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terça-feira, 7 de junho de 2011

cotidianas #85 - NOMES


"Nome", Arnaldo Antunes
Essa coisa dos nomes das pessoas é algo que pode ser muito curioso às vezes. Uma amiga me contou que certa vez, tendo levado seu filho pequeno a um posto de saúde, aguardava na sala de espera a chamada pelo nome do menino e entre Felipes, Vitórias, Pedros e Alices, de repente a enfermeira põe a cabeça pra fora da sala e sai com um "Micarráquinem da Silva". Micarráquinem da Silva??? Pode?

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Pais são fogo. Se forem pobres, então, são um perigo. Não é preconceito, é conceito formado baseado em observação. Notem como na maioria das vezes estes nomes de homenagem a personalidades importantes, a personagens de novela, aquelas combinações malucas do nome do pai com o da mãe normalmente vem das classes mais baixas. É duro dizer mas é verdade. O meu mesmo, que não é nenhum absurdo mas também não é la comum, é uma homenagem a um jogador dos anos 70 que eu nem sei em que time jogava. Mas gosto dele. gosto mesmo. O problema é que ninguém consegue pronunciar direito e eu sempre tenho que repetir mais de uma vez.

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A propósito de nome de jogador, houve uma obra e que eu estava trabalhando onde me pareceu um Hideraldo. Um dia estava conversando com ele num intervalo qualquer e perguntei se o nome era por causa do Hideraldo Luís Bellini, jogador da Seleção Brasileira de 1958. Ele então, 'caindo a ficha', respondeu, "ah, bem que eu sabia que o meu nome tinha a ver com o de algum jogador". Expliquei pra ele de quem se tratava, que o Belllini tinha jogado em 58, que tinha sido o primeiro jogador brasileiro a levantar a taça e que até tinha uma estátua dele em frente ao Maracanã. Acho que ele gostou de saber que o nome era mas importante do que jamais imaginara.
Mas esse Hideraldo não tinha nada lá muito a se elogiar: dias depois já começou a faltar, outro dia chegou bêbado e logo depois sumiu levando o uniforme e a botina da empresa.

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Ainda sobre jogadores de futebol teve um cara que registrou o filho com os nomes de todos os titulares da Seleção brasileira de 70. Sério!
Félix Carlos Alberto Brito Piazza Everaldo Clodoaldo Gérson Pelé Jair Tostão Rivellino... de Souza, da Silva, Pereira ou qualquer coisa assim.

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Na época que eu tinha um time de bairro, de futebol sete, mesmo tendo o time base, aqueles de fé, volta e meia rolava uma certa rotatividade e alguma dispensa ou inclusão acontecia. Sempre que ficávamos sabendo de alguém com futebol interessante, com potencial, com qualidades, dávamos uma conferida, chamávamos pra bater uma bola informalmente e íamos, por assim dizer, negociar a contratação. Assim que soubemos por um dos nossos jogadores que um carinha novo que tinha ido morar numa vilinha perto do campo onde jogávamos era bom de bola, jogamos uma pelada de fim de tarde, comprovamos a categoria do sujeito e o convidamos pra jogar conosco. Como ele era novo no bairro, não tinha compromisso com outro time, fechou com a gente mesmo. Era conhecido por João porque era assim que chamava às pessoas de quem não sabia o nome, mais ou menos como o Garrincha se referia às suas 'vítimas', de quem nem valia a pena saber o nome porque eram todos iguais e iam ficar estatelados no chão mesmo. Todos uns Joões! E ele preferia que fosse assim uma vez que era sabido que não gostava do próprio nome. No máximo permitia que lhe chamassem do segundo nome, Vinícius. Durante muito tempo chamamos aquele cara apenas de João sem saber  efetivamente qual o seu verdadeiro nome, até porque coisas como esta no futebol de rua, de bairro, de amigos, não fazem a menor diferença. Mas um dia deu de haver um campeonato e ser necessário uma inscrição e aí o João teve que revelar seu nome: "Alcione Vinícius", revelou ele contrariado.
Alcione...
- Tenho a maior bronca do meu velho por causa disso. - dizia ele.

