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terça-feira, 10 de novembro de 2009

"Morrissey: The Pageant of His Bleeding Heart", de Gavin Hopps - ed. Continuum (2009)

Morrissey é o melhor letrista britânico de todos os tempos



Li hoje uma pequena matéria na Internet que confirma uma impressão que sempre tive desde que comecei a ouvir os Smiths e me interessei em saber o que diziam as letras que acompanhavam aquelas melodias encantadoras e cantadas daquele jeito tão emocional: Morrissey é o melhor letrista do mundo da música! É o que também afirma o sr. Gavin Hopps, palestrante da Universidade St Andrews, e especialista em romantismo britânico que escreveu o livro Morrissey: The Pageant of His Bleeding Heart. Segundo o ensaísta, que já discorreu em outras oportunidades sobre o mundo pop-rock, a qualidade do ex-Smiths pode ser comparada à de mestres das letras inglesas, inclusive a um dos ídolos do cantor (e meu também), Oscar Wilde.
Principalmente quando descobri Smiths ficava vendo aquelas letras e percebia que aquilo era algo diferente. Tinha conteúdo, tinha sensibilidade, poesia, tinha texto e qualidade de escrita. Muito raramente se vê boa qualidade de escrita em música. Muitos tem contundência, muitos tem mensagem, muitos tem boa construção mas tudo junto, somado a um bom texto, não sei..., talvez só Dylan tenha.
Mas ainda que admita que outros tenham letras tão boas, Mozz tem ainda um diferencial: o jeito que canta. Poucas vezes eu senti alguém conferir tão perfeitamente o significado das palavras, expressões, das frases. Seja extremamente triste, seja cínico, seja apaixonado, irado, ele coloca a entonação exata no que canta.
Mas no que diz respeito às letras, em particular, considerava exatamente isso que afirma o professor Hopps, sem a mesma bagagem de estudo dele, de que Morrissey é um genuíno herdeiro da grande tradição de letras britânica. Em Londres mesmo, em uma revista li também algo a respeito reverenciando esta verve literário-poética deste inglês; recentemente li também o crítico, ex-roqueiro, Kid Vinil também tecer loas à pena de Morrissey.
É legal para fã ver este tipo de análise qualificada. Não que a do fã não tenha qualidade -pode ter, sim-, mas muitas vezes nos perguntamos até que ponto a admiração nos conduz, nos cega e acaba elevando o ídolo mais alto do que ele mereça. No caso de Morrissey cada vez mais fica evidente que nós fãs não estamos enxergando demais. É isso aí, mesmo. Morrissey escreve como ninguém.





Cly Reis

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

New Order - "Brotherhood" (1986)




