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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

cotidianas #119 - Tocaia


Cansaço...
Não, não poso deixar o sono me vencer. Tenho que estar atento. Falta pouco. Deve faltar pouco, eu acho. Estou aqui, escondido, agachado faz umas quatro horas e nada. E agora essa chuva pra piorar.  Mas deve faltar pouco para eles chegarem. E quando chegarem, tenho que estar com o dedo pronto. Rápido. Ágil. Provavelmente só terei uma chance.  Ah, e esse frio.
O que foi isso? Um barulho. Devem ser eles. Tenho que estar pronto, tenho que estar atento. Uma luz, vozes... Eles? Não. Alarme falso. Tenho que estar pronto. Assim que eles chegarem, pá! Tenho que sacar rápido, disparar e sair correndo.
E eu aqui, entrincheirado, feito um bicho. Será que tudo isso vale a pena? Tudo isso em nome de que? Fome, sede,... minhas pernas doem. Esquece. Esquece a dor. Esquece o cansaço. Tpa quase. Mantém a calma. Mantém a calma.
Agora, sim. Parecem ser eles. Se aproximam... Sim, são eles. Atenção! (Seja rápido, seja rápido. Seja preciso).
Agora!
Um clique!
Perfeito!
Agora podemos provar que eles tem um caso. Ih, o segurança vem vindo. Correr, correr...
Essa vai pra capa.



Cly Reis

domingo, 27 de novembro de 2011

1ª Feira da Fotografia Artística - Galeria e Espaço Cultural La Photo - Porto Alegre- RS










Fui cumprimentar os amigos fotógrafos no coquetel de abertura da 1ª Feira da Fotografia Artística, na Galeria e Espaço Cultural La Photo, em Porto Alegre. Ao total, 20 profissionais renomados do circuito gaúcho estão colocando à venda peças de sua autoria até 4 de dezembro. Há valores desde R$ 300 até R$ 4 mil. Para todos os bolsos.

Dos conhecidos, Fredy Vieira, velho parceiro de coberturas jornalísticas e um dos idealizadores do projeto, expôs um dos mais interessantes trabalhos da mostra, como a ótima e comentada foto de David Lynch quando da vinda do cineasta a Porto Alegre, em 2009.

Nilton Santolin foi outro amigo a quem estive lá cumprimentando. Dele, estavam algumas de suas maravilhosas fotos p&b que já tivera o prazer de conhecer na sua exposição própria "Aqui, Ali e Acolá", sobre a qual comentei aqui neste blog em julho. Quem também estava lá era Ivo Gonçalves, mais um companheiro de pautas.

Destaque também para as lindas fotografias de Magdalena Protskof Szabo de closes de superfícies de madeira, criando imagens coloridas e abstratas. Outra que explora muito bem a textura do objeto fotografado é Lou Borghetti na série “A ferro e flor”, como o vistoso quadro de uma porta de ferro enferrujada.

Várias coisas legais. Entre as que mais gostei, uma que evidencia, entre os desbotados prédios do Centro da cidade, uma de minhas maiores admirações da natureza de Porto Alegre: o intenso azul do céu (foto do topo).

Além dos dos citados, participam da mostra: Ana Paula Aprato (co-organizadora), Marcelo G. Ribeiro, Claudio Fachel, Eduardo Seidl, Guerreiro, João Machado, Jorge Aguiar, Kiran León, Leonid Streliaev, Pedro Flores, Regina Peduzzi Protskof, Ricardo Stricher, Roberta Borges, Sandra Genro e Zezé Carneiro.

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1ª Feira da Fotografia Artística de Porto Alegre
Até 4 de dezembro
Local: La Photo – Galeria e Espaço Cultural (Endereço: Travessa da Paz, 44 - Brique da Redenção – Porto Alegre)
Horário de visitação: das 11h às 19h


David Lynch pela lente de Fredy Vieira

Prestigiando o trabalho do amigo Nilton Santolin
As cores de Magdalena Szabo
Trabalho de Lou Borghetti
"Água 1" de Eduardo Seidl




Daniel Rodrigues

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

The Glove - "Blue Sunshine" (1983)



"Foi um ataque real sobre os sentidos, quando estávamos fazendo o álbum.
Estávamos praticamente saindo do estúdio às seis  da manhã... assistindo todos aqueles filmes mentais e em seguida indo dormir e tendo sonhos realmente dementes...
Deus, nós devemos ter visto uns 600 filmes naquela época.
Devem ter sido todas aquelas pós-imagens que surgiram nas canções."
Robert  Smith

