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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Ludwig van Beethoven - "Sinfonia nº 9" (1824)



"Fora uma noite maravilhosa
e eu só precisava para concluí-la com perfeição
de um pouco do velho Ludwig van (...)
ó, deleite, ó deleite e paraíso.
era a formosura e a formosidade feito carne.
Era como um pássaro de metal raro e celestial,
ou o vinho prateado flutuando numa espaçonave
deixando a gravidade para trás."
personagem Alexander DeLarge
no filme "Laranja Mecânica"


Uma das maiores obras já produzidas na história da humanidade, composta por ninguém menos que aquele que é considerado por muitos, o maior compositor de todos os tempos. A "Sinfonia nº9 em ré menor, opus 125, Coral", última obra completa escrita por Ludwig van Beethoven, no ano de 1824, ou simplesmente a "Nona Sinfonia" como é mais conhecida, é uma das obras musicais mais populares, repetidas, respeitadas e executadas de todos os tempos, utilizada com frequência em meios como comerciais de TV, games, cerimônias e filmes, assumindo, de certa forma, um caráter pop dentro do âmbito da música clássica ou erudita.
A Nona é por exemplo, elemento fundamental na adaptação de Stanley Kubrick para o cinema da obra "Laranja Mecânica", de Anthony Burgess (no livro o autor se fixa na música clássica em si e não especificamente na obra de Beethoven como faz o diretor no filme); foi adotada como hino de instituições ou de eventos; é constantemente tocada em celebrações de toda ordem como olimpíadas, copas, confraternizações, cerimoniais, etc., especialmente seu movimento mais belo, a "Ode à Alegria", um coral imponente onde as vozes conduzem o movimento acompanhado a orquestração, de uma forma absolutamente magnífica e inigualável.
Não vou me alongar aqui em elocubrações técnicas; em dós, rés, e sibemóis porque não sou um profundo entendedor de música. Sequer sou músico. Seria pouco sincero de minha parte. Sou apenas um diletante como muitos, que não se cansa de ouvir, de se encantar e admirar esta majestosa obra deste gênio alemão.
É lógico que a "Nona Sinfonia", como qualquer outra obra desta natureza, não foi concebida no modelo álbum, não foi feita para ser disco, mas é tão importante para o formato, especialmente no que diz respeito à mídia Compact Disc, que a capacidade original do nosso conhecido CD teria sido definida em função da duração da obra. É o que reza a lenda.
Se não for por todos os seus méritos, e não são poucos, só isso já lhe justificaria a inclusão entre os ÁLBUNS FUNDAMENTAIS.
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MOVIMENTOS:

  1. Allegro ma non troppo, un poco maestoso
  2. Molto vivace
  3. Adagio moltoe cantabile
  4. Presto - Allegro assai

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Ouça:
9ª Sinfonia Ludwig Van Beethoven

Cly Reis

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Ryuichi Sakamoto – "Neo Geo" (1987)


"Eu ainda penso e me pergunto 'o que é música'. É claro que essa pergunta não tem resposta. Hoje, músicos ou compositores se interessam pelas novas tecnologias, como por exemplo Beethoven em seu tempo. Eu acredito que se Beethoven estivesse vivo agora, ele estaria muito interessado em usar novas tecnologias."
Ryuichi Sakamoto


Quando se fala na contribuição que países deram à indústria fonográfica, é normal se associar o Japão muito mais à aptidão científica do que pela produção artística em si. Afinal, quem não tem ou teve ao menos um aparelho Sony, Hitachi, Mitsubishi, JVC, Toshiba, Panasonic ou de alguma outra marca? A alta competência e a disciplina do povo japonês, capaz de erguer um país destroçado pela bomba atômica ao final da Segunda Guerra e levá-lo a uma potência tecnológica mundial, faz tender-se facilmente a esta percepção. Porém, ao contrário do que possa se pensar, foi justamente esse desenvolvimento científico que promoveu o surgimento nas artes dos filhos desse fenômeno social. Na música, o principal nome dessa geração certamente é Ryuichi Sakamoto

Compositor, maestro, tecladista, produtor, arranjador, professor – e às vezes cantor e até ator –, Sakamoto surgiu para o mundo da música nos anos 70 ao compor o revolucionário mas pouco creditado pelos ocidentais Yellow Magic Orchestra, grupo synthpop que deu os primeiros ensinamentos a toda a turma britânica e norte-americana do gênero – que entrariam anos 80 adentro fazendo sucesso muito por conta do que a banda japonesa inventou. Ali, Sakamoto já trazia parte da essência de sua música, que une sofisticação à alta modernidade e a uma visão globalizada da arte, bem como a música clássica e a tradição da cultura milenar da Terra do Sol Nascente.

