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domingo, 5 de fevereiro de 2012

cotidianas #135 - Dentro



“... se conduzíssemos o otimista crônico pelos hospitais,
enfermarias e salas de operações cirúrgicas,
pelas prisões, câmaras de tortura e choças de escravos, por campos de batalha e locais de execuções;
se abríssemos para ele todas as moradas da miséria (...)
e, finalmente, deixássemos que ele olhasse para dentro dos famintos calabouços de Ugolino,
 também ele iria compreender, afinal, a natureza deste ‘melhor de todos os mundos possíveis’”.

de “O Mundo como Vontade e Ideia”


Tudo rangia. “Que saco!”, praguejava. Mas também não fazia nada para arrumar. “Que importa?” Lembrava-se de sua mãe, curvada e ridiculamente velha, dizendo: “apartamento velho é assim” – como se ela também não fosse; como se ela também não rangesse. Mas quando o apartamento é velho e descuidado, o resultado não pode ser outro. Tudo rangia: portas, chão, pia, janelas, cama, latrina, cadeiras, sofá. Arrepiava-se sempre que tinha que adentrar ao quarto, pois o som que a porta e o piso produziam sinfonicamente juntos era quase uma frase atonal: torta, irritante e sem sentido. Mas nem por isso fazia alguma coisa. Deixava assim. Ia deixando. “Uma hora isso se resolve. Ou então que vá tudo prum buraco mesmo!”
Sempre que ia à privada, por exemplo, a engrenagem da descarga produzia um urro sufocado que parecia humano, e que ia ficando cada vez mais humano semana após semana. Na verdade, a tubulação toda produzia tanto ruído que lhe parecia haver uma comunidade inteira viva por detrás do reboco, com pessoas que hora e outra conversavam, discutiam, riam, choravam, mexiam-se, e isso mesmo quando não corria água – o que lhes justificaria minimamente a existência dentro daqueles canos de metal tomados de ferrugem e limo. Às vezes tinha clara a impressão de que morava gente ali.
Mas o que importavam esses “dejetos materiais”, os objetos, as coisas inanimadas? Era tudo um saco, mas viver sozinho, pelo menos, lhe garantia que ninguém ia lhe importunar. Nenhuma voz pra incomodar, nem de mãe, nem de filho, nem de ex-mulher, nem de putas. Uma vez, depois de gozar dentro de uma vadia, acometeu-lhe uma certeza inexplicável de que só se sentira feliz nessa vida porca e suja quando estivera no útero. Hoje, ele ri do episódio, pois acha engraçado lembrar como terminou aquela transa: mandando-a embora de sua casa, irado e chorando, a golpes com o fio do abajur. Ela gritava: “pára! Pára, seu merda!” E ele dizia, sabe-se lá porque: “Ixíon, sua vadia!! Ixíon!!” Esbravejava, num prazer enlouquecido bem melhor do que o da gozada. Acordou todo o prédio aquela noite.
Agora, lembrava-se e ria, ria. Ria muito, convulsivamente. Babava-se. E para si. Para a casa. Pois nada fazia diferença: podia gritar ou emudecer-se que não faria a menor diferença. Para que mantinha aqueles livros empoeirados na estante? Letras, Filosofia, mais letras, hunff! Para que, se já lera e embaralhara tantas nesses mais de 50 anos? O que isso lhe trouxe? E as fotos sobre a mesa: “para quê?”, indagava-se, mas não achava resposta alguma. Estavam lá os porta-retratos do filho crescido e ausente, outro do filho morto, outro da ex-mulher – infelizmente viva e presente –, da sacal mãe e até daquele cachorro insuportável que enchia de pelo toda a casa (e que graças a Deus já morreu também!). E por que não os recolhia e socava tudo num baú? Não sabia. Talvez porque não tivesse baú... só por isso.
Sem ter outra coisa pra fazer, foi mijar. Acendeu a luz do banheiro, tão clara que resplandecia até o teto daquele pé direito tão alto que parecia tocar o céu. Descarregou a urina com toda a autocomplacência que nem achava que merecia e, num automatismo estúpido e sem vontade, deu a descarga.
- Ei, você.
Falou.
- É, você mesmo.
Fez-se um breve silêncio, mas logo em seguida, na boa acústica típica dos banheiros, a voz reverberou novamente:
- Não vai me responder? – disse, naquele tom falsamente choroso de quem fica magoado pelo silêncio do outro.
- Si... sim, mas... o que você quer? – respondeu àquela voz que emanava de dentro do vaso como se aquilo fizesse algum sentido.
- É, meu amigo: “Quanto mais distintamente o homem souber, mais dor ele terá”, não é, senhor das vontades já cumpridas?
Silêncio (de concordância).
- Está em Schopenhauer...
- Quê, Schopenhauer?! – saltou-lhe com violência da boca a pergunta, que recebeu, em troca, uma resposta cinicamente leve:
- É: Schopenhauer. Arthur Schopenhauer – disse a voz –. Sei que se decepassem tua cabeça do corpo agora ela ia imediatamente cravar os dentes no teu braço. Iam lutar entre si como idiotas, feito uma formiga-buldoque, não é? Rárá! Claro que sim! Eu sei, eu sei. Tu bem sabes também.
- É... eu sei...
A voz do urro, até então irônica mas sempre no mesmíssimo timbre sufocado de quando só urrava, endureceu:
- Então, o que vai ser?
- ...
- E?...
- É, eu vou.
- Muito bem, meu rapaz! Muito bem. Assim é que se fala. Isso: faça assim mesmo como estás.
Hesitou um pouco no silêncio gélido do banheiro. Mas foi. Não tirou nem a roupa. Entrou dentro do vaso, escorregando com desenvoltura pela louça. Já totalmente lá dentro, tirou para fora o antebraço e, com o indicador, deu um toquinho no tampo, que caiu quicando sobre o assento.
Depois daquele estrondo, o eco se perdeu e a calmaria reinou. Tudo ficou escuro, quente e úmido outra vez.

