Curta no Facebook

Mostrando postagens com marcador Massive Attack. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Massive Attack. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 6 de março de 2023

Everything But the Girl - "Amplified Heart" (1994)

 

“Eu faço música com uma curiosidade de olhos arregalados. É como um experimento de laboratório: você junta duas substâncias químicas em um frasco, mistura e espera uma explosão interessante.”
Tracey Thorn

Como é bom se emocionar com uma música mesmo depois de tantos anos e tanta coisa que já se ouviu na vida. E obviamente, essa emoção, quando manifestada, muitas vezes vem acompanhada de certo exagero proposital. Dia desses, tive um impulso desses nas redes sociais, o que motivou repercussões. Inspirado por meu irmão, que diz que "não existe nada melhor que New Order" (pelo menos enquanto os está escutando), empreguei a mesma máxima quando tive o deleite de ouvir/ver o videoclipe do novo single da Everything But the Girl, "Nothing Left To Lose", que prenuncia o álbum novo da banda inglesa depois de 23 anos. Minha teoria: a de que a EBTG havia atingido o ápice da música pop. Pronto: polêmica armada.

Houve indignação, aqueles que me exigiram explicação por "tamanho absurdo" e quem argumentasse que os verdadeiros reis do pop foram e são os Beatles. Tudo correto, gente. Concordo que me excedi. Mas além do motivo estritamente emocional - o que já se justificaria como licença poética - há no fundo da provocação certa verdade. Aliás, como acontece com todo exagero: uma verdade aumentada. Afinal, a EBTG, se não a maior banda pop da história como lancei, é a que melhor representa a história do gênero atualmente. O novo single prova isso: mesmo tantos anos depois do último material inédito, a dupla Tracey Thorn e Ben Watt tem a capacidade de evoluir em si mesma, sintetizando em seu som tudo que já produziram em mais de 40 anos de carreira. Assim, captam todas as tendências da música pop de antes de seu tempo associando-as a new wave, o indie, ao collage rock e ao pós-punk, que lhes formou, mais os gêneros que vão surgindo pelo caminho.

"Amplified Heart", de 1994, é uma destas saborosas sínteses. Com influências desde sempre do jazz e da MPB, carregam na sua sacola musical tudo o que arrecadaram até aqueles idos da metade dos anos 90, produzindo um daqueles discos de equilíbrio perfeito entre o melodioso e o dançável, entre o melancólico e o alegre, entre o sentimentalismo e o deleite. E sempre com muita classe, o tal sophisti-pop o qual lhes é atribuído. O hit do álbum, uma das músicas mais executadas da década, "Missing", confirma tudo isso. Sentimental e dançante ao mesmo tempo, é daqueles mistérios da indústria musical. Virou febre nas rádios e MTV, ganhando uma remix estilo club do DJ Todd Terry, que a popularizou ainda mais. A canção se tornou a primeira e única da dupla no Top 40 dos Estados Unidos da Billboard Hot 100 e foi a 11ª a passar mais tempo nas paradas da história do US Hot 100. 

Porém, nem tão misterioso assim. Acostumados com a fórmula do perfect pop, que produziram às pencas desde sua estreia em "Eden", em 1985, um dia emplacaram. Houve sucessos anteriores, como "I Don't Want to Talk About It", de “Idlewild” (1988), e "Driving", de “Language of Love” (1990). Mas "Missing" invadiu os nighclubs e, ao mesmo tempo, agradou os ouvidos exigentes, sendo a mais tocada nas estações de rádio de jazz contemporâneo dos Estados Unidos em 1996.

clipe de "Missing", na versão original

Porém, "Amplified...", obviamente, não se resume ao seu maior êxito comercial. Sem exceção, todas as faixas são dignas de um álbum irretocável. "Rollercoaster", a inicial, é outro perfect pop de alta sofisticação, cadenciado pela percussão nos bongôs, uma batida de violão bossa-novista e lânguidas frases de teclado. Já "Troubled Mind", das preferidas, é romântica sem ser balada. Com uma linda levada de violão, tem uma leve cadência funkeada na programação de ritmo, que acompanha a voz sempre hipnotizante de Tracey, uma das melhores cantoras que a música pop já viu - e isso, sim, posso afirmar sem receio de polemizar. Na letra, ela conta sobre uma garota que vê a relação ruir por causa da "mente conturbada" do parceiro, mas que mesmo assim lhe declara: "You know, I love you, love you, love you". 

Semelhante performance sensível e de exímia afinação da front girl acariciam a melodiosa "I Don't Understand Anything", a cantarolável "We Walk the Same Line", ambas de autoria de Tracey, e outro destaque do cancioneiro da banda: "Get Me". Ouvi-la cantando o refrão com aquela voz sensual e apaixonada: "do you have get me" é de cortar o coração de qualquer um. 

