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sexta-feira, 23 de março de 2012

Pix

Gilberto Gil - "Refazenda" (1975)


"Renda tecida com fios do milho, milho ouro, milho sol, (...) Esperança transmutada em verde de verdade, verdes notas mágicas, o encanto da fazenda nova. Reencantação. A árvore da trindade: abacate, tomate, mamão. Árvore milagrosa: um fruto diferente a cada estação. (...) Refazenda segue sendo a vontade de Deus para cada estação."
Gilberto Gil,
explicando o conceito do disco
em 1975


Demorou pra aparecer um Gil por aqui. já teve A.F. do Caetano, do Chico, do Jorge, do João, dos Tons (o o Jobim) e nada do ex-ministro. E não foi porque merecesse menos que qualquer um desses outros. Pelo contrário. É exatamente por ter uma obra tão qualificada, com tantos discos interessantes que foi difícil apontar um pra ser seu primeiro Fundamental aqui do blog.
Depois de muito avaliar, ouvir, reouvir, trocar uma ideia com o meu irmão e parceiro de blog, o Daniel Rodrigues, cheguei à conclusão que o grande disco de Gilberto Gil é mesmo o seu "Refazenda" de 1975, parte integrante da trilogia (de quatro discos) completada por "Refavela", "Realce" e "Refestança".
Em "Refazenda", Gil penetra no coração do Brasil para compor uma obra cheia de sensibilidade, inspiração e riqueza sonora. Com composições que remetem ao homem do campo, à natureza, ao sertenejo, a temas rurais, ritmos regionais e paisagens naturais, o baiano entrega-nos algumas de suas canções mais marcantes.
Já na faixa que dá nome ao disco, a primorosa "Refazenda", de belíssimos arranjos de cordas e flauta, se utiliza da figura dos frutos, das árvores, do verde para falar sobre simplicidade, sobre o tempo das coisas, sua natureza e o amadurecimento que tudo requer.
Os temas naturais aparecem também na singela "Tenho Sede" de Dominguinhos, canção belíssima que chove, brota, escurece e emociona. Gil trata do homem simples na divertida "Jeca Total", uma canção aparentemente primária, com uma tuba minimalista, onde provoca sobre quem é verdadeiramente caipira, com alguns pontos que nos fazem pensar sobre o fato de um homem como Tiririca estar no Congresso Nacional; e vai no fundo da alma de um homem do campo deslocado na cidade grande, na emocionante "Lamento Sertanejo", minha preferida do disco, uma canção acústica chorosa de interpretação comovente. Ainda funde fauna brasileira, com rock e cultura oriental em "O Rouxinol", parceria com Jorge Mautner e visita novamente o oriente, outro de seus interesses culturais-musicais, em "Meditação", canção breve, curta com sonoridade que alude à música japonesa.
Tem ainda o chorinho "Pai e Mãe; a exaltação do povo e da alegria na ótima "Ê, Povo, ê"; a introspectiva "Retiros Espirituais" com referência a "Banho-de-Lua" consagrada no Brasil na voz de Celly Campelo ( "luar tão cândido" ); e "Essa é Pra Tocar no Rádio", um jazz experimental e acelerado, que embora interessante, perde para a versão definitiva registrada em seu disco em parceria com Jorge Ben.
Num disco tão interiorizado, nada mais correto que o artista olhar para dentro de si mesmo e é o que acontece em "Ela", faixa que abre o disco onde Gilberto Gil examina a própria alma, abre o coração e declara seu amor por sua maior musa, a música, num samba-rock embalado absolutamente saboroso
E temos enfim um Gilberto Gil nos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS. Agora, como eu disse, com uma obra tão tão significativa  e interessante, é certo que outros aparecerão por aqui. Este foi só para abrir a porteira.
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FAIXAS:
1.Ela (Gilberto Gil)
2.Tenho Sede (Dominguinhos/Anastácia)
3.Refazenda (Gilberto Gil)
4.Pai e Mãe (Gilberto Gil)
5.Jeca Total (Gilberto Gil)
6.Esse é Pra Tocar no Rádio (Gilberto Gil)
7.Ê, povo, ê (Gilberto Gil)
8.Retiros Espirituais (Gilberto Gil)
9.O Rouxinol (Gilberto Gil/Jorge Mautner)
10.Lamento Sertanejo (Gilberto Gil/Dominguinhos)
11.Meditação (Gilberto Gil)

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Ouça:
Gilberto Gil Refazenda


