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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

domingo, 27 de janeiro de 2013

Férias na Serra Gaúcha




O Rio Guaíba e Porto Alegre ao fundo
(foto: Iris Borges)
Férias!!! Ah!!!
Foi bom mas acabou.
Férias desse ano que foram bem legais em especial pelo fato de terem sido desfrutadas na minha terra natal, o Rio Grande do Sul, porém numa região onde nunca havia dedicado muito tempo, a Região Serrana.
Depois de uma breve passadinha pela capital, Porto Alegre, minha cidade de origem, revendo parentes e curtindo os amigos, nos deslocamos para Gramado, onde fizemos base, e nos movimentamos dali pela região, pulando para Canela ali ao ladinho, passando às vezes por Nova Petrópolis, indo até Bento Gonçalves, um pouco mais distante e estendendo o passeio por Garibaldi e Carlos Barbosa de trem.
Embora já conhecesse Gramado e Canela, como disse, nunca havia dedicado mais que um dia para apreciar seus encantos e curtir suas atrações, só que desta vez tive dez dias para isso e aí foi outra coisa. Já Bento foi inédito para mim e certamente mereçerá uma nova visita, principalmente para uma conferida nas áreas mais afastadas e nas vinícolas locais, assim como Garibaldi e Carlos Barbosa, que vimos quase que só de passagem.
O charme de Gramado, as belezas naturais de Canela, a marca da colonização italiana em Bento Gonçalves e arredores, tudo isso desfrutando daquela saborosíssima gastronomia local e dos mais deliciosos vinhos... ah, as férias já estão deixando saudades.
Por enquanto vão algumas fotinhos apenas mas depois, logo em seguida, dedicarei postagens específicas sobre cada um dos locais.
É, agora é voltar ao trabalho...


Com o irmão, Daniel e os primos, Lê e Lúcio
da antiga, aliás, eterna banda
(foto: Leocádia Costa)
Passeio no Brick da Redenção com os amigos
Iris e Christian
(foto: Leocádia Costa)
Entrando em Gramado
O impressionante Mini-Mundo em Gramado
Na Rua Coberta em Gramado
Hmmmm!!! Um Café Colonial.
Com o Rei no Dreamland,
o museu de Cêra de Gramado.
No Hollywood Dream Cars em Gramado.
Lago Negro, Gramado.
A belíssima Cascata do Caracol,
em Canela
Centro de Canela, com a Catedral de Pedra,
ao fundo
No Mundo a Vapor, em Canela
O parque temático Floribal,
em Canela
Com o Predador no
Parque Floribal
Visitando uma vinícola lá
no interiorzão de Canela
Degustando uma cachacinha num alambique
em Canela
Passeio de Maria-Fumaça de Bento Goçalves
até Carlos Barbosa.
Me acabando no vinho.
Numa cantina italiana.
Maravilhosa gastronomia serrana.


C.R.

sábado, 26 de janeiro de 2013

"1001 Músicas para Ouvir Antes de Morrer", de Robet Dimery - ed. Sextante (2012)



Ganhei no último Natal e venho devorando desde então, aos poucos, parcimoniosamente e deliciosamente o livro "1001 Músicas para Ouvir Antes de Morrer", do jornalista Robert Dimery. Depois de ter adotado o "1001 Discos..." do mesmo autor, como minha bíblia pessoal, assim que soube da existência desta nova publicação tratei de recomendar pra quem me perguntou o que gostaria de ganhar na festa natalina. Felizmente ganhei.
Não precisaria nem dizer que é um barato, extremamente gostoso ir descobrindo músicas desconhecidas que aguçam  a curiosidade de ouvi-las, lembrando de outras, percebendo virtudes em algumas que nunca tinha pensado, aprendendo curiosidades sobre as composições, histórias e tal, concordando com a indicação e avaliação do autor, ou achando absurdo algumas estarem ali. Ah, mas tem muitas pela frente. Ainda estou na parte dos anos 50 e o livro traz até canções lançadas ainda no seu ano de lançamento, 2012. Ufff! Falta muito.
Mas certamente será um prazer. Sem falar no quanto me enriquecerá de subsídios para os ÁLBUNS FUNDAMENTAIS. Ih, agora sim, ninguém me segura.