Watt, principal compositor e instrumentista do grupo, assina e canta ele próprio as bonitas "Walking To You" e "25th December". Mas o diferencial da EBTG é indiscutivelmente a sua cantora. É ela quem comanda os microfones de mais uma excelente: "Two Star". Esta, sim, uma balada, inteligentemente bem conjugada com os outros números na narrativa do disco. O riff de piano pronuncia dois pares de notas que, dissonantes, simbolizam o desencontro de dois amantes em um triste fim de relacionamento. A letra reforça esta ideia: "Então vá, e pare de me escutar/Pare de me escutar/ E não me peça o que falar, ou para julgar a vida dessa forma/ Quando a minha está em desordem". Com uma sutil bateria e direito a arranjo de cordas do maestro Harry Robinson, tem no vocal de Tracey seu maior trunfo. E quando sentimento sai deste canto! Igual sensação deixa "Disenchanted", que encerra o disco. Somente ao violão e acompanhamento de um sensual saxofone, nela Tracey fica livre para dar um show de interpretação, fazendo lembrar grandes cantoras de baladas da história - olha aí de novo minhas hipérboles! - como Sarah Vaughan, Barbra Streisand e Elis Regina.

Radares da música pop de seu tempo, a dupla Tracey e Watt não parou em "Amplified..." e seguiu cumprindo se papel simbólico. Durante a gravação de “Amplified Heart”, Thorn e Watt escreveram letras e músicas para duas faixas do segundo álbum dos conterrâneos Massive Attack, que representam o que há de mais hype na música dos anos 90. Thorn faz os vocais em ambas as faixas, sendo uma delas o single "Protection", uma obra-prima que alcançou a posição 14 no top 40 e colocou o disco entre os 4 mais vendidos do Reino Unido. Pela EBTG, vieram na sequência ótimos discos: o assumidamente clubber “Walking Wounded”, de 1998, e o experimental “Temperamental”, de 1999, onde efetivam a incorporação de estilos como o trip hop, o drum'n'bass e a dance music. Sempre assumindo a função de totens das referências e tendências estético-sonoras, a banda pode por este aspecto ser considerada, sim, a grande banda pop em atividade, seja por sua atuação protagonista como pela de resguardo do legado do que Beatles, Bowie, Grace, Prince, Nile e diversos outros deixaram. A EBTG atingiu o ápice da música pop? Claro, que não. Exagero meu. Mas enquanto os estou ouvindo meu coração se amplifica e tem a clara certeza disso.

************************

FAIXAS:
1. "Rollercoaster" (Ben Watt) - 3:14
2. "Troubled Mind" (Tracey Thorn/Watt) - 3:34
3. "I Don't Understand Anything" (Thorn) - 4:25
4. "Walking to You" (Thorn/Watt) - 3:30
5. "Get Me" (Watt) - 3:34
6. "Missing" (Thorn/Watt) - 4:06
7. "Two Star" (Watt) - 4:06
8. "We Walk the Same Line" (Thorn) - 4:00
9. "25 December" (Watt) - 4:04
10. "Disenchanted" (Thorn/Watt) - 2:03
Faixa bônus
11. "Missing" (Todd Terry Club Mix) - 4.07


************************

OUÇA O DISCO:


Daniel Rodrigues


quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Música da Cabeça - Programa #126


Parece que a Nasa descobriu condições de vida na lua de Júpiter, a Europa. Enquanto a gente nãos se muda pra lá, o negócio é aproveitar o Música da Cabeça. Ainda mais porque hoje tem toda essa variedade sonora, que não se encontra em outro lugar do Sistema Solar: Seal, Gustavo Galo, Brian Eno & John Cale, Kid Abelha, Massive Attack, Velha Guarda da Mangueira e mais. Não precisa ser extraterrestre pra entender que aqui na Terra ainda tem coisa que vale a pena, como o MDC, que vai ao ar às 21h, na constelação da Rádio Elétrica. Produção, apresentação e missão espacial: Daniel Rodrigues.