Precisaram alguns anos, no entanto, para que o exigente Sakamoto calibrasse essa difícil química, cuja fórmula somente o cadinho de alguém muito talentoso como ele poderia misturar sem que resultasse desastroso. Gravou discos solo, compôs trilhas sonoras brilhantes, venceu Oscar, Bafta e Globo de Ouro de Trilha Sonora e, como ator, foi dirigido por cineastas do calibre de Bernardo Bertolucci e Nagisa Oshima, além de colaborar com projetos de diversos outros artistas, como P.I.L. David Sylvian, Bill Laswell e Thomas Dolby. Mas ainda era pouco. Como bom oriental, Sakamoto mantinha uma incessante busca pelo “kodawari”, o “caminho da perfeição”. Passada uma década após sua estreia na YMO, só então o músico pode dizer-se, enfim, minimamente maduro. A materialização desta caminhada perseverante está em “Neo Geo”, nono disco de carreira em que tanto Sakamoto definiu o seu estilo quanto, além disso, ajudou a estabelecer padrões de toda a música pop a partir de então.

Afora a obstinação nipônica, outra característica de Sakamoto é a de, chegado ao ponto que almejava, saber valorizar o que construiu. Os anos de lapidação de sua obra trouxeram, como um ideograma, o poder de síntese. A começar pelo título do álbum em questão, que propositalmente faz referência a uma nova arquitetura geográfica mundial visto que já se percebiam os últimos suspiros da Guerra Fria. Através dos sons, ele recupera a world music, a new age, o pop, a soul, o rap e o jazz fusion e posiciona sua música num ponto certeiro deste mapa. Os sons da África e das Américas (com uma boa dose de harmonias bossa novistas, aliás) convivem em perfeita composição com elementos eruditos e étnicos. Sakamoto adiciona a isso também sempre um ingrediente muito bem preparado de cultura da sua terra, seja num riff, num acorde de teclado, num sample, num canto ou num detalhe em meio a arranjos invariavelmente preciosos. Uma fórmula tão improvável cuja melhor classificação é, justamente, “Neo Geo”.

Os primeiros acordes vêm com toda essa carga de síntese e musicalidade. “Before Long”, como é de praxe nos discos de Sakamoto, ele abre com um tema instrumental. Emotiva e de ares clássicos, é baseada no piano, seu instrumento-base, usando com maestria notas agudas típicas da sonoridade oriental. Ele repete o expediente climático que já havia usado na abertura de “Marry Christimas Mr. Lawrence”, de 1984, na faixa-título, ou "Calling from Tokyo", do álbum exatamente posterior a “Neo...”, “Beauty”, de 1989. Uma pequena obra-prima de pouco mais de 1 minuto. O que já muda bruscamente na segunda faixa – que não desavisadamente dá título ao disco – quando começa um ethnic-funk, adaptação de um tema tradicional japonês, com a timbrística com a qual Sakamoto, alinhado aos modernistas do jazz de então, coloriria a música pop a partir dali: programação eletrônica, recortes, guitarras afro-beat, vozes étnicas e um baixo marcado em slap tocado pelo baixista e produtor norte-americano Laswell. Aliás, outra marca de “Neo...” é o encontro de Sakamoto com uma turma de alquimistas arrojados como ele. Ao lado de Laswell, figura essencial para a fusão do rap na música nos anos 70/80, ele recruta tanto músicos conterrâneos, como o guitarrista Harry Kubota, a cantora Misako Koja e o DJ Hiroaki Sugawara, quanto agrega participantes de outras nacionalidades, seja da música, das artes cênicas ou do cinema.

Fazendo do estúdio o seu laboratório, Sakamoto permite-se experimentar as mais diferentes formulações, mostrando que havia valido a pena acumular conhecimentos e vivências até ali. Um dos pontos altos do disco, “Risky”, não deixa dúvida disso: um pop funkeado e sensual que conta com a voz de Iggy Pop, que empresta seu barítono, um dos mais inconfundíveis da música pop, para deixar a música ainda mais elegante. A pertinência da participação de Iguana está no cerne da própria canção, que lembra o padrão estilístico que ele e o parceiro David Bowie ajudaram a dar à música pop dos anos 80.

