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sexta-feira, 14 de março de 2014

Peter Gabriel - "So" (1986)


"[Peter] Gabriel pôs em cheque
sua esquisitice com "So",
mas fez isso sem comprometer  a si mesmo."
revista Q, em 1986


O ex-Genesis, Peter Gabriel, em 1986, aparecia com um grande álbum mais acessível ao público que seus anteriores da carreira solo. "So" trazia canções mais pop com bom potencial radiofônico como "Big Time" e "Sledgehammer", mas aliava a isso explorações rítmicas universais, a chamada world-music, como em "In Your Eyes", trabalhos percussivos interessantes como na ótima "Mercy Street", e não deixava de lado o experimentalismo, como em "We Do What We're Told" e  em "This is the Picture (Excelent Brids)", parceria com a performática Laurie Anderson.
Além das mencionadas, merecem destaque a ótima "Red Rain", que abre o disco é uma mescla equilibrada do pop com os elementos percussivos e o interesse do músico pelos ritmos de outras culturas; e a balada "Don't Give Up", em dueto com Kate Bush com interpretações espetaculares dos dois cantores.
Mas o carro-chefe do disco e uma das canções mais emblemáticas dos anos 80 foi a já citada "Sledgehammer", um pop-soul cheio de energia pontuado eventualmente por uma flauta sinuosa e conduzida por uma linha de metais empolgante. A propósito, esta canção, "Slegdehammer", provavelmente seja, junto com "Thriller" de Michael Jackson, "Money for Nothing", do Dire Straits, "Hunting High and Low" do A-ha, um dos grandes marcos na linguagem do videoclipe com um dos videos mais marcantes de todos os tempos, numa animação gravada quadro a quadro, feita em parte com massa de modelar, em uma edição incrível que causava inevitavelmente enorme sensação e impacto visual.
Embora Peter Gabriel já tivesse realizado trabalhos muito interessantes e talvez mais criativos do ponto de vista experimental, "So", além de lhe proporcionar pela primeira vez uma penetração entre o grande público nas rádios e, com um clipe tão marcante, na TV, mostrava um equilíbrio mais interessante entre os elementos explorados pelo músico, resultando num trabalho extremamente bem produzido, bem acabado e de alta qualidade, que se constituía, desde então, num dos grandes discos da década de 80.

vídeo de "Sledgehammer" - Peter Gabriel

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FAIXAS:
  1. "Red Rain" – 5:39
  2. "Sledgehammer" – 5:12
  3. "Don't Give Up" – 6:33
  4. "That Voice Again" – 4:53
  5. "In Your Eyes" – 5:27
  6. "Mercy Street" – 6:22
  7. "Big Time" – 4:28
  8. "We Do What We're Told (Milgram's 37)" – 3:22
  9. "This Is the Picture (Excellent Birds)" (Laurie Anderson, Gabriel) – 4:25

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Ouça:
Peter Gabriel So


Cly Reis

quinta-feira, 13 de março de 2014

Berinjela Beligerante

cotidianas #279 - Fábula de um Arquiteto



A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e tecto.
O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.
Até que, tantos livres o amedrontando,
renegou dar a viver no claro e aberto.
Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro, concreto;
até fechar o homem: na capela útero,
com confortos de matriz, outra vez feto.

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"Fábula de um Arquiteto"
(João Cabral de Mello Neto)

terça-feira, 11 de março de 2014

cotidianas #328 - A Poesia



"A poesia
Ah, a poesia!"
Poesia o escambau
Poesia o caralho

"Ah, mas a poesia..."
dir-me-ás
Ora, não me venha com poesia
dir-te-ei

Poesia não enche barriga
Poesia não mata fome de ninguém
Então
Não me venha com essa de "poesia"

"Ah, mas, ah, mas..."
tentarás argumentar
Não me venhas com mais nem menos
Quem vai defender essa tal de poesia?
Quem?

Poesia, aqui, ó
Toma aqui tua poesia

"Poesia, poesia..."
Ah, olha...
Francamente.

