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segunda-feira, 3 de junho de 2013

cotidianas #227 - Interferência


Desde que comprara aquele walkie-talkie para o filho a atividade mais comum entre os dois naquela casa era pai num quarto e o menino em outro brincando de bombeiro, de detetive, de polícia ou qualquer coisa que minimamente sugerisse comunicação por rádio. Não era de grande alcance, era bem fraco o sinal do brinquedo, mas entre um cômodo e outro da casa, até que dava conta.
- Gavião para Falcão-Vermelho, Gavião para Falcão-Vermelho, responda... Tshhhc
- Falcão-Vermelho na escuta... tshhhc - respondia o garoto - ... pode falar... tshhhc
- Gavião em posição para ataque. Alvo na mira... tshhhc
E era aquilo o dia inteiro quando o pai-coruja, aquela verdadeira criança grande podia estar em casa e brincar com o guri que recém tinha completado seus 4 anos.
O único inconveniente do brinquedo, além das ralhações da esposa dizendo que o marido não crescia, que não tivera infância e tudo mais, eram as interferências. Volta e meia, no meio da brincadeira, entre uma chamada do Falcão-Vermelho para o Gavião, surgia a voz de alguém no interfone do prédio, o locutor da TV ou algum pedaço de chamada telefônica. No início o pai se incomodou um pouco com o fato, mas depois, sendo um brinquedo, já não dava mais bola para aquilo. Era só ignorar.
Tinha de tudo: pedido de pizza, namorados apaixonados, reclamação de telefonia e até brigas de casal. Certa vez, uma dessas rusgas, em particular, lhe chamou a atenção pela agressividade. "Se eu souber que tu tá com aquele cara eu te mato...tshhhc" ouviu do outro lado da linha atrapalhando o chamado da ambulância do filho. "Nossa!", pensou. Mas não deu muita bola como de costume. "Esse pessoal vive brigando. "Marido ciumento é fogo", ainda falou sozinho antes de ir para a cozinha imitando o barulho da sirene da ambulância, enlouquecendo a esposa.
Mas certa tarde, brincando novamente com o menino, voltou a ouvir, provavelmente, a mesma voz ameaçadora. Devia ser uma nova briga do mesmo casal.
Entrecortada, picotada entre falhas, chiados e atrapalhada pelos apelos do filho para continuar brincando, podia ouvir:
- ... Eu não te disse... tshhhc... com ele?... tsssshhhc. Eu não...tschhhc...?
- Pai, vamo brincá?
- Espera, filho, espera um pouco.
- ... não te amo mais... tshhhc... tschhhhc... é que é homem  de verdade! Eu vou morar com e...tshhhhc - respondia zombeteira uma voz de mulher.
- Paiêêê.
- Espera, deixa o pai ouvir - impaciente para o filho
- Uéééé - e saiu a criança abrindo o berreiro pela casa afora.
- ...te disse, eu te disse... tshhhhc... te matar... tssshhc... encher de bala.
E não ouviu mais nada. O homem havia desligado.
Que coisa. Que violência!
Será que faria o que tinha prometido?
Que nada! Esses cornos são assim mesmo. Prometem fazer mas vão pro bar encher a cara. Deixa isso pra lá.
Percebendo que tinha ignorado o filho por alguns instantes, tratou de chamá-lo, consolá-lo e voltar à brincadeira.
- Tango/1, qual sua posição. Responda, Tango/1...tshhhc.
Ao que o garoto voltou animado com seu walkie-talkie em punho respondendo a localização do Tango/1.
No dia seguinte, ao abrir o jornal deu com a notícia, "MULHER É MORTA A TIROS NA CAPITAL".
Teria sido?
Não, não podia ser.
Tinha ouvido tudo, sabia quem tinha cometido o crime mas não podia ajudar em nada. E além do mais, como é que ia dizer à polícia que tinha ouvido tudo por causa de uma interferência em um walkie-talkie de brinquedo? Mas nem sequer tinha certeza de que era a mesma mulher, de que o homem resolvera cumprir a ameaça, de que tinha usado arma de fogo...
Não, provavelmente não era o mesmo crime.
Melhor voltar a brincar com guri e esquecer essa bobagem toda:
- Viatura 344, viatura 344... tshhhc... Verificar ocorrência... tshhhc... Mulher baleada, ex-marido suspeito. Câmbio... tshhhhc
- Indo para o local, ... tshhhc... Câmbio.
- ...eu queria fazer um pedido: é uma pizza grande quatro queijos.
- ...Tssshhhhhhhhc...



