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sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Legião Urbana - "As Quatro Estaçoes" (1989)




"EXISTEM MARÉS
E EXISTE A LUA (...)
EXISTEM
CANÇÕES"
(do texto do encarte do disco)



O imenso sucesso do terceiro disco da Legião Urbana, “Que País É Este”, gerou uma enorme expectativa pelo lançamento do seu sucessor, até porque, embora extremamente exitoso em vendas e nas paradas, “Que País É este” era uma espécie de coletânea de material não lançado porém já conhecido por parte do público. Esperava-se então uma novidade, supostamente de material composto desde o grande "Dois" , de 1986. O que sabia-se há muito, desde praticamente o andamento da turnê do terceiro, era que o trabalho seguinte chamar-se-ia, “As Quatro Estações”. Conhecido o nome, que de certa forma continuava a seqüência numérica interrompida pelo último disco, (“Legião Urbana” de 1985, conhecido como “Um” por não ter nome e “Dois” de 1986) começavam as especulações sobre como viria a Legião para este novo trabalho. Se seguiria a linha do "Dois" que na verdade, em termos de ineditismo era o antecessor imediato; se a veia punk resgatada em “Que País É este” seria a tônica a partir daquele momento; se o modelo cancioneiro, quase acústico de "Faroeste Caboclo" prevaleceria. As possibilidades eram muitas. Renato Russo avisava que voltaria a utilizar material antigo do Aborto Elétrico e sinalizava com as gravações de “Dado Viciado” e “Marcianos Invadem a Terra”, duas conhecidas do público de Brasília mas não lançadas em disco e que acabaram só aparecendo mesmo muitos nos depois na coletânea póstuma “Uma Outra Estação”. Mas os planos mudaram, tudo mudou, fatos novos aconteceram, a banda mudou, a cabeça do vocalista mudou e o lançamento prometido para o início de 1988 foi sendo postergado por diversas vezes. Primeiro, inesperadamente para os fãs, Renato Rocha, o baixista competente de bases firmes e sangue punk foi afastado da banda em circunstâncias naquele momento pouco esclarecidas. Isso teria gerado a primeira mudança de rumo e afastamento da idéia inicial, já concebida e em fase de maturação para o novo álbum. Em segundo lugar, o estado emocional de Renato Russo, deprimido, confuso e se reavaliando, repensando novamente então o conceito que pretendia desenvolver no projeto. Depois ainda, resultado dessa autoavaliação com certeza, Renato Russo decidia, neste meio tempo, assumir sua homossexualidade, fator importante e decisivo para o resultado final do trabalho, mas que naquele momento fazia com que novamente alguma coisa fosse revista, excluída, incluída no trabalho. Assim, somente depois de 3 anos, era apresentado o tão esperado “As Quatro Estações” da Legião Urbana e a sensação quando se ouviu foi a de que valeu a pena esperar.
Com um Renato Russo mais equilibrado depois de tantas complicações, a Legião, agora um trio, nos brindava com um disco mais leve, mais otimista, mais espiritual, que como o próprio Renato afirma no encarte do álbum, não fora feito sem ajuda, valendo-se desde a Bíblia à filosofia oriental para compor uma das grandes obras da discografia nacional.
A lindíssima “Monte Castelo”, de sonoridade medieval, com letra praticamente tirada do soneto “O Amor é o fogo que arde sem se ver” de Camões, refrão adaptado da Epístola de São Paulo, com toques do “Tao Te King” do filosofo chinês Lao Tse, é bom exemplo de todos os pontos levantados: da ‘ajuda’ externa, da espiritualidade e do otimismo. “Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto” também serve de amostra dessa aura positiva, esperançosa e mística de Renato e da banda. Sobre uma contagiante levada de violão, Renato convoca-nos (como sempre) a reagir e fazer um mundo melhor. Detalhe: toda a parte do “tudo é dor e toda a dor vem do desejo de não sentirmos dor” é de uma doutrina budista creditada a Bukkyo Dendo Kyokai, mais um dos inusitados ‘parceiros’ de autoria no disco.
A propósito de parceiros, mas agora em outro sentido, Renato Russo aproveita o disco pra se libertar e gritar para o mundo o que realmente é, e o faz especialmente no gostosíssimo rock “Meninos e Meninas” e na grave “Maurício”; fazendo, por sua vez, menção também à AIDS, que mais tarde lhe vitimaria, na excelente “Feedback Song For a Dying Friend”, um hard rock agressivo, guitarrado, cantado em inglês, finalizado com um instrumental árabe extasiante.
“Pais e Filhos” um dos grandes sucessos do disco é um blues acústico que coloca diversas situações familiares desde um aguardado nascimento de uma criança até um suicídio por falta de atenção, nos lembrando de um princípio básico da vida, num dos refrões mais conhecidos da música nacional (“é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã porque e você parar pra pensar na verdade não há”).
Com uma condução lenta, pontuada por um bandolim e com teclados soando como sinos, “Eu Era um Lobisomem Juvenil” é uma das poucas que soa um pouco mais lamentosa pela desilusão amorosa que expõe, mas no fundo falando mesmo simplicidade de espírito, de alegrias comuns, de coisas corriqueiras que parecem desimportantes mas que são na verdade a verdadeira vida.
O disco é tão positivo que até uma romântica como “Sete Cidades”, rock básico conduzido por uma harmônica muito legal, não chega a ser uma canção de amor sofrida como em muitos casos, servindo mais como uma espécie de instrumento de autoconhecimento e resignação do que uma dor-de-cotovelo clássica.
A primeira faixa de trabalho do disco, a smithiana “Há Tempos”, impressionava pela objetividade e contundência das sentenças manifestando, nesta sim, um certo desapontamento e preocupação com a juventude em um daqueles hinos característicos de Renato dirigidos à sua ‘geração Coca-Cola’. “Há Tempos” também tem colaborações externas assumidas e o segundo verso (“muitos temores nascem do cansaço e da solidão”) é adaptado da “Desiderata”, obra do filósofo-poeta Max Ehrmman.
A punkzinha “1965 (Duas Tribos)” também aborda um tema desagradável, a tortura e a ditadura militar, mas no fim das contas propõe uma volta por cima e cobra uma atitude positiva (“eu quero tudo pra cima”)
“As Quatro Estações” termina com “Se Eu Fiquei Esperando Meu Amor Passar”, outra canção romântica de composição simplória e delicada e que confirma toda a espiritualidade do disco encerrando com os versos do rito litúrgico “Cordeiro de Deus”.
E num momento equilibrado de Renato, tranquilo da banda, os abençoados éramos nós, os fãs, por recebermos depois de tanta espera um disco iluminado como aquele “As Quatro Estações”. Fresco como um dia de outono, gostoso como um dia de primavera, não sem ser severo como um dia frio de inverno, mas, sobremaneira, ensolarado como um dia de verão.