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"A Poesia"
Cly Reis

segunda-feira, 10 de março de 2014

Erik Satie - "Entr'acte" (1924)



“Satie estava recomeçando a história
da música europeia mais uma vez.”
Reinbert de Leeuw




Este é um ÁLBUNS FUNDAMENTAIS que bem pode ser também um Claquete, pois filme e trilha estão totalmente conectados, uma vez que imagem e som não existiriam um sem o outro. Esse conceito integral tão típico das artes cênicas e visuais só poderia vir de artistas que souberam antever o que hoje é chamado de arte contemporânea. Sim, antever, afinal estamos falando de uma obra datada de 1924. A música? A peça “Entr’acte”, do compositor vanguardista francês Erik Satie. O filme correspondente é outra joia, dirigida pelo cineasta René Clair, o mesmo de clássicos do cinema mundial “A Nós a Liberdade” (1931), a “versão europeia” de “Tempos Modernos”, de Chaplin.

Clair chamou Satie para um desafio a que os dois, inquietos como eram, se instigaram. A proposta era a seguinte: o pintor e poeta Francis Picabia, desgostoso com os companheiros de dadaísmo, quis cutucar, igualmente, os surrealistas. Redigiu, então, um balé para o grupo Ballets Suédois, que estrearia em Paris, em pleno Théâtre des Champs-Élysées. O jocoso nome da produção dizia tudo: “Relâche”, o aviso que se colocava na porta dos cinemas quando as sessões eram suspensas. Isso ainda não era nada: no dia da avant-première, um dos cartazes do espetáculo trazia um aviso provocativo ao público: “Se você não gostar, o caixa lhe venderá apitos por dois centavos.” Pois o balé, com apitaços de vaia ou não, conteria dois atos e, no intervalo, seria apresentado um curta-metragem dirigido por Clair cuja trilha, assim como a de todo o espetáculo, coube a Satie. O resultado dessa química foi tão afrontosa que a música do filme se destaca a dos dois movimentos da dança, sendo inclusive desvinculada deles. Ou seja, um deboche homérico, uma vez que justamente a programação secundária (momento de dispersão e que exige menor concentração do público) é a mais representativa de todo o programa, pondo-se acima do principal.

Tal índole de ruptura e escárnio são típicos de Satie, um inclassificável compositor em constante mutação ao longo dos tempos. Ele já havia, àquela altura, composto obras marcantes para a história evolutiva da música europeia (“Relâche” é seu último trabalho antes de morrer, em 1925), como o tríptico “Gymnopédies” (1888) – com seus incomuns 18 compassos contínuos de apenas seis (!) notas, sem desenvolvimento nem transição, apenas um instante prolongado – e outras inovadoras peças, como o balé “circense-surrealista” “Parade”, que causou furor em 1917. Influenciado pela música de DebussyRavel e Stravinsky, bem como pelos modernistas franceses do Les Six, misturava o ragtime americano e a sonoridade fútil do teatro de variedades ao clima do cotidiano de uma Paris em efervescência cultural – deste o esoterismo ocultista até o populismo dos cabarés. Satie circulava por todas as correntes (dadaísmo, futurismo, surrealismo, cubismo, expressionismo, simultaneísmo) sem, contudo, filiar-se a nenhuma delas. Em “Entr’acte”, compõe uma peça totalmente despojada, sem cadência nem compasso definido: apenas marcação de ritmo e harmonia, relegando a segundo plano a melodia. O motivo sonoro, maldito feito uma engenhoca que se estragou naquele ponto, vai e volta, mecanicamente, doentiamente. “Entr’acte” é, assim, a gênese do minimalismo. A repetição e as cacofonias incômodas ao ouvido mostram o quanto Satie prenunciava os tempos esquizofrênicos da sociedade pós-moderna, em que a emoção vira produto e o homem vira máquina. Evidente esta analogia na sequência do funeral, em que todos os convidados, parecendo bestas, estão fora do tempo, até que o próprio caixão dá no pé e todos passam, simbolicamente, a correr atrás da morte. Aqui, Satie faz uma paródia da “Marcha Fúnebre” de Chopin, em que sua escrita para piano, rítmica e sem firulas, revela a influência da música de dance-hall e da vida urbana moderna.

