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domingo, 12 de agosto de 2012

cotidianas #173 - Dia dos Pais - "Pai"



Pretendo ter dois lindos filhos
Uma menina e um robusto menino
Botar eles na escola desde o princípio
Mandar às favas os vizinhos
(À noite ouvem nossos ruídos
O que eles ganham eles põem no cofre
Um filho uma árvore e um livro
Herança de gente muito pobre)

E terminar todas as fábulas
Quando eu sair da chaminé
Depois montar na bicicleta
Esperar que eles criem calos nos pés

(À noite ouvem nossos ruídos
Uma vida despojada de sentido)
E assim nós vamos indo
Minha pequena mulher vai dirigindo
E assim nós vamos indo
Meu filho segue torcendo comigo
E assim nós vamos indo

Meus filhos foram me chamar
Um avião estava preso nos fios
Meus filhos foram me chamar


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letra da música "Pai"
da banda Fellini


Ouça:
Fellini - "Pai"

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Jerry Lee Lewis - "Live at Star Club, Hamburg" (1964)




“Não é um álbum,
é uma cena de crime”
revista Rolling Stone



E quem disse que piano não é instrumento pra rock’n roll? Se alguém acreditava que não, Jerry Lee Lewis tratou de provar não apenas que era mas também o quanto poderia ser infernal com ele. Infernal literalmente! A ponto de incendiar o próprio instrumento no palco, muito antes de Hendrix fazer uma fogueirinha com sua guitarra.
Daqueles artistas tipicamente rock’n roll. Sob todos os aspectos: na postura frenética no palco, nas atitudes inconseqüentes, na rebeldia incontrolável e na conturbada vida pessoal, tendo se casado com a própria prima, na época menor de idade, num dos maiores escândalos daquele tempo.
Este artista explosivo, temperamental, doido, genial mostra toda sua força e vitalidade no registro ao vivo “Live at Star Club, Hamburg” onde extrapola todos os limites da performance ao vivo, levando as canções a extremos da interpretação.
Em canções como “Mean Woman Blues”, simplesmente ensandecida; “High School Confidential” onde praticamente ‘agride’ o piano; na selvagem “Hound Dog”; e nas clássicas “Long Tall Sally” e “Good Golly Miss Molly” aceleradas, rasgadas e gritadas, ele justifica plenamente a alcunha de "Matador" e destroi tudo.
Ainda dá uma leitura charmosíssima para "Money" (gravada por Beatles, Sonics e outros tantos), esmerilha no bluesão "Matchbox" e tira um pouco da chorosidade de "Your Cheatin' Heart" de Hank Williams conferindo-lhe um ar um pouco mais cínico.
Outro daqueles grandes álbuns ao vivo da história, e este com a marca de uma das maiores lendas do rock’n roll.
Killer! Killer!
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FAIXAS:

  1. "Mean Woman Blues" (Claude Demetrius) 4:01 
  2. "High School Confidential" (Hargrave, Lewis) 2:25 
  3. "Money (That's What I Want)" (Janie Bradford, Berry Gordy) 4:35 
  4. "Matchbox" (Carl Perkins) 2:46 
  5. "What'd I Say, Part 1" (Ray Charles) 2:18 
  6. "What'd I Say, Part 2" 3:08 
  7. "Great Balls of Fire" (Otis Blackwell, Jack Hammer) 1:48 
  8. "Good Golly, Miss Molly" (Bumps Blackwell, John Marascalco) 2:19 
  9. "Lewis' Boogie" (Lewis) 1:55 
  10. "Your Cheatin' Heart" (Hank Williams) 3:03 
  11. "Hound Dog" (Jerry Leiber, Mike Stoller) 2:28 
  12. "Long Tall Sally" (Enotris Johnson, Little Richard) 1:52 
  13. "Whole Lotta Shakin' Goin' On" (Sunny David, Dave Williams) 4:24

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Ouça:

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Caetano Veloso - "Qualquer Coisa" (1975)




“Ô, guri, aonde tu vai com esse disco?”