Cly Reis

quinta-feira, 22 de março de 2012

"Ao Sul de Lugar Nenhum" de Charles Bukowski - L&PM Editores




Uma vez, assistindo a um daqueles programas de TV Cultura sobre literatura, falava-se de Machado de Assis, sobre curiosidades, personagens, obras, vida pessoal, e na matéria havia opiniões e depoimentos de outras pessoas ligadas às letras, e uma delas, um membro da Academia Brasileira de Letras, que sinceramente não lembro o nome agora, declarava que lia pelo menos um Machado por ano porque era importante para ele para "purificar a língua". E acho que ele tem razão. Faz bem para a lama ler um Machado. Depois disso, por coincidência ou não, acho que nunca deixei de ler, ou mesmo reler, um Machado regularmente.
Mas onde quero chegar com isso?
É que ontem, terminando de ler o "Ao Sul de Lugar Nenhum" de Charles Bukowski, de certa forma, tive a mesma exclamação, de que é importante ler pelo menos um Bukowski a cada ano. Mas não é para purificar a língua, embora eu, fã, considere que na sua crueza, na sua objetividade, o Velho Safado escreva de uma forma realmente magnífica. É importante ler um Bukowski de vez em quado para lembrarmos de como somo humanos. Mas não humanos naquele sentido bibibi-bobobó de solidariedade, fraternidade e todo aquele papinho, mas humanos no sentido de não nos esquecermos da nossa natureza. Do como realmente é o homem e como é o mundo à nossa volta. Não que eu desfaça dos sentimentos belos e puros mas num mundo como o nosso, é bom estar atento, conhecer as feras e Charles Bukowski com seu mundo de bêbados, putas, cavalos, trabalhadores, perdedores e desesperançados, com seu humor cáustico faz com que não esqueçamos disso.
Apesar de bruto, de azedo, de magoado é gostoso ler Bukowski, ele nos faz rir do absurdo, repensar algumas coisas, ridicularizar outras e ver que não são tão sem propósito assim.
O livro não é nenhuma novidade. É considerado, inclusive, o melhor livro de contos dele (eu considero o "Crônicas de Um Amor Louco"). Eu é que havia comprado no ano passado e deixado lá na estante para uma hora dessas quando desse vontade de ler, e agora calhou de ler meu Bucowski do ano.
E fez-me bem, fez-me bem.
Um grande barato o pequeno faroeste improvável do conto "Pare de olhar para as minhas tetas, senhor"; demais o incrível e até emocionante "Amor por $17,50; legal também o divertido "O diabo estava cheio de tesão; e muito bom o conto "Maja Thurup" uma história sobre um canibal domesticado.
Meio chatos os últimos dois contos em que se prolonga demais falando de cus e hemorroidas, embora um deles, "Todos os cus do mundo e também o meu" (olha o título) tenha um final brilhante.
Agora ainda falta ler o Machado.
Mas o ano é longo e estamos em março ainda.