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FAIXAS:
  1. "Há Tempos" (Villa-Lobos/Russo/Bonfá) – 3:18
  2. "Pais e Filhos" (Villa-Lobos/Russo/Bonfá) – 5:08
  3. "Feedback Song for a Dying Friend" (Villa-Lobos/Russo/Bonfá) – 5:25
  4. "Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto" (Villa-Lobos/Russo/Bonfá) – 3:13
  5. "Eu Era um Lobisomem Juvenil" (Villa-Lobos/Russo/Bonfá) – 6:45
  6. "1965 (Duas Tribos)" (Villa-Lobos/Russo/Bonfá) – 3:44
  7. "Monte Castelo (Renato Russo) – 3:50
  8. "Maurício" (Villa-Lobos/Russo/Bonfá) – 3:17
  9. "Meninos e Meninas" (Villa-Lobos/ Russo/Bonfá) – 3:23
  10. "Sete Cidades" (Villa-Lobos/Russo/Bonfá) – 3:25
  11. "Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar" (Villa-Lobos/Russo/Bonfá) 4:56
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Ouça:

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Phil Spector & Vários – “A Christmas Gift for You from Phil Spector” (1963)





"Eu inventei o negócio da música.
Onde está a estátua para mim?"
Phil Spector




Talvez não combine muito com o espírito natalino fumar, beber e se drogar compulsivamente dentro do estúdio de gravação. Muito menos andar armado, a ponto de mirar uma espingarda nos integrantes dos Ramones para que estes o obedecessem. Pior: disparar um tiro a esmo e deixar John Lennon com permanentes problemas auditivos. Mas, sobretudo, não combina com o ato de usar um revólver para matar a atriz Lana Clarkson em sua própria casa. Pois, ironicamente, esta criatura, que bem poderia passar por qualquer delinquente, é nada mais, nada menos que uma das mentes mais geniais que o mundo da música pop já viu. Foi ele que concebeu integralmente este histórico disco.

Claro que estamos falando de Phil Spector. O talentoso produtor que deu forma às obras-primas “Let it Be”, dos Beatles, a “Plastic Ono Band”, do Lennon, e a “All Things Must Pass”, do George Harrison. Que é também o mesmo tirano que se trancafiava no estúdio como fez em “Death of a Ladies’ Man”, de Leonard Cohen, em 1977, para não deixar ninguém entrar (nem mesmo o próprio Cohen). Mas, talvez, por uma missão divina – motivada, quem sabe, por um milagre de Natal – esse judeu pobre nascido no Bronx em 1939 não escolheu o caminho do crime como seus amigos de bairro e encontrou sua salvação na música para, passando por cima de todas as excentricidades, egocentrismos e loucuras, entrar para a história. No final dos anos 50, esse iluminado ajudou a dar forma à música pop, a forjar o que se passou a chamar de enterteinment.