Cly Reis

Danzig - "Danzig II - Lucifuge" (1990)



“Vós tendes por pai o Diabo,
e quereis satisfazer os desejos de vosso pai”
citação do livro de João, da Bíblia,
no encarte da edição original do álbum



Dia desses estava eu numa loja de CD’s comprando uma camiseta do Johnny Cash, e como não raro acontece, o som que tocava na loja me chamou a atenção. Um metal semi-acústico alicerçado no blues, interpretado com ênfase, paixão e vigor. Interessantíssimo aquilo! Fui até o balconista e perguntei do que se tratava, ao que ele me respondeu que era Danzig. Ora, já havia ouvido falar da banda mas nunca efetivamente havia escutado. A surpresa foi agradabilíssima. Perguntei o nome da música. Aquela chamava-se “I’m the One”. Estusiasmante, extasiante! Ao melhor estilo dos blueseiros da antiga mas cantado com a força do metal.

Procurei saber de onde era aquela música e a mesma fazia parte do álbum chamado “Lucifuge” que, já na primeira audição, ratificando a boa impressão inicial apresentava-se como um maravilhoso exemplar de uma espécie de blues-metal bastante original na sua concepção, execução e interpretação.

Embora utilizando-se, sim, de instrumentos elétricos, de peso e vocais impetuosos, A produção caprichada do ótimo Rick Rubin (de "BloodSugarSexMagik" dos Chilli Peppers e a série "American" de Johnny Cash , por exemplo) estreita de maneira admirável as correntes do metal com as características mais primárias do bom e velho blues tradicional dos grandes mestres, isso sem falar nas temáticas, é claro, sinistras, cheias de lendas e demônios comuns a ambos os estilos.

Além da já citada “I’m the One”, minha favorita, destaque especial também para a primeira “Long Way Back from Hell” um metal galopante, potente, forte e vigoroso; para a balada “Blood and Tears”; para o ótimo blues-metal apocalíptico "777";  e para a excelente “Killer Wolf”, referência ao lendário blueseiro Howlin’ Wolf, pelo título e pela interpretação. No restante, todas são boas canções mas, se pode-se apontar um defeito é que, talvez uniformes demais, algumas acabem soando muito parecidas com as outras. Mas nada que desdoure ou invalide todos os méritos deste ótimo trabalho.

Só algum tempo depois de conhecer o Danzig foi que descobri que o líder, vocalista, idealizador, Glen Danzig era o vocalista do extinto Misfits, que para falar a verdade, nunca me agradou muito. Já o Danzig, bastou um pouquinho daquele blues diferente, envenenado, sujo, satânico pra me pegar pelos ouvidos.
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FAIXAS:
  1. "Long Way Back from Hell" - 4:27
  2. "Snakes of Christ" - 3:59
  3. "Killer Wolf" - 4:14
  4. "Tired of Being Alive" - 4:03
  5. "I'm the One" - 4:09
  6. "Her Black Wings" - 4:47
  7. "Devil's Plaything" - 3:58
  8. "777" - 5:40
  9. "Blood and Tears" - 4:20
  10. "Girl" - 4:18
  11. "Pain in the World" - 5:46
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Ouça:
Danzig II Lucifuge



Cly Reis

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Captain Beefheart and His Magic Band - "Trout Mask Replica" (1969)



“Um dos mais criativos e corajosos álbuns de todos os tempos, décadas à frente do resto da música rock.
É, acima de tudo, uma colagem de pinturas abstratas, cada uma diferente da outra em intensidade, cor e contraste, mas todas homogêneas em sua ‘abstração’ ”
Piero Scaruffi


