Vai lá, dá um CURTIR 👍🩷 em
Correu para o ponto de ônibus. Teve uma certa dificuldade para embarcar. Parecia que o degrau da entrada estava mais alto que de costume. "Esses novos ônibus que estão circulando...", pensou, desapontado. Sem assentos disponíveis, teve que esticar bem o braço para segurar-se na barra horizontal. Definitivamente, a nova frota não fora pensada para conforto do passageiro!
Para descer, teve que literalmente saltar do ônibus. No curto trajeto que percorreu entre o ponto de ônibus e o prédio da empresa, tudo pareceu estranho à sua volta mas não sabia identificar exatamente o quê.
No prédio, no elevador, foi ajudado por um gentil senhor para apertar o botão do décimo sexto andar. Percorreu os corredores do escritório como se ninguém o visse. Era impressão sua ou as divisórias estavam mais altas? Chegou à sua estação de trabalho e para sua surpresa não alcançava a cadeira. Ficou na ponta dos pés, deu um impulso, não adiantou. Teve que derrubar a lixeira e subir nela, deitada, para alcançar a área do assento.
Ouviu de um colega que passava na entrada da sua baia, "O nosso colega aqui não vem hoje, não?".
Estava ali, mas ninguém o via. Ele pelo contrário, via os demais esticados como que intermináveis na direção do teto. Só então entendera o que estava se passando, por mais inverossímil que aquilo lhe parecesse. Olhou em volta como se procurasse alguma solução. Talvez tivesse encontrado: em cima da sua mesa do escritório repousava um pequeno frasco com um líquido amarelo fluorescente dentro, com um rótulo escrito, "Beba-me". Supondo que o bolo tivesse causado tudo aquilo, imaginou que a bebida o fizesse voltar ao normal.
Tomou distância até o final da cadeira, correu, deu um pulo, segurou na borda da mesa e conseguiu subir. Com muito esforço escalou a pequena garrafa, tirou a rolha e a empurrou, derramando o líquido na mesa, à qual pôs-se a lamber sofregamente como um se fosse um gatinho.
*******
Um estrondo acompanhado de um tremor assustou a todos. E outro, e outro... Se repetiam como passos.
No escritório, todos correram para a janela para ver o que se passava.
Um olho enorme cobriu toda a superfície da janela espiando para dentro.
Cly Reis
Adoro falar de música. Desde que a música entrou na minha vida é assim. E foi exatamente na metade dos anos 80, quando coisas até então difíceis, muito restritas e até proibidas, começaram a chegar para nós, ainda adolescentes, que o mundo começou a abrir-se à nossa frente. Encontrava-se Sex Pistols, Iron Maiden, Black Sabbath em supermercados e nós consumimos aquilo como comida. Aqueles punks, aqueles metaleiros, aqueles satanistas, agora estavam ao nosso alcance em lojas de departamentos.
Tudo era descobertas e era um grande barato trocar ideias com pessoas que se identificavam com aquelas coisas. Chegávamos a passar madrugadas falando de som com amigos, sobre discos, instrumentistas, preferências, montando listas.
Aquele contexto de coisas novas chegando, combinado com o fim da ditadura militar, incentivara jovens a colocar tudo pra fora, manifestar sua criatividade, colocar sua opinião, e a música era um recurso mais que apropriado para este fim. A juventude oitentista, literalmente, faria ouvir sua voz.
O sistema estava abalado, o punk havia mostrado o caminho de que não precisava de muito para fazer uma música, as tecnologias de gravação haviam dado um salto, os jovens estavam loucos para dar seu recado, e a indústria fotográfica estava sedenta por sangue novo. Assim, uma nova geração começava a mostrar a que viera e o auge dessa expressão, me parece ter acontecido em 1986.
A seção ÁLBUNS FUNDAMENTAIS do clyblog, criada exatamente a partir desse gosto por falar sobre música e grandes discos que gostamos, que admiramos, já vinha revelando esse protagonismo do ano de 1986. No nosso tradicional levantamento anual e cumulativo de discos e artistas que são destacados na seção, esse ano em especial é um dos que mais têm grandes álbuns lembrados, e, no âmbito nacional especialmente, tem diversos grandes representantes.