Como na trilogia “Quatsi”, da dupla Godfrey Reggio-Philip Glass, “Entr’acte” é um filme-música (ou a música-filme, tanto faz). Dura pouco mais de 20 minutos, suficientes para entrar para a história da música no século XX e marcar o movimento surrealista no cinema, tendo sido produzido, inclusive, cinco anos antes de “Um Cão Andaluz”, de Luís Buñuel e Salvador Dalí (não é de se estranhar que a estreia de ambos os filmes tenha rendido enorme bafafá na sociedade parisiense da época). Ali já estavam, porém, vivas, as inovações técnicas (câmera na mão, efeitos de luz e lente, sobreposições, distorções visuais, enquadramentos incomuns) e conceituais (roteiro não-linear, narrativa poética, descompasso temporal da ação/personagem, desconstrução psicológica do palco-cenário) que marcariam o cinema avant-garde. O curta foi influência direta para o brasileiro Mário Peixoto em sua obra-prima “Limite” (1930) e para o “cinema de poesia”, que vai da Pier-Paolo Pasolini e Jean-Luc Godard a Júlio Bressane.

A Paris daquele início de século XX dava todos os elementos para essa ebulição criativa. A Cidade-Luz fervia em sua beomia noturna. Estavam lá a esta época algumas das mais inteligentes cabeças das artes em todas as frentes: Pablo Picasso, Ernest Hemingway, Coco Chanel, Stravinsky, Marcel Duchamp. Jean Renoir, Jean Cocteau, Man Ray, Gertrude Stein, David Milhaud e os próprios BuñuelDalí, Clair e Satie. Com tanta produção, os rótulos empregados eram os mais diversos. “Entr’acte”, um típico produto consciente do entre-Guerras, capta esse espírito de diversidade, homogeneizando todas as vertentes. O filme é uma alegoria irônica e pessimista do futuro, como a antecipação das apropriações ideológico-simbólicas da publicidade (a bailarina em slow-motion vista em total contraplongê que vai e volta com a função de “encantar os olhos”), a erotização da violência através do artefato militar (o canhão “varão” que desencadeia a desordem no início do filme) e a fragilidade e a vigília da vida moderna em época de olhos digitais e mídia a la big brother (os dois homens manipulando a cidade em um tabuleiro feito marionete). Já a música, inegavelmente dadaísta, traduz isso a seu jeito: tal como Satie inaugurara em “Parade” sete anos antes, uma nova arte de colagem sonora é criada: melodias interrompidas quando ainda mal começaram, dissonâncias em abundância, ritmos entrelaçados e sobrepostos, ataques inesperados e paradas fora do tempo, fugas quebradas que “homenageiam” um passado já desfeito. Wagner, ópera italiana, escola austríaca, romantismo, classicismo: “nunca mais!”, bradava.

Havia quem criticasse Satie por suas miniaturas musicais com escalas pouco convencionais, harmonias estranhas e uma total ausência de virtuosismo instrumental, reduzindo-o a um compositor de fracos recursos técnicos. Se o era, é mais louvável ainda, pois sua criatividade e capacidade transformadora são tamanhas que não é exagero dizer que ele é um dos precursores do espírito “faça você mesmo”, o grito dos punks, estes, os revolucionários roqueiros do fin de siècle. O fato é que uma obra tão significativa como “Entr’acte” exerceu influência direta na vanguarda pós-Segunda Guerra, tanto no meio erudito quanto no jazz e no rock. Para citar quatro exemplos expressivos: Terry Riley, em seu eletro-minimalista “A Rainbow in Curved Air”, de 1969; a mente “saudavelmente doentia” de Syd Barrett em “The Piper at the Gates of Down”, do Pink Floyd, do mesmo ano; as primeiras obras de Glass, tanto “Music in 14 Parts” (1971-74) quanto “Music with Changing Parts” (1971); e a maestrina jazzista Carla Bley em “Musique Mecanique” (1978). Se tamanho alcance não é digno de elogio, é, no mínimo, reflexo da recorrente contradição que caracterizaria os ilógicos e amorais tempos de hoje. Tempos, aliás, aos quais Satie já se fazia pertencer mesmo não vivendo neles. E para que precisaria?

