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quinta-feira, 6 de abril de 2023

Aqueles 10 filmes argentinos imperdíveis

 

Darín, o grande astro do cinema argentino
contemporâneo e presente em várias obras
Este post vem cumprir uma promessa feita há alguns anos. Conversávamos eu e dois colegas de trabalho durante o almoço e, papo vai, papo vem, lá pelas tantas o assunto caiu – como não é incomum de acontecer comigo e amigos meus – em cinema. O tema: cinema argentino contemporâneo. Compartilhamos ali do mesmo gosto pelo cinema realizado pelos hermanos e começamos a falar sobre nossas preferências dentro desta cinematografia. Foi então que, percebendo-se que alguns dos títulos dos quais eu comentava ambos não tinham visto ainda, eles ficaram curiosos para conhecer e tratamos de que eu fizesse uma lista com os meus filmes argentinos preferidos.

A lista, como se vê, não saiu em seguida. Voltamos do almoço para nossos postos e as obrigações nos fizeram esquecer de qualquer ludicidade. Mas os anos se passaram e o cinema da Argentina segue muy bien, gracias. Vários filmes foram produzidos neste meio tempo, inclusive dignos de comporem uma lista como esta além dos que já haviam sido realizados até então quando daquela nossa conversa. A bem da verdade, desde o brilhante “A História Oficial”, o primeiro Oscar de Melhor Filme para um argentino, em 1985, isso já se anunciava. A meu ver, no entanto, não foi com o hoje cult “Nove Rainhas”, de 2000, o start, pois o ainda considero imaturo e artificial. Porém, o filme, mesmo com suas inconsistências, já era o sinal que o curso do Rio do Prata havia sido achado. A partir dali, só foi “golazo”.

O contundente "A História Oficial":
1º Oscar da Argentina
Pois a indicação ao Oscar de Melhor Filme Internacional de “Argentina, 1985”, certamente um dos novos entrantes deste rol, fez-me resgatar a ideia agora atualizada. Esta amostragem aqui, então, vem resgatar – mesmo com este atraso do tamanho do Obelisco – a tal promessa. As 10 indicações servem tanto para estes meus amigos (espero que esta postagem chegue a eles) como qualquer um que também admire o melhor cinema feito na América Latina nos últimos 30 anos. Sim, porque a Argentina certamente passou o Brasil neste quesito, o que se reflete inclusive nas conquistas e na simples comparação entre um cinema e outro durante este tempo. (e olha que o cinema brasileiro se tornou bastante pujante nas últimas duas décadas!)

Mas não tem comparação: é na terra de Gardel que se atingiu um nível muitas vezes de excelência (e de exigência) técnica que contamina uma grande parte da produção cinematográfica do país. Seja nos roteiros bem escritos, seja na técnica de nível “primeiro mundo”, seja na habilidade cênica, seja no carisma e competência de símbolos desse cinema, como o principal deles: Ricardo Darín. Mas não somente ele: Oscar Martínez, Martina Gusmán, Dario Grandinetti, Leonardo Sbaraglia, María Onetto e outros que brilham nas telas. Tudo está a serviço de um cinema eficiente, que sabe contar bem (e com criatividade) uma história. Um cinema que achou o tão almejado equilíbrio entre arte e entretenimento.

E como se trata de uma produção vultosa (inclusive aqueles que eu nem assisti), teve, claro, o que ficou de fora. Mas se quiserem incluir “Leonera” (Pablo Trapero, 2008), “A Odisseia dos Tontos” (Sebastián Borensztein e Eduardo Sacheri, 2019), “Koblic” (Borensztein, 2016), “Elefante Branco” (Trapero, 2012) e “Neve Negra” (Martín Hodara, 2017), sintam-se perfeitamente à vontade, que também merecem toda audiência.