Nada mais justo que agora, completando 40 anos dessas obras relevantes, elas recebessem o merecido reconhecimento com uma publicação que trata exatamente sobre aquele ano mágico e inspirado da música brasileira.
Tenho a honra e o prazer de fazer parte de um qualificadíssimo time de colaboradores que deram seu depoimento sobre algum álbum lançado naquele incrível 1986. Alguns desses discos que mudaram nossas cabeças, mudaram nossas vidas, nos influenciaram, inspiraram, ou apenas renderam bons papos com amigos. "1986 - O Ano que o Rock Nacional Acertou", organizado por Karina Faria, Lauro Arreguy e Chico Izidro, é, antes de tudo, um trabalho de pessoas apaixonadas por música, pessoas que mantém aquele gosto de falar sobre letras, rimas, riffs, melodias, e que entendem o quanto aquele momento, há quarenta anos atrás, foi importante para suas formações. Afinal, todos nós que vivemos aquela época, que ouvimos aquelas coisas fascinantes, que gravávamos fita cassete das rádios FM, que compramos vinis na Mesbla, somos, de certa forma, feitos de anos 80.
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Um dos maiores baratos do clyblog é escrever sobre os discos que gostamos. Desde quando comprávamos, nos anos 80, a revista Bizz, o que mais atraía a meu irmão e a mim era a última sessão, chamada Discoteca Básica. Nem quando a revista passou por uma reformulação para pior, nos anos 90, transformando-se em Showbizz, a parte onde se falava dos discos clássicos perdera sua qualidade. Não à toa, Cly e eu levamos essa ideia para nosso blog – que este ano está completando 18 anos com, inclusive, mais e mais resenhas musicais –, prosseguindo com o prazer de falar sobre os discos que gostamos na seção ÁLBUNS FUNDAMENTAIS.
Mas parecia que nos faltava registrar essa paixão para a posteridade. De tantas coisas que já produzimos, havia um hiato: fora o que está no blog, nada desses textos musicais se materializara noutro formato. Não que o ambiente online não cumpra esse papel em parte, mas é diferente de um volume impresso, né? Pois o convite que recebi por meio dos amigos e colegas Chico Izidro e Lauro Arreguy para integrar o grupo de autores do livro “1986 - O Ano que o Rock Nacional Acertou", organizado pelos dois em parceria com Karina Faria, veio para fechar esse ciclo. Isso, a mim e a meu irmão, tanto que o convite foi estendido a ele e, mais uma vez, estamos nós participando de uma publicação juntos: eu, com a resenha do álbum de estreia da Hanoi-Hanoi, e Cly, com “Selvagem?”, da Paralamas do Sucesso.
Curiosamente, nesses anos todos de blog, dos mais 200 ÁLBUNS FUNDAMENTAIS que já escrevi, por mais que admire e saiba da importância, nenhum é sobre o rock brasileiro de 1986 – diferentemente de Cly, que abordou vários dos clássicos do BRock deste fatídico ano. De brasileiros, falei apenas sobre artistas da MPB: Caetano Veloso e Zeca Pagodinho em seus LPs homônimos daquele ano. Estava mais do que na hora de, enfim, abordar, como diz o próprio livro, os discos que fizeram esta história quarentona.
Caprichado e feito com o esmero de quem é apaixonado por música como nós, o livro traz coisas maravilhosas, que ainda estou sorvendo aos poucos, mas que muito já me agradou o que li. O time de autores já fala por si. A curadoria dos títulos selecionados, idem. Estão listados discos de inegável importância (“Vivendo e Não Aprendendo”, da Ira!, e “Capital Inicial”, por exemplo); outros de grande sucesso comercial (“Rádio Pirata Ao Vivo”, da RPM); outros cultuados (“Só se Vive Duas Vezes”, da Fellini, ou “Desastre Mental”, da Herva Doce), outros emblemáticos (a coletânea “Rock Grande do Sul”, “Viva”, da Camisa de Vênus, ou ainda “O Futuro é Vortex”, d'Os Replicantes). O ano de 1986 é tão marcante que é dele que saem dois dos melhores discos não apenas do rock nacional, mas da música brasileira de todos os tempos: “Cabeça Dinossauro”, da Titãs, e “Dois”, da Legião Urbana.
