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sexta-feira, 27 de março de 2015

quarta-feira, 25 de março de 2015

"Discoteca Básica : 100 Personalidades e seus 10 Discos Favoritos", de Zé Antônio Algodoal - Ed. Ideal (2014)



“Em um tempo em que
 as pessoas “baixam” músicas
e não tem noção
do que é um álbum,
nada mais bacana que
poder falar dos álbuns
 e de suas influências em nossas vidas.”
Marcelo Rossi
(fotógrafo, diretor de videoclipes e compositor)





Topei, dia desses, com o livro “Discoteca Básica: 100 personalidades e seus 10 discos favoritos” e, blogueiro como sou, com seção dedicada a álbuns importantes, além de apaixonado por música e colecionador de CD's e LP's, fiquei extremamente interessado. Trata-se de uma série de listas elaboradas por 100 personalidades, em sua maioria ligadas ao mundo da música, que destacam, cada um, 10 álbuns musicais importantes de alguma forma em suas vidas. Por mais que tivesse me dado coceira pra comprar, até hesitei um pouco em comprar imaginando que as indicações dos convidados pudessem meramente cair naqueles clichês tipo “progressivo é mais técnico e o resto é pobre”, ou “sou do metal e escolhi 5 AC/DC e 5 Iron Maiden" ou Beatles é melhor que tudo” e simplesmente saírem nomeando 5 entre os 10, 7 de 10 ou mesmo 100% da lista só de Beatles. Mas não. Um que outro até manifestou a intenção de relacionar Beatles nas 10 posições mas felizmente meus temores não se confirmaram. No caso do Fab Four, em especial, tiveram, por óbvio, um número de indicações proporcional à sua importância de maior banda de todos os tempos, mas felizmente as listas mostraram-se bem diversificadas, curiosas e contendo dicas bem interessantes. Os convidados em sua maioria são de alguma maneira ligadas ao mundo da música, como os músicos Arnaldo Baptista, Péricles Cavalcanti, Dinho e Andreas Kisser, por exemplo, mas também encontramos artistas visuais, produtores, executivos de gravadoras, e ex-VJ's da MTV como Didi, Gastão, Edgar e Thunderbird.
O que torna o livro mais interessante é que a proposta do organizador, Zé Antônio Algodoal, não foi a de necessariamente listar 10 discos qualitativamente ou em ordem de preferência. Seus entrevistados podiam utilizar o critério que quisessem e essa liberdade de escolha resultou em listas muito bacanas. Questões afetivas, cronológicas, de formação, profissionais, primeiras aquisições, parcerias, influências, os critérios adotados são os mais diversos, alguns convidados preferindo comentários mais genéricos, abrangentes, outros mais detalhados, pontuais, disco a disco. Alguns relatos como o da francesa Laetitia Sadier da banda Stereolab são muito amplos, bonitos e completos, por outro lado, pessoas de quem gostaríamos de ter alguma consideração a mais sobre suas escolhas, como no caso do apresentador Jô Soares, foram extremamente econômicos, deixando uma breve observação ou às vezes nenhuma.
A paixão demonstrada pelo músico Hélio Flanders em suas descrições; o envolvimento do diretor de cinema e teatro Felipe Hirsh; as metamorfoses da ex-diretora da MTV Brasil, Ana Buttler; o caso dos primeiros dez discos que o Gordo Miranda ganhou do pai; o texto criativo e bem escrito de Xico Sá; e a emoção de Airto Moreira ao ser apresentado ao álbum “Miles Ahead” pela cantora Flora Purim, no relato de Rodrigo Carneiro, são alguns dos pontos mais legais do livro e que não podem deixar de serem lidos. Como curiosidades, me chamou a atenção o fato do álbum “Boys Don't Cry” do The Cure, que eu, fã, nem considero dos melhores, aparecer bastante entre os votantes; a surpreendente 'disputa' acirrada entre o "Força Bruta", muito votado, e o "Tábua de Esmeralda", que no fim das contas prevaleceu; e o fato de que alguns dos meus xodózinhos como o "Psychocandy" do Jesus and Mary Chain, que eu considero a melhor coisa que eu já ouvi, e o "Loveless" do My Bloody Valentine, que eu costumo dizer que seria o disco que eu levaria para uma ilha deserta, aparecem com bastante frequência no livro em diversas listas, inclusive na do próprio organizador. No mais, muitos dos meus favoritos aparecem com grande destaque entre os mais escolhidos como, por exemplo, o "Nevermind" do Nirvana, o "Transa" do Caetano e o "Tábua de Esmeralda" de Jorge Ben.
Elogios também para a parte gráfica do livro muito caprichada, cuja arte, meio retrô e saudosista, faz referência, desde a capa, a vinis, toca-discos e equipamentos de som antigos.
Para quem gosta de listas, como eu, especialmente aqs de música, é um livro que desperta a vontade de montar as suas próprias, com critérios diferentes, de modo que se consiga contemplar todos aqueles discos que, de certa forma quase como filhos, e tem um lugar reservado no coração.