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O CD traz ainda a íntegra de “Relâche”, com seus dois movimentos interpostos por “Entr’acte”, e a obra “Trois Morceaux en Forme de Poire” – que contém a conhecida peça “Maniere de commencement” e “Ragtime Parade”, arranjo posterior ao balé “Parade” escrito por Hans Ourdine –, todos em versão para piano. No vídeo, a trilha de “Entr’acte” é arranjada para orquestra, com regência de Henri Sauguet, de 1967.
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Ouça o Disco, Assista o Filme:
Erik Satie Entr'acte



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FAIXAS:
I. Trois Morceaux en forme de poire:

1. Maniere de commencement - 4:05
2. Prolongation de meme - 0:47
3. Lentement - 1:27
4. Enlevé - 2:43
5. Brutal - 2:12
6. En plus - 2:21
7. Redite - 1:31
8. Ragtime Parade - 2:33

II. Relâche - Premier Acte:
9. Ouverture - 1:09
10. Projection - 0:42
11. Rideau - 0:24
12. Entrée de la Femme - 1:14
13. "Musique" - 0:37
14. Entrée de l'Hommes - 0:38
15. Danse de la Porte tournante - 0:54
16. Entrée des Hommes - 0:39
17. Danse des Hommes - 0:42
18. Danse de la Femme - 1:04
19. Final - 1:15

III. Entr'acte:
20. Cheminées, ballons qui explosent - 1:29
21. Gants de boxe et allumettes - 0:42
22. Prises d'air, jeux d'echecs et bateaux sur les toits - 0:57
23. La Danseuse et figures dans l'eau - 0:42
24. Chasseur; et début de l'enterrement - 1:25
25. Marche fúnebre - 0:51
26. Cortege au ralenti - 1:35
27. La Poursuite - 1:10
28. Chute du cerceuil et sortie de Borlin - 1:00
29. Final (écran crevé et fin) - 1:05

IV. Relâche - Deuxieme Acte:
30. Musique de Rentrée - 0:56
31. Rentrée des Hommes - 0:54
32. Rentrée de la Femme - 1:15
33. Les Hommes se dévetissent - 0:34
34. Danse de l'Homme et de la Femme - 1:13
35. Les Hommes reganent leur place et retrouvent leurs pardessus - 0:51
36. Danse de la Brouette - 1:21
37. Danse de la Couronne - 0:57
38. La Danseur depose la Couronne sur la tete d'une specatrice - 0:46
39. La Femme rejoint son fauteuil - 1:05
40. Petite Danse Finale (la Queue du Chien) – 0:43







Seres paulistanos: deslocamentos pela cidade



















fotos: Camilo Cassoli





Camilo Cassoli é paulistano, jornalista e documentarista. Dirigiu filmes presentes na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e no Short Film Corner do Festival de Cannes, entre outros. Atualmente seu curta-metragem Livraria Ornabi faz parte da programação do Canal Brasil. É sócio-fundador da Parece Cinema (www.parececinema.com.br), produtora de vídeos institucionais, documentários e exposições.

domingo, 9 de março de 2014

Santana - "Abraxas" (1970)



“Não dá para tomar LSD e não encontrar sua voz, porque não há onde se esconder."
Carlos Santana