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“O Segredo de Seus Olhos”, Juan José Campanella (2009)

Não se poderia falar em lista de melhores filmes argentinos sem incluir “O Segredo...”. Afinal, não se trata apenas de um dos melhores da história de seu país, mas, tranquilamente, da década de 2000 em todo o mundo, no mesmo patamar de "Match Point", "Cidade dos Sonhos", "Elefante" e "Onde os Fracos não Tem Vez". Muito teria para se falar do filme de Campanella: a atuação sublime de Ricardo Darín, o hipnotismo que a musa Soledad Villamil causa no espectador, do merecido Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, do impressionante plano-sequência do jogo de futebol, enfim. Mas o que pauta esta grande obra é, definitivamente, sua trama, tão envolvente quanto literária, visto que extraída com maestria por Campanella do livro de Eduardo Sacheri (que, aliás, colabora com o roteiro). Thriller, romance, comédia, policial, aventura, drama. Um pouco de tudo e tudo muito bem amarrado. (Amazon Prime)


“Abutres”, Pablo Trapero (2010)

Aqui, duas recorrências próprias do atual cinema da Argentina. A primeira delas, obviamente, é Ricardo Darín, que estrela vários filmes dessa lista e muitos outros dignos de estarem aqui mencionados também. A outra repetição é Trapero, o mais talentoso cineasta de sua geração na Argentina. Em ”Abutres”, ambos dão um show. Numa trama que, como é de costume aos argentinos, envolve drama, denúncia e história de amor, o filme trata de um advogado especializado em acidentes rodoviários, que descobre um esquema de corrupção e desvio de dinheiro às custas do sofrimento de pessoas simples. A cena final, sem dar spoiler, além de um surpreendente desfecho da história, tem o recurso de plano-sequência característico aos encerramentos dos filmes de Trapero. (Star Plus)


“Medianeiras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual”, Gustavo Taretto (2011)

Comédia romântica, mas não como os enlatados de Hollywood, e sim com um olhar muito próprio da vida contemporânea na era que tudo impele a ser digital – inclusive as relações amorosas. Ganhador de melhor direção e melhor longa estrangeiro no Festival de Gramado, “Medianeiras” narra os encontros e desencontros de Martín e Mariana, os protagonistas-símbolo de uma geração emparedada pelas linhas simétricas das metrópoles. Solidão, neuroses, traumas, aflições, desilusões. Tudo sob o olhar da selva de concreto chamada Buenos Aires, que se revela como uma personagem onipresente. Para quem ama comédias românticas inteligentes como “Encontros e Desencontros”, “Bar Esperança”, e “(500) Dias com Ela”, pode por pra rodar “Medianeiras”, que o longa de Taretto é deste naipe. 


“O Clã”, Pablo Trapero (2015)

Trapero de novo. E aqui impecável. A assustadora história da família acima de qualquer suspeita, os Puccio, que sequestra pessoas ricas, cobra o resgate e assassina as vítimas assim que coloca a mão no dinheiro, guarda o aspecto de crítica político-social própria do cinema argentino. Baseado num caso real, mais do que apenas evidenciar fragilidades de seu país, “O Clã” revela perversidades obscuras sorrateiramente entranhadas na sociedade platina. Afinal, como duvidar que tamanha maldade aconteça numa sociedade que, em parte, acolheu uma das ditaduras mais sangrentas da América Latina? Memoráveis as cenas em que "Afternoon Tea", da Kinks, rola enquanto o circo de horrores acontece e, como de praxe quando se trata deste cineasta, o plano-sequência. Vencedor do Urso de Prata de Melhor Diretor em Veneza, Trapero faz seu melhor filme - e isso significa bastante considerando sua filmografia quase irretocável. (Star Plus)


“Relatos Selvagens”, Damián Szifron (2014)

A tradição dos filmes de episódios dos europeus e mesmo do Brasil nos anos 60 e 70 é inteligentemente recuperado, claro, pelos argentinos. E que filme! Potente, ferino, mordaz, grotesco. "Relatos Selvagens" reúne seis histórias distintas, que se complementam entre si por um fio condutor subjetivo mas evidente: o conflito entre barbárie e civilização. E pior: a primeira, fatalmente, sempre vence de algum jeito, seja nas vias de fato após, seja com uma bomba que exploda tudo. Darín, igualmente, não poderia estar de fora, estrelando o episódio em que um engenheiro de minas que se revolta contra o sistema e resolve se vingar com aquilo que ele melhor sabe fazer: explodir bombas. Embora não tenha levado, foi selecionado para os dois maiores prêmios do cinema mundial: a Palma de Ouro de Cannes e o Oscar de melhor filme estrangeiro. (HBO Max e Amazon Prime)


