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segunda-feira, 4 de abril de 2011

Elvis Presley - "Elvis" (1956)

"Elvis atingiu um novo
patamar de degeneração espiritual"
Reverendo Gray
da Igreja Batista da Trindade,
em 1956



É impossível, inadmissível, inaceitável falar em algo fundamental na história do rock, na história da música, na história do mundo até mesmo, sem falar em Elvis Presley. Acho até que já me demorava demais para incluí-lo aqui. Se seu primeiro disco "Elvis Presley" de 1956 fora o responsável por lançá-lo, por impulsioná-lo, torná-lo conhecido, foi verdadeiramente no segundo que ele obteve um resultado mais maduro, pessoal e mais qualificado. Ao passo que o primeiro trabalho era ainda cru, excessivamente influenciado pelos ritmos sulistas brancos por conter as músicas da época de sua primeira gravadora, a Sun Records, no segundo disco simplesmente chamado "Elvis" de 1956, o Rei do Rock colocaria sua marca particular de forma mais incisiva criando releituras todas especiais de sucessos da música negra. Ainda que aquilo representasse musicalmente um marco, uma revolução e sucesso comercial entre os jovens, essa coisa toda de ficar cantando música de negros não caía bem entre a sociedade conservadora branca, mas curiosamente não descia bem na goela do negros também, que não gostavam muito da ideia daquele branquelo se aproveitar do que eles faziam bem e há muito mais tempo sem ter o reconhecimento que aquele garoto vinha tendo então.
O fato é que provavelmente por ser acima da média, dono de uma voz fantástica, de interpretações singulares e um talento fora do comum, o garoto do Tenessee passou por cima de tudo como um trem e o disco foi um enorme sucesso elevando então definitivamente o cantor ao status até então inédito de superstar. Elvis, por exemplo, confere a  "Rip Me Up", "Long Tall Sally" e "Ready Teddy" já imortalizadas por Little Richard, de quem já gravara "Tutti-Frutti" no primeiro álbum, interpretações tão ímpares que estas chegam a ser provavelmente melhores que as do próprio Richard. Tem ainda outras 'negras' como "Paralyzed" em parceria com Otis Blackwell e a excelente "So Glad You're Mine" do blueseiro Arthr Crudupp. Canta "Love Me" de uma maneira absolutamente sensual e envolvente, assim  como a doce e melancólica "First in Line"; retorna às raízes com "Old Shep" canção que cantara anteriormente em 1945 num concurso em sua cidade natal; detona outro bluesão em "Anyplace is Paradise"; e no final põe um pouco de molho com a balançada "How Do You Think I Fell".
Uma reedição posterior traria mais algumas canções no álbum, entre elas, outro clássico, "Don't Be Cruel", e a histórica "Hound Dog", canção interpretada na famosa apresentação do cantor no programa de Milton Berle, que mudaria os rumos da TV, uma vez que sua dança, requebrando as cadeiras, foi considerada tão escandalosa a ponto de haver recomendação das emissoras de só filmarem Elvis da cintura para cima.
São coisas como esta, um disco como este que provam o quão importante é um artista como este para seu tempo. Isso é mudar a música, isso é mudar comportamento e isso é mudar a história!

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ELVIS PRESLEY
Elvis Aaron Presley (East Tupelo, 8 de janeiro de 1935 — Memphis, 16 de agosto de 1977) foi um famoso músico e ator, nascido nos Estados Unidos da América, sendo mundialmente denominado como Rei do Rock. É também conhecido pela alcunha Elvis The Pelvis, apelido pelo qual ficou conhecido na década de 1950 por sua maneira extravagante e ousada de dançar. Uma de suas maiores virtudes era a sua voz, devido ao seu alcance vocal, que atingia, segundo especialistas, notas musicais de difícil alcance para um cantor popular. A crítica especializada reconhece seu expressivo ganho, em extensão, com a maturidade; além de virtuoso senso rítmico, força interpretativa e um timbre de voz que o destacava entre os cantores populares, sendo avaliado como um dos maiores e por outros como o melhor cantor popular do século 20. Acompanhado pelo guitarrista Scotty Moore e pelo baixista Bill Black, Presley foi um dos criadores do rockabilly, uma fusão de música country e rhythm and blues.
Elvis tornou-se um dos maiores ícones da cultura popular mundial do século XX. Entre seus sucessos musicais podemos destacar "Hound Dog", "Don't Be Cruel", "Love me Tender", "All Shook up", "Teddy Bear", "Jailhouse Rock", "It's Now Or Never", "Can´t Help Falling In Love", "Surrender", "Crying In The Chapel", "Mystery Train", "In The Ghetto", "Suspicious Minds", "Don't Cry Daddy", "The Wonder Of You", "An American Trilogy", "Burning Love", "My Boy" e "Moody Blue". Na Europa, canções como "Wooden Heart", "You Don't Have To Say You Love Me", "My Boy" e "Moody Blue" fizeram sucesso. Particulamente no Brasil, foram bem-sucedidas as canções "Kiss Me Quick", "Bossa Nova Baby", "Bridge Over Troubled Water".
Após sua morte, novos sucessos advieram, como "Way Down" (logo após seu falecimento), "Always On My Mind", "Guitar Man", "A Little Less Conversation" e "Rubberneckin". Trinta anos depois de morrer, Presley ainda é o artista solo detentor do maior número de "hits" nas paradas mundiais e também é o maior recordista mundial em vendas de discos em todos os tempos com mais de 1 bilhão e meio de discos vendidos em todo o mundo.
(fonte: Wikipédia)


