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terça-feira, 31 de março de 2015

Exposição “Plásticas Sonoras”, de Walter Smetak – Galeria Solar Ferrão – Salvador/BA (3/3/2015)




"Um homem chegado de terras longínquas,
aqui plantou raízes, a compor, a tocar,
 a inventar instrumentos, misto de músico e escultor,
de filósofo e profeta,
uma das figuras mais extraordinárias da arte brasileira."
Jorge Amado

Sou um descompositor contemporâneo.”
Walter Smetak




Uma das coisas que mais queria ver quando fosse a Salvador, se esta ainda estivesse lá, era a exposição de obras de um cara que tenho grande admiração: Walter Smetak. O gênio da música microtonal que, a partir de uma obra pautada pela originalidade, didática e hermetismo, abriu caminho para toda a música moderna brasileira, influenciando e ensinando diretamente figuras como Caetano VelosoGilberto GilTom ZéRogério DupratRogário Duarte, Walter Franco, Gereba, Marco Antônio Guimarães, entre outros.

Já apreciador de sua música e trajetória (gravou dois discos: “Smetak”, de 1973, produzido por Caetano e Roberto Santana, e “Interregno”, com o Conjunto de Microtone, de 1980), em 2008, conheci em São Paulo sua neta, Jessica, jornalista como eu com quem estabeleci saudável amizade. No final do ano passado, no que confirmei minha ida à Terra de Todos os Santos , prontamente me comuniquei com ela para perguntar-lhe se ainda se mantinham em exposição as obras de seu avô. Um agravável “sim” recebi como resposta, indicando que o material se encontrava na Galeria Solar Ferrão, em pleno Pelourinho – quadras adiante de onde Leocádia e eu nos instalaríamos.

O Solar em si já é uma atração: um casarão construído entre o fim do século XVII e início do XVIII (tombado pelo IPHAN em 1938) sem os rebuscamentos da arquitetura colonial mas exuberante em dimensões: quatro andares com longas salas e um terraço, um subsolo e um pátio traseiro. Este abrigava três ricas exposições: a de arte africana (do colecionador italiano Claudio Masella), outra de arte sacra (de acervo pertencente ao artista plástico e também colecionador baiano Abelardo Rodrigues) e a terceira, a que eu tanto ansiava ver: “Plásticas Sonoras”, de Smetak.

Anton Walter Smetak, ou somente “Tak Tak” – como era apelidado por Gil devido à sua postura séria de educador europeu, mas também numa alusão onomatopeica à sua procedência da terra dos relógios –, era violoncelista, compositor, inventor de instrumentos musicais, escultor e escritor nascido em Zurique em 1913. Fugido da 2ª Guerra, veio parar no Brasil nos anos 30. Sua primeira cidade foi, por essas coincidências da vida, a minha Porto Alegre, tendo atuado como professor da recém-inaugurada faculdade de música da Universidade Federal do RS. Também na capital gaúcha, formou o Trio Schübert, juntamente com outros dois músicos de descendência europeia como ele, grupo de câmara com o qual se apresentava na antiga rádio Farroupilha. Trocando informações com sua neta tempo atrás, soube que ela estava escrevendo um livro sobre o avô (“Smetak: Som e Espírito”) e me prontifiquei a pesquisar alguma coisa nos arquivos do Museu de Comunicação Social Hipólito da Costa, aqui em Porto Alegre. Achei alguns anúncios da programação da rádio em que o Trio Schübert se apresentava em exemplares do jornal Correio do Povo de 1937. Embora pequena, minha contribuição foi parar no livro como bem podem ver.

Porém, como disse, minha contribuição foi pequena. Só podia, pois Smetak, depois de uma passagem pelo Rio de Janeiro iniciada em 1941, encontrou-se como cidadão e pessoa no destino seguinte: Salvador. Lá, a partir de 1950, casou-se, formou família e estabeleceu residência (até sua morte, em 1984). Profissionalmente, passou a integrar a Orquestra Sinfônica da Universidade da Bahia, onde também lecionava música. Em um período de forte impulso à cultura em Salvador, artistas do teatro, cinema, dança, artes visuais e, claro, música, surgiam de todas as partes incentivados pelos programas públicos. E a ida de Smetak para lá, a convite do maestro alemão Hans Joachim Koellheutter, foi de uma química inusitadamente acertada.

