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The Caterpillar foto: Cly Reis |
Lixo, entulho, comida, roupa velha...
O mendigo, o maluco, o sem-teto, como queiram chamar, puxava lá de dentro e examinava tudo.
Tirava um pão, mordia, uma caixa, chacoalhava, um chapéu, experimentava. Não ficava uma graça com aquilo na cabeça? Fez pose, dançou, arrancou risadas de quem passava. Parecia um ator desses de televisão.
De repente cansou do chapéu. Jogou longe.
Voltou a futucar no amontoado.
Tirava papel, tirava plástico, tirava pano.
Um pouco de tudo saía daquele lixo.
De repente parou.
Parecia ter encontrado algo interessante...
Puxou lá de dentro uma TV. Sem tela, sem tubo, só o casco e uma antena desengonçada.
Levou a TV pra beira da calçada, arrumou a antena, girou o botão da sintonia, deu uns tapas na lateral, sentou no meio-fio e... começou a assistir.
Ria sozinho.
Se deliciava com o que passava na TV do seu delírio.
Ria também quem passava.
Alguns paravam. Olhavam com curiosidade. Deviam se perguntar o que se passava na tela da cabeça do maluco.
E de repente era todo mundo rindo na calçada: os passantes rindo do mendigo e o mendigo rindo do nada.
*****
Era um belo homem com um chapéu que dançava graciosamente diante de uma entusiasmada plateia que o aplaudia.
Ele era um grande astro da TV.
Cly Reis
Mas "A Substância" é, com suas qualidades e defeitos, um filme inteligente, provocante e, sim, gore. A história se baseia na vida de Elisabeth Sparkle (Demi Moore), uma renomada apresentadora de um programa de aeróbica, que enfrenta um golpe devastador quando seu chefe a demite por considerá-la velha para os padrões da mídia. Desesperada, ela encontra um laboratório, que lhe oferece a juventude eterna por meio de uma substância, que a transforma em uma versão aprimorada e jovem (Margaret Qualley). Tudo lindo, maravilhoso - mas nem tanto. No capitalismo, há regras inarredáveis.
As referências a filmes e diretores admirados por Coralie são evidentes e muito bem dispostas na narrativa, como a Stanley Kubrick ("O Iluminado", "2001- Uma Odisseia no Espaço"), Brian de Palma ("Carrie: A Estranha", "Irmãs Diabólicas"), Dario Argento ("Phenomena") e Alfred Hitchcock ("Psicose", "Marnie"). Isso sem ser apenas uma emulação, visto que a diretora consegue imprimir uma estética muito original e bem elaborada. Ponto para "A Substância". Mas o que particularmente funciona muito bem no longa e tornar a sociedade do espetáculo e seus padrões tortos como argumento para um filme de terror. Neste sentido, "A Substância" faz parecido com o já citado "Corra!": a apropriação de um tema sociológico real, no caso do filme de Jordan Peele, o racismo e a sexualização do negro. Não é mais de monstros extraterrestres ou de experimentos científicos malévolos que se extrai o verdadeiro terror. É da vivência social.
Em atuação excepcional, Demi Moore, forte concorrente ao Oscar de Melhor Atriz (categoria na qual pode desbancar, infelizmente, a brasileira Fernanda Torres), equilibra a personalidade de uma mulher amedrontada pelo etarismo e pela perda de seu espaço simbólico no mercado com lances de humor ácido. Difícil equação a qual Demi, no entanto, num papel representativo de sua imagem no mundo do entretenimento, se sai muito bem. Outro aspecto positivo é a montagem, ágil mas também observacional, pontuada pelos letreiros gigantes que evidenciam as etapas do experimento, bem como a divisão em capítulos da narrativa. Igualmente, a atmosfera sonora (ruidosa, diria), é muito bem criada. Dinâmica, sensorial, acompanhando a estética de plasticidade "publicitária" usada por Axel Baille na fotografia.