Cly Reis

terça-feira, 24 de março de 2015

cotidianas #359 - Emiliano passou por aqui



foto: Ricardo Lacerda
É um absurdo o que me aconteceu neste domingo, mas um fato desses não posso deixar passar batido. Domingão de sol, 11h, resolvo dar uma caminhada na Redenção. Eis que esse cara da foto estraga o passeio. Ali, bem no meião do Brique, sentado numa caixa de som que sequer era plana, o cidadão cantava: "Que dulce encantos tienen tus recuerdos Mercedita...". Pô, mas que coisa séria! Parei para dar aquela conferida. Eis que o louco emenda uma milonga do Alfredo Zitarrosa. Aí pensei, cá com meus botões: "Imagina se emenda uma chilena". Foi bem aí que o diabo do músico começou: "Volver a los 17, después de vivir un siglo...". Ah, não! Violeta Parra em plena Redenção é mais que luxo pro gaúcho. Entrou um cisco no meu olho, marejado por detrás das lunas. E ali fui me quedando. Eu e uma dúzia de vivente. E ele não parava: de boininha a la rebelde, violão desbeiçado, microfone todo enjambrado com durex, a cada troco que despejado no case (a maioria de 2 conto), ele dizia um simpático: "brigado, cara". O sotaque não enganava: o “qüera” não era desde aqui.
E assim o tempo foi passando, em meio a zamba, chacarera, chamamé, milonga e até corrido mexicano. Fui ficando, por supuesto. Entre uma e outra instrumental, o exibido encarnou Atahualpa Yupanqui, Daniel Viglietti, José Larralde, Miguel Aceves Mejia y otras cositas más. Uma melhor que a outra. Pedi Victor Jara e Los Olimareños. Fui prontamente atendido. Vendo que estava prestes a fundar um fã-clube do folclorista ali mesmo, um casal (na casa dos 60 e picos de idade) puxou assunto. "Eu vim comprar carne. Preciso ir pra casa fazer o churrasco, mas tá difícil", disse ele. "Por mim, como uma tapioca por aqui mesmo", retrucou a senhora. Mesmo contrariado, o senhor tentou ir embora umas quatro vezes, mas ela sempre dizia: "Deixa eu ouvir mais essa".
A certa altura, já há uns 45 min ali, meu novo amigo foi saindo e me disse, de galhofa, "entrega ela lá em casa amanhã, por favor". Deixei 10 mirréis pro artista. Segundo meu escrutínio, ele angariou uns R$ 200 naquela uma hora e meia em que fiquei no espetáculo. Eu também precisava ir para casa. Quando o artista resolveu dar uma pausa para tomar água, aproveitei e fugi – ainda que a contragosto. Emiliano está de partida. Apenas passou por Porto Alegre. Nessa semana, deve voltar para sua Córdoba natal. Que cara sacana esse Emiliano, estragando o passeio dos outros.