Um músico se trancafia em um casarão antigo, só ele e um piano. Ali, compõe 28 peças. Não, não estamos falando de algum pianista de jazz em abstinência de heroína nem de um concertista clássico precisando de isolamento e concentração para criar sua obra-prima. Estamos falando de um disco de rock, tocado com baixo, guitarra, bateria e, solando, clarinetes e saxofones. Tudo sem um acorde sequer de piano. Sim, estamos nos referindo a Don Van Vliet e seu “Trout Mask Replica”, o primoroso terceiro LP da Captain Beefheart and His Magic Band, de 1969. Talvez o trabalho que melhor tenha fundido rock, jazz, blues, folk e erudito, sustenta o status de uma verdadeira “obra de arte”, considerado pelo crítico musical italiano Piero Scaruffi como o melhor álbum de rock de todos os tempos e um dos 10 registros mais importantes da música contemporânea ao lado obras de Shostakovitch, Charles Mingus, Velvet Underground e Ligeti.

Com produção do maestro-maluco Frank Zappa, do qual Van Vliet (vulgo Captain Beefheart) é discípulo, “Trout Mask Replica” é de difícil assimilação, quase indecifrável: atonal, dissonante, polirrítmico, abstrato, desconexo. Lembra ora a música aleatória de John Cage, ora o “passaredo” farfalhante de Messiaen, ora os borrões de um quadro de Jackson Pollock, ora um filme experimental de Derek Jarman. Altamente influenciado pela vanguarda erudita, pelo free-jazz de Ornette Coleman e pelo blues do Mississipi, Van Vliet criou um disco que aponta para infinitas direções que não só musicais, mas também plásticas, cênicas e literárias, haja vista a loucura e a irracionalidade poética que suscita. Ele desmembra o estilo blues, base do rock ‘n roll, desestruturando ritmo, harmonia, tom e melodia, remontando depois as peças, ”algo entre o caos orquestral de Charles Ives e audácia de John Cage”, definiu Scaruffi.

Oblíquas e sem uma linha melódica estável, as músicas de “Trout...” são rocks sem riff. Tudo numa roupagem seca dada pela produção. É assim que começa o álbum, com “Frownlands”: toda descompassada, parecendo estar se desmontando. A voz rouca e rasgada de Van Vliet cospe versos enquanto os sons se debatem, tentando se encontrar em uma harmonia, o que nunca acontece – ou melhor, acontece de forma diferente do que se está acostumado a ouvir no rock. O arranjo, elaborado por Beefheart a quatro mãos com o baterista da banda (!), John French, é tão primoroso que a sonoridade do instrumento que originou as melodias se adéqua perfeitamente à nova instrumentação, dando a impressão de que tudo foi improvisado – e a ponto de tornar o piano dispensável no resultado final. Mas tudo, do início ao fim, está dentro de uma geometria composicional criada pela louca e excêntrica cabeça de Van Vliet, movida à base de muito LSD. O repretório foi composto por ele em apenas oito horas, porém, os ensaios levaram exaustivos meses de isolamento de todos os músicos até a gravação que, de tanta repetição, foi captada praticamente todo de uma vez só.

 Mutáveis e caóticas, as músicas vão se recriando dentro de si próprias através de novas células sonoras. "Moonlight on Vermont", “The Blimp” e “Dachau Blues”, das minhas preferidas, são exemplos claros dessa metalinguagem. A poética dadaísta das letras é outro ponto peculiar, pois não são mais do que meros esboços non-sense, neologismos imbecis (“fast ‘n bulbs”, “semen ‘n syrup ‘n serum”, "hobo chang ba") que servem apenas para apontar para o ouvinte o caminho – errado. Vê-se já no título sem sentido da tribal “Ella Guru”, outra genial, que traz vozes em falsete, síncopes incoerentes, hinos guturais e um riff de baixo hesitante.