Não existe nada melhor que New Order


Eu tenho uma teoria (mentirosa) que não existe nada melhor do que New Order. É a sensação que eu tenho no auge do solo de baixo de “Perfect Kiss”, curtindo a melodia de “Bizarre Love Triangle”, no início da bateria eletrônica clássica de “Blue Monday”, enfim, parece que enquanto se está ouvindo New Order a sensação é de que aquilo é a melhor coisa do mundo. Lógico que aí vem à cabeça um Kraftwerk, os Stones, uns Smiths da vida e a gente cai na real e vê que não é tanto assim. Mas que é demais é. Principalmente ouvindo o excelente “Brotherhood”, de 1986, que mais do que qualquer outro da banda passa essa sensação. Com “Brotherhood” parece que o New Order acha o meio termo entre suas experimentações eletrônicas e seu veio de banda de rock, encontrando o melhor entrosamento entre teclados-sintetizadores-bateria eletrônica com guitarra-baixo-bateria.
“Paradise” que abre o disco já dá mostra disso, com uma entrada de bataria falando alto, uma base eletrônica mas com aquele vocal melodioso de Barney Sumner e com o baixo de Peter Hook, como de costume, funcionando como uma guitarra; no que aliás ele é singular.
As seguintes seguem também esta linha de interação de elementos, com uma curiosa, até então, atenção para as guitarras que não costumavam figurar na música dos caras.
Um dos maiores hits da banda “Bizarre Love Triangle” não foge à esta regra e embora tenha predominância de elementos eletrônicos, vale a pena desviar a audição dos teclados e tudo mais para se ouvir o contrabaixo de Hook conduzindo a música com uma beleza admirável.
“All Day Long” que a segue é um dos pontos altos com seu final apoteótico com teclados soando como uma orquestra de violinos; e a próxima, “Angel Dust” é uma viagem dançante com uns samples de vozes em árabe, e que culmina num surpreendente e empolgante solo de guitarra.
O disco fecha com a quase acústica “Every Little Counts”, leve e descontraída a ponto de Bernard Sumner rir da própria letra durante a música, que acaba estranha e curiosamente com uma mistura de ruídos, como de uma agulha arranhando um vinil.
Muita gente prefere o álbum anterior, “Low Life”, que direciona mais para esta tendência eletrônica da banda, mas que na minha opinião ainda fica devendo no acabamento da idéia; outros preferem o posterior, também excelente, “Technique”, que é uma lapidação e uma mistura dos conceitos dos dois anteriores, mas ainda fico com o “Brotherhood” que é tão bom, que quando a banda quis retormar o rumo, foi nele que buscou referências para fazer o, também interessante, álbum “Get Ready” de 2001. “Brotherhood” é meio rock, meio eletrônico, meio acústico, meio Joy Division, mas sobretudo é totalmente New Order e a história acabou provando isso e fazendo justiça a esse álbum que quando lançado não teve tão boa receptividade. Tanto que a mal recebida “Bizarre Love Triangle” é hoje, provavelmente o “cartão de visitas” da banda em qualquer lugar no mundo.
Sei que ouvindo o êxtase da “orquestra” de “All Day Long”, o inusitado solo de guitarra vibrante em “Angel Dust”, aquele incrível baixo sempre solando soando como uma guitarra, aquela integração de percussão eletrônica com acústica como só Stephen Morris sabe fazer desde os tempos do Joy, afirmo que, pra mim “Brotherhood” é sim, o melhor disco da banda e, digo-lhes também, senhores, que não existe nada melhor do que New Order.
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FAIXAS:
1."Paradise" – 3:50
2."Weirdo" – 3:52
3."As It Is When It Was" – 3:46
4."Broken Promise" – 3:47
5."Way of Life" – 4:06
6."Bizarre Love Triangle" – 4:22
7."All Day Long" – 5:12
8."Angel Dust" – 3:44
9."Every Little Counts" – 4:28
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Ouça:
New Order Brotherhood

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

cotidianas #11 - Treze, treze, treze...



Dois homens estão perto de um poço repetindo:
- Treze, treze, treze...
Um cara chega perto deles e pergunta:
- O que é que vocês est...
Pegam ele, atiram dentro do poço e começam:
- Quatorze, quatorze, quatorze...

Berinjela Beligerante




terça-feira, 3 de novembro de 2009

The Stone Roses - "The Stone Roses" (1989)





"I'm the Ressurection
and I'm the life"