cotidianas #147 - O Filho do Diabo

Quem seria àquela hora?
As batidas insistentes na porta interrompiam sua habitual sesta, da qual não abria mão, principalmente naquela época do ano em que fazia muito calor. Lidara a manhã inteira no campo de algodão e agora que conseguia descansar o corpo exausto um inconveniente vinha incomodá-lo. Quem seria?
Levantou-se ainda meio sonolento, vestiu a calça e foi até a porta ainda vestindo a camiseta regata. Abriu apenas a porta interna de madeira, deixando fechada a porta telada que lhe socorria dos insetos à noite. A claridade da rua ofuscou por um momento seus olhos, mas assim que fixou a visão, deparou-se com um negro retinto magro de chapéu de abas largas na cabeça e vestido com um terno escuro com camisa branca e  uma gravata estreita fixada no colarinho por um pregador prateado. O negro que exibia um sorriso largo, amplo, branco e com um sutil ar debochado, inclinou-se suavemente para a frente, aproximando o rosto da tela de mosquitos, encarando o dono da casa com interesse.
- Em que posso ajudá-lo? - quis saber o jovem Bob com uma certa irritação por ter sido acordado.
O desconhecido, sem desfazer o sorriso, respondeu com outra pergunta:
- Não se lembra de mim, irmão?
Bob não era bom fisionomista, mas tinha certeza de nunca ter visto aquele cidadão antes, até porque não haveria como esquecer um sorriso daqueles que parecia ter todos os dentes do mundo.
- Não, acho que não - respondeu esperando ser, então, informado acerca da ocasião da apresentação entre os dois. Mas não foi o que recebeu.
- Tem certeza, irmão?
A insistência do estranho, aliada à inconveniência da visita começavam a lhe incomodar um pouco mais agora. Sem falar naquele incômodo tratamento excessivamente aproximador, ainda mais por aquelas bandas do Mississipi, principalmente entre os pretos, como ambos eram.
- Sim, tenho certeza! Agora vai dizendo o que quer ou vai caindo fora - levantando a voz.
- Desculpe, irmão.  - disse o estranho sem desfazer um milímetro da bocarra sorridente - é que por um momento achei que seu rosto me fosse familiar...
- E então? O que quer? - insistiu.
- Sua mãe está, irmão?
Bob não conseguiu disfarçar um certo embaraço:
- Minha mãe morreu faz 7 anos, cara! o que é que você quer afinal?
- Ah, sinto muito, irmão. Me solidarizo com sua dor. - agora escondendo os dentes mas mantendo um tom de troça e levando o chapéu ao peito como em condolência.
- E pare de me chamar de irmão. - ordenou finalmente tomando aquela atitude que já queria ter tomado desde que o homem o chamara daquela maneira pela primeira vez naquela tarde
- Mas não somos todos irmãos perante... Ele, irmão? - argumentou em tom cínico movendo apenas os olhos na direção do céu.
- E quer saber: vai dando o fora daqui antes que eu pegue a minha espingarda e te ponha pra fora cheio de chumbo no rabo.
- Desculpe, irmão. Eu não quis incomodar.
- Eu já disse pra não me chamar mais de irmão, cara! Chega dessa merda, eu vou pegar a minha arma.
E já ia virando quando o sujeito falou:
- Se prefere assim, Robert.
Interrompeu o movimento e parou intrigado.
- Como sabe o meu nome?
- Eu sei muitas coisas, Robert - agora definitivamente abandonando o tratamento de irmão.
- Quem é você? - perguntou o rapaz agora verdadeiramente curioso.
-Não se lembra de mim, Robert?
Não tendo resposta do rapaz que continuava encarando-o como que procurando alguma informação em algum lugar remoto da memória, o estranho de sorriso cheio continuou:
- É, acho que não poderia lembrar, mesmo. Mas conheci sua mãe.
Foi perceptível quando Robert arregalou os olhos.
Continuou:
- Ela ia a esses bares de pretos onde nós costumávamos tocar. Eu toquei com o teu pai, sabia?
A revelação pareceu estremecer o rapaz.
- Conheceu meu pai? Você sabe quem ele é?
- Ah, pode estar certo disso, irmão. O homem era bom naquilo. No blues, sabe? As mulheres caíam por ele. Foi o que aconteceu com a tua mãe. O problema é que quase sempre os maridos, os namorados não gostavam muito disso. Foi o que aconteceu com o homem dela. É, filho, um irmão que vivia com ela não gostou muito dessa brincadeira e "PUM!". Mandou bala no teu pai, irmão.
Então a mãe envolvera-se com um blueseiro. O pai fora assassinado. Por ciúmes! A revelação era assustadora. A mãe sempre lhe dissera simplesmente que o pai sumira no mundo. Por que nunca lhe contara aquilo?
- Tinha o teu mesmo nome, guri - disse agora mudando de tratamento novamente - De certo tua mãe quis homenagear. - completou esticando a última palavra ealargando ainda mais o sorrisão.
E continuou:
- O problema é que ele ficou me devendo uma coisa antes de morrer. Não estava nos meus planos que chegasse um sujeito qualquer de cabeça enfeitada e enchesse teu pai de bala. Aí que eu não tive tempo de cobrar.
- Eu não tenho muito dinheiro, moço, mas quanto é que ele ficou devendo? Sendo coisa justa e se estiver dentro do meu possível eu posso ver se consigo dar um jeito.
