Ainda no calor da exibição, enquanto os créditos finais passavam, uma senhora sentada ao meu lado na lotada sala de cinema para a pré-estreia de “O Agente Secreto”, disse-me impressionada: "O Kleber não erra uma!". Nada mais fiz do que concordar com ela: Kleber Mendonça Filho não erra, repetindo, obra após obra, somente acertos. Neste seu quinto longa-metragem, estrelado por Wagner Moura e vencedor de diversos prêmios, dentre estes três no Festival de Cannes (Melhor Ator, Melhor Diretor e prêmio da Crítica FIPRSCI de Melhor Filme), o cineasta pernambucano apresenta mais um grande filme. Com um estilo próprio de filmar, Kleber, no entanto, não fecha seu cinema somente a um modelo. E aí talvez esteja o seu principal acerto.
Numa trama envolvente e sinuosa, a história de “O Agente...”, que estreia hoje nos cinemas, se passa no ano de 1977, durante o período da Ditadura Militar no Brasil, e conta a saga de Marcelo, um professor especializado em tecnologia que decide fugir de seu passado violento e misterioso. Ele se muda de São Paulo para Recife com a intenção de recomeçar a vida perto do filho. Porém, mesmo em plena semana de Carnaval, em que os ânimos estão exaltados pela festa do Momo, seus passos estão sendo vigiados, e ele percebe que a cidade que acreditou ser o seu refúgio é ainda mais perigosa para sua sobrevivência.
Kleber vale-se de muita habilidade narrativa para contar essa saga. Primeiro, que ele constrói um thriller que remete aos tradicionais filmes de espionagem dos anos 60 e 70, porém usando criatividade para fugir do óbvio. Nesse sentido, uma das melhores características do roteiro é o aspecto da frustração de expectativas e do deslocamento de suposições. Artifício empregado com maestria por cineastas como os irmãos Cohen (“Onde os Fracos não têm Vez” é exemplar nesse jogo narrativo), ambos recursos fazem com que a história surpreenda o espectador no seu desenrolar, ao mesmo tempo em que lhe tira a atenção se determinado elemento ou lhe "promete" entregar outros, mas sabiamente lhe frustra por lançar outra lógica no lugar.
Exemplo perfeito desse deslocamento intencional de sentido é a perna encontrada dentro da barriga de um tubarão no começo do filme. Por um lado, é algo que insere uma linha narrativa à trama, mas também amarra outros níveis narrativos mais simbólicos, do folclórico ("perna cabeluda") ao existencial (a impossibilidade de cidadãos honestos, transformados em refugiados políticos, em andar com as próprias pernas). Até mesmo o assassino de aluguel Vilmar (Kaiony Venâncio), em parte exitoso em seu serviço, é algoz e vítima ao mesmo tempo do perverso e violento sistema paralelo sustentado pelo regime militar brasileiro, visto que ele também é baleado justamente na perna.
Tânia Maria como d. Sebastiana: essencial para a trama
Essa amarração simbólica é um dos predicados de Kleber, o que torna seus filmes ao mesmo tempo únicos e similares. A grande qualidade de sua obra está em nunca se repetir, mas mantendo uma linha ideológica, narrativa e estética comum, que traz a cultura local, recifense, pernambucana e nordestina para um patamar de crítica. A barbárie e a violência humanas, por exemplo, são espelhadas na iminência do perigo do tubarão, comum nas praias de Recife, elemento presente em seu primeiro filme, “O Som ao Redor” (2012), e também em “Aquarius” (2016) e no documentário “Retratos Fantasmas” (2023). “O Agente...” é totalmente diferente destes três, assim como de “Bacurau” (2019, codirigido por Juliano Dornelles), mas todos, em maior ou menor grau entre si, trazem parecenças de estilo de filmar (os zoons in e out eficientes, as passagens entre cenas, os diálogos densos, a divisão em capítulos) como temáticas (o contexto político, a denúncia social, a oposição entre barbárie e humanismo).
O que resulta disso é mais uma obra impactante de Kleber, um filme empolgante que o coloca definitivamente entre os melhores realizadores do mundo em atividade ao lado de Yorgos Lanthimos, Sofia Coppola, Gaspar Noé e Jordan Peele. As 2 horas e 40 minutos de fita são aproveitadas internamente, sem qualquer excesso ou "barriga". Wagner, escolha perfeita para o papel, está deslumbrante, assim como Tânia Maria no papel de Dona Sebastiana, atriz veterana com quem o cineasta já havia trabalhado em "Bacurau" e que enxergou nela a possibilidade de aproveitar melhor seu talento. Deu muito certo, visto que Tânia - a quem empolgadas vozes vêm apontando-a como merecedora de indicação a Oscar pela atuação - recebe, desta vez, textos bastante bem elaborados, essenciais ao filme.
Já que se entrou nessa seara, então: e o Oscar? Parece cedo ainda para falar a respeito, visto que os favoritos, em geral, começam a surgir principalmente durante novembro e dezembro. São esses títulos de dentro da indústria e/ou responsivos ao contexto socio-politico-produtivo que saltam na frente em preferência.
Contudo, dá para arriscar o palpite de que “O Agente...”, dados os prêmios em Cannes e todo o eficiente marketing que vem ganhando - além, claro, da qualidade do filme - tem boas chances de emplacar indicações. A começar, pela de Filme Internacional, para o qual vem sendo bem cotado. Porém, é bem plausível supor que, na esteira de "Ainda Estou Aqui", brasileiro vencedor do Oscar de Filme Internacional do ano passado e concorrente na categoria de atriz, quando Fernanda Torres beliscou a estatueta, desta vez saia uma indicação para Melhor Ator para Moura, figura já conhecida do mercado norte-americano e internacional. Aposto também em indicação a Melhor Filme, assim como ocorreu com “Ainda...”, mas também de Direção para Kleber, cujo trabalho é naturalmente mais autoral do que o de Walter Salles em “Ainda...”, o que lhe pode contar pontos diante do novo contexto da Academia do Oscar, mais atenta a talentos de fora do eixo de anos para cá.
Previsões boas para um país como o Brasil, que vem despontando no cenário cinematográfico mundial de anos para cá e que parece manter-se assim. Talvez “O Agente...” supere “Ainda...” em indicações e, quiçá, em premiações - assim se espera - mas não em visibilidade de público nos cinemas brasileiros, visto que se trata de uma obra menos "palatável" do que a do filme de Waltinho, bem mais convencional em narrativa, o que o aproxima do espectador comum. Ou, quem sabe, depois que o filme estrear, a campanha de marketing, vultosa para os padrões brasileiros, não consiga atrair tanto público quanto o fenômeno de bilheteria “Ainda...”? Se propaganda serve para vender porcarias todos os dias, que sirva também para levar a um grande público coisas boas como “O Agente...”. Terá, enfim, a publicidade acertado alguma vez assim como Kleber, que acerta em todas.