Se “Risky” continha toques orientais, “Free Trading” os combina com o Brasil e com os Estados Unidos. Impossível não associar o riff de teclados com a música brasileira, da mesma forma que este soa igualmente muito nipônico. Afora isso, Sakamoto, fervoroso amante de MPB e de jazz, promove neste histórico momento o encontro de dois ícones da música norte-americana: um da soul, o baixista “P-Funk” Bootsy Collins, e outro do jazz, ninguém menos que o lendário baterista Tony Williams

Outra de elegância ímpar é a marcial “Parata”, mais uma instrumental e ao estilo de suas trilhas para cinema. Novamente, Williams empresta suas baquetas mágicas, aqui juntamente com a percussão do jamaicano Sly Dunbar. Quanta delicadeza e bom gosto! Voltando ao synth pop de origem, no entanto, Sakamoto o combina agora a diversas outras propriedades de seu conceito “Neo Ge” num tema para homenagear a histórica ilha de Okinawa. Ritmo dançante, percussões africanas e orientais, vozes sampleadas, teclados marcantes e um indefectível som de uma pipa chinesa, tocada pela instrumentista nipo-americana Lucia Hwong. Mais uma vez, fica evidente a essência sintetizadora do músico: a extração do erudito de um tema folclórico e a transformação em uma invenção moderna. 

Um disco primoroso como este não poderia desfechar de forma diferente. Assim como a faixa inicial, “After All”, sua derradeira, é um breve tema instrumental em que o admirador de Beethoven, Ravel e Tom Jobim denota sua infinita sensibilidade ao reprocessar o lirismo da obra de seus ídolos e compõe algo seu, original. Enfim, nem Japão e nem lugar nenhum especificamente: sua música é do mundo todo. Talvez por isso sua influência seja tamanha nos trabalhos de artistas da música como Sinéad O’Connor, Towa Tei, Madonna, New Order, Cornelius e Deep Forest, além de Caetano Veloso, Ambitious Lovers, Jaques Morelenbaum e Marisa Monte, com quem passaria a contribuir diretamente nos anos 90. Vivo e ativo, Sakamoto prova que talento e sensibilidade estão no coração independentemente do contexto ou da cultura. Como um cientista da música, ele foi capaz de condensar todas as suas referências e trazê-las para dentro de seu núcleo afetivo, que muito bem pode ser representado por uma esfera vermelha tal qual a da bandeira do Japão.

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FAIXAS:
1. “Before Long” - 1:20
2. “Neo Geo” - 5:05
3. “Risky” – com Iggy Pop (Bill Laswell, Iggy Pop/ Ruychi Sakamoto) - 5:25
4. “Free Trading” (Y. Hagiwara, Y. Nomi) - 5:25
5. “Shogunade” (Laswell/ Sakamoto) - 4:33
6. “Parata” - 4:18
7. “Okinawa Song” - Chin Nuku Juushii (H. As/ S. Mita) - 5:15
8. “After All” – 3:08
Todas as faixas de autoria de Ryuichi Sakamoto, exceto indicadas

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Veja o clipe de "Risky", com Ryuichi Sakamoto e Iggy Pop



Daniel Rodrigues

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

The Sonics - "Here are The Sonics" (1965)



"Eu tenho que admitir ...
The Sonics gravou muito, mas muito barato (...)
apenas utilizaram um microfone sobre a bateria, e o som da bateria deles é o mais incrível que eu já ouvi. Ainda hoje é o meu som de bateria preferida.
Parece que ele está batendo mais forte
do que qualquer um que eu já conheci."
Kurt Cobain


É certo que um bocado de bandas dos anos 60 influenciaram e ajudaram a formar a linguagem do que seria o punk rock, mas poucas daquela época sujaram tanto o som, estouraram as caixas amplificadas, rasgaram tanto os vocais como o The Sonics. As guitarras soavam altas e agressivas, os teclados quando apareciam formavam uma espécie de camada, os metais eram invariavelmente enlouquecidos e a bateria alta e oca, soava como uma metralhadora nos rolos.
Numa época em que as versões e releituras dos clássicos do blues e do rock eram quase um cartão de visitas para qualquer banda que aspirasse aparecer no cenário musical, os caras verdadeiramente 'desvirtuaram', num bom sentido, algumas pérolas do rock de lendas como Chuck Berry, Little Richard e Ray Charles.
No seu álbum de estreia, "Here Are The Sonics" de 1965, eles até dão uma poupada em "Roll Over Beethoven", por exemplo, que ganha peso, aceleração mas não chega a ser tão ousada, mas "Good Golly Miss Molly", por sua vez fica absolutamente selvagem tal o barulho, o volume e a gritaria; e a bela balada "Night Time Is the Right Time" de Ray Charles  ganha vocais berrados e arranhados que lhe conferem uma sensação completamente nova em relação à original.
Mas, em absoluto, se limitavam às covers: das canções próprias destaca-se facilmente a fantástica "The Witch", um rockaço, meio surf music, com um riff minimalista e pesado que lembra o antigo tema do seriado Batman. Nada mais nada menos que matadora! "Psycho", outra das composições da banda, como já subentende o nome é algo assim próximo à loucura, e "Strychnine" que descarrega guitarras ruidosas e vocais violentos em outra das melhores do disco, é puro veneno
O disco "Here are the Sonics" não era assim tão fácil de ser encontrado mas há pouco tempo saiu em reedição com alguns extras, no entanto, bom mesmo pra quem quiser um apanhado geral é a coletânea lançada em 1993 que contém todas as músicas deste primeiro LP e mais um bocado de outras boas coisas da banda, chamada "Psycho-Sonic". Pra quem quiser ir atrás, acho que este é o melhor caminho.
Simplesmente psycho!
Psycho!