Compositor, arranjador, produtor, instrumentista e até cantor, Spector ostenta ao menos dois títulos de pioneirismo: o de primeiro multimídia da indústria fonográfica e o primeiro grande produtor de discos. Pois, além de todos esses predicados, ele também sabia empresariar astros e encontrar talentos. E aí ele era infalível. Cabeça do selo Philles Records, ele liderava projetos, lançava grupos e cantores, direcionava carreiras. Tina Turner, Ben King, The Righteous Brothers e Dusty Springfield passaram por sua mão. Criador de peças de forte apelo popular, mas com pés firmes no R&B, no country e no folk, Spector inventou as teenage symphonies, quando pôs grupos vocais como Ronettes e Crystals a serviço de seus arranjos elaborados e primorosos.

A Christmas Gift for You from Phil Spector” é o resultado dessa profusão. Primeiro álbum-conceito de Natal do mercado fonográfico, ajudou a impulsionar as hoje tradicionais vendas de música nessa época do ano (o próprio título, inteligentemente sugestivo, já induz ao ato da compra). Dono de um apuro técnico inconfundível das mesas de som, Spector desenvolveu o que até hoje se conhece como “wall of sound”, ou seja, a “parede de som”, técnica própria dele que aproveitava o estúdio como um instrumento, explorando novas combinações de sons que surgem a partir do uso de diversos timbres (elétricos e acústicos) e vozes em conjunto, combinando-os com ecos e reverberações.

É isso que se ouve em todo o álbum, em maior ou em menor grau e sempre na medida certa. Recriando melodias de standarts natalinos, Spector, junto com o grupo de compositores e sob a batuta de Jack Nietsche, pôs para interpretar em ”A Christmas Gift...”, além dos já citados girl groups Ronettes e Crystals, a cantora Darlene Love e, para equilibrar, o grupo vocal misto Bob B. Soxx & the Blue Jeans, cada um com três faixas (exceto o último, com duas).

Cabe a Darlene Love iniciar o disco com “White Christmas”, clássico de Irving Berlin que, na mão de Spector, ganha uma dimensão apoteótica. O primor do arranjo dá contornos s eruditos à música, como uma minissinfonia. Mas, antes de mais nada, nada rebuscada e saborosamente pop. Exemplo perfeito do seu método de gravação, a música começa com a voz potente de Darlene no mesmo peso dos instrumentos (banda e orquestra), que, por sua vez, soam com amplitude, reverberados. A massa sonora vai se intensificando à medida em que a carga emocional também avança na interpretação da cantora. Ao final, banda, voz e cordas parecem explodir no ambiente, quando atingem o ponto máximo do volume, que Spector modula cirurgicamente. Nota-se um permanente equilíbrio de alturas: percussão grave como tímpanos de orquestra, instrumentos de base assegurando os médios e a voz, juntamente às cordas, com o privilégio diferencial dos agudos, aqueles que fazem arrepiar o ouvinte.

Na sequência, “Frosty The Snowman”, com as Ronettes, traz o marcante timbre agudo de Ronnie Spector – esposa do produtor à época – animando mais o álbum, num R&B típico dos anos 50. O coro das companheiras Estelle Bennett e Nedra Talley ao fundo encorpa a harmonia, mesclando-se as cordas e à percussão permanentemente cintilante dos chocalhos e sinos, como os do trenó do Papai Noel. Os motivos natalinos, também com os característicos sininhos, voltam na outra das Ronettes, o hit “Sleight Ride”, com uma frenética levada de jazz swing.

O gogó romântico de Bobby Sheen, primeira voz da Bob B. Soxx & the Blue Jeans (que tinha a própria Darlene Love mais Fanta James no backing), arrasa na versão para “The Bells of St. Mary's” – que ficou conhecida com Bing Crosby no filme homônimo de 1945, em que, fazendo um padre, o ator a interpreta totalmente diferente, acompanhado de um coro de freiras e órgão. Aqui, Spector redimensiona a beleza litúrgica da canção, aprontando um arranjo vibrante, carregado de emotividade, com toques de balada de baile de anos 50.

Santa Claus Is Coming to Town” traz as Crystals Barbara Alston, Dee Dee Kennibrew e Mary Thomas num R&B embalado e ao seu estilo vocal peculiar. O trio reaparece em “Rudolph the Red-Nosed Reindeer”, de pegada bem infantil, e na divertida “Parade of the Wooden Soldiers” em que, para representar a lúdica “parada dos soldadinhos de madeira”, Spector se vale, na abertura, de cornetas marciais, mas sem perder o astral festivo e descontraído.

As Ronettes, estrelas da Phillies, têm o privilégio de cantar outro standart: “I Saw Mommy Kissing Santa Claus”, original na voz de Jimmy Boyd que atingira, em 1952, o 1º posto da Billboard. Por sua vez, Darlene Love ganha “Winter Wonderland”, um dos mais celebrados cantos natalinos norte-americanos – composta em 1934 por Felix Bernard e Dick Smith –, além da única composta para o disco: “Christmas (Baby Please Come Home)", alçada em 2010 pela revista Rolling Stone à lista de Grandes Canções Rock and roll de Natal, que justificou a escolha: "ninguém poderia combinar tão bem emoção e pura potência vocal como Darlene Love”.