Cly Reis

Corrosion









fotos: Cly Reis

O Frango Atirador


sábado, 1 de junho de 2013

Gilberto Gil e Jorge Ben - "Gil & Jorge / Ogum-Xangô" (1975)



Acima, a capa original de 1975,
abaixo a do relançamento em 1991
"Para mim não dá mais"
Eric Clapton,
desistindo do ritmo da jam session
que teria originado a gravação do disco



Seria de se admirar, talvez, se se dissesse para algum desavisado que apenas numa descontraída e despretensiosa jam entre dois amigos, madrugada adentro num estúdio tenha surgido um dos grandes álbuns da discografia nacional. Seria de se espantar, sim, até saber-se que estes dois personagens são nada mais nada menos que Gilberto Gil e Jorge Ben, e que encontravam-se, ambos, no auge de suas formas artísticas e criativas.
Em "Gil e Jorge - Ogum/Xangô", de 1975, trabalho frequentemente apontado por muitos como o maior disco nacional de todos os tempos, os protagonistas apenas com seus violões, acompanhados somente por dois músicos de apoio, dão um show de musicalidade, inventividade, criatividade e técnica em sessões musicais totalmente livres, alegre e espontâneas.
Canções já gravadas, como "Nêga", de Gil ganha uma energia toda nova com o violão singular e as improvisações vocais de Jorge Ben apoiando a interpretação cheia de sensualidade de Gil. "Essa é pra Tocar no Rádio", também de Gilberto Gil,tem um embalo e uma vibração contagiante, diferente da levada jazz acelerada da versão que apareceria posteriormente em "Refazenda". Das já conhecidas até então de Jorge Ben, "Morre o Burro Fica o Homem" fica mais descontraída que a original; "Quem Mandou (Pé na Estrada)", conhecida na versão de Wilson Simonal tem performance vocal destacada de Gil dando suporte à voz principal do parceiro; e "Taj Mahal", clássico de Jorge, por sua vez ganha uma versão quilométrica na qual os dois se soltam e estraçalham os itens, âmbitos, critérios e possibilidades.
"Jurubeba" é um show de improvisações e de genialidade dos dois, desde a técnica dos violões, às brincadeiras vocais de Gil, às palhaçadas do Babulina imitando um anúncio publicitário da planta.
Como é comum em grandes discos, a abertura e o final são de tirar o fôlego: "Meu Glorioso São Cristóvão" a primeira do disco é uma louvação lenta e arrastada, entoada verdadeiramente como uma oração, de maneira  emocionante por Jorge Ben; e "Filhos de Gandhi", na verdade a penúltima faixa, um longo ponto de afoxé, uma evocação aos orixás, cadenciada, imitando a levada de um berimbau, dessa vez com interpretação espetacular de Gilberto Gil, numa faixa que quanto mais vai-se desenvolvendo mais vai crescendo até se transformar num épico monumental com um final grandioso. Depois dela ainda aparece a faixa "Sarro", vinheta curta que apesar de todo o valor musical da improvisação jazzística do baixo e vocal de Gil, serve mesmo para recuperar o fôlego depois da espetacular faixa anterior e dizer adeus em grande estilo.
Sim, amigos, de uma simples sessão musical com dois violões, muitas brincadeiras, improvisações e 'alguns estímulos'..., é claro, nascia um dos maiores discos da MPB. Dizem que tudo teria se originado, noites antes, numa festa da gravadora, na qual teria estado nada mais nada menos que Eric Clapton, que impressionado com o que aqueles dois rapazes faziam ali, tocando livremente, inventando, interagindo, teria-se aventurado a tocar com as duas figuras, mas após uma longa bateria, teria 'pedido água' tal a intensidade, grau improvisação e duração da sessão dos dois brasileiros. O resultado da brincadeira teria impressionado tanto o pessoal da gravadora que estes teriam mandado Gilberto Gil e Jorge Ben imediatamente para o estúdio para reproduzir o mais fielmente possível, mas com o máximo de espontaneidade, o que protagonizaram informalmente noites antes.
Não sei se é verdade. Parece que sim.
De todo modo, independente da lenda, trata-se de um do ponto alto das carreiras de dois dos grandes artistas da música brasileira e que juntos produziram uma obra à altura de suas importâncias e expressividades. Álbum espetacular, básico, indispensável, fundamental.

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FAIXAS:
1. Meu glorioso São Cristóvão (Jorge Ben)
2. Nêga (Gilberto Gil)
3. Jurubeba (Gilberto Gil)
4. Quem mandou [Pé na estrada] (Jorge Ben)
5. Taj mahal (Jorge Ben)
6. Morre o burro, fica o homem (Jorge Ben)
7. Essa é pra tocar no rádio (Gilberto Gil)
8. Filhos de Gandhi (Gilberto Gil)
9. Sarro (Jorge Ben - Gilberto Gil)


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Ouça:
Gil e Jorge Ogum-Xangô

quinta-feira, 30 de maio de 2013

cotidianas #226 - Baque Virado





Nossa Senhora,
Seu moço!
Qué qui se assucedeu
Cá’quele nêgo?
Pleno cortejo
do Nazaré da Mata
qui’u hôme
me inventa de, no meio da embolada
Morrer de embolia.