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FAIXAS:
1."The Witch"
2."Do You Love Me" (The Contours)
3."Roll Over Beethoven" (Chuck Berry)
4."Boss Hoss"
5."Dirty Robber" (The Wailers)
6."Have Love, Will Travel" (Richard Berry)
7."Psycho"
8."Money (That's What I Want)" (Barrett Strong)
9."Walkin' the Dog" (Rufus Thomas)
10."Night Time Is the Right Time" (Ray Charles)
11."Strychnine"
12."Good Golly Miss Molly" (Little Richard)

*todas as faixas, The Sonics, exceto as indicadas
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Ouça:
Here Are The Sonics





Cly Reis

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Chuck Berry - "Chuck Berry is on Top" (1959)



"É difícil para mim falar de Chuck Berry
porque eu copiei todos os acordes
que ele já tocou."
Keith Richards


O que é que aquele negro estava fazendo ali pela segunda metade dos anos 50?
Negros faziam blues, mas aquilo não era blues.
Tinha pitadas, doses de música country, mas não era country, e, afinal de contas country era música pra caipiras brancos.
Tinha um balanço diferente, tinha um embalo impressionante.
Senhores, aquele homem tinha acabado de inventar uma coisa chamada rock'n roll!
Aquela mistura, aquele jeito de tocar, aquela guitarra singular, aqueles riffs, aquele novo ritmo de certa forma desagradava um pouco aos negros porque subvertia o blues; desagradava também aos brancos por ousar mexer com um ritmo característico deles; mas o mais importante é que muito mais gente aprovou, e adorou, e aderiu e, enfim, é por isso que estamos aqui, não é mesmo Chuck?
Embora seu primeiro disco, After School Session" de 1957, seja considerado uma espécie de marco-zero do rock, destaco aqui seu terceiro álbum, "Chuck Berry is on Top" de 1959, por trazer uma maior quantidade de seus grandes hits por metro quadrado entre os primeiros trabalhos de sua carreira: tem a alucinante "Maybelline"; a elétrica "Sweet Little Rock and Roller"; o riff matador de "Johnny B. Goode"; e a empolgante "Roll Over Beethoven"; sem falar em outras como "Around and Around", "Carol" ou "Jo Jo Gunne" por exemplo, igualmente excelentes mas não tão famosas quanto as clássicas.
Não, não é a toa Chuck Berry é considerado por muitos o Pai do Rock, e "Chuck Berry is on Top" está aqui para confirmar isso.

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FAIXAS:

  1. "Almost Grown" – 2:18
  2. "Carol" – 2:44
  3. "Maybellene" – 2:18
  4. "Sweet Little Rock & Roller" – 2:18
  5. "Anthony Boy" – 1:50
  6. "Johnny B. Goode" – 2:38
  7. "Little Queenie" – 2:40
  8. "Jo Jo Gunne" – 2:44
  9. "Roll Over Beethoven" – 2:20
  10. "Around and Around" – 2:20
  11. "Hey Pedro" – 1:54
  12. "Blues for Hawaiians" – 3:22

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Ouça:
Chuck Berry Is On Top


Cly Reis

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

"O Coração da Música - Vida e Obras dos Grandes Mestres: Händel/ Mozart/ Beethoven/ Brahms/ Wagner”, de Paul Trein – Ed. BesouroBox (2018)



Quando o coração da música está dentro da gente
por Leocádia Costa


Ao chegar na Edições BesouroBox, em abril desse ano, me deparei com um catálogo que renova ao comunicar os saberes. Cheguei com diversos lançamentos previstos, entre eles, um pequeno livro (porque a edição é de formato 12x18cm) mas que traz em seu miolo uma abordagem iluminada sobre música: "O Coração da Música”.