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FAIXAS:
  1. "Rip It Up" - 1:50
  2. "Love Me" - 2:41
  3. "When My Blue Moon Turns to Gold Again" - 2:18
  4. "Long Tall Sally" - 1:51
  5. "First In Line" - 3:21
  6. "Paralyzed" - 2:24
  7. "So Glad, You're Mine" - 2:18
  8. "Old Shep" - 4:10
  9. "Ready Teddy" - 1:55
  10. "Anyplace is Paradise" - 2:26
  11. "How's The World Treating You" - 2:23
  12. "How Do You Think I Feel" - 2:10
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Ouça:

domingo, 3 de abril de 2011

cotidianas #75 - Cantigas de Amigo




           En Lixboa, sobre lo mar,
barcas novas mandei lavrar,
ai mia senhor velida!

          En Lixboa, sobre lo lés,
barcas novas mandei fazer,
ai mia senhor velida!

         Barcas novas mandei lavrar
e no mar as mandei deitar,
ai mi senhor velida!

         Barcas novas mandei fazer
e no mar as mandei deitar,
ai mi senhor velida!


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           El-Rei de Portugale
barcas mandou lavrare
e lá irá nas barcas migo,
mia filha, o voss'amigo

            El-Rei portugueese
barcas mandou fazere,
e lá irá nas barcas migo,
mia filha, o voss'amigo

          Barcas mandou lavrare
e no mar as deitare,
e lá irá nas barcas migo,
mia filha, o voss'amigo

          Barcas mandou fazere
e no mar as deitare,
e lá irá nas barcas migo,
mia filha, o voss'amigo.

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"CANTIGAS DE AMIGO"
João Zorro,
trovador medieval português do séculoXIII


sábado, 2 de abril de 2011

The Stooges - "The Stooges" (1969)

"Então pensei: o lance é tocar
meu próprio blues simples (...)
Me apropriei de um monte de formas vocais deles
[os negros] e das linhas melódicas também
- ouvidas, ou mal ouvidas,
ou deturpadas, das canções de blues.
Assim, "I Wanna be Your Dog"
provavelmente é resultado da minha má interpretação
de "Baby Please Don't Go".
Iggy Pop