Riu alto desta vez e balançou a cabeça negativamente o estranho.
- Não, não. Não se trata de dinheiro.
- O quê, então?
- Teu pai pediu minha ajuda e eu ajudei. Ele só tocava daquele jeito por minha causa, cara! Eu que afinei o violão pra ele. E olha que ele tocava demais, filho. Mas, tinha que vir aquele côrno gordo e "PÁ!". Eu não estava pronto pra levar o que era meu naquele dia, sabe? Aí que ele se salvou. Eu não consegui levar o que ele havia tratado comigo.
- Ainda não entendo...
- Entende, sim - mostrou ainda mais os dentes brancos o negro parado à porta.
- Você já tocou o blues, rapaz? - perguntou o estranho.
- Não. Minha mãe sempre me dizia que isso era coisa de vagabundos, que um homem de bem tem que trabalhar e não ficar andando com um violão, uma guitarra, uma gaita por aí. Nunca me deixou pegar num violão. - explicou o rapaz um tanto confuso.
- Tem um violão aí? - quis saber o negro apesar de já saber a resposta.
- Acho que tem um sim que a minha mãe guardava escondido de mim, no sótão.
- Vai lá buscar, filho. Eu espero.
Hesitou um pouco mas curioso, fechou também a porta de madeira, além da outra vazada que já estava fechada, por alguma garantia qualquer que desconhecia, e foi-se lá para dentro a buscar o instrumento.
Subiu ao sótão rapidamente e achou fácil atrás das antigas coisas da mãe falecida. Estava branco de poeira e as cordas irremediavelmente oxidadas. Espanou o violão como pode, desceu as escadas e levou ao estranho que esperava imóvel e com o mesmo sorriso de quando o deixara naquele mesmo lugar.
- Aqui está. - apresentou ao estranho.
- Sabe tocar?
- Já disse que não sei. Minha mãe nunca me deixou me aproximar disso - reforçou o rapaz.
- Eu acho que sabe... Toca. - disse apontando para o violão.
O rapaz então o empunhou com uma destreza que surpreendeu a ele mesmo. Levou à altura do peito e mesmo duvidando de si próprio moveu os dedos às cordas. De uma maneira inexplicável, assim que começou a mover os dedos, passou a produzir um som mágico, uma melodia admirável. O violão guardado todos aqueles anos estava perfeitamente afinado. E, cara, aquilo era blues! Era blues! Nunca havia tocado. Nem as cordas enferrujadas o impediam de fazer aquilo daquela maneira magistral. Que música era aquela? Nunca havia ouvido mas era como se a tivesse conhecido a vida toda. Robert podia não saber que música era aquela mas o estranho sabia: chamava-se"Me and the Devil Blues".
- Viu, guri. - agora já variava o tratamento entre irmão, filho, guri, cara...
- Como pode? Eu nunca...
- Foi seu pai. De alguma forma a alma dele permanece em você. E sabe como é que é, filho: trato é trato.
Robert só então parecia se dar conta do que se passava ali. De quem era aquele negro retinto permanentemente sorridente ali à sua frente. Sempre ouvira falar que os homens daquela região faziam muito desses tais pactos há muito tempo atrás mas nunca acreditara que fosse verdade.
- É alguma brincadeira? - quis certificar-se Robert.
- Temo que não, irmão.
- E o que acontece agora?
- Você vai lá dentro, veste um bom terno e vem comigo - como se fizesse alguma diferença vestir-se bem ou mal indo para o lugar onde o homem pretendia levá-lo.
- E se eu não quiser? - perguntou com uma ponta de medo do que teria como resposta.
- Bom, guri, esse foi só um primeiro encontro. Só quis que você soubesse das coisas, soubesse que eu estou por perto, de olho em você. Não esperava mesmo que viesse logo de cara. Se você não quiser vir hoje não tem problema, mais cedo ou mais tarde vai acabar tendo que vir. Mas pode ter certeza que eu não vou-te deixar escapar que nem aconteceu com o teu pai. - e perguntou só para confirmar - Mas então, você vem ou não?
- Não vou, não. Nem hoje nem nunca. Eu não tenho nada a ver com isso. Não tenho nada a ver se um blueseiro bêbado prometeu a alma pra Este ou pr'Aquele.
- Tem sim, guri. Tem sim - falou pacientemente e depois continuou - Mas não precisa ficar nervoso. Eu vou-me embora. Foi um prazer conhecê-lo, Robert - disse agora fazendo a mesma mesura da chegada, curvando-se e levando o chapéu ao peito, com os olhos cravados no rapaz e o sorriso, agora parecendo sinistro, absolutamente inalterado.
Virou as costas, desceu os dois degraus do alpendre e tomou o caminho de terra que começava na frente da casa. Andou poucos passos mas logo deteve-se voltando a cabeça para a casa, lançando um último olhar para o rapaz e fazendo questão de lembrá-lo daquilo que ele, Robert, no seu íntimo não tinha a menor dúvida:
- Eu volto - disse o negro, agora finalmente fechando o sorriso.
Robert só então abriu a porta de tela e ficou parado no alpendre com o violão em uma das mãos ao lado do corpo, acompanhando com os olhos o homem que ia caminhando pela estrada. Foi se afastando, se afastando e quando quase sumia da vista, um carro passou levantando poeira e que fez com que o estranho desparecesse finalmente ali pela altura da encruzilhada.



Cly Reis