Rádio Elétrica:
http://www.radioeletrica.com/

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Leftfield - "Leftism" (1995)



"Queime, Hollywood,
queime!"
de "Open Up"



Eu estava no lendário Bar Ocidente em Porto alegre, numa festa de música eletrônica, quando tocou aquilo... Era a voz de John Lydon esmerilhando sobre uma base eletrônica feroz e alucinante. "Demais!", pensei. Ali, assim, na loucura da noite, com álccol na cabeça, sem a devida concentração para ouvir bem, com atenção, parecia ser uma versão dance de "Under The House" do PIL do disco "Flowers of Romance", e durante muito tempo acreditei que fosse. Fiquei enlouquecido e a partir do dia seguinte já fui, como podia, em busca da tal versão. Na época a internet não era o que é hoje e não havia todas as facilidades de busca, downloads, informação, compras, etc., então recorri a amigos que pudessem ter ouvido a música em questão ou algo a respeito sobre um remix, consultei donos das lojas alternativas que frequentava, procurei alguma menção na revista Bizz, na rádio Ipanema ou qualquer meio que pudesse me dizer o que era aquilo e onde conseguir. Não encontrei. Desisti de procurar, não sem, no entanto, permanecer atento. Eis que anos depois, nem lembro como, a tal música veio pousar nos meus ouvidos de novo e aí descobri o que era. Tratava-se de uma participação de John Lydon com o duo britânico de música eletrônica Leftfield, e o objeto da minha busca chamava-se "Open Up", um petardo dançante no qual a voz do ex-Pistol parece fazer reviver o punk em uma linguagem atualizada, tal a fúria e contundência de sua interpretação.
"Leftism", o disco de estreia da dupla britânica, como pude constatar logo em seguida assim que  minha curiosidade aguçada por "Open Up" não se resume a ela e muito menos se justifica meramente pela participação de um grande nome. O álbum pode ser considerado um dos grandes registros da música eletrônica nos anos 90 e por extensão, naquela época de afirmação do gênero com nomes relevantes se sobressaindo à massa "tush-tunsh", um dos melhores nesta linguagem desde então.
Num meio termo entre a introspecção do Massive Attack e a violência do Prodigy, o Leftfield  impregnava seu som de elementos rítmicos variados evidenciando influências reggae e afro, numa fusão com ambient music, hip-hop, dub, que conferiam toda uma autenticidade à sua música.
Assim é "Afro-Left": capoeira, macumba, energia, numa peça musical contagiante conduzida por um sampler de berimbau e cantada num suposto dialeto africano, constituindo-se num dos momentos mais incríveis do álbum.
"Release the Pressure" como primeira música parece ser o catalisador de todos os elementos propostos no trabalho, a ambient-music, o raggae, o dance e a raiz cultural negra; "Melt" é uma adorável viagem sensorial; "Song of Life" transita entre diversas variações e possibilidades; e "Storm 3000" desconstrói o drum'n bass desacelerando-o em nome  de uma atmosfera mais esparsa.
"Original" é um pop que carrega nas sonoridades reggae; "Black Flute" e "Space Shanty" são daquelas pra se acabar na pista de dança; a excelente "Inspection (Check One)" outra das grandes do disco, traz  mais uma vez bem acentuado o apelo étnico-sonoro com os vocais carregando no sotaque dos guetos; e a viajante "21st. Century Poem" acaba o disco baixando a rotação definitivamente para um clima mais reflexivo em mais um transe sonoro proporcionado pela dupla londrina.
"Leftism" por sua ousadia e incorporação de elementos exóticos e étnicos e inclui-se num seleto grupo de uns 5 ou 10 álbuns que mudaram  e qualificaram a música eletrônica a partir dos anos 90, do qual também fazem parte obras como "Dig Your Own Hole" dos Chemical Brothers, "Homework" do Daft Punk, "Mezzanine" do Massive Attack, "Fat of The Land" do Prodigy, só para citar alguns. Sem dúvida um dos mais importantes álbuns de música eletrônica já feitos e um dos grandes definidores de linguagem, ainda hoje extremamente influente e relevante.
******************

FAIXAS:
  1. Release The Pressure 7:39
  2. Afro-Left 7:32
  3. Cut For Life 7:09
  4. Melt 5:15
  5. Black Flute 3:56
  6. Original 6:22
  7. Inspection (Check One) 6:29
  8. Space Shanty 7:14
  9. Storm 3000 5:45
  10. Half Past Dub 3:38
  11. Open Up 8:44
  12. 21st Century Poem 4:39
**************************
Leftfield - "Open Up"



Cly Reis

sábado, 18 de agosto de 2012

Massive Attack - Mezzanine (1998)