Estão todos lá, todos devidamente resenhados, refletidos, sorvidos, elaborados. Algo especial aconteceu naquele ano de 1986 para o rock brasileiro, que certamente nenhum outro ano repetirá. “1986 - O Ano que o Rock Nacional Acertou" nos dá pistas mas, antes de mais nada, nos remete a um momento especial de nossas vidas, que segue reverberando através dos sons das guitarras brazucas até hoje em nossos corações.
Ai, essa não com a chata da Aline! Deletar! Own..., a Juli é um amor! Adoro essa foto junto com ela. Haha, o cachorro da Gabi. Essa eu tenho que guardar. Ah, não! O Marcelo... Pior que essa foto tá ótima. O que estraga é ele.
Havia terminado com o Marcelo havia poucas semanas e, naquele momento, a imagem dele era algo pouco agradável, era alguém que preferia não ver. E pensar que teria que encontrá-lo na festa... Mas não tinha jeito: ele também era amigo do Edu e estaria lá de qualquer forma. Preferia não deletar uma foto tão legal, no sítio do pai da Lara, com as meninas, com o Jefinho que é um cara massa, com o Rafa que é gatinho... Bem que podia eliminar só o Celo!
Procurou no Google algum aplicativo que removesse imagens indesejáveis. Remove-It, Photo X-clude, Edit 4U... 'LMNT 4VR, elimine para sempre aquela figura indesejável'. Nunca tinha visto esse, nunca tinha ouvido falar. Adorou a chamada! Era exatamente isso que queria: remover o Marcelo para sempre de qualquer lembrança.
Entrou. Arraste sua foto para cá. Colocou lá a fotinho. Use o pincel para apagar. Passou o cursor em forma de número 4 apenas sobre a imagem do ex. Você realmente deseja eliminar este elemento? Pensou um pouco... Confirmou. SIM.
Nesse momento a mãe entrou no quarto e avisou que a Lari estava lá embaixo e que era para ela descer. Baixou a tampa do laptop, apagou a luz do quarto e saiu para a festa.
Selfies, poses, drinks, baseados, paqueras! A galera tava toda lá. Quer dizer, todo mundo menos o Marcelo. Estranho! O Gui veio com a piadinha, "Tem alguém que não apareceu por aqui hoje... Será que é dor de corno?". Não enche, Gui! A Gabi encostou nela e, de forma bem mais conveniente questionou: "Sabe do Celo?". Não sei e não quero saber, respondeu. De fato não queria saber, mas que era estranho não ter ido à festa, era. Além de não costumar se abalar com qualquer rompimento, finais de namoro, era amigo de infância do Edu e além disso todos os rapazes, os amigos estavam lá, o pessoal do time, do clube, do inglês...
Marcelo não apareceu aquela noite e não apareceu mais.
Não fora mais visto.
Polícia, noticiários, família desesperada... Como se tivesse evaporado.
Nada a ver, mas começou a pensar naquele aplicativo... Desde a noite em que resolveu apagar o Marcelo, ele não apareceu mais. E era um app estranho pra falar a verdade. Nunca tinha visto nem ouvido falar daquela coisa.
Será???
E se testasse? Pra conferir se era isso mesmo. Se o tal aplicativo teria alguma coisa a ver...
lmnt4vr.com
Entrou.
(Com quem faria o teste?)
A Aline era uma chata, mesmo...
Arraste sua foto para cá. Colocou lá a foto. A Aline toda sorridente no churrasco na piscina.
Use o pincel para apagar.
Passou o cursor apenas sobre a imagem do desafeto.
Você realmente deseja eliminar este elemento?