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Trailer oficial de "O Agente Secreto"
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"O Agente Secreto"
direção: Kleber Mendonça Filho
elenco: Wagner Moura, Gabriel Leone, Maria Fernanda Cândido, Alice Carvalho, Udo Kier, Carlos Francisco, Hermila Guedes, Roney Villela
O pernambucano Kléber Mendonça Filho discursando após receber o prêmio de melhor diretor no Festival.
E só dá Brasil!!!
Depois da gigantesca vitória no Oscar, com o prêmio de melhor filme internacional para "Ainda Estou Aqui", agora, no Festival de Cannes, outro dos eventos cinematográficos mais prestigiados do mundo, o Brasil volta a conquistar prêmios de grande relevância. "O Agente Secreto", filme pelo qual sempre se teve enorme expectativa e cuja previsão por reconhecimento internacional em festivais já era prevista, confirma o que se esperava e leva em Cannes os prêmios de melhor ator para Wagner Moura e melhor direção para Kleber Mendonça Filho, que por sinal, já conhecia o gostinho de uma vitória em Cannes com o Prêmio do Júri, em 2019, por "Bacurau". A Palma de Ouro, a categoria principal, que era uma possibilidade bastante plausível, dada a ótima recepção do filme na exibição pública no festival, acabou não vindo, mas ainda assim os dois vencidos representam definitivamente essa nova ascenção e reconhecimento do cinema que se faz por aqui.
A almejada Palma de Ouro acabou indo para Jafar Panahi com "Um Simples Acidente", garantindo a segunda vitória do cinema iraniano em Cannes.
Nessa onda de sucessos internacionais do cinema brasileiro e do retrospecto dos vencedores de Cannes no Oscar nos últimos anos, já começa-se a sonhar com um bicampeonato de melhor filme estrangeiro em Los Angeles no ano que vem... Será? Não assisti ainda mas, pelo que se diz, "O Agente Secreto" tem grande potencial. Desde já estamos na torcida.
Confira abaixo todos os vencedores na premiação de Cannes 2025:
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Jafar Panahi com a Palma de Ouro em mãos.
Palma de Ouro: 'It Was Just an Accident', de Jafar Panahi
Grand Prix: 'Sentimental Value', de Joachim Trier
Prêmio do Júri: 'Sirât, de Olivier Laxe' e 'Sound of Falling', de Mascha Schilinski
Melhor Diretor: Kleber Mendonça Filho, por 'O Agente Secreto'
Melhor Atriz: Nadia Melitti, por 'The Little Sister'
Melhor Ator: Wagner Moura, por 'O Agente Secreto'
Melhor Roteiro: 'Young Mothers', de Luc e Jean-Pierre Dardenne
Prêmio Especial do Júri: 'Ressurection', de Bi Gan
Câmera de Ouro (filme de estreia): 'The President's Cake', de Hasan Hadi
Não é por acaso que, em Hollywood, roteiristas sejam figuras míticas. Filmes clássicos e
cultuados abordaram isso: "Crepúsculo dos Deuses" (1950), “Barthon Fink” (1991) e "O Jogador" (1992) são exemplos. São esses autores das letras que dão a primeira e essencial forma a qualquer produto que venha a se tornar audiovisual. Por trás de um efeito especial há sempre alguma linha escrita. Porém, também não é novidade que, de tempos para cá, com o avanço abissal dos recursos de tecnologia, o cinemão norte-americano vem privilegiando cada vez mais a técnica e seu impacto sensorial no espectador do que o sentimento emocional ou a subjetividade da interpretação linguística. E o que acontece quando se supervaloriza o aparato técnico em detrimento do roteiro? Empobrecimento. Caso típico de “Missão Impossível: Efeito Fallout”, de Christopher McQuarrie.
O sexto longa da franquia produzida e interpretada pelo astro Tom Cruise é mais um enlatado muito bem desenhado e trucado que pode dar-se ao luxo de desmerecer a inteligência do espectador. Na história, repleta de reviravoltas e referências a filmes anteriores da série, o agente secreto Ethan Hunt (Cruise), obrigado a unir forças com outro agente da CIA, August Walker (Henry Cavill) para mais uma missão impossível, vê-se novamente cara a cara com Solomon Lane (Sean Harris) e preso numa teia que envolve velhos conhecidos movidos por interesses misteriosos e contatos de moral duvidosa. Atormentado por decisões do passado que retornam para assombrá-lo, Hunt precisa impedir que uma catastrófica explosão ocorra, no que conta com a ajuda dos parceiros de IMF.
Como sempre, seguindo o modelo narrativo do programa televisivo dos anos 60 – que o diretor Brian De Palma magistralmente versou para o cinema no primeiro da franquia, de 1996, abrindo caminho para os subsequentes –, o diretor Christopher McQuarrie (“Missão Impossível: Nação Secreta”, 2015; “Jack Reacher: O Último Tiro”, 2013, “A Sangue Frio”, 2000) não consegue dar um equilíbrio ao filme enquanto obra, perdendo-se principalmente do meio para o final. Não por acaso, a coisa começa a descambar a partir do ponto em que o espectador, já amortecido pela avalanche de imagens, sons, luzes e movimentos em profusão, está devidamente receptivo a qualquer coisa que lhe apresentarem (e o quanto mais ralo, melhor). A proposta do argumento funciona até determinado ponto, mas, justamente pelo proposital desleixo com o roteiro, passa a precisar apelar para exageros, lugares-comuns e superficialidades.
Isso fica evidente quando comparadas as sequências em Paris e em Londres. A mais empolgante delas, haja vista que ainda na primeira metade do filme, é a da perseguição pelas ruas da Cidade-Luz. Ágil mas sabendo aproveitar a paisagem e as ruas parisienses como cenário, a fuga de Hunt da polícia e dos gângsters é ótima. A resolução da cena, melhor ainda, quando ele some em uma espécie de claraboia no meio da avenida, a qual vai dar justamente nas águas do subterrâneo da cidade, onde é resgatado pelos companheiros de IMF num barco. Tirada típica de “M:I”. O tiroteio nas docas e o uso das supermáscaras, também elemento tradicional da série, funcionam, igualmente, muito bem.
A perseguição em Paris,
um dos melhores momentos do filme.
Em compensação, no que se progride mais na trama, o roteiro mostra que fraqueja. A corrida de Hunt pelas ruas londrinas para alcançar o agente Walker – então revelado vilão – sendo mal guiado remotamente pelo GPS do parceiro Benji Dunn (Simon Pegg) é embaraçosa. Jamais qualquer agente obrigatoriamente qualificado como Dunn cometeria tantos equívocos com tecnologia (o forte do próprio personagem, aliás) como se fosse uma vovó de 90 anos que nunca viu um computador. É a obrigação do elemento “gag”, da “comédia” em filmes de “não-comédia”, fator narrativo interessante, mas vulgarizado e, não raro, muito mal utilizado não só no cinema norte-americano. E o desfecho da sequência, então? Se na primeira parte o ápice da cena mantinha relação com as ideias originais de “M:I”, aqui, sucumbe-se ao clichê de qualquer filmeco de Domingo Maior da Globo: o bandido, com uma arma apontada para o mocinho, não apenas hesita em atirar como ainda desata a expor suas frustrações pueris – as quais só servem para que, mais adiante, ele, bandido, fique com aquela raiva incontida por não ter matado quando deveria.