Uma recordação musical legal que eu tenho, ali quando começava a me interessar por música, lá pela metade dos anos 80, na explosão do rock nacional, é de, na antiga casa da minha avó, no bairro Cefer, em Porto Alegre, meu tio Jorge me apresentar ao "Abraxas" (1970) da banda Santana. Chamou a mim e a meu primo Lúcio Agacê para ouvir um cara que segundo ele era "um baita guitarrista". Pirralho, imaturo, achando que o RPM era a melhor coisa que já tinha ouvido,e provavelmente com uma expectativa de ouvir guitarras rascantes, riffs  e levadas ruidosas, não dei o devido valor àquele som. Ouvimos várias faixas, a maior parte eu torci o nariz na época, mas uma em especial me marcou: "Samba Pa Ti", uma balada instrumental swingada e sensual, num crescendo envolvente e com uma guitarra, até para um jovem incrédulo, inegavelmente espetacular. Mas valem destaques também para "Oye Como Va" e para o espetacular blues "Black Magic Woman/Gypsy Queen".
Hoje não há como não reconhecer que aquela guitarra técnica, cheia de embalo, de jazz, de latinidade, foi um marco para o rock mundial e fundamental para a expansão de músicos latinos nesse universo. Maná, Fito Paez, Caifanes e outros devem o fato de figurarem num cenário internacional de música pop/rock a Carlos Santana com a banda que leva seu sobrenome, e que, depois da apresentação marcante em Wodstock especialmente, praticamente abriu as portas para bandas de língua espanhola e ritmos ditos tropicais dentro do rock.
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FAIXAS:
  1. "Singing Winds, Crying Beasts" (Carabello) – 4:48
  2. "Black Magic Woman/Gypsy Queen" (Green/Szabo) – 5:24
  3. "Oye Como Va" (Puente) – 4:19
  4. "Incident at Neshabur" (Gianquinto/Santana) – 5:02
  5. "Se Acabó" (Areas) – 2:51
  6. "Mother's Daughter" (Rolie) – 4:28
  7. "Samba Pa Ti" (Santana) – 4:47
  8. "Hope You're Feeling Better" (Rolie) – 4:07
  9. "El Nicoya" (Areas) – 1:32

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Ouça:
Santana Abraxas


Cly Reis


sábado, 8 de março de 2014

COTIDIANAS Nº278 ESPECIAL DIA DA MULHER - "Super-Homem"



Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria
Do que eu quisesse ter
Que nada, minha porção mulher que até então se resguardara
É a porção melhor que trago em mim agora
É o que me faz viver
Quem dera pudesse todo homem compreender, ó mãe, quem dera
Ser o verão no apogeu da primavera
E só por ela ser
Quem sabe o super-homem venha nos restituir a glória
Mudando como um Deus o curso da história
Por causa da mulher
Quem sabe o super-homem venha nos restituir a glória
Mudando como um deus o curso da história
Por causa da mulher
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"Super-Homem"
(Gilberto Gil)


A Vida









"A Vida" - Reis, Cly
grafite sobre sulfite com manipulação digital
15x10cm





REIS, Cly

sexta-feira, 7 de março de 2014

"Medianeras - Buenos Aires na Era do Amor Virtual", de Gustavo Taretto (2011)


Fazia tempo que não escrevia sobre filmes aqui porque, com criança pequena em casa, quase não saio mais para ir ao cinema, e mesmo as sessões caseiras de DVD ficam mais limitadas. A gente prefere muitas vezes a garantia de algumas horas de sono antes que a bebê acorde, do que esticar um filmaço até duas da madruga. Mas felizmente agora estou retomando meu bom hábito de assistir a filmes e por sorte tenho visto coisas boas. Uma delas, da qual tinha ouvido falar muito bem e que confirmou as recomendações foi o argentino "Medianeras", um interessantíssimo retrato das relações humanas em épocas de tecnologia.
Sem ser chato, repetitivo, cliché ou piegas, aborda o convívio social na era digital, exatamente quando tudo oferece possibilidades, alternativas, recursos para que tenhamos tudo mais fácil, contudo, esta mesma tecnologia, a própria automatização acabam por desumanizar as pessoas. Mas não apenas a  internet ou os aparelhos são colocados como os culpados por estes distanciamentos humanos: as cidades também são retratadas como responsáveis por isso. Sua arquitetura, sua frieza, sua opressão, sua conformação física, etc. Tudo. Coisas que fazem com que por vezes estejamos cercados de tantas pessoas e sem ninguém.
É como vivem, cada um em seu mundo dentro da mesma cidade (e mais perto do que imaginam) Martín, um montador de sites, hipocondríaco, quase recluso; e Mariana, uma jovem arquiteta que trabalha como vitrinista e que tenta reorganizar seu mundo sozinha depois de um rompimento amoroso. Ambos, à sua maneira buscam sua outra metade, mas esses elementos, tecnológicos e urbanos, dificultam para que seus caminhos se cruzem.
"Medianeras" é no fundo um filme sobre a solidão. Mas não um filme convencional. Trata do assunto com inteligência e bom-humor valendo-se uma narrativa envolvente e muito bem estruturada.
Pra quem não aguenta  mais comediazinhas românticas bestas e repetitivas americanas, eis aí, com "Medianeras", uma alternativa diferente e de muita qualidade.




