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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

cotidianas #107 - Nós, o chuchu


Dizem que, às vezes, as maiores descobertas da Astronomia se dão num momento casual. Um instante acidental, fortuito, como que sem querer. Mas é justo nesse lance aparentemente banal que a coisa pode se tornar absolutamente genial.
Sem a pretensão de tornar-me um nome célebre da História e juntar-me ao time de Newtons e Galileus, numa dessas situações ocasionais, cheguei à conclusão de um dos maiores enigmas da humanidade. Um problema nunca antes decifrado e perseguido pelos estudiosos desde que o mundo é mundo. Pois, meus estimados colegas de Via Láctea, informo-lhes, sem falsa modéstia, que desvendei a origem do Universo: viemos todos do chuchu!
Atônitos? Eu explico. Minha brilhante conclusão surgiu num despretensioso almoço quando, numa garfada que continha um pedaço da referida insossa hortaliça, refletia sobre como aquilo podia ser tão sem graça. Foi daí que, num lampejo de genialidade, fiz a ligação de duas indagações aparentemente sem conexão. A primeira era: ‘por que diabos Deus se prestou a inventar o chuchu!?’ Sempre me intrigou o fato d’Ele ter perdido tempo, com tanta coisa melhor pra fazer num tempo recorde de seis dias (já que no sétimo, pelo que se sabe, ele botou os pés pra cima pra curtir o Brasileirão com uma cervejinha do lado), criando um troço pretensamente comestível mas totalmente sem gosto ou cheiro. Porém, eu entendi. Meu raciocínio foi: as coisas são sólidas, líquidas ou gasosas, certo? Ok. Pois esta é a razão da existência do chuchu: não ser nenhum dos três estados. O chuchu, simplesmente, não é. O chuchu é o nada materializado.
A segunda conclusão veio na esteira desta, elucidando uma velha questão que aflige o Homem há séculos: ‘o que era o Universo antes de sua formação?’ ‘Qual era nossa matéria elementar antes do Big Bang?’ Óbvio, cara-pálida! A tal matéria desconhecida era, justamente, a única não-matéria do próprio Universo, ou seja, o chuchu. Um gigantesco e verdejante chuchu. A resposta estava debaixo de nossos narizes – muitas vezes naquela salada insípida que todos um dia tiveram o desprazer de comer. Era evidente! Deus não podia estar loucão! Tinha de haver uma explicação racional, divina, sublime, para algo tão inútil.
Fico imaginando agora como deve ter sido lindo o nascimento de tudo. Aquela explosão luminosa incomensurável e aquela chuva de bagaço, semente e casca verde por todos os lados, em todas as direções, formando todos os corpos celestes, os galáxias, os sóis, as nebulosas, os planetas e todas as coisas. Inclusive, nós.
Minha insuspeita teoria explica um bocado de coisas até então sem sentido, abrindo um novo paradigma para o conhecimento humano. Nesta lógica, nem os livros de Paulo Coelho ou a existência do George Bush são tão imprestáveis como se supunha. Deve haver, portanto, alguma utilidade para eles (embora, sobre isso, os cientistas ainda não tenham chegado a uma resposta).
Pois agora, quando lhe chamarem na rua de “chuchuzinho”, não leve a mal e nem tire quem lhe chamou para antiquado. A gíria é pré-histórica, concordo; mas porque é sinal de que reconheceram em ti algo de essencial, de embrionário, da gênese. Será um grande elogio, podes ficar orgulhoso. Aliás, a humanidade toda deve envaidecer-se. Somos esses seres pensantes incríveis, homo sapiens sapiens sapientes de quem somos, para onde vamos e, agora, de onde viemos. Ó, Herbácio-Rei! A ti louvamos, sechium edule! E viva a espécie humana!
Estou imensamente feliz com minha descoberta, mas, disso tudo, confesso que uma duvidazinha ainda me aporrinha: afinal... por que o chuchu é quase de graça na feira?



sábado, 8 de outubro de 2011

Crosby, Stills, Nash & Young - "Dèjà Vu" (1970)





Um disco memorável... lembrou?



