Depois de muita especulação e expectativa sobre datas no Brasil, número de apresentações e possíveis locais, Morrissey, ex-vocalista dos The Smiths confirma três shows em terras brasileiras para março, sendo uma delas aqui no Rio (Uhuuuuu!!!)
Tenho que admitir que como já o vi ao vivo, não me mexeria para outros estado para assistir a outro show dele, mas como vai passar por essas bandas, por aqui, a menos de meia-hora da minha casa, bom..., não tem como não ir. "Tamo lá"!
Morrissey é um daqueles casos raro de popularidade, respeitabilidade e idolatria. Mesmo depois de quase 25 anos do fim da banda que encabeçava, uma das mais adoradas dos últimos tempos no universo do rock, e com uma carreira solo bastante irregular qualitativamente falando, com trabalhos bastante medíocres à exceção de 2 ou 3 álbuns, é um fenômeno que continua emocionando os fãs, vendendo relativamente bem para os padrões da indústria fonográfica atual (mesmo brigando contra o sistema das gravadoras e não parando em nenhuma), mobilizando devotos no mundo inteiro e ainda sendo digno da menção de 'maior inglês vivo', por exemplo, como atribuiu o jornal inglês The Guardian.
Exagero? Talvez não.
Em minha passagem por Londres pude ratificar o respeito que o público e a imprensa tem com este artista. É como uma onipresença: mesmo quando não está com álbum na praça, gravando ou em turnê, o mínimo espirro dele tem que ser registrado. Sempre há uma referência, uma entrevista uma nota no jornal nem que seja pra dizer que ele está com dor de garganta (e houve mesmo uma notícia assim quando estive lá). Algo do tipo, 'não esqueçamos que Morrissey está entre nós'.
Podem ter certeza que nós não esquecemos. E, em março, amigos, é a nossa vez de tê-lo novamente entre nós. Desta vez aqui no Brasil. Novamente.
Preparem as carteiras e aguardem os preços de ingresso e locais de venda. Por enquanto, o que temos são apenas as datas e locais dos shows. Confiram aí:
7/3 - Porto Alegre - Pepsi On Stage 9/3 - Rio de Janeiro - Fundicão Progresso 11/3 - São Paulo - Espaço das Américas
-Tide... – insistia ela com voz de reclamação e cansaço.
E a resposta dele era apenas um grunhido que mal sugeria que estivesse ouvindo.
- Hmf... – respondia ele sem sequer abrir os olhos.
- Tide, cê tá roncando de novo – reclamava num tom copioso.
- Ãrrã... hnf... – e continuava dormindo.
Desde que casaram sempre fora aquela coisa. Já se iam 42 anos de casados e nunca tinha tido uma noite de silêncio. Acabava dormindo porque precisava, pela necessidade, pelo cansaço não raro com o ronco do Aristides se intrometendo nos seus melhores sonhos; ou só lá pelas 6 da manhã quando ele já estava pra acordar.
- Tide... - E dava-lhe um cutucão, um bundaço, uma cotovelada. O Aristides até parava por 10, 30 segundos, um minuto no máximo, mas logo recomeçava aquele troar infernal que volta e meia acordava até o próprio roncolho, que assustado abria os olhos abobalhado até perceber o que o havia despertado. Então voltava a dormir meio encabulado e, naquele curto espaço de tempo entre a vergonha e o novo sono, percebia o porquê da mulher tanto reclamar com ele. Mas logo caía no sono pesado de novo e o martírio da dona Cleide recomeçava.
Em determinado momento das madrugadas, ela resignada, levantava, ia até a cozinha, tomava um copo de água ou de leite e voltava para tentar pegar no sono. E naquela noite não foi diferente; depois de alguns cutucões, empurrões e trombadas, Dona Cleide, desistente de qualquer recurso, levantou, calçou os chinelos foi até a cozinha mas daquela vez não abriu a torneira e não foi à geladeira. Girou a chave da porta e sumiu no pátio por alguns minutos. No fundo do sonho do Aristides pareciam se misturar às vozes das pessoas, o latido de um cão mas que estranhamente parara abruptamente. Ainda bem! O sonho era tão bom. Era recebido num jantar de luxo por uma bela mulher que lhe indicava o lugar onde deveria sentar. A mesa era farta, um jantar suntuoso, pessoas bonitas e animadas, e o sonho continuava com tratamentos de nobre e outras regalias.
Então Dona Cleide surgiu no quarto e parou ao lado da cama com o machado da lenha na mão. Parecia hipnotizada. Não piscava. Só mirava o Aristides, ali, roncando que nem um porco. O primeiro golpe foi nas costelas, o Aristides urrou de dor e mal teve tempo de olhar e ver que Dona Cleide lhe golpeava mecanica e desordenadamente porque os golpes seguintes já atingiam pontos vitais. Pescoço, cabeça, peito, peito, peito, cabeça... E foram muitos. Descontrolados e raivosos.
Dona Cleide só parou de bater quando o braço lhe ficou dormente, talvez um minuto, um minuto e meio depois. Ofegante apenas olhava para a cama. Apenas olhava fixo. Mas era como se não estivesse vendo nada. Olhos num vazio.
Então, depois de um longo suspiro, soltou o machado apenas deixando-o escorregar ao lado do corpo e, ignorando o sangue que empapava os lençóis e a massa moída sobre o colchão deitou para dormir sem sequer se dar ao trabalho de afastar alguns dedos que ficaram ali sobre o travesseiro. Deitava exausta. Finalmente teria uma noite de silêncio.