Cly Reis
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| O blues invocando espíritos do passado e do futuro. |
Sangue não à toa tão valorizado. Uma das cenas de “Pecadores”, que vale o filme, mostra o personagem Sammie "Preacher Boy" Moore (Miles Caton) cantando e tocando um blues no bar e fazendo emergir do além diversas almas negras em camadas simbólicas e tempos que se misturam. Dos primórdios do blues, nascido das mentes e corações amargurados dos escravos, até os rappers da atualidade, passando pelo rock, o soul, o funk, o gospel e toda contribuição do negro dos Estados Unidos para a cultura pop. Simplesmente genial.
As resoluções para a trama sobrenatural que o filme vai ganhando, principalmente a partir de sua segunda metade, são boas, mas não empolgantes. O stinger, a cena pós-créditos, este sim (sem dar spoiler) é surpreendente, mas não suficiente para elevar um filme a uma classificação maior do que “bom”. Já Michael B. Jordan é um capítulo à parte. Ele passou a ser mais valorizado enquanto indicado como Melhor Ator ao Oscar depois do triste e revoltante episódio de racismo em plena cerimônia do Bafta, na Inglaterra, em fevereiro - onde, aliás, levou o prêmio. Embora agora com mais atenções para si, o astro não está tão bem quanto nos dois outros filmes que fez com Coogler, exatamente “Pantera...” e “Creed” – este último, no qual é protagonista. Agora, ele concorre com Wagner Moura e Timothée Chalamet, os dois fortes candidatos entre os indicados, mas pode ser que surja como uma terceira via por conta de um falso moralismo da Academia. Não será mal dado, mas menos justo e, se acontecer como prêmio de consolação por causa desse mal-estar, hipócrita.
Independentemente de qualquer coisa, Coogler faz história e, mais uma vez, acerta em sustentar o discurso antirracista ao qual é um importante porta-voz na indústria cultural. Ele sabe disso e mantém-se fiel ao compromisso de evidenciar as barbaridades promovidas pelo racismo na sociedade, mas também toda a riqueza da cultura afro-americana em suas infinitas frentes. Neste sentido, “Pecadores” cumpre muito bem sua proposição. Sem cometer nenhum pecado.
Varre, varre, varre, passo a vassoura por baixo do balcão e ela bate em alguma coisa mais dura, mais pesada. Não é só papel, plástico, isopor. Puxo pra frente do balcão com a vassoura e vem uma máscara. Não parece com as outras, não parece fazer parte de nenhuma alegoria. Trabalho no barracão faz meses e não sei de nenhuma ala que use uma coisa daquelas. Parece aquelas máscaras de... futebol americano. Não! Futebol americano não usa máscara, usa, tipo, um capacete. É máscara de rósqui, rock, hóquei, eu acho. Meu filho que gosta de esporte é que entende dessas coisas. Toda amarelada, rachada, podre. O que que aquela porcaria faz ali?
Só recolho e jogo fora como seria o normal a fazer? Ou será que pergunto pra alguém se faz parte de alguma coisa que eu não sei?
Não vou incomodar o carnavalesco. Tá lá concentrado dando instrução numa estátua de orixá.
Ah, vai pro lixo. Ninguém vai dar falta disso.
Antes de me livrar daquilo, só de graça, mesmo toda nojenta, resolvo experimentar. Botar na cara.
Um acampamento, adolescentes, um lago, desespero, afogamento, fundo, fundo, mãe, morte, vingança, máscara, sangue, sangue, coração, pernas, cabeças, sangue, morte, morte, morte. Tudo me vem à cabeça numa sequência alucinante, como um filme todo passando em um segundo.
Encho o peito de ar, respiro fundo. A meu lado uma enorme tesoura de costura repousa sobre uma bancada.
Já não sou eu mesmo quando a apanho e caminho com determinação barracão adentro. Tem pouca gente ali trabalhando a essa hora, mas tem muito mais gente lá fora e terá ainda mais nos próximos dias. Ainda é sexta-feira, o Carnaval está apenas começando.
Cly Reis
O ano novo se aproximava.
Em casa, cada vez que a esposa falava de sua cada vez mais crescente barriga, Roberto prometia, "Ano que vem eu perco essa barriga. Tu vai ver um novo homem."