Adaptado ao clima, à cultura, ao misticismo e às gentes da Bahia, Smetak achou na calorosa Salvador um terreno fértil para expandir sua carga erudita a serviço de uma nova visão musical-espiritual. Volta-se para o experimentalismo, numa pesquisa que chamava de “Iniciação pelo Som”, sob o impacto de estudos realizados na Eubiose – corrente teosófica dedicada à ciência da vida focada na evolução humana, levando em conta os planos espirituais da mente. Passa a investigar o silêncio (tal como fizera John Cage), o som (a exemplo dos modernistas da vanguarda europeia) e as suas relações com o homem (numa visão que trazia para reflexão a cultura milenar oriental).

Na sala/galpão que recebe da Universidade, já nos anos 60, monta uma oficina de ideias e objetos. É quando, para encontrar esse “novo som”, passa a criar instrumentos, intitulados, justamente, de “Plásticas Sonoras”. Para construí-las, Smetak empregou cabaças, madeira, cordas, tubos de PVC, latas e qualquer material que estivesse a seu alcance. Particularmente, acho maravilhosas essas composições plásticas de Smetak, uma vez que unem com muita propriedade e conhecimento o equilíbrio físico e espiritual que o autor buscava, com uma precisão digna de um relojoeiro suíço, a uma brasilidade profunda pela utilização de materiais típicos da natureza local com outros reciclados (olha aí a mentalidade sustentável de Smetak 40 anos antes de isso virar moda).

Além dessa fusão tão distinta e original entre velho e novo nundos, as Plásticas Sonoras, engenhocas de utilização não apenas visual mas prática, ainda me impressionam por outro motivo: o bom humor. Vindo de um homem refugiado de sua terra-natal, desbravador de um país distante do seu, tanto em quilômetros quanto em emotividade, e cuja formação foi pautada na rigidez do ensino europeu do início do século XIX, não seria de estranhar que essas obras transmitissem certo grau de amargura ou secura. Pelo contrário. Smetak, eterno subversor da arte, na Bahia, reinventou a si através da música. Ele uniu os microtons (comuns na tradição musical de países orientais), Stockhausen, Cage, Ives e Obuhov e seu arsenal bachiano às sonoridades e harmonias folclóricas brasileiras, buscando nisso produzir uma música que ampliasse as percepções humanas a caminho de um autoconhecimento amplo da alma. Algo de um exotismo e imparidade apenas reduzidos pela larga aplicabilidade pedagógica que teve. As Plásticas Sonoras, assim, são uma extensão de sua música e filosofia, o que fica evidente nos títulos das peças: “Mulher faladora movida pelo vento”, “Mr. Play-Back”, “Caossonância”, “Piston Cretino”. De um humor que muito tupiniquim “original” não teria.

Se a Tropicália mudou a música brasileira no final do século XIX, reverenciando as dissonâncias agradáveis da bossa-nova e o legado tonal dos sambistas antigos, foi o lado avant-garde aprendido com Walter Smetak que deu lastro para a ligação da Tropicália com o modernismo, concretismo, neoconstrutivismo e atonalismo. Não foi a orquestração de George Martin nem o exemplo composicional engenhoso de Lennon/McCartney (pelo menos, não apenas). É Smetak que está fortemente nos arranjos de Duprat, na divisão harmônica de Tom Zé, no ”canto-de-ruídos guturais” de Caetano (como definiu Augusto de Campos), na ênfase minimalista do Uakati, no atonalismo de Walter Franco, na aproximação Brasil-Japão de “"Refazenda"-Refavela” de Gil. Este último, sabiamente como lhe é de costume, bem definiu a amplitude da obra do mestre e irmão: “Smetak é um mergulhador de excelente performance e vários records de profundidade no oceano da Dúvida”.

"Música dos Mendigos"- Walter Smetak

******

"Plásticas Sonoras", de Walter Smetak
onde: Galeria Solar Ferrão (R. Gregório de Matos, 45, Pelourinho, Salvador/BA)
quando: Sábados, domingos e feriados, das 12h às 17h
visitação: terça a sexta, de 12h às 18h
entrada: gratuita



Anjo-soprador

Bicéfalo

Biflauta

Bimono

Caossonância

Chori-viola

Metástase

Mulher faladora
movida pelo vento

O Peixe

Pindorama

Piston cretino

Reta na curva

São Jorge Tibetano

Vidas I, II e III










segunda-feira, 30 de março de 2015

Coluna dEle #38




Tô chegando, galera!
Se derrubar na área, é pênalti.
Haha!
É aí, cumé que tão as coisa?
Tô aqui de cima mas tô acompanhando tudo.
Não sei se rio ou choro com as coisas que vejo de vocês. Ai ai...
Mas enfim...
Vamos aos babados:

