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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Gal Costa - "Cantar" (1974)


Canto, Recanto

"Gal é uma das grandes
personalidades da nossa história.
As Dunas da Gal, o Vapor Barato, ‘a mulher mais elegante do Brasil’
(no dizer de Danuza Leão na época),
Baby, Divino Maravilhoso, Índia:
todo um mundo brasileiro do qual
não podemos abrir mão
se quisermos ser o que devemos ser."
Caetano Veloso



Caetano Veloso é, como todos sabem, irmão de Maria Bethânia. Mas sua ligação e sinergia musicais com Gal Costa talvez sejam até maiores do que com a cosanguínea. Baiana como ele, poucos anos mais nova mas da mesma geração, foi com Gal que o cantor e compositor gravou seu primeiro disco, “Domingo”, de 1966 – embora o elo, inclusive familiar, já viesse de antes. Além disso, no entanto, foi Gal quem, embarcada com os dois pés no Tropicalismo liderado por ele e Gilberto Gil na segunda metade dos anos 60, manteve acesa a explosão transgressora e criativa aberta pelos tropicalistas quando do exílio da dupla em Londres de 1969 a 1972. Ao contrário de Bethânia – que sempre soube seguir o seu caminho fugindo ao máximo das rotulações e estereótipos –, Gal por escolha não só segurou a barra enquanto única remanescente da formação original da Tropicália durante os anos de chumbo da Ditadura como, mais ainda, avançou a MPB em todos os sentidos, da confluência de estilos e referências (objetivo-fim tropicalista) a, obviamente, sua própria arte maior: a técnica do canto.

Não se começou a falar em Caetano Veloso num texto sobre Gal Costa à toa. Como aconteceria no espetacular "Recanto" – disco de 2012 cujo diálogo estreito com este forma um díptico de 38 anos de ínterim –, é o quase-irmão Caetano quem dá o tom do “cantar” de Gal. Produzido por ele em parceria com outro mestre da retaguarda tropicalista, Perinho Albuquerque, é um disco totalmente maduro da talentosa cantora, já deixando a extravagante e raivosa Gal do início da Tropicália um pouco para trás. Aqui, ela está dona de si, de seu conceito como artista e do posto de maior cantora de seu tempo ao lado de Elis Regina, também no auge à época. E Caetano, dirigindo um projeto para ela pela primeira vez (até então haviam exercido tal função Wally Salomão, Jards MacaléRogério Duprat e Guilherme Araújo), é um pouco responsável por esse amadurecimento.

Desfilam pelo disco músicos de primeira linha, como o genial João Donato, o mestre da raça Gil, o “Clube da Esquina” Noveli, o baterista Tuty Moreno e, claro, os próprios Perinho e Caetano. O resultado é um álbum resplandecente, florido como sugere a belíssima arte forjada pelo artista visual Rogério Duarte. A contestação de “Divino, maravilhoso”, a fúria de “Eu sou terrível”, a psicodelia de “Dê um role” ou a estridência de “Meu nome é Gal”, agora, refazem-se, remolduram-se. Estão ali, porém sob outro olhar. Um sopro de pólen colorido no negror dos anos de chumbo.

O começo não é nem um desabroche: é a flor já em pleno estado de vida. “Barato Total”, hit do álbum, é das melhores músicas de Gilberto Gil cujo presente não se encerra somente no fato de este tê-la dado especialmente para a amiga. Gil também empunha o violão durante a faixa, e Gil ao violão sabe-se como é, né? Além de sua altíssima técnica que une a batida de João Gilberto ao ritmo frenético do rock – e mais o congado, o maxixe, o jazz e o baião –, o grande compositor simplesmente arrasa nas cordas, sustentando a melodia num toque swingado e cheio. É tão intenso que, na regravação feita por Gal com a Nação Zumbi, em 2004 (também produzida por Caetano), bastou à banda traduzir para os tambores pernambucanos a batida de violão de Gil. A letra traz, já na abertura do disco, a mesma ideia de ressaltar a beleza da vida para além de toda a situação política e moral do país: “Quando a gente tá contente/ Tanto faz o quente, tanto faz o frio, tanto faz”. E finaliza, numa exclamação: “Quando a gente tá contente/ Nem pensar que está contente a gente quer/ Nem pensar a gente quer, a gente quer/ A gente quer, a gente quer é viver”.

Como todo grande disco, “Cantar” larga com uma de encher os olhos. O que virá a seguir superará ou se equiparará? Pois o lirismo da cantora estava realmente germinado. Ela arrebenta na interpretação da clássica “A Rã”. É a primeira das quatro de autoria de Caetano no disco, e justo uma em parceria com outro personagem fundamental desta obra: João Donato. Ele, além desta, assina o arranjo da canção de ninar que finaliza o disco, “Chululu” (de autoria da mãe de Gal, Mariah Costa, que costumava cantá-la para a filha na infância), e de outras duas: “Até quem Sabe”, só piano e voz, lindíssima e altamente erudita; e “Flor de Maracujá”, um soul funkeado ao estilo de “A Bed Donato” (referencial álbum gravado pelo acreano nos Estados Unidos em 1970). Esta, última do lado A do vinil, dialoga maravilhosamente com a primeira da segunda face: “Flor do Cerrado”, que, assim como “Barato Total” é das melhores composições de Gil não gravadas por si próprio, também é das mais belas de Caetano nunca registradas por ele mesmo. Letra de poesia caetaneana, vocal cristalino de Gal e uma rica incursão do autor contracantando “Garota de Ipanema”, de Tom e Vinícius. No refrão, ainda, Gal, afinadíssima, executa um portamento de notas muito bonito e técnico, subindo gradualmente até finalizar lá em cima da escala na última palavra: “Mas da próxima vez que eu for a Brasília/ Eu trago uma flor do cerrado pra você”.