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cotidianas #134 - "Geni e o Zepelim"




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De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada.
O seu corpo é dos errantes,
Dos cegos, dos retirantes;
É de quem não tem mais nada.
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina,
Atrás do tanque, no mato.
É a rainha dos detentos,
Das loucas, dos lazarentos,
Dos moleques do internato.
E também vai amiúde
Co'os os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir.
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir:


"Joga pedra na Geni!
Joga pedra na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!"


Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante,
Um enorme zepelim.
Pairou sobre os edifícios,
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim.
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia,
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo: "Mudei de idéia!
Quando vi nesta cidade
Tanto horror e iniqüidade,
Resolvi tudo explodir,
Mas posso evitar o drama
Se aquela formosa dama
Esta noite me servir".


Essa dama era Geni!
Mas não pode ser Geni!
Ela é feita pra apanhar;
Ela é boa de cuspir;
Ela dá pra qualquer um;
Maldita Geni!


Mas de fato, logo ela,
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro.
O guerreiro tão vistoso,
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro.
Acontece que a donzela
(E isso era segredo dela),
Também tinha seus caprichos
E ao deitar com homem tão nobre,
Tão cheirando a brilho e a cobre,
Preferia amar com os bichos.
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão:
O prefeito de joelhos,
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão.


Vai com ele, vai Geni!
Vai com ele, vai Geni!
Você pode nos salvar!
Você vai nos redimir!
Você dá pra qualquer um!
Bendita Geni!


Foram tantos os pedidos,
Tão sinceros, tão sentidos,
Que ela dominou seu asco.
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco.
Ele fez tanta sujeira,
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado.
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir,
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir:


"Joga pedra na Geni!
Joga bosta na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!


