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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

cotidianas #180 - Especial 20 de Setembro


Sobre Bandeirantes e Gaudérios

Uma vez me contaram de um diálogo entre um gaúcho e um paulista que até hoje reflito. Por motivos de trabalho, o gaúcho, avisando o paulista de que dia 20 de setembro não haveria como se falarem por causa do feriado regional, foi surpreendido com a seguinte pergunta irônica do paulista: “Ué: mas vocês não perderam a guerra?”. Embora claramente jocosa, não há como contrariar de um todo a observação. Se visto com olhar distanciado, o fato de se optar por marcar a data pelos iniciais e astutos disparos de garrucha (20 de setembro de 1835) ao invés da discreta assinatura de um documento no seu término, em 1845, soa suspeito. Suspeita de um engrandecimento de atos que, no subtexto malicioso do tal paulista, não seriam assim tão grandiosos. A fama do gaúcho valente seria, no fundo, uma propaganda enganosa, uma vez que a rebelião da Revolução Farroupilha sucumbira a um diplomático e entreguista acordo. A birra pedante por um país separado do resto do Brasil se esvanecera num acordo entre rebeldes e Império, deixando tudo até hoje como o “Império” quer. Como diz o outro: “rabo entre as pernas”.

Nem tão a terra nem tão a céu. Acho bárbaro esse sul de rios grandes, serras, campanhas e metrópole, mas confesso que o desejo separatista mal resolvido soa-me ainda o mesmo quando ouço a risada de muita gente que lê O Bairrista e só acha graça em um dos lados da piada. Riem porque é engraçado achar graça de ser superior aos outros, pois só sendo superior para achar graça de si sem o constrangimento de não parecer ser. Por outro lado, não queiram vir aqui esses ex-bandeirantes (ou seja, piratas-de-terra mercenários) desfazer um povo que pensa e que não se omite de posicionar-se quando é preciso. De João Cândido a Dunga, provas disso não faltam. Farroupilha mesmo! Dia desses, um amigo meu ponderou-me alguns argumentos interessantes quanto à valorização dos elementos folclóricos gauchescos. Ele me relatou que uma vez levou uma amiga paulista ao acampamento farroupilha para que ela conhecesse as tradições de nossa terra. O impacto e a excitação dela (inclusive desta forma que você está pensando...) foram tamanhos que ele percebeu o quanto esse folclore vale tanto quanto o de qualquer outro lugar. A diferença é que está aqui mesmo, é que, lá fora, chamam de “folk”.

A questão é: em um país continental como o nosso, e onde se está longe de uma unidade cultural e social de fato, há de se louvar que em algum lugar, mesmo que no pé do mapa, tenha-se procurado encontrar um sentido por uma terra que responda a todos. Sei que tanto não responde a todos quanto, principalmente, a forma como muitas vezes esta unidade é proposta é totalmente errada, e só faz aumentar (propositalmente) nossa distância dos outros brasis que, quer queira, quer não, guris e gurias, fazemos parte. Eu, particularmente, gosto de fazer parte. Orgulha-me neste 20 de setembro, mais do que pilchas e chamas crioulas, as camisas dos gaudérios com um mesmo que discreto bordado com as bandeiras do Rio Grande do Sul em um braço e do Brasil no outro (em tamanhos proporcionalmente idênticos, importante que se diga). Isso sim é estar no aqui para estar no mundo. Cabendo aqui neste pedaço de terra em forma de cuia onde insistimos em nos fechar, socados como erva-mate, é possível caber em qualquer lugar, inclusive nos outros brasis.

Mas além das bandeirinhas bordadas, também me encanta no 20 de setembro o sorriso da prenda. Mas isso é de uma poesia tão grandiosa e longitudinal que, este sim, não cabe nesses pagos. Atravessa as coxilhas, invade os campos, alvoroça o gado. Esse sorriso, índio velho, é muito mais redentor, não pertence a nós. Não pertence a nós.



quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Mott the Hoople - "Mott" (1973)




acima, a capa da edição americana e
abaixo, a distribuída no Reino Unido
"O melhor disco
da melhor banda
do início dos anos 70."
Revista Rolling Stone



Esse livro ainda vai me levar à falência.
Ou à loucura!
(Ou os dois)
Ou, no melhor das hipóteses, me deixar sem espaço na prateleira de CD’s.
Mas fazer o quê?
Eu reclamo mas, inegavelmente, é sempre legal descobrir coisas novas e a minha ‘bíblia’ de cabeceira, o "1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer" volta e meia me proporciona o descobrimento de algum som bacana que eu nunca tinha ouvido antes.
Li nele sobre um tal de Mott the Hoople e fui à cata. Não baixei. Aproveitei que estava indo a Londres e comprei lá mesmo o álbum “Mott”, que até não tem o maior sucesso da banda “All the Young Duddes” que fez parte inclusive da trilha do filme “Juno”, mas que era o recomendado pela publicação.
E de novo a dica do "1001 Discos..." foi na mosca!
Muito bom disco!
Produzidos que foram no primeiro trabalho por David Bowie, os rapazes aprenderam direitinho o negócio e fizeram um disco exemplar de glam-rock, bem ao estilo do mestre Camaleão.
Num disco que versa fundamentalmente sobre a vida no mundo da música, seus prós e contras, seus altos e baixos, venturas e desventuras destacam-se a primeira do álbum, “All the Way from Memphys”,um rock’n roll gostoso carregado no piano e no sax; a pegada “Whizz Kid”, um hard-rock com peso e distorção; e a excelente “Ballad of Mott the Hoople” que aborda exatamente essa vida mainstream de forma honesta e realista.
Também valem destaque “Hymn for the Duddes” balada que soa quase como uma oração, verdadeiramente um hino com seus solos longos e tons monumentais; “Honaloochie Booggie” um hard-rock charmoso e cheio de vitalidade; “Violence”, um proto-punk com uma interpretação entre o agressivo e o sarcástico do vocalista Ian Hunter; e “I’m a Cadillac / El Camino Dolo Roso”, um excepcional épico em duas partes, a primeira um mais rock’n roll e a segunda mais lenta, mais acústica, com contornos de latinidade e ares mexicanos. 
Grande disco, mais uma grande descoberta!
Mais um pra conta do livro.
Ai, ai, ai... Onde é que eu vou guardar tantos CD’s?