No embalo do lançamento do material raro dos Stooges, o duplo "Dirty Power", é bom não deixar passar o ensejo sem falar de um álbum verdadeiramente fundamental na história do rock. Estou falando do primeiro do “The Stooges", de 1969, e que leva o mesmo nome da banda que, aliás, proporcionou o aparecimento de Iggy Pop para o mundo do rock.
Disco importantíssimo para a formação do punk e para as gerações seguintes do rock dali para a frente. Com sua sonoridade crua, suja e barulhenta contribuiu grandemente para a identidade sonora daquele momento. Bandas como Velvet Underground, Doors, Television, artistas como David Bowie já vinham trilhando um caminho que levaria ao que se caracterizou depois como o punk rock, mas parece que com os Stooges o passo final da evolução do conceito tinha finalmente acontecido. Provas desta linhagem são os fatos, por exemplo de Iggy ter se estimulado a ter uma banda depois de ter visto um show do Doors, de John Cale ex-integrante do Velvet ter produzido o primeiro disco dos Stooges ou mesmo de Bowie ter sido parceiro e produtor de Iggy depois em carreira solo. Os Stooges traziam o minimalismo, a sujeira, a agressividade que faltava para que a coisa tomasse forma e a partir dali o caminho estava pavimentado para nomes como Ramones, e Sex Pistols aparecerem alguns anos depois.
Mas falando propriamente do disco, o negócio já começa detonando com a grande “1969”, um daqueles clássicos eternos do rock; na seqüência, sem sair de cima, já vem outra das fantásticas, “I Wanna Be Your Dog”, básica, ‘burra’, simples e matadora. Quatro acordes incansavelemente repetidos o tempo inteiro e um piano insistente ao fundo numa nota só. Cru e genial. “No Fun”, que viria a ser gravada depois pelos Pistols, é outra das grandes do disco, igualmente com uma concepção simplérrima e acordes muito básicos; destaque também para “Not Right” e para a excelente “Little Doll” que passa a régua e fecha a conta.
Na época o disco foi praticamente ignorado, vendeu mal até por conta dos problemas que teve antes do lançamento quando já concluído teve que voltar para a mesa de mixagem uma vez que a gravadora desaprovou o resultado da produção de John Cale atrasando o lançamento e então já saindo com um certo descrédito e desconfiança. Como muitas grandes obras, este álbum acabou só sendo reconhecido alguns anos depois de seu lançamento e só então se percebeu o quanto ele havia sido realmente ousado e pioneiro.
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FAIXAS:
1."1969" – 4:05
2."I Wanna Be Your Dog" – 3:09
3."We Will Fall" – 10:18
4."No Fun" – 5:15
5."Real Cool Time" – 2:32
6."Ann" – 2:59
7."Not Right" – 2:51
8."Little Doll" – 3:20

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Ouça:
The Stooges 1969



Cly Reis

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Chemical Music Festival 2011

Não sei se já estava sendo divulgado e eu que estava desinformado mas só agora fiquei sabendo do Chemical Music Festival que vai acontecer em abril em Itu, São Paulo, com os Chemical Brothers como principal atração. Eu que já perdi de ver os caras em duas oportunidades, desta vez não vou deixar escapar.
E parece que veio de presente pra mim, pois vai acontecer um dia após meu aniversário, dia 30 de abril.
Outras atraçoes serão os brazucas Life is a Loop, Gui Borato, Leo Janeiro e The Twelves, o uruguaio Gustavo Bravetti e o sueco Christian Smith. Mas o que importa mesmo é ver  e ouvir os Bródi que  lançaram no ano passado seu último álbum, "Further" e recentemente compuseram a trilha do filme "Hanna"
Bom, agora é providenciar o ingresso que em abril tem Chemical Brothers ao vivo.
Grande expectativa!



CHEMICAL MUSIC FESTIVAL
Dia 30 de abril, a partir das 22 horas
Local: Arena Maeda, Itu, SãoPaulo
Acesso pelo km 78 da Rod. Castelo Branco, sentido interior
A apenas 30 minutos de Alphaville.

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Ingressos:
  • PISTA
Lote promocional R$75,00 - até 9 de abril ou enquanto durar o lote*
2º Lote R$95,00 - até 29 de abril ou enquanto durar o lote*
3º Lote R$115,00 - após o dia 30 de abril e enquanto durar o lote*

  • PISTA PREMIUM 
Lote promocional R$145,00 – até 9 de abril ou enquanto durar o lote*
2° Lote R$185,00- até 29 de abril ou enquanto durar o lote*
3° Lote R$215,00 - após o dia 30 de abril e enquanto durar o lote*

  • venda aqui no Rio de Janeiro:
Óticas Carol - Barra Shopping
Óticas Carol - Copacabana (Av. Nossa Senhora De Copacabana, 683 Letra A Box 2)