 “Hair Pie”, “bakes” 1 e 2, são suítes instrumentais fabulosas, a ver a primeira, um jazz com uma longa introdução de dois sax alto que se retorcem e se entrecruzam um sobre o outro através de dissonâncias, muito ao estilo de Albert Ayler e Anthony Braxton. O blues, elemento base do disco, é tão desestruturado que chega ao ponto de... inexistir! É o caso de “The Dust Blows Forward 'n the Dust Blows Back" e "Orange Claw Hammer", à capela e montadas em estúdio por picotes colados em sequência, em que apenas se supõe o ritmo. Apreciáveis também: a excelente “China Pig”, um blues bruto; “Dali’s Car”, espécie de suíte para duas guitarras; e "When Big Joan Sets Up", constantemente variante dentro de si mesma, como uma pequena sinfonia em 4 atos rápidos.

O disco termina com "Veteran's Day Poppy", que dá a impressão de desfechar, enfim, do modo consonante e agradável da tradição clássica até que, depois de um breve fade out/fade in, a música retorna consonante, mas... peraí! Está numa notação totalmente enviesada, dando a impressão de que está sendo executada ao contrário! Um final magistral para um disco que, bastante influenciador do rock alternativo (Tom Waits, Meat Loaf, Residents, Jah Wobble) e do pós-punk (P.I.L.Gang of Four , Polyrock e Sonic Youth que não me deixam mentir), continua, quase 45 anos de seu lançamento, uma audição desafiadora e instigante. Propositadamente desconfortável, desacomoda positivamente nossos ouvidos já tão saturados da métrica em três tempos da música pop, criticando, em decorrência, toda a sociedade moderna e seus padrões massificadores há muito esgotados.

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 FAIXAS:
1. "Frownland" - 1:41
2. "The Dust Blows Forward 'n the Dust Blows Back" - 1:53
3. "Dachau Blues" - 2:21
4. "Ella Guru" - 2:26
5. "Hair Pie: Bake 1" - 4:58
6. "Moonlight on Vermont" - 3:59
7. "Pachuco Cadaver" - 4:40
8. "Bills Corpse" - 1:48
9. "Sweet Sweet Bulbs" - 2:21
10. "Neon Meate Dream of a Octafish" - 2:25
11. "China Pig" - 4:02
12. "My Human Gets Me Blues" - 2:46
13. "Dali's Car" - 1:26
14. "Hair Pie: Bake 2" - 2:23
15. "Pena" - 2:33
16. "Well" - 2:07
17. "When Big Joan Sets Up" - 5:18
18. "Fallin' Ditch" - 2:08
19. "Sugar 'n Spikes" - 2:30
20. "Ant Man Bee" - 3:57
21. "Orange Claw Hammer" - 3:34
22. "Wild Life" - 3:09
23. "She's Too Much for My Mirror" - 1:40
24. "Hobo Chang Ba" - 2:02
25. "The Blimp (mousetrapreplica)" - 2:04
26. "Steal Softly thru Snow" - 2:18
27. "Old Fart at Play" - 1:51
28. "Veteran's Day Poppy" - 4:31

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Ouça:
Captain Beefheart and His Magic Band Trout Mask Replica



quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

cotidianas #197 - As Bonecas


A tranquilidade do Seu Etelvino acabou desde que aquelas ‘meninas’ passaram a fazer ponto naquela esquina, quase em frente ao prédio onde ele morava. Não que os travestis fizessem alguma coisa efetivamente para incomodá-lo. Tirando alguns chiliques, alguns barracos, algumas frescuras, alguns exageros, mas que eram até raros, não atrapalhavam em nada a vida daquele senhor de idade. O que o incomodava era o fato de estarem ali e fazendo aquilo e ainda pior, o fato serem homens, ou de pelo menos terem nascido sob o sexo masculino.

O fato é que sempre que descia para sua caminhada, de não mais do que duas quadras, recomendada pelo médico por causa dos ossos, realizada ali à noitinha de modo a evitar o forte do calor, dava uma alfinetada nos travestis que faziam seu trabalho noturno.

- Que poucassenvergonhice – largava ele, se dirigindo às bichas, logo virando a cara e saindo ainda resmungando mais alguma coisa incompreensível.