C.R.

quinta-feira, 6 de março de 2014

ELVIS

O Bode Espiatório

cotidianas #277 - Satolep



Satolep*

Sinto hoje em Satolep
O que há muito não sentia
O limiar da verdade
Roçando na face nua
Detalhe de fachada de casario da Rua Quinze de Novembro,
em Satolep (foto: Leocádia Costa)
As coisas não têm segredo
No corredor dessa nossa casa
Onde eu fico só com minha voz
A Dalva e o Kleber na sala
Tomando o mate das sete
A Vó vem vindo da copa
Trazendo queijo em pedaços
Eu liberto nas palavras
Transmuto a minha vida em versos
Da maneira que eu bem quiser
Depois de tanto tempo de estudo
Venho pra cá em busca de mim.

E o céu se rirá d'amore
No olho azul de Zenaide
Outrora... lembras flam(ingos)
Jê ne se pá, singulare
Yê na barra uruguaia
E letchussas no Arroito
Marfisas gemerão de paz
No The Lion!
La Jana torpor vadio
Cigarra sem horizonte
Lia, Alice e a lua
Num charque sem preconceito
O CISNE NEGRO APRISIONA
O bélICo AmoR perdidO
E a Esma num bissaje só
Cativa alguém
Nessa implosão de signos e princípios
Eu guardo o Joca e ele a mim.

O teu nome, Ana, escrito
No braço da minha alma
Persiste como uma estrela
Nas horas intermináveis
Chuva, vapor, velocidade
É como o quadro do Turner
Sobre a parede gris da solidão.
So-to-me-lo te verás-me
Como-lho-me verte-ás-nos
Solo te quiero dizer-te
Que me sinto mui contento
Porque vou na tua casa
E lemos cousas bonitas juntos
No silêncio eu pego em tua mão
Tu do meu lado e eu no teu quarto quieto
Teu ser se confunde no meu.

Vitorino de La Mancha
Minha luta se resume
No compasso de um tango
Na minha triste figura
Meu piano Rocinante
A YOGA e o chá no fim da tarde
E depois a noite e meu temor.
Eu converso com o Kleiton
Na mesa da casa nova
Sobre a vida após a morte
Sobre a morte após a vida
Vencedor é o que se vence
E a falta do Kleber é dura
O que a gente quer é ser feliz
A paz do indivíduo é a paz do mundo
E viva o Rio Grande do Sul!

Só, caminho pelas ruas
Como quem repete um mantra
O vento encharca os olhos
O frio me traz alegria
Faço um filme da cidade
Sob a lente do meu olho verde
Nada escapa da minha visão.
Muito antes das charqueadas
Da invasão de Zeca Netto
Eu existo em Satolep
E nela serei pra sempre
O nome de cada pedra
E as luzes perdidas na neblina

Quem viver verá que estou ali.