O vozeirão de Bobby Sheen mais uma vez encanta na sacolejante “Here Comes Santa Claus”, outro clássico natalino que, além da gravação do autor – Gene Autry, hit em 1947 –, também recebeu versões ao longo dos tempos de Elvis Presley (no aqui já resenhado "Elvis Christmas Album"), Doris Day, Ray Conniff e Bob Dylan. Sinos de trenó, escala em tom alto, contracantos, percussão reverberada, melodia em crescendo. Um típico “wall of soundspectoriano. Para finalizar, o próprio “cabeça” do projeto declama a letra e “Silent Night” com o suave coro de todos os outros músicos ao fundo, num desfecho se não brilhante como todo o restante, ao menos coerente.

Dessa trajetória iluminada mas altamente conturbada de Phil Spector – a qual ele, encarcerado desde 2009 pelo assassinato da amante, segue infelizmente desperdiçando –, fica a rica contribuição de seu modo de compor e, principalmente, “apresentar” as músicas. Spector foi uma verdadeira máquina de sucessos, criando peças que serviriam de exemplo para toda a geração da Motown e do rock de como fazer uma música pegajosa e inteligente em menos de 4 minutos. Brian WilsonBrian JonesRod Argent, Frank Zappa, Rogério DupratBrian Eno e até George Martin conseguiram pensar como um dia pensaram por causa do caminho aberto por Phil Spector. Sem ele não existiriam os conceitos de hit nem perfect pop. Com Phil Spector a música popular virou negócio – e um negócio muito bom de escutar. Se isso já não vale por um milagre de Natal, ao menos justifica uma estátua.

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FAIXAS:
1. White Christmas (Irving Berlin) - com Darlene Love - 2:52
2. Frosty the Snowman (Steve Nelson/Walter Rollins) – com The Ronettes - 2:16
3. The Bells of St. Mary's (A. Emmett Adams/Douglas Furber) – com Bob B. Soxx & the Blue Jeans - 2:54
4. Santa Claus Is Coming to Town (J. Fred Coots/Haven Gillespie) – com The Crystals - 3:24
5. Sleigh Ride (Leroy Anderson/Mitchell Parish) – com The Ronettes - 3:00
6. Marshmallow World (Carl Sigman/Peter DeRose) - com Darlene Love - 2:23
7. I Saw Mommy Kissing Santa Claus (Tommie Connor) – com The Ronettes - 2:37
8. Rudolph the Red-Nosed Reindeer (Johnny Marks) – com The Crystals - 2:30
9. Winter Wonderland (Felix Bernard/Dick Smith) – com Darlene Love - 2:25
10. Parade of the Wooden Soldiers (Leon Jessel) – com The Crystals - 2:55
11. Christmas (Baby Please Come Home) (Ellie Greenwich/Jeff Barry/Phil Spector) – com Darlene Love - 2:45
12. Here Comes Santa Claus (Gene Autry/Oakley Haldeman) - com Bob B. Soxx  the Blue Jeans - 2:03
13. Silent Night (Josef Mohr/Franz X. Gruber) com Phil Spector & artistas - 2:08

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OUÇA O DISCO:





quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

COTIDIANAS #341 ESPECIAL NATAL - A Namorada do Papai Noel



- Ho, ho, ho! Eu conheço essa moça boniiiiita! – disse o Bom Velhinho com a voz abafada pela volumosa barba branca que caía sobre a boca.
Distraída com uma vitrine, a moça, realmente bonita, nem percebeu que era com ela.
A criançada em volta, excitada, fazia a maior algazarra, pois iriam tirar fotos com o Papai Noel. Haviam ido ao shopping com seus pais especialmente para isso. No entanto, o calor que fazia lá fora era tanto, mas tanto, que o ar condicionado, lá dentro, não dava conta, ainda mais com a superlotação típica de dezembro. Todo ano era a mesma coisa. Suando rios por debaixo daquela roupa vermelha pesada e do enchimento para parecer mais gordo, ele, no tom de vovô animado, insistiu:
arte:Cly Reis
- Ei, menina da rua Mem de Sá, do bairro São Sebastião, você não está vendo que o Papai Noel está falando com vocêêêê?
Ela, vestida num charmoso e casual vestido verão, levou um susto tão grande que virou de costas e quase se desequilibrou no salto da sandália que calçava lindamente. Voltou-se para ele bastante surpresa, pois jamais esperava por aquilo. Quem também não esperava eram as crianças, que ficaram, literalmente, boquiabertas com a cena.
- O... oi... é você, Chri...?, perguntou ainda um pouco duvidosa querendo confirmar se era ele mesmo por detrás da roupa mas, percebendo em volta aqueles vários olhos de crianças abismadas mirando-a sem piscar, parou no meio a pronúncia do nome para não revelar-lhes a identidade do Papai Noel.
Christiano, no entanto, notou o tom de interrogação da frase inconclusa, bem como a consideração que ela teve para com os pequenos em seu encantamento lúdico (“Típico dela”, pensou orgulhoso). Tanto que respondeu:
- Sou eu... siiiiim! Ho, ho, ho! Como você está, Veronicaaaa!
- Cara, você viu: ela conhece o Papai Noeeeel!! – disse hiperimpressionada uma das crianças à outra, mas baixinho para não interromper a inusitada conversa.
- Estou bem, estou bem... Surpresa em te reencontrar... Papai Noel, assim... depois de tantos anos.
- Siiiiim! Há quantos anos eu não via essa moça boniiiita! Faz quanto tempo mesmo?... Viram, crianças – disse, tentando participá-las –, essa moça NUNCA deixou de acreditar no Papai Noeeeel, mesmo depois de tantos anos sem me ver, sem ganhar um presente meu no Natal...
Ela sorriu olhando para baixo, encabulada e com graça infantil.
- Agora você é um Papai Noel, então? Eu virei administradora; sou Gerente de Treinamentos.
- Que legal... – soltou, meio embasbacado – Então a moleca que se pendurava em árvore se transformou numa alta executiva?
- Alta, não, rsrs. Executiva. Às vezes nem sei onde foi parar a menina travessa que brincava “téti a téti” com os meninos e que voltava pra casa com os joelhos todos ralados de jogar bola com eles.
Riram juntos.
- E como vai aquela... “rena”, aquela com quem você vivia?... – indagou ela, pondo seriedade na expressão.
Ele entendeu tanto o código quanto a indireta:
- Aaaaahh! A “reeena”! Aquela que tinha o nariz vermelho! Ho, ho! – segurando a pança artificial para rir; encenando, claro – Aquela rena foi emboooora! Faz quase um aaaano. Nada de filhos. Me deixou, deixou o Papai Noel sozinho, lá no... “Polo Norte”. Que coisa, né, crianças? – virando-se para elas.
O que se viu foram apenas algumas cabecinhas sacudindo em sinal de “sim”, sem ousar dizer uma palavra. Fixos.
- Ah, é? Ela te deixou? – perguntou Veronica – Ela tinha mesmo o nariz vermelho quando ficava frio, que coincidência, rsrs. Percebi isso naquela vez em que a gente se topou na rua, naquele dia gelado, lembra? rsrs... Nossa, faz anos que aquilo aconteceu. Engraçado, comigo aconteceu algo bem parecido.
- O que, seu nariz também gelou?! – perguntou ele que, de tão interessado, deixou escapar sua voz de Christiano. As crianças se entreolharam, estranhando a reação do Papai Noel.
- Não, é que me separei também.
Dando-se conta que saíra do personagem, retomou a voz de velho estufado:
– Ah! Aconteceu o mesmo com você, entããão? Há quanto tempo iiiisso?
- Faz oito meses, Papai Noel, oito... Acho que era pra acontecer mesmo, sabe? As coisas já estavam ficando monótonas, chatas: de casa pro trabalho, do trabalho pra casa, sem nenhuma novidade, aquelas coisas. Acho que o amor foi se esgotando, sei lá... Fora isso, eu brinco que era um engenheiro; aí, você pode imaginar qual era a “pegada”, né: tudo certinho, tudo perfeito, nada fora do lugar...
- Ah, sei, ho, ho, ho! – riu sacudindo a pança de tecido com a mão, pois achou engraçado mesmo – Com o Papai Noel o motivo foi o contrário. A “rena” era também toda metódica, maniática até, e por isso não gostava dessa minha vida de ir aqui, ir ali. Você sabe, né: Papai Noel não pode ficar parado pra ganhar a vida. Tem que se reciclar, correr atrás. Um Papai Noel que se preze tem que viajar para todos os lugares, “levar presentes para as criancinhas”.
