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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Oscar 2026 - Os Indicados


Nosso "O Agente Secreto" é o Brasil no Oscar. De novo!
Desde a manhã desta quinta-feira, 22 de fevereiro, nós brasileiros podemos afirmar: “ainda estamos aqui!” O “aqui” a que me refiro, claro, é o Oscar, que o filme brasileiro “O Agente Secreto”, multivencedor em diversos festivais pelo mundo, inclusive o Globo de Ouro em duas categorias a pouco mais de uma semana, tornou-se um dos indicados a quatro estatuetas. O parafraseado que remete ao filme “Ainda Estou Aqui”, indicado a três Oscar e vencedor em Filme Internacional no ano passado, não é mera brincadeira semântica, visto que tem, sim, relação com o feito de “O Agente...”, que dá seguimento a esta visibilidade ao cinema nacional e também empata em indicações com outro filme brasileiro, “Cidade de Deus”, de 2002. Ou seja: já está fazendo história.

É importante que se diga que estas quatro indicações ao Oscar para o filme de Kleber Mendonça Filho são ainda mais significativas. A grande diferença desta vez é que, ao invés de apenas ser uma grande conquista as indicações em si, “O Agente...” tem grandes chances de ganhar em pelo menos uma dessas categorias, que acredito ser a de Filme Internacional, ao contrário de “Cidade...”, que não ganhou nenhum na época. Isso mostra que estamos num momento muito mais maduro do cinema brasileiro em relação à sua visibilidade internacional, ao contrário de quando concorremos com “Cidade...” em que a imagem que tínhamos era muito mais de “azarão” ou de “distantes”, mesmo com toda a influência que o filme de Fernando Meirelles e Katia Lund exerceu no cinema mundial à época. Isso, somado ao sucesso de “Ainda...” desde o ano passado e de vários outros filmes brasileiros que também têm sido apreciados lá fora e aqui dentro, deixa claro que estamos, sim, num momento histórico para o cinema brasileiro.

“O Agente...” entra no páreo também na categoria de Ator, para Wagner Moura, embora a tendência é premiarem, depois de tantas indicações, Timothée Chalamet por “Marty Supreme”. Não diria que é injusto, mas filme por filme, fico com “O Agente...”, o que engrandece, a meu ver, a atuação de Wagner. Veremos, mas seria a glória que o baiano ganhasse, hein? Noutra em que o filme concorre é a de Direção de Elenco, a nova categoria do Oscar incluída este ano. Novamente, o brasileiro mereceria, até pela perícia de realizar um filme repleto de personagens e tendo vários atores locais (o chamado “desconhecidos” para os gringos). Porém, “Pecadores” e “Uma Batalha após a Outra” saem na frente, principalmente o longa de Paul Thomas Anderson, repleto de atores top e com a sua conhecida habilidade de direção de atores.

Enfim, a categoria menos provável a que “O Agente...” se sagre campeão, que é a de Filme. Nesta, novamente “Uma Batalha...” desponta, acompanhado de perto de “Hamnet”. Entretanto, assim como para com “Ainda...” em 2025, contar com um brasileiro (e falado em português!) entre os 10 selecionados – mérito que cresce ainda mais considerando que, junto com o norueguês “Valor Sentimental”, é o único estrangeiro da lista.

De resto, o bom “Pecadores” sai supervalorizado, talvez até em demasia, com 16 indicações, recorde em quase 100 anos de Oscar, batendo “Tudo sobre Eva” (1950), “Titanic” (1997) e “La La Land” (2016). Embora goste do diretor Ryan Coogler, torço mesmo para que ganhe Música Original e ator coadjuvante para Delroy Lindo. No mais, Chloé Zhao rivaliza com P.T. Anderson em Direção, legal ver Amy Madigan indicada a Atriz Coadjuvante pelo terror “A Hora do Mal” e “Valor Sentimental”, badalado até o Globo de Ouro, onde ficou apenas com o de Ator em Drama e perdeu "musculatura", embora indicado a 9 Oscar (recorde para um filme da Noruega), talvez saia com um ou dois (Atriz Coadjuvante, Roteiro Original...). Tomara que naquela que é sua maior chance, Filme Internacional, “confirme a derrota” para “O Agente...”.