"'Déjà Vu': expressão francesa que significa, literalmente, já visto.
Termo usado para indicar
um fenômeno de origem neurorítmica
que acontece no cérebro que faz com que tenhamos a impressão
 de já termos visto, presenciado ou experimentado
 uma sensação anteriormente."


Para recordar a origem deste déjà vu, o quarteto surgiu a partir de desmembramentos de bandas de sucesso. David Crosby e Graham Nash tiveram músicas negadas pelos componentes dos grupos que participavam: o The Byrds e o The Hollies, respectivamente. Estes conjuntos, por estarem consolidados perante o público, tinham um apelo nas composições cada vez mais puxando para o pop. Desta insatisfação e desvirtuação artística aliado ao fim do Buffalo Springfield, de Stephen Stills e Neil Young, o resultado foi essa química que culminou num excelente álbum que mistura rock, country, folk e blues: o Dèjà Vu.

Retrocedendo um pouco, em 1969, Crosby, Stills e Nash já haviam lançado um grande disco, com título homônimo. Já nessa ótima fase que entra Young. O quarteto havia realizado diversas apresentações marcantes, tendo como especial a do Woodstock, sendo aclamados pelo público presente como um dos melhores shows do festival.

Além de Déjà Vu, Neil Young só voltou a gravar com seus parceiros (conhecidos pela sigla CSNY) no álbum Looking Forward, de 1999. Segundo Nash, foram 800 horas de estúdio para conceber o Dèjà Vu. Um disco bem dividido nas participações e nas composições. Ou seja, duas músicas para cada um, com a exceção da última, parceira de Stills e Young. Apenas uma é versão da cantora canadense Joni Mitchell. O álbum também conta com as participações Dallas Taylor (bateria e percussão) e Greg Reeves (baixo). A importância dos dois é tão relevante que estão na capa com seus respectivos nomes creditados. Esse registro impressiona pela combinação das quatro vozes, numa sincronia perfeita muitas vezes, e pelas afinações dos violões, bem atípicas.

Já que foi referida a combinação de vocais, um exemplo é Carry on, a primeira faixa. A música é praticamente cantada pelo quarteto CSNY (uma espécie de ópera), com leve destaque para a voz de Nash. Em certa parte, a canção migra para um ritmo oriental, talvez uma influência de Sargent Pepper´s, dos Beatles. Além disso, conta com um baixo bem elaborado de Reeves. Teach your children é um dos grandes hits do álbum, com uma levada extremamente country. A letra também é interessante de se destacar: “Teach your children well, Their father's hell did slowly go by, and feed them on your dreams. The one they picked, the one you'll know by” (Ensine bem suas crianças, porque o inferno dos pais delas vai passando devagar. E alimente o sonho delas, o que elas escolherem, aquele que você ficará sabendo). Essa música tem a contribuição de Jerry Garcia, do Grateful Dead, que toca uma pedal steel guitar (aquela guitarra elétrica “deitada” que se usa um bastão de metal).

Em Almost Cult my hair, Crosby monopoliza o vocal, com um som mais rock. Tem dois solos de guitarra simultâneos, bem característico do The Byrds. Adiante, com muita melancolia e desespero, vem Helpless, primeira contribuição de Neil Young mais destacada. A música é bem ao seu estilo, que consolidou sua exitosa carreira solo.

Como já referido antes neste texto (lembram?), uma música não é de autoria do CSNY e é justamente Woodstook. De certa forma, tem um forte vinculo com o grupo. Isso porque a compositora Joni Mitchell era namorada de Nash durante o período do festival, que intitula a música. Stills apresenta um vocal agressivo, comparado com outras canções do disco, além de uma pegada rock, com guitarras mais estridentes. Já Déjà vu é a mais psicodélica, apesar dos instrumentos convencionais, principalmente os violões. No início, ocorre um erro proposital, com Crosby fazendo a contagem para retomar a canção. Esta começa em ritmo acelerado e logo tem uma grande quebra, para deixar numa atmosfera mais “viajante” a quem escuta. Quem sabe seja uma situação déjà visite, um estranho conhecimento de um novo lugar.