Mais informações no site do evento:
http://www.chemicalmusic.com.br/2011/

quinta-feira, 31 de março de 2011

cotidianas #74 - Hoje eu vou comer sua bunda


"A bunda é cara da alma do sexo."
Charles Bukowski



D esde aquela noite percebeu que as coisas não seriam tão simples quanto tinham lhe parecido antes. Para satisfazer seu mais novo hábito não poderia simplesmente vestir-se, virar as costas e ir embora. Não, aquilo sempre exigiria alguma medida mais séria. Só que agora que tinha gostado e sabia que ia querer fazer aquilo de novo.
Tudo começou com uma raspadinha de dentes, com um mordiscada no traseiro do rapaz. Adorava bundas, bundas masculinas, as admirava, as desejava, verdadeiramente as cobiçava. Não como a maioria das mulheres com aquela admiração pouco palpável, ou melhor, até palpável porém pouco objetiva. Sim, porque há de se admitir que a fixação do homem pelo traseiro do sexo oposto tem a objetividade da posição, do domínio, do instinto, da voluptosidade da mulher, e de uma eventual e afortunada penetração por trás, ao passo que a da mulher costumeiramente é mais visual, mais contemplativa e, se tanto, se limita no mais das vezes, a não ser em casos mais extremos de taras, sadomasoquismos ou fetiches específicos, a beliscões, tapinhas, circustanciais lambidas e para as mais ousadas ou íntimas, leves dentadinhas às vezes.
Mas ela era diferente. Esta tinha a motivação daquele objeto e normalmente ansiava por um contato mais forte: uma enterrada de unhas nas carnes suculentas, um dedo mais abusado, uma inversão do cachorrinho mesmo sem ter pênis. Ah, se tivesse pênis de vez em quando! O que não faria com aquele macho, ali, de quatro...
Não era insatisfeita com sua condição de fêmea. Adorava ser mulher, adorava ser penetrada, possuída pela frente e por trás, como fosse. Submetida conforme sua vontade, é claro, mas a mera perspectiva de proveito prático daquela posição a seduzia. Suas tentativas de ousadias com dedos quase sempre eram repelidas, salvo raras exceções; tapinhas costumavam ser bem entendidos e correspondidos, tirando uma vez que um desses aí interpretou mal, achou que ela gostava de apanhar, abusou um pouco da força o que a obrigou a chamar por socorro, que por sorte veio logo antes que ele conseguisse lhe aplicar outro soco; mas via de regra sua postura propositiva não era muito bem encarada e costumava intimidar alguns parceiros e até mesmo afastar namorados. Por isso ultimamente resolvera maneirar. Limitava-se mesmo aos beliscos e leves abocanhadas até ver em que terreno estava pisando.
Foi assim com o rapaz que conhecera naquela noite. Danceteria-beijos-mãos-carro-motel e lá estavam os dois nus começando aquele ritual preliminar longo e molhado. Mamilos-nucas-coxas-barrigas-costas e ela consegue deixá-lo deitado de bruços na cama. De joelhos na cama, leva a cabeça até a altura da bunda do rapaz, abre lentamente a boca soltando um bafo quente e ameaçador que ele não vê, só sente o quente da respiração. Dá então uma raspadinha com os dentes de baixo para cima e uma mordiscada de leve na parte mais rechonchuda daquela bela bunda, à que ele parece reagir com um arrepio.
Sem levantar muito a cabeça, ofegante como uma onça, com um aspecto selvagem e mirando o rosto dele pelo espelho, ela então anuncia:
- Hoje eu vou comer a sua bunda!
Ele sem se abalar, sem abrir os olhos, acha graça da exclamação de desejo tipicamente masculina. Ri da piada. Mas a risada é interrompida por um assustador grito de dor. Salta para o lado levando a mão à nádega esquerda. Olha atônito para a mão: sangue!
- Tu é maluca? Tu é maluca? Eu vou te matar, sua vaca! Eu vou te matar! - e em meio à fúria, ainda consegue ficar surpreso ao perceber que ela, inacreditavelmente, está mastigando com prazer e satisfação. Mastigando um pedaço dele. Um naco da sua bunda!
- Sua desgraçada! Ó o que tu fez comigo? – e grita, grita mais alto enquanto ela acaba de engolir o pedaço que tirara daquele corpo delicioso.
Ela, com a cara praticamente toda suja de sangue, continua olhando para ele com um olhar fixo, parado, felino e ameaçador, como quem já sabe que depois de um ato como este não poderá simplesmente vestir-se virar as costas e ir embora. Então sai da cama, abaixa-se tranquilamente, pega um pé do seu scarpin preto, dá dois passos em direção a ele, que diante daquele avanço ameaçador vê trocar sua fúria matadora de segundos atrás pelo acuamento tal qual o de uma criança indefesa, e crava-lhe o salto do sapato entre o pescoço e o ombro.
Ele fica indeciso por um instante entre tentar estender os braços até ela para tentar agarrá-la, ou atender ao sangue que jorra abundante e impiedosamente. Opta, por fim, pela segunda alternativa mas sem efeito. É muito sangue. Perde sangue demais e em pouco tempo lhe faltam totalmente as forças e se esvai o último fio de vida.
Ela então respira fundo, pensa com calma, planeja: aquilo ali é um motel, centenas de pessoas vão lá por dia, se fossem procurar digitais, encontrariam milhares; na boate, no escuro passariam por mais um casal qualquer na noite, na saída não chamariam mais atenção que quaisquer outros; na entrada do motel provavelmente a moça prestara mais atenção ao motorista do que nela. Com sorte não teria chamado muita atenção em nenhuma destas situações. Tratou de recolher qualquer coisa que a identificasse, que pudesse comprometê-la e agora só restava sair dali.