O pianista, educador e também escritor Paul Trein, que residia há muitos anos na Alemanha, conseguiu de maneira didática abordar sinteticamente a vida e obra dos grandes mestres da música clássica: Händel, Mozart, Beethoven, Brahms e Wagner. Os textos sobre cada compositor abordam em sua estrutura o bom senso destacando detalhes biográficos de maneira pontual, elegante e explicativa, mas sem deixar que se sobreponham a genialidade contida em cada obra por eles criada.
A música clássica, que sempre foi acusada de ser inacessível a interessados por envolver não somente o aprendizado de um instrumento e a cultura musical, encontra um aliado nessa publicação. A pesquisa de Trein é, em tempos de internet e, assim, de uma maior circulação de ideias, algo que não se pode desconsiderar. Além disso, convida os mais curiosos a escutarem os principais temas de cada compositor, pois as contextualiza com primor.

Para mim, que fui criada entre audições clássicas de piano e voz em meu ambiente familiar por ter tido pais envolvidos com a música erudita, foi uma volta a escuta deles. Uma retomada a conversas que presenciei muitas vezes em saraus e reuniões com os amigos de coral em casa.

Paul Trein me proporcionou um retorno ao aconchego que a música erudita oferece, sem afetação ou barreiras a quem quiser escutá-la. Uma oportunidade de escutar outras ideias sobre a história de compositores que até hoje ressoam em nossos ouvidos universais. Um convite a pais, educadores e estudantes que queiram ler um livro escrito por quem ama a música na medida exata, mas com a devida emoção de sentir o coração quase saindo pela boca em forma de palavras.

Nesse final de ano, imagino a ausência que Paul Trein faz à sua família e amigos (ele faleceu no primeiro semestre de 2018, na Alemanha), mas também sei o quanto a música preenche esse vazio. Então se você sentiu entusiasmo em escutar mais uma vez seus compositores prediletos ou em conhecer cada um citado nesse livro, pegue sua vitrola, seu aparelho de CD, seu arquivo de mp3 ou nuvem e escute música. Se a vontade for maior ainda, vá a um concerto para escutá-la ao vivo. Com certeza toda a tristeza irá embora e somente os acordes ficarão ressonando dentro de você, como uma benção pulsante, viva e eterna.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

9° Sinfonia de Beethoven pela Orquestra Sinfônica Brasileira - Theatro Municipal - RJ




Conheci ontem finalmente o Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
Bonito mas, surpreendenetemente para mim, pequeno. E conforme já sabia, uma imitação do Opera de Paris, o que não o desmerece em nada. Além da fachada de seu ecletismo remetendo ao neoclássico, já exaustivamente vista a cada ida à Cinelândia no centro do Rio, agora pude conhecer o espaço interno absolutamente nobre com seus veludos e tapetes vermelhos, evocativo com seus vitrais, brilhante com seus dourados e lustroso com seus mármores italianos.
Um dos belíssimos vitrais
A colunata da fachada
Fomos à apresentação da Orquestra Sinfônica Brasileira, no último concerto do evento chamado Série Fora-de-Série, no qual executaram com brilhantismo a 9° Sinfonia de Beethoven, uma das maiores obras musicais já concebidas pelo homem. Inegavelmente um privilégio assistir a execução de uma obra como esta e de quebra, depois de 5 anos morando aqui,  conhecendo, finalmente, um dos pontos turísticos históricos mais importantes da cidade.
O interior rico e suntuoso.

THEATRO MUNICIPAL DO RIO DE JANEIRO
O Teatro Municipal do Rio de Janeiro localiza-se na Cinelândia (Praça Marechal Floriano), no centro da cidade do Rio de Janeiro (RJ), no Brasil.
Construído em princípios do século XX, é um dos mais belos e importantes teatros do Brasil. A responsabilidade de sua gestão é da Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro, vinculada a Secretaria de Estado de Cultura, que é presidida por Carla Camurati desde 2007, possui direção artística de Roberto Minczuk e direção operacional de Sonja Dominguez de Figueiredo França.