"O Pântano”, Lucrécia Martel (2001)

Além do já mencionado Trapero, o cinema argentino conta com vários outros cineastas talentosos. Porém, nenhum deles possui um estilo tão pessoal como Lucrécia Martel. Dona de um cinema de linhagem moderna carregado e perspicaz, ela vale-se da dificultação do olhar e da fragmentação narrativa para expressar sentimentos e angústias da sociedade contemporânea, adentrando nas profundezas de seus personagens. Texturas, sensorialidades e densidade se homogeizam para expor tensões interpessoais, que se encaminham fatalmente para o pior. Uma reflexão visceral sobre classe, natureza, sexualidade e política, e uma das mais aclamadas estreias de realização contemporâneas. Prémio para Melhor Primeira Obra no Festival de Cinema de Berlim.


“Um Conto Chinês”, Sebastián Borensztein (2011)

O típico filme do novo cinema da Argentina: comédia dramática, com roteiro envolvente, referência a traumas nacionais (Guerra das Malvinas), um toque de romance e, claro, a estrela de Ricardo Darín. A trama é relativamente simples, mas convidativa: o ranzinza Roberto (Darín) trabalha numa loja de ferragens e vive de maneira metódica, mas sua rotina muda quando um chinês que não fala uma palavra de espanhol aparece em seu caminho, e ele decide ajudar o adorável forasteiro. Longe de se resumir a uma fórmula como no tradicional cinema comercial, “Um Conto...” faz uso desses elementos narrativos para compor um filme divertido e delicioso de se assistir, sem deixar de propor reflexão. Diversão com cérebro. Prêmio Goya de Melhor Filme Ibero-Americano. (Star Plus)


“Vermelho Sol”, Benjamín Naishtat (2019)

Esqueça o formato "diversão inteligente" de “Relatos...”, o toque romântico de “O Silêncio...” a comicidade de “Um Conto...”. “Vermelho Sol” é pura tensão e embrulho no estômago. Contando a história de um advogado arrogante, que vê sua vida perfeita desmoronar quando um detetive particular chega na sua pacata cidade para investigar um desaparecimento, o longa de Naishtat se assemelha a filmes marcantes do cinema que souberam narrar, com acuidade, o "começo do fim", como “A Fita Branca”, de Michael Haneke, para com a Primeira Guerra, ou “O Ovo da Serpente”, de Ingmar Bergman, que previa o que levou ao Holocausto. Duro, forte e absolutamente real. Afinal, por trás dos segredos dos personagens de “Vermelho...” havia uma ditadura militar se anunciando. Premiado em diversos festivais, como Toronto, Havana, San Sebastian, Rio de Janeiro e Recife.


“Nascido e Criado”, Pablo Trapero (2006)

Antes de “Leonera”, de “Abutres” e de “O Clã”, Trapero realizou está pequena obra-prima tocante e profunda sobre os limites da existência, confrontando o inato e a superfície, a natureza e a convenção social. Conta a história da família de Santiago, um jovem dedicado à decoração e à restauração de antigos objetos, que vive um repentino acidente na estrada, o qual desencadeia uma tragédia familiar e um violento giro em sua vida. Numa paisagem gelada do extremo-sul argentino, Santiago, irreconhecível, reaparece empregado num aeroporto perdido no fim de mundo. O cineasta volta sua lente para dois interiores: o humano e o das paisagens rústicas do pampa, para onde o personagem principal se refugia de si próprio. Na mesma medida, Trapero, dado a este olhar penetrante, atinge outro interior: o do espectador. (Prime Vídeo)


