Curta no Facebook

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

U2 - "The Unforgettable Fire" (1984)



"Um homem veio em nome do amor
Um homem veio e foi
Um homem veio para justificar
Um homem para subverter."
"Pride (In the Name of Love"


Durante algum tempo esse foi o disco da minha vida. Achava a melhor coisa que já tinha ouvido. Mas com o tempo a gente vai conhecendo outras coisas e vai vendo que não é bem assim e que tem muitos superiores em vários aspectos, mas o que não tira em nada os méritos do ótimo “The Unforgettable Fire” do U2, de 1984, o quarto álbum da banda de Dublin.

Disco bem trabalhado, trabalho pensado, bem produzido. Daqueles discos com estrutura. Disco pra se ter em LP. Disco com lado A e lado B.

Tem discos que já abrem abafando, tirando o fôlego do ouvinte, outros meio que te preparam para o que vai vir como é o caso. “A Sort of Homecoming” é um bom cartão de visitas, interessante, agradável, competente pra abrir o disco mas apenas prepara o terreno, na verdade, para “Pride (In the Name of  Love)”, uma das melhores da banda e uma espécie de hino do U2. “Wire” que a segue é elétrica, é agitada, cumpre bem sua parte no todo mas na verdade é mais uma boa ponte para outra das grandes, a faixa que dá nome ao disco, “The Unforgettable Fire”, uma composição intensa, com bateria forte e marcada e interpretação vocal emocionante de Bono Vox. Na continuação vem “Promenade”, uma balada leve com a marca do produtor Brian Eno, fechando o lado A e funcionando como uma espécie de apagar das luzes de uma etapa do disco.

O lado B abre com "4th. of July", uma vinheta instrumental arrastada, densa, soturna que praticamente introduz para o que virá em seguida, a fantástica “Bad” com seu riff simples e leve, contrastando com o climão pesado da letra sobre heroína, em outra atuação notável do vocalista (uma de minhas favoritas!). Praticamente espelhando o lado A, “Indian Summer Sky”, é outra canção de pegada vigorosa, assim como “Wire”, ambas lembrando o estilo do primeiro trabalho da banda. Segue com a excelente “Elvis Presley and America”, com destaque total para a bateria de Larry Müllen Jr.; e o álbum fecha com outra faixa curta, “MLK” (iniciais de Martin Luther King), com Bono cantando emotivamente quase à capela, apenas sobre uma base contínua de teclado, numa despedida digna de um grande disco.

Trabalho muito apoiado na bateria, enfatizada e destacada em diversas faixas, sem contudo deixar o disco pesado ou barulhento. Tudo certinho: doses certas de força, graça, emoção e contundência. Depois do bom, porém cru, “War”, o U2 lapidava algumas pontas brutas e apresentava um trabalho mais equilibrado e definidor de seu estilo a partir dali.

Mesmo ainda hoje admirando muito "The Unforgettable Fire", como já havia dito, a gente vai aprendendo, ouvindo outras coisas, descobrindo novos sons, outros artistas e, no fim das contas, posso afirmar que não trata-se mais do meu disco favorito. Mas ainda goza de minha total admiração e carinho, sendo um dos mais queridos da discoteca e um dos xodozinhos da coleção e certamente altamente recomendável para fãs, admiradores e curiosos.
*******************************

FAIXAS:
Lado A
1. "A Sort of Homecoming"
2. "Pride (In the Name of Love)"
3. "Wire"
4. "The Unforgettable Fire"

5. "Promenade"

Lado B
1. "4th. of July"

2. "Bad"
3. "Indian Summer Sky"
4. "Elvis Presley and America"
5. "MLK"


*****************************
Ouvir:
U2 The Unforgettable Fire




Cly Reis

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Navegante Errante





foto: Doris de Oliveira - fototeca Cioma Breitman
Museu Joaquim José Felizardo - Pref. mun. de Porto Alegre
O Naval foi e sempre será o bar da minha infância. Encravado em pleno Mercado Público de Porto Alegre, centro histórico da cidade, o típico boteco, aberto nos longínquos anos de 1907, é parte essencial da história de porto-alegrenses como eu, tendo em vista sua tradição e notoriedade. Aquele pé-direito altíssimo; as portas de madeira estilo português; o piso de lajotas intercalando preto e branco; o cheiro de trago no ar; as mesas de madeira com plástico grosso por cima; os porta-retratos com fotos antigas; os afrescos do teto; o enorme cartaz acima das cabeças com a imagem de um navio; as fotografias pitorescas nas paredes; o ar que parecia tomado por uma neblina de satisfação. Tudo ali me encantava desde quando, guri, levado por meu pai e, muitas vezes, juntamente com meu irmão, comecei a frequentar o bar Naval. Ia a vários outros com meu pai, mas ao Naval era especial. Não era sempre. Às vezes, no dia de pagamento de meu pai, funcionário da prefeitura, saíamos da repartição dele na Borges de Medeiros e rumávamos direto para lá, felizes. E mesmo com essa frequência menos assídua era incrível como sempre me senti em casa, tal como se o bar fosse uma extensão da minha.

Aquela aura do local me dava impressão de que, ao adentrar pela porta, fosse pela de dentro do Mercado, fosse pela da calçada, que dá para a rua, saíamos do resto do mundo para entrar, exclusivamente, no Naval, como navegantes num barco solto no meio do mar. A percepção de criança fazia com que, inclusive, eu nunca atinasse exatamente de qual dos quatro lados do Mercado Público se entrava para acessá-lo. Parecia que era pelo lado do Guaíba... mas, não, era pelo Largo... ou pelo lado da Prefeitura...? Afora a justificativa do senso de direção ainda em desenvolvimento em uma criança como eu, não posso deixar de pensar hoje que a entrada para aquele museu boêmio era, na verdade, imaginária.