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Quer dizer que a Lava-Jato, essa, tá esguichando água pra tudo que é lado, então? Não exatamente “água”, né... Algo bem mais fedorento, por sinal.
Maquecouza, hein!!!
No dia que saiu a lista, Eu tenho que admitir que fiquei com o Meu na mão. Vai lá saber, né. Não fiz nada mas vai que algum anjo caído tenha se deixado tentar por uma delação premiada ou algo do tipo. Vai que...

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E o povo saiu pra rua.
Que maravilha.
Se manifestar tudo bem, mas “volta militar” já é sacanagem.
Olha que uma hora dessa Eu me emputeço e faço voltar mesmo.

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Mas no fundo tá certo, tem mais é que protestar mesmo. Vocês já viram o preço da gasolina? Tá tão alto que tá quase chegando aqui em cima.

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E o dólar, então??? Já passou por Mim e já chegou na estratrosfera.
E Eu que tava pensando em ir pra Miami na Páscoa com o Filhão fazer umas comprinhas, já tô revendo a possibilidade.
É uma época que ele fica tão pra baixo por causa daquela coisa toda de açoitamento, crucificação... Queria fazer um agrado pro guri. Acho que no máximo o que vai rolar vão ser umas muambas do Paraguai.

*******

Aliás tá tudo pela hora da morte. Meu Eu do céu! Ainda bem que Eu não tenho mais criança pequena em casa porque se tivesse que comprar ovos de Páscoa Eu ia à falência. Ainda bem que a Patroa me livrou de dar chocolate pra Ela por causa dessas coisas de dietas e tal. Essas coisa de mulher.
No máximo vou ter que comprar um agradinho pros querubins e tal, mas vai ser um bombonzinho pra cada um e olhe lá.
E levantem as mãos pro céu.

*******

Mas mudando de assunto, soube que começou uma novela nova aí e que já iniciou metendo o pé na porta com beijo polêmico e tudo mais, não foi? Duas senhoras, não foi isso?
Fernanda Montenegro é divina, não?
Mas tá certo, mesmo.
Quando Eu disse “amai-vos uns aos outros” Eu me referia a todo mundo sem restrição. Pode se amar, mesmo, galera. Tem Meu apoio. Fiz com o pipico e com a pipica mas vocês aí fazem o uso que quiserem deles, pra isso Eu dei o tal de livre-arbítrio.
Agora, Me vem uns "fiscal-de-cu-alheio" condenando, propondo boicotes, vacacotes, alegando que agride a “família” e blablablá e coisa e tal e mimimi... ora. Eu, no Meu infinito amor e bondade, dei uma vidinha pra cada um, então, assim sendo, vão cada um cuidar da sua, porra!

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E só pra encerrar, Eu vi branco.
A Patroa viu azul com preto, o Jotacê viu cinza com dourado.
No fim das contas, qual era a cor do tal do vestido?


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Fui, Meus filhos!
Comportem-se, rezem antes de dormir, escovem os dentes, não digam muito palavrão nem nada que possa ser considerado politicamente incorreto porque a "patrulha" tá grande e ninguém mais tem bom humor nessa merda de mundo.
Qualquer coisa, recado, pedido, desejo, solicitação, orações, doações (legais) para


Fiquem Comigo e que Eu os abençoe.

cotidianas #360 - Na Massa



"Na Massa"
foto: Leocádia Costa
Vai de mon amour
Blusa de abajur
Óculos escuro
Apaziguando o sol
No domingo
A caminho da praça

Óculos Ray-Ban
Raio de tupã
No pulso pulseira
No corpo collant
Mostra a pele
Pelo rasgo da calça

Pode ser
De farda ou fralda
Arrastando
O véu da cauda
Joia de bijuteria
Lantejoula e purpurina
Manto de garrafa pet
Tatuagem de chiclete
De coroa ou de cocar
Pode se misturar

Na massa
Na massa
Na massa
Some na massa

Sai de chafariz
Bico de verniz
Saia de safári
Sorriso de miss
Camiseta
De Che Guevara

Plástico metal
Árvore de natal
De biquíni, xale
Bata ou avental
E uma pinta
Pintada na cara