Numa época em que tinha grandes dificuldades financeiras para comprar LP's e, no mais das vezes, o máximo que conseguia era pagar para gravar em K7 muitas coisas que gostava, com grande esforço consegui adquirir o "Blue Sunshine" do The Glove. Um exemplar bonito, uma edição japonesa bem legal que, não precisaria nem dizer mas passou a ser o xodó dos meus vinis. Mas não tinha esse carinho todo apenas por ter sido caro, ser importado, ou por ter sido suado; o disco era muito bom mesmo!
Em recesso com suas respectivas bandas, Robert Smith do  The Cure e Steven Severin dos Banshees da cantora Siouxsie Sioux, resolveram dar um tempo com seus times titulares e juntaram-se num projeto paralelo para criar o The Glove, banda que contava ainda com a bailarina e performer Jeanette Landray nos vocais, e com o baterista Andy Anderson que futuramente viria a tocar no Cure também, além de músicos de cordas convidados. A brincadeira durou apenas um disco mas, talvez pela liberdade de poderem atuar sem o peso dos nomes consagrados de seus grupos, produziram um trabalho diferenciado em relação aos próprios produtos originais, sem abandonar contudo o clima sombrio e soturno característico de ambas as bandas.
“Blue Sunshine” é uma viagem etílica alucinógena demente por um mundo fantástico de cidades coloridas, personagens absurdos, crimes brutais, perversões e sonhos. Regados a drogas e álcool, a dupla mergulhada em filmes B, terror trash, quadrinhos e ficção científica produziu uma série de atmosferas sonoras repletas de imagens e cores fascinantes, amarradas quase que continuamente por sons de trechos de filmes que ficam ao fundo ligando uma faixa à outra.
O Homem-Cassino, o Homem-Guarda-Chuva,  são heróis e vilões improváveis no mundo miniatura da adorável “Looking-Glass Girl”, uma canção leve pontuada por uma linha de cordas apaixonante. “Sex-Eye-Make-Up” traz um clima pesado, tenso, misterioso, com uma atmosfera sonora densa, uma narração sombria de Landry ao vocal, e solos arrasadores e desconcertantes de Robert Smith com uma guitarra rascante, destorcidísima e ruidosa. Em “Like na Animal”, a primeira do disco, quem se destaca, por sua vez, é Steve Severin com uma linha de baixo precisa, contínua e uniforme deslizando sobre a música como se estivesse solando o tempo inteiro.
Robert Smith: "Não me lmebro muito bem do que rolou.

Estávamos muito bêbados o tempo inteiro."
Robert Smith canta em apenas duas faixas, “Mr. Alphabet Says”, canção que começa com um piano numa linha quase circense e que surpreendentemente desemboca numa bateria tribal acompanhada por uma condução de um violoncelo choroso e tristonho; e também na ótima “Perfect Murder”, uma canção pop graciosa com uma base de teclado bem oriental e um vocal descontraído contrastando com o tema sangrento. O vocalista do Cure classificava Jeanette Landray como uma cantora apenas razoável mas em “Orgy”, uma das melhores do disco, provavelmente até ele deva admitir que ela teve sua melhor interpretação, passeando no limite entre o sensual e o mórbido. “Orgy” com sua base indiana programada, hipnótica e repetitiva, sobre uma bateria tribal retumbante, é intensa, é brutal, exala sexo e violência. Uma naja hipnótica e mortal.
O disco tem duas instrumentais, “A Blues in a Drag”, uma elegia melancólica com o teclado dobrado e ecoado; e a derradeira do álbum, a excepcional “Relax”, uma viagem psicodélica alucinante cheia de efeitos, sintetizadores e samples de vozes em japonês desfilando sobre uma base de guitarra à espanhola e uma linha de teclado característica de filmes de ficção científica, numa trip que mais se aproxima, na verdade, de uma espécie de pesadelo sonoro.
 Em parte pouco conhecido, em parte subestimado, “Blue Sunshine” do Glove, é, no entanto, um dos grandes discos dos anos 80 e, particularmente, um dos melhores que conheço num âmbito mais geral.
Não tenho mais o vinil japonês que mencionei no início, o meu é o CD simplezinho, que até tem três faixas extra, mas e só. Soube que há algum tempo atrás saiu uma super-ediçao de luxo com um CD extra com as versões demo cantadas por Robert Smith. Talvez adquira uma hora dessas. De qualquer forma, o meu, mesmo sendo só o basiquinho continua sendo um dos maiores xodós da discoteca. Daqueles que se tem respeito, sabe? Daqueles que não se ouve sempre. Que, se for para ouvir sem dar atenção, melhor pegar outra coisa. Aqueles dos quais não se desperdiça uma audição em vão. E quando se pega para ouvir é aquela coisa superior: "Vou ouvir o 'Blue Sunshine'".

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FAIXAS:
01 Like An Animal
02 Looking Glass Girl
03 Sexy-Eye-Make-Up
04 Mr. Alphabet Says
05 A Blues In Drag
06 Punish Me With Kisses
07 This Green City
08 Orgy
09 Perfect Murder
10 Relax

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Ouça:
The Glove Blue Sunshine




Cly Reis

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

cotidianas #118 - Amando Sobre os Jornais





Amando noites afora
Fazendo a cama sobre os jornais
Um pouco jogados fora
Um pouco sábios demais
Esparramados no mundo
Molhamos o mundo com delícias
As nossas peles retintas
De notícias


Amando noites a fio
Tramando coisas sobre os jornais
Fazendo entornar um rio
E arder os canaviais
Das páginas flageladas
Sorrimos, mãos dadas e, inocentes
Lavamos os nossos sexos
Nas enchentes


Amando noites a fundo
Tendo jornais como cobertor
Podendo abalar o mundo
No embalo do nosso amor
No ardor de tantos abraços
Caíram palácios
Ruiu um império
Os nossos olhos vidrados
De mistério

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"Amando Sobre os Jornais"
(Chico Buarque)

Ouça:
Maria Bethânia - "Amando Sobre os Jornais"