A melhor parte para nós eram as comidas. Comida de boteco típica, daquelas suculentas, sempre com o mesmo gosto anos a fio. Tínhamos nossos pratos prediletos: as almôndegas gigantes, espetacularmente bem fritas, e a chuleta de porco, um respeitável bife cujo sabor especial era um verdadeiro segredo. Tinha também uma pimenta maravilhosa, a melhor que já comi na vida, feira na casa, que só passei a apreciar mais velho, pois era muito forte para meu paladar naquela época.

Não bastasse todo esse espírito, ainda o aspecto humano era de total acolhimento por parte dos garçons, que, na minha mente infantil, estavam ali desde sempre (e, quem sabe, não estavam?). Paulo Naval, um português de olhar entre o arguto e o carinhoso cujo nome resume a simbiose de sua existência com o local, visto que ele e o bar eram parte da mesma coisa; e Mauro, tipo turco dono de olhos verdes intimidadores até o momento em que abria seu sorriso largo e receptivo. Ambos eram amigos de meu pai, a quem tratavam como verdadeira deferência. No entanto e até por isso, Paulo chamava-o, com uma permissividade cúmplice de quem sabia de muita safadeza de meu pai, de “negro sem-vergonha”. O local sempre recebeu desde cidadãos comuns até personalidades, como Lupicínio Rodrigues, Carlos Gardel, Túlio Piva, Elis Regina, Glênio Peres, Leonel Brizola, Jânio Quadros, Olívio Dutra. Mas não havia distinção: podia ser político, conhecido, operário, personalidade, artista, zé-niguém, jovem, ancião, bicha, vesgo. Independia: anônimos ou famosos, todos os clientes eram tratados com o maior dos respeitos e atenção, e, alguns, como meu pai, pessoa comumente querida aonde ia (ainda mais nas rodas de birita e botecos da vida), ganhavam, sim, uma atenção especial.

Episódio clássico que mostra essa afetuosidade foi a ocasião em que meu pai, num dos tais dias de pagamento, pegou todo seu ordenado e se atirou para o Naval, sozinho. Lá, tomou todas a ponto de não ter condições de voltar para casa tamanho o porre. Tentou dar uns passos, mas caiu em plena rua. Pois então que o Paulo, sabendo que o pai tinha recém recebido o salário e que estava com este todo sacado dentro da bolsa, tomou a liberdade de abri-la e guardar o dinheiro consigo. Depois, chamou um taxi, pagou do seu bolso o taxista e mandou meu pai pra casa. No dia seguinte, já refeito do pileque, meu pai voltou ao bar para resgatar seu pertence, agradecer e pagar o taxi. Paulo não aceitou o dinheiro. Meu pai sempre se emocionava ao se lembrar desse ato de pura amizade, tanto pela consideração que tiveram com ele, rara para com um cliente, quanto pela ética de como agiram.

Por essas e outras, não à toa o Naval me parecia algo realmente poético. E Paulo Naval era um poeta de mão cheia, autor do livro "O Garçom e o Cliente - No Balcão do Naval" cujo lançamento ocorreu em pleno bar num concorrido coquetel. Recordo de uma vez que, sentados numa das mesas, ele, orgulhoso, de avental enxovalhado e paninho branco úmido na mão, recitou uma de suas obras. Momento inesquecível para mim.

Na esteira de meu pai, eu e meus irmãos também éramos muito queridos lá. Lembro da primeira vez que fomos com minha irmã, ainda uma criança de uns 4 ou 5 anos, sob os olhos arregalados de minha mãe, que permitiu o passeio com a pequena mas não sem certo receio. Mas deu tudo certo. Engraçado que, por conta daqueles dias de calor louco de Porto Alegre, misturado ao cansaço de sair cedo de casa conosco, ela acabou dormindo profundamente em nosso colo, chegando a ficar com o corpo todo mole. Parecia uma boneca de pano, pois, além de não acordar, precisava ser segurada permanentemente para não desmoronar. Naquele dia, Paulo e Mauro, felizes com a ilustre visita como se fosse a de uma familiar sua, bateram uma foto dela ainda acordada, tomando uma Mirinda de garrafa. Essa foto foi parar na parede do bar, ficando ali desde então.

Os anos se passaram. Cresci, a dinâmica de minha vida se alterou e, nesse meio tempo, entre outras mudanças, meu pai, motivo de meu contato primeiro com o Naval, foi para o outro plano. Mesmo assim, sempre procurei com uma frequência até parecida com a que tinha na infância dar uma passada por lá, fosse para sentar e comer, levar algo pronto para casa ou apenas dar um alô para o Paulo e o Mauro. Sentia-me, no fundo, com certa responsabilidade de manter a herança emocional de meu pai para com eles. Via-os nessas ocasiões, e era muito bom. Mas os anos de casa e a rotina religiosamente diária já os havia desgastado. Normal. Envelhecidos, mantinham a mesma simpatia e sorriso aberto, fazendo as mesmas perguntas a cada vez que eu ia (em que eu e meu irmão trabalhávamos, se eu ou meu irmão que é arquiteto, como estavam minha mãe e minha irmã, essas coisas de gente afeita a ti). No entanto, era perceptível que estavam cansados e que aquele cenário se alteraria, mas eu, talvez por apego ao sentimento de magia alimentado desde a infância, nem pensei em cogitar.