E todos os dias, sempre que descia do apartamento e despontava na porta do prédio, saía com algum comentário condenatório: “Onde já se viu...”, “Tinha era que chamar a polícia!”, “Vocês tinham era que arranjar um trabalho decente”, “Esse mundo tá mesmo virado...”, sempre saindo sem dar chance para alguma argumentação ou algo do tipo. É lógico que as bichas tripudiavam nos ranços do velhinho e faziam piada, vaiavam, mostravam peitinho e tudo mais, mas ele já ia longe resmungando sozinho e na volta mal olhava para a cara das damas da noite por mais que elas às vezes tentassem implicar com ele retribuindo as indelicadezas daquele morador rabujento.

Mas um dia o Seu Etelvino surpreendentemente dirigiu-se diretamente a uma delas. Curioso, intrigado ou sabe-se lá movido pelo que, o velhote indagou com sincero interesse para um dos rapazes da ronda:

- Vem cá, tu não tem vergonha, não?

- Eu? – retribuiu surpreso o travesti – De quê?

- Disso – apontou o velho fazendo cara de nojo – Um homenzarrão desse, podia ser zagueiro, uns coxão desse tamanho, se prestando a isso aí fantasiado de mulher.

- Quer dizer que o senhor está olhando pras minhas pernas, vovô? – contra-atacou maliciosamente fazendo um pose sensual.

- "Vovô" não, que eu não tenho neto fresco. Nunca que ia deixar um neto meu me fazer passar uma vergonha dessa. O que eu to dizendo é que tu, um rapaz bonito, podia ta aí com umas menina, ficando com elas, como se diz hoje em dia...

- Ai, nem me fala nessas mocréias que eu tenho urticária só de pensar nisso. Cruzcredo! – se retorcendo num arrepio mas já mudando de assunto, aproveitando a deixa do velho – Mas então tu me acha bonita?

- Ora, vai te dar o respeito, mariposa!

- Que que tem? Muita gente gosta - argumentou a boneca.

- Duvido. Quem ia querer um...um... um desses assim que nem tu com tanta mulher por aí?

- Ah, pode ter certeza que tem quem queira.

- Olha, Deus fez tudo do jeito certo: homem é pra ser homem e mulher é pra ser mulher. O resto ta errado.

- É, mas um monte de homem casado, pai de família, católico, homem que gosta de mulher mesmo, viu, vem aqui, ó, só pra brincar com euzinha – disse apontando para os robustos peitos de silicone.

- Que horror!

- Como é que o senhor sabe que é um horror? Nunca provou – agora dando palamadinhas na própria bunda.

- Deus me livre!

- Não pode dizer que não gosta de uma coisa se não experimentou, vovô.
- Hunff... – fungou o velhote virando a cara mas logo retornando à conversa com ar de desinteressado - Mas, digamos que eu fosse querer, quanto é que seria?



Cly Reis

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Engenheiros do Hawaii - "A Revolta dos Dândis" (1987)


"O disco e tudo mais é dedicado à Porto Alegre
(a real e as imaginárias)"
dedicatória da banda no encarte do álbum