Antes, entretanto, o primeiro lado ainda guarda duas ótimas faixas. Lua, lua, lua, lua”, mais uma de Caê, que, junto com outra que vem mais adiante, “Joia” (um espetacular trabalho de percussões africanas e piano monotonal que antecipa trabalhos de Caetano de 1997 e 2000, “Livro” e “Noites do Norte”, respectivamente, quando ele aproxima a vanguarda erudita às raízes da África), foram gravadas por Gal um ano antes do próprio usá-las no seu disco – por sinal, intitulado “Joia”. E diferentemente da versão barroca que gravaria para si, “Lua...” traz um elemento interessantíssimo: sob a voz dela, Caetano exercita uma espécie de beat-box, expediente que o mesmo se valera na concepção da trilha sonora do filme “São Bernardo”, dois anos antes, encomendada pelo cineasta Leon Hirszman a ele quando ainda no exílio.

A outra maravilha que completa a primeira parte de “Cantar” é “Canção que morre no ar”, clássico da bossa-nova de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli, somente com a voz e um apaixonante e ornado arranjo de cordas de Perinho e regência de Mário Tavares. Aqui, Gal encarna Billi Holliday acompanhada da orquestra de Ray Ellis em "Lady in Satin"; Ella Fitzgerald conduzida pela batuta de Nelson Riddle em “Sings the George and Ira Gershwin Songbook”; ou Dalva de Oliveira com o conjunto sinfônico de Roberto Inglez. Gal está jazzística e lírica em seu timbre de soprano. A letra faz uma fusão entre as atmosferas lunar e flórea do disco como um todo: “O mundo é sempre amor/ O pranto que desliza/ No seio de uma flor/ É a luz lá do céu”.

Também síntese do álbum é “O Céu e o Som”, do cantor, compositor e poeta Péricles Cavalcanti. Ritmada e gostosa, contrapõe cantos entre ela e um coro masculino (que desconfio seriamente serem Os Golden Boys, embora não haja crédito disso). “Cantar, cantar/ Há uma asa na alma no ar/ Me ensina a cantar, amor”. E, lá pelas tantas, perguntam retoricamente: “Quem foi que disse que a mulher não voa?” Voa, sim.

Tanto voa que, antes de terminar o disco, Gal faz o ouvinte levitar no sensualíssimo jazz “Lágrimas Negras”, composição de Jorge Mautner e Nelson Jacobina. Das melhores do álbum, sua cadência suave remete (e serve muito bem para isso, diga-se de passagem) ao momento de uma transa embalada ao ritmo da guitarra-ponto dedilhada por Perinho. E quando Gal, diz, num compasso hiper sexy: “E você, baby, vai, vem, vai...”, é de arrepiar até o tal “astronauta da saudade” mencionado na letra!

“Cantar” gerou um show que não foi bem recebido pelo público por ser taxado de “muito suave”, contrastando com a imagem forte que a cantora criara a partir do movimento tropicalista. À época, bom que se lembre, artistas de sucesso como ela eram exigidos pela opinião pública burra de permanente e abertamente lutarem contra a Ditadura na concepção de suas obras. Queriam canções de protesto, não arte. Uma bobagem tamanha, uma vez que a premissa do artista é exatamente a liberdade tão desejada por estes que os retalhavam. Afora isso, visto noutro enfoque, há formas distintas de se lutar e se engajar sem necessariamente bater de frente com a força bruta – e sair perdendo, como geralmente acontece. Foi o que Gil e Caetano, enquanto tropicalistas como ela, fizeram a seu modo. E venceram. Hoje, completando 40 anos de seu lançamento, “Cantar” é um trabalho de uma riqueza descomunal que tem ainda muito a se revelar e cuja participação destes protagonistas foi fundamental. Uma flor que não morreu e ainda colore o jardim de quem entende que “o caminho do céu” está “no caminho do som”. Gal nos ensina a cantar e voar.

"Barato Total" - Gal Costa



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FAIXAS:

1. Barato Total (Gilberto Gil) - 3:48
2. A Rã (Caetano Veloso, João Donato) - 3:52
3. Lua, Lua, Lua, Lua (Veloso) - 3:02
4. Canção que Morre no Ar (Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli) - 1:50
5. Flor de Maracujá (Veloso/Lysias Ênio) - 2:56
6. Flor do Cerrado (Veloso – música incidental: “Garota de Ipanema”, Tom/Vinicius) - 3:13
7. Joia (Veloso) - 3:24
8. Até Quem Sabe (Ênio/Donato) - 3:39
9. O Céu e o Som (Péricles Cavalcanti) - 3:00
10. Lágrimas Negras (Jorge Mautner/Nelson Jacobina) - 3:31
11. Chululu (Mariah Costa) - 0:56
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Ouça:








quarta-feira, 1 de outubro de 2014

cotidianas #326 - Carmo



Nossa Senhora do Carmo no altar
Na sua acepção, o termo “milagre” quer dizer “fato sobrenatural oposto às leis da Natureza”. Ouro Preto, fruto de um “caos geológico”, é, de certa forma, provocado por um destes. Cidade secular encravada no meio de morros líticos, suporta, muito por isso, creio, tamanha energia em sua composição geológica, vegetal e espiritual que esta chega a emanar-lhe, favorecendo as manifestações excelsas dos Céus. Céus, estes, aliás, que parecem apenas ter descido alguns degraus do firmamento em direção àqueles cerca de 1200 metros de altitude para se acomodarem no solo dessa cidade de ruas íngremes e relevo complexo, haja vista toda a forte cultura devota, as numerosas e ricas igrejas, a grandiosidade de sua arte sacra, a arquitetura comovente, a fé material e imaterial do povo, as referências nascedouras e permanentes do catolicismo. E se isso não convence os mais céticos da aura divinal daquela terra, é porque tal não presenciou a bruma espessa que repousa magnânima e cinematográfica à noite, pondo, aí sim e de vez, o céu no chão. Há de se ter olhos metafísicos quando mal se vê o próprio pé para percorrer-lhe os dificultosos calçamentos, montados pedra a pedra por negrinhos filhos de escravos com senhores. Só assim para poder enxergar.
Dentre os maravilhosos e exuberantes templos a Deus e santidades com que se deparam os viventes visitantes que vão até lá, está a Igreja do Carmo. Impossível, aliás, não deparar-se com ela. A Carmo se impõe à visão de quem quer que seja, privilegiada e inteligentemente edificada justamente onde pode obter tal realce. Nossa Senhora, nas suas inúmeras formas, merece este posto, acreditaram os antigos da Vila Rica colonial. Neste caso, a do Carmo. Portugueses, africanos, índios, mulatos, cafuzos, etc. (brasileiros) ergueram a construção em louvor à santa, fosse por vontade, crença, esbanjamento ou obediência. Mas, de fato, a ergueram; e linda, deslumbrante. Privilegiada à vista.
Trata-se de um dos últimos projetos do arquiteto Manuel Francisco Lisboa, pai de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, datada de 1766 a 1772. Foi construída em estilo rococó, menos carregada de ouro e a única do estado mineiro com painéis de azulejos portugueses na capela-mor. Há nela obras do próprio Aleijadinho, negrinho filho de escrava com senhor, um “gênio da raça”, como disse Mário de Andrade. Há também afrescos de Mestre Athaíde, outra referência da arte da época. O escritor francês Dominique Fernandez, em seu livro “O Ouro dos Trópicos – Passeios pelo Portugal e o Brasil Barrocos”, suspeita seriamente como eu de que todo este conjunto de belezas da Minas colonial, algumas até sobre-humanas como a vastidão quanti e significativa da obra de um escultor portador de uma doença degenerativa e deformante, favorecem sim uma leitura de compreensões incorpóreas. “Tudo é insólito na aventura dos arquitetos e dos decoradores de Minas”, sentenciou. Quanto a Aleijadinho, Fernandez escreve que, mesmo com as incertezas quanto à sua obra (especula-se que tenha criado mais de 400 durante toda a vida) e a autoria das mesmas, “o brilho de sua obra seria suficiente para colocá-lo entre os maiores criadores de cenários de todos os tempos, entre Michelangelo, Mathias Braun, Puget, Serpotta, os irmãos Asam”. Concordo.
Mas o que se sucedeu conosco no primeiro dos três dias em Ouro Preto não foi exatamente um “milagre”. Nem tão a céu e mais à terra. Porém, também não dá pra dizer que se trata de um ocorrido comum, rotineiro, qualquer. Não, longe disso. Não diminuo o inusitado do feito. Acho, sim, que talvez tenha presenciado um... um... portento, um prodígio diferente desta realidade vulgar daqui do chão.
A começar pela direção a qual tomamos. Leocádia e eu, exaustos e felizes das horas de caminhada atenta de quem quer comer com os olhos todos os centímetros de uma novidade tão bela quanto estranhamente familiar, já restávamos com as pernas cansadas, o estômago solicitando reposição e a cabeça zonza de fascínio. Porém – e aí provavelmente começa a operar aquilo que me foge à explicação lógica e pouco virtuosa –, ao invés de dirigirmo-nos a nossos aposentos, invertemos a rumo. Não para a direita, mas para a esquerda. E isso sem nenhum comentário, sem nenhum questionamento, sem nenhum alarde. Apenas fomos, como que guiados.
Ao que se chega ao topo da Praça Tiradentes, atrás do Museu da Inconfidência, há a escadaria traseira da Igreja do Carmo. E foi com ela que nós nos demos, de portões escancarados. Evidentemente que não é nada estranho a uma cidade católica e turística os portões de uma de suas mais visitadas igrejas estar aberto, não fosse o fato de já serem, aproximadamente, 6 horas da tarde e, a este adiantado do horário, TODAS as igrejas de lá já terem fechado. Mas, estranhamente, encontrava-se descerrada, convidativa. Embora a Carmo constasse, certamente, em nosso roteiro, não a tínhamos visitado ainda; seria agenda para o dia seguinte. Então, se a chance nos surgia, o certo era seguimos. Fomos naquele passo autômato de quem o cansaço já toma conta a ponto de bloquear qualquer raciocínio racional de autopreservação – inclusive o de desperdício da própria energia corporal, visto que poderíamos bater com a cara na porta e voltar sem sucesso e ainda mais desgastados desnecessariamente. Todavia, como nada nos impedia, avançamos, porém, com a máquina fotográfica guardada na mochila; afinal, é expressamente proibido fotografar o interior das igrejas, preservadas pelo patrimônio histórico.
Ao chegar próximo do prédio duas coisas nos chamaram atenção. Primeiro, que havia uma movimentação de pessoas vestidas de preto, visivelmente trajadas assim a trabalho, entrando pela porta lateral da igreja metros adiante de nós. Suspeitamos que fossem da organização do festival que acontecia na cidade, que também trajavam roupa escura e com quem já tínhamos nos topado em vários lances durante o dia. A segunda observação foi a de que, além de perceber que a porta lateral tinha acesso à igreja naquela hora avançada – mesmo que fosse permitido somente a algumas pessoas como as que avistamos –, igualmente, havia uma peça acesa lá dentro. E tinha gente. Movimentava-se e executava ali algo. Como a janela tinha altura suficiente para uma pessoa comunicar-se com de fora para dentro, Leocádia não se fez de rogada e, aproximando a cabeça do parapeito, perguntou àquela pessoa:
- Com licença, o sr. sabe nos dizer se a igreja está aberta?
A resposta veio rápida e descomplicada:
- Já está fechada, mas vai ter uma formatura aqui mais tarde e se vocês quiserem entrar, podem entrar ali pela porta do lado. Está aberta, disse o senhor preto de estatura mediana, compleição consistente e expressão firme adiantando-se à nossa intenção e incluindo-me no questionamento feito por Leocádia por já ter-me percebido na cena.
Entramos. Lá dentro, uma equipe de fotógrafos e cinegrafistas que iriam cobrir a tal formatura. Não fosse a presença deles, naquelas vestimentas negras tão profissionais quanto simbolicamente fantasmagóricas, não teríamos nenhuma condição de estar ali àquela hora. Desnecessário relatar o deslumbre que se tem ao adentrar qualquer dessas igrejas de Ouro Preto, quanto mais, assim, à noite. Por ora, seguimos com o relato, pois o que vem a seguir tem mais a ver com o referido “prodígio”.
Admiramos os ornamentos elegantes; os desenhos arredondados do rococó; a leveza das formas; as linhas da arquitetura; a cintilação do ouro (menos exuberante que noutras igrejas, como a Nossa Senhora do Pilar ou da Nossa Senhora da Conceição, mas presente). Satisfeitos com a rara oportunidade, fomos em busca do nosso permissor para agradecer e podermos sair. Percorremos, então, o corredor lateral que dava acesso à sacristia. Outra maravilha ali se descobria. Na porta ainda, enxergamos o tal negro, vestido de calça social preta e camisa branca de mangas curtas, a qual contrastava com a calça e com sua tez. Ajeitava, com zelo e destreza, a alva do padre. Diante daquela cena angelical, ouvimos ele nos dizer:
- Podem entrar. Aqui é a sacristia. Aquela obra ali, disse, apontando o dado para um lavabo em pedra-sabão com a imagem de anjos em relevo, é do Aleijadinho. Podem entrar, repetiu.
Surpresos não só com a reação dele quanto de, principalmente, estarmos vivendo aquele momento atípico, concordamos e entramos. Continuando sua lida, ele nos disse com naturalidade:
- Eu sou o sacristão daqui. Podem ver. Esta outra [obra] aqui também é do Aleijadinho, agora direcionando o dedo para a parede exatamente oposta à do lavabo, onde se via um altar em madeira de aproximadamente 50 centímetros sobre a mesa. Formoso.
É comum em Ouro Preto a presença de guias, autônomos que conhecem a seu jeito a história da cidade e que ficam às portas das igrejas esperando serem contratados pelos turistas para uma visita guiada paga. Mas não estávamos com um guia, e sim com o próprio ajudante oficial da Igreja Nossa Senhora do Carmo! O lavabo era lindo e impressionante, principalmente pela dificuldade que se sabe de se esculpir naquele tipo de pedra e por conhecermos mais as obras em madeira de Aleijadinho. Nela, saíam duas torneiras, que servem para os padres purificarem as mãos antes das cerimônias religiosas. O altar trazia um Cristo nas características puras do mestre: rosto expressivo e sofrido, olhos amendoados, feições corporais perfeitas, coloração da pele bronzeada e uma de suas assinaturas: a barba fina saindo da parte debaixo das orelhas e das narinas.
O sacristão, com sua cabeça raspada e lustrosa, percebendo nossa admiração, parecia se satisfazer com isso. Tanto que, ao observar nosso olhar voltado apenas às duas obras que nos mostrou, chamou-nos atenção para o teto da sacristia:
. E este teto é do Mestre Athaíde. Podem ver, podem ver, falou naquela pronúncia acelerada e miudinha do mineiro.
A essas alturas, já nos beliscávamos. Mas como o surrealismo tomava conta do episódio, porque não colaborar com seu desdobramento? Com todo o respeito que me foi possível, indaguei:
- O sr. pode nos dizer um “não”, mas não custa lhe perguntar: nós podemos fotografar?
Leocádia sobressaltou-se com minha ousada investida. Não que também não quisesse tirar fotos, mas é que, visitando a cidade pela segunda vez, sabia muito melhor que eu da proibição expressa para tanto. Quiçá fosse atrevido o pedido; contudo, havia, mesmo que para um evento pago, vários fotógrafos dentro da igreja e que, muito mais do que nós, disparariam flashes contra as valiosas obras do interno e registrariam tudo aquilo que é proibido a turistas como nós. Com a máquina ainda guardada na mochila, nem deu tempo de eu receber uma negativa de Leocádia, pois o sacristão, dono de si, respondeu:
- Pode tirar foto, sim. Eu sou o sacristão, afirmou com convicção e batendo no peito.
Com os olhos arregalados, de tão surpresa que ficou Leocádia negou o pedido mesmo este já tendo sido autorizado. Titubeei também. Notando a insegurança, imediatamente ele interveio:
- Fotografa sim!, retrucou com autoridade e veemência, fazendo um gesto para que se tirasse a câmera para fora. Sou eu que mando aqui! Pode fotografar.
Fosse por gênio, birra com o padre ou por pura bondade, o fato é que a maior autoridade daquela igreja depois do sacerdote era quem nos concedia a honra. Incrédulos, então, só obedecemos. O resultado são essas lindas e improváveis fotos que podem ver a seguir.
Conta a história que, os carmelitas, eremitas devotos da Bem Aventurada Virgem do Carmo que se formaram no século XII nos arredores do monte Carmelo, na Palestina, foram obrigados a migrar para a Europa quando da perseguição a eles por parte dos muçulmanos. São Simão, um dos mais piedosos carmelitas da Inglaterra, vendo-os minguar e sofrer em decorrência da intolerância religiosa pediu socorro a Nossa Senhora do Carmo. Então, Maria Santíssima, rodeada de anjos, apareceu a ele e lhe entregou um escapulário, o qual virou símbolo da Ordem e que nunca mais lhe saiu do pescoço.
(Tínhamos no pescoço não um escapulário, mas a alça da câmera fotográfica.)
Quando se mostrou em milagre a São Simão, Nossa Senhora do Carmo ditou-lhe a seguinte oração, usada pelos seguidores até hoje: “Flor do Carmelo, vide florida. Esplendor do Céu. Virgem Mãe incomparável. Doce Mãe, mas sempre virgem. Sede propícia aos carmelitas. Ó Estrela das águas”.

