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quinta-feira, 29 de março de 2012

The Horrors - "Primary Colours" (2008)


"E quando eu lhe disse
que tinha uma outra garota
havia me chamado a atenção,
Ela chorou.
E eu a beijei,
com um beijo que
só poderia significar um adeus"
trecho de "Who Can Say"




Descobri o The Horrors em Londres.
Eu estava em uma loja de CD's, a HMV, quando ouço aquele som muito interessante tocar nos alto-falantes da loja. Puxa! Que bom isso, hein! Talvez até já fosse conhecido no Brasil, mas pra mim era novidade. Lembrava o som dos góticos dos anos 80 mas tinha identidade própria. A voz era algo entre um Ian Curtis e um Peter Murphy, o som tinha a crueza do punk do Joy Division, as atmosferas do The Cure, o barulho de Jesus and Mary Chain, o experimentalismo de um Sonic Youth. Bom isso, hein!
Perguntei a uma vendedora que som era aquele e ela me disse que era de uma banda chamada The Horrors, e me mostrou o CD que estava em destaque no balcão. Para minha surpresa, não apenas o som remetia aos darks oitentistas, a capa do álbum era uma referência clara (ou escura) ao disco clássico do The Cure, "Pornography" de 1982. Aí fui ver o nome das músicas e as referências àquele pessoal da minha época aumentava na medida que muitos dos nomes das canções remetiam de certa forma a títulos da banda Joy Division, como "The New Ice Age" (quase igual a "Ice Age" do Joy Division); Can You Remember (lembrando "I Remember Nothing", também do Joy); Three Decades, de certa forma remetendo a "Decades" e "I Can't Control Myself" ao controle perdido do clássico "She's Lost Control" da banda de Ian Curtis. Coincidência?
Até acho que não. Mas em defesa deles, deve-se dizer que mesmo os nomes tendo certa semelhança, tais faixas não tem nenhuma relação direta com a sua correspondente do grupo de Manchester.
Mas semelhanças à parte, o fato é que nem todas essas referências, homenagens, inspirações fazem de "Primary Colours" de 2008 um arremedo dos discos do pós-punk do início da década de 80. Com personalidade, com qualidade, com incremento de elementos mais atuais e com uma produção caprichada do Portishead Geoff Barrow, trouxeram de volta o climão pesado e sombrio de outrora, a melancolia barulhenta dos shoegazers e a tradicional psicodelia do rock britânico, em um dos melhores trabalhos de bandas dos últimos tempos.
Rigorosamente todas as faixas são ótimas mas em especial a de abertura, "Mirror's Image", ruidosa, perturbadora e viajante; "Who Can Say", canção de amor triste cheia de guitarras flutuantes ao melhor estilo My Bloody Valentine; a que dá nome ao disco, "Primary Colours", colorida sob os matizes do punk na faixa provavelmente mais pegada e básica do disco; e a excepcional "Sea Within' a Sea", faixa longa, de estrutura um pouco mais complexa, bem trabalhada e encantadoramente sombria que encerra de maneira gloriosa este ótimo álbum.
Soube depois que o grupo não era bem assim em seu primeiro disco, que passou por uma certa transformação e que era algo tipo um Strokes, um Libertines ou algo do tipo, só que ruim. Bom..., ainda bem que o que eu conheci foi a banda do segundo disco. Nunca me interessei em ouvir o trabalho anterior e nem preciso. Tenho certeza que não pode ser melhor que isso e que a transformação, que dizem ter ocorrido, por certo foi para melhor. E mesmo, se um dia 'der na veneta' e venham a desistir dessa linha, dessa sonoridade, mudem de ideia de novo, resolvam ser extremamente pop e fazer música para o grande público, já terão deixado um dos grandes discos deste início de século.
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FAIXAS:
1."Mirror's Image" – 4:51
2."Three Decades" – 2:50
3."Who Can Say" – 3:41
4."Do You Remember" – 3:28
5."New Ice Age" – 4:25
6."Scarlet Fields" – 4:43
7."I Only Think of You" – 7:07
8."I Can't Control Myself" – 3:28
9."Primary Colours" – 3:02
10."Sea Within a Sea" – 7:59
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Ouça:
The Horrors Primary Colours


Cly Reis

terça-feira, 27 de março de 2012

Pix

Kings of Leon - "Youth & Young Manhood" (2003)

"Um dos melhores
álbuns de estreia
dos últimos 10 anos"
New Musical Express,
em 2003