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"Geni e o Zepelim"
(Chico Buarque)

Ouça:
Chico Buarque - "Geni e o Zepelim"

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Giorgio de Chirico - O Sentimento da Arquitetura - Fundação Iberê Camargo - Porto Alegre (RS)










Archeologi, 1968

Toda vez que observo uma obra de arte que tem um profundo alcance estético e mental me encontro em uma viagem íntima de percepções e, mais recentemente, visitar a exposição do Giorgio de Chirico* me proporcionou esta doce viagem.
O todo é muito bom e composto por uma enxurrada de imagens e inspirações do mundo do Arquiteto/Artista/Arquiteto - a mostra leva o titulo de “O Sentimento da Arquitetura” e, nas obras, o artista permite tal confusão que funde as duas em expressões em cores em meio às ferramentas de trabalho e figuras.
Um desavisado pode achar tudo muito igual, mas de imediato vai se deparar com a tradução plástica das esculturas que saltam aos olhos de tamanha beleza e precisão. Muita precisão! É justamente neste encontro que mora o sentimento da arte, aflora e nos faz pensar, imaginar e, incrédulos, acreditar que “aquilo ali” saiu das mãos de um homem. O mesmo que mostra em várias linguagens a paixão pela profissão, idealizador e sonhador, tão impotente através da grandeza de sua obra e tão singelo também diante de tal grandeza.
"O Retorno de Ulisses"
Foi quando, justamente, que, na simplicidade dos traços, da figura, me deparei com “O Retorno de Ulisses”, óleo sobre tela, pequena comparada às demais. A imagem: traços quase infantis de um homem (Ulisses) quase que à deriva remando seu barco dentro de um quarto, supostamente um dos cômodos da casa do de Chirico é uma obra dentro de várias obras. O que me encantou? Não posso responder com objetividade. Encantou-me o surrealismo simples e preciso que fez com que todas as outras obras se tornassem pequenas aos meus olhos. “O retorno de Ulisses” é uma obra sem preço, somente para os olhos e para o coração. A pintura me valeu sentir de perto um pouco da essência desse greco-italiano.
Vale ressaltar que toda a mostra é bela e que o todo vale a pena ser visto com calma, descendo os andares da Fundação Iberê Camargo, do quarto ao térreo por seus corredores com vista para o Guaíba.



por Valéria Luna


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Serviço:
Datas: De 9 de dezembro a 4 de março de 2012
Curadoria: Maddalena D’Alfonso
Localização: Fundação Iberê Camargo, 2º e 3º andares

* Precursor do surrealismo, Giorgio De Chirico nasceu em 1888, em Vólos, na Grécia. Morou por anos na Itália, onde produziu algumas de suas principais fases, como o de seus cenários arquitetônicos, solitários, irreais e enigmáticos, onde colocava objetos heterogêneos para revelar um mundo onírico e subconsciente, perpassado de inquietações metafísicas. Admirado por Picasso e Appolinaire, Cocteau e Breton, além da pintura produzia também escultura, litografia e desenho. Sua obra é fortemente inspirada na arquitetura, principalmente da iconografia das cidades italianas de Roma, Milão, Florença e Turim, mas também de Nova York e Paris. Morreu em 1978, em Roma.





Valéria Luna é Relações Públicas formada pela ESURP – Escola Superior de Relações Públicas de Pernambuco. Teve seu exercício profissional pautado na Produção Executiva de Moda durante quase 10 anos de atuação no mercado do Nordeste, onde coordenou a Feira de Componentes Têxteis – COMTEX, por seis anos e, em 2008, criou a Rede ModaMercado – Rede de Profissionais de Moda, voltada para o agenciamento de profissionais em todo o país para a execução de ações de informação, como palestras, workshops e consultorias. Através da rede, realizou produção executiva de marcas e estilistas, ainda, eventos de moda pelo país.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Morrissey - "Viva Hate" (1988)


"Sempre uma voz interior me sussurra: 
'permaneça puro' "
Morrissey,
sobre compor as próprias melodias