Caetano Veloso lança seu melhor disco desde os anos 70. Ops! Ato falho. Desculpem: não foi ele, e sim a também baiana, também tropicalista, também cantora Gal Costa com o CD “Recanto”, certamente seu melhor trabalho desde “Cantar”, de 1974. Porém, meu engano não foi à toa: assim como o mencionado LP dos anos 70, marcante obra do tropicalismo a qual Caetano dirigira e dera o norte de todo o trabalho, este novo projeto repete a fórmula engendrada pela dupla: Gal pondo seu belo canto a serviço de uma ideia coesa e verdadeira e Caetano com a batuta, produzindo e concebendo.
As semelhanças vão além do formato, uma vez que, a princípio, o colorido e tropical “Cantar” – cujo repertório inclui, entre outros compositores, quatro canções de Caetano –, parece não ter nada a ver com o obscuro e ruidoso “Recanto”, totalmente construído com novas composições do “mano Caetano”. “Recanto Escuro” (assista ao vídeo abaixo), sua mais nova obra-prima – que entra para o time de “Sampa”, “Gema” e “Trilhos Urbanos” – abre o disco dando o tom soturno e introspectivo que perfará boa parte do restante do disco. Uma melodia quase invariável, bela e triste, sem refrão. Seca. Letra de reflexão, de lamento, como que ecoada de um recanto escuro de onde saem confissões vasculhadas na alma tanto dele quanto dela. Mas o que poderia ser feito só ao violão e voz, ganha, no arranjo eletrônico texturado de Kassin, uma cara de peça da vanguarda erudita, um Stockhausen, um Xenakis, um Varèse. Absolutamente genial!
O tom de vanguarda, ora com ares de Velvet Underground, ora Brian Eno, ora Silver Apples, perpassa todo o disco, dando-lhe um caráter moderno e duro, que responde ao estilo introspectivo da maioria de suas faixas, como o rock “Cara do Mundo”, a bossa-modernista “Autotune Auterótico” e a genial eletro-monofonia “Neguinho”, um 9 Inch Nails menos pesado mas tão corrosivo quanto que remete também ao krautrock de Neu! e Faust. Clima sujo que encaixa totalmente com a letra, mordaz e ferina. Caetano solta o verbo com sentenças como: “Neguinho compra 3 TVs de plasma, um carro GPS e acha que é feliz”, ou ainda: “Neguinho quer justiça e harmonia para se possível todo mundo. mas a neurose de neguinho vem e estraga tudo”. No rim.
Belas também a bossa com pitadas eletrônicas, “Mansidão”, a mais “Gal” de todas, e “Segunda”, um xote só ao cello e prato de cozinha, totalmente acústico. Mas outra surpreendente é “Miami Maculelê”, um funk carioca estilizado na qual o ouvido apurado de Caetano consegue extrair uma das coisas que sempre me chamaram atenção neste estilo dito vulgar e pobre musicalmente, que é a intenção de abrasileirar o ritmo estrangeiro. O funk carioca não é só a batida funkeada do rap, pois contém, no repique da batida, uma pitada de samba, o que, nessa salada toda, acaba por remeter aos sons e danças africanos e indígenas da raiz brasileira, uma embolada, um coco, um batuque, um... maculelê.
As referências ao período heróico da MPB não ficam só em Gal, mas em Caetano e na Tropicália como um todo. E é aí que se dão as semelhanças entre o histórico “Cantar” e o atual “Recanto”. Se antes Rogério Duprat ou Guilherme Araújo eram os maestros que davam corpo aos arranjos , agora é o jovem Kassim que destila seus computadores para cumprir esta função. Outra autoreferência está em “Tudo Dói”, que dialoga com “Lindoneia”, do Tropicália 1 (1967) ao transmitir o mesmo sentimento de depressão de uma mulher solitária (não sem querer, “Lindoneia” também tinha sido dada a uma intérprete cantar, Nara Leão).
Venho notando certo furor quanto a este Caetano rocker e tecnológico, que, desta vez, não se concretizaram em críticas, mas em elogios. Um pouco porque, com Gal interpretando tão bem, obviamente, os méritos são muito dela. Porém, novamente parece que Caetano nada de novo contra a corrente, pois os que elogiaram não parecem saber por que o fazem, uma vez que estranham algo que não é de hoje, basta ter um pouquinho de interesse – ou coragem. A parceria com Kassin, por exemplo, vem desde o pouco comentado “Eu não peço desculpa”, dele e de Jorge Mautner (2002). A veia experimental e vanguardista, igualmente, vem desde o concretista “Araçá Azul” (1972) e está claramente em músicas como a parafraseada “Doideca” (brincadeira com o termo “dodeca-fonia”), do CD “Livro” (1997), ou no “Rap Popcreto”, do Tropicália 2 (1993).
O fato é que gostei por demais de “Recanto”. Outro dia, em conversa com outro colaborador deste blog, meu primo Lúcio Agacê, ele me ponderou algo com certa razão. Para ele, o fato de a “finada” Gal voltar dando um salto tão grande diante daquilo que vinha conseguindo produzir se deve exclusivamente a Caetano, alguém que, além de um amigo generoso, é um cara que está sempre se renovando. Concordo se comparado com a fraca Gal que veio degringolado nos anos 80 e se instaurou na mediocridade nos 90. Mas tropicalista é tropicalista. Se compararmos àqueles primeiros idos dela, “Gal” (1969), “Fa-Tal” (1971), “Índia” (1973) e, principalmente, “Cantar”, seu ápice, a musicalidade não está muito diferente. Mais avançada em certos aspectos, menos explosiva do que antes, mais high-tech em texturas; porém a Gal de “Recanto” recupera a Gal daquela época - mesmo com 40 anos de atraso.
Num ano de um ótimo Chico Buarque novo, de um surpreendente Criolo e de um elogiado Lenine, 2012 começa também com uma nova Gal recantando-se. Antes tarde do que nunca.