Pode vir
De esporte ou gala
De uniforme
Com medalha
Braço cheio de pacote
Nada debaixo do short
Derramando seu decote
Gargantilha no cangote
Segue a moda de ninguém
Usa o que lhe convém

Vai de my cherri
Vai de mon amour
Vai de bem-me-quer
Vai do que vier

Na massa
Na massa
Na massa
Some na massa

Anda de abadá
Dança o bragadá
Turbante importado
Lá de Bagdá
Fantasia
De anjo sem asa

Sola de pneu
Todo mundo é eu
Roupa de princesa
Em pele de plebeu
No passeio
De volta pra casa

Passa de cabelo moicano
Ou com lenço de cigano
México chapéu cabana
Capacete de bacana
De sarongue ou de batina
Tanga de miçanga fina
Moda tem a sua só
Passo de carimbó

Na massa
Na massa
Some na massa

Usa pele da roupa
Da pele da roupa da pele
Usa a roupa da pele
Da roupa da pele
Da roupa

Na massa
Na massa
(Boca sino e mocassim)
Tá massa

Some na massa

***********
"Na Massa"
(Arnaldo Antunes/ Davi Moraes)

quarta-feira, 25 de março de 2015

"Discoteca Básica : 100 Personalidades e seus 10 Discos Favoritos", de Zé Antônio Algodoal - Ed. Ideal (2014)



“Em um tempo em que
 as pessoas “baixam” músicas
e não tem noção
do que é um álbum,
nada mais bacana que
poder falar dos álbuns
 e de suas influências em nossas vidas.”
Marcelo Rossi
(fotógrafo, diretor de videoclipes e compositor)





Topei, dia desses, com o livro “Discoteca Básica: 100 personalidades e seus 10 discos favoritos” e, blogueiro como sou, com seção dedicada a álbuns importantes, além de apaixonado por música e colecionador de CD's e LP's, fiquei extremamente interessado. Trata-se de uma série de listas elaboradas por 100 personalidades, em sua maioria ligadas ao mundo da música, que destacam, cada um, 10 álbuns musicais importantes de alguma forma em suas vidas. Por mais que tivesse me dado coceira pra comprar, até hesitei um pouco em comprar imaginando que as indicações dos convidados pudessem meramente cair naqueles clichês tipo “progressivo é mais técnico e o resto é pobre”, ou “sou do metal e escolhi 5 AC/DC e 5 Iron Maiden" ou Beatles é melhor que tudo” e simplesmente saírem nomeando 5 entre os 10, 7 de 10 ou mesmo 100% da lista só de Beatles. Mas não. Um que outro até manifestou a intenção de relacionar Beatles nas 10 posições mas felizmente meus temores não se confirmaram. No caso do Fab Four, em especial, tiveram, por óbvio, um número de indicações proporcional à sua importância de maior banda de todos os tempos, mas felizmente as listas mostraram-se bem diversificadas, curiosas e contendo dicas bem interessantes. Os convidados em sua maioria são de alguma maneira ligadas ao mundo da música, como os músicos Arnaldo Baptista, Péricles Cavalcanti, Dinho e Andreas Kisser, por exemplo, mas também encontramos artistas visuais, produtores, executivos de gravadoras, e ex-VJ's da MTV como Didi, Gastão, Edgar e Thunderbird.
O que torna o livro mais interessante é que a proposta do organizador, Zé Antônio Algodoal, não foi a de necessariamente listar 10 discos qualitativamente ou em ordem de preferência. Seus entrevistados podiam utilizar o critério que quisessem e essa liberdade de escolha resultou em listas muito bacanas. Questões afetivas, cronológicas, de formação, profissionais, primeiras aquisições, parcerias, influências, os critérios adotados são os mais diversos, alguns convidados preferindo comentários mais genéricos, abrangentes, outros mais detalhados, pontuais, disco a disco. Alguns relatos como o da francesa Laetitia Sadier da banda Stereolab são muito amplos, bonitos e completos, por outro lado, pessoas de quem gostaríamos de ter alguma consideração a mais sobre suas escolhas, como no caso do apresentador Jô Soares, foram extremamente econômicos, deixando uma breve observação ou às vezes nenhuma.
A paixão demonstrada pelo músico Hélio Flanders em suas descrições; o envolvimento do diretor de cinema e teatro Felipe Hirsh; as metamorfoses da ex-diretora da MTV Brasil, Ana Buttler; o caso dos primeiros dez discos que o Gordo Miranda ganhou do pai; o texto criativo e bem escrito de Xico Sá; e a emoção de Airto Moreira ao ser apresentado ao álbum “Miles Ahead” pela cantora Flora Purim, no relato de Rodrigo Carneiro, são alguns dos pontos mais legais do livro e que não podem deixar de serem lidos. Como curiosidades, me chamou a atenção o fato do álbum “Boys Don't Cry” do The Cure, que eu, fã, nem considero dos melhores, aparecer bastante entre os votantes; a surpreendente 'disputa' acirrada entre o "Força Bruta", muito votado, e o "Tábua de Esmeralda", que no fim das contas prevaleceu; e o fato de que alguns dos meus xodózinhos como o "Psychocandy" do Jesus and Mary Chain, que eu considero a melhor coisa que eu já ouvi, e o "Loveless" do My Bloody Valentine, que eu costumo dizer que seria o disco que eu levaria para uma ilha deserta, aparecem com bastante frequência no livro em diversas listas, inclusive na do próprio organizador. No mais, muitos dos meus favoritos aparecem com grande destaque entre os mais escolhidos como, por exemplo, o "Nevermind" do Nirvana, o "Transa" do Caetano e o "Tábua de Esmeralda" de Jorge Ben.
Elogios também para a parte gráfica do livro muito caprichada, cuja arte, meio retrô e saudosista, faz referência, desde a capa, a vinis, toca-discos e equipamentos de som antigos.
Para quem gosta de listas, como eu, especialmente aqs de música, é um livro que desperta a vontade de montar as suas próprias, com critérios diferentes, de modo que se consiga contemplar todos aqueles discos que, de certa forma quase como filhos, e tem um lugar reservado no coração.