Mas as mudanças, de fato, ocorreram. Outro dia, dando voltas no Mercado Público, resolvi, como de costume, visitar os amigos Paulo e Mauro. Fui tomado de surpresa quando cheguei à porta do Naval. O local, todo reformado, agora tinha límpidas paredes brancas, arquitetura requintada e ar totalmente asséptico. Descaracterização própria de uma protomodernidade ignorantemente desmemoriada. A foto de minha irmã não estava mais lá, assim como os porta-retratos velhos, o cartaz do navio e tampouco a névoa de prazer. Até a porta que dava pra rua havia virado uma simplória janela. Dava pra ver que uma conceituada consultoria empresarial havia agido ali implacavelmente e passado o rodo em tudo que fosse nostálgico e não-moderno, deixando o local com cara não de botequim do Mercado Público de Porto Alegre, mas com cara de boteco bacaninha da Vila Madalena paulista. E, eu, com cara de bobo.

Perguntei a um garçom, um loiro baixinho, onde estavam o Sr. Paulo e o. Sr. Mauro. “Se aposentaram”, respondeu, olhando-me com uma expressão de estranhamento desdenhoso como se eu fosse um navegante errante em águas alheias. Mas meu desapontamento era a maior prova de que, na verdade, era ele o deslocado. Aquela indiferença modernosa e acéfala, que valoriza apenas o novo e cuja falta de alcance nem se presta a procurar no passado sentidos para o hoje, era o maior sinal da ação desrespeitosa desses tempos atuais. De fato, tudo que não fosse jovem tinha ficado para trás ali: aquelas conversas revolucionárias ou jogadas fora, aquelas bebedeiras homéricas ou o simples trago no fim do expediente, aqueles amores arrebatadores ou meros galanteios, aquelas figuras pitorescas ou cidadãos comuns, aquelas geniais ideias artísticas ou importantes acordos políticos. Tudo isso pertenceu a um tempo espacial diferente disso que se vive no dia a dia. Um tempo não-racional impossível de ser percebido por um simples garçom como os de hoje, que bate ponto como um escriturário. Tive o impulso de perguntar onde tinham posto a foto de minha irmã... mas recolhi a fala. Agradeci e fui embora, com um fio de melancolia e resignado com um mundo que insiste em ser muito real.

Mesmo assim, não deixei de frequentar o Naval. Volto lá de vez em quando. A comida é outra, gostosa também. Mas incomparável. Trata-se de outro Naval, pois “aquele” Naval, dos mocotós violentos, dos saraus de poesia, dos bate-papos inflamados, do chope perfeitamente tirado e dos tipos elegantemente extravagantes e encantadores, como foi meu pai, não existe mais. Perdeu-se no horizonte do oceano de lembrança, rumando para outra dimensão de tempo e espaço. Contudo, talvez minha paixão pelo Naval permaneça porque explique, justamente, esta minha atemporalidade ou o sentimento de, às vezes, estar deslocado no tempo. Assim como me acontecia quando subia à proa do Naval e me sentava à nau, com as pernas curtinhas que não encostavam o convés do tombadilho, para navegar longe sem sair do lugar. 

sábado, 9 de fevereiro de 2013

cotidianas #202 - Especial Carnaval - "Sangue, Suor e Cerveja"




Não se perca de mim
Não se esqueça de mim
Não desapareça
A chuva tá caindo
E quando a chuva começa
Eu acabo de perder a cabeça
Não saia do meu lado
Segure o meu pierrot molhado
E vamos embolar
Ladeira abaixo
Acho que a chuva
Ajuda a gente a se ver
Venha, veja, deixa
Beija, seja
O que Deus quiser...
A gente se embala
Se embora se embola
Só pára na porta da igreja
A gente se olha
Se beija se molha
De chuva, suor e cerveja...
Não se perca de mim
Não se esqueça de mim
Não desapareça
A chuva tá caindo
E quando a chuva começa
Eu acabo de perder a cabeça
Não saia do meu lado
Segure o meu pierrot molhado
E vamos embolar
Ladeira abaixo
Acho que a chuva
Ajuda a gente a se ver
Venha, veja, deixa
Beija, seja
O que Deus quiser...
A gente se embala
Se embora, se embola
Só pára na porta da igreja
A gente se olha
Se beija se molha
De chuva, suor e cerveja...
***************************************
"Sangue, Suor e Cerveja"

Billie Holiday - "Lady in Satin" (1958)





"Era o anjo das trevas.
Billie cantava com beleza demais
e dor demais."
Peggy Lee (cantora)