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Soube também de um caso interessante: os pais, tendo alguma 'inspiração' daquelas de gosto bastante duvidoso resolveram botar no filho quando nascesse um nomezinho, no mínimo, complicado. Como desta história não sei detalhes vou chamar o garoto de Athaualpakauê, Ok? 
Então... O fato é que ninguém conseguia aprender nem pronunciar o nome do futuro bebê. Nem avós, nem tios, nem amigos, ninguém. Passou-se a gestação inteira com o nome decidido e com as pessoas quase engolindo a língua para falar o nome da criança que estava por vir. Atapauê, Atacapalauê, Atanásio Cauê. Deu-se então que nascida a criança, e com os pais entendendo a dificuldade dos parentes, as complicações que poderiam acontecer na escola, na vida social e tudo mais, tiveram bom senso e resolveram mudar o nome. O pai saiu da maternidade e foi registrar então o filho com o nome mais comum, digamos José, por exemplo, de modo a facilitar totalmente pra todo mundo. Mas aí era tarde demais: todos, apesar da dificuldade já tinham aprendido, acostumado, comprado presentes, toalhinhas, babadores, caminhas, brinquedos gravados com o complicadíssimo nome antigo e por pior que fosse já estava consagrado. Aí que mesmo registrado José, é chamado e conhecido pelo nome que era pra ser mas que acabou não sendo. Athaualpakauê.

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Cly Reis

Antônio Carlos Jobim - "Urubu" (1976)



" Jereba é urubu importante como, aliás, todo urubu. Mas entre eles, urubus, observam-se prioridades. E esse um é o que chega primeiro no olho da rês. Sem privilégios. Provador de venenos, sua prioridade é o risco(...)"
Tom Jobim (trecho do texto da contracapa do disco)


Já consagrado, o maestro Antônio Carlos Jobim, embrenhava-se a partir do disco “Matita Perê” de 1973, por caminhos pouco explorados por sua obra, colorindo-a mais ainda de verde e amarelo. Não que seu trabalho, mesmo embasado no erudito e recheado de jazz não fosse legitimamente brasileiro; suas influências, suas cadências e sua levada indesmentivelemente sambista não deixam margem de dúvida, mas a partir daquele momento e especialmente com “Urubu” de 1976, Tom agregava à sua música elementos da natureza, da fauna e flora brasileiras, paisagens, tradições, cânticos regionais e instrumentos típicos. Provas disso são a gostosa “Correnteza” com seu jorro de frescor; a sutil sugestão de integração homem-natureza de “Arquitetura de Morar”; a evocação (meramente sonora) de paisagens em "Saudades do Brazil"; e sobremaneira a espetacular “O Boto” com sua introdução de berimbau que dá sequencia a um arranjo que imita natureza, incrementado por inserções de apitos e sons de pássaros, e versando sobre lendas e contos brasileiros.
Mas o disco não se resume a estas recentes brasilidades de Tom e traz canções mais tradicionais dentro de seu estilo e discografia como a romântica “Lígia”, a tristonha “Ângela”, o valseado forte de ”Valse” do filho Paulo Jobim e a intensa e dramática “O Homem” que encerra a obra.
Com arranjos de Claus Ogerman e acompanhamentos de sua orquestra, escolhidos pelo próprio Tom, “Urubu” mostra um compositor maduro e completamente senhor de si, brincando livremente com todo seu talento e técnica produzindo uma obra única e admirável.
Álbum para se ter me LP. Disco com lado A e lado B: o primeiro todo com os vocais roucos e característicos do mestre Tom, incluindo uma participação de Miúcha em "O Boto"; e o lado 2 somente com temas orquestrados instrumentais extemamente refinados e sofisticados.
Obra de arte!
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FAIXAS:

1- Bôto (Porpoise)
Antonio Carlos Jobim / Jararaca
2- Lígia
Antonio Carlos Jobim
3- Correnteza (The Stream)
Antonio Carlos Jobim / Luiz Bonfá
4- Ângela
Antonio Carlos Jobim
5- Saudade do Brazil
Antonio Carlos Jobim
6- Valse
Paulo Jobim
7- Arquitetura de morar (Architecture to live)
Antonio Carlos Jobim
8- O Homem (Man)
Antonio Carlos Jobim
 
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Ouça:
Tom Jobim Urubu




Cly Reis

segunda-feira, 6 de junho de 2011

"According to The Rolling Stones: A Banda Conta sua História"



Chega ao Brasil com 8 anos de atraso em relação à edição original, "According to the Rolling Stones: A Banda Conta Sua História", uma coletânea de entrevistas dos próprios integrantes retratando os primeiros 40 anos da banda. Keith, Mick, Ron e Charlie remexeram numas entrevistas dadas em 2002, compilaram, revisaram o material e, em parceria com a empresária Dora Lowenstein, botaram na roda pra galera relatos interessantes, curiosos, impressionantes e tudo mais que se possa esperar dos velhos Stones. Os próprios integrantes trataram, além de organizar os textos, de escolher as fotos que ilustram o trabalho, lançando mão inclusive de seus acervos pessoais.
Não tem como não ter satisfação com isso, hein.