Adquiri sábado, irresponsavelmente , a edição de 20 anos aniversário do álbum “The Stone Roses”. Digo irresponsavelmente por que uma edição dessas com o álbum original, mais um de demos, mais o DVD, foi uma verdadeira facada no rim ($$$). Mas e daí? Que se dane!
O grande disco dos Stone Roses, um dos marcos da cena chamada Madchester, daquela renovada onda de psicodélicos ingleses do final dos 80 acabou por ser na verdade um dos discos mais importantes da década seguinte que já estava ali às portas. Muitos como Charlatans, Ride, An Emotional Fish, Inspiral Carpets, já estavam na estrada e tinham o seu som, mas os Roses, certamente ajudaram a direcionar e abrir novas possibilidades.
Novas possibilidades como em “Warerfall” com sua melodia hipnótica que lá pelas tantas parece acabar e começa a tocar invertida mas continua sendo cantada normalmente. Já vimos isso com Hendrix em “Are You Experienced”? Já. Certamente. Mas aquela sonoridade da Grâ-Bretanha no final dos 80 precisava destas reinjeções, destas reexperimentações.
É lógico que nada se cria. Muito do disco é Beatles puro. Puro, não, aliás. Quase puro. Quase impuro. Sempre entendi que os Beatles deram os passos que ninguém havia dado até então, mas quando chegou a hora de seus discípulos (inesgotávies) os darem, o fizeram com um resultado melhor porque o caminho já estava trilhado. Por isso algumas coisas são totalmente influenciadas pelos Fabfour mas acabam, aquelas alturas, em 1989, tendo um resultado mais conciso. “I Wanna Be Adored” é um exemplo disso, “Bye Bye Badman” é outra muito próxima daquela sonoridade mas soa bem contemporânea e “Elizabeth My Dear” também não deixa de ter esta característica, mas tem aquela tocada mais melancólica, num breve acústico que funciona quase como uma ponte dentro do álbum.
Pontos altos na minha opinião são “Made of Stone”, que foge um pouco da característica do resto do disco, com uma pegada mais forte, e a clássica “I’m the Ressurrection” que é uma metamorfose contínua ao longo de seus quase 9 minutos.
A edição ainda tem uma bônus no disco principal que é a ótima “Fools Gold”, também totalmente psicodélica e mutável, que sem sofrer variações bruscas, vai indo, indo e termina bastante diferente de como começou.
O segundo disco é praticamente só de versões demo, sendo a maior parte de músicas daquele álbum mesmo, além de uma faixa inédita até então, “Pearl Bastard”; e o DVD traz parte de uma apresentação ao vivo em Blackpool com 6 músicas.
“The Stone Roses” com certeza é um dos meus álbuns preferidos e por certo, também, um dos mais influentes e importantes de todos os tempos, freqüentador assíduo de listas de melhores álbuns de todos os tempos e apontado, por exemplo, pela New Musical Express como o “maior álbum britânico de todos os tempos”.
Entre os 10, deve estar, sim.

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FAIXAS "The Stone Roses" 2009 20th. Aniversary Release:
  • disco 1
The Stone Roses album
1."I Wanna Be Adored" 4:52
2."She Bangs the Drums" 3:42
3."Waterfall" 4:37
4."Don't Stop" 5:17
5."Bye Bye Badman" 4:00
6."Elizabeth My Dear" 0:59
7."(Song for My) Sugar Spun Sister" 3:25
8."Made of Stone" 4:10
9."Shoot You Down" 4:10
10."This Is the One" 4:58
11."I Am the Resurrection" 8:12
12."Fools Gold" (UK 12" single version; bonus track) 9:53

  • disco 2
The Lost Demos
1."I Wanna Be Adored" (Demo) 3:42
2."She Bangs the Drums" (Demo) 3:46
3."Waterfall" (Demo) 4:45
4."Bye Bye Badman" (Demo) 4:03
5."(Song for My) Sugar Spun Sister" (Demo) 3:30
6."Shoot You Down" (Demo) 4:25
7."This Is the One" (Demo) 4:00
8. "I Am the Resurrection" (Demo) 6:38
9."Elephant Stone" (Demo) 3:13
10."Going Down" (Demo) 2:40
11."Mersey Paradise" (Demo) 2:47
12."Where Angels Play" (Demo) 3:16
13."Something's Burning" (Demo) 3:03
14."One Love" (Demo) 6:22
15."Pearl Bastard" (Demo; previously unreleased track) 3:42

  • disco 3
Music videos
1."Waterfall" (Video) 3:36
2."Fools Gold" (Video) 4:14
3."I Wanna Be Adored" (Video) 4:33
4."One Love" (Video) 3:47
5."She Bangs the Drums" (Video) 3:41
6."Standing Here" (Video) 3:15

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Ouça:

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Cotidianas #10 - A Letra do Morto


A LETRA DO MORTO

"Gosto dos cemitérios por serem eles cidades monstruosas prodigiosamente habitadas."
Guy de Maupassant, "As Tumulares" 