Sempre quis ter esse disco da Lady Day até por saber que fora de um dos últimos atos de sua conturbada carreira e por felicidade, agora, encontrando um relançamento da Columbia Records, que botou no mercado também outros títulos interessantes de jazz, finalmente o tenho em minha discoteca.
"Lady in Satin", de 1958, com certeza não é o melhor trabalho pessoal da cantora, não tem suas performances mais brilhantes ou o melhor de seu potencial vocal, mas até pelo fato de sua voz, outrora doce, suave, maviosa, mostrar-se extremamente fragilizada pelo estado de saúde debilitado, naquele que seria o último ano de sua vida, resultado do uso excessivo de ácool e heroína ao longo de toda sua trajetória, faz com que suas interpretações ganhem em dramaticidade e intensidade. Assim, cada ciúme soa mais trágico, cada desilusão mais sentida, cada decepção mais dolorida, cada adeus mais triste. "I'm a Fool to Wanto You", que abre o disco, é um ótimo exemplo disso, onde com a voz limitada, fraca, rasgando na garganta em determinados momentos, nos proporciona uma interpretação emocionate e única. "You don't Know What love Is" chega a ser mesmo ruim tal a deficiência da cantora contrastando, contudo, com o brilhantismo do arranjo e da execução da orquestra; em "For All We Know" e "Glad to Be Unhappy" é possível notar o esforço da cantora tentando se superar (e conseguindo); e "The End of Love Affair", que encerra o disco, mesmo com um fio de voz, Billie ainda consegue nos brindar com outra atuação vocal comovente em outra das grandes faixas do álbum. Em "Get Along" Billie é graciosa; em "For Heaven's Sake" consegue mesmo a duras penas trazer de volta o velho encanto com muito brilho; e tem ainda interpretações fenomenais na ótima "But Beautifull" e na excepcional "You've Changed", a preferida do prórpio meastro Ray Ellis que admite, de início, ter ficado decepcionado com o que encontrou de Billie Holiday no estúdio, mas que depois, ouvindo o resultado, percebeu que aquilo que registraram era uma das melhores coisas que já havia escutado na vida.
Um triste porém belo epitáfio de uma das maiores e mais importantes cantoras de todos os tempos. De certa forma, um documento de uma vida, pois tudo estava ali naquele final, naquele álbum, naquela voz rouca, débil, triste, dolorosa: toda a vida de sofrimentos, erros, paixões, desilusões, vícios, mas também de beleza, amor, sensibilidade e talento.

**************************************************

FAIXAS:
01 - I’m a Fool to Want You
02 - For Heaven’s Sake
03 - You Don’t Know What Love Is
04 - I Get Along Wiyhout You Very Well
05 - For All We Know
06 - Violet for Your Furs
07 - You’ve Changed
08 - It’s Easy to Remember
09 - But Beaultiful
10 - Glad to Be Unhappy
11 - I’ll be around
12 - The End of a Love Affair

*******************************************
Ouça:
Billie Holiday Lady In Satin



Cly Reis

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Medusa









"Medusa" - REIS, Cly
grafite sobre sulfite (22x10cm)

"Colorados - Nada Vai Nos Separar", organizado por Jana Lauxen - Ed. Multifoco (2012)


Finalmente saiu, mesmo!
Agora já o tenho em mãos.
Saiu a coletânea "Colorados - Nada Vai Nos Separar" , da qual eu faço parte como um dos autores, organizada pela escritora Jana Lauxen, com 19 textos selecionados de torcedores colorados espalhados pelo mundo afora.
Edição caprichada, bonita, muito bem acabada e com textos interessantíssimos e emocionantes com estilos, formatos e propostas diferentes dos escritores, no entanto, em todos os casos com algo importante em comum: a paixão pelo Sport Club Internacional.
O formato pocket, além de proporcionar um manuseio e transporte mais prático, é moderno, simpático e faz com que seu preço fique bastante acessível o que deixa qualquer colorado sem nenhuma desculpa pra não ter o seu.
Participam da coletânea, além de mim, Clayton Reis Rodrigues, os colorados Fábio Araújo e Eduardo Sauner de excelentes textos; o crítico de cinema, Beto Canales; Caroline de Souza Matos; Lulu Penteado com sua síntese perfeita de tudo que envolve o Internacional; Cícero Pereira da Silva: Eliane Becker; Jeremias Soares; o blogueiro do Vamo, Vamo Inter, José Paulo Pinto; o 'multiartista' Jorge Dimas Carlet; Luciana Lima da Silva; Sinara Fross com seu texto-poema de formato criativo e original; o talentoso Márcio Mór Giongo; o infiltrado Max Peixoto e sua aventura; Poliana Patricia Glienke; Rosália Speck; a simpática Nathalia Hoffman, 'vizinha' aqui do Rio de Janeiro; e a editora e organizadora Jana Lauxen.
Não sei se já tem em alguma livraria perto de você, mas se tiver, compre. Ficou bem legal.
E vamo, vamo, Internacional que nós, teus seguidores, estaremos sempre contigo.

****************************************

Ficha Técnica:
"Colorados – Nada Vai Nos Separar"
Editora
Multifoco, 2012.
130 páginas.
Formato pocket (10 x 14)




C.R.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Um Coração Lunar Com Um Pouco de Som





Amy Hildebrand - Dia 582
“Eu quero me refletir como uma só pessoa;
alguém que vai crescer, ter filhos, envelhecer e morrer.
Nem todos os meus dias serão bons, nem todas as minhas fotos serão boas, mas elas irão me refletir”
(Amy Hildebrand - 'O Nascimento da Realização' -
13.10.2009 – fotos 31 a 48)






Conheci a jovem Amy Hildebrand através da minha irmã e sócia, estudante de Pedagogia Carolina Costa em abril de 2012, dois meses antes do projeto que divulgou Amy ao Mundo ser concluído. O trabalho de Carolina sob o título “O ato de ver: solidariedade, justiça e respeito” para a disciplina de Estudos Sociais da PUCRS me impressionou bastante, porque dialogava com a nossa forma de compreender o universo visual das pessoas com cegueira e baixa visão na Aprata (http://www.aprata.com.br/) nos últimos cinco anos.