Diferentemente do primeiro da saga ou de “Missão Impossível: Protocolo Fantasma” (Brad Bird, 2011), ambos bem escritos, o roteiro de “Fallout” o faz ser mais um entre milhares de filmes norte-americanos de alto orçamento e grande estrutura de marketing a serviço de uma obra fraca. Não é de se estranhar, pois não é para ser diferente, uma vez que o filme funciona para aquilo que se propõe, ou seja, reafirmar o status quo belicista e intransigente dos Estados Unidos. Para isso, as repetições ideológicas de sempre: idolatria à figura do mocinho macho, intrépido e sedutor, reafirmação do capitalismo e da supremacia yankee e alerta para a ameaça daquilo que difere desse sistema e ideologia.
Isso tudo, claro, apresentado de forma competente tecnicamente e em cenas altamente ágeis, tanto no que se refere a movimentos de câmera, edição ou efeitos. Neste sentido, McQuarrie mostra-se muito hábil. Tudo muito bonito, mas vazio, vazio. Os diálogos vão caindo à medida que a história avança. E o aproveitamento excessivo dos elementos peculiares da série acaba por desgastá-los. Afinal, como acreditar em um filme em que dois helicópteros colidem no ar, não explodem e, ainda por cima, os tripulantes não morrem? E pior: mal se machucam?! Não se trata de missão impossível: é missão improvável.
Afora isso, até Cruise, embora ainda bonito mas em irreversível fase de “embofamento”, parece ter perdido a naturalidade. Nada que comprometa o filme (afinal, não é a profundidade expressiva dos atores que mais conta aqui), mas ele, grande ator, mantém agora o rosto praticamente sem expressões, bem diferente do que normalmente fora enquanto tinha uma feição jovem e do próprio personagem Ethan Hunt, afeito a caras e bocas. Parece não querer desmanchar a figura do galã dos tempos áureos de “Top Gun” ou “Jerry Maguire” – o que, obviamente, já não o mais é.
Chega a ser maldoso comparar o resultado de McQuarrie com o de um mestre do cinema como Brian de Palma. Porém, o “M:I” do diretor de “Dublê de Corpo” e "Scarface", em seu roteiro, além de privilegiar os artifícios da investigação, vai até o limite do aceitável nos arroubos. Como no primeiro "Duro de Matar" – outro bom exemplo de aventura em que se valoriza o “realismo” das ações de maneira a tornar a obra mais atraente e dialogável com o público –, o longa de De Palma também “estica a corda” do cabível tal como se usa em qualquer aventura hollywoodiana. Entretanto, nunca a ponto de perder a credibilidade pela tentação do efeito mimético que o absurdo gera ao valer-se da absorção do espectador para, justamente, mascarar-se por detrás do choque sensorial que a sétima arte é capaz de provocar com tanta eficiência.
Filmes como "Efeito Fallout" parecem dar vida ao que o célebre roteirista Jean-Claude Carrière sarcasticamente chamou de "filme-monstrengo", ou seja, um "filme bem dirigido, mas mal escrito".
Vale assistir “Efeito Fallout”? Despindo-se de entendimentos mais profundos e abstraindo-se as barbaridades que se irá presenciar, será divertido, principalmente numa sala de cinema. Mas que dá vontade de voltar pra casa e ver Ethan Hunt pendurado por um cabo em uma sala de sensores de movimento para roubar um simples disquete, ah, dá.
Haja fôlego por Vágner Rodrigues
Vou ser sincero, eu gostei desse tiro.
Não sei dizer se a franquia continua com a mesma força, mas assim como Tom Cruise correndo, uma coisa é certa: ela não perdeu o fôlego.
Quando uma importante missão não sai como o planejado, Ethan Hunt (Tom Cruise) e o time do IMF unem forças em ação numa corrida contra o tempo para acertar as contas com os erros do passados.
Como a maioria dos filmes de ação modernos, "Missão: Impossível - Efeito Fallout" é uma bagunça no roteiro. Cheio de viradas e mudanças de lado entre os personagens, e vai e volta, não se sabe quem é amigo ou inimigo... É uma confusão! Devo confessar que cheguei mesmo a ficar perdido em determinado momento. O que compensa é a ação.
Tecnicamente o filme tem grandes acertos. O direto Christopher McQuarrie tem um ótimo controle de câmera, sabe filmar ação, suas sequências de perseguição seja de carro, moto ou helicóptero, são simplesmente espetaculares. A trilha também é algo que chama muito atenção no modo como dialoga bem com as cenas, fazendo realmente parte delas, o que é espetacular ainda mais que o tema da franquia aparece tocado várias vezes em ritmos diferentes.
Que Tom Cruise é louco não é nenhuma novidade, mas que é uma ótima loucura, isso é! O fato de ele fazer todas suas cenas de ação, sem dublês, faz com que o filme use menos efeitos e jogos de câmera nas seqüências de luta, tornando a ação mais frenética e também mais real. Fora Tom, que esta sempre bem nos filmes da franquia, o restante do elenco cumpre bem seus papeis, com destaque para Henry Cavill que achei que não fosse gostar de seu personagem, mas até que acabou entregando algo; e Rebecca Ferguson, que consegue desenvolver um bom papel feminino de bastante força.
"M:I 6" é cheio de homenagens e referências aos filmes anteriores da franquia repetindo, por exemplo, a cena da escalada na montanha. Se a historia está cada vez mais um fiapo, o que resta é se agarrar à ação e à adrenalina de “Missão Impossível” e às loucuras de Tom Cruise. Você não só não vai se arrepender, como ainda vai sair cansado de tanta ação.
Tem coisa mais linda e estranha que o Tom correndo?
Paul Verhoeven pode não ser dos diretores mais elegantes no que diz respeito à sua obra, com algumas coisas bem toscas e sua tradicional violência exacerbada, mas não há como negar que, entre erros e acertos, o diretor holandês já colocou alguns de seus filmes na galeria de clássicos do cinema como é o caso do icônico "Robocop", do polêmico "Instinto Selvagem" e do frenético "O Vingador do Futuro", eletrizante ficção científica de ação que, encorajada por sua dinâmica e potencial, ganhou há alguns anos atrás uma nova versão cinematográfica. O problema principal do remake de "O Vingador do Futuro", de 2012, é que ele tenta se levar a sério demais. Quer tomar um viés político, social, até ecológico. O instigante argumento, baseado no conto de Philip K. Dick ("Blade Runner" e "Minority Report"), é mais bem aproveitado na versão original que é muito mais descontraída que a última, sem chegar a cair exatamente na comédia. A leveza, mesmo entre tiros, explosões e naquele momento o recorde de mortos em filmes de ação, se deve em grande parte à figura do carismático Arnold Shwarzenegger que, mesmo com suas inegáveis limitações de atuação, mesclava como poucos, especialmente naquele momento da cerreira, a capacidade de encarnar o brutamontes durão ao mesmo tempo que fazia o bobão cômico. Já no novo, a estrela principal é Colin Farrell, de quem já não gosto muito mas que, independentemente da minha opinião pessoal, não há como negar que não chega perto do carisma de Shwarzenegger. Ele até se esforça, faz lá uma gracinha que outra mas, notoriamente, está concentrado em sua missão, está compenetrado, está preocupado e isso torna seu personagem chato e distante.