empre fui dado a catar souvenirs.
Por onde passo, de festas, viagens, encontros, levo alguma recordação. Não sei porquê. Talvez por medo de perder o momento.
Mas não se engane meu eventual leitor, não os roubo. Na maior parte das vezes, peço licença a um anfitrião ou conviva para levar a lembrança. A não ser quando está ali, ao dispor para que todos peguem. Como no aniversário da filha do Corrêa, onde a esposa, D. Amália, fez uns arranjos graciosos com flores e guirlanda. Vi que as mulheres, principalmente, quando prestes a irem embora levantavam e levavam os das suas mesas com a anuência de D. Amália. Percebendo que não havia mal algum, já me despedi dos anfitriões com o arranjo nas mãos.
Outro dia, devo revelar que em um desses encontros furtivos com uma amiga, antes de nos deixarmos, pedi que me desse algo para recordar nosso primeiro encontro.
Enrubesceu logo mal pensando, com certeza, ao que lha aliviei pedindo apenas o grampo que prendia a grinalda do chapéu.
Sou assim, guardo todos esses mimos. Chego a ter um quarto nos fundos, onde fora antigamente a senzala, no qual acumulo todas essas bugingangas. São broches de moças bonitas, lenços já com quase sem perfume, rosas ressequidas pelo tempo, taças de velhas comemorações, papéis de carta, brinquedos, cachimbos, pince-nezes, tudo.
Conto isto porque penso que um destes bibelots casuais tenha acabado por mudar meu destino em determinado momento. Deixe que lhes explique o porquê:
Por ocasião da morte do Seixas, colega de repartição, vítima de tuberculose, fui ao enterro no São João Batista, ali em Botafogo. Não que fosse muito chegado, muito próximo, não. Mas um pouco por respeito, um pouco porque os outros colegas podiam julgar mal minha ausência, resolvi por prestar minha última homenagem.
Também não sou daqueles nojentos e supersticiosos que não suportam cemitérios. Não. De minha parte até que se configurava um passeio assaz curioso. Perambular por entre covas, jazigos, sepulturas; cada uma com adornos mais interessantes que a outra: anjos, santos, cruzes latinas, cruzes gregas, até caveiras. Lápides das mais simples, só com mármore branco pobre, aos mausoléus mais espetaculares, com Nossa Senhora ajoelhada à beira do catre derradeiro do Filho retirado da cruz, tão perfeitos em pedra branca que se diriam ser os próprios.
Leontina das Neves, Antônio Amaro Rocha Brandão, Joaquim Maria de Alencar (saudades eternas), Quincas Lisboa de Assis (dos filhos e esposa que nunca te esquecerão). Foi assim passando os olhos pelos nomes, alguns curiosos e exóticos, outros comuns, que começou a se configurar meu infortúnio.
Ainda antes do enterro do Seixas, caminhando em direção à ala onde realizar-se-ia a cerimônia funeral, caminhando nas vielas, fiquei a pensar no que poderia eu levar dali, sem que ofendesse os mortos e que me satisfizesse a mania de colecionador. Pensei em flores mas já estavam secas e até malcheirosas, e as que estavam frescas, ora, eram ainda oferenda válida a um falecido. Uma tira de fita das corôas de flores, avaliei que seria igual despropósito. Um pedaço de mármore já meio rachado seria interessante, pensei eu, começando então a vasculhar a ver se algum estava em mau estado, quebradiço, esturricado; mas por minha má sorte, exatamente naquele trecho que percorria, todas as lápides estavam em perfeita conservação.
Temporariamente desestimulado do intento, apaguei da mente a idéia e segui em direção à saída. Tirei a mão do bolso e, como que criança, estendi um dos braços de modo a alcançar as sepulturas e roçar-lhes com as pontas dos dedos, tocando-as apenas pelo prazer de distrair as mãos com algo diferente durante aquele percurso. Nesse dedilhar de mármores e letras em relevo, uma delas, que por certo já estava meio solta, desprendeu-se então de todo da pedra com um levíssimo contato meu, desfalcando o nome que identificava o morto ali residente: JOSÉ TRANQÜILINO DE AZEVEDO _AVIER, 1854-1903.
O inusitado do incidente deixou-me com o “X” de Xavier na mão e não considerando ter cometido ilícito ou vandalismo, preferi atribuir meu benefício ao acaso, embolsando assim o souvenir sem culpa.
Mas só Deus sabe o quanto me custou alimentar meu hábito de acumulador de quinquilharias.