O trabalho começava com uma seleção das fotos de Amy e depois o breve texto: “Ela é cega e formada em fotografia”. Mais adiante Carolina destacava: “Amy é casada, tem dois filhos e nunca aprendeu a ler em Braille. Graças aos tratamentos feitos durante sua vida, conseguiu recuperar 20% da visão, o que de fato já se faz suficiente em meio ao talento extraordinário que possui. ´Eu sou uma pessoa com albinismo, mas eu também sou uma fotógrafa, esposa, mãe e artista. O albinismo é apenas um aspecto em mim e não é ele que me define´ declara Amy Hildebrand”.

Amy por causa do albinismo nasceu cega. O albinismo é um distúrbio congênito caracterizado pela ausência completa ou parcial de pigmento na pele, cabelo e olho, devido à ausência ou defeito de uma enzima envolvida na produção de melanina que afeta a visão, levando a baixos percentuais de visão ou até mesmo cegueira. Em 17 mil pessoas no mundo apenas uma pode ser albina e, por isso mesmo, essa característica torna a pessoa alguém raro. Na sua família não havia nenhum bebê albino até Amy nascer, mas por “algum motivo desconhecido a desordem apareceu em três das quatro gestações” , conta Amy.  Mas não é o albinismo que faz dessa jovem mulher alguém tão especial e sim a maneira como ela vive o que seria uma limitação visual.  Sua família não se acomodou com o diagnóstico médico e expôs Amy a vários estímulos que a levaram a mudar o rumo de sua vida.

Lendo as entrevistas que Amy concedeu a jornalistas mundo afora percebemos que a atuação da família e a sua força de vontade foram fundamentais no processo de cura: “Acredito que tudo esteja relacionado ao ambiente onde crescemos. Ninguém nunca nos disse que não poderíamos fazer algo. Fazíamos. E quando não conseguíamos, meus pais diziam que era porque talvez não fosse adequado para nós. Nunca disseram algo como ´você não pode por causa do seu problema de visão".

Durante a adolescência Amy passou a enxergar cores, formas e sombras, ela relata seu primeiro registro visual: “Lembro do piso de linóleo vermelho da cozinha. O sol entrava pela janela, e a poeira pairava no ar. Lembro de simplesmente deitar lá e ficar olhando o sol incidindo sobre o piso, o contraste entre o vermelho do linóleo e a luz, as sombras, minha mãe fazendo as tarefas domésticas. As cores eram tão vívidas. Eu amava isso. É como se fosse um sentimento aliado a uma experiência visual. É algo muito forte para mim. Muita cor, mas também muito amor”. Buscando a melhor forma de se expressar encontrou a fotografia: “Sempre me senti confortável com uma câmera nas mãos. Parecia o jeito mais natural de me expressar. Me perguntavam como eu enxergava o mundo, e nunca encontrei uma maneira adequada de responder isso, até começar a fotografar”. A fotografia pode ser entendida como um desenho com luz e contraste. A baixa visão levou Amy a interpretar muito o contexto ao longo dos dias, assim seu trabalho com fotografia faz com que as pessoas possam enxergar o que ela vê e da maneira que ela vê.
Amy lançou na internet o blog With Little Sound (tradução: Com pouco som) que lembra um diário com mil fotos e 29 textos escritos ciclicamente. As fotos são diárias e os textos de 30 em 30 dias. O período mais difícil para Amy fotografar foi quando seu padrasto foi diagnosticado com câncer terminal, numa entrevista a BBC Brasil ela comentou: “Mas depois de sua morte tentei ser o mais positiva possível”.

As fotos de Amy estão intercaladas entre textos. A numeração das fotos segue seu fluxo, assim como os dias das nossas vidas. Alguns períodos são mais intensos, noutros as imagens se concentram nos interiores das casas, na intimidade com a sua família. O que mais impressiona é que ela manteve seu plano inicial estabelecido nas regras e extraiu do seu cotidiano imagens essencialmente artísticas, nos deixando ver o que está mais forte no seu momento de vida. O afeto permeia a Arte de Amy durante todo o tempo. Imagens me acompanham desde que conheci o Blog, alguns olhares dela se identificam com o meu olhar de fotógrafa. Os desfoques me agradam. As cores ofuscantes também. As composições rendem inúmeras interpretações semióticas.

Separei para vocês as minhas imagens prediletas. Os textos mais bonitos a meu ver são os que falam das festas de Natal e dos filhos, me lembram cartas a partir dos posts de 10.02.2010 quando deixam de ser escritos diretamente no Blog e parecem ser cartas scanneadas. Alguns posts são mais reflexivos beirando o estado permanente de  deriva de quem está apreendendo cada momento: “Today reminded me of one of the first days of this project. I see the light at the end of the tunnel and I find myself hesitating on moving forward”(“Hoje me lembrou um dos primeiros dias deste projeto. Eu vejo a luz no fim do túnel e eu me encontro hesitando em avançar” – texto da foto número 720 ).