O disco “Qualquer Coisa”, de Caetano Veloso, sempre me encantou. Tanto que me fez cometer um fora que, na minha adolescência, foi motivo de um engraçado episódio, do qual achei por bem contar como uma homenagem aos 70 anos desse grande artista de nosso tempo completos neste 7 de agosto. Ali pelos 13, 14, eu já era amante e consumidor inveterado de música. Curioso, ia atrás de coisas novas e velhas, que me empolgavam em descobrir. Era um mundo novo que se abria diante de mim. Desses, um universo dos que mais me encantava era a MPB, a música produzida no meu próprio país a qual eu já começava a suspeitar naqueles idos que dava de 10 a 0 na maioria do que se produzia no estrangeiro – o que não demorei muito a me certificar. Nessa busca voraz por conhecer as coisas, uma das práticas que mantinha era a de ir ao Centro de Porto Alegre vasculhar as lojas de discos de vinil. Como a grana da mesada não era muita, não dava pra comprar tudo que eu queria. Então, a solução era abrir os encartes, admirar as capas dos bolachões, ler as fichas técnicas e, o melhor de tudo, escutar. Pois uma das alternativas que as lojas davam era que o próprio cliente escolhesse alguns LP’s e os ouvisse em toca-discos privativos com fones de ouvido, daqueles grandes e de ótima qualidade.
 Numa dessas ocasiões, na antiga loja Pop Som, na Galeria Chaves, estava eu escutando e desvendando os discos de Caetano Veloso, arrebatado com aquela sonoridade, com aquela voz, com aquela musicalidade que me surpreendia a cada volver do prato. Um dos que escutei naquela tarde foi “Qualquer Coisa”. Desde a capa a pop art de Rogério Duarte até as músicas, tudo me encantava. Escutei faixa por faixa. Depois guardei de novo o disco no plástico interno, admirei novamente a capa e, sem ter como comprá-lo naquele momento, saí dali um tanto desolado mas ainda tomado de emoção. Já cruzando a porta de saída, ouvi uma voz feminina ralhar comigo: “Ô, guri, aonde tu vai com esse disco?” Absorto naqueles sons que ouvira, eu estava saindo da loja com o disco debaixo do braço sem perceber. A vendedora, obviamente pensou que eu fosse roubá-lo, e eu, na ingenuidade desarmada da mocidade, entreguei o volume sem me defender. Imaginem eu argumentando naquela época: “Eu não queria roubar: foi que eu fiquei encantado com a música!” Era inimaginável. Que vergonha que me deu!
 Mas antes do constrangimento eu me deliciei ouvindo o disco. Com arranjos super bem elaborados, pensados por Caetano com apoio ora do craque Perinho Albuqerque, ora do mestre João Donato, “Qualquer Coisa” me espantava naquela audição pela coesão aliada a um repertório quase improvável, que misturava  Beatles ,  Jorge Ben , composições próprias de Caê, Chico e Chabuca Granda. Tudo junto e muito bem misturado. O assombro iniciava de cara com a voz e violão de Caetano entrando direto, sem me deixar respirar, no clássico que abre e dá título ao disco: uma bossa-nova sensual meio portenha, meio nordestina, meio cubana. Literalmente, qualquer coisa! A letra, verborrágica e de sentido vago, servia para formar versos impactantes e musicalmente sonoros – tão marcantes que são sempre cantados pelo público inteiro nos shows: “Esse papo já tá qualquer coisa/  Você já tá pra lá de Marrakesh”.