Como que de uma hora para outra minha sorte mudara. Logo que cruzei o portão do cemitério isto ficou claro e límpido para mim. Avaliando que não tinha eu mais o que fazer por ali e pensando que, àquelas horas, em tempo ainda poderia aproveitar minha ida a Botafogo para passar na casa do Vilela; ali no Largo dos Leões; para cobrar-lhe uns cinco mil-réis que me devia; resolvi correr para alcançar um tílburi que se afastava vazio e nesta, fui ao chão de maneira vexatória proporcionando um constrangedor espetáculo para todos que assistiam na rua. Por conta do ocorrido, humilhado pela situação, até desisti da cobrança do Vilela, subi no mesmo tílburi, que consegui fazer parar, e fui direto para minha casa. Como se não bastasse a vergonha pública, ao chegar em casa, notei que meu relógio, herança de meu avô, acabara com o vidro trincado por conta da queda. QUE AZAR!
Mas, amigos, este seria só o primeiro de muitos. Minha vida transformar-se-ia em um verdadeiro inferno. Desde então, só para enumerar, a jovem a quem eu cortejava passou a ignorar-me, assim sem mais; perdi 2 contos de réis, que não possuía, na mesa de Vinte e Um, na qual era habitual vencedor a ponto de se perguntarem meus parceiros de jogo, de onde tirava tamanha sorte; fui difamado por ocasião de um furto na repartição que, como não se esclareceu muito bem, manteve a injusta mácula do crime sobre mim, tornando-me mal-visto e disfarçadamente indesejado nas rodas sociais; enxarcaram-se meus livros em uma chuvarada que fez vazar o telhado justo sobre a biblioteca; e ainda me pegou fogo, sem motivo racional, na antiga senzala onde guardava os souvenirs.
Não sou supersticioso, como já disse mas, procurando entender porque me acometiam constantes insucessos, não pude deixar de associar o início da fase aziaga à retirada da letra da tumba. Retirada não! Nunca que a arrancara. Aquela caiu, soltara-se. Ora, mas a quem quero enganar? Não a extraí, não a broquei, é verdade, mas, sim, me aproveitei da brincadeira do destino de fazê-la soltar-se logo para mim, à minha frente, para então levá-la e poder dividir a culpa com o acaso. A quem pensava enganar? Profanara uma sepultura, brincara com os mortos, ofendera um defunto. Os céus, o mundo do além, a alma do sr. Tranqülino, deviam estar me cobrando agora tal injúria. Um Xavier sem X; ora, mas como pude? Gostaria eu, morto, que me aparecesse um João qualquer e retirasse o D, que fosse, do “descanse em paz” da minha lápide? Não, por certo.
Ponderei que o correto, para o bem de minha consciência e de modo a acalmar a fúria vingativa do falecido ultrajado, seria devolver-lhe o X. Decidido a não perder mais tempo e desfazer a maldição, corri ao São João Batista, não sem levar uma vasilha com um pouco de grude para o caso do carácter não querer fixar-se por bem.
Adentrei os mórbidos portões, que me pareceram agora mais assustadores do que nunca e dirigi-me para onde me recordava, vagamente, de ter recolhido o objeto. Andei entre as vielas, voltei, perdi-me, andei em círculos, até que, lá pelas tantas, vi-me frente a frente com a lápide aleijada do sr. Tranqüilino. Tratei logo, como que para abreviar meu sortilégio, de repor a letra no lugar. Ao contrário do que imaginava, nem precisei do grude e a peça encaixou perfeitamente como se nunca tivesse estado frouxa o suficiente para ter caído com um alisar de mãos. Pronto: estava refeito o Xavier do nome. Minha agonia acabaria. Teria o perdão silente do além. Mas não. Engano meu. Parece ter tido efeito contrário. As coisas pioraram.
Perdi muitas de minhas posses para pagar a dívida do Vinte e Um, que com o tempo só fez crescer, tive que vender a casa onde vivia na Glória e por causa do incidente do furto na repartição, nunca mais recuperei o bom olhar dos amigos que passaram, mesmo sem comprovação, a ver-me como larápio, não podendo eu contar com eles para ajudar a sanar minhas dívidas. Agora, doente,com um inexplicável mal, que nem a medicina nem curandeiros souberam explicar nem curar, me encontro entrevado nesta cama, nesta modesta pensão na Rua do Ouvidor; e a cada noite, juro-lhes amigos, todas as noites sem exceção, rogo pelo perdão do falecido, ou da casa dos mortos, ou de Deus, de quem quer que seja, pelo mero ato de ter recolhido do chão aquela letra, aquele X, que não sei até que ponto tem poder sobre tudo isso. Mas hoje, de toda feita, tudo o que me resta, e, a estas alturas, não custa tentar, é pedir perdão.