Quando eu vi o clipe de "Molly's Chambers" na MTV aquela bandinha me chamou muito a atenção. Aquilo tinha a vitalidade, a pegada, o minimalismo do punk mas com um indesmentível traço de rock sulista americano. E aqueles caras com visualzão anos 70, calças jeans de bocas largas, cabelões desgrenhados e barbas de lenhadores das montanhas parecia perfeitamente ligar o som à imagem. Esperei dar o final do clipe para ver os créditos e descobri que quem se tratava: eram uns tais de Kings of Leon e aquela música estava nó álbum "Youth and Young Manhood".
Não tive dúvidas; mais ou menos dois ou três dias depois comprei o CD. Sempre tem um risco em comprar as coisas assim, comprar um disco conhecendo apenas uma música, já dei muito com os burros n'água por causa disso, mas o disco não só não me decepcionou, como na verdade, era melhor do que eu imaginava e, para minha mais agradável surpresa, "Molly's Chambers", que eu havia gostado muito, sequer era a melhor música.
Quatro parentes, três irmãos e um primo, de família conservadora e religiosa, juntaram-se e combinaram toda a influência da música interiorana de sua região a um rock enérgico, básico, cru e rústico.
"Wasted Time" é um bom exemplo disso trazendo em doses equilibradas do bom punk rock sujo de garagem com as influências southern rock; "Happy Alone", embalada e entusiasmante, transborda de guitarras por todos os lados e traz o vocal enlouquecido de Caleb Fallowill; muito legal também é "Joe's Head" com sua levada folk-rock e um vocal muito bacana, novamente quase histérico e gritado no final da música; "Trani" e "Dusty" tiram o pé do acelerador, a primeira numa balada de vocal arrastado e ébrio e a segunda um blues caipira de primeira qualidade.
"Genius", com seu riff minimalista, é igualmente muito boa e não pode deixar de ser citada; "Spiral Staircase", um demolidor punk-country-rock de saloon é absolutamente ensandecida; a simpática "California Waiting", embora interessante, já fazia antecipar os caminhos que a banda seguiria.
No entanto, "Red Morning Light" que abre o disco e "Holy Roller Novocaine" que o encerra é que são na minha opinião as melhores faixas, ambas capturando o melhor do espírito musical de Nashville e carregando-o de rock'n roll cru e sujo.
Infelizmente a obsessão por mulheres, que os integrantes desde sempre alardearam e que já se anunciava no clipe de "Molly's Chambers", cheio de gostosas esculturais dançando, acabou prevalecendo e os rapazes optaram nos discos seguintes por fazer música para menininhas, adocicando sua música outrora tão legal, tão cheia de personalidade e reduzindo-a a um popzinho descartável e insosso. (Bom, deve ter sido por isso, não?) Não que não seja bom agradar às mulheres, fazer sucesso e tudo mais, mas artisticamente é uma pena que tenham optado por esse caminho e, de mais a mais, tenho certeza que não precisavam dessa transformação para atingir seus objetivos. Mas o fato é que os cabeludos rústicos do sul dos Estados Unidos cortaram as jubas, as barbas, ficaram com visualzinho emo, fazem um tremendo sucesso hoje em dia e certamente estão com os cofres cheios de dinheiro. Hnf...
Lamentável. Do ponto de vista musical, lamentável. Eu que tinha grande expetativa acerca dos trabalhos seguintes da banda fiquei extremamente decepcionado. Mas fazer o quê? Pelo menos temos sorte que ainda tenham conseguido deixar um belo trabalho como esse.

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FAIXAS:


1. "Red Morning Light"
2. "Happy Alone"
3. "Wasted Time"
4. "Joe's Head"
5. "Trani"
6. "California Waiting"
7. "Spiral Staircase"
8. "Molly's Chambers"
9. "Genius"
10. "Dusty"
11. "Holy Roller Novocaine"
(faixa escondida "Talihina Sky")

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Ouça:
Kings of Leon Youth and Young Manhood

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vídeo de "Molly's Chambers - Kings of Leon



Cly Reis

segunda-feira, 26 de março de 2012

Porto Alegre - 240 anos

MOÇA ELEGANTE
nanquim de Hélio Ricardo Alves,
do livro "Porto Alegre foi Assim"
As palavras não são minhas, são de minha mãe: “Porto Alegre é uma moça elegante”. Mas ouso fazê-las minhas um pouquinho que seja, pois, além da óbvia consanguinidade, eu e minha mãe (cujos olhos hoje desfrutam da beleza do Rio de Janeiro, onde reside), somos porto-alegrenses e, mais do que isso, partilhamos da mesma impressão sobre esta bela jovem de maneiras charmosas chamada Porto Alegre. E diria mais: a sabida beleza imponente e sensual das mulheres da capital gaúcha se reflete inteiramente no corpo da cidade: em suas ruas, suas esquinas, suas fachadas, seus parques, suas gentes. Podem perceber, por exemplo, que Porto Alegre tem a estatura mediana das mulheres daqui: nem muito baixa, nem muito alta. Tamanho certo! Não fosse isso, seria impossível olhar para cima e visualizar o céu de azul intenso que nos cobre tanto nos dias de gelo quanto de bafo.
Outra particularidade feminíssima da cidade é sua luz. Intensa, marcante, solar, como se fosse uma modelo que o tempo todo posasse para os cliques. Quem vive aqui entende o verdadeiro significado da expressão “cidade-modelo”. Porto Alegre, na verdade, parece que desfila. Mesmo que geologicamente parada, dá a impressão de, às vezes, caminhar, seguindo no mesmo passo firme, delicado e decidido que suas mulheres têm. Aos 240 anos, a jovem Porto Alegre é uma cidade que anda do seu jeito. Nem mais lenta, nem mais ligeira que são paulos, coritibas, maceiós ou teresinas. Apenas no seu ritmo. Ritmo de uma cidade-moça elegante.