“Argentina, 1985”, Santiago Mitre (2022)

Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro (não levou o Oscar por pouco, pois merecia muito mais do que o badalado “Sem Novidades no Front”), "Argentina, 1985" narra a história verídica dos promotores públicos Julio Strassera e Luis Moreno Ocampo, que ousaram investigar e processar a ditadura militar mais sangrenta da Argentina. Sob forte pressão política, pública e militar, a dupla, amparada por uma jovem equipe de universitários engajados, encabeçou uma longa pesquisa antes de começar a julgar os cabeças do regime argentino naquele que é conhecido como Julgamento das Juntas. Não apenas Darín, que faz Strassera, mas Juan Pedro Lanzani, no papel de Ocampo, estão fenomenais. Igualmente, magnífica a cena da leitura da acusação no tribunal, um dos textos mais pungentes que o cinema latino-americano já viu. (Prime Video)




Daniel Rodrigues

sábado, 11 de março de 2023

"Argentina, 1985”, de Santiago Mitre (2022)

 

“Marte Um” é um dos melhores filmes brasileiros do século XXI e um dos melhores do cinema nacional. Mas por que abrir falando deste filme e não de “Argentina, 1985”? Pelo fato de que, mais uma vez, o Brasil não é representado no Oscar. O filme de Gabriel Martins era o candidato brasileiro a concorrer à estatueta, o que não se confirmou mais uma vez como vem ocorrendo há 25 anos, desde “Central do Brasil”, em 1998. E por que a comparação entre os países? Porque, embora “Marte Um” tenha sido preterido a títulos de outros quatro países que não só a Argentina, é inevitável a comparação entre o cinema feito no Brasil e na terra de Gardel, vizinhos e afins em uma série de aspectos. O fato é que este último vem, há aproximadamente duas décadas, se sobrepondo de tal maneira ao primeiro – inclusive no próprio Oscar, com a indiscutível vitória de “O Segredo dos Seus Olhos”, em 2004, e a indicação de “Relatos Selvagens”, em 2015 – que chega a eclipsar um grande filme como “Marte Um”.

Esta comparação denota o quanto o cinema argentino soube encontrar o seu lugar na indústria internacional. “Argentina, 1985” traz as qualidades e o hibridismo que caracterizam a produção audiovisual recente dos hermanos. Baseado em fatos reais, o filme conta a história dos promotores públicos Julio Strassera (o lendário Ricardo Darín) e Luís Moreno Ocampo (Juan Pedro Lanzani, ótimo no papel) e sua jovem equipe, que tomam a inédita missão de processar os militares da ditadura argentina. Sob forte pressão política, pública e militar, a dupla encabeçou uma longa pesquisa antes de começar a julgar os cabeças do regime argentino naquele que é conhecido como Julgamento das Juntas.  O processo todo ouviu 850 testemunhas e durou cerca de 530 horas de audiência, vindo a resolver-se no fatídico ano que denomina o título.

Impressiona a capacidade do cinema argentino de saber contar histórias de forma equilibrada e sem pesar demasiadamente para o superficial ou para o denso. Isso coloca a obra no difícil limiar entre o cinema de arte e o filme popular, química facilmente identificada em outros títulos argentinos como “Família Rodante”, “Um Conto Chinês” e “Medianeiras”. No longa de Santiago Mitre, há sempre porções bem conjugadas de drama, humor, romance e registro histórico-documental. Neste ponto, a reconstituição de cenas, principalmente as de tribunal, são capazes de fazer reviver o passado. Além disso, o roteiro vale-se do recurso da construção de narrativas “paralelas” (o pretensamente perigoso namoro da filha Strassera) e a complementaridade de perfis entre os personagens, o que transmite uma percepção de coesão ao espectador.