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terça-feira, 27 de outubro de 2009

Os Causo de Dois Morro - "O causo da funda que derrubô um disco avoador" ou "Um Ósveni em Dois Morro" ou "O Causo do Osvardo"


Teve esse causo agora nos Rio de Janêro de derrubá um heliscópetero a chumbo, pois num foi? Teve aquele moço do cinema, do firme, o Debruço Willis, não é esse o nome?, que derrubô um bicho avoador desse, também, com um automóver. Mas essas coisa nem se compara ao que aconteceu em Dois Morro.
Foi- se o que aconteceu-se que um guri, um piá, tava brincando de caçá gaviota com uma funda. Ele catava os coquinho dos butiá, esticava a borracha e pim! Era ôtra gaviota derrubada.
Tava lá o piazito, o tar doRodrigo (purqui, ô criançada pra dá de sê capeta esses qui si chamo Rodrigo) e no de fazê mira pra acertar o anemar de asa, me passa um disco avoador bem na hora. O guri, qui já tinha engatilhado a funda, sortô a tira e o coquinho foi. Errou o bicho mas acertô direito no avião dos extraterrense. Aquela geringonça bambeô, bambeô, deu dois rodopio e caiu atráis do morro da esquerda.
A piazada toda correu pra lá pra vê, e pra falá a verdade uma porção de gente foi lá também, purque nunca qui tinha caído um ósveni em Dois Morro.
Cheguemo lá só que, na caída, o disco pegô fogo e todos os ET morrero. Todos menos um!
Um deles ficô vivo. Socorremo ele, tratamo ele, ele sarô das queimadura, fico amigo de toda gente, ficô amigo das criança e mora em Dois Morro té hoje. Nóis chama ele de Osvardo. Por caus’deque Osvardo? Ué, foi um nome quarqué qui nóis demo pr’ele.
Sei qui o Osvardo casô com a Leocrécia, vivêro bem por uns tempo, dispois o Osvardo deu pra bebê, perdeu o sítio no jogo e tá cada vêiz mais afundado na mardita.
Vive oiando pra cima e gritando pros céu pedindo pra argúem vim buscá ele. Quem num sabe da história do coquinho acha qui ele é loco de creditá em disco avoador.
Coitado do Osvardo!
postado por Chico Lorotta

domingo, 25 de outubro de 2009

Prodigy - Citibank Hall - Rio de Janeiro (24/10/2009)