HISTÓRIA
A atividade teatral era, na segunda metade do século XIX, muito intensa na cidade do Rio de Janeiro. Ainda assim, a cidade não dispunha de uma sala de espetáculos que correspondesse plenamente a essa atividade e que estivesse à altura da então capital do país. Os seus dois teatros, o de São Pedro e o Lírico, eram criticados pelas suas instalações, quer pelo público, quer pelas companhias que neles atuavam.
Após a Proclamação da República brasileira (1889), em 1894 o autor teatral Arthur Azevedo lançou uma campanha para que um novo teatro fosse construído para ser sede de uma companhia municipal, a ser criada nos moldes da Comédie-Française.Entretanto, naqueles agitados dias, a campanha resultou apenas em uma lei municipal, que determinou a construção do teatro municipal. Essa lei não foi cumprida, apesar da cobrança de uma taxa para financiar a obra. Observe-se que a arrecadação desse novo tributo nunca foi utilizada para a construção do teatro.
Seria necessário esperar até à alvorada do século XX quando a sua construção viria a representar um dos símbolos do projeto republicano para a então capital do Brasil. À época, o então prefeito Pereira Passos promoveu uma grande modernização do centro da cidade, abrindo-se, a partir de 1903, a Avenida Central (hoje avenida Rio Branco) moldada à imagem dos boulevards parisienses e ladeada por magníficos exemplares de arquitetura eclética.
Nesse contexto, realizou-se um concurso para a construção de um novo teatro, do qual saiu vitorioso o projeto de Francisco de Oliveira Passos (filho do então prefeito Francisco Pereira Passos), que contou com a colaboração do francês Albert Guilbert, com um desenho inspirado na Ópera de Paris, de Charles Garnier.
O edifício foi iniciado em 1905 sobre um alicerce de mil e seicentas estacas de madeira fincadas no lençol freático. Para decorar o edifício, foram chamados os mais importantes pintores e escultores da época, como Eliseu Visconti, Rodolfo Amoedo e os irmãos Bernardelli. Também foram recrutados artesãos europeus para executar vitrais e mosaicos.
Finalmente, quatro anos e meio mais tarde – um tempo recorde para a obra, que teve o revezamento de 280 operários em dois turnos de trabalho – no dia 14 de julho de 1909 foi inaugurado pelo então presidente da República, Nilo Peçanha, o Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Serzedelo Correia era o então prefeito da cidade.
Originalmente com capacidade para 1.739 espectadores, em 1934, com a constatação de que o teatro estava pequeno para o tamanho crescente da população da cidade, a capacidade da sala foi aumentada para 2.205 lugares. A obra, apesar de sua complexidade, foi realizada em apenas três meses, também tempo recorde para a época. Posteriormente, com algumas modificações, chegou-se ao número atual de 2.361 lugares.
Em 1975, a 19 de outubro, o teatro foi fechado para obras de restauração e modernização de suas instalações e reaberto em 15 de março de 1978. No mesmo ano foi criada a Central Técnica de Produção, responsável por toda a execução dos espetáculos da casa.
Em 1996 iniciou-se a construção do edifício anexo, visando desafogar o teatro dos ensaios para os espetáculos, que, com a atividade intensa da programação durante todo o ano, ficou pequeno para eles e, também, para abrigar condignamente os corpos artísticos. Com a inauguração do anexo, o coral, a orquestra e o balé ganharam novas salas de ensaio e espaço para as suas práticas artísticas.
Em seus primórdios, apresentavam-se no teatro apenas companhias e orquestras estrangeiras - especialmente as italianas e francesas - até que, em 1931, foi criada a Orquestra Sinfônica Municipal do Rio de Janeiro. Entre as personalidades ilustres que nele se apresentaram destacam-se os nmomes de Maria Callas, Renata Tebaldi, Arturo Toscanini, Sarah Bernhardt, Bidu Sayão, Eliane Coelho, Heitor Villa-Lobos, Igor Stravinsky, Paul Hindemith, Alexander Brailowsky entre outras. Hoje a casa abriga a Orquestra Petrobras Sinfônica e a Orquestra Sinfônica Brasileira e são apresentados, majoritariamente, programas de dança e de música erudita.


fonte: Wikipedia

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Vince Guaraldi Trio - "A Charlie Brown Christmas" (1965)




" 'E, então, um anjo do Senhor desceu sobre eles,
e a glória do Senhor brilhou ao redor deles.
E eles tiveram muito medo, e o anjo disse:
‘nada temam, escutem: trago notícias alegres, que repartirei com toda a gente,
pois entre vocês nasceu, neste dia, na cidade de Davi,
um salvador, que é Cristo, nosso Senhor.’ (...)
E, de repente, ao redor do anjo, surgiu uma multidão de vozes
 celestiais louvando ao Senhor e dizendo:
‘Glória a Deus nas Alturas, e paz na Terra aos homens de boa vontade’.
Este é o significado do Natal, Charlie Brown.”
Lino Van Pelt