Douglas Quaid (Shwarzie no original e Farrel no remake) é um operário de mineração que, cansado de sua vidinha rotineira é seduzido por um anúncio da empresa Rekall que promete implantes de memória que serão como férias realmente vividas em sua vida com a opção de incrementar a aventura e assumir outra identidade, outra atividade. Quaid escolhe ser agente secreto mas no momento do implante de memória algo dá errado (ou parece dar) e nos é revelado que aquele cliente já tinha um implante anterior e que não seria quem achava que era. Com a diferença que o primeiro Quaid queria férias em Marte e o segundo na União da Bretanha, o centro urbano e administrativo de um planeta Terra semidestruído por uma guerra química, a ação se desenrola em ambos, desenfreadamente, a partir do momento que Quaid sai da Recall. Tudo é muito parecido mas no de 1990 tudo é mais charmoso e cativante, até mesmo os defeitos como, por exemplo, os cenários de Venusville, a zona do meretrício de Marte, bem primários mas... o que seria de "O Vingador do Futuro" sem eles?
A refilmagem tem a vantagem do avanço dos recursos tecnológicos mas os efeitos visuais do original não ficam devendo em nada mantendo-se até hoje como referência no quesito. A cabeça-bomba da "mulher das duas semanas" e o raio-X no terminal de passageiros, os rostos inchando até os olhos quase saltarem das órbitas quando Quaid e Melina ficam expostos à atmosfera de Marte, a própria reprodução da superfície do planeta baseada em imagens obtidas pelas sondas da NASA são impactos visuais que não serão esquecidos facilmente.
"O Vingador do Futuro" (1990)
cena do disfarce no terminal de passageiros em Marte
"O Vingador do Futuro' (2012)
cena do disfarce no terminal de passageiros da UFB
(referência à cena do original)
Além disso tem os personagens periféricos, muito mais cativantes, cada um a seu modo na versão primeira: Lori, a esposa, está muito melhor na pele de Sharon Stone do que da "soldadona" Kate Beckinsale, embora a disputa seja acirrada no quesito beleza; Melina, a agente do original (Rachel Ticotin) é muito mais simpática do que a do remake, Jessica Biel, feminina e carinhosa quando é pra ser mas durona na medida certa, e até por isso, mais carismática; Cohaagen na nova versão é quase um ninja, enfrentando no braço, de igual para igual o agente Houser (Quaid) numa das cenas decisivas do novo filme, ao passo que no anterior era somente, e muito apropriadamente, só mais um empresário bundinha bem filha-da-puta.
E tinha o Benny do táxi que tinha sete filhos pra criar; tinha o capanga, o cara que explode a cabeça de outro no "Scanners" do Cronenberg (Michael Ironside), e que sempre fazia bons vilões; e tinha o Kuato que ficava na barriga de um cara nos subterrâneos de Marte... e na refilmagem sequer tem um Kuato! Onde já se viu? O remake até faz algumas referências ao velho como à gorda na estação de embarque, à mutante de três seios, mas soam tão jocosas que, se foram homenagem, soaram mais como um injustificável escárnio.
"O Vingador do Futuro" 1990, de Paul Verhoeven ganha com facilidade. Não goleia, mas faz aquele 2x0 clássico, sem esforço. Tem melhores jogadores, melhor técnico e mais conjunto. O filme de Len Wiseman até é esforçado, tem suas qualidades, joga alguma bola, é verdade, mas, me desculpe..., Clássico é Clássico!
O momento em que as memórias são implantadas em Quaid, na Recall, em cada uma das versões.
Ambas os filmes deixam a dúvida se tudo o que acontece a partir dali foi real ou não.
Num jogo corrido, Paul Verhoeven confirma que no mata-mata, ele é o cara e não tem pra ninguém.
Alfred Hitchcock, se fosse um técnico de futebol, seria
daqueles que mostram talento ainda jovens, quando dirigia suas primeiras e pequenas
equipes do futebol inglês. Nascido na última década do século XIX, no pacato condado
de Essex, situado a sudeste da Inglaterra, aquele gordinho reprimido não tinha porte nenhum para ser um astro dos gramados (ou das telas). Porém, inteligente
e detalhista, dava toda a pinta de que seu negócio era comandar os outros com a
cabeça. Das primeiras experiências no teatro, ainda na década de 10, não
demorou muito para que, já em Londres, passasse a se aventurar naquela nova
arte a qual, no período da transição entre o cinema mudo para o falado, início
dos anos 30, ajudou a formar a gramática tal como se conhece hoje. Um dos
filmes dessa época é “O Homem que Sabia Demais”, de 1934, a primeira versão de
um clássico que o próprio diretor refilmaria em 1956. Porém, em outras
condições bem diferentes.
Mas para entender o porquê do remake – bem como qual é o
melhor entre os dois, nosso objetivo – devemos voltar à carreira de Hitchcock.
Com filmes como “Jovem e Inocente”, “Os 39 Degraus”, “Agente Secreto” e o
próprio “O Homem...”, o exigente professor Hitch, como seus jogadores
respeitosamente o chamavam, fez belas campanhas no futebol inglês, levando
times de orçamento modesto a bons resultados. Era período de entre-Guerras na
Europa, a grana andava curta e mal tinha pra pagar a folha dos atletas. Mas apertando
daqui, inventando uma trucagem dali, usando a criatividade na mesa de edição e
valendo-se do já diferenciado senso de enquadramento que tinha, Hitchcock
conseguiu, se não montar times campeões, pelo menos de futebol vistoso.
Resultado? Aquilo que acontece com talentos emergentes: ganhou vitrine. Em
1940, Hollywood compra seu passe. É como se o cara estivesse comandando um time
mediano na segunda divisão e fosse contratado direto por um clube da principal
liga de futebol mundial. A partir de então, Hitchcock só voltaria à sua
Inglaterra se quisesse. E voltou.