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Satolep
(Vitor Ramil)

* Satolep, para os não familiarizados, é o apelido dado pelo cantor, compositor e escritor Vitor Ramil à sua terra-natal, a antiga e tradicional cidade gaúcha de Pelotas, situada na região Sul do Rio Grande do Sul, cuja fundação data de 1758. Trata-se de um anagrama da palavra original, ou seja, invertendo-lhe as letras de trás para diante.

terça-feira, 4 de março de 2014

Oscar 2014 - Vencedores



E apesar de "Gravidade", do mexicano Alfonso Cuarón, ter empilhado estatuetas (7 no total), "12 Anos de Escravidão", do britânico Steve McQueen, foi quem levou o prêmio de melhor filme. O que normalmente poderia ser visto como uma incoerência,  no caso da premiação deste ano mostrou-se como uma separação de critérios.  Parece que a Academia reconheceu o grande trabalho, competência e qualidade de "Gravidade", a ponto de não poder negar que um trabalho tão perfeito tecnicamente merecesse ganhar o premio de direção, mas não se comprometia a ponto de ter que lhe agraciar com o de filme, preferindo para este posto algo mais característico dentro de sua tradição, com um apelo emocional mais forte, mensagens humanísticas, tons épicos e heroicos mais evidentes. Nada contra. A Academia é assim mesmo e muito raramente muda alguma coisa. Conservadorismo que aliás fazia com que qualquer um em juízo perfeito, duvidasse que "Ela", preferido dos 'cabeças', pudesse ganhar o prêmio principal da noite, mas acho que até os cults e cinéfilos mais exigentes e fervorosos, tenham se dado por satisfeitos com o reconhecimento pelo roteiro do filme de Spike Jonze.
No mais, Mathew McConaughey e Cate Blanchet eram páreos corridos para ator e atriz, respectivamente;  Lupita Nyong'o não chegou a ser uma surpresa com o Oscar de atriz coadjuvante; Scorsese, depois da vitória com "Os Infiltrados", parece mesmo com um grande trabalho, ter voltado à lista dos renegados, saindo de mãos vazias com seu "O Lobo de Wall Street"; assim como o U2 que continua sem levar seu Oscarzinho pra casa, perdendo dessa vez para a trilha da animação "Frozen".
O lado negativo da festa, na minha opinião, foi a condução surpreendente ruim da apresentadora e comediante Ellen Degeneris, que, costumeiramente inteligente e espirituosa, exceção feita à tirada sobre racismo no início da festa, a brincadeira com as seguidas quedas da bela Jennifer Lawrence, foi um desastre, insistindo em situações desagradáveis, tolas, e desnecessárias. Para fazer a 'muvuca' que ela aprontou na platéia e praticamente não fazer uma observação ou piada inteligente, com certezanão seria necessário uma MC do seu calibre, muito menos ganhando o que ela deve ter levado para conduzir a cerimônia.
Sei que teve quem gostasse: "Quebrou o gelo", "Desfez a frescura", "Aproximou os artistas do público" e blablablá... Particularmente preferiria um mestre de cerimônias mais sagaz, que tivesse aproveitado as situações para compor seus comentários e atuação mas... Mas não foi o mais importante da festa. O importante foram os premiados e aí vão eles:

MELHOR FILME
12 Anos De Escravidão

MELHOR DIRETOR
Gravidade - Alfonso Cuarón

MELHOR ATRIZ
Cate Blanchett - Blue Jasmine

MELHOR ATOR
Matthew McConaughey - Clube de Compras Dallas

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Lupita Nyong'o - 12 Anos de Escravidão

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Jared Leto - Clube De Compras Dallas

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
12 Anos de Escavidão 

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Ela

MELHOR FIGURINO
O Grande Gatsby

MELHOR MAQUIAGEM
Clube de Compras Dallas

MELHOR ANIMAÇÃO EM CURTA-METRAGEM
Mr. Hublot

MELHOR ANIMAÇÃO
Frozen - Uma Aventura Congelante

MELHOR CURTA-METRAGEM
Helium

EFEITOS VISUAIS
Gravidade

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
The Lady in Number 6: Music Saved My Life

MELHOR DOCUMENTÁRIO
A Um Passo do Estrelato

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
A Grande Beleza

MELHOR MIXAGEM SOM
Gravidade 

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
Gravidade
  
MELHOR FOTOGRAFIA
Gravidade

MELHOR EDIÇÃO
Gravidade

DESIGN DE PRODUÇÃO
O Grande Gatsby

MELHOR TRILHA SONORA
Gravidade

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
Let it Go - Frozen - Uma Aventura Congelante


C.R.