As regras estabelecidas por Amy em 14.09.2009 me chamaram atenção e demonstram a persistência diária (“postar uma foto por dia; a foto tem que resumir o meu dia, seja ele emocional, físico, real ou fantasioso e depois deste post preliminar, vou escrever a cada 30 dias”).  Além disso, sempre despedia-se do leitor com a palavra coração entre aspas, numa demonstração de quanto há de afeto nessa conquista. Em chinês, os pensamentos são movimentos do coração - mente e coração são a mesma palavra.
“Coração”


Leocádia


PS. 1: Amy esteve em Porto Alegre/RS em outubro de 2012 a convite do projeto “Saber Viver” como palestrante e trouxe sua mostra “1000 Fotos em 1000 dias”.
P.S. 2: O albinismo faz parte da vida de outras pessoas talentosas:  Jonhy e Edgar Winter: músicos texanos; Connie Chiu: primeira modelo albina no Mundo admitida por Jean-Paul Galtier;  Ademir da Guia: jogador de futebol, conhecido por negro-aço. Possui estátua no Palmeiras onde é um dos ídolos da história do Clube; Hermeto Pascoal  alagoano toca sanfona, violão, contrabaixo, flauta, saxofone e uma infinidade de outros instrumentos musicais. Aprendeu a tocar sanfona por ter que ficar horas em casa. Ele não podia ajudar os pais na lavoura por causa das queimaduras de Sol. Nos anos 1970, participou das gravações de um álbum do astro do jazz Miles Davis  que o chamou de “músico mais impressionante do mundo”; Sivuca: Também apelidado de “Cabelo de Milho”, “Sarará Crioulo” e “Gênio Louro”, Sivuca nasceu em Itabaiana, na Paraíba, sob o nome Severino Das de Oliveira em 1930. Na época da guerra racial na África do Sul, saiu com a cantora negra Miriam Makeba em turnê mundial. O ousado músico gostava de experimentar e chegou até a tocar Bach usando sua sanfona.
***********************************


Amy Hildebrand - Dia 1

Amy Hildebrand - Dia 85

Amy Hildebrand - Dia 112


Amy Hildebrand - Dia 261

Amy Hildebrand - Dia 336

Amy Hildebrand- Dia 420

Amy Hildebrand- Dia 665

Amy Hildebrand - Dia 725

Amy Hildebrand - Dia 872

Amy Hildebrand - Dia 919

Amy Hildebrand - Dia 1000


Sites e páginas pesquisados:  
http://guiadoscuriosos.com.br/blog/tag/albinos-famosos/  Marcelo Duarte 
www.bbc.co.uk – Jessica Fiorelli
www.zerohora.com.br – Larissa Roso
http://pt.wikipedia.org/wiki/Albinismo - Wikipédia
http://www1.folha.uol.com.br/bbc/1070976-fotografa-que-nasceu-cega-registra-uma-imagem-por-dia.html - Folha de São Paulo
http://withlittlesound.blogspot.com.br/ - blog de Amy Hildebrand





domingo, 3 de fevereiro de 2013

cotidianas #201 - Amor. E um Videogame


- Eu quero terminar tudo.

-Calma, guarda um pouco de bolacha para amanhã. – Ele disse, afastando o pote dela.

-Não, você não entendeu. Entre nós. Quero acabar.

-O quê? – A mão bateu no pote, as bolachas amanteigadas rolaram pelo tapete. Os dois começaram a juntar.

-Não te amo mais.

-Quebrou.

-Exato! – Disse ela sem olhar diretamente para ele. Jogava as bolachas no pote de vidro.

-Não, quebrou o pote. Rachou no meio. – Ele respondeu constrangido. A rachadura dividia o pote em dois.

-Bom, não importa. Eu não te amo mais. Decidi começar 2013 sem medo, sem receios. Chega dessa relação, ela está esgotada.

Ele terminou de juntar as bolachas do chão. Ficou em silêncio, olhando os farelos. Pensando em coisas passadas.

-E sabe o que mais? – Ela pegou o pote rachado. Jogou no lixo, junto com as bolachas sujas. Só terminou a frase quando voltou. – Acho que você também não me ama.

-Hum.

-Hum, o quê? Você tá ligando o videogame?!

-Tô quase virando.

-Você não me respeita, mesmo. Não me dá valor.

Ele disse sem olhá-la:

-Você terminou comigo mesmo eu desligando, toda santa vez, esse videogame para te ouvir. Por que você acha que, justamente agora, após o fim, eu vá fazer esse esforço?

-Eu não acredito.

-Além do mais, o videogame tem fim. Seus falatórios, não.

-Cretino. É por isso que não te amo mais. Porque você só pensa em você.

-Vai catar coquinho.

-Hum?!

-O macaco. No videogame. Nessa fase ele cata coquinhos. Na anterior são bananas.

-Você ouviu o que eu disse? Que eu terminei porque você só pensa em você!?

-Não. Você terminou comigo porque é egoísta e tem um trauma de infância que faz você gostar de quem te trata mal.

-Como é?! – Ela gritou de susto. Para dentro e para fora de si.

-O dia que te pedi em namoro, você não aceitou.

-Não gosto de flores, serenatas, não gosto de bajulações.

-Mas disse que queria namorar comigo quando me viu ficando com uma guria daquela festa.

-Nem sabia disso.

-Sabia sim. – Ele balançou os braços. O macaquinho havia caído da árvore. – Você atualizou o status do nosso Facebook, ainda no mesmo dia, e foi comentar no perfil da menina.

-Bom…

-Você odiou aquele poema que eu te escrevi.

-Achei meloso.

-Mas me escreveu uma carta de amor, como comentário, naquela postagem que eu fiz no Facebook. A postagem em que eu dizia ter saído com aquela amiga muito especial.

-Cachorro.

-Quem dera eu fosse.

-Não, no videogame. Cuidado com o cachorro. – Ela sentou-se do lado dele.

-Você odeia quando não te dou atenção. Mas se o foco da conversa não é você, você diz que eu não te escuto.

A garota ficou em silêncio. Ele continuou:

-Então, tudo bem. Se com todo o meu esforço, você ainda quer terminar, termine de uma vez. Pelo menos agora posso focar minha atenção em coisas que não sejam você e seus monólogos.

-Você não fica nem triste?