No ponto de ônibus, para cada vez que ficava horas esperando o transporte, entrava no coletivo atrolhado e sentia-se apertado como uma sardinha, tinha que sair se espremendo e empurrando todo mundo para chegar na porta para saltar na sua parada, prometia a si mesmo, "Vocês todos vão ver um novo homem no ano que vem. Com carro novo, um carrão, um cara que não vai precisar mais ficar se sujeitando a isso tudo. Vocês vão ver!".
No trabalho, sempre que chegava atrasado e o supervisor o repreendia, Roberto se comprometia, "A partir do ano que vem vou melhorar. Vocês vão conhecer um novo homem".
Deu ano novo...
Na meia-noite, entre fogos, abraços e champanhas, a campainha toca. Roberto, estatelado no sofá nem se prestou a levantar para abrir. A mulher, perguntando aos demais se estavam esperando alguém, vai até a porta e abre. "Beto, você nunca me falou que tinha um irmão!". Roberto meio que abriu os olhos e confirmou, "...não tenho". Quando voltou a cabeça para o hall de entrada, viu a esposa acompanhada de um homem absolutamente igual a ele mas muito mais bem cuidado, bem vestido, tratado e... sem barriga. Ia dizer alguma coisa mas, antes que pudesse completar uma frase, apagou.Ao despertar, não encontrou ninguém na casa. Teriam ido à praia, viajado para Cabo Frio. Nunca teriam ido sem ele mas, por outro lado, ele nunca teria ido. Nunca queria ir quando a mulher propunha. Talvez por isso agora tivessem tomado uma atitude e o deixado dormindo no sofá. Qual não fora sua surpresa quando ao ligar a TV, pelo noticiário, percebera que já não era a manhã seguinte, o dia primeiro. Havia ficado fora de órbita por três dias! Já era a segunda-feira depois do feriadão, tinha que ir trabalhar.
Vestiu-se, correu, embarcou no ônibus já não tão cheio pelo atraso no horário e meia-hora depois chegava ao escritório. Felizmente não muito atrasado. Na frente do prédio, uma Ferrari reluzente era conduzida à garagem no subsolo por um manobrista. Ficou curioso a respeito de quem teria um carrão daqueles.
Subiu. O ascensorista o olhava de cima abaixo com um olhar de desprezo e desaprovação. Ia se instalar na sua estação de trabalho quando ouviu a voz do supervisor. "Atrasado de novo...". Ia começar a se desculpar quando o superior o interrompeu. "Na verdade, não precisamos mais dos seus serviços". Não abriu a boca. Apenas olhou para o chefe estupefato e intrigado. "Contratamos aquele cara ali", disse apontando para um homem charmoso, alinhado, elegante, na sala envidraçada da chefia. Parecia muito com ele mas... "Por sinal, lembra muito você logo quando chegou aqui; dinâmico, interessado, cheio de vida", reforçou o supervisor. "E tem um currículo muito bom, muito parecido com o seu na verdade, mas a diferença é que na recomendação dele diz que... nunca chegou atrasado", completou sorrindo.
Pegou suas coisas, desceu, pegou o ônibus, chegou em casa, sentou no sofá. Percebeu então algo que não havia notado antes quando saíra de casa correndo: em um porta-retrato, com uma foto dele e da esposa ainda jovens, estava fixado um bilhete. A mensagem era bastante breve e objetiva: "Fui embora, Roberto. Encontrei um homem de verdade".
Um novo ano começara e era tudo novo, exceto ele, Roberto, que era o mesmo antigo sujeito.
cly
Representante do chamado Novo Cinema Extremo Francês, "A Invasora", não se preocupa em poupar o espectador de cenas chocantes, desconfortáveis e perturbadoras. O ataque a uma mulher grávida, indefesa, leva inevitavelmente o espectador à questão do por quê alguém agiria daquela maneira selvagem, incontrolável, irascível contra uma pessoa tão vulnerável? E sem levar minimamente em consideração o fato de sua vítima estar carregando em seu ventre um inocente! E o pior ainda: ter esse ser indefeso que nem nasceu também como alvo.