O fim do The Smiths, em 1987, uma das bandas mais cultuadas, amadas, idolatradas de todos os tempos, foi traumática para os fãs. Houve muito choro, inconformidade e há registros até mesmo de suicídios. Porém o anúncio quase imediato de que seu vocalista Stephen Morrissey seguiria em carreira solo dava um alento aos seguidores, mas não sem, ao mesmo tempo, despertar uma certa desconfiança quanto ao que poderia ele, Morrissey, letrista precioso de recursos ricos e variados na língua inglesa, oferecer ao público sem poder contar com sua metade musical, o excelente guitarrista Johnny Marr, compositor de todas as melodias da banda.
Para felicidade geral, o que se viu com "Viva Hate" de 1988 foi um álbum que poderia tranquilamente ter integrado a discografia dos Smiths. Contudo não tenta soar como mera imitação ou continuidade. "Viva Hate" tem personalidade e esta é resplandescente de luz própria. Tendo chamado o engenheiro de som dos últimos dois álbuns da ex-banda, Stephen Street, para a produção, Morrissey ousava mas não se afastava muito das próprias propostas e com Street compondo as melodias e optando por linhas melódicas e compositivas semelhantes às de Marr, mantinha uma identidade forte com seu público fiel.
"Alsatian Cousin", a primeira do disco, já se encarregava de mostrar que, por mais que depois viessem a aparecer coisas que nos remetessem a uma certa banda de Manchester, não se tratava de um novo disco dos Smiths . Sobre uma linha de baixo fankeada e agressiva e com a guitarra solando praticamente o tempo inteiro, Morrissey destila uma letra sobre traição, ressentida e cheia de ciúme e rancor numa das melhores faixas do álbum, abrindo o trabalho em grande estilo. Esta literalmente emenda com a segunda, "Little Man, What Now?", outra que mostra que a dupla dos Stephens, Morrissey e Street, não estavam pra brincadeira. Morrissey com um vocal frio, quase recitativo, apresenta-nos um ex-astro de TV relegado ao esquecimento, tendo como esteira sonora uma levada acústica à mexicana, à flamenco, com ares de western, e com uma batida sintetizada alta e repetitiva. Espetacular!
A faixa que segue foi um dos hits do álbum: "Everyday is Like Sunday" é uma das mais belas composições do disco, uma letra absolutamente sensível como de costume em se tratando de Morrissey, e uma grande felicidade de produção conferindo-lhe por uma lado uma aura melancólica, mas ao mesmo tempo uma ar todo grandioso.
"Bengali in Platforms" talvez seja a mais indesmentivelmente smithiana uma vez que é uma sobra da banda e fora descartada para ser o lado-B do single "Stop Me If You Think You've Heard This One Before".  e embora tenha recebido um tratamento diferente para o trabalho solo, não consegue apagar a origem. É uma Belíssima canção com uma melodia leve, doce, gostosa para os ouvidos porém com uma letra que, nestas ondas nacionalistas europeias dos últimos tempos, é passível de repente de alguma interpretação um tanto forçada. Mas...
"Angel, Angel, Down We Go Together" é uma das mais belas do disco com um arranjo de cordas magnífico e grandioso. Morrissey tem provavelmente uma de suas melhores interpretações cantando uma súplica pela desistência de um suicídio, de uma maneira absolutamente emocionante preciso a cada nota, a cada palavra, a cada verso.
Ouvindo a tal voz: "Permaneça puro"
"Late Night, Maudlin Street" é outro dos pontos altos do álbum: um épico de quase 8 minutos repleto de lembranças e nostalgia. no entanto, o grande hit do álbum, da carreira solo do cantor e um dos maiores sucessos das últimas décadas, é "Suedehead", uma canção pop preciosa com uma melodia simples e contagiante, letra intimista e um refrão fácil e 'pegajoso', numa daquelas canções que não fariam demérito algum a Johnny Marr se tivesse sido composta por ele.