-Claro, poxa  Eu te amo, mais do que qualquer guria que já peguei. Mas você precisa aprender que namorar não significa ser dono de nada. A gente não se pertence. A gente se doa um para o outro. Não é obrigação. É porque se quer.

-Hum.

-Agora é a vez do ursinho no jogo. – Ele já estava na última fase.

-Que fofinho.

-O coelhinho é mais fofinho.

-Não, seu bobo. Você é fofinho.

Ele olhou para ela. Ela retribui, sorrindo. Algo brilhou… na TV.

-Você vai perder o jogo. – Ela comentou vendo o urso cair num buraco.

-Mas vou ganhar outra coisa.

Os dois se beijaram.

-Eu te amo.

-Eu que te amo.

-Você não ganhou o jogo. – Ela disse.

-Ganhei você.

-Que lindinho!

-Eu sei.

-Não. Tô falando do coelhinho do jogo. Apareceu ali.
  
de Luan Pires




Luan Pires é formado em Jornalismo. Escritor "de chuveiro" e viciado em literatura. Cresceu lendo os livros de Agatha Christie, ama Machado de Assis e acha a Capitu a personagem mais fascinante de todos os tempos.
Ver filmes é uma de suas paixões. Viciado em café e fascinado por tempestades repentinas. Libriano, organizado - e chato também.
Mas é boa gente, pelo menos se esforça para isso..

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

The Prodigy - "Music For Jilted Generation" (1994)





 “Fodam-se eles e suas leis”
“Their Law”

“The Fat of the Land”, álbum de 1997 cheio de hits e responsável pelo estouro definitivo dos ingleses do The Prodigy é constantemente saudado e festejado como sendo seu grande trabalho. É um grande álbum, é verdade, e no seu devido tempo merecerá a atenção aqui nesta seção, mas na minha opinião o verdadeiro crescimento e consolidação de uma linguagem e um estilo aconteceu em seu disco anterior o ótimo “Music for Jilted Generation” de 1994, onde aquele punkismo que ficaria mais explícito, não só na agressividade do disco seguinte, em músicas como “Breathe” por exemplo, ou mesmo no visual dos integrantes, especialmente do performer Keith Flint, começava a tomar forma e se justificava não apenas sonoramente mas também enquanto atitude, uma vez que a banda batia de frente com as autoridades inglesas que na época criavam todas as dificuldades possíveis para relizações de raves e festas do gênero. Com “Their Law”, uma paulada metal-eletrônica feita em parceria com os industriais do Pop Will Eat Itself, desafiavam a polícia, botavam o dedo na cara da Ordem Pública e mandavam todos ‘se foder’, literalmente, num petardo sonoro pesado e agressivo. Uma verdadeira bomba hardcore eletrônica como poucas vezes havia-se ouvido até então.

“Voodoo People” é outra matadora! Com sua guitarra cortante, suja, entrecruzada, entrecortada, e uma batida atropeladora é simplesmente violenta e selvagem. “Break and Enter’, que a rigor abre o disco após uma breve vinheta, é igualmente acelerada e pegada sem contudo ser tão feroz quanto às outras já citadas, apresentando por sua vez uma base genial extremamente bem trabalhada totalmente quebrada e inconstante complementada por um sample vibrante de um vocal feminino, numa das melhores faixas do álbum. A envenenada “Poison” é psicodélica, psicótica, caótica, ousada em sua composição aparentemente desencontrada, e com o vocal brilhantemente fazendo partes de percussão; “Speedway” é extremamente criativa ao incorporar samples de carros de corrida ao seu andamento já bem acelerado; e a boa "No Good" é um convite irrecusável para uma pista de dança com seu ritmo frenático e empolgante. “3 Kilos”, que abre o ‘pacote de narcóticos’, como é descrito na capa o conjunto das três últimas faixas, é estilosa com seu andamento cool e seu charmoso solo de flauta; a mutável “Skylined” vai ganhando corpo e peso, capricha nas repetições e explode num ritmo galopante forte e intenso; e a perturbadora “Claustrophobic Sting”, com seu sample de saco-de-risadas fecha o disco em grande estilo numa faixa longa, forte e alucinante.

Músicas como a acelerada “Full Throttle”, “One Love” com seus toques árabes;  e a elétrica “The Heat (The Energy)”, são boas faixas, dançantes, vibrantes mas na minha opinião momentos menores no álbum, o que não tira em nada o brilho do trabalho como um todo. Se depois de um álbum interessante porém quase primário, e que soava até meio ‘infantilóide’, como seu “Experience” de 1992, em “Music for Jilted Genaration”, Liam Howlett a cabeça pensante por trás do projeto, corrigia o rumo, aparava as arestas, caprichava nos samples achava o meio termo entre o eletrônico e o peso e mandava ver num álbum que pode ser considerado um dos pioneiros na introdução de elementos de peso e guitarras na música eletrônica. O que veio depois foi só conseqüência.
***************************************

 FAIXAS:
1. Intro
2. Break and Enter
3. Their Law
4. Full Throttle
5. Voodoo People
6. Speedway (theme from “Fastlane’)
7. The Heat (The Energy)
8. Poison
9. No Good (Start The Dance)
10. One Love (Edit)

  • The Narcotic Suite
11. 3 Kilos
12. Skylined
13. The Claustrophobic Sting

***********************************
Ouça:

Cotidianas Especial #200 - Arte


"A arte naturaliza a todos na mesma pátria superior"
Machado de Assis
"Na arte já não nos preocupam os padrões, mas as exceções."
Oscar Wilde


-A arte tem mais valor do que a verdade - argumentava para os jornalistas, parafraseando Nietszche, a fim de defender seu trabalho.