- Rsrs, imagino. Um por rotina, o outro por falta de rotina, certo?
Riram com cumplicidade mas, ainda sem jeito pela situação imprevista, caíram em um incômodo silêncio logo depois. As mães já mostravam certa impaciência, querendo sair com seus filhos de vez dali, embora estes estivessem tão encantados com o acontecimento que nem as importunavam mais para bater a tal foto.
- Lembrei bastante de você. Senti saudades, sabe... – confessou o Papai Noel, já não fingindo mais a voz – Faz quanto tempo daquilo?
- 12 anos. Eu senti saudade também.
- Foram tão bonitos aqueles cinco meses e meio, né? Pena que a gente era tão jovem e não deixou as coisas irem adiante. – arriscou falar, sentindo escorrer-lhe suores da toca às botas de neve.
- Pois é. Insegurança da juventude. A gente se conhecia desde pequenos, né? Desde que a gente tinha a idade dessas crianças aqui. Como a gente brincou junto, nossa! Só dava a gente lá no São Sebastião correndo, brincando de pegar, de esconde-esconde, jogando bola, subindo em árvore! Rsrs. Que coisa boa. A mãe não mora mais lá, sabia? Foi pra Cidade Alta. Vendemos a casa e ela foi para um apartamentinho do tamanho ideal pra ela agora depois que a casa ficou vazia. Meu irmão casou e foi pra Austrália. Tem um filho lá, meu afilhado. A mãe se aposentou. Eu me formei...
Depois de uma pausa reflexiva, prosseguiu:
Você não acha engraçado tudo isso que aconteceu e do jeito que aconteceu entre a gente? A gente cresceu junto, morou na mesma rua, frequentou a mesma escola, a mesma classe e só mais tarde que fomos namorar. Já homem e mulher. E foi tão rápido, nossa!... Foi bonito o nosso amor sim. Concordo com você. Aquele passado me emociona até hoje só de lembrar. Mas por muito tempo fiquei com ódio de você, sabe? Fiquei muito magoada. Principalmente, com a sua grosseria na hora da separação. Foi tão dolorido aquilo! Nem sei bem porque a gente se separou. Você sumiu e só fui te ver de novo naquele dia com a “rena”, na rua. Lembro que estava tão frio... E eu, embora estivesse acompanhada, fiquei muito triste, me fez tão mal aquilo... Depois, nunca mais soube de você, se você estava na cidade, na China ou, quem sabe... no Polo Norte. Mas, sabe, com o passar do tempo percebi que eu também tinha errado, que não foi culpa de ninguém, na verdade. E, olha só: aqui está você de novo na minha frente. Como são essas coisas da vida, né?
Veronica encheu os olhos d’água. As mães, até então num burburinho de irritação, agora se comoviam junto com ela.
Já as crianças continuavam sem entender nada.
- Foi bom ter te reencontrado, Papai... Noel. – retomou Veronica – Confesso que voltei a ser criança hoje. A gente se vê por aí, quem sabe, num outro Natal...
- É, quem sabe. Se você puder... digo, quiser, agora sabe onde pode me encontrar. Se eu estiver perdido no meio de um amontoado de crianças, é só falar com um segurança do shopping e pedir para falar com o Papai Noel que ele me recolhe para você, viu? – brincou, disfarçando a emoção.
Despediram-se e ninguém percebeu a lágrima que escorreu escondida pela barba e pelas sobrancelhas graúdas da fantasia, a qual, salgada e viscosa tanto quanto, se misturou aos fios de suor que, agora, nem incomodavam mais Christiano.
***
- Amor, não vai se atrasar pro trabalho.
- Não, meu amor, pode deixar. Já to saindo. Minha barba secou?
- Acho que sim. Pendurei no varal ontem. Quer que eu veja?
- Já to pegando aqui. – falou de uma peça para a outra do apartamento, porém sem gritar – Tá sequinha! Obrigado, meu amor. Vou lá, que tem um monte de gente me esperando.
- Isso, meu amor. Vai com Deus. Vai e faz o que você sabe fazer muito bem: encantar as crianças. Aliás, tem uma que tá esperando um beijinho seu antes de sair.
- Eu sei, eu sei. Já to indo.
Christiano pegou a mochila com o uniforme e os cadernos, pois após o trabalho ainda tinha a faculdade de Artes Cênicas que voltara a fazer depois de anos trancada. Foi até o quarto e parou à porta por uns segundos, numa prece de agradecimento. Depois, debruçou-se sobre a cama e lascou um beijo na bochecha gordinha do filho.
- O papai tá indo trabalhar, mas depois volta pra brincar de Papai Noel com você, tá?
O pequeno, com sono, sequer abriu os olhos, mas fez um “sim” com a cabeça de quem, certamente, registrara carinhosamente o aviso do pai.
Veronica e Christiano, mesmo não sendo católicos nem muito menos tradicionais, não cogitaram outra alternativa a não ser dar o mesmo nome do pai ao filho. Concebido numa chuvosa tarde do dia 19 de março há quase sete anos (que se completariam dali a dias), Christiano Locatelli Meireles calhou de nascer, irônica ou faltamente, num escaldante 25 de dezembro. Mas todos na escolinha o chamam pelo óbvio apêndice de sua alcunha: Júnior.