Mas o Brasil está em evidência não só em quatro categorias, mas em cinco! Isso porque o brasileiro Adolpho Veloso concorre em Fotografia pela produção norte-americana “Sonhos de Trem”. Entretanto, “Apocalipse nos Trópicos”, de Petra Costa, que concorreu sete anos atrás a Documentário por “Democracia em Vertigem”, desta vez não entrou na lista. Aqui, a aposta é no impactante “A Vizinha Perfeita”.

Confiram, então, a lista completa dos indicados ao Oscar 2026, agora em plena torcida para “O Agente...” e Veloso, que o Brasil diz que ainda estamos aqui, na vitrine do cinema mundial, e daqui não queremos mais sair. 

🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥🎥

Melhor Filme

"Bugonia"

"F-1"

"Frankenstein"

"Hamnet"

"Marty Supreme"

"Uma Batalha Após A Outra"

"O Agente Secreto"

"Valor Sentimental"

"Pecadores"

"Sonhos de Trem"


Melhor Direção

Chloé Zhao, por "Hamnet"

Josh Safdie, por "Marty Supreme"

Paul Thomas Anderson, por "Uma Batalha Após A Outra"

Joachim Trier, por "Valor Sentimental"

Ryan Coogler, por "Pecadores"


Melhor Ator

Timothée Chalamet, por "Marty Supreme"

Leonardo DiCaprio, por "Uma Batalha Após A Outra"

Ethan Hawke, por "Blue Moon"

Michael B. Jordan, por "Pecadores"

Wagner Moura, por "O Agente Secreto"


Melhor Atriz

Jessie Buckley, por "Hamnet"

Rose Byrne, por "Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria"

Kate Hudson, por "Song Sung Blue"

Renat Reinsve, por "Valor Sentimental"

Emma Stone, por "Bugonia"


Melhor Ator Coadjuvante

Benicio del Toro, por "Uma Batalha Após A Outra"

Jacob Elordi, por "Frankenstein"

Delroy Lindo, por "Pecadores"

Sean Penn, por "Uma Batalha Após A Outra"

Stellan Skarsgård, por "Valor Sentimental"


Melhor Atriz Coadjuvante

Elle Fanning, por "Valor Sentimental"

Inga Ibsdotter Lilleaas, por "Valor Sentimental"

Amy Madigan, por "A Hora do Mal"

Wunmi Mosaku, por "Pecadores"

Teyana Taylor, por "Uma Batalha Após A Outra"


Melhor Elenco

"Hamnet"

"Marty Supreme"

"Uma Batalha Após A Outra"

"O Agente Secreto"

"Pecadores"


Melhor Roteiro Original

"Blue Moon"

"Foi Apenas Um Acidente"

"Marty Supreme"

"Valor Sentimental"

"Pecadores"


Melhor Roteiro Adaptado

"Bugonia"

"Frankestein"

"Hamnet"

"Uma Batalha Após A Outra"

"Sonhos de Trem"


Melhor Filme de Animação

"Arco"

"Elio"

"Guerreiras do K-pop"

"A Pequena Amélie"

"Zootopia 2"


Melhor Filme Internacional

"O Agente Secreto"

"Foi Apenas Um Acidente"

"Valor Sentimental"

"Sirāt"

"The Voice of Hind Rajab"


Melhor Documentário em Longa-Metragem

"Alabama: Presos no Alabama"

"Embaixo da Luz Neon"

"Cutting Through Rocks"

"Mr Nobody Against Putin"

"A Vizinha Perfeita"


Melhor Documentário em Curta-Metragem

"Quartos Vazios"

"Armed Only with a Camera: The Life and Death of Brent Renaud"

"Children No More: Were and are Gone"

"O Diabo Não Tem Descanso"

"Perfectly A Strangeness"


Melhor Curta-Metragem em Live Action

"Butcher's Stain"

"A Friend Of Dorothy"

"Jane Austen's Period Drama"

"The Singers"

"Two People Exchanging Saliva"


Melhor Animação em Curta-Metragem

"Butterfly"

"Forevergreen"

"The Girl Who Cried Pearls"

"Retirement Plan"

"The Three Sisters"


Melhor Trilha Sonora

"Bugonia"

"Frankestein"

"Hamnet"

"Uma Batalha Após A Outra"

"Pecadores"


Melhor Canção Original

"Dear Me", de "Diane Warren: Relentless"

"Golden", de "Guerreiras do K-pop"

"I Lied To You", de "Pecadores"

"Sweet Dreams Of Joy", de "Viva Verdi!"