Controverso, ousado, digressor, admirado, odiado, por vezes repudiado, apresentava um trabalho inegavelmente original. Muitas vezes chocante, é verdade, mas indubitavelmente único. Agressivo, de gosto duvidoso, repugnante, sem noção, sem limite, eram apenas algumas das muitas definições e adjetivos utilizados mundo afora por onde suas obras eram instaladas em galerias, mostras, exposições e bienais, dividindo opiniões e gerando manifestações de toda a ordem.

Uma sala com um centena de baldes com fetos humanos mortos, um pele esticada de um homem esfolado servindo como tela na parede, uma instalação com urubus vivos comendo carniça de porcos, pessoas comendo e vomitando o tempo inteiro dentro de uma jaula são apenas alguns exemplos das bizarrices proporcionadas por aquele que era considerado por muitos o maior artista vivo. É lógico que obras como essas eram incansavelmente combatidas por ONG's, Igreja, Direitos Humanos, Direitos do Animais, que muitas vezes ganhavam as brigas e impediam a exposição de acontecer ou sequer desembarcar numa cidade, mas muitas vezes tinham que engolir e aceitar que aquelas obras grotescas fossem expostas, nestes casos, gerando manifestações, passeatas, cartazes, pixações e depredações públicas.

Foi o que aconteceu daquela vez. A exposição seria realizada. Já havia garantias do departamento de Cultura, da prefeitura, o museu havia ganho na Justiça o direito de mostrá-la alegando que a não apresentação de qualquer uma daquelas obras feriria a liberdade de expressão, seria censura, etc. Da parte do artista, desta vez abriria mão até mesmo de seus polpudos cachês, mas fazia questão de que não houvesse qualquer interferência em seu trabalho e que o mesmo ficasse oculto e inacessível até o dia da abertura da mostra. Até lá, apenas seus homens, seus montadores, carregadores e funcionários teriam acesso, por uma entrada exclusiva, à sala onde a instalação seria montada. Era difícil aceitar algo assim, ainda mais sabendo-se do histórico de obras polêmicas, mas como tratava-se de um gênio diferenciado, não poderiam ficar barganhando e correr o risco de perder a oportunidade de ter um nome como aquele expondo na sua cidade. Seria um evento único e irrepetível.

Assim, homens de macacão recebiam caminhões, entravam com caixas enormes e paineis de vidro por um acesso alternativo do prédio, modo que ninguém tivesse contato com aqueles materiais, enquanto lá dentro, outros montavam aquela misteriosa 'obra-de-arte'.

Perguntado uns dias antes por jornalistas sobre o que o público poderia esperar, o criador, misterioso, limitou-se a dizer que seria uma obra mutável, de transformação. Que haveria, sim, um momento crucial logo na abertura do evento, mas que a obra continuaria acontecendo até quando os organizadores achassem que devesse durar ali dentro da galeria, mas que certamente continuaria em curso de qualquer modo. Os repórteres tentaram maiores explicações, mas como todo o artista, excêntrico, retirou-se sem maiores informações.

Assim, ansiosos por presenciar o momento crucial da anunciada transformação da obra, um dia antes da exposição filas formavam-se pra ver o que aquele suposto gênio havia preparado daquela vez. Infelizmente para muitos a sala onde sua instalação fora montada tinha sua limitação física e apenas algo em torno de cem pessoas puderam entrar num primeiro momento, os que seriam,  por assim dizer os  privilegiados.

As portas do Centro Cultural abriram-se às 10 da manhã e aquela centena de contemplados correu para a sala onde o artistas preparara sua obra. Ignorando as outras esculturas, telas, fotografias nos salões vizinhos artistas valorosos e renomados, apressavam-se para chegar ao salão 3-sul. Chegando lá, depararam-se com algo surpreendentemente simples para toda aquele alarde: que via-se era apenas uma grande caixa de vidro, de mais ou menos 25 metros quadrados. Esta era a grande obra? Não exatamente. Deve-se dizer que aqueles painéis eram de vidro blindado, inquebrável, que foram fechados no local, lacrados hermeticamente e que entre suas paredes estava, nada mais nada menos do que nosso artista, nu com uma pistola calibre 22 na mão. A pequena multidão se dividia entre sensações de admiração, decepção, pânico, expectativa e curiosidade. "Pelado, que ridículo". "Quer se mostrar, o palhaço". "E aquela arma na mão?". "Será que a arma é de verdade?". "Iria ele...?"."Não, ele não faria isso". "Não chegaria a tal ponto". "Não levaria sua ARTE a tal limite.."

Foi quando às 10 horas e 08 minutos se ouviu o disparo. Pedaços do cérebro voaram grudando-se ao vidro. Alguns só gritavam, outros se acotovelavam tentando sair dali, outros riam, outros choravam, outros tiravam fotos, outros desmaiavam  alguns aplaudiam.

A polícia, a retirada do público, a imprensa, o isolamento da área, os bombeiros tentando arrombar a caixa, a retirada do corpo depois de horas de trabalho, o fechamento do Centro Cultural, a repercussão pública, as consequências, tudo aquilo apenas complementava a obra que havia-se iniciado com aquele tiro, ou melhor, havia-se iniciado quando o viram nu dentro de um cubo transparente. Tudo correu conforme a intenção original concebida pelo artista.

Aquela havia sido e seria por muito tempo, sem dúvida, a maior obra de arte de todos os tempos.


Cly Reis


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013