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FAIXAS:
  1. "All the Way from Memphis" – 5:02
  2. "Whizz Kid" – 3:25
  3. "Hymn for the Dudes" (Verden Allen, Hunter) – 5:24
  4. "Honaloochie Boogie" – 2:43
  5. "Violence" (Hunter, Ralphs) – 4:48
  6. "Drivin’ Sister" (Hunter, Ralphs) – 3:53
  7. "Ballad of Mott the Hoople (26th March 1972, Zürich)" (Hunter, Dale "Buffin" Griffin, Peter Watts, Ralphs, Allen) – 5:24
  8. "I’m a Cadillac / El Camino Dolo Roso" (Ralphs) – 9:41
  9. "I Wish I Was Yur Mother" (Hunter) - 4:52
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Ouça:


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

cotidianas #179 - Boca Suja




Te quero dizendo
As piores baixarias
Palavras de baixo calão
Da mais alta linguagem

Enche a boca pra falar
Nuanças da fala
Falas nuas de qualquer etimologia
Grosserias, tabuísmos
Diz
E dá um tapa nos beiços
Fingindo espanto
Com um sorriso de malícia por trás

Licencia-se a soltar tudo o que há de mais licencioso
Figuras de estilos pornográficas de tão estapafúrdias ao ouvido:
Zeugmas, anacolutos, prosopopeias, antonomásias
epizeuxes
Meta dentro metáfora

Te desnuda e desboca
Deixa vir o clímax, te entrega
Dá-te prazer na ponta da língua
Com palavras lambuzadas de deleite
E saboreia uma por uma
Viscosas e doces

Pois quando sai de ti
Palavrão não é nome feio:
É palavra grande
Que entope de gozo
A tua boca suja


O Frango Atirador


sábado, 15 de setembro de 2012

Rage Against the Machine - "Evil Empire" (1996)




“...eu os aviso para terem cuidado com a tentação do orgulho, a tentação de se declarar alegremente acima de tudo e rotular os dois lados igualmente em falta, ignorar os fatos da história e os impulsos agressivos de um ‘Império do mal’, para simplesmente chamar a corrida armamentista de um gigante mal-entendido (...) Eles pregam a supremacia do Estado, declarando sua onipotência sobre o homem individual e preveêm sua dominação eventual de todos os povos da Terra. Eles são o foco do mal no mundo moderno. “
discurso de Ronald Reagan
no qual usa a expressão
que inspirou o nome do álbum



Um coquetel Molotov!
Uma explosiva combinação de funk, hardcore, hip-hop, metal, rap como nunca havia se visto antes. Não com tamanha qualidade, com tamanha pegada, com tamanha fúria.
Sobre os riffs pesados do bom guitarrista Tom Morello e bases embaladas, Zack de La Rocha com seu vocal rap desfilava suas letras engajadas, inteligentes e indignadas sobre a guerra, sociedade industrial, capitalismo, desigualdades sociais e tudo mais que pudesse servir de pólvora para esta verdadeira bomba que é o som do Rage Against the Machine.
Embora seu primeiro álbum, de mesmo nome da banda, de 1992, já tivesse despertado a atenção de público e crítica, com “Evil Empire” de 1996 atingem uma maturidade sonora mais interessante e um resultado técnico mais completo. Peso, balanço, rima e intensidade ganham um maior equilíbrio e resultam em faixas excepcionais como ‘Revolver”, “People of the Sun”, “Tire Me” e “Down Rodeo”, a minha favorita dos disco com aqueles efeitos que lembram o barulho de uma tesoura.
Também merecem destaque “Vietenow”, “Yera of tha Boomerang” e “Witohut a Face”, verdadeiras porradas na boca do estômago.
Dinamite pura.
Um homem-bomba no metrô, um carro bomba estacionado na frente da embaixada.
Tipo do disco que devia vir com o aviso na capa: Altamente inflamável.

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FAIXAS:
  1. "People of the Sun" – 2:30
  2. "Bulls on Parade" – 3:51
  3. "Vietnow" – 4:39
  4. "Revolver" – 5:30
  5. "Snakecharmer" – 3:55
  6. "Tire Me" – 3:00
  7. "Down Rodeo" – 5:20
  8. "Without a Face" – 3:36
  9. "Wind Below" – 5:50
  10. "Roll Right" – 4:22
  11. "Year of tha Boomerang" – 3:59
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Ouça:
RATM Evil Empire



Cly Reis