Porém, o filme peca é naquilo que vários filmes de terror também se complicam, que é precisamente o desfecho. Desnecessária aquela sangueira toda no teatro a la "Carrie". Mais do que desnecessário: improvável. Não se está aqui defendendo realismo numa obra claramente fantástica, nem muito menos que um filme gore se abstenha, justamente, de mostrar sangue.
Porém, há em "A Substância", na maior parte do filme, uma condução narrativa que se constrói para justificar a dicotomia beleza X feiura, velho X novo, essência X artificial. Ou seja, a ideia crítica central do longa. Ocorre que essa construção é abandonada na sequência final em detrimento das consequências das decisões das personagens (previstas no roteiro) sem considerar a própria lógica que se vinha edificando. Fazer a versão "velha carcomida" de Elizabeth, depois de mal conseguir dar dois passos entre a poltrona e a cozinha, correr feito um zumbi enfezado e lutar com a habilidade de Chuck Norris é, além de ilógico, pobre. Ou pior: desconsiderar o deslocamento do "monstro" entre o apartamento e o estúdio de TV como se a distância entre os dois imóveis fosse de 5 metros (mesmo que fosse), bem como ninguém estranhar (ou abater) aquela coisa andando na rua. Isso é de uma inconsistência de roteiro considerável.
O filme faz o espectador acreditar no argumento fantasioso do experimento científico com argumentos plausíveis de tempo/espaço para, no final, desdizê-los em detrimento de uma nova lógica mais do que fantasiosa: irreal. É de se perguntar, por exemplo, se não havia nenhum segurança ou policial pra dar um tiro naquela criatura como os norte-americanos tanto gostam. Isso é o lógico,
Por isso, a referida sequência derradeira, com ela/s no palco banhando de sangue a plateia, não se sustenta, o que faz prejudicar um filme na sua maior parte muito bom. Acaba por soar como um arremedo, neste caso mal copiado, do mestre do gore horror David Cronenberg. É compreensível o anseio de se lançar aquele discurso feminista ao final, mas não havia necessidade, visto que o próprio filme já o exalta de outras formas críticas. Bastava que Coralie - que mesmo assim ganhou Palma de Ouro de Roteiro e Cannes por "A Substância" - desse como solução algo menos mirabolante: esmagar a criatura sobre a sua própria placa na calçada da fama, como ocorre na última cena, logo após que esta sai de casa e sem ter chegado ao teatro. Teria sido mais simples e, substancialmente (com o perdão do trocadilho), melhor.
Se "A Substância" vai levar algum Oscar não se sabe. Dos cinco pelo qual concorre, Maquiagem e até Roteiro Original lhe sejam bem prováveis. Entre Demi e Fernanda, não desmerecendo a primeira, por atuação em si a da brasileira é mais essencial para o seu filme, "Ainda Estou Aqui". De Direção, no entanto, Coralie merece. Já em Filme, não deve ser desta vez que o terror vai quebrar o tabu diante da indústria cinematografia estadunidense. Afinal, aproveitando outra sentença do próprio filme: "você não pode escapar de si mesmo", não é?
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trailer original de "A Substância"
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A diretora com toda sua riqueza de linguagem e recursos é muito sagaz em propor esse conflito. Uma espécie de guerra interna entre ser o que é, o que tiver que ser, encarar a idade, os julgamentos, ou agradar aos outros, se transformar, mudar para manter ou atingir seus objetivos. Para tal, Coralie Fargeat é corajosa, ousada e se utiliza do grotesco, do chocante, do assustador, uma vez que possivelmente, seu recado não teria a mesma intensidade e a mesma capacidade de ser transmitida de forma tão impactante por outra linguagem senão pelo terror. E nesse universo ela desfila referências que cinéfilos reconhecem e se deliciam: Kubrick, De Palma, Lynch e claro, todo o horror corporal característico de David Cronenberg.
