quarta-feira, 21 de abril de 2010
cotidianas #23 - "Pneumotórax"
Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos. A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três . . . trinta e três . . . trinta e três . . .
— Respire.
........................................................................
— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
Pneumotórax (1930)
de Manuel Bandeira
segunda-feira, 19 de abril de 2010
A volta do The Smiths Cover - Rio Rock & Blues Club - Lapa - Rio de Janeiro 17/04/2010
Em princípio nem deveria ir. Tinha uma viagem marcada para o outro dia e ainda que não tivesse exatamente que acordar CEDO, voltar de madrugada de um showzinho num bar sempre é um pouco desgastante, deixa sonos atrasados, aquela ressaca e tal. Mas como na véspera, por conta da fumaça do vulcão islandês, já se anunciava um provável cancelamento de voo, fui, aí sim mais tranquilo, sem muito daquele peso de ter que acordar bem no outro dia. Outro motivo foi quis levar meu grande amigo Júnior, que mostrara-se um tanto decepcionado por ter perdido a apresentação anterior para a qual eu o convidara e à qual eu elogiara tanto, e que agora sim, desta vez, poderia ir. Mas além disso tudo, tem também outro fato: incrivelmente acabou-se criando um vínculo legal dos integrantes da banda comigo. Tudo por causa da despretensiosa postagem sobre o show anterior dos caras lá mesmo no RR&BC, que segundo eles elevou o nome da banda, fez uma baita propaganda e tudo mais. Fico satisfeito. Como disse ao vocalista Roberto, de modo algum era a intenção rasgar-seda pra ninguém, nem divulgar nada, até porque nem os conhecia e mesmo porque meu blogzinho não tem todo esse alcance pra levar o nome de alguém aos 4 cantos do mundo.
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| Devidamente fardado. |
O espaço mais amplo no palco e, creio, uma maior auto-confiança depois da aprovação da primeira apresentação no bar, fizeram bem para o Morrissey-Cover que desta vez se soltou mais nos trejeitos, poses e caracterizações do ídolo inglês, imitando-o muito bem.
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| Olha eu aí com o Morrisey (e não é que parece mesmo?) |
Show foda mais uma vez.
O Júnior que estava comigo, pelas manifestações para mim mesmo, e no Orkut, parece também ter gostado muitíssimo.
Ótimo show novamente. Parabéns, amigos (acho que posso chamá-los assim, não?).
Cly Reis
Björk - "Jòga"
E no fim das contas não deu pra viajar!
O Eyjafallajokull resolveu jorrar seu magma e espalhar sua nuvem de fumaça por toda a Europa deixando o continente praticamente isolado.
A força da natureza foi maior do que os nossos desejos, vontades, necessidades, expectativas. (E não é sempre assim?)
Mas tudo bem. Acontece. E, aliás, tem acontecido por toda a parte e com cada vez maior frequência.
É, amigos, enchentes monstruosas, terremotos cada vez mais intensos, nevascas brutais e vulcões furiosos devem ser sinal de alguma coisa.
Nem sou tão trágico ou alarmista a ponto de estar prenunciando um final dos tempos, mas digo, sim, que a Terra está gritando, pedindo socorro, reclamando do quanto a tratamos mal até hoje.
*****************************
Como disse no post anterior, a Islândia só estava no mapa-múndi até hoje por causa da existência da Björk, e como disse um amigo meu, já que a erupção de criatividade dela cessou, o Eyjafallajokull, por sua vez, resolveu botar pra quebrar.
Essa coisa toda de Islândia, Björk, vulcão, Terra pedindo socorro, força da natureza, me lembrou o ótimo clipe de "Jòga" que tem muito a ver com tudo isso, pelas imagens e pela sutileza da mensagem contida.
Como diz a letra, "estado de emergência".
Agora é replanejar o restinho de férias.
Mas vam'lá!
Sem problemas.
"Björk - Jòga"
O Eyjafallajokull resolveu jorrar seu magma e espalhar sua nuvem de fumaça por toda a Europa deixando o continente praticamente isolado.
A força da natureza foi maior do que os nossos desejos, vontades, necessidades, expectativas. (E não é sempre assim?)
Mas tudo bem. Acontece. E, aliás, tem acontecido por toda a parte e com cada vez maior frequência.
É, amigos, enchentes monstruosas, terremotos cada vez mais intensos, nevascas brutais e vulcões furiosos devem ser sinal de alguma coisa.
Nem sou tão trágico ou alarmista a ponto de estar prenunciando um final dos tempos, mas digo, sim, que a Terra está gritando, pedindo socorro, reclamando do quanto a tratamos mal até hoje.
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Como disse no post anterior, a Islândia só estava no mapa-múndi até hoje por causa da existência da Björk, e como disse um amigo meu, já que a erupção de criatividade dela cessou, o Eyjafallajokull, por sua vez, resolveu botar pra quebrar.
