terça-feira, 4 de outubro de 2011
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
cotidianas #106 - "O Estrangeiro"
O pintor Paul Gauguin amou a luz na Baía de Guanabara
O compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela
A Baía de Guanabara
O antropólogo Claude Levy-strauss detestou a Baía de Guanabara:
Pareceu-lhe uma boca banguela.
E eu menos a conhecera mais a amara?
Sou cego de tanto vê-la, te tanto tê-la estrela
O que é uma coisa bela?
O amor é cego
Ray Charles é cego
Stevie Wonder é cego
E o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem
Uma baleia, uma telenovela, um alaúde, um trem?
Uma arara?
Mas era ao mesmo tempo bela e banguela a Guanabara
Em que se passara passa passará o raro pesadelo
Que aqui começo a construir sempre buscando o belo e o amaro
Eu não sonhei que a praia de Botafogo era uma esteira rolante deareia brancae de óleo diesel
Sob meus tênis
E o Pão de Açucar menos óbvio possível
À minha frente
Um Pão de Açucar com umas arestas insuspeitadas
À áspera luz laranja contra a quase não luz quase não púrpura
Do branco das areias e das espumas
Que era tudo quanto havia então de aurora
Estão às minhas costas um velho com cabelos nas narinas
E uma menina ainda adolescente e muito linda
Não olho pra trás mas sei de tudo
Cego às avessas, como nos sonhos, vejo o que desejo
Mas eu não desejo ver o terno negro do velho
Nem os dentes quase não púrpura da menina
(pense Seurat e pense impressionista
Essa coisa de luz nos brancos dentes e onda
Mas não pense surrealista que é outra onda)
E ouço as vozes
Os dois me dizem
Num duplo som
Como que sampleados num sinclavier:
"É chegada a hora da reeducação de alguém
Do Pai do Filho do espirito Santo amém
O certo é louco tomar eletrochoque
O certo é saber que o certo é certo
O macho adulto branco sempre no comando
E o resto ao resto, o sexo é o corte, o sexo
Reconhecer o valor necessário do ato hipócrita
Riscar os índios, nada esperar dos pretos"
E eu, menos estrangeiro no lugar que no momento
Sigo mais sozinho caminhando contra o vento
E entendo o centro do que estão dizendo
Aquele cara e aquela:
É um desmascaro
Singelo grito:
"O rei está nu"
Mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato de que o rei é mais bonito nú
E eu vou e amo o azul, o púrpura e o amarelo
E entre o meu ir e o do sol, um aro, um elo.
("Some may like a soft brazilian singer
but i've given up all attempts at perfection").
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"O Estrangeiro"
Caetano Veloso
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
Sonic Youth - "Daydream Nation" (1989)
"Depois daquilo,
eu sabia que precisava ser música.
Voltamos para casa
sem darmos um pio, assustadíssimos."
eu sabia que precisava ser música.
Voltamos para casa
sem darmos um pio, assustadíssimos."
Kim Gordon contando sobre
um show do Suicide que assistiu
e que a incentivou a ter uma banda
um show do Suicide que assistiu
e que a incentivou a ter uma banda
Não há como se falar em música alternativa sem falar do Sonic Youth. Eles são praticamente sinônimo e síntese do termo. Eles não 'invetaram a roda', não criaram aquelas sinfonias de ruídos que já se ouvia com Hendrix, Velvet, Kinks, Sonics, Stooges, mas deram a estes elementos sua assinaratura e hoje em dia, sempre que se ouve aquelas guitarras insistentes, estáticas, aquelas barreiras sonoras densas, intransponíveis se associa logo a Sonic Youth.
Mesmo com uma discografia bem consistente na qual pode-se destacar vários álbuns, “Daydream Nation” de 1989 destaca-se e pode ser apontado como a obra-prima da banda. Seu punk rock é encorpado, suas melodias transitam entre o belo e o corrosivo, os vocais, principalmente os de Kim Gordon, seduzem ao mesmo tempo que cospem fogo, e suas guitarras explodem em passagens de tempo e transições longas e caóticas.
“Teen Age Riot “ abre o disco com acordes suaves e adoráveis mas logo ganha corpo adquirindo uma pegada mais consistente sem deixar de ser jovial; “Candle”, outra excelente, também passeia no limite do belo e do furioso. A destruidora “'Cross the Breeze” é a melhor do disco partindo de uma introdução lenta e leve que acelera abrupatamente transformando-se num hardcore violento, impiedoso e sensacional. "Kissability" é sexy; "Rain King" é retumbante; "Eric's Trip" é outra das melhores do disco e da banda; e “Trilogy” que encerra a obra traz em cada uma de suas partes, “The Wonder”, "Hyperstation” e “Eliminator Jr” características diferentes mas que harmonica e desarmonicamente compõe, por fim, uma perfeita unidade.