"O Massive Attack nunca foi uma banda convencional."
Robert Del Naja



Conheci o Massive Attack com o clipe de “Teardrop” na MTV. Fã que sou de Cocteau Twins, fiquei fascinado com aquela combinação da voz angelical de Liz Fraser com a batida eletrônica sutil e a melodia delicada da canção. Descobrindo que a música fazia parte do álbum “Mezzanine”, tratei de comprá-lo o quanto antes. Para minha agradável surpresa, ouvindo o álbum, chegava então à conclusão que a excelente “Teardrop” não era a melhor coisa que aquele disco tinha. A começar por “Angel”, que abre o disco, com seu ar misterioso, atmosfera árabe, vocal meio sussurrado, iniciando suavemente até incendiar-se com uma furiosa e estrepitosa guitarra que dá corpo à canção da metade para o final.
O disco todo é meio que mergulhado em climas orientais arábicos e a ótima “Innertia Creeps” com sua percussão bacanérrima e a faixa-título do álbum, “Mezzanine”, repetem esta característica de forma bem marcante. Mas o disco é um festival de estilos, influências e colagens e dentro disso, cores reggae aparecem sutilmente combinadas ao vocal hip-hop de “Risingson”; mais fortes no baixo grave de “Dissolved Girl”, e mais evidentes na condução da ótima “Man Next Door”, que conta com samples de The Cure e Led Zeppelin; já “Exchange”, esta com trecho sampleado de Isaac Hayes, é um adorável cool jazz charmoso com a marca da sofisticação sonora do grupo.
Liz Fraser volta a aparecer em duas faixas, “Black Milk”, canção lenta em que divide os vocais com um dos vocalistas do Massive, Rober Del Naja; e na excelente “Group Four” uma espécie de pesadelo crescente, intensa, forte, de vocal envolvente e enfeitiçante de tirar o fôlego. Para recuperá-lo, antes de encerrar o disco, “(Exchange”) retorna só para dar aquele último gostinho e aquela relaxada final para terminar com uma sensação gostosa.
Um ótimo disco de uma banda que sempre fez discos no mínimo interessantes mas sofria constantemente com problemas internos. Na época do “Mezzanine’ conta inclusive que os integrantes mal se falavam. Pode? Nem mesmo sei como é que um grupo que brigava tanto conseguiu produzir pérolas como foram especialmente o ótimo "Blue Lines" e este, também excelente, “Mezzanine”.

***********************************************

FAIXAS:
  1. "Angel" - 6:18
  2. "Risingson" - 4:58
  3. "Teardrop" - 5:29
  4. "Inertia Creeps" - 5:56
  5. "Exchange" - 4:11
  6. "Dissolved Girl" - 6:07
  7. "Man Next Door" - 5:55
  8. "Black Milk" - 6:20
  9. "Mezzanine" - 5:54
  10. "Group Four" - 8:13
  11. "(Exchange)" - 4:08


**********************************************
 Ouça:

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Massive Attack "Blue Lines" (1991)



"O que nós estávamos tentando fazer era criar dance music para a cabeça, e não para os pés."
Daddy G


Há alguns anos atrás quando ouvi o "Mezzanine" do Massive Attack fiquei muito impressionado. A sensual "Angel", a doce "Teardrop", o climão de "Inertia Creeps" fazem deste um álbum de primeira linha no gênero que foi batizado como Trip-Hop, do qual o Massive á um dos precursores. Anos depois acabei, por boas referências, ouvindo o primeiro álbum, "Blue Lines" de 1991, que para minha surpresa é ainda melhor.
"Blue Lines" tem uma linha mais soul, mais swingada, com influências mais evidentes de jazz e raggae. O baixo matador e agressivo de "Safe from Harm", com o vocal feminino poderosos da convidada Shara Nelson, já dá o cartão de visitas do que vai ser o álbum. A mesma cantora também empresta sua bela voz para "Unfinished Sympathy", "Lately" e "Daydreaming", sendo que esta última conta com a participação de Tricky, que por sua vez ainda aparece em "Five Man Army" e Blue Lines".
"One Love" com vocal de outro convidado, Horace Andy, é outro destaque e "Lately", propositalmente primária com sua programação de base repetitiva é adorável e graciosa. "Hymn of the Big Wheel", com participação de Neneh Cherry, fecha o disco em mais um exemplar grandioso desta fusão de elementos que a banda consegue criar.
Acordei com "Hymn..." na cabeça hoje e "Blue Lines" do Massive Attack está sendo minha trilha sonora do carro.
Ótima trilha!

**********************
FAIXAS:
  1. Safe from Harm
  2. One Love
  3. Blue Lines
  4. Be Thankful for What You’ve Got
  5. Five Man Army
  6. Unfinished Sympathy
  7. Daydreaming
  8. Lately
  9. Hymn of the Big Wheel
**********************
MASSIVE ATTACK:
Robert "3D" Del Naja : vocais - teclados
Grantley "Daddy G" Marshall :  vocais
Andrew "Mushroom" Vowles :  teclados
************************
Ouça:
Massive Attack Blue Lines



Cly Reis