"Sonhos de Trem", de "Sonhos de Trem"


Melhor Som

"F-1"

"Frankenstein"

"Uma Batalha Após A Outra"

"Pecadores"

"Sirāt"


Melhor Fotografia

"Frankenstein"

"Marty Supreme"

"Uma Batalha Após A Outra"

"Sinners"

"Sonhos de Trem"


Melhor Design de Produção

"Frankenstein"

"Hamnet"

"Marty Supreme"

"Uma Batalha Após A Outra"

"Pecadores"


Melhor Figurino

"Avatar: Fogo e Cinzas"

"Frankenstein"

"Hamnet"

"Marty Supreme"

"Pecadores"


Melhor Cabelo e Maquiagem

"Frankenstein"

"Kokuho"

"Pecadores"

"Coração de Lutador: The Smashing Machine"

"A Meia-Irmã Feia"


Melhor Montagem

"F-1"

"Marty Supreme"

"Uma Batalha Após A Outra"

"Valor Sentimental"

"Pecadores"


Melhores Efeitos Visuais

"Avatar: Fogo e Cinzas"

"F-1"

"Jurassic World: Recomeço"

"O Ônibus Perdido"

"Pecadores"


Daniel Rodrigues


quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

André Abujamra & Marcos Suzano - Torakutan - Porto Verão Alegre 2026 - Teatro Simões Lopes Neto - Multipalco Theatro São Pedro - Porto Alegre/RS (13/01/2026)

 

Torakutan Arado da Nova Era
No motor do peito, o som desperta,
Não é apenas barulho, é a trilha certa.
Torakutan chega com o peso do aço,
Abrindo caminho, rompendo o cansaço.
Como o trator que curva o horizonte,
Buscamos a pureza direto na fonte.
Não viemos para derrubar o que é bom,
Mas para limpar o terreno com o nosso tom.
Trecho do semimanifesto “Torakutan”

Tem encontros artísticos que a gente para pra pensar e se admira: “como que isso não aconteceu antes?!”. No caso de André Abujamra e Marcos Suzano, dois craques da música brasileira, até já havia ocorrido, mas não com a intensidade e inteireza que o novíssimo projeto Torakutan apresentou-nos em um inspiradíssimo (e inédito!) show em Porto Alegre, durante a programação do Porto Verão Alegre 2026. Perfeitamente sintonizados em seus estilos, referências e, principalmente, liberdade artística, Abu e Suzano fizeram do palco do Simões Lopes Neto um altar de criatividade e musicalidade, improvisando e inventando, ali mesmo na hora, vários números, mesmo quando havia algum “roteiro”.

Sempre bem-humorado, o “Mulher Negra”, o “Homem Bruxa”, o Karnak ou seja lá o que se queira creditar a esse artista especial, Abu - a quem conheci anos atrás em Gramado e que virou um amigo desde lá - conversou e interagiu com a plateia o tempo todo, entre os números e, às vezes, durante os mesmos. Suzano, menos falante mas muito simpático, largou observações que também tiraram risos da galera. Usando programadores digitais (que conseguem gravar na hora e sequenciar os acordes tocados, mantendo a base das músicas) e poucos instrumentos (Abu: guitarra, piano e flauta chinesa, e Suzano: uma diversidade de instrumentos percussivos, tanto físicos quanto eletrônicos), eles começaram executando o que se pode chamar de “Intro Torakutan”, um show de improvisação que já deu a noção do que viria.