A água, símbolo da vida em todas as civilizações, esteve-nos presente todo o tempo, fosse na névoa baixa que chegava a nos molhar à noite, fosse na chuva que se avizinhava a todo instante naqueles dias que paramos em Ouro Preto. Na sacristia da Igreja do Carmo, portávamos apenas a nós mesmos e a câmera de fotografia, a mesma técnica que, quando de sua descoberta, no século XIX, julgavam ser fruto de magia alguns ignorantes das possibilidades físicas. Quase saindo, o sacristão, de repente e sem explicação lógica nenhuma, abriu a torneira da fonte do lavabo, deixando a água correr numa simplicidade tamanha que chegamos a duvidar ser verdade. Perspicazes o suficiente para compreender que aquilo se tratava de uma bênção indireta, Leocádia e eu apenas nos entreolhamos com cumplicidade e, regozijados, não dissemos nada. Como aparições, as fotos talvez saibam traduzir melhor.
Altar com o Cristo em madeira do Aleijadinho

A beleza da parte interna da portada,
também creditada a Aleijadinho



A nave da igreja iluminada à noite

As curvas elegantes do mezanino

Detalhe do teto de puro rococó

O ouro da Vila Rica ornando a Igreja do Carmo

O teto da sacristia com a comovente pintura de Mestre Athaíde

Vista da janela da sacristia por onde,
de fora, falamos com o sacristão

Anda boquiabertos, nós na Igreja do Carmo, à noite   *

Eu e o lavabo em pedra-sabão de Aleijadinho,
enaquantoa fonte corre




por 
fotos:
* exceto a indicada

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Titãs - "Õ Blésq Blom" (1989)



“Do radinho de pilha às produções do Liminha
(e este novo disco e um escândalo de textura e limpidez sonora)
os Titãs vem marcando a vida brasileira
com suas canções brutas e límpidas
seus temas básicos apresentados em forma de anti-panfletos
canções crescentemente gráficas, cujos títulos
(“Comida”, “Televisão”, “Flores”, “Igreja”, “Miséria”, etc.)
parecem a um tempo bastar, faltar e sobrar;
canções-cartaz, canções-pichação, palavras-de-desordem
(em ordem) que os aproximam da poesia concreta
no momento “salto participante”, palavrões limite.
Bichos escrotos.
Cabeça dinossauro.
Alta sofisticação intelectual e tecnologia aliada a brutalidade.
Titãs andando com desenvoltura em ambiente de eletrônica miséria.
Õ Blésq Blom."
Caetano Veloso


Depois de "Cabeça Dinossauro", um álbum que revolucionara a música brasileira, foi gerada uma grande expectativa a respeito de seu sucessor, um misto de incredulidade e esperança de que o trabalho seguinte conseguisse no mínimo, chegar perto da qualidade daquele. E não só conseguiu se se aproximar o como superou. Embora a aura e a mitologia mantenham “Cabeça dinossauro” como uma lenda da discografia brasileira, tecnicamente falando, "Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas" era superior a seu antecessor. Era um passo adiante no que dizia respeito à linguagem, à experimentação, ao minimalismo, à força, ao conceito e à produção. Mas e então o seguinte? Está certo que nesse meio tempo entre um álbum e outro, foi lançado o excelente “Go Back”, um registro ao vivo em Montreux, que apoiado em grande parte no repertório dos dois álbuns citados, mantinha o nível de qualidade do momento que a banda vivia.
Mas de estúdio? Material novo? O que fariam desta vez? Os Titãs poderiam fazer alguma coisa melhor que “Cabeça Dinossauro” e “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas”?
Por incrível que possa parecer a resposta era SIM!
Embora "Cabeça Dinossauro" permanecesse incólume em seu Olimpo como o grande álbum brasileiro de todos os tempos, pelo seu rompimento, inovação, linguagem, “Õ Blésq Blom”, de 1989, era ainda mais trabalhado tecnicamente, os conceitos haviam sido aprimorados, a agressividade filtrada, o experimentalismo amadurecido, elementos de música brasileira eram agregados e o resultado disso tudo era um disco simplesmente brilhante.
Desde a concepção da capa, com uma colagem meio punk/pop art que já sugere a ideia musical de superposição de elementos com a utilização de fontes diferentes e disposição livre para compor o nome do álbum, que por sua vez já é uma pequena composição concretista, o disco já se mostra especial. A impressão de que ali há algo diferente se confirma assim que o álbum inicia com a vinheta de abertura, uma gravação de dois artistas de rua da Praia da Boa Viagem, Mauro e Quitéria, numa espécie de rock'n roll-repente multi-idiomático que serve de introdução para a espetacular “Miséria”, que aí sim, abre o disco, efetivamente. Um petardo eletrônico, quebrado, com influências que incorporam funk, punk, reggae, rap contando com incontáveis e variados recursos de estúdio. Dançante, vibrante, surpreendente pela ousadia e pela sonoridade, “Miséria”, como primeira faixa era estrategicamente responsável por apresentar a nova proposta dos Titãs e mostrar a que vinha “Õ Blésq Blom”.
A inteligentemente provocativa “Racio Símio” seria um daqueles tradicionais rocks agressivos e pesados dos Titãs se não fosse a produção caprichada, cuidando de cada detalhe e instrumento. A descontraída “O Camelo e o Dromedário” confirmava que a banda continuava nos caminhos já trilhados em reggaes como “Marvin” e “Família” só que com um tratamento mais experimental de coisas como “O Quê?”, e ao mesmo tempo mais técnico de músicas como “Comida” e “Diversão”.
“Palavras” de ritmo acelerado, letra interessante e bom trabalho de guitarra é apenas boa; mas “Medo” que a segue é excepcional. Punk rock típico Titãs com uma estridente guitarra minimalista de Tony Belloto e vocal furioso de Arnaldo Antunes para sua própria letra que versa sobre o processo de criar e de sentir a arte.
Com “Flores”, grande sucesso em rádios e TV's, de vídeo premiado na MTV americana, talvez os Titãs tenham conseguido o grande ponto de equilíbrio entre sua proposta roqueira e seu alcance popular com uma canção pop impecável que agradava tanto aos fãs quanto ao grande público sem abrir mão da linguagem formal, verbal e sonora características.
Talvez o grande momento técnico e criativo do álbum seja “O Pulso”, composição inspiradíssima sob todos os aspectos: a produção do nono Titã, Liminha, que entendeu a proposta e ajudou a materializar um elemento musical praticamente orgânico, a instrumentação precisa numa música de estrutura pouco convencional, e a letra mutante e instigante de Arnaldo Antunes. Com uma programação eletrônica que se repete constante do início ao fim da música, remetendo aos batimentos cardíacos, “O Pulso” cria uma admirável ligação som-conteúdo por conta de sua letra, uma listagem de doenças do corpo e da mente, intercaladas com outros elementos, como rancor, ciúme e culpa, que por analogia acabam por ser tratadas pelo autor como males tão sérios. Os Titãs que já perguntaram de que tínhamos fome, agora perguntavam do que estávamos adoecendo e, na entrelinha, se valia a pena.
“32 Dentes” talvez seja a mais brasileira das músicas do grupo, com uma levada muito à sertanejo num punk-rock agressivo que em poucas frases manifesta toda a descrença e decepção com a humanidade; a interessante “Faculdade” lembra um pouco o formato de “Miséria” porém não com a mesma qualidade; e “Deus e o Diabo”, outra das experimentações eletrônicas, um funk meio hip-hop, com uma letra toda dicotômica que fala, de certa forma, sobre os conflitos internos que há em cada um de nós, termina emendando em outra palhinha de Mauro e Quitéria com seu rock-repente numa vinheta final que arremata o álbum como uma síntese de tudo o que se apresentou até ali: intuitividade, espontaneidade, poesia, improvisação, brasilidade, rock'n roll.
Agora sim, se alguém duvidava que depois de “Õ Blésq Blom” os Titãs não fariam nada melhor, acertou. Tentando provar coisas para si, para os outros, errando em escolhas, perdendo integrantes, fazendo excessivas concessões, cedendo às exigências da mídia, tentando agradar, envelhecendo em espírito, os Titãs se perderam. A obra ficou pobre, insossa, incoerente e enfim, irrelevante.
Mas os Titãs podem se orgulhar de, num período de aproximadamente 4 anos além de terem produzido uma das maiores trilogias da discografia nacional, “Cabeça Dinossauro”, “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas” e “Õ Blésq Blom”, de terem sido uma das bandas mais interessantes do mundo naquele momento.
Parafraseando o último verso de Mauro e Quitéria na vinheta de encerramento: Os reis do rock.
Bye, bye!
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FAIXAS:

01. Introdução por Mauro e Quitéria
02. Miséria
03. Racio Símio
04. O Camelo e o Dromedário
05. Palavras
06. Medo
08. Flores
09. O Pulso
10. 32 Dentes
11. Faculdade
12. Deus e o Diabo
13. Vinheta Final por Mauro e Quitéria
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Ouça:


Cly Reis

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O Frango Atirador

cotidianas #325 - Não Há Vagas





O preço do feijão
não cabe no poema.
O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

- porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira

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"Não Há Vagas"
Ferreira Gullar

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Talking Heads - "Remain in Light" (1980)




"Muitas vezes achava que Brian (Eno)
não se incomoda com o que a banda queria.
Na verdade, ele realmente não se incomodava.
Nós éramos apenas
 instrumentos para suas idéias.” 
Tina Weymouth,
baixista

Como conheci os Talking Heads já na metade dos anos 80, ali pelas alturas dos discos “Little Creatures” e "True Stories", ambos com características mais convencionais do pop oitentista, estranhei um pouco quando ouvi “Remain in Light”. Apesar de já conhecer e gostar de “Once in a Lifetime”, sua estrutura toda picotada e descontínua, se mostrava ainda mais significativa no restante do álbum, o que somada à inserção de elementos rítmicos africanos, devo admitir, me causaram uma certa estranheza. Demorou um pouco mas a qualidade venceu e acabei conquistado por “Remain in Light”.
A abertura do disco com a perturbadora “Born Under Punches (The Heat Goes On)” é uma perfeita mostra perfeita dessa fragmentação estrutural proposta pelo produtor Brian Eno, com sua construção quebrada, vocal quase monossilábico, mistura de ritmos e profusão de percussões.
Além da já mencionada “Once in a Lifetime”, gosto particularmente do funk monocórdio “Seen and Not Seen” com seu ritmo constante, minimalista e batida repetitiva, e do reggae arrastado “Listening Wind” de atmosfera densa e sombria. Mas não há como deixar de mencionar também os méritos da frenética e bem percussionada “The Great Curve”, da acelerada “Crosseyed and Painless”, sofisticada e complexa, e da soturna, quase dark faixa que encerra o disco, “The Overload”, que lembra inevitavelmente o lado B de "Low" de David Bowie, onde o dedo de Eno também é fundamental assim como em “Remain in Light”. Aliás, Brian Eno é tão influente e decisivo na música dos Talking Heads, mas em especial na concepção de “Remain in Light” que é creditado não apenas como produtor, mas também como co-autor das faixas do álbum.
Tamanha ascendência, por sinal, desagradava sobremaneira os demais integrantes da banda que consideravam que estavam apenas tocando para Brian Eno e não fazendo um álbum dos Talking Heads. Nem tanto ao mar nem tanto à terra. Não acho que chegasse a ponto de serem uma mera banda de apoio, mas não há duvida de que Eno é um dos produtores que mais consegue moldar o artista à feição de suas ideias deixando-as muito evidentes sonoramente no resultado final, sendo assim, quem o convoca para o estúdio sabe que poderá ter grande interferência de sua parte.
Discussões à parte, fato é que “Remain in Light” é um dos melhores álbuns da banda e frequentemente considerado um dos grandes álbuns da história do rock, responsável em grande parte pelo interesse futuro de David Byrne pelo que se convencionou chamar de world-music e pela integração de elementos étcnicos com a linguagem pop-rock. Um mergulho numa experimentação sonora ousada e singular, que resultou num dos trabalhos mais criativos e geniais de todos os tempos.
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FAIXAS:
  1. "Born Under Punches (The Heat Goes On)" (Byrne, Eno) – 5:46
  2. "Crosseyed and Painless" (Byrne, Eno) – 4:45
  3. "The Great Curve" – 6:26
  4. "Once in a Lifetime" – 4:19
  5. "Houses in Motion" – 4:30
  6. "Seen and Not Seen" – 3:20
  7. "Listening Wind" – 4:42
  8. "The Overload" – 6:00
todas as faixas, Talking Heads e Brian Eno, exceto as indicadas
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Ouça:

Cly Reis

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

The Rolling Stones - "Beggars Banquet" (1968)


No alto, a capa original, vetada pela
própria gravadora, seguida, abaixo,
pela capa alternativa, sugerindo um
convite para uma festa

"As canções podem se metamorfosear
e "Sympathy for the Devil" é uma daquelas canções que
surgiu como uma coisa, começamos a mudança do ritmo
e depois tornou-se completamente diferente.
Começou como uma canção pop e,
em seguida, tornou-se um samba.
Uma boa canção pode se tornar qualquer coisa.
Ele tem um monte de referências históricas e muita poesia. "
Mick Jagger




A mesa está posta e um grande banquete sonoro será servido (bom, considerando a quem o jantar está sendo oferecido, pode ser servido no chão, mesmo).
"Beggars Banquet" dos Rolling Stones, de 1968, é verdadeiramente uma refeição dos deuses, mas ao contrário do que propõe o título, tal é a qualidade da comida que não é justo que seja oferecida a indigentes maltrapilhos, e sim à mais alta nobreza. Mas, pensando bem, por que um pedinte de rua não mereceriam algo desse tipo? Ainda mais estiver esmolando por boa música. Ah, aí sim! Em "Beggars Banquet" a doação é generosa.
Mas, sentem-se, arranjem um lugarzinho em torno da mesa improvisada no chão. Aperte um pouquinho que tem lugar pra todo mundo. A mesa pode ser modesta mas o cardápio é variado e farto.
Tem blues, tem country, tem folk, tem balada, tem soul, rock'n roll, é claro e... samba (?). Bom, não exatamente um samba, se tanto uma rumba ou algo do tipo, mas consta que a clássica e fantástica "Sympathy for the Devil" teria sido inspirada pelos ritmos brasileiros numa das passagens turísticas que Mick Jagger teve por essas bandas no final dos anos 60. Fato é que a combinação de ritmos latinos, sugerindo algo tipo magia-negra, associada à letra repleta de referências demoníacas, só contribuiu para aumentar a má imagem em torno do rock'n roll e especialmente em cima dos Stones, que seria selada definitivamente com o assassinato de um fã pelos seguranças da banda no show de Altamont, um ano depois.
Mas desculpem não termos servido um aperitivo antes de trazer o prato principal, pois, sim, "Sympathy for the Devil" é o ponto alto do banquete. Mas de entrada podemos servir-lhes uma baladinha folk leve, ao violão, "No Expectations", pra começar. Aceitam?
E seguem-se os pratos, cada um mais saboroso auditivamente que o outro: a deliciosa "Jigsaw Puzzle", com sua slide guitar e belíssimo trabalho de piano; o excepcional blues de harmônica envolvente, "Parachute Woman"; e o rockaço politizado "Street Fighting Man" com sua batida oca e pesada, baixo marcante e magistral levada de violão de Keith Richards.
Temos os country-rocks "Dear Doctor", "Prodigal Son" e "Factory Girl", se preferirem pratos mais interioranos; a soul-music "Salt on Earth" caso optem por uma especialidade mais popular, oriunda dos guetos negros de New Orleans; ou ainda a elétrica e pegada "Stray Cat Blues", um prato que pode cair pesado, pois é quase um protótipo de punk tal a energia sonora e fúria dos vocais de Mick Jagger.
Ah, saciado. Satisfeito.
Com "Beggars Banquet" os Rolling Stones voltavam às raízes e acertavam em cheio com um discaço daqueles como poucas vezes se tem a felicidade de fazer. Um ábum de encher os ouvidos e empanturrar a alma. Um verdadeiro jantar de nababos.
Está na mesa
Estejam servidos.
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FAIXAS:

1. Sympathy For The Devil - 6:14 
2. No Expectations - 3:52 
3. Dear Doctor - 3:19 
4. Parachute Woman - 2:17 
5. Jigsaw Puzzle - 6:07 
6. Street Fighting Man - 3:10 
7. Prodigal Son - 2:47 
8. Stray Cat Blues - 4:32 
9. Factory Girl - 2:06 
10. Salt Of The Earth - 4:43