Cly Reis

terça-feira, 24 de março de 2015

cotidianas #359 - Emiliano passou por aqui



foto: Ricardo Lacerda
É um absurdo o que me aconteceu neste domingo, mas um fato desses não posso deixar passar batido. Domingão de sol, 11h, resolvo dar uma caminhada na Redenção. Eis que esse cara da foto estraga o passeio. Ali, bem no meião do Brique, sentado numa caixa de som que sequer era plana, o cidadão cantava: "Que dulce encantos tienen tus recuerdos Mercedita...". Pô, mas que coisa séria! Parei para dar aquela conferida. Eis que o louco emenda uma milonga do Alfredo Zitarrosa. Aí pensei, cá com meus botões: "Imagina se emenda uma chilena". Foi bem aí que o diabo do músico começou: "Volver a los 17, después de vivir un siglo...". Ah, não! Violeta Parra em plena Redenção é mais que luxo pro gaúcho. Entrou um cisco no meu olho, marejado por detrás das lunas. E ali fui me quedando. Eu e uma dúzia de vivente. E ele não parava: de boininha a la rebelde, violão desbeiçado, microfone todo enjambrado com durex, a cada troco que despejado no case (a maioria de 2 conto), ele dizia um simpático: "brigado, cara". O sotaque não enganava: o “qüera” não era desde aqui.
E assim o tempo foi passando, em meio a zamba, chacarera, chamamé, milonga e até corrido mexicano. Fui ficando, por supuesto. Entre uma e outra instrumental, o exibido encarnou Atahualpa Yupanqui, Daniel Viglietti, José Larralde, Miguel Aceves Mejia y otras cositas más. Uma melhor que a outra. Pedi Victor Jara e Los Olimareños. Fui prontamente atendido. Vendo que estava prestes a fundar um fã-clube do folclorista ali mesmo, um casal (na casa dos 60 e picos de idade) puxou assunto. "Eu vim comprar carne. Preciso ir pra casa fazer o churrasco, mas tá difícil", disse ele. "Por mim, como uma tapioca por aqui mesmo", retrucou a senhora. Mesmo contrariado, o senhor tentou ir embora umas quatro vezes, mas ela sempre dizia: "Deixa eu ouvir mais essa".
A certa altura, já há uns 45 min ali, meu novo amigo foi saindo e me disse, de galhofa, "entrega ela lá em casa amanhã, por favor". Deixei 10 mirréis pro artista. Segundo meu escrutínio, ele angariou uns R$ 200 naquela uma hora e meia em que fiquei no espetáculo. Eu também precisava ir para casa. Quando o artista resolveu dar uma pausa para tomar água, aproveitei e fugi – ainda que a contragosto. Emiliano está de partida. Apenas passou por Porto Alegre. Nessa semana, deve voltar para sua Córdoba natal. Que cara sacana esse Emiliano, estragando o passeio dos outros.