Associado a um excelente roteiro, soluções narrativas inteligentes, , uma edição ágil, uma maquiagem impressionante, e atuações incríveis das duas partes da mesma pessoa, Margareth Qualey, a jovem Sue, e, especialmente Demi Moore, indicada ao Oscar de melhor atriz, cuja similaridade com a situação da personagem Elizabeth, afastada dos holofotes depois de deixar de ser a 'gatinha' de Hollywood, é inegável.
Bem como sua protagonista parte de um original para criar uma versão renovada, "A Substância" se vale de núcleos como "O Iluminado", "A Mosca", "Carrie, A Estranha", para trazer um terror revitalizado, fresco, abusado, replicando desses clássicos algumas de suas melhores virtudes para criar em si um novo elemento que, se não faz uma versão melhor que suas matrizes (e não chega a tanto), irrefutavelmente cria algo singular. Único!
"A Substância" é um terror de primeira e que, desde já, inscreve seu nome no panteão das grandes obras do gênero. E para os que torcem o nariz para esse tipo de filme, resta aceitar que um horror gore, sangrento, chocante, feito sem a pretensão de agradar ninguém, tenha sido indicado a um Oscar de melhor filme. Pode não ganhar, é acho que não vai, mas seu reconhecimento é uma vitória do cinema de horror.
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referências a filmes clássicos em "A Substância"
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Demorou um pouquinho mas saiu aquela tradicional retrospectiva da arte do Clyblog do ano que passou.
Além da nossa produção pessoal, Cly Reis e Daniel Rodrigues, em diversos formatos, do lápis ao vídeo, trazemos também as artes produzidas para os anúncios do blog nas mídias sociais, as variações do logo da casa muitas vezes se adaptando a eventos importantes que ocorrem ao longo do ano, e ainda ilustrações da seção Cotidianas, para contos, crônicas ou poemas.
Vamos então dar aquela rememorada no que tivemos de arte e trabalhos visuais por aqui no último ano:![]() |
Do vídeo para o lápis em folha de caderno: "O Homem Pautado" |
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Fan-art homenageando o projeto "Clube da Esquina", de Milton Nascimento e Lô Borges, cruzando com o filme "Clube da Luta". O Clube da Luta na Esquina ou o Clube dos Lutadores da Esquina... |
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Nas comemorações pelos 80 anos de Chico Buarque, uma ilustração digital, ao estilo cartaz de cinema, em alusão à sua canção "Passaredo", e com referência ao filme "Os Pássaros" de Alfred Hitchcock |
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Na seção Cotidianas, ilustração para o conto popular "Quem cai na dança não se 'alembra' de mais nada" |
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Também nas Cotidianas, ilustração para o conto "Todo Errado" |
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Ainda pelos 80 anos de Chico Buarque, criamos um logo comemorativo que se uniu aos logos das seções nas publicações relacionadas a ele. |
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2024 foi ano de Olimpíadas e os logos das seções do ClyBlog também se adaptaram para os posts especiais que rolaram durante o período dos Jogos. |
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Também para no período das Olimpíadas de Paris, destacamos uma série de músicas cantadas em francês compostas por autores não-franceses e para este post também demos uma cara. |
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Manonna esteve no Brasil em maio e abraçou o Clyblog! Tivemos diversos destaques da Rainha por aqui. |
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O logo do Clyblog como sempre se transformou muitas vezes durante o ano: virou uma pista de dança com Madonna, explodiu com Oppenheimer e foi para os terraços da cidade para bilhar lá de cima. |
Contudo, música boa nunca morre. E como nos alimentamos disso, também aproveitamos esse poder de Fênix para exibirmos 41 programas, a grande maioria inéditos, entre janeiro e dezembro, mesmo com a devida parada forçada entre maio e julho e a boa atrapalhada que isso gerou para o restante dos meses. Igualmente às música que preenchem o programa, os temas que os motivam também tiveram aquelas artes que anunciam cada programa semanalmente. Baseadas em temas do cotidiano, fatos do Brasil ou do mundo, curiosidades ou até mesmo uma imagem interessante, essas artes formam uma espécie de vitrine cronológica do MDC ao longo do período. Reuni-las, assim, em retrospectiva, dá essa dimensão de crônica visual daquilo que formos expressando no ano.