Recuperando a história: acima, foto do julgamento
original; abaixo, a reconstituição do filme

Há de se ressaltar também aquele que é a cara e o coração do novo cinema argentino: Ricardo Darín. Em mais um exímio papel, ele interpreta Strassera com a habilidade cênica a que o público já se acostumou. Resultado este, porém, nada fácil de se encontrar, visto que perscruta a alma do personagem. O público sabe o que isso quer dizer, basta lembrar de seu protagonismo em filmes como “Neve Negra”, “A Odisseia dos Tontos”, “Koblic”, “Truman” e nos já citados “O Segredo dos Seus Olhos” e “Relatos Selvagens”. A entrega de Darín é tocante, pois capaz de transmitir as inseguranças, as mudanças e os conflitos deste funcionário público tão essencial para a história recente da Argentina, humanizando-o para o espectador. Mais do que humanizá-lo, é um trabalho de recriação e materialização de um personagem que supera o simples cargo de um promotor. É. sim, um símbolo da democracia, da justiça e de resistência.

Darín em mais uma atuação de pura entrega
Afora estes aspectos técnicos comumente impecáveis no cinema da Argentina, este também cumpre outra função fundamental, visto que espelha questões culturais e sociológicas que muito servem de exemplo para a América Latina (incluso Brasil). A porta aberta pelo corajoso e também oscarizado “A História Oficial”, de 1985, denota a consciência de um povo latino-americano que não foge ao compromisso cívico de mexer nas próprias feridas. A sangrenta ditadura que acometeu o país é talvez a principal delas. No momento em que vizinhos como o Brasil saem de um período de trevas pelo conflito permanente entre o comando de um ditador e um regime democrático, bem como a ebulição política recente de países como o Chile, Peru, Nicarágua e Bolívia por motivos semelhantes, que é a sombra fétida do totalitarismo, filmes como “Argentina, 1985” têm muito a ensinar.

Tudo indica que a Argentina levará mais uma vez a estatueta para casa. A se medir pelo grande adversário, o alemão “Nada de Novo no Front” (o qual também concorre a Melhor Filme, pelo qual pode ganhar), a obra de Mitre tem tudo para deixar este e os outros para trás. Assim como deixou o belo “Marte Um”, que por melhor que seja, evidencia o quanto não o Brasil, mas a Argentina achou o caminho para um cinema representativo da América Latina.

trailer de "Argentina, 1985"



Daniel Rodrigues

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

"Todos Já Sabem", de Asghar Farhadi (2018)



O encontro de um ótimo diretor com um ótimo elenco só poderia render um espetacular filme, com uma história que nos prende até o último segundo, como uma festa que a gente não quer ir embora.
Quando sua irmã se casa, Laura (Penélope Cruz) retorna à Espanha natal para acompanhar a cerimônia mas por motivos de trabalho, o marido argentino (Ricardo Darín) não pode acompanhá-la. Chegando no local, Laura reencontra o ex-namorado, Paco (Javier Barden), que não via há muitos anos. Durante a festa de casamento, uma tragédia acontece. Toda a família precisa se unir diante de um possível crime de grandes proporções enquanto se questionam se o culpado não está entre eles. Na busca por uma solução, segredos e mentiras são revelados sobre o passado de cada um.
É um roteiro muito bem construído e amarrado. Alguns podem achar que ele enrole demais, perca um certo tempo, especialmente no segundo ato, nos momentos de dramas e inúmeras cenas de diálogos. mas acredito que essa paciência, essa ausência de pressa, tenha sido uma forma que o diretor encontrou para nos colocar mais próximos e íntimos dos personagens.
As atuações estão nos detalhes, no choro, numa troca de olhares, nos diálogos, em pequenas frases. Penélope Cruz, Ricardo Darín e Javier Bardem mantém seus níveis altos de atuação, contudo, o que brilha mesmo é o roteiro. O longa consegue ir de um início divertido, leve e alegre para um drama pesado, de fotografia escura, em um apagar e acender de luzes. O diretor Ashgar Fahradi soube com maestria criar um clima de suspense, tensão e mistério e um ótimo exemplo disso é o momento em que descobrimos o sequestro, no pagamento do resgate. Você sente que tudo pode acontecer.
 As vantagens de se viver numa cidadezinha tranquila já sabemos, mas e as desvantagens? As fofocas, a falta de privacidade, todo mundo sabendo a vida de todo mundo, a dificuldade de se guardar segredos são, assim como brigas por terras, fantasmas do passados, amores mal resolvidos, e patriarcalismo, são elementos presentes no instigante “Todos já sabem”. O filme consegue abraçar todos estes itens e ainda contar uma história intrigante, com uma narrativa fluida que, mesmo após seu término, nos deixa inquietos, pensado no que será daquela família e daquela cidade depois de toda essa história.
Do drama profundo, da dor...