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Baque Virado
(da série “Maracatus e Arrebóis”)

Coração da Máquina















"Coração da Máquina"
Reis, Cly

terça-feira, 28 de maio de 2013

Wayne Shorter - "Night Dreamer" (1963)



“Este disco é um marco para mim,
pois veio em um momento em que eu
 estava entrando em uma nova fase como autor.
E também eu sabia que
 em meu primeiro álbum para a Blue Note
eu teria que dizer algo substancial.”
Wayne Shorter,
no texto do encarte original


São inúmeros os discípulos de Miles Davis no universo do jazz. A lista vai de mestres geniais como Chick Corea, Herbie Hancock, Sonny Rollins, John McLaughlin e John Coltrane – para mim, o maior deles. Mas talvez o mais fiel aluno tenha sido outro genial jazzista: o saxofonista Wayne Shorter, lenda viva da música mundial. De estilo arrojado tanto nos improvisos quanto nas harmonias, Shorter começou na cena em 1959 na banda bebop de Art Blakey, a The Jazz Messengers, pela qual não só ajudou a gravar álbuns memoráveis, como, hábil e líder, tornou-se logo o diretor musical do grupo. Além disso, como todos da sua geração, foi fortemente influenciado pelo jazz em escalas do “divisor de águas” "Kind of Blue", de Miles (1959), passando, tempo depois, a formar o aclamado “segundo grande quinteto” do mestre, juntamente com Hancock, Ron Carter e Tony Williams. Tudo isso deu embasamento para Shorter, valendo-se de todas estas referências, gravar, em 1963, seu grande trabalho: o encantador “Night Dreamer”, onde se nota um compositor maduro e criativo, além de um instrumentista virtuoso.

Depois de três LP’s pelo selo Vee-Jay, onde ainda se percebe um artista em busca de identidade própria, “Night Dreamer”, seu primeiro pela mais cultuada gravadora do jazz, a Blue Note, é o acerto da medida: cool, sofisticado, intenso, coeso. Tudo favorecendo: a técnica de estúdio Rudy Van Gelder, a produção caprichada de Alfred Lion e esplêndida arte, na foto borrada de Francis Wolff e o design de Reid Miles. Campo preparado para um disco impecável. Como o título sugere, começa numa atmosfera de sonho com a arrebatadora faixa-título, em que o piano de McCoy Tyner anuncia, em acordes ondulantes e oníricos, a beleza da melodia modal que se forma a seguir com o restante da banda (e que banda!): Lee Morgan (trompete), Reggie Workman (baixo) e Elvin Jones (bateria). O chorus, sobre o andamento cadenciado e bluesy de Jones e dos dois tempos de quatro do piano, desenha um riff pegajoso que, entre leves ascendências e declives, surpreende pelas dissonâncias sem, contudo, se afastar do coração do ouvinte. Espiral como um sonho, volta, no fim da série, para o acorde inicial. A mesma ideia circular serve de concepção para os improvisos, momento em que Shorter dá um verdadeiro show de tempos, variações e groove. Há claras inspirações no fraseado econômico e certeiro de Miles, inclusive na repetição da famosa frase de trompete que antecede o solo histórico de Coltrane em "Freddie Freeloader", do “Kind of Blue”, que Morgan pronuncia rapidamente mas com exatidão, numa visível homenagem. No final, ao invés de toda a banda tencionar para cair junta, o mais comum à época, Shorter subverte, desfechando-a em pleno solo ascendente, em ritmo aberto.

Os anos como cérebro da The Jazz Messengers deram à Shorter a cancha de produzir adaptações tão primorosas como a de "Oriental Folk Song", uma canção tradicional chinesa em que o músico recria o tema original timbrística e harmonicamente, compondo um jazz novamente complexo em construção, mas orgânico a quem ouve. A introdução em tons orientais abre espaço para uma segunda e intermediária parte com o chorus de tempos longos e articulados. Porém, a música progride ainda mais, e uma terceira sequência atinge outra envergadura, subindo a gradação em uma interpretação vigorosa de toda a banda.

“Virgo”, uma das mais lindas baladas do cancioneiro jazz, vem em seguida, e aqui Shorter novamente arrebenta, mas não da forma carregada como nas primeiras faixas, mas, sim, em solos lânguidos e perfeitamente pronunciados. Sem pressa e repleta de sussurros, pausas e desvelos; sensual como uma transa apaixonada madrugada adentro. É tão incrível que, mesmo empunhando um saxofone tenor, há momentos em que parece estar tocando um sax alto, tamanho rebuscamento que extrai das notas graves e na modulação que atinge com o instrumento. Para arrematar, um breve solo enlevado à capela, só sax e ouvidos. Perfeita.