Disco indispensável de uma das bandas mais importante e influentes dos últimos tempos.
Sinônimo de alternativo!
Sonic Youth=Underground.
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FAIXAS:
- "Teen Age Riot" (letra/vocal Moore, Gordon na introdução) – 6:57
- "Silver Rocket" (letra/vocal Moore) – 3:47
- "The Sprawl" (letra/vocal Gordon) – 7:42
- "'Cross the Breeze" (letra/vocal Gordon) – 7:00
- "Eric's Trip" (letra/vocal Ranaldo) – 3:48
- "Total Trash" (letra/vocal Moore) – 7:33
- "Hey Joni" (letra/vocal Ranaldo) – 4:23
- "Providence" (vocal Mike Watt) – 2:41
- "Candle" (letra/vocal Moore) – 4:58
- "Rain King" (letra/vocal Ranaldo) – 4:39
- "Kissability" (letra/vocal Gordon) – 3:08
- Trilogy: – 14:02
b) "Hyperstation" (letra/vocal Moore) – 7:13
z) "Eliminator Jr." (letra/vocal Gordon) – 2:37
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Dossiê ÁLBUNS FUNDAMENTAIS
Agora, dobrando a esquina das 100 edições, cabe uma pequena retrospectiva da seção que começou basicamente como destaques pessoais com comentários breves sobre, na maioria das vezes, CD's que eu levava no carro indo para o trabalho, mas que pela própria frequencia de visitação, troca de ideias, comentários, sugestões, etc., acabou ganhando uma certa importância dentro do blog. Dividindo as principais atenções dos amigos e visitantes com o perverso Frango Atirador, os ÁLBUNS FUNDAMENTAIS passaram a exigir deste blogueiro uma maior responsabilidade de informação, mais pesquisa e (uma tentativa de) maior qualidade dos textos. O formato se aperfeiçoou, as resenhas ficaram mais incrementadas com vídeos, downloads e letras, e participações especialíssimas de amigos abrilhataram as análises. Tive neste período o privilégio das participações do meu primo-parceiro-irmão-hermenêutico Lúcio Agacê; do antenadíssimo, porém tímido enquanto colunista, José Júnior; do brilhante e profundo conhecedor de rock Eduardo Wolff; e do meu irmão, Daniel Rodrigues, com seu ecletismo e seus textos sempre apaixonados e competentíssimos.
Virando a página destes primeiros cem álbuns, dentro de uma linha de coerência, o ClyBlog procurou mirar em todos os segmentos possíveis, sem preconceitos e tentando não cometer nenhuma grande injustiça, sem deixar contudo, de ser extremamente pessoal, independente e descomprometido nas escolhas. Na maioria das vezes é na emoção mesmo, tipo, 'puxa, tenho que falar sobre esse disco', mas às vezes vem a razão e aí se tenta equilibrar estilos, décadas, tenta-se não repetir muito os mesmos, não puxar muito pros xodós, e coisas do tipo.
A propósito de repetir, nestes primeiros cem, apenas Rolling Stones, The Beatles, PIL, Miles Davis, Bob Dylan, Jorge Ben e David Bowie fizeram dobradinhas e até agora, ninguém botou três fundamentais na roda Quem será o primeiro?
No que diz respeito às décadas, o placar de destaques é o seguinte:
- 2 dos anos 30, "Carmina Burana" e Robert Johnson, sendo que este último só saiu em 1990;
- 2 dos anos 50, (Elvis e Miles Davis) ;
- 19 dos anos 60;
- 31 dos anos 70;
- 25 dos anos 80;
- 17 dos anos 90;
- 3 dos anos 2000;
- + um especial com uma lista de melhores de todos os tempos
Talvez a de 60, tida como a grande década do rock pudesse ter mais representantes; talvez devêssemos ter mais dos anos 50, a década do surgimento do rock; talvez os anos 40 merecessem unzinho que fosse; talvez devesse olhar mais para o nosso novo século... Bom, nada é perfeito. Mas também nada está descartado. Aos poucos justiças vão sendo feitas, importâncias vão sendo dadas e assim por diante. Vamos em frentre, postando e ver o que acontece.
Prontos para mais cenzinho então?
C.R.
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