Veronica e Christiano aprenderam a nunca mais duvidarem das coincidências.


O Frango Atirador

domingo, 21 de dezembro de 2014

Toshiro Mifune, O Samurai do Cinema



Toshiro Mifune é considerado o maior ator do Japão de todos os tempos. O mais interessante é que ele era chinês de nascimento, mas filho de pais japoneses. A parceria com Akira Kurosawa foi a grande responsável por esta popularização do astro e também do cinema japonês, juntos fizeram um total de 16 filmes, filmaram clássicos, ganharam prêmios e brigaram muitas vezes, tinha algo meio Ford e Wayne ou Kinski e Herzog nessa relação. Toshiro reclamou certa vez que Kurosawa fez ele passar por apertos financeiros quando filmou Red Beard” (1966), o filme estremeceu as relações entre ator e diretor que brigaram feio. A produção demorou dois anos para ficar pronta e durante esse tempo, Toshiro não pôde trabalhar porque o filme exigia que ele não fizesse a barba, "realmente comi o pão do diabo" dizia o ator. Em "Red Sun" 1971, o ator faz seu primeiro western, no filme trabalhou ao lado de Charles Bronson, Alain Delon e Ursula Andress. Muitos contam que ele realmente tinha um treinamento amplo de samurai, e que apreendeu muito desta cultura com alguns remanescentes da filosofia. No set do filme costumava mostrar a Bronson como se atacava o pescoço do inimigo com a espada, dizem que ele era tão veloz com a arma que fazia com que a lamina ficasse a centímetros de qualquer parte do corpo do oponente sem o tocar. O filme " Sete Homens e um Destino" do diretor John Sturges, foi totalmente inspirado em " Os Sete Samurais" da parceria Kurosawa e Mifune, assim como " Por um Punhado de Dólares" de Sergio Leone, que foi baseado em "Yojimbo" de 1961. Segundo a critica as produções eram tão semelhantes que Kurosawa processou Leone e ganhou 15% do filme em todo o mundo e os direitos exclusivos de distribuição e bruto para o Japão, Taiwan e Coréia. Kurosawa disse mais tarde que ele fez mais dinheiro com estes direitos do que ele em "Yojimbo". A "prova" existe, já que Clint Eastwood nunca escondeu que copiou o jeito durão dos personagens samurais de Mifune, para compor a sua atuação nos filmes de Leone. O certo é que Mifune foi quem apresentou ao mundo a figura do samurai através no cinema, deixando lapidado este legado do Japão antigo. Entre histórias e estórias ficou para os mortais cinéfilos, obras de arte vindas de tudo que é lado.


cena de "Yojimbo" com trilha sonora de "Por Um Punhado de Dólares"


cotidianas #340 - Um Movimento



"Um Movimento"

Décio Pignatari






quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Ella Fitzgerald and Louis Armstrong - "Ella and Louis" (1956)



"Homem, mulher ou criança,
Ella [Fitzgerald] é maior que qualquer um."
Bing Crosby

"Se houve alguém que foi um mestre,
esse alguém foi Luis Armstrong."
Duke Ellington



Um encontro de titãs de dois dos maiores nomes da música. Ella Fitzgerald, diva do jazz, uma das maiores cantoras de todos os tempos e dona de interpretações inigualáveis juntava-se a Louis Armstrong, cantor de voz inconfundível, de recursos vocais interessantíssimos e trompetista de estilo moderno e ousado para sessões de gravação que originariam o extraordinário “Ella and Louis”.
Composto basicamente por canções românticas e baladas de compositores como Gershwin e Irving Berlin, “Ella and Louis” (1956) é puro deleite. As interpretações de ambos, sustentadas por nada menos que o Oscar Peterson Trio, carregam o talento pessoal de cada um somados às suas respectivas grandes capacidades de improvisação, demonstrando um impressionante entrosamento e uma gostosa descontração de estúdio.
A lindíssima “Can't We Be Friends?” tem interpretação destacada da diva; “Isn't This a Lovely Day?” tem um daqueles belos solos econômicos, básicos e precisos de Louis, seus improvisos vocais característicos e um dueto lá-e-cá adorável entre os dois cantores; e ainda a ótima “Tenderly” que com uma performance solo arrasadora do trompete de Armstrong abre e prepara terreno para que Ella deslize sua voz doce sobre a canção, e igualmente fecha com outra demonstração de talento e inspiração no instrumento de sopro. Na adorável “Cheek to Cheek”, uma das minhas favoritas do álbum, mesmo reconhecendo que no quesito cantar Ella é muito mais completa que o Louis, o destaque é para a atuação vocal dele. Muitíssimo bem “A Foggy Day” dos Gershwin não pode deixar de ser mencionada assim como a melancólica “April in Paris”, que numa interpretação cheia de sentimento de Ella Fitzgerald, com um solo choroso do trompete de Louis Armstrong e com uma performance magistral de Oscar Peterson ao piano, encerra a obra de forma perfeita.
“Ella and Louis” só não é um documento musical único porque, por conta do sucesso do lançamento, a gravadora encomendou um novo encontro da dupla para o álbum “Ella and Louis Again”, que é considerado por muitos até mesmo melhor que o original.
Talvez. Não sei. Gosto muito do outro também. Talvez seja assunto para outro A.F.. Mas por hora fiquemos com este registro mágico onde a graça da Primeira Dama e a originalidade do Satchmo garantem um dos momentos mais célebres que a música já viveu.
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FAIXAS:
01. Can't We Be Friends? (Paul James, Kay Swift) – 3:45
02. Isn't This a Lovely Day? (Irving Berlin) – 6:14
03. Moonlight in Vermont (John Blackburn, Karl Suessdorf) – 3:40
04. They Can't Take That Away From Me (George Gershwin, Ira Gershwin) – 4:36
05. Under a Blanket of Blue (Jerry Livingston, Al J. Neiburg, Marty Symes) – 4:16
06. Tenderly (Walter Gross, Jack Lawrence) – 5:05
07. A Foggy Day (G. Gershwin, I. Gershwin) – 4:31
08. Stars Fell on Alabama (Mitchell Parish, Frank Perkins) – 3:32
09. Cheek to Cheek (Berlin) – 5:52
10. The Nearness of You (Hoagy Carmichael, Ned Washington) – 5:40
11. April in Paris (Vernon Duke, Yip Harburg) – 6:33