 Em seguida, continuando a verborragia e a sensualidade, “Da Maior Importância”, cuja letra, cheia de anacolutos, expele tesão por todos os lados, pois narra uma tentativa desesperada de autoconvencimento de não transar com uma amiga (“Teria sido na praia/ Medo/ Vai ser um erro.”). O clima mantinha-se sexy, mas agora nos versos boêmios de Chico Buarque  na linda versão para “Samba e Amor”, com aqueles silêncios capciosos entre um verso e outro. A esta altura, eu já percebia que o lado A do LP era todo neste clima, pois as próximas eram “Madrugada e Amor” e, depois, uma das melhores do disco e de toda a obra deste baiano: “A Tua Presença Morena”. Letra moderninsta, é marcada por anáforas, que, com sua proposital repetição no início dos versos, reforçam a ideia de admiração e amplitude que Caetano devota à sua musa tropical. Nessa, ele cria versos de um lirismo impressionante como: “A tua presença coagula o jorro da noite sangrenta”, ou “A tua presença se espalha no campo derrubando as cercas.” “Drume Negrinha”, só ao piano de Donato, fechava o lado A do LP num tom leve e malicioso: “Drume Negrinha, que eu te transo uma nova caminha”.
 Aí vinha o lado B. Virei o disco. O que eu encontraria ali? Continuaria naquele clima “fogoso”? Soltei a agulha. Logo percebi que aquilo tomava outro rumo, pois abria com uma versão para “Jorge de Capadócia”, que talvez seja tão clássica quanto a de Jorge Ben. Com arranjo mais acústico que a eletrificada original, não perdia, contudo, o tom épico e ritualístico da composição, que conclama tanto com São Jorge quanto Ogum. Excelente. Em seguida, outra surpresa. Aliás, tripla surpresa: três versões para canções dos The Beatles: “Eleanor Rigby”, magnífico samba lento só ao violão e percussão, com um tempo marcado e cadenciado, além de contar com um show de vocal; “For no One”, sem dúvida a melhor delas em que Caetano, com extremo lirismo, traduz a melancólica peça de Lennon e MacCartney para uma bossa suingada que remetia novamente à sensualidade do lado A; e “Lady Madonna”, na qual faz o inverso: tira todo o gás da esfuziante original dos rapazes de Liverpool e fica quase que só com a melodia. “Qualquer Coisa” tem ainda “La Flor de la Canela” e “Nicinha”, uma curta e doce homenagem à irmã que faz Caetano voltar a Santo Amaro, onde nasceu, numa volta à origem. Final do disco, ruídos da agulha no final da faixa.
Caetano completando 70 anos
neste dia 7 de agosto
 Se na época aquela gafe na loja de discos me traumatizou – a ponto de, por anos, não contar a ninguém –, hoje o relembro com carinho e entendimento. Afinal, “Qualquer Coisa” é realmente de tirar qualquer um do chão. Álbum de conceito, é a primeira parte de um duo de discos que se completaria com “Joia”, de um ano depois. Também é a afirmação do ex-exilado artista, que, já consagrado, havia voltado ao Brasil abaixo de pedrada quando do lançamento do concretista e malcompreendido “Araçá Azul” (1972), um dos maiores fracassos de venda da história da indústria fonográfica brasileira. “Qualquer Coisa”, bem aceito por gregos e troianos, vinha assentar a posição que Caetano Veloso sempre fez jus em ocupar: o de um dos maiores gênios da música ainda vivos, um artista dono de uma obra não só descomunal como permanentemente criativa e criadora. Por isso, neste 7 de agosto, comemoro as sete décadas de mano Caetano reouvindo “Qualquer Coisa”. Mas não pensem que ouvirei qualquer coisa do “Qualquer coisa”. Não! Ouvirei o meu LP, curtindo faixa a faixa com o encarte debaixo do braço.



vídeo de "A Tua Presença Morena", Caetano Veloso

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FAIXAS:

1. Qualquer coisa (Caetano Veloso)
2. Da maior importância (Caetano Veloso)
3. Samba e amor (Chico Buarque)
4. Madrugada e amor (José Messias)
5. A tua presença morena (Caetano Veloso)
6. Drume Negrinha (Drume negrita) (Ernesto Grenet)
7. Jorge de Capadócia (Jorge Ben)
8. Eleanor Rigby (McCarney, Lennon)
9. For No One (McCartney, Lennon)
10. Lady Madonna (McCartney, Lennon)
11. La flor de la canela (Chabuca Granda)
12. Nicinha (Caetano Veloso)



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Ouça

Monstro do Pântano




"Monstro do Pântano"- Reis, Cly
óleo, acrílica, areia e barbante sobre madeira