Quando criança, o período do Natal me era empolgante por diversos motivos. Além dos presentes, da reunião familiar e da decoração pela casa, um deles era porque, nesta época, haveria programações de tevê especiais que não se viam durante todo o ano. Era necessário esperar 12 meses para que fossem transmitidas, pois passavam somente no final de dezembro. Na Globo, depois da Missa do Galo e de alguns desenhos temáticos da Turma do Mickey, rodava, já de madrugada, um clássico hollywoodiano do nível de “E o Vento Levou”, “O Mágico de Oz” ou “Hamlet” do Zefirelli. À tarde, independente do dia que caísse o feriado, soltavam algum filmão antigo sobre o Livro Sagrado como “Rei dos Reis”, “A Bíblia” ou “Os 10 Mandamentos”. O Chaves, no SBT, repetiria pela milésima vez o episódio em que todos da vila vão cear na casa do Seu Barriga e causam a maior confusão – e eu via sempre. Dos desenhos animados, eram tradicionais os episódios natalinos. Todo desenho que se prestasse deveria ter o seu! A Manchete dava vários da Hanna-Barbera. Globo e SBT faziam o mesmo com o seu estoque: tinha Natal dos Smurfs, da Pantera Cor-De-Rosa, do Pato Donald, do Tom & Jerry e de vários outros.

Um dos que não me cansava de rever era o filme de Natal de um dos desenhos que sempre me fez a cabeça: Snoopy. Era “Merry Christimas, Charlie Brown”, o qual tinha como trilha sonora este disco: “A Charlie Brown Christmas”, da Vince Guaraldi Trio. Além de achar a série engraçada e prazerosa de ver – desde lá, já adorava os personagens, o estilo de traço do Charles Schulz, simples e expressivo, a coloração pastel, os longos diálogos, o ritmo das narrativas e todo aquele universo da turma do Minduim –, um dos elementos que mais me atraíam era, justamente, a trilha sonora. Aquilo me arrebatava, embora me fosse enigmático.

O responsável por me fazer gostar assim, ainda pequeno, com uns 7, 8 anos, de um estilo de música que eu ainda nem sabia que se chamava jazz é Vince Guaraldi. Pianista, maestro e compositor, dono de um estilo de tocar e de compor de rara sensibilidade, ele é o autor de todas as trilhas dos Peanuts desde as primeiras séries para tevê, em 1964. Todas geniais. Oriundo da cena jazz da Costa Oeste, o “Dr. Funk”, como era apelidado, ostentava um bigode pontiagudo tão caricato quanto de um desenho animado e dizia-se, modestamente, um mero “reformado pianista de boogie-woogie”, porém, mais que isso, dominava o cool, o jazz contemporâneo, o soul e o latin jazz, tornando-se influência para nomes como George Winston, Dave Brubeck, Wynton e Ellis Marsalis. Este é o primeiro disco, além das coletâneas e homenagens lançadas até hoje, dos três que produziu para a série ao longo de aproximadamente 10 anos, até sua morte prematura em 1976, aos 47 anos, vítima de um ataque cardíaco.

Pois “A Charlie Brown Christmas” é, assim como os desenhos do cachorrinho Snoopy, apaixonante. A beleza começa na faixa inicial: “O Tannenbaum”. A banda, composta por Guaraldi, Jerry Granelli, na bateria, e Fred Marshall, no baixo acústico – a clássica e charmosa formação em trio do jazz –, toca esta canção tradicional germânica de Natal datada do século XIX. Claro, num clima jazz-erudito ao modo de Gershwin. Nela, o piano de Guaraldi desliza uma melodia suave e mágica, dando o tom que dominará o que vem a seguir. “What Child is This?”, outra adaptação do cancioneiro folk, este, da Inglaterra romanesca, vem numa arrojada versão em que os três passeiam com elegância pela melodia, situando-a entre o lúdico e o misterioso. O clima se mantém em “My Little Drum”, composição do próprio Guaraldi, na qual o arranjo se vale, pela primeira, do coral infantil, único tipo de voz usado em todo o disco, o qual mantém, nesta, um vocalise constante enquanto o piano desenha acordes que aludem a “O Tannenbaum”.

Quebrando o clima introspectivo – equilíbrio que, aliás, é característico das próprias histórias do seriado –, vem a clássica “Linus & Lucy”, certamente a mais conhecida canção da série, curiosamente mais marcante do que os temas dos próprios Snoopy e Charlie Brown. Esperta, faceira, bem humorada. Guaraldi, como bom admirador de Herbie Hancock e Thelonius Monk, colore a melodia com uma linha de piano swingada e moderna. Afinal, Natal é tempo de alegria!