Embalada e não menos saborosa, “Black Nile” vem com toda a banda em altíssimo nível de performance. É, seguramente, a mais “agitada” do disco, que só veio a acelerar-se um pouco mais já na sua segunda metade. No entanto, o tom suave que perfaz o álbum é novamente demarcado em "Charcoal Blues", em que o saxofonista exercita pequenas variações sobre o riff, numa simplicidade mais uma vez com ares de Miles Davis, inclusive pelo visível apreço pelo blues. Nesta, McCoy Tyner merece atenção especial na manutenção da base e, principalmente, em seu solo.

Nada mais perfeito para terminar uma noite de fantasia do que com o próprio “Armageddon". Considerada por Shorter como o ponto focal do álbum, contém como mensagem a força da dualidade do ser humano na última batalha entre o bem e o mal. Por isso, as notas reflexivas e densas, mas nem por isso menos belas. Nela, sonho passa a significar utopia, alucinação. “A minha definição do julgamento final é um período de esclarecimento total que vai descobrir o que somos e por que estamos aqui", disse o compositor sobre esta obra. Não sei se um dia chegaremos a isso, mestre Shorter, mas certamente sua música nos eleva a um ponto que, mesmo que apenas como meros sonhadores de uma noite qualquer, talvez consigamos revelar algo tão profundo de nós mesmos.

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Corrijo em tempo um erro desta resenha: “Night Dreamer” não é O grande trabalho de Wayne Shorter, mas, sim, seu PRIMEIRO grande trabalho. Em plena atividade mesmo prestes a completar 80 anos, o músico lançou este ano um novo CD, o elogiado “Without A Net”. Mas para alguém dono de uma obra tão extensa e marcante, eleger apenas um disco como o melhor é tarefa impossível. Basta lembrar-se de outros grandes discos solo, como ”Ju-Ju” (1964), “Speak no Evil” e “The Soothsayer” (ambos de 1965), os trabalhos com uma das pioneiras do jazz-fusion, a Wheater Report, nos anos 70, ou as parcerias, como os que gravou com Milton Nascimento, Carlos Santana e Joni Mitchell.

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FAIXAS:
1. Night Dreamer - 7:15
2. Oriental Folk Song - 6:50
3. Virgo - 7:00
4. Virgo (alternate take 14) – 7:03
5. Black Nile - 6:25
6 Charcoal Blues - 6:50
7. Armageddon - 6:20

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Ouvir:



quinta-feira, 23 de maio de 2013

cotidianas #225 - 25 Minutos para Partir



Bem eles estão construindo forcas do lado de fora da minha cela, tenho
25 minutos pra partir.
E a cidade toda está esperando para me ver gritar, tenho
24 minutos para partir.
Bem, eles me deram alguns feijões para minha ultima refeição, tenho
23 minutos pra partir.
Mas ninguém perguntou como eu me sentia, tenho
22 minutos para ir.
Bem eu escrevi para o Governador e todos seus malditos assessores  com
21 minutos pra ir
E escrevi para o prefeito, mas ele tinha saído para almoçar, tenho
20 minutos pra ir.
Então o xerife disse, cara vou te ver morrer, tenho
19 minutos pra ir.
Então eu ri na sua cara e cuspi nos seus olhos, tenho
18 minutos pra ir.
Ai vem o padre pra salvar minha alma, com
13 minutos pra ir.
E ele está falando sobre queimar, mas estou com tanto frio, tenho
12 minutos pra ir.
Agora estão testando o alçapão e faz minha espinha tremer,
11 minutos pra ir.
E o alçapão e a corda, funcionam bem, tenho mais
10 minutos pra ir.
Bem, estou esperando pelo perdão pra me deixar livre, com
9 minutos pra ir.
Mas isso é pra valer, então podem esquecer de mim, tenho
8 minutos pra ir.
Com meus pés na armadilha e minha cabeça no laço tenho mais
5 minutos pra ir
Não vai vir alguém e me soltar com
4 minutos pra ir
Eu posso ver as montanhas, eu posso ver o céu, com
3 minutos pra ir.
E é muito ruim para um homem que não quer morrer, com
2 minutos pra ir.
Eu posso ver os urubus, posso ouvir os corvos,
1 minuto pra ir.
E agora estou balançando e aí eu

vooooooou...