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Ouça:

Cly Reis

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Exposição "Ron English - do Estúdio Para a Rua" - Centro Cultural Caixa - Rio de Janeiro (14/12/2014)










 Estive no último final de semana na exposição "Ron English -  do Estúdio Para a Rua" que está em cartaz no Centro Cultural Caixa aqui no Rio de Janeiro e fui surpreendido positivamente com uma mostra ainda melhor do que esperava. Se já tinha informação da transgressão visual do artista, subvertendo imagens, ícones, figuras públicas através de temas como religião, guerra, consumismo, ela se confirma e se acentua pelo impacto visual e conceitual das obras. Cada imagem é uma pedrada, uma provocação, um desafio, um questionamento.
Deixei quase para o final mas ainda bem que consegui dar um pulo lá no penúltimo final de semana. Para os interessados de última hora, a exposição fica aberta apenas até o próximo domingo. Portanto, agilizem-se. Vale a pena.
Abaixo, algumas imagens da exposição:




Vista geral logo na entrada da exposição

Obama Lincoln?

A criança parece frequentemente na obra do artista
entre temas como saúde, guerra, pobreza,

Arte pop perturbadora, impactante, reflexiva

Diversão adulta

Pura provocação

Religião, ídolos, consumo, capitalismo, saúde,
nada escapa à poderosa tinta de English 

A publicidade e o consumismo são objetos de contestação e reflexão na arte de Ron English

Bom para as crianças?

Mais um elemento abordando a alimentação

As intervenções do artista em out-doos

Aqui direcionando à indústria do cigarro

Brincando com a arte dos outros

O tradicional símbolo dos Rolling Stones
ganha uma nova e provocadora leitura

Nova visão para "O Filho do Homem" de Magritte

O Guernica, de Picasso, ganha diversas leituras

Ron em uma de suas intervenções urbanas...

... e o resultado: Guernica por Ron English 



Cly Reis

Pix


terça-feira, 16 de dezembro de 2014

cotidianas #339 - Direitinho



Desenho infantil com crianças brincando e paisagem

autor: Didiu
a ave voa
a pedra é dura
o vento canta pra ninguém

a água molha
o tempo passa
e lá em casa está tudo bem
lá em casa está tudo bem

direitinho
direitinho
direitinho
direitinho

a folha é verde
a gente sente
o olha olha, o vento vem

a folha cai
a chuva cai
e a família vai muito bem
a família vai muito bem

direitinho
direitinho
direitinho



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"Direitinho"
Arnaldo Antunes

domingo, 14 de dezembro de 2014

Funkadelic - "Maggot Brain" (1971)



"Toque como se sua mãe
tivesse acabado de morrer."
recomendação dada por George Clinton
para o guitarrista Eddie Hazel
antes deste gravar seu instrumento
na canção "Maggot Brain"
(segundo reza a lenda)



Só a incrível “Maggot Brain”, uma peça musical longa e melancólica de mais de 10 minutos com um magistral e cortante solo de guitarra flutuando sobre uma suave e delicada base, já poderia ser suficiente para que o disco que leva seu mesmo nome fosse considerado um ÁLBUM FUNDAMENTAL, mas felizmente para nós amantes da música, além dela, o terceiro trabalho do Funkadelic consegue ter ainda mais do que isso.
Criativo, diversificado, inspirado, psicodélico, embalado, “Maggot Brain” (1971) traz desde manifestos de igualdade racial e apelos de paz a lisérgicas viagens sonoras. “Can You Get to That”, com sua levada acústica e batidona pesada; e a espetacular “You and Your Folks, Me and My Folks”, que além do groove e dos arranjos vocais bárbaros, traz uma letra poderosa sobre igualdade, são sem dúvida outros pontos altos do disco, mas não há como deixar de fazer referência ao solaço de guitarra de “Hit It Or Quit It”; ao funk-metal furioso de “Super Stupid”; e à faixa final, “Wars of Armageddon” uma viagem sonora com cara de ensaio, tão cheia de espontaneidade e experimentalismo, que no fim das contas acaba parecendo um enorme improviso coletivo.
Geroge Clinton, líder, cabeça pensante e peça central do Parliament, uma das bandas mais influentes da black-music de todos os tempos, depois de ter que abrir mão do nome da banda por questões jurídicas, aproveitava a deixa da mudança de nome e experimentava com o Funkadelic seus novos interesses, naquele momento, pelo rock, pelas guitarras, por Hendrix e pela psicodelia, e com “Maggot Brain”, muito bem assistido por um timaço de músicos de primeira linha, conseguia fundir estes elementos com o funk de forma tão certeira e impressionante como poucas vezes se viu.
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FAIXAS:
  1. Maggot Brain 10:20
  2. Can You Get to That 2:50
  3. Hit It and Quit It 3:50
  4. You and Your Folks, Me and My Folks 3:36
  5. Super Stupid 3:57
  6. Back in Our Minds 2:38
  7. Wars of Armageddon 9:42

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Ouça:

por Cly Reis