"Break Up the Family" é embalada e ritmada com sua percussão eletrônica muito interessante e bem proposta; "The Ordinary Boys" tem um piano marcante, uma bel´ssima linha de baixo e mais uma interpretação espetacular de Moz sobretudo no final da canção; "I Don't Mind If You Forget Me" é uma daquelas letras características de Morrissey em que o cantor desdenha de um amor se desfazendo em pedaços, num rockzinho agitado bem simpático, com guitarras estridentes zunindo praticamente o tempo todo, ao fundo, como abelhas enlouquecidas.
"Dial-a-Cliché", uma balada leve sobre o crescer e ouvir (ou não) o que os outros palpitam, encaminha o final do disco de maneira competente e segura; chegando então ao final com "Margareth on Guillotine", balda semiacústica que repete "Bigmouth Strikes Again" dos Smiths, porém desta vez não se limitando a sugerir apenas uma boas porradas na então primeira-ministra inglesa e sim desta vez, indo mais longe, e exigindo mesmo o pescoço de Mrs. Tatcher. Termina com um belíssimo solo de bandolim interrompido abruptamente pela queda da lâmina da guilhotina, provavelmente separando a cabeça do corpo da ex-Dama de Ferro do Reino Unido.
Por mais que não se queira fazer comparações com a carreira de Morrissey com os Smiths, elas são inevitáveis até pelo hiato muito curto entre um projeto e o outro. menso de uma não depois da separação ele já nos aparecia com essa pérola. Já que inevitável, então, analisando assim, comparativamente, o trabalho solo do vocalista não ficava devendo muito à maioria dos trabalhos da banda, ainda mais se formos nos fixar no último trabalho do grupo, " 'Strangeways' Here We Come", onde a banda já estava desgastada e o resultado final acabara deixando um pouco a desejar.
Infelizmente os trabalhos seguintes de Morrissey não estiveram à altura desta brilhante estreia solo.  Com exceções talvez ao simpático "Kill Uncle", ao coeso "Your Arsenal", ao bom "Vauxhall and I",  Morrissey nunca voltou a nos brindar com um disco como "Viva Hate". As excessivas trocas de produtores, de gravadoras, de parceiros de composição, a instabilidade de formatos de lançamento dos trabalhos (ora compilações, ora sobras, ora coletâneas com sobras, ora poucos álbuns de estúdio) fizeram com que o artista não conseguisse consolidar uma trajetória uniforme. No mais das vezes, letras brilhantes, inspiradíssimas, inteligentes, emocionantes sustentavam melodias pobres, fracas, sem poder algum, de parceiros que invariavelmente mostraram-se insuficientes para acompanhar o talento de Morrissey, constantemente apontado como um dos maiores letristas de todos os tempos.
Bom, talvez quando a voz interior que sussurra no ouvido do nosso caro inglês pare de lhe cobrar sua pureza de letrista possamos enfim saber como seria se o próprio resolvesse mostrar-nos quais seriam as melodias ideais para acompanhar cada uma de suas palavras, cada um de seus versos. Quero crer que seria melhor do que o que temos ouvido com ele ultimamente.
Enquanto isso resta-nos penas ouvir o "Viva Hate", o melhor que Morrissey conseguiu obter sem Johnny Marrao seu lado.
Mas por que limitar-se a este álbum? Mesmo o resto não sendo lá tão bom assim, por que não ouvir todo o resto também? O "Bona Drag", o "Ringleader...", um "Years of Refusal", um "Southpaw Grammar"... Ah, afinal de todo modo é Morrissey!
E, faça o que fizer, compondo ao lado de quem quer que seja, agora ou daqui a vinte anos, nós adoramos Morrissey.
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Morrissey volta a se apresentar no Brasil em março de 2012. As três datas previstas inicialmente são:
 7/3 - Porto Alegre - Pepsi On Stage
9/3 - Rio de Janeiro - Fundicão Progresso
11/3 - São Paulo - Espaço das Américas

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FAIXAS:
  1. "Alsatian Cousin"
  2. "Little Man, What Now?"
  3. "Everyday Is Like Sunday"
  4. "Bengali in Platforms"
  5. "Angel, Angel Down We Go Together"
  6. "Late Night, Maudlin Street"
  7. "Suedehead"
  8. "Break Up the Family"
  9. "The Ordinary Boys"
  10. "I Don't Mind If You Forget Me"
  11. "Dial-a-Cliché"
  12. "Margaret on the Guillotine"

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Ouça:
Morrissey Viva Hate

Cly Reis

Berinjela Beligerante