...à festa e alegria, e mais festa.




por Vagner Rodrigues

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

"Kóblic", de Sebastián Borenztein (2016)




Enquanto alguns brasileiros saíram à rua este ano pedindo incrivelmente a volta da ditadura, os argentinos continuam lambendo as feridas que os anos de intervenção militar deixaram naquele país. Esta discussão está presente no cinema argentino que não foge da raia e vem com mais um grande exemplo de como o golpe militar interferiu na vida da população. “Kóblic” é o novo filme de Sebastián Borenztein (“Um Conto Chinês”).

Nele, o onipresente Ricardo Darín interpreta Tomás Kóblic, um capitão da marinha que se recusa a abrir as portas de um avião para que se pudessem jogar os opositores do regime no mar, prática que ficou conhecida durante a intervenção militar naquele país. Para evitar a perseguição de seus colegas de armada, Kóblic se esconde em um lugarejo do interior chamado Colonia Elena. Mal sabe ele que será alvo da ira de Velarde (Oscar Martinez), o delegado da cidade que tem íntimas ligações com o regime militar. Ao mesmo tempo, Kóblic se envolve com a mulher de um comerciante da cidade (Inma Cuesta), tornando sua permanência na cidade ainda mais perigosa.

Oscar Martínez é o delegado
com íntimas relações com o regime militar
O diretor Sebastián e seu co-roteirista Alejando Ocon mantém o clima de suspense durante todo o filme e ainda dão um pequeno toque de faroeste num duelo final entre os protagonistas. Algumas críticas dão conta de que “Kóblic” perde sua intenção no final, quando se transforma de um filme de denúncia política a um banho de sangue a la Sam Peckinpah. Na verdade, a violência da ditadura argentina esteve sempre pronta para explodir durante todo o filme.

O clímax é apenas consequência do que os personagens vivem na tela. Como sempre, Darín está excelente, sabendo dosar sua performance com as devidas emoções. Já Oscar Martinez consegue compor um vilão de polícia do interior, sempre perseguindo o forasteiro que veio trazer balbúrdia á sua pacata cidade, enquanto Inma Cuesta dá credibilidade à sua Nancy mas tem pouco a fazer durante o filme. Novamente, o cinema argentino dá mostras de seu vigor e de que não há tema tabu em suas telas.

trailer "Kóblic"




por Paulo Moreira


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

“Relatos Selvagens”, de Damián Szifron (2014)



