenho
12 minutos pra ir.
Agora estão testando o alçapão e faz minha espinha tremer,
11 minutos pra ir.
E o alçapão e a corda, funcionam bem, tenho mais
10 minutos pra ir.
Bem, estou esperando pelo perdão pra me deixar livre, com
9 minutos pra ir.
Mas isso é pra valer, então podem esquecer de mim, tenho
8 minutos pra ir.
Com meus pés na armadilha e minha cabeça no laço tenho mais
5 minutos pra ir
Não vai vir alguém e me soltar com
4 minutos pra ir
Eu posso ver as montanhas, eu posso ver o céu, com
3 minutos pra ir.
E é muito ruim para um homem que não quer morrer, com
2 minutos pra ir.
Eu posso ver os urubus, posso ouvir os corvos,
1 minuto pra ir.
E agora estou balançando e aí eu

vooooooou...

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"25 Minutes to Go"
letra: Shel Silverstein


Johnny Cash - "25 Minutes to Go"

Ouça:
Johnny Cash - "25 Minutes to Go"