Essa coisa toda de Islândia, Björk, vulcão, Terra pedindo socorro, força da natureza, me lembrou o ótimo clipe de "Jòga" que tem muito a ver com tudo isso, pelas imagens e pela sutileza da mensagem contida.
Como diz a letra, "estado de emergência".
Agora é replanejar o restinho de férias.
Mas vam'lá!
Sem problemas.
"Björk - Jòga"
C.R.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Caetano Veloso - "Transa" (1972)
"Chamei os amigos para gravar em Londres(...) "Transa" foi meu primeiro disco de grupo, gravado quase como um show ao vivo".
Caetano Veloso
No embalo do meu retorno a Londres, deu vontade de falar de um dos grandes discos brasileiros de todos os tempos, intimamente ligado à capital inglesa: “Transa” de Caetano Veloso, de 1972.
Gravado no exílio do cantor na época da ditadura militar, álbum é uma fantástica mistura de sons, tendências, línguas e costumes. Tem regionalismos junto com rock’n roll, inglês com português, gíria com poesia, berimbau com guitarra... Tudo resultado de uma criatividade que estava prenhe, precisando ser expelida, manifestada. Uma vontade de ser brasileiro mesmo estando fora. E parece que é exatamente isto que Caetano consegue transmitir quando mistura as línguas e linguagens: assimilar, experimentar, sem perder suas raízes.O início, com “You Don’t Know Me”, uma balada que vai se encorpando aos poucos, tem sua letra em inglês toda “invadida” por pedaços em português, como o trecho de “A Hora do Adeus” de Luiz Gonzaga, e ‘Saudosismo” do próprio Caetano, com a voz de Bebel Gilberto.
“Nine Out of Ten” que a segue, é espetacular em sua sonoridade toda cheia de embalo e ritmo. Caetano mesmo afirma ser esta sua melhor letra em inglês. Em inglês, sim, mas, assim como na anterior, com incursões em português, mas nesta, genialmente mais integradas na letra (“I’m Alive and VIVO, MUITO VIVO, VIVO, VIVO”). Caetano diz sobre esta música: “Tem a Nine out of Ten, a minha melhor música em inglês. É histórica. É a primeira vez que uma música brasileira toca alguns compassos de reggae, uma vinheta no começo e no fim. Muito antes de John Lennon, de Mick Jagger e até de Paul McCartney. Eu e o Péricles Cavalcanti descobrimos o reggae em Portobelo Road e me encantou logo. Bob Marley e The Wailers foram a melhor coisa dos anos 70.”
Caetano utiliza-se da poesia barroca de Gregório de Mattos para compor “Triste Bahia”, a mais experimental do disco, repleta de idas e vindas sonoras, regionalismos, linguagem coloquial, versos de folclore e cantigas populares.
Em “It’s a Long Way”, uma doce e melancólica canção, minha favorita do disco aliás, volta a se utilizar muito fortemente do recurso bilíngüe, depois dos primeiros versos totalmente em inglês, passa para a língua natal novamente com linguagem coloquial, dísticos populares e jogos de roda (“os olhos da cobra verde/ hoje foi que ARREPAREI/ se ARREPARASSE a mais tempo/ não amava quem amei”)
Sobre “Mora na Filosofia”, de Monsueto Menezes, um samba lento, marcado no violão, Caetano diz: “Mora na Filosofia, que é um grande samba, uma grande letra e o Monsueto é um gênio. Me orgulho imensamente deste som que a gente tirou em grupo".
Segue “Neolithic Man”, que é a que gosto menos no disco e fecha com o ótimo e embalado rock’n roll acústico e curtinho "Nostalgia (That's What Rock'n Roll Is All About)".
O álbum contou com arranjos e participações especialíssimas de amigos que estavam em Londres na época, entre eles Jards Macalé e Péricles Cavalcanti, mas que, curiosamente, por negligência no acabamento gráfico, não foram creditados no encarte original. O fato é que o próprio Caetano faz questão de lembrar estas participações e salientar que elas foram extremamente estimulantes para o trabalho em torno do álbum naquelas circunstâncias de exílio, saudades, solidão; e, ouvindo “Transa”, não é difícil notar o quanto as companhias contribuíram para a qualidade e resultado final da obra.
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FAIXAS:
- "You Don't Know Me" (Caetano Veloso) – 3:49
- "Nine Out of Ten" (Caetano Veloso) – 4:57
- "Triste Bahia" (Gregório de Matos Guerra, Caetano Veloso) – 9:47
- "It's a Long Way" (Caetano Veloso) – 6:07
- "Mora na Filosofia" (Monsueto Menezes, Arnaldo Passos) – 6:16
- "Neolithic Man" (Caetano Veloso) – 4:55
- "Nostalgia (That's What Rock'n Roll Is All About)" (Caetano Veloso) – 1:22
Ouça:
Caetano Veloso Transa
Cly Reis
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