Das melhores do álbum, a emocionante “Christmas Time Is Here” (que conta também com uma igualmente linda versão cantada pelo coral infantil), melancólica e sonhadora como o personagem Charlie Brown, é um show do trio. Guaraldi, delicado e preciso no dedilhar, moderando intensidades, volumes, ataques e sustenidos, improvisa belamente; Granelli, raspando a escovinha sobre a caixa, ataca-a levemente para marcar o tempo; e Marshall, no baixo, passeia pelas escalas com liberdade e firmeza.

Skating” mais uma vez levanta o astral, musicando a brincadeira de esqui no gelo praticada pelos personagens. Bluesy e cheia de swing, tem na bateria um dos destaques, seja na parte que Granelli esfrega as escovinhas ou na mais agitada, em que dá intensidade à música. O riff, repleto de fantasia, traduz em sons a complexidade/simplicidade do ato de brincar para o mundo da criança. O espírito natalino retorna com a afortunada versão da cantata de Charles Wesley, adaptada por Felix Mendelssohn em 1840, “Hark! The Herald Angels Sing”, apenas com coral e órgão.

Na bossa-nova “Christmas Is Coming”, Guaraldi homenageia dois de seus ídolos, Tom Jobim e Luis Bonfá, e, de novo, seu toque remete aos mestres Hancock e Monk e ainda Ahmad Jamal, Red Garland e Sonny Clark pelo fraseado de mão esquerda solto e inteligente. Ele faz o mesmo em “The Christmas Song”, solando por cerca de 1 minuto e 45 segundos (dos 3 minutos e 20 de toda a faixa), criando um jazz lírico e de cadência arrastada.

Em “Für Elise”, a cândida bagatela romântica de Beethoven escrita no início do século XIX, que dispensa comentários de tão incrível, dá a impressão de que Guaraldi cede lugar ao piano para o menino Schröeder, o alemãozinho superdotado e amante do compositor da Nona, personagem dos Peanuts. O tema de “What Child Is This?” é retomado com seu nome original no folclore inglês, “Greensleeves”. A trilha finaliza com a saltitante “Thanksgiving Theme”, não sem antes executar a minha preferida de todos os temas inventados por Guaraldi para os personagens de Snoopy: “Great Pumpkin Waltz”. Usada em outro episódio da série, o da Grande Abóbora, é um tema simplesmente magistral, que conta, além do trio, com a guitarra de John Gray e a flauta de Tom Harrell. A melhor tradução do universo lúdico, enigmático e fantasioso da série, que não se abstinha de mostrar as aflições, emoções, incertezas, amores e fragilidades das crianças. Pois a vida não é assim, repleta dessas belezas?

Neste sentido, Snoopy e Cia., que mostra tão bem o mundo dos pequenos, tem tudo a ver com Natal, época de celebrar a vida através do nascimento do Menino Jesus – e nada melhor do que fazê-lo com boa música, né? Por isso, não é à toa ter me lembrado deste desenho e de minha infância como pano de fundo para um ÁLBUNS FUNDAMENTAIS especial de Natal. Ainda mais porque, hoje, não se transmitem mais programas assim na tevê como ocorria antes nesta época, inclusive os Peanuts, que nem passam mais há muito tempo. O importante, entretanto, é o que disse Lino em sua inocente sapiência ao citar, no episódio em questão, a passagem bíblica de São Lucas sobre o nascimento de Cristo (e arrastando seu inseparável cobertor azul, obviamente): “Este é o significado do Natal, Charlie Brown”.
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trecho do episódio "Charlie Brown Christmas"



FAIXAS:
1. O Tannenbaum (Tradicional - Versão: Guaraldi) - 5:08
2. What Child Is This? (Tradicional - Versão: William Chatterton Dix) - 2:25
3. My Little Drum (Guaraldi) - 3:12
4. Linus and Lucy (Guaraldi) - 3:06
5. Christmas Time Is Here (Guaraldi/Lee Mendelson) - 6:05
6. Christmas Time Is Here (Guaraldi/Mendelson) - 2:47
7. Skating (Guaraldi/Mendelson) - 2:27
8. Hark! The Herald Angels Sing (Mendelssohn/Wesley) - 1:55
9. Christmas Is Coming (Guaraldi) - 3:25
10. Für Elise (Ludwig van Beethoven) - 1:06
11. The Christmas Song (Mel Tormé/Robert Wells) - 3:17
12. Greensleeves (Tradicional - Versão: Dix) - 5:26
13. Great Pumpkin Waltz* (Guaraldi) - 2:29
14. Thanksgiving Theme* (Guaraldi) - 2:00

* Na versão em CD de 2012

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OUÇA:







quinta-feira, 8 de agosto de 2013

cotidianas #238 - "RPM 33 1/3"


- Como foi que tudo isso começou?
imagem adaptada do filme "Fahrenheit 451"