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"According to The Rolling Stones: A Banda Conta sua História"
de Mick Jagger, Keith Richards, Ron Wood, Charlie Watts e Dora Loweisntein
Ed. Cosac Naify
360 páginas
R$119,00


C.R.

domingo, 5 de junho de 2011

cotidianas #84 - Um Elogio


-Com licença, moça – abordou-a cutucando seu ombro.
- Sim...
- Com todo o respeito, – e sou testemunha de que fora com o devido anunciado respeito, uma vez que o personagem desta pequena historieta foi por mim concebido e criado e, junto com seu aspecto nada desprezível, com seu modo de vestir até bem apresentável, com seus modos, bons a julgar-se bons pela abordagem, criei também seu caráter e suas intenções, às quais posso afiançar, não foram vis nem torpes quando, manifestou aquela impressão que pretendia fazer natural e inocente – tem gente que elogia os olhos de outra pessoa, tem gente que elogia o nariz – e neste momento a moça já sorria pressentindo um agrado maior que os que previamente enumerava o moço – mas eu não pude deixar de notar no seu... bumbum, no seu traseiro. A senhorita tem uma bunda muito bonita.
Ela mudou de expressão de gosto: desfez o sorriso num aspecto de quase fúria, arregalou os olhos, expirava aceleradamente pelo nariz e sua face enrubescera inteiramente. Não falou nada naqueles segundos que se seguiram. Apenas, agitada, virava o pescoço procurando alguma coisa à volta, até que avistou.
- Policial, policial! – chamou em voz alta o suficiente para que a escutasse a uma certa distância.
- Que isso, moça, não precisa isso. Foi só um elogio – tentava acalmar a garota enquanto o policial que cuidava do trânsito ali na esquina ia-se dirigindo até onde estavam os dois.
- Pois não.
- Esse tarado me assediou sexualmente.
- Não foi nada disso, seu policial, eu só fiz um elogio pra moça, eu... – e foi bruscamente interrompido pela queixante.
- Ele estava olhando pra minha bunda, ele disse que gostava da minha bunda, que a minha bunda era isso e minha bunda era aquilo. – finalizou a queixa fazendo uma espécie de beicinho de choro.
- E então, malandrão, é assim? Quer dizer que tu fica mexendo com as moças na rua? – inquiriu o guarda num tom desafiador.
- Não foi nada disso seu guarda, eu posso explicar. Posso explicar?
- Te explica, então, ô mané.
- Não foi um assédio, nem uma ousadia, nem uma ofensa, nem tara nem nada, seu guarda. É que... o senhor sabe quando a gente vê uma coisa muito bonita e não consegue deixar de manifestar? Tipo, ‘que pôr-do-sol maravilhoso!’, ‘que filme!’, ‘que golaço!’, sabe? Pois é. Eu só não pude deixar de falar. E tive que falar pra quem merecia o elogio. Pra quem pudesse se orgulhar do que tem. Foi com todo o respeito. Eu inclusive comecei assim, ‘moça, com todo o respeito’, não foi?
Ela meio contrariada, confusa e constrangida respondeu hesitante: -Foi...
- Bom, moça. Eu acho que o rapaz aqui não fez nada de muito sério.
- Como assim? O senhor vai deixar ele ir embora assim. – indignada.
- Não posso prender ninguém por elogiar outra pessoa e além do mais, se a dona me permite, ele tem razão, a moça tem um... uma... é muito bonito mesmo.
- Mas que absurdo! Não dá pra contar nem com a polícia mais. Que abuso. Deixa’ssim, deixa’ssim – e foi saindo desarvorada enquanto o guarda voltada para o sinal rindo e balançando a cabeça negativamente e o rapaz tomava seu rumo e ia seguir a vida.
Ela chegou em casa ainda bufando, abriu a porta nervosamente e bateu para fechar, jogou a bolsa sobre o sofá e entrou apressada no quarto. Parou em frente ao espelho e tirando os brincos ainda sussurrava para si mesma, “Que absurdo, que absurdo!”
Começou a tirar a roupa para tomar um banho e no atabalhoamento da raiva quase caiu na perna da calça. “Absurdo, absurdo!”
Mas agora já começava se acalmar. Afinal, não tinha sido tão sério assim. Por mais inconveniente que tivesse sido, o rapaz não lhe passara a mão, não a chamara de gostosa nem nada vulgar. Só fizera um elogio. Só. Podia ter-lhe elogiado os cabelos, os ombros, os tornozelos e não teria ficado ofendida. Pensando bem exagerara um pouco. “Ai que vergonha”, pensava agora.
- Deixa pra lá. Vou tomar meu banho.
E, só de calcinha, quando já ia sair da frente do espelho e tomar rumo do banheiro, não pôde deixar de deter o olhar na própria bunda. Virou o corpo melhor, girou o pescoço. Até que era graciosa. Não pôde também deixar de soltar um leve sorriso, de vaidade, satisfação provavelmente. Nunca gostara muito da própria bunda.


Cly Reis

O Frango Atirador