Como já dito nos últimos anos desde que começamos a fazer esse resgate tal qual o blog já propunha há mais tempo com, essas sim, consideráveis artes de A Arte do Clyblog (feitas com a devida habilidade por meu irmão e coeditor Cly Reis), as produções artísticas do MDC não são lá essas coisas tecnicamente. Mas se se peca por perícia, compensa-se com criatividade e olhar, digamos, jornalístico para a escolha dos temas. Aí, sim, o MDC se acha. E rolou bastante coisa pra gente se inspirar em 2024! Teve de show da Madonna em Copacabana a prenúncio apocalíptico de Baby do Brasil, passando ainda por cadeirada do Datena, tiro na orelha do Trump, reverência a Rebeca Andrade nas Olimpíadas e Cate Blanchet confessando seu amor por Clarisse Lispector... e pelo MDC!
Fiquem com a seleção de algumas dessas artes em imagem e vídeo. Não deu pra ser tão rico como 2022 e 2023, certamente. Perdoem-nos. Mas não invalida nossa retrospectiva, que se saiu bem com o que foi possível fazer. Confiram.
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Lá do início de 2024, o segundo MDC do ano e há exatos 365 dias dos atos golpistas de 2023. Sem anistia! |
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O começo do ano também teve coisa boa, como os 80 anos de Angela Davis, celebrado no programa 355, de 31 de janeiro |
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E o Carnaval? Ah, a festa do Momo sempre nos guarda momentos insuspeitos, como este envolvendo Ivete Sangalo e Baby do Brasil em Salvador. Não podíamos deixar de aproveitar essa deixa |
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Na edição fechada de 360, demos, literalmente, um 360 graus em quadrinhos, cinema, história e muito mais na entrevista especial com o amigo Christian Ordoque. Foi muito legal. |
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Ninguém gosta de perder um amigo, que foi o que sentimos quando Ziraldo nos deixou e lhe fizemos a devida homenagem na edição de 10 de abril |
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Deu tempo de tirar um sarro da Madonna às vésperas dela fazer seu show histórico em Copacabana. Mal sabíamos que este seria o último programa antes da parada por causa das enchentes no RS... |
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E, em junho, chegaram as Olimpíadas de Paris! Não tinha como não fazer meme com essa cara de inveja da Simone Billes vendo a Rebeca Andrade se apresentar |
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O polêmico e necessário tema da escala 6x1 veio à tona e motivou nosso MDC 386, de 13 de novembro, que contou com essa sagaz arte da amiga designer Mariluce Veiga |
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Na edição 388, mais uma vez inspirados pela arte, mas desta pela falta de criatividade do italiano Maurizio Cattelan. Só achando graça mesmo - e viva Andy Warhol! |
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Ludmila inventou de usar o boi folclórico sem permissão e se deu mal. Nossa arte - que ficou joinha - em cima deste fato ocorrido na semana de 23 de outubro |
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Só se falava em Vini Jr. pelas ruas e redes sociais. Claro, a gente falou também do melhor do mundo, inegavelmente. Edição de 30 de outubro |
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Queda de ditador? Tivemos também em 2024. Bashar Al-Assad caiu, e o MDC tascou lá em uma de suas últimas edições do ano, já em dezembro, para o programa especial de 390 |
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Não só na Síria: aqui mesmo no Brasil os intocáveis começaram a cair também. Que confortante (e pedagógico) ver Braga Neto, um general, recebendo voz de prisão. 2025 promete... |
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E Papai "Luloel" fechou nosso ano difícil, mas sempre com bom humor - e, claro, sempre vale lembrar: é sem anistia, porraaaaa! |