Curta no Facebook

segunda-feira, 26 de março de 2012

cotidianas #148 - Pus





Eu sou sua perna
Eu sou seu braço
     sou seu baço
     sou seu abdômem


Sou em você cada pedaço
Sou seu ávido homem
"Corrente Sanguínea"
foto: Cly Reis


Eu sou seu peitos
sou sua coxa
sua corrente sanguínea
Eu sou seu plexo
seu córtex
suas narinas
Eu sou seus pelos
sua boca
sou o que você nem imagina


Eu sou sua pelve
seu sexo
eu sou sua vagina


Eu sou seu sangue coagulado
ferimento infeccionado
uma cirurgia de risco


Sou sua fratura exposta
sou seu contágio
por contato físico


Eu sou sua epilepsia
sua peste
sua epidemia


Sua doença
       vacina
sua embolia


Um vírus
(só não viram
aqueles que não queriam)


Que eu sempre fui seu mal
seu câncer
pus
e tiraria

Cly Reis

sexta-feira, 23 de março de 2012

Pix

Gilberto Gil - "Refazenda" (1975)


"Renda tecida com fios do milho, milho ouro, milho sol, (...) Esperança transmutada em verde de verdade, verdes notas mágicas, o encanto da fazenda nova. Reencantação. A árvore da trindade: abacate, tomate, mamão. Árvore milagrosa: um fruto diferente a cada estação. (...) Refazenda segue sendo a vontade de Deus para cada estação."
Gilberto Gil,
explicando o conceito do disco
em 1975


Demorou pra aparecer um Gil por aqui. já teve A.F. do Caetano, do Chico, do Jorge, do João, dos Tons (o o Jobim) e nada do ex-ministro. E não foi porque merecesse menos que qualquer um desses outros. Pelo contrário. É exatamente por ter uma obra tão qualificada, com tantos discos interessantes que foi difícil apontar um pra ser seu primeiro Fundamental aqui do blog.
Depois de muito avaliar, ouvir, reouvir, trocar uma ideia com o meu irmão e parceiro de blog, o Daniel Rodrigues, cheguei à conclusão que o grande disco de Gilberto Gil é mesmo o seu "Refazenda" de 1975, parte integrante da trilogia (de quatro discos) completada por "Refavela", "Realce" e "Refestança".
Em "Refazenda", Gil penetra no coração do Brasil para compor uma obra cheia de sensibilidade, inspiração e riqueza sonora. Com composições que remetem ao homem do campo, à natureza, ao sertenejo, a temas rurais, ritmos regionais e paisagens naturais, o baiano entrega-nos algumas de suas canções mais marcantes.
Já na faixa que dá nome ao disco, a primorosa "Refazenda", de belíssimos arranjos de cordas e flauta, se utiliza da figura dos frutos, das árvores, do verde para falar sobre simplicidade, sobre o tempo das coisas, sua natureza e o amadurecimento que tudo requer.
Os temas naturais aparecem também na singela "Tenho Sede" de Dominguinhos, canção belíssima que chove, brota, escurece e emociona. Gil trata do homem simples na divertida "Jeca Total", uma canção aparentemente primária, com uma tuba minimalista, onde provoca sobre quem é verdadeiramente caipira, com alguns pontos que nos fazem pensar sobre o fato de um homem como Tiririca estar no Congresso Nacional; e vai no fundo da alma de um homem do campo deslocado na cidade grande, na emocionante "Lamento Sertanejo", minha preferida do disco, uma canção acústica chorosa de interpretação comovente. Ainda funde fauna brasileira, com rock e cultura oriental em "O Rouxinol", parceria com Jorge Mautner e visita novamente o oriente, outro de seus interesses culturais-musicais, em "Meditação", canção breve, curta com sonoridade que alude à música japonesa.
Tem ainda o chorinho "Pai e Mãe; a exaltação do povo e da alegria na ótima "Ê, Povo, ê"; a introspectiva "Retiros Espirituais" com referência a "Banho-de-Lua" consagrada no Brasil na voz de Celly Campelo ( "luar tão cândido" ); e "Essa é Pra Tocar no Rádio", um jazz experimental e acelerado, que embora interessante, perde para a versão definitiva registrada em seu disco em parceria com Jorge Ben.
Num disco tão interiorizado, nada mais correto que o artista olhar para dentro de si mesmo e é o que acontece em "Ela", faixa que abre o disco onde Gilberto Gil examina a própria alma, abre o coração e declara seu amor por sua maior musa, a música, num samba-rock embalado absolutamente saboroso
E temos enfim um Gilberto Gil nos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS. Agora, como eu disse, com uma obra tão tão significativa  e interessante, é certo que outros aparecerão por aqui. Este foi só para abrir a porteira.
**********************************