Ouça;
The Rolling Stones Beggars Banquet



por Cly Reis

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Pix

cotidianas #323 - A Devoradora de Corações



- E a propósito, souberam do Rodrigo? - Cris lançou ao ar a pergunta, na mesa para as duas amigas que, assim como ela, saboreavam seus sucos naturais depois da academia.
- O que que foi? Conta o babado! - interessou-se uma delas, Amanda, quase saltando da cadeira.
- Parece que tá numa clínica para recuperação de drogas, álcool, alguma coisa do tipo – informou então.
- Culpa da Rafa, ali – comentou Amanda, incluindo então a terceira amiga que até então parecia desinteressada do ocorrido com o tal rapaz.
- Ih, eu não tenho nada a ver com isso – disse a acusada se defendendo - Me inclua fora dessa – brincou completando.
- Ah, “não tem nada a ver com isso”! Imagina!!! O coitadinho ficou assim depois que você deu um pé na bunda dele – sentenciou Cris - Ai, chegava a dar dó. Nunca mais foi o mesmo depois que vocês acabaram. Era um gato, todo saradinho. Menina,... nos últimos tempos tava irreconhecível. Um fiapo de gente.
- E agora isso... - completou Amanda.
- Mas isso não é nada perto do que aconteceu com o Thiago – lembrou a Cris.
- Ah, vai querer me culpar por aquilo também – se defendeu Rafa.
- Culpar culpar, não, mas que ele se matou pouco depois de você ter despachado ele...
- Ai, cruzes, nem gosto de lembrar – arrepiou-se Amanda.
Depois de um breve silêncio quase que me respeito pelo falecido, Cris, disposta a voltar a incendiar o assunto prosseguiu:
- Mas quem parece que não sentiu nada foi o Alex...
De súbito, Rafaela, até então fingindo uma certa indiferença pelos destinos dos ex-namorados e de certa forma com o ego inflado pela responsabilidade que as amigas lhe imputavam, saltou interessada.
- Que que tem o Alex?
Satisfeita com a curiosidade que causara, Cris fez questão de explicar:
- Vi ele com uma morena ontem. Bonita – fez uma pausa entre um gole e complementou – Corpão.
- Onde? - perguntou Rafa tentando passar um certo ar de interesse casual.
- No Veleiros, ontem de noite. E pareciam bem à vontade juntos – apimentou ainda mais a amiga.
Àquelas alturas o disfarçado descaso de Rafaela havia desaparecido e agora perguntava com verdadeira curiosidade;
- Mas... E estavam juntos, tipo, abraçados, beijando, ficou com ela?
- Ih, nem parece que foi você que acabou com ele. Tá toda interessada – entrou no assunto Amanda.
- Não é interesse, é curiosidade – deu um gole brusco no suco engolido com dificuldade e completou – Só.
- Bom, primeiro tavam bem pertinho, mas depois a coisa esquentou. Um agarramento! Até saíram cedo do bar. Com aquele fogo todo, imagino para onde foram.
E caíram na risada, à exceção de Rafaela, que, se muito, tentava esboçar um sorriso amarelo de canto de boca.
De repente, como que lembrando de algum compromisso, Rafa levantou da cadeira recolheu suas coisas e declarou:
- Gente, tenho que ir. Eu tenho que... Tenho... umas coisas pra resolver.
Saiu apressada e de um canto atrás do academia fez uma ligação.
Enquanto o telefone chamava, ajeitou o brilhante cabelo louro e ensaiou um sorriso como se a pessoa do outro lado pudesse vê-la naquele instante.
- Alô?
- Alô, Alex?
- Eu.
- Tudo bom?
- Tudo.
- Hum, um “tudo”, assim com tanta convicção. Acho que nem fez diferença pra você a gente ter acabado se tá TUDO tão bem.
- Rafa, a gente tem que seguir em frente. Gostar eu não gostei, mas tem que tocar a vida.
- Aham, sei... - Rafa fez uma pausa e prosseguiu – Mas, o que tem feito da vida?
- Nada demais – respondeu o rapaz.
- Tem saído? - perguntou a moça mesmo já sabendo a resposta.
- É, dou umas saidinhas de vez em quando. Arejar a cabeça.
- Sei...
Um breve silêncio na linha.
- Um passarinho azul me contou que te viu com uma pessoa.
- Estou sempre com pessoas.
- Uma mulher.
- Conheço muitas mulheres, minha chefe, minha irmã...
- Uma morena, num bar...
- Ah, sim, é verdade. A Luana. Quem foi o “passarinho”? Eu tava sim, com uma morena no Veleiros.
- Ah, e você confirma?
- Ué, claro! Por que não confirmaria? Não tenho nada a esconder.
- Mas assim tão rápido você já tá saindo com outra?
- E o que é que tem? A gente acabou. Aliás, você terminou.
- Ai, mas não deixou nem esfriar a cama - reclamou ela em tom choroso.
- Não é bem assim.
- E por falar em cama, pelo que eu sei vocês não ficaram no bar, né?
- É, não ficamos muito tempo, não... - mas interrompeu-se observando - Mas esse passarinho cantou muita coisa, hein.
- Pois éééé!
Parou um pouco esperando por alguma reação do ex, mas percebendo que não teria, prosseguiu com a reclamação:
 - Pôxa, nem bem terminamos e você já tá aí, assim, galinhando por aí. Você devia guardar, tipo, um luto ou algo assim. Parece que nem liga.
- Ligo. Mas até pra não ficar muito com a cabeça no que aconteceu com a gente, em tudo rolou, eu já parto pra outras.
- Pra outras?
- É modo de dizer.
- Tá bom – soltou, cansada e sentida – Que bom que tá “tudo bem”. Fico feliz por você.
- E com você, como estão às coisas? - indagou Alex, por sua vez.
- Ah, ótimo, também. Às mil maravilhas. Ainda mais sabendo que o meu namorado tá saindo com outras pra arejar a cabeça.
- Nós não somos mais namorados. Você mesmo não quis me dar uma nova chance – fez questão de lembrar o rapaz.
- Tá bom, tá bom. Tudo de bom pra ti e pra... Luana – pronunciou o nome num misto de asco com ódio e completou – Tchau, Alex.
- Tchau, Rafa. Beijo.
Desligou o celular enfurecida. Seguiu para o estacionamento, pegou o carro e saiu.
Tão imediatamente chegou em casa, dirigiu-se ao banheiro, abriu a farmacinha no armário e pegou algumas pílulas. Estava uma pilha de nervos. Tomou duas num primeiro momento. Meia-hora depois tomou mais duas. Dali a pouco mais algumas e seguiu assim nos dias que se seguiram.
As amigas estranharam sua ausência na faculdade, na academia, no clube, nas festas. Foi encontrada em casa dias depois entre pílulas, vômito, fezes e lixo. Não comia há dias e havia feito suas necessidades pelo chão. Um estado lastimável.
Não se recuperou mais depois daquele dia. Olhava apenas para o vazio e não dirigia uma palavra sequer a ninguém. Comia apenas o suficiente para continuar viva e mesmo assim só com a ajuda de alguém. Emagreceu. Tinha um aspecto quase cadavérico. Por fim, a família, não vendo reação, optou por colocá-la em uma clínica de repouso, onde por certo, dariam um tratamento mais adequado a ela.
O que teria acontecido, de uma hora para outra, com aquela garota linda, atraente, viva, cintilante, alegre, era um mistério para todos.