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"25 Minutes to Go"
letra: Shel Silverstein


Johnny Cash - "25 Minutes to Go"

Ouça:
Johnny Cash - "25 Minutes to Go"

quinta-feira, 16 de maio de 2013

cotidianas #224 - Carmem



"... dir-lhes-ei, em suma, que
a cada defeito ela reunia uma qualidade,
talvez ainda mais acentuada pelo contraste."
"Carmen", de Prosper Mérimée



Alice
meu rosto

Aline
seu corpo

Me Ana como los lobos
Tati me com las manos
Ou Dani-se

Que se diz
Vanessa
Faça-se às Claras
Diadora em diante
Que se desvaneça
Faça-se a Aurora

É a Glória, é a Glória



de Cly Reis

Elvis


terça-feira, 14 de maio de 2013

The Beatles - "Magical Mystery Tour" (1967)


"Longe no céu, além das nuvens, vivem 4 ou 5 mágicos.
Com feitiços maravilhosos transformaram
a mais comum viagem de ônibus
em uma Mágica Excursão Misteriosa.
Se você deixar-se levar,
os Magos vão te levar a lugares maravilhosos.
Talvez você tenha estado em uma Excursão Mágica e Misteriosa mesmo sem perceber.
Você está pronto para ir?
Esplêndido!"
texto do encarte do disco

Perdoem-me os beatlemaníacos, mais entendidos que eu quando o assunto são os Rapazes de Liverpool, mas meu disco favorito do quarteto é sem dúvida "Magical Mystery Tour", uma trilha sonora de um filme estrelado pelos próprios integrantes, e que teve versões diferentes de lançamento nos Estados Unidos e na Inglaterra. A inglesa, inicialmente trazia apenas 6 faixas distribuídas em 2 discos, o que era absolutamente inapropriado para os padrões comerciais americanos, que por sua vez tiveram uma edição de álbum simples, com todas as 6 faixas originais num lado A, e cinco outras que eram sobras do disco anterior, "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", inéditas, ou de compactos, compondo um lado B.
Embora reconheça a importância, a técnica, a inovação de outras obras do grupo, este trabalho, na verdade, acho que é o disco que mais consegue me empolgar do começo ao fim. É aquela minha velha argumentação sobre os Beatles de que muitas vezes as canções são irrefutavelmente perfeitas, reconhecidamente impecáveis, admiráveis sob o ponto de vista compositivo, com recursos nunca antes pensados ou utilizados mas no que diz respeito à audição, não conseguem causar aquela sensação de entusiasmo. Ótimas, sem dúvida, a gente aprecia, fica admirado com cada instrumento, com toda a produção, com o trabalho vocal, etc., mas não canta a plenos pulmões ou mesmo faz um air-guitar, por exemplo.
"Magical Mystery Tour", não! Ainda que seja considerado por muitos um trabalho menos, um trabalho sem conceito, sem unidade, talvez seja intrínsecamente o álbum mais rock'n roll dos Beatles, pela loucura, pela sonoridade, pela crueza, pela viagem, pela psicodelia, pela 'imperfeição'. Já na abertura, a música que dá nome ao disco a energia já pode ser sentida numa viagem psicodélica com Paul fazendo um vocal mais intenso e gritado do que o habitual, um trumpete enlouquecido e uma bateria alta e marcante. Aliás este é um disco em que Ringo Starr pode ser destacado em diversas faixas, seja pela performance, seja pelo andamento ou pelo arranjo que privilegia o instrumento, como na viajante "Flying", na pirada "Blue Jay Way" ou na ótima e subestimada "Baby, You're A Rich Man", da parte extra do disco.
Num disco bem mais psicodélico e sujo, por assim dizer, que outros da banda, mesmo a balada, "Fool in the Hill" me impressiona mais do que algumas mais cultuadas de disco mais célebres, com um arranjo excepcional com com destaque especial para a flauta. "Your Mother Shoud Know", é o que pode-se chamar uma boa canção pop, nada excepcional mas perfeitinha, competente e muito agradável. A ótima instrumental "Flying", a primeira composta pelos 4 a ser gravada, com seu andamento oscilante e variado é ácido puro; "Blue Jay Way", mesmo com uma atmosfera perturbadora, surreal, não esconde o toque exótico habitual das composições de George Harrison; e a excepcional "I'm the Walrus", que fecha o lado A da edição americana, talvez seja melhor música do disco com sua concepção nonsense, chapada, doida, com sua levada alegre, instrumentação maluca, o vocal com efeito de John, e aqueles graciosos gritinhos do refrão.
Poderia parar por aqui se falasse só do EP britânico, mas a versão ampliada, o que seria o lado B americano, ainda contava com as ótimas "Strawberry Fields Forever", "Penny Lane" e a belíssima e gostosa "All You Need is Love", que tem no côro, entre vários nomes famosos, nada mais nada menos que Jagger e Richards dos 'rivais' Rolling Stones.
Perdoem-me os beatlemaníacos se não admiro tanto um "Sgt. Pepper's...", se não me entusiasmo tanto com o "Álbum Branco", se não me rasgo em elogios ao "Rubber Soul". Não é questão de desrespeito. Não é por desfazê-los, eu lhes asseguro. É só questão de pegar pelo ouvido, e se tem um disco dos Beatles que eu curto, que eu canto junto, que eu tamborilo com os dedos, é esse "Magical Mystery Tour".
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FAIXAS:
Lado A
1. "Magical Mystery Tour"
2. "The Fool on the Hill"
3. "Flying"
4. "Blue Jay Way"
5. "Your Mother Should Know"
6. "I Am the Walrus"