FAIXAS:
1.Ela (Gilberto Gil)
2.Tenho Sede (Dominguinhos/Anastácia)
3.Refazenda (Gilberto Gil)
4.Pai e Mãe (Gilberto Gil)
5.Jeca Total (Gilberto Gil)
6.Esse é Pra Tocar no Rádio (Gilberto Gil)
7.Ê, povo, ê (Gilberto Gil)
8.Retiros Espirituais (Gilberto Gil)
9.O Rouxinol (Gilberto Gil/Jorge Mautner)
10.Lamento Sertanejo (Gilberto Gil/Dominguinhos)
11.Meditação (Gilberto Gil)

*********************************
Ouça:
Gilberto Gil Refazenda


Cly Reis

quinta-feira, 22 de março de 2012

"Ao Sul de Lugar Nenhum" de Charles Bukowski - L&PM Editores




Uma vez, assistindo a um daqueles programas de TV Cultura sobre literatura, falava-se de Machado de Assis, sobre curiosidades, personagens, obras, vida pessoal, e na matéria havia opiniões e depoimentos de outras pessoas ligadas às letras, e uma delas, um membro da Academia Brasileira de Letras, que sinceramente não lembro o nome agora, declarava que lia pelo menos um Machado por ano porque era importante para ele para "purificar a língua". E acho que ele tem razão. Faz bem para a lama ler um Machado. Depois disso, por coincidência ou não, acho que nunca deixei de ler, ou mesmo reler, um Machado regularmente.
Mas onde quero chegar com isso?
É que ontem, terminando de ler o "Ao Sul de Lugar Nenhum" de Charles Bukowski, de certa forma, tive a mesma exclamação, de que é importante ler pelo menos um Bukowski a cada ano. Mas não é para purificar a língua, embora eu, fã, considere que na sua crueza, na sua objetividade, o Velho Safado escreva de uma forma realmente magnífica. É importante ler um Bukowski de vez em quado para lembrarmos de como somo humanos. Mas não humanos naquele sentido bibibi-bobobó de solidariedade, fraternidade e todo aquele papinho, mas humanos no sentido de não nos esquecermos da nossa natureza. Do como realmente é o homem e como é o mundo à nossa volta. Não que eu desfaça dos sentimentos belos e puros mas num mundo como o nosso, é bom estar atento, conhecer as feras e Charles Bukowski com seu mundo de bêbados, putas, cavalos, trabalhadores, perdedores e desesperançados, com seu humor cáustico faz com que não esqueçamos disso.
Apesar de bruto, de azedo, de magoado é gostoso ler Bukowski, ele nos faz rir do absurdo, repensar algumas coisas, ridicularizar outras e ver que não são tão sem propósito assim.
O livro não é nenhuma novidade. É considerado, inclusive, o melhor livro de contos dele (eu considero o "Crônicas de Um Amor Louco"). Eu é que havia comprado no ano passado e deixado lá na estante para uma hora dessas quando desse vontade de ler, e agora calhou de ler meu Bucowski do ano.
E fez-me bem, fez-me bem.
Um grande barato o pequeno faroeste improvável do conto "Pare de olhar para as minhas tetas, senhor"; demais o incrível e até emocionante "Amor por $17,50; legal também o divertido "O diabo estava cheio de tesão; e muito bom o conto "Maja Thurup" uma história sobre um canibal domesticado.
Meio chatos os últimos dois contos em que se prolonga demais falando de cus e hemorroidas, embora um deles, "Todos os cus do mundo e também o meu" (olha o título) tenha um final brilhante.
Agora ainda falta ler o Machado.
Mas o ano é longo e estamos em março ainda.