Prodigy quebrando tudo!
O que é que foi aquilo ontem?
Destruição total!!!
Vou ter que conferir se o Citibank Hall ainda está em pé, no seu lugar, porque o Prodigy botou abaixo o lugar.
Já saíram anunciando a destruição do mundo com "World is on Fire" e aí, meu amigo, se abriu-se a roda punk e a ninguém segurou mais a galera.
Seguiu-se o agressivo hit "Breathe" que alucinou ainda mais o público e na seqüência, uma das novas queridinhas dos prodigianos, "Omen".
É verdade que houve alguns problemas de som no início e principalmente "Spitfire", que gosto muito sofreu com a deficiência no som dos samples. Tinha a batida, tinha o groove, mas aquele gemidinho cantarolado que conduz a música, e os efeitos ficaram bem sumidinhos. Outra que gosto muito, "Poison", perdeu força ao vivo. Não funcionou. Tanto que o próprio Liam Howlwet deu uma reduzida no tempo dela. "Voodoo People", ao contrário, ficou melhor no palco mesmo tendo perdido o peso daquelas guitarras sampleadas entrecruzadas da versão original, ainda que houvesse um guitarrista no palco. Legal que como ela é um dos temas dos intervalos do futebol americano, e no Rio o esporte é bem popular, parte do público ficava imitando com a boca um sample da música, criando sua própria versão.
O mundo em chamas!
A qualidade do som foi sendo corrigida aos poucos e parece que, muito convenientemente ela melhorou de vez na esperadíssima (e novo xodó dos fãs) "Take me to the Hospital", um verdadeiro atropelamento por um ômibus de dois andares,entoada em côro e puxando de novo a galera lá pro meio do tumulto. Muito foda!
A propósito disso, tanto "Take me...", quanto "World is on Fire", "Omen", "Invaders Must Die", e outras do novo álbum foram aguardadas e cantadas com o mesmo entusiasmo de uma "Firestarter", por exemplo, demonstrando o quanto o público dos caras é fiel e conhece o que a banda vem fazendo, ao contrário de muitas turnês de lançamento de álbuns, onde o público só fica esperando pelos antigos sucessos.
A citada "Firestarter" verdadeiramente "incendiou" o lugar e foi outro dos pontos altos do show na que foi a melhor performance de Keith Flint, que no palco, perde de longe para o Maxxim Reality, que é sim verdadeiramente um MC de presença e domínio. Flint é carismático, com aquele seu visual cyber-punk-Bozo, mas basicamente fica, na maior parte das vezes dançando (pulando) de um lado pra outro no palco.
A primeira parte fechou com a não menos esperada "Smack my Bitch Up" e os caras voltaram só para fazer a clássica "Out of Sapece", detonando, cheia de peso, de groove, mas carregada de raggae.
Uma verdadeira celebração! Uma festa punk! Um dos melhores shows de rock que já assisti. Mas sei que dirão "ROCK? Prodigy é eletrônico". Mais do que nunca ficou provado para mim que rock é mais do que um ritmo, um estado de espírito.
Aquilo era sim um show de rock.
Foi uma celebração!

Um grande show.
OUTROS TOQUES:

-Um horror a primeira banda de abertura lá no Citibank Hall, a tal de Montage.
Quando eu chegeui tavam tocando uma espécie de "funk carioca" meio Prodigy (se é que issso é possível) e lá pelas tantas tocaram uma versão esdrúxula de "I Wanna be Your Dog" que deixaria o Iggy Pop constrangido;

-Depois deles teve o projeto eletrônico do Igor Cavalera, ex-Sepultura com sua esposa, o Mix Hell.
Ruim, pra falar a verdade.
Coisa de criança que ganhou brinquedo novo. Sabe quando a criança quer brincar com todos ao mesmo tempo? É isso. Pra fazer música eletrônica com percussão ao vivo não se precisa utilizar todos os elementos da sua bateria ao mesmo tempo, e é exatamente o que faz o ótimo baterista. além disso as bases sonoras são pobres. As percussivas até são interessantes (como uma com uma sampler de berimbau), mas cansativas e mal aplicadas. No mais das vezes, sobre bases fracas e mal ensaiadas, o espetáculo ficou parecendo um mero exibicionismo de um grande bateirista sobre um improviso eletrônico.
Fraco, fraco.

-Ainda, pra aquecer a galera teve um DJ que, sinceramente não conheço, mas que mandou bem nas pick-ups, enquanto o pessoalzinho do Howlet naõ entrava. Acredito que fosse alguém da trupe deles mesmo, só pra galera não ficar impaciente. Bom DJ. Vou procurar me informar a respeito depois.



Cly Reis

sábado, 24 de outubro de 2009

Prodigy "Smack my Bitch Up"

Um dos clipes mais polêmicos da história.

A MTV americana proibiu total, a brasileira passava depois das 11 da noite, depois flexibilizou um pouco mais.

No fim das contas, acho muito barulho por pouco. De forte, FORTE mesmo, tem a cena da "cheirada". No mais, umas porradas aqui, outras ali; uma bebedeira, uns peitinhos e foi tudo o que precisava pros diretores da MTV "quase terem um filho".

Já que o Prodigy é hoje à noite aqui no Rio, vai aí, se não o melhor, mas o mais bombástico clipe dos caras.

Berinjela Beligerante

Hoje estreando uma nova tirinha: a Beringela Beligerante.

"Como é que é?"
"Beligera Belingerante? Beringela Beringelante? Belingera Beligerante? Beri..."

Ahhh!!! Não importa.
O que importa é que o Beringela tá sempre puto e qualquer coisa é motivo pra sair na porrada.
Com vocês a partirde hoje, BERINGELA BELIGERANTE