Lado B
7. "Hello, Goodbye"
8. "Strawberry Fields Forever"
9. "Penny Lane"
10. "Baby, You're a Rich Man"
11. "All You Need Is Love"

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Ouvir:

Prazeres Desconhecidos









"prazer 1"

"prazer 2"



fotos e manipulação digital: Cly Reis

segunda-feira, 13 de maio de 2013

cotidianas #223- Zumbi



Angola, Congo, Benguela
Monjolo, Capinda, Nina
Quiloa, Rebolo
Aqui onde estão os homens
Há um grande leilão
Dizem que nele há uma princesa à venda
Que veio junto com seus súditos
Acorrentados em carros de boi


Eu quero ver quando Zumbi chegar
Eu quero ver o que vai acontecer
Zumbi é senhor das guerras
Zumbi é senhor das demandas
Quando Zumbi chega, é Zumbi quem manda


Pois aqui onde estão os homens
Dum lado, cana-de-açúcar
Do outro lado, um imenso cafezal
Ao centro, senhores sentados
Vendo a colheita do algodão branco
Sendo colhidos por mãos negras


Eu quero ver quando Zumbi chegar
Eu quero ver o que vai acontecer
Zumbi é senhor das guerras
Zubi é o senhor das demandas
Quando Zumb chega, é Zumbi é quem manda

Angola, Congo, Benguela
Monjolo, Capinda, Nina
Quiloa, Rebolo

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letra de  "Zumbi"
de Jorge Ben

Ouça:
Jorge Ben Zumbi

Berinjela Beligerante


domingo, 12 de maio de 2013

cotidianas #222 Especial Dia das Mães - "Mãe"



"Maternidade" - Picasso, Pablo
aquarela sobre papel
Mãe... São três letras apenas

As desse nome bendito:
Também o Céu tem três letras...
E nelas cabe o infinito.

Para louvar nossa mãe,
Todo o bem que se disse
Nunca há de ser tão grande
Como o bem que ela nos quer...

Palavra tão pequenina,
Bem sabem os lábios meus
Que és do tamanho do Céu
E apenas menor que Deus!


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"Mãe"
(Mário Quintana)

sábado, 11 de maio de 2013

Métis









"Métis"- REIS, Cly
grafite sobre sulfite com
manipulação digital- 10x18cm

REIS, Cly

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Lobão - "Vida Bandida" (1987)




"Aí, galera da onze"
introdução de
"Vida Bandida"