Exposição “Manifesto, ainda que tardio”, de Rubem Valentim – Sala Rubem Valentim – Museu de Arte Moderna da Bahia / Solar do Unhão – Salvador/BA (6/3/2015)




Obra do artista que é a logo do espaço,
na parede externa do anexo.
Minha linguagem plástico-visual signográfica
está ligada aos valores míticos profundos
de uma cultura afro-brasileira
(mestiça-animista-fetichista)”
Rubem Valentim

Conheci parte da obra do artista visual baiano Rubem Valentim (1922-1991) por conta de uma investida frustrada. Pois um dos pontos que almejávamos visitar Leocádia e eu em Salvador era o Solar do Unhão, um belíssimo complexo arquitetônico do século XVII (integrado pelo Solar, pela Capela, um cais privativo, aqueduto, chafariz, senzala e um alambique) sobre o qual saímos de Porto Alegre já com intenção de visitar, pois lá funciona o Museu de Arte Moderna da Bahia – MAM’s sempre fazem parte de nossos roteiros. Ainda por cima, já lá, passando pela Avenida do Contorno, que costeia a Baía de Todos os Santos, pudemos ver de cima o lindo casarão lá embaixo, bem à beira do mar, o que nos empolgou ainda mais em conhecer o local.
Peças compostas em escultura,
madeira e acrílica.
A decepção se deu porque praticamente todo o Unhão estava em reforma estrutural ou em montagem da nova exposição. Resultado: a única galeria que tivemos acesso foi justamente a sala que leva o nome de Rubem Valentim, um anexo do museu localizado numa lomba acima da casa antiga – lindo por sinal, que, em sua arquitetura moderna, contrasta bem com os traços da original de estilo colonial. Pois a decepção não foi total porque ali estava a exposição “Manifesto, ainda que tardio”, de Valentim. Pequena mas bem interessante, mostra um conjunto de esculturas, pinturas e instalações (em algumas obras, os três formatos ao mesmo tempo, todas compostas de escultura, madeira e acrílica) de 1977 e 78. Dono de uma arte figurativa geométrica, Valentim foi um dos pioneiros, segundo o crítico e ensaísta carioca José Guilherme Merquior, de uma arte “semiótica”, devido à sua capacidade de dessacralizar fetiches e objetos rituais, imprimindo a eles contornos de uma semântica peculiar.
A exposição mostra bem isso: símbolos africanos e da religiosidade afro-brasileira são elaborados em formas geométricas graves e concisas, pois transformados pelo concretismo e pelo construtivismo vida urbana. Um cosmopolitismo muito original. O título, inclusive, é bem apropriado: “Manifesto, ainda que tardio” é um documento escrito por Valentim em 1976 onde ele explicava os porquês e as motivações de sua arte, uma vez que ele, artista precursor da moderna arte na Bahia que vivera e expusera em várias capitais brasileiras (Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo) e exterior (Itália, Alemanha, Japão, Colômbia), nunca o tinha feito tão abertamente até então.

Por se tratar de um espaço expositivo temático, sempre há obras de Valentim, porém esta vale bastante a pena ser vista por quem puder.
Os Relevos
Emblema de 1878
Quadros-esculturas da exposição
Raros tons que incrementam a signografia de Valentim
Eu entre as obras de Valentim



segunda-feira, 23 de março de 2015

cotidianas #358 - Casa




"Dentro de Casa"- RODRIGUES, Daniel
grafite sobre sulfite com manipulação digital
nem tudo que
me consome
me
pertence

se
pense
o bolo do
pensamento
coze
e tudo
tudo mesmo
se dissolve

nem tudo
nem tudo mesmo
me convence
convivo, vivo
mas
contudo
suo

deságuo
no líquido
doido
que faz girar a minha
cabeça
de labirinto

Nix e Baco
se congraçam
feiticeiras e bruxas
tomo-me
tomo
engulo o líquido que me
desnorteia

é quando nasce
um poema
Gaia, Eros, Érebo e Caos
calmos
dentro do assim

aos píncaros
suo
e
se pulso
é, pois que
tudo
onde caibo
me pertence
me consome
e se
some
a tantos vire
o nada
absorto
absoluto


(a Waly Salomão)

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Casa