 Vieram, na sequência, a delicada “Pangea”, do repertório de Abujamra, com sua tradicional poesia humanista-universalista (“Antigamente o continente era colado/ A África ficava aqui do lado/ Angola, Senegal/ Coladinho no Candeal”). No primeiro “improviso maluco” da noite, conforme Abu anunciou, ouviu-se de ritmos nordestinos e africanos a trance music! Outra linda de Abu, sobre a perda de sua mãe, “O Mar” (presente no álbum “Omindá”, de 2018), foi tocada com alto grau de emoção, visto que ela, no passado, conheceu seu pai, o ator e diretor de teatro Antônio Abujamra, justo em Porto Alegre, de onde vem parte de sua família – na plateia estavam presentes diversos parentes de Abu, inclusive o diretor e idealizador do festival, o ator Zé Victor Castiel, seu primo. Mas tinha ainda mais: Abu contou que, quando apresentou a letra da música para seu pai, este, sincero e mordaz como era, não gostou do que leu. Porém, dias depois, foi ele quem faleceu. A música, onírica e profunda: diz assim em seus versos: “O mar é como a vida, o mar/ Que tá calmo e no outro não”.

Um trecho da emocionante "O Mar"

Na sequência, foi a vez de Suzano trazer uma de seu repertório, a malemolente “Desentope Batucada”, do seu disco solo “Sambatown”, de 1996. Nesta foi uma das vezes em que pudemos ouvir o pandeiro de Suzano, que vale por uma escola de samba inteira. Mais um “improviso maluco”, agora com a participação efetiva do público. Abu pediu para que três pessoas da plateia dissessem cada uma alguma palavra. Saíram: “lucidez”, “panela” e “amor”, que, juntas, viraram o título do xote criado na hora, inclusive a própria letra, feita por outra pessoa da plateia a pedido do artista via IA no celular. A música resultante, embora um pouco errática em algumas horas, saiu legal, além de engraçada, sonora e filosófica, visto que coloca todos diante da dicotomia analogia x digital.

Com maravilhas de improvisos desses dois feras entre as músicas (como no duelo de baião entre guitarra e pandeiro, um dos momentos mais aplaudidos), rolou ainda uma música-tema da “terceira maior big band do mundo” (afinal, Os Mulheres Negras é conhecido por ser a segunda), “Torakutan”, uma versão diferente de “Porquá Mecê”, também do repertório dos tempos d’Os Mulheres, e a crítica “Mendigo”, que Suzano disse ter ficado impressionado quando ouviu pela primeira vez, em 2015, no disco “Homem Bruxa”, de Abu.

Para encerrar, mais improvisação e a brilhante “Espelho do Tempo”, noutro momento carregado de emoção, pois é uma peça que fala da ancestralidade e escrita por Abu para seu pai. “O presente é o reflexo do passado/ E o futuro é o reflexo do presente”. Versos bastante simbólicos estes para finalizar um show em que se vê dois artistas à frente de seu tempo. Entre a brincadeira e a poesia, Abu diz que a palavra “Torakutan”, quer dizer, em algum dos vários idiomas nos quais brinca de traduzir, “farol de luz”. Vimos dois deles no palco.

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A dupla começa o show no Simões Lopes Neto!


Abu: uma cabeça rara


Suzano: craque da percussão


Abu cantando trecho de "Candelara", do repertório da Karnak, 
acompanhando o pandeiro de Suzano


Torakutan em ação


Aplausos e mais aplausos ao final


Nós no camarim com o amigo Abu


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texto: Daniel Rodrigues
fotos e vídeos: Daniel Rodrigues e Leocádia Costa

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Música da Cabeça - Programa #444

Se alguém acredita num conselho de paz liderado por um louco como o Trump, há alguma coisa errada. Certo mesmo é ouvir o MDC desta semana, que tem Beastie Boys, Bob Marley, Maria Rita, Incognito e Gal Costa. Ainda, um Cabeça dos Outros que homenageia um dos aniversariantes da semana, Jorge Mautner. Nosso conselho é ouvir o programa de hoje, que vai ao ar na pacífica Rádio Elétrica. Produção, apresentação e #Palestinalivre: Daniel Rodrigues.


www.radioeletrica.com