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“HOMEM MORTO EM MOTEL COM MUTILAÇÕES"; ou

“SEXO E BRUTALIDADE EM MOTEL DA CAPITAL”; e ainda,

“HOMEM ENCONTRADO MORTO EM MOTEL SEM PEDAÇO DA NÁDEGA”.

Eram as manchetes principais das páginas policiais dos jornais no dia seguinte. Tudo vago. Em nenhum deles alguma menção mais objetiva à acompanhante. Um dizia “moça bem apresentável”, outro, “mulher não identificada”, outro “garota de programa”, sempre com informações desencontradas quanto ao tipo físico. Parecia que safara-se. O leão-de-chácara da boate dizia ter visto uma morena saindo com o rapaz, a moça da portaria do motel vira uma loira no banco do carona; o flanelinha dizia que era meio coroa; um amigo do rapaz afirmava que não tinha mais de 25; o barman da boate dizia que era bem alta, uma transeunte da madrugada teria visto uma baixinha. A que poderia ser a melhor testemunha, a garçonete do motel que fora chamada no quarto para limpar alguma coisa não conseguira ver ninguém porque a mulher, ou quem quer que fosse, provavelmente estava atrás da porta uma vez que assim que entrara no quarto com a vassoura e o balde, fora golpeada na cabeça e só lembrava de ter acordado horas depois nua. Tinha também um mendigo que a teria visto abandonar um avental e um gorro na rua, estava muito bêbado para se dar crédito para qualquer coisa que dissesse. Bingo! Estava limpa.
Agora aliviada pela impunidade praticamente garantida daquele ato terrível, finalmente conseguia saborear as sensações da noite anterior. O tamanho da sua ousadia, do seu atrevimento, a excitação que aquilo causara. E aquela mordida, daquele jeito, nunca tinha ido tão longe, uma dentadinha vá lá mas cravou-lhe os dentes, tirara um pedaço, e o pior, tinha gostado daquele ato. E a carne, o sangue... E o sabor? Até que não era ruim. Não, não, era bom mesmo. Tinha gostado e sabia que ia querer fazer aquilo de novo.
Sucedeu que começaram a ser encontrados corpos de homens em lugares variados; motéis, casas de praia, de campo, apartamentos, barracos, terrenos baldios; todos eles com um traço em comum: a ausência de pedaço substancioso de nádega. Peritos garantiam que tinham sido arrancados por dentes. Dentes humanos!
A polícia começava a ter pistas daquela curiosa serial-killer e o cerco contra ela se fechava, afinal de contas não era uma profissional, nunca sonhara em ser uma assassina em série - as circunstâncias a fizeram assim - e desta maneira, neófita na prática criminosa cada vez mais cometia erros, deixava traços e tornava-se então uma presa possível e cada vez mais próxima da justiça. Mas não estava exatamente preocupada com isso. Sabia que mais cedo ou mais tarde seria apanhada mas enquanto isso aproveitava o máximo para desenvolver sua tara que agora agregara este caráter assassino.
As autoridades policiais tinham pistas quentes de possíveis locais que frequentava: shopping centers, barzinhos, museus, etc. Tinham a informação de que naquela noite possivelmente estivesse naquela boate badalada da zona sul. Havia pelo menos três detetives à paisana atentos circulando pela boate. Um deles se aproxima do balcão e pergunta ao barman por uma descrição de uma moça, mais ou menos 27 anos, altura média, olhos castanhos, bonita...
- Passa um monte dessas por aqui toda noite, cara! Como é que eu vou saber!
O policial então, meio desapontado, afasta-se do bar e dirige-se ao banheiro meio conformado. Vai dar uma mijada pra planejar uma melhor maneira de encontrar a canibal filha-da-puta.
Enquanto ele se afasta, uma moça bonita de cabelos e olhos castanhos, não muito alta, aproxima-se do bar e dirige-se a um rapaz que está ali parado sozinho tomando uma cerveja:
- Me paga uma bebida?

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