Num momento déjà vécu (já visto) tem Our house com Nash cantando e comandando o piano. De certa forma, recorda algumas composições de Paul McCartney como, Lady Madona, por exemplo, junto com Fixing a hole, de John Lennon, isso de forma mais lenta. É uma balada bem interessante do disco. Em 4+20 a conta fica por responsabilidade de Stills, somente ele e violões. Mas também, não precisaria de mais. É a música mais introspectiva, que basicamente fala da perda de uma mulher, tendo como destino cair “nos abraços do diabo”, isso por causa de pensamentos negativos.

Country girl tem a volta de Young ao vocal principal e é a música mais produzida do disco, que contêm diversos instrumentos de cordas e percussão, além de pianos para deixá-la mais “épica”. Já a faixa Everybody I love you fecha esse registro com aquela já escrita fusão de vozes nunca vista, um jamais vu. Stills solta a voz com os seus graves em alguns momentos. O álbum termina com todo vigor e energia.

Talvez no final deste texto, você já tenha esquecido algumas coisas que escrevi. Mas, no final das contas, esse disco vai ficar muito provavelmente armazenado na memória em longo prazo do seu cérebro. Se algum dia você tiver um ótimo déjà senti musical, pode ter certeza que este álbum pode ter proporcionado este sentimento.

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FAIXAS:
1 Carry On (Stills) 4:25
2 Teach Your Children (Nash) 2:53
3 Almost Cut My Hair (Crosby) 4:25
4 Helpless (Young) 3:30
5 Woodstock (Mitchell) 3:52
6 Déjà Vu (Crosby) 4:10
7 Our House (Nash) 2:59
8 4 + 20 (Stills) 1:55
9 Country Girl (Young) 5:05
10 Everybody I Love You (Stills, Young) 2:20

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Ouça:

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

ELVIS

The Kinks - Kinks (1964)


"Podem estar certos que
 os Kinks não lançarão nada
a menos que gostem."
Brian Sommerville,
do texto da contracapa do disco de 1964.



Outro daqueles casos dos que não vieram com a mudança.
Meu irmão tinha o "Kinks" (1964) em cassete em Porto Alegre, aí quando vim pro Rio, eu trouxe o que podia mas sem desfalcar muito a discoteca dele. Chegando aqui tive que refazer boa parte da minha coleção e foi uma longa recontrução. Mas como eram muitas coisas que tinha deixado tive que eleger prioridades e nessas o Kinks acabou ficando pra trás. Me contentava em ter "You Really Got Me" no MP3 e era isso... Cara! Onde é que eu tava com a cabeça?
Acabei de readquirí-lo e sua nova audição, depois de alguns anos sem ele, só me fizeram admirá-lo mais ainda. Álbum genial e extremamente influente pro rock contemporâneo.
Além do já mencionado clássico, pesado e sujo, "You Realy Got Me" que dava nome à edição americana do álbum, também são incríveis as versões pra Chuck Berry, "Beautifull Delilah" e "Too Much Monkey Business"; a cover enloquecida de Bo Diddley, "Cadillac"; o gospel cáustico de "Bald Headed Woman"; o blues selvagem "Got Love if You Want It" com aquela bateria alta e uma condução notável da harmônica de Davies; e a ótima "I'm a Lover not a Fighter", a minha predileta depois de "You Really Got Me".
Como foi que eu pude ficar tanto tempo sem esse disco?
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FAIXAS:
1."Beautiful Delilah" – 2:06
2."So Mystifying" – 2:55
3."Just Can't Go to Sleep" – 1:57
4."Long Tall Shorty" – 2:51
5."I Took My Baby Home" – 1:47
6."I'm a Lover Not a Fighter" – 2:05
7."You Really Got Me" – 2:14
8."Cadillac" – 2:44
9."Bald Headed Woman" – 2:42
10."Revenge" – 1:30
11."Too Much Monkey Business" – 2:15
12."I've Been Driving On Bald Mountain" – 2:07
13."Stop Your Sobbing" – 2:05
14."Got Love If You Want It" – 3:45

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Ouça:
The Kinks 1964


vídeo The Kinks - "You Really Got Me"



Cly Reis