O senhor João Luiz Woerdenbag, mais conhecido como Lobão, é um grandessíssimo babaca!
"Ah, mas..."
Não. Não tem, "ah, mas".
É um idiota que costumeiramente liga uma metralhadora giratória atirando no que está por perto, no que está no seu caminho, no que está quieto, no que não lhe diz respeito, no que não valeria a pena disparar, ou até no que ele defendia anteriormente, tudo em nome de uma pseudo-imagem de... Lobo-Mau. Seria isso? Vá lá, às vezes até critica com razão, até vocifera com justiça, ataca coisas atacáveis, mas com uma contundência, não raro tão desproporcional, que quase sempre se torna tão antipático, por vezes até para os que concordam com ele, que sua razão e credibilidade ficam abaladas.
Mas, polêmicas à parte, não posso negar que esse idiota, enquanto fazia música relevante, ali pela metade dos anos 80, produziu alguns dos discos mais legais e importantes do rock nacional e por que não, da música brasileira. O amadurecimento musical depois da fase new-wave com Os Ronaldos no ótimo “O Rock Errou”; o bom “Cuidado!” de experimentações rítmicas e letras afiadas; o interessante, porém mal mixado “Sob o Sol de Parador”; e o excelente “Vida Bandida”, seu maior sucesso comercial, que entra a partir de agora para o hall dos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS deste blog.
“Vida Bandida” de 1987, gravado na sua maior parte na cadeia quando o cantor fora preso por porte de drogas, é um disco meio marginal, meio poético, meio punk, tudo isso com a dose perfeitas de peso e leveza, com melodiosidade e agressividade nas medidas certas.
Lobão, indignado com a polícia, com a mídia, com a hipocrisia, abre o disco, dedicando aos parceiros de cela a violenta e vibrante “Vida Bandida” que, apesar de indubitavelmente rockeira, já sinalizava para as experiências sambísticas que viriam em “Cuidado!”. Entre violência, dinheiro, traição, notícias, cadeia, o lobo vociferava com raiva aquele refrão poderoso como se cuspisse na cara da sociedade e pretendesse com aquele brado mostrar todo seu desprezo: "Vidaaaaaa, Vida,vida, vida, vida bandida".
A gostosa “Girassóis da Noite”, também indicava caminhos mais MPB, com uma levada se aproximando do samba e um belo sax delineando a canção; “Soldier Lips”, a única cantada em inglês, é uma espécie de blues envenenado com uma interpretação “embrigada” do cantor; “Nem Bem, Nem Mal”, também com um sax muito bacana, é um soco na normalidade, na mediocridade, no conformismo; a pesada “Esse Mundo Que Eu Vivo” é vigorosa e contundente; e a belíssima “Tudo Veludo”, é uma esfumaçada balada melancólica, apaixonante, com pé no tango e outro blues, trazendo, além de outra interpretação magnífica, um show de guitarra do Lobo.
A conhecidíssima “Rádio Blá”, uma canção de decepções amorosas, parte de uma introdução lenta pontuada pelo sax, ganhando ênfase a seguir até estourar num refrão altamente marcante e contagiante que não podia dar em outra coisa que não num estrondoso sucesso radiofônico. Outra que tocou à exaustão, primeiro com Lobão e mais tarde com Cazuza, foi “Vida Louca Vida”, mais um daqueles manifestos contra a chatice, falsidade, babaquice do mundo. A música acabou ganhando outra dimensão e um significado todo especial com Cazuza, pela inevitabilidade da morte do cantor em virtude da AIDS combinada aos versos resignados, “vida louca vida/ vida breve/ já que eu não posso te levar/ quero que você me leve”, mas a interpretação de Lobão, na minha opinião, é muito superior e continua insuperável.
O brilhante álbum fecha com uma canção quase sertaneja, por assim dizer,“Chorando No Campo”, uma espécie de balada folk com ares rurais, na qual Lobão estraçalha no violão e nos proporciona mais uma interpretação vocal memorável.
Este era Lobão. Grande cantor, grande músico, grande letrista. Um cara capaz de fazer um disco assim.
Sempre foi porra-louca, sempre foi linguarudo, meio bobalhão, metido a dono da verdade mas ao menos fazia música de qualidade.
Hoje em dia nem isso...
Até se pinça uma música que outra de um disco que outro nos últimos tempos, mas é pouco pra quem fala demais. Talvez por isso, apenas fale.
Talvez seja falta das drogas mais pesadas, que ele mesmo admite ter deixado (tem artistas para quem, infelizmente, elas são necessárias). O que sei é que desde que virou um 'careta', não produz mais nada de interessante. E o pior, ficou um chato insuportável e estúpido. O que resta é separar o Lobão-artista, do Lobão-apresentador, do Lobão-escritor, do Lobão-opiniático e nos deliciarmos com essa curta fase de sua carreira que compreende uns 3 ou 4 álbuns de alta qualidade. É lamentável ter que ser tão cruel assim com um artista que eu aprecio mas a vida é assim. Ela é bandida, mesmo.
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FAIXAS:
"Vida Bandida"
"Da Natureza dos Lobos"
"Nem Bem, Nem Mal
"Soldier Lips"
"Girassóis da Noite"
"Esse Mundo que Eu Vivo"
"Vida Louca Vida"
"Tudo Veludo"
"Blá Blá Blá... Eu Te Amo (Rádio Blá)"
"Chorando no Campo"

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Ouça:
Lobão Vida Bandida

terça-feira, 7 de maio de 2013

cotidianas #221 - Aipim

para Lúcio



A coisa toda começou quando a irmã do Ângelo, que havia ouvido falar em algum lugar sobre cachaça de mandioca, resolveu produzir em casa a bebida. O problema é que na cabeça dela, o processo era simplesmente fazer um combinado de aguardente com o tubérculo e estaria pronta a poção. O fez. Deixou então a raiz curtindo na cachaça por algum tempo pra pegar bem o sabor. Nesse meio tempo, o irmão, abrindo a geladeira, topou ali com aquela espécie de conserva muito bizarra. Achou esquisito mas vendo que tratava-se de algum tipo de bebida alcoólica, resolveu provar. O cheiro não era lá aquelas coisas mas o gosto... hum!!! Até que era bom. Descobrindo com a irmã do que era feita aquela poção, surpreendeu-se mas nem de perto se arrependeu de ter provado. Pelo contrário, acrescentou mais alguns ingredientes para ficar mais interessante. Um pouco de limão, gengibre, quem sabe alguns butiás... Gostando do estranho resultado, passou um pouco para uma garrafa menor e foi para a rua. Encontrando a gurizada na esquina, logo foi solicitado a dividir a bebida:

- Ô. Ângelo, vai ficar te fazendo com essa mixaria? Passa logo esse trago pra cá – intimou um.

- Ó, só vou avisando que é um negócio estranho que a minha irmã fez, hein.

- Ah, dá logo isso aqui – disse o Lúcio, parceiro velho de baderna e bebedeiras, arrancando a garrafa da mão do outro.