O cinema argentino vive um grande momento, mesmo com a economia em ruínas e a situação caótica do país. Mais uma prova do vigor desta cinematografia que a cada dia conquista mais cinéfilos por todo o mundo é “Relatos Selvagens” do diretor Damián Szifron. Usando seu próprio roteiro, Szifron conta seis histórias bem distintas onde a interferência intrusiva da sociedade, de seus preceitos e suas limitações na vida dos indivíduos acaba por levar a mais completa e insana barbárie.
O astro Ricardo Darín no papel do homem
 que enfrenta a burocracia argentina
Os episódios se sucedem: o primeiro mostra um voo comercial aonde os passageiros vão descobrindo aos poucos que têm algo em comum. No segundo, uma jovem garçonete de um boteco de beira de estrada se vê às voltas com o homem que causou problemas em sua família. O embate entre classes é o tema do terceiro onde um burguês em seu supercarrão tem sua ultrapassagem impedida numa estrada por uma fubica toda enferrujada. No quarto episódio, o darling do cinema argentino, o ótimo Ricardo Darín, é um engenheiro de explosões que se vê envolvido com o guinchamento de seu carro e o consequente mergulho no mar da burocracia estatal. Já o episódio número 5 trata de um atropelamento e fuga que resulta em morte e em uma negociata das mais sórdidas para impedir a prisão do jovem condutor. Por fim, em plena festa de casamento, noiva descobre que uma das amantes do noivo está no salão e surta.
Erica Rivas, em primeiro plano,
se destaca como a noiva em surto
Em todos estes aparentemente distintos episódios, a reação às injustiças sociais, urbanas, pessoais e estradeiras acaba por decretar uma catarse nos personagens. O absurdo de algumas situações cotidianas enfrentadas por cada um de nós nem sempre tem o desfecho que gostaríamos. Acabamos nos acomodando e seguindo em frente, mesmo que estejamos com razão. Os personagens de Szifron não pensam assim e partem para o confronto, sempre com consequências trágicas, em uns momentos, e tragicômicas, em outros. Os espectadores mais ligados em cinema poderão lembrar-se de “Um Dia de Fúria”, de Joel Schumacher, com Michael Douglas, ou ainda de “Fora de Controle”, com Ben Affleck e Samuel L. Jackson. Mas o tratamento que Damián Szifron dá às histórias e aos personagens é infinitamente mais realista do que a visão simplista dada por Hollywood a estes casos. A violência é explícita e crua, mas também é real. Ricardo Darín é, indiscutivelmente, o astro do filme, mas cada história conta com um elenco de atores da melhor qualidade, destacando Erica Rivas como a noiva enlouquecida, Rita Cortese como a cozinheira e Mauricio Nunez, como o pai do jovem atropelador, entre outros.
Curiosamente, o filme tem produção da El Deseo, a empresa de Pedro Almodóvar e de seu irmão Agustín. A julgar pelo sucesso crítico e estilístico de “Relatos Selvagens”, poderia se esperar que Almodóvar se espelhasse em seu produzido e voltasse a fazer filmes interessantes, trilha da qual se afastou no horroroso “Os Amantes Passageiros”, um dos piores jamais vistos nos últimos tempos. “Relatos Selvagens” já é um dos melhores filmes do ano.


segunda-feira, 15 de março de 2010

"O Segredo de Seus Olhos", de Juan José Campanella (2009)




Um envolvente misto de suspense, romance e policial, com deliciosas pitadas de humor e uma leve cutucada política, é um pouco do que pode-se dizer sobre "O Segredo de Seus Olhos", vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010.
A trama toda é a de um ex-funcionário de um tribunal que resolve escrever um romance sobre um crime que investigou há anos atrás e recorre às suas memórias para refazer a trajetória dos fatos, se deparar novamente com eles e, de certa forma, ter a chance de reescrever a história.
O roteiro bem elaborado com uma ótima condução da trama, as caracterizações muitíssimo bem construídas dos personagens, diálogos naturalíssimos e bem cotidianos, e as brilhantes atuações da trinca principal de atores, sobretudo do bêbado (hilário) Sandoval, são alguns dos grandes méritos desta produção argentina que não à toa alcançou o que alcançou.
Por incrível que possa parecer, minha curiosidade inicial pelo filme deu-se porque li sobre um plano-sequência longo que se passava dentro do estádio do Racing. Não era só pelo fato de ser num estádio de futebol, o que já era interessante para mim que sou um apaixonado, mas também porque adoro os clássicos planos-sequência como o do início de "A Marca da Maldade" do Welles, o de "Boogie-Nights" ou o d"O Jogador" do Altmann. Este, de "O Segredo de Seus Olhos" certamente pode-se incluir desde já entre os melhores da catagoria, vindo desde uma tomada aérea sobre o estádio, entrando no campo, indo pra arquibancada, explodindo num momento de gol entre a torcida, e culminando numa perseguição às correrias pelo interior e escadarias do estádio, até acabar dentro do campo rente ao gramado. Demais!
Vale pelo plano sequência mas vale por todo o resto. O interesse do filme não se resume a isso.




Cly Reis