Foram 19 filmes nos 22 anos que separaram o primeiro “O Homem...”
do remake, boa parte clássicos sagrados da cinematografia mundial. O ponto
importante deste ínterim, contudo, como em todo o retrospecto de
Hitchcock, é a progressão exponencial de sua obra em todos os quesitos, seja em
conceito, desenho de cena, fotografia, edição, efeitos e condução. Hitch
avançava de uma produção para a outra, trazendo quase que invariavelmente
inovações técnicas e narrativas que o fizeram consagrar-se já àquela época como
principal cineasta dos Estados Unidos. Um mito ainda vivo. Para se ter uma ideia desta evolução, “Interlúdio” (1946),
considerado um dos maiores filmes dos primeiros 50 anos do cinema à sua época;
“Pacto Sinistro” (1951), noir com a assinatura do mestre do suspense; e “Janela
Indiscreta” (1954), para muitos, seu maior filme, são três exemplos de uma
sequência de realizações perfeitas de sua filmografia neste intervalo de tempo. A cada projeto, um considerável passo rumo à
excelência. A cada nova temporada, um time melhor e mais artilheiro.
A segunda versão de “O Homem” faz parte desta linha
progressiva estilística e narrativa de Hitchcock – que desembocaria, dois anos
depois, em “Um Corpo que Cai” e, outros quatro, em “Psicose”, seus dois mais
aclamados. Um filme tão clássico que só os aficionados ou curiosos para saberem
da existência de uma versão inglesa antecessora e feita pelo próprio diretor. Ao
rodar “O Homem” pela segunda vez, em que parte das filmagens ocorrem na sua
Inglaterra (e a qual retornaria apenas em 1972, para filmar “Frenesi”), era
como se o já tarimbado técnico, depois de conquistar o mundo e dirigir os principais
times de sua época, fizesse questão de vestir novamente a camiseta daquele que o projetara.
Mas, agora, com a estrutura de grande clube, com investimento dos cartolas e
plantel estelar com direito a Doris Day e James Stewart como casal norte-americano McKenna, ao invés dos ingleses Bob e Jill Lawrence, vividos por Leslie Banks e Edna Best no primeiro.
"O Homem que Sabia Demais"(1934) - completo
"O Homem que Sabia Demais"(1956) - principais cenas
“O Homem” de 1956 faz jus ao reconhecimento que tem. Neste, a equipe inteira bate um bolão. Thriller com suspense, aventura e espionagem na
medida certa entre tensão e distensão; cenários vistosos; roteiro envolvente; interpretações
marcantes; e sequências/cenas históricas. Falando assim, parece que o jogo já
está resolvido antes de a bola rolar em favor do time mais novo, colorido,
abastado, tecnicamente perfeito, né? Mas não é exatamente assim, pois quando o
juiz apita é o mesmo esporte que ambos os adversários estão disputando.
Dotado
de qualidades inquestionáveis, “O Homem” de 1934 guarda elementos fundamentais
que inspirariam o remake, como o argumento (o sequestro da/o filha/o de um
casal de turistas por malfeitores ao se envolverem acidentalmente em uma trama
internacional de assassinato) e a proposta funcional dos personagens (o pai
destemido em busca de seu rebento; o assassino cruel e amoral; a religiosa
perversa; a mãe desesperada mas atuante, etc.). Ou seja: a ideia basal estava
lá nos tempos de vacas magras – o que acaba por ser um elogio, visto que o
cineasta tirou “leite de pedra” de um projeto tão ousado para a época. Quase
gol, aquela que pega na trave e assusta. Até mesmo algumas cenas são
"reaproveitadas" de um filme para o outro, como a da missa na capela,
inclusive no tom misto de suspense e comédia. Igualmente, a clássica sequência
do concerto no Royal Albert Hall, em Londres, cenário para ambas as produções,
muito parecidas em montagem, trilha e enquadramento, e que Hitchcock refez em
tecnicolor nos anos 50.
Depois de dar um susto com uma bola no poste, tanto pela sequência
do concerto quanto pela ágil edição da cena inicial do esqui nos Alpes da Suíça, que
impacta o espectador já nos primeiros segundos de filme, o time do antigo “O
Homem”, surpreendendo a todos, larga na frente mal a bola começa a rolar. Aí,
não demora muito, meio que desnorteado, o filme de 56, que entrou em campo
cadenciando o jogo, sofre novo golpe. Sabe aquele meia habilidoso e experiente entre
os “pratas da casa” que foi contratado do futebol alemão? Um com histórico de
mau comportamento, que atende pelo nome de Peter Lorre – e cuja camiseta não
tem um número, mas sim uma estranha letra “M“ estampada... Sim, ele, o raçudo jogador apelidado pela fiel torcida de "Vampiro de Düsseldorf" por chegar "mordendo" seus adversários, com a rara
qualidade de um dos maiores de todos os tempos em sua posição, marca mais um
gol numa bucha de fora da área. Impiedoso como o seu personagem, o matador Abbott.
Para surpresa geral, são 10 minutos de partida e já está 2 x 0 para o time de 34!
Como fez Didi após o gol de Liedholm para a Suécia na final
de Copa de 1958, James Stewart, que não era capitão mas um líder nato da equipe
como o autor da “folha seca”, pega a bola calmamente de dentro da rede e a leva
para o círculo central. Ninguém quer sair em tamanha desvantagem assim, obviamente,
já nos primeiros minutos, mas tem muito tempo de partida ainda. Guiados pelo
talento de Stewart – o melhor mocinho hitchcockiano disparado – e pela mão
firme do seu técnico, que confia no esquema tático proposto, o time mais novo
põe a bola no chão e naturalmente faz valer a sua visivelmente melhor qualidade
técnica. Consertando passagens mal resolvidas do primeiro (como a dramaticidade
da aflição dos pais ao saberem do sequestro), dando-lhe maior unidade narrativa
(o segundo tem aproximadamente 1 hora a mais de duração) e, principalmente, criando
cenas novas (como a da loja de taxidermia) e recriando outras (a morte do
espião a céu aberto no Marrocos ao invés de uma festa confinada na Suíça), o
remake marca, ao natural, o primeiro, o segundo, o terceiro e o quarto. O
primeiro tempo se encerra, e apenas um time agora domina as ações.
No segundo tempo, com o time encaixado, “O Homem” de 56
segue com maior posse de bola, fazendo um quinto gol com a nova sequência no Albert
Hall, que passa a ter 12 minutos de duração (6 a mais do que o original) e onde
o mestre do suspense se esbalda em técnica, reaproveitando a ideia do primeiro, mas refinando-a
em todos os aspectos: fotografia, trilha, cenografia e principalmente, edição.
É como se uma jogada bonita fosse ensaiada e reensaiada exaustivamente até funcionar
como que (ou literalmente) por música. Desnorteado, o filme de 34 se perde
totalmente em campo e apresenta um final medíocre, apressado, querendo que o
jogo termine logo. A sequência do tiroteio dos bandidos com a Scotland Yard,
muito mal concluída com o tiro desferido pela própria Jill (que arranca a arma
das mãos do policial, que não oferece nenhuma resistência...) é, convenhamos,
sofrível. Nada comparada à brilhantemente tensa cena da resolução da trama na
escadaria na casa do embaixador em que a sintonia entre a música que Jo McKenna está
tocando ao piano com a ação do marido, que resgata o filho das mãos dos
bandidos naquele momento, fecha o placar com o gol de misericórdia. É goleada!