Porém, assim que o Lúcio destampou e tentou levar à boca, o cheiro, já originalmente desagradável e agora piorado pelos ingredientes adicionados pelo Ângelo, quase o fez desistir.

- Mas o que é que tu botou aqui???

- Eu disse que o negócio era brabo – riu o Ângelo e continuou – Foi a minha irmã que tentou fazer cachaça de mandioca e deixou curtindo no aipim. Aí ficou isso. Mas tá bom. Eu coloquei mais uns troço aí. Prova, prova aí – insistiu.

O Lúcio, taura, índio-velho, gaudério, velho de guerra, não ia arregar pra um cheirinho de uma cachaça fedorenta e não se intimidou metendo o tal trago goela abaixo.

- Hmm... Pior é que é bom. Hehe! Toma aí, Black – passando a garrafa.

- Bah, ‘tisguei’! – exclamou o Black, com aquela expressão que ele tinha inventado mas que significava, mais ou menos, que havia ficado positivamente impressionado

Os outros, mesmo um tanto desconfiados de início, foram provando e por fim compartilharam da opinião que tinha ficado muito bom. Muito bom mesmo. Tanto que ficaram até horas da madrugada bebendo aquele troço, até mesmo pra se esquentar no frio de Sapucaia do Sul no inverno. E naquela de ‘me passa o aipim pra cá’, ‘passa o aipim pra ele’, ‘não vai virar o aipim’, o nome da beberagem ficou sendo mesmo Aipim.

Quando resolveram que era hora de voltar pra suas casas tinha sobrado pouco do aipim na garrafa. Mas tinha ficado tão bom. Tinham que ter mais Aipim pras próximas madrugadas de frio falando besteira na esquina. Como ima fazer pra reproduzir aquela fórmula. O Pereba se prontificou a resolver. Levou a garrafa pra casa e no dia seguinte acrescentou mais cachaça. Vendo que havia perdido as propriedades exóticas, resolveu adicionar mais algumas coisas. Algum legume, um pouco de Ki-Suco, casca de maçã.... O troço ficou com uma aparência medonha e com um cheiro ainda pior. Levou então pra galera.

- Ó, aí, o aipim – anunciou com aquele seu jeito quase impassível.

O Lóki foi o primeiro a provar.

- Bah, esse cheiro tá horrível...- disse virando a cara para evitar o odor que exalava do gargalo- Tá pior do que ontem.

Mas bebeu.

- Porra, mas ainda tá bom! – disse com entusiasmo.

E a bebida correu de mão em mão entre exclamações de satisfação e risadas.

Pra quem chegava e se interessava pelo que estavam bebendo, valia sempre a advertência:

- Não cheira. Se tu cheirar tu não bebe.

E outro completava:

- Mas se beber, não cheira.

E caíam todos na risada.

E aquilo, “se tu cheirar não bebe, mas se beber, não cheira”, virou praticamente o slogam da bebida.

O fato é que a invenção etílica correu os bairros de Sapucaia ganhando fama e adeptos. Sempre que estava para acabar, alguém levava a garrafa pra casa e acrescentava cachaça e mais alguma coisa tipo agrião, vagem, suco de frutas, uísque, orégano, macela, maconha, de modo a manter o brilho e o encanto da conserva.

Agora dividiam o conteúdo em recipientes menores, em pequenas embalagens de sal de frutas Eno, de modo que todos da turma tivessem um pouco e pudessem levar para qualquer lugar. Para as festas, para o trabalho, para praça pra andar de skate, ou mesmo para a escola. O problema é que a bebida era cada vez mais popular no colégio e não raro se encontrava algum aluno entornando um potezinho de sal de frutas. Começaram a haver queixas de professores que alunos estariam assistindo às aulas completamente embriagados, o que motivou o diretor a convocar uma reunião pública no pátio para expor a situação e dar um basta naquilo;

- Temos informações que alunos tem consumido bebidas alcoólicas no interior deste estabelecimento de ensino e têm freqüentado às aulas em condições lastimáveis de embriaguez. Quero declarar aqui que condutas como estas são inadmissíveis e que a partir de hoje o aluno que for encontrado portando alguma bebida ou em condições suspeitas será suspenso...

O Lúcio e o Ângelo, no pátio, bem lá atrás, só se olharam um para o outro meio de lado.

- Vamos largar fora?

- Vamo. – concordou o Ângelo

O Lúcio tirou um pote de sal de frutas Eno da mochila, deu um gole, fez cara feia, passou pro Ângelo que também fez careta no talagaço, e saíram os dois para matar mais uma aula.




*Salvo algum exagero, alguma fantasia, alguma licença poética, algum personagem fora do lugar ou que eu tenha errado ou esquecido, os fatos descritos aqui são absolutamente verdadeiros e o Aipim efetivamente existiu.



Cly Reis