Exposição “Manifesto, ainda que tardio”, de Rubem Valentim – Sala Rubem Valentim – Museu de Arte Moderna da Bahia / Solar do Unhão – Salvador/BA (6/3/2015)




Obra do artista que é a logo do espaço,
na parede externa do anexo.
Minha linguagem plástico-visual signográfica
está ligada aos valores míticos profundos
de uma cultura afro-brasileira
(mestiça-animista-fetichista)”
Rubem Valentim

Conheci parte da obra do artista visual baiano Rubem Valentim (1922-1991) por conta de uma investida frustrada. Pois um dos pontos que almejávamos visitar Leocádia e eu em Salvador era o Solar do Unhão, um belíssimo complexo arquitetônico do século XVII (integrado pelo Solar, pela Capela, um cais privativo, aqueduto, chafariz, senzala e um alambique) sobre o qual saímos de Porto Alegre já com intenção de visitar, pois lá funciona o Museu de Arte Moderna da Bahia – MAM’s sempre fazem parte de nossos roteiros. Ainda por cima, já lá, passando pela Avenida do Contorno, que costeia a Baía de Todos os Santos, pudemos ver de cima o lindo casarão lá embaixo, bem à beira do mar, o que nos empolgou ainda mais em conhecer o local.
Peças compostas em escultura,
madeira e acrílica.
A decepção se deu porque praticamente todo o Unhão estava em reforma estrutural ou em montagem da nova exposição. Resultado: a única galeria que tivemos acesso foi justamente a sala que leva o nome de Rubem Valentim, um anexo do museu localizado numa lomba acima da casa antiga – lindo por sinal, que, em sua arquitetura moderna, contrasta bem com os traços da original de estilo colonial. Pois a decepção não foi total porque ali estava a exposição “Manifesto, ainda que tardio”, de Valentim. Pequena mas bem interessante, mostra um conjunto de esculturas, pinturas e instalações (em algumas obras, os três formatos ao mesmo tempo, todas compostas de escultura, madeira e acrílica) de 1977 e 78. Dono de uma arte figurativa geométrica, Valentim foi um dos pioneiros, segundo o crítico e ensaísta carioca José Guilherme Merquior, de uma arte “semiótica”, devido à sua capacidade de dessacralizar fetiches e objetos rituais, imprimindo a eles contornos de uma semântica peculiar.
A exposição mostra bem isso: símbolos africanos e da religiosidade afro-brasileira são elaborados em formas geométricas graves e concisas, pois transformados pelo concretismo e pelo construtivismo vida urbana. Um cosmopolitismo muito original. O título, inclusive, é bem apropriado: “Manifesto, ainda que tardio” é um documento escrito por Valentim em 1976 onde ele explicava os porquês e as motivações de sua arte, uma vez que ele, artista precursor da moderna arte na Bahia que vivera e expusera em várias capitais brasileiras (Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo) e exterior (Itália, Alemanha, Japão, Colômbia), nunca o tinha feito tão abertamente até então.

Por se tratar de um espaço expositivo temático, sempre há obras de Valentim, porém esta vale bastante a pena ser vista por quem puder.
Os Relevos
Emblema de 1878
Quadros-esculturas da exposição
Raros tons que incrementam a signografia de Valentim
Eu entre as obras de Valentim



segunda-feira, 23 de março de 2015

cotidianas #358 - Casa




"Dentro de Casa"- RODRIGUES, Daniel
grafite sobre sulfite com manipulação digital
nem tudo que
me consome
me
pertence

se
pense
o bolo do
pensamento
coze
e tudo
tudo mesmo
se dissolve

nem tudo
nem tudo mesmo
me convence
convivo, vivo
mas
contudo
suo

deságuo
no líquido
doido
que faz girar a minha
cabeça
de labirinto

Nix e Baco
se congraçam
feiticeiras e bruxas
tomo-me
tomo
engulo o líquido que me
desnorteia

é quando nasce
um poema
Gaia, Eros, Érebo e Caos
calmos
dentro do assim

aos píncaros
suo
e
se pulso
é, pois que
tudo
onde caibo
me pertence
me consome
e se
some
a tantos vire
o nada
absorto
absoluto


(a Waly Salomão)

*******
Casa