Uma vez eu ouvi, não lembro onde, Humberto Gessinger, líder e cabeça pensante dos Engenheiros do Hawaii, dizendo que os discos gêmeos “A Revolta dos Dândis” e “Ouça o Que Eu Digo Não Ouça Ninguém” eram sobre comunicação. Bom, acho que é verdade e não é. Efetivamente o são com seus outdoors, comerciais, vozes oficiais, seus livros e revistas mostrando imagens sem nitidez, infelizes infartados de informação e televisões e rádios sendo jogados pelas janelas, mas junto com isso trazem também dilemas pessoais, paixões mal-resolvidas, dúvidas existenciais, conflitos ideológicos e mais uma série de outros assuntos que se não constituem um centro temático, por certo em algum momento encontram o tema que, segundo o principal compositor da banda norteia a obra. Podia aqui falar de qualquer um dos dois mas começo pelo primeiro da trilogia que só terminaria com o bom "Várias Variáveis" de 1991. Depois de um primeiro disco interessante porém com sonoridade um tanto crua e pouco definida, Os Engenheiros do Hawaii reapareciam com um disco conceitual apoiado no folk, no progressivo e na própria tradição musical gaúcha, muitíssimo bem encaixado, bem resolvido, bem concebido, e, como diz o meu amigo Christian Ordoque, colaborador daqui do ClyBlog, um disco com início-meio-fim. Com letras inteligentíssimas, bem sacadas, repleto de referências literárias, citações filosóficas, ditos populares, trocadilhos e combinações fonéticas interessantes, o álbum “Revolta dos Dândis” de 1987, era o retrato do amadurecimento da banda de Porto Alegre com um som mais robusto, ousado e agora cheio de personalidade, muito devido ao ingresso do guitarrista Augusto Licks que colaborava então de forma decisiva para este crescimento e para as melhores virtudes instrumentais do álbum.
O nome do disco, tirado de um capítulo de um romance de Albert Camus, dá nome às faixas de abertura de cada lado do que seria um LP (formato original de seu lançamento), ambas começando com o mesmo riff e apresentando formatos bastante parecidos no que diz respeito à composição com letras que expõe, de certa forma, os dois lados que tudo na vida pode ter e a procura por algum sentido nisso tudo. Aliás o disco todo se amarra e cria interligações entre uma faixa e outra: versos de “Vozes” são repetidos em “Quem Tem Pressa Não Se Interessa”; o fraseado de guitarra que abre “Terra de Gigantes” reaparece no início de “Vozes”; conceitos de “Filmes de Guerra, Canções de Amor” aparecem expressos em “Desde Aquele Dia” entre várias outras peças soltas neste pequeno quebra-cabeça.
A suave e profunda “Terra de Gigantes”, um dos grandes sucessos do disco, com seus sonhos, perguntas e anseios de juventude, tinha ares de hino de geração; “Infinita Highway” outro hit radiofônico, até improvável por sua longa duração para os padrões de rádio, trazia um pop-rock envolvente que nada mais fazia que expor a grande estrada que é a vida; a romântica “Refrão de Bolero”, flertando com o brega, era uma balada dolorida de dor-de-cotovelo ao melhor estilo do conterrâneo Lupicínio Rodrigues; e fechando o que seria o lado A, a espetacular “Filmes de Guerra, Canções de Amor”, além de uma letra genial, trazia uma brilhante percussão de tamborins durante os excelentes solos de Augusto Licks entre as partes da letra, crescendo até explodir numa verdadeira escola de samba na parte final. “Quem Tem Pressa Não Se Intereressa” tem uma certa ênfase na bateria e um vocal 'atropelado', e a boa “Desde Aquele Dia” mostrava um toque de música espanhola sobretudo no refrão. O disco acaba com a notável “Guardas da Fronteira” com participação vocal do lendário músico gaúcho Júlio Reny, e cuja sonoridade remete um pouco à música regionalista, numa canção sarcástica e pessimista que encerra praticamente toda a idéia do disco conferindo-lhe um final digno e grandioso.
“Ouça o que Eu digo Não Ouça Ninguém”, que o seguiria poderia tranquilamente ter sido o disco 2 de um álbum duplo, por exemplo, tal a semelhança e complementação de ambos os trabalhos mas como não foi, e é quase inevitável falar de um sem citar o outro, será objeto de análise em outro momento e merecerá seu capítulo à parte.

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FAIXAS:
1."A Revolta Dos Dândis I"   4:10
2. "Terra De Gigantes"   3:59
3. "Infinita Highway"   6:11
4. "Refrão De Bolero"   4:34
5. "Filmes De Guerra, Canções De Amor"   4:02
6. "A Revolta Dos Dândis II"   3:13
7. "Além Dos Outdoors"   3:33
8. "Vozes"   3:35
9. "Quem Tem Pressa Não Se Interessa" (Humberto Gessinger, Carlos Maltz) 2:27
10. "Desde Aquele Dia"   3:30
11. "Guardas Da Fronteira"   4:31


* todas as faixas, Humberto Gessinger, exceto as indicadas

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