O motivo? Seria spoiler contar se existe um motivo ou não e qual seria ele. Não cometerei essa canalhice com meu leitor. O que posso dizer é que independente da razão, se existe, se é justificável ou não, essa invasora proporciona ao fã do terror uma das caçadas mais cruéis que já se viu no cinema, indo até o limite total de suas forças, possibilidades, armas, condição física, para atingir seu objetivo.
Uma das minhas vilãs preferidas do cinema. Béatrice Dalle, a eterna Betty Blue, aqui determinada, impiedosa, implacável, imparável! Se é pra ser má, se é pra cumprir o que se propôs, não é pra ter mimimi. E com essa invasora anônima de Natal, não tem mesmo.
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| Ela, a misteriosa assassina, não vai desistir até dar um fim na pobre grávida que só queria um pouco de paz interior na véspera de Natal. |
Cly Reis
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Nunca quis tirar a prova. Ficava na expectativa da chegada dos degraus à borda; um, dois, três, quatro degraus... e dois antes do meu, eu já pulava para a beirada na parte firme.
Só agora, depois de adulto, homem feito, é que consegui racionalizar o suficiente a situação para encarar o final de uma escada rolante.
Decidi superar meus medos e ir até o final. Permanecer no degrau até o último instante, até a borda segura, até que o degrau metálico se encolha e escorregue suavemente por baixo daquela abertura dentada desencontrada.
Preferi enfrentar algo tão traumático com o máximo de discrição possível. Fui à noite a um shopping center, desses com longas e lentas escadas rolantes. Permaneci até o horário de fechamento, esperei saírem os espectadores das últimas sessões de cinema, me escondi no banheiro de onde ouvi os avisos finais para que todos deixassem o estabelecimento, confundi a atenção dos vigias e, com o shopping deserto, me postei diante da borda fixa de um daqueles aterrorizantes monstros mecânicos. Não sei bem porquê, escolhi a descida. Talvez para poder visualizar meu destino final.
Respirei fundo, me concentrei. Hoje eu vou até o final, até o último degrau. Sem tirar o pé. Nada pode acontecer.
Minha determinação, no entanto, foi interrompida por uma voz vindo lá do fundo do shopping. Um dos seguranças da noite me vira. "Ô, aí. Que que você faz aqui dentro ainda? Não pode ficar ninguém!", gritou.
Era agora ou nunca. Tinha que aproveitar minha decisão, minha coragem. Não poderia deixar para outro dia. Do local onde ele estava, a alguns corredores de distância, mesmo que corresse, provavelmente, daria tempo para minha descida toda antes que chegasse até mim. Dei um passo à frente e botei o pé no degrau que surgia por baixo do chão firme. Comecei a ser levado pela escada para baixo, para baixo, para baixo... Lá no final os degraus iam sumindo um a um por baixo do chão. Faltam quatro, três, dois, um...
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Estalos repicavam pelo piso, do contato apressado da sola do sapato do vigia no reluzente granito cinza do shopping center. A esforçada corrida do obeso vigia não fora rápida o suficiente para impedir que o homem à beira da escada embarcasse nela. Era tarde. Estava a uns dez passos ainda e a cabeça do intruso já sumia no horizonte do segundo piso.
Sacou o rádio. "O Corrêa, tem um cara descendo pro primeiro de rolante. Pega ele aí embaixo que ele ficou aqui dentro depois de fechar. Copiou?". "
Quando finalmente chegou, ofegante, na beira da escada, no andar de cima, não encontrou nem rastro do último cliente. Nada.
Não demora nada e chega o Corrêa de braços abertos com cara de quem não entendeu nada. "Não passou ninguém por aqui", disse.
Deram de ombros e voltaram para suas respectivas rondas. "Fica de olho", disse o de cima. Se estivesse lá dentro, iriam encontrá-lo até o amanhecer.
Tudo estava quieto novamente. Apenas o rangido mecânico abafado das escadas rolantes quebrava o silêncio da madrugada. Algo parecido com um doloroso gemido.
Cly Reis
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| Zumbi - Senhor das Guerras, Senhor das Demandas - REIS, Cly arte estilo HQ inspirada na canção "África Brasil (Zumbi)", de Jorge Ben |