O juiz, em respeito ao próprio Hitchcock, tanto o vencedor quanto o perdedor, não
dá nem acréscimos. Final de partida: 6 x 2 para o remake de “O Homem”.
Sequência do concerto no Albert Hall (filme 1934: 6 min - filme 1956: 12 min)
Na coletiva, depois daquelas perguntas sem grande serventia,
como: “Qual a sua emoção ao voltar a treinar um time na Inglaterra depois de tanto
tempo fora do país?” ou “Por que o senhor, que sempre entra em campo em algum
momento, não faz sua tradicional ‘ponta’ justo neste que é tão vencedor?”, um repórter, finalmente, faz a pergunta que os colegas deveriam ter feito: “Professor
Hitchcock: por que o senhor decidiu refilmar ‘O Homem’ e por que esta nova
realização é melhor que a primeira na sua opinião?”. A resposta veio com a
sabedoria de quem conhece como ninguém as quatro linhas – as do gramado e a das
telas: "Vamos dizer que a primeira versão é o trabalho de um talentoso
amador e a segunda foi feita por um profissional." Entrevista encerrada,
mas a torcida aguardava seus ídolos na saída. A galera, extasiada, ovacionava
principalmente o seu técnico cantando a plenos pulmões: “o professor Hitch é o
homem que sabe demais!”
À esq., cenas de "O Homem que Sabia Demais" de 1934, cuja diferença para o remake de 1956 não é apenas do p&b para o colorido, mas também a lente Panavision mais ampla. Mas vamos aos enfrentamentos! Bem acima, os dois vilões: o craque Peter Lorre e o apenas competente Bernard Miles, quesito que pôs um dos gols na conta do time mais antigo. Mas na sequência, o escrete de 1956 começa o seu passeio (e passeio sem sequestro de criança, viu!?). Na cena do telefonema dos sequestrados para os pais, a tomada em plongê com Doris Day e James Stewart, que virou uma marca do filme. Na terceira fila, a tomada quase idêntica da arma que atira no diplomata entre as cortinas do Royal Albert Hall. Por último, o espião após levar um tiro confidencia aos protagonistas (no filme de 34, à mãe, e no de 56, ao pai): o cineasta aperfeiçoa os mínimos detalhes desta importante cena para a trama na refilmagem.
Sinceramente, foi quase covardia colocar esses dois para
disputar uma partida, algo comparável aos sêniores contra os profissionais em
plena forma. Mas campeonato é assim. E olha que teve até susto no início do jogo com “O Homem” dos anos 30 marcando 2 logo de
cara. Mas com a bola no pé, não deu outra: o time de 56 tomou conta das ações e ninguém mais segurou
este que um dos maiores clássicos da filmografia do professor Hitch. Futebol
inglês, afinal, também pode ser bonito.
A premiação do Oscar, às vezes, depende da configuração dos astros. Mas não os daqui da Terra, aqueles que estrelam os milionários filmes de Hollywood e, sim, os que estão no firmamento e que comandam os movimentos do universo. Isso talvez explique por que há casos em que determinado cineasta não ganha a estatueta por filmes que merecia mas, curiosamente, seja premiado justamente por um não necessariamente o seu melhor trabalho. Isso já aconteceu com Martin Scorsese, por exemplo. Várias vezes indicados por grandes filmes durante quatro décadas, só foi receber o Oscar em 2006, por “Os Infiltrados”, obra, sim, carregada de seus elementos fílmicos, mas não uma obra-prima como “Os Bons Companheiros” ou “Touro Indomável”. E tudo bem. Antes tarde do que nunca.
Algo semelhante deve ocorrer com outro desses multi-indicados ao Oscar neste ano: o cineasta norte-americanoPaul Thomas Anderson. Ele provavelmente concorrerá com o empolgante “Uma Batalha Após a Outra”, o qual tem boas chances de levar para casa o título tanto de Filme quanto de Direção. Porém, por melhor que seja, e semelhantemente a seu mestre Scorsese, não supera aquilo que ele mesmo já fez, no caso, as obras-primas “Magnólia”, “Boogie Nights: Prazer sem Limites” e “Sangue Negro”. Indicado 16 vezes ao Oscar tanto como roteirista quanto como diretor, Anderson, porém, tem tudo para, desta vez, emplacar com sua nova e fabulosa aventura cômica sobre os limites do extremismo político.
Na trama, Bob (Leonardo DiCaprio) e Perfidia (Teyana Taylor) fazem parte do grupo revolucionário antifascista 75 Franceses. Eles têm como missão mudar o mundo a partir da fronteira entre os Estados Unidos e o México por meio de atos de terrorismo doméstico, principalmente em defesa dos imigrantes. Mas tudo dá errado quando Perfídia é capturada por seu arqui-inimigo, o Coronel Steven J. Lockjaw (Sean Penn). 19 anos depois, Perfídia se foi, e Bob, agora drogado e paranoico, vive isolado de qualquer façanha revolucionária, dedicado à criação de sua filha adolescente, Willa (Chase Infiniti). Enquanto isso, Lockjaw aspira se juntar a um tipo de organização maçônica elitista e supremacista, mas tem medo que segredos de seu passado venham à tona. A decisão, então, é eliminar qualquer vestígio de evidência, algo que Bob será forçado a sair da inércia e impedir.
Com a edição caprichada de sempre, a excelente trilha do “Radiohead” Johnny Greenwood, cenas tecnicamente perfeitas e – também como sempre – direção de atores muito bem conduzida por Anderson, trata-se de um filme distinto e, ao mesmo tempo, necessário para estes tempos de polarização política no mundo. Senhor de algumas das melhores cenas da história do cinema dos últimos 30 anos, como a da explosão do poço de petróleo em "Sangue..." ou o plano-sequência da festa de ano novo de final trágico de "Boogie...", Anderson não deixa por menos em "Uma Batalha...". São várias as ótimas cenas do filme, espacialmente a da perseguição de carros na estrada com declives em que se vale de movimentos de câmera muito bem pensados e diferentes lentes para adicionar uma sensação de vertigem à eletrizante ação.
Ao passo que escancara a fragilidade e o isolamento existencial provocados pela utopia da extrema-esquerda, o filme também evidencia o quão patéticos são os poderosos fascistas travestidos de liberais. O que estes têm é poder e dinheiro, mas nenhuma ética ou sensibilidade humanística. Os radicais revolucionários, no entanto, embora também criticados, são, no fim das contas, desculpados em sua inocência por Anderson, pois estão a serviço de uma causa maior. Igualmente à regeneração dos viciados em sexo e drogas de “Boogie...”, ou à memorável chuva de sapos de “Magnólia”, responsável por render as pessoas ao perdão, em seu novo filme o diretor mostra que “a batalha continua”. Uma após a outra, uma a cada dia para desbancar esse mundo perverso e assassino da classe dominante.
Sean Penn brilhante no papel do escroto (e patético) Coronel Steven
Afora Anderson e seu filme, o Oscar pode também cair no colo Penn ou Del Toro como Ator Coadjuvante. Para qualquer um dos dois, se vier, está bem entregue. Já a categoria de Ator, por mais que DiCaprio desempenhe como só ele sabe fazer, em princípio parece que, nesta corrida, ele perde para outros concorrentes, inclusive Wagner Moura por “O Agente Secreto”. É outro caso de oscarizado que já fazia por merecer há bastante tempo até, enfim, recebê-lo por “O Regresso”, em 2015. Desta vez, não parece que a Academia esteja disposta a premiá-lo novamente.
Premiado ou não, DiCaprio está impecável. Poucos ou nenhum ator da atualidade é capaz como ele de dar a medida certa a personagens tão desiguais como Bob. Não à toa diretores como Scorsese, Clint Eastwood, Quentin Tarantino e Alejandro González Iñárritu procuram-no, pois DiCaprio é hábil nesses papeis de difícil equação. Como Bob, ele vai da candura ao cômico, da insegurança à histeria sem perder o fio. Há algo neste papel de Jordan Belfort, de "O Lobo de Wall Street", de Randall Mindy, de "Não Olhe para Cima", e Rick Dalton, de "Era Uma Vez... em Hollywood", todos em que precisou exercitar extremos de expressividade cênica.
Quanto às chances do filme, embora mudanças possam ocorrer nessa última corrida até o Oscar, em março, ocorre que entre alguns dos principais concorrentes de “Uma Batalha...” estão títulos bem cotados para Filme Internacional, casos do norueguês “Valor Sentimental”, do franco-iraniano “Foi Apenas um Acidente” e, claro, do brasileiro “O Agente...”. Ou seja: esses possivelmente disputem entre si nesta segunda categoria, deixando-lhe o caminho mais livre. Já das outras produções norte-americanas, parecem ter menos força “Avatar: Fogo e Cinzas”, “Pecadores” ou mesmo “Bugonia”, “Jay Kelly” e “Hamnet”. A de Direção, um pouco mais descolada de Filme, é mais incerto, mas possível que vá para P.T. Anderson. Para alguém tão talentoso e que já bateu na trave tantas vezes, talvez os astros se alinhem desta para premiá-lo. Só ele sabe o quanto é necessário trilhar sua trajetória com um filme após o outro para, quem sabe, um dia receber o reconhecimento que há tantos anos merece.
Seja nas salas de cinema, pela Sessão da Tarde ou Corujão
da Globo, pelos VHS ou DVDs alugados, pela TV fechada ou streaming. Filmes mais
antigos ou mais novos. Com este ou aquele ator de protagonista.
Independentemente destas variáveis – todas cabíveis neste caso – os filmes da
série 007 encantam fãs de diversas gerações. Desde os que pegaram o nascer de
James Bond, há 60 anos quando do lançamento de “007 Contra o Satânico dr. No”,
primeiro da celebrada franquia inspirada no romance de Ian Fleming, até as
superproduções recentes, o famoso agente da MI-6, invariavelmente a serviço
secreto da Coroa britânica, tornou-se um dos mais queridos – e longevos –
personagens da história do cinema. Um ícone que excede os limites da tela.
Assim como super-heróis dos quadrinhos, figuras fictícias,
mas de tamanha realidade em sua existência que se tornam mais críveis que muita
gente de carne e osso, JB vive graças ao imaginário do público. Tal Batman,
Super-Homem ou Homem-Aranha, cujas características físicas, psicológicas e
visuais vão sendo manipuladas ao longo do tempo pelas mãos de diversos autores
tendo como base um conceito, este fenômeno acontece com 007 tendo ainda como
atenuante um fator: o de ele não ser um desenho, mas uma pessoa “de verdade”.
Quem ousa dizer que Pierce Brosnan ou Daniel Craig são menos James Bond do que
Sean Connery ou Roger Moore?
Connery, Lazemby, Moore, Dalton, Brosnan e Craig: qual o melhor James Bond?
Mas a idolatria a Bond e à série não se resume somente ao
ator que o interpreta - embora este fator seja de suma importância. A produção
caprichada e milionária, os efeitos especiais, a construção narrativa, os
lançamentos de moda e design, a trama aventuresca: tudo foi ganhando, à medida que a série ia tendo
continuidade, um alto poder midiático. As produções de 007 passaram a ser uma
vitrine que dita moda, tendências, comportamentos e parâmetros, inclusive na
indústria do cinema, uma vez que os filmes de espionagem nunca mais foram os
mesmos depois que este personagem foi parar nas telas. De certa forma, 007
acompanhou e desenvolveu muitas das invenções que o cinema de ação presenciou
ao longo deste tempo, funcionando como criador e criatura. Isso tudo sem falar
nos detalhes fundamentais: o charme canastrão de Bond, os vilões maníacos, a
beleza das bond girls, o tema original e as trilhas sonoras, as invenções estapafúrdias
de Q, as paisagens incríveis pelas quais se passeia (não raro, a quilômetros
por hora)...
Quem tem autoridade para dizer se tudo isso confere ou não
são, claro, os fãs. Por isso, convidamos 8 desses aficionados por James Bond
para nos dizerem três coisas: qual o seu ator preferido entre os que encarnaram
o espião ao longo destas seis décadas, qual a sua melhor trilha e,
principalmente, quais os seus 5 títulos preferidos da franquia. Todos eles
conhecem muito bem as artimanhas, os clichês, os truques, as piadinhas, as gags
e as viradas narrativas a ponto de antecipá-las mentalmente enquanto assistem
algum filme da série. Há longas melhores que outros? Qual o James Bond
preferido da galera? E das músicas-tema, muitas vezes oscarizadas, qual a mais “mais”?
Para isso, esse time de bondfãs foi chamado. Numa coisa, contudo, todos concordam:
é sempre uma emoção ver aquelas aberturas com efeitos especiais conceituais,
prólogo e, principalmente, aquela figura elegante surgindo de dentro do círculo
branco para virar-se na direção do espectador e atirar enquanto a toca a trilha
clássica de Monty Norman e John Barry. É a certeza de que, a partir dali, vem mais uma grande aventura de
Bond, James Bond.
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Rodrigo Dutra
formado em Letras e editor do Rodriflix (Porto Alegre/RS)
"Contra o Foguete da Morte": "Tá, filme ruim, mas o cara tá no bondinho do Pão de Açúcar... já vale 🤣🤣🤣"
Melhor James Bond:
Roger Moore
Filmes preferidos:
1. "007: O Espião que me Amava" (Lewis Gilbert, 1977)
2. "007 Contra Goldfinger" (Guy Hamilton, 1965)
3. "007 Contra o Satânico Dr. No" (Terence Young, 1962)
4. "007 Contra GoldenEye" (Martin Campbell, 1995)
5. "007 Contra o Foguete da Morte" (Lewis Gilbert, 1979)
Trilha preferida:
"Live and Let Die", Paul McCartney (filme: "Com 007 Viva e Deixe Morrer")
Christian Ordoque
historiador (Porto Alegre/RS)
Melhor James Bond:
Connery como JB mais velho jogando charme para Kim Basinger em "Nunca Mais..."
Roger Moore
Filmes preferidos:
1. "007 Contra Goldfinger"
2. "007 Contra o Foguete da Morte"
3. "007: A Serviço Secreto de Sua Majestade" (Peter R. Hunt, 1970)
4. "007: Nunca Mais Outra Vez" (Irvin Kershner, 1983)
5. "007 Contra Spectre" (Sam Mendes, 2015)
Trilhas preferidas:
"All the Time in the World" - Louis Armstrong (filme ""007: A Serviço Secreto de Sua Majestade")
"You Only Live Twice" - Nancy Sinatra (filme "Com 007 Só Se Vive Duas Vezes")
"Goldfinger" - Shirley Bassey (filme "007 Contra Goldfinger")
Luna Gentile Rodrigues
estudante (Rio de Janeiro/RJ)
As várias versões do poster de "Sem Tempo...", último filme da série, um dos escolhidos de Luna
Melhor James Bond:
Roger Moore
Filmes preferidos:
1. "Com 007 Viva e Deixe Morrer" (Hamilton, 1973)
2. "007 Na Mira dos Assassinos" (John Glen, 1985)
3. "007: O Mundo Não é o Bastante" (Michael Apted, 1999)
4. "007: Operação Skyfall" (Mendes, 2012)
5. "007: Sem Tempo Para Morrer" (Cary Fukunaga, 2021)
"GoldenEye" -Tina Turner (filme "007 Contra GoldenEye")
"Diamond Are Forever" - Shirley Bassey (filme "007: Os Diamantes São Eternos", 1971)
"On her Majesty's Secret Service" - John Barry (filme "007: A Serviço Secreto de Sua Majestade")
Vagner Rt
professor e blogueiro (Porto Alegre/RS)
Melhor James Bond:
1. Daniel Craig - "Ele bate sem cerimonia, foge do que esperamos do 007, por isso adoro ele."
2. Sean Connery - "Clássico e único, até hoje."
3. Pierce Brosnan - "Meu 007 da infância, de jogar do Nintendo 64."
Filmes preferidos:
1. "007: Quantum of Solace" (Marc Forster, 2008)
2. "007 Contra GoldenEye"
3. "007: Operação Skyfall"
4. "007: O Amanhã Nunca Morre" (Roger Spottiswoode, 1998)
5. "007 Contar Goldfinger""simplesmente clássico"
"007: O Amanhã Nunca Morre":
"Minha mãe era fã desses filmes então eles tem espaço no meu
coração, sem falar que foi o 007 da minha época"
Trilhas preferidas:
"Writing's On The Wall" - Sam Smith (filme "007 Contra Spectre")
"Skyfall" - Adelle
"Goldfinger" - Shirley Bassey
Leocádia Costa
publicitária e produtora cultural (Porto Alegre/RS)
Craig: melhor JB na opinião de Leocádia
Melhor James Bond:
Daniel Craig
Sean Connery
Filmes preferidos:
1. "007 Contra Spectre"
2. "007 Contra GoldenEye"
3. "007: Um Novo Dia para Morrer" (Lee Tamahori, 2002)
4. "Moscou Contra 007" (Young, 1964)
5. "Com 007 Viva e Deixe Morrer"
Trilhas preferidas:
"James Bond Theme" - John Barry (filme ""007 Contra o Satânico dr. No")
"Goldfinger" - Shirley Bassey
"GoldenEye" -Tina Turner
"Die Another Day" - Madonna (filme "007: Um Novo Dia para Morrer")
Clayton Reis
arquiteto, cartunista e blogueiro (Rio de Janeiro/RJ)
Melhor James Bond:
Roger Moore
Filmes preferidos:
1. "007: O Amanhã Nunca Morre"
2. "Com 007 Viva e Deixe Morrer"
3. "007: Operação Skyfall"
4. "007: O Espião que me Amava"
5. "007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro" (Hamilton, 1974)
Trilhas preferidas:
"Diamonds are Forever" - Shirley Bassey
"Tomorrow Never Knows" - Sheryll Crow (filme: "007: O Amanhã Nunca Morre")
"GoldenEye" - Tina Turner
"The World is so Enough" - Garbage (filme: "007: O Mundo Não É o Bastante")
"Live and Let Die" - Paul McCartney
A Garbage está entre as trilhas preferidas
Paulo Altmann
publicitário e blogueiro (Campinas/SP)
"Goldfinger", listado pela maioria e preferido de Altmann
Melhor James Bond:
Sean Connery
Filmes preferidos:
1. "007 Contra Goldfinger"
2. "007 Contra a Chantagem Atômica" (Terence Young, 1966)
3. "007 Contra o Satânico Dr. No"
4. "007: Operação Skyfall"
5. "Com 007 Viva e Deixe Morrer"
Trilhas preferidas:
"You Only Live Twice" - Nancy Sinatra
Daniel Rodrigues
jornalista, escritor e blogueiro (Porto Alegre/RS)
Moore: 0 James Bond mais querido pelos bondfãs
Melhor James Bond:
Roger Moore
Filmes preferidos:
1. "Com 007 Viva e Deixe Morrer"
2. "007: O Espião que me Amava"
3. "007 Contra Goldfinger"
3. "007: O Amanhã Nunca Morrer"
4. "007: A Serviço Secreto de Sua Majestade"
5. "007: Operação Skyfall"
Trilhas preferidas:
"Live and Let Die" - Paul McCartney
"GoldenEye" - Tina Turner
*********
Resultado final:
Melhor James Bond:
Roger Moore - 5 votos
Sean Connery - 2 votos
Pierce Brosnan e Daniel Craing - 1 voto
George Lazemby e Timothy Dalton - o votos
Filmes preferidos:
6 votos
"007 Contra Goldfinger"
5 votos
"007: Operação Skyfall" e "Com 007 Viva e Deixe Morrer"
3 votos
"007: O Espião que me Amava", "007 Contra GoldenEye" e "007: O Amanhã Nunca Morre"
2 votos
"007 Contra o Satânico Dr. No", "007 Contra GoldenEye", "007 Contra Spectre", "007 Contra o Foguete da Morte" e "007: A Serviço Secreto de Sua Majestade"
1 voto
"007 Contra a Chantagem Atômica", "007: Cassino Royale", "007 Contra o Foguete da Morte", "007 Na Mira dos Assassinos", "007: O Mundo Não é o Bastante", "007: Sem Tempo Para Morrer", "007: Quantum of Solace", "007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro" , "007: Nunca Mais Outra Vez", "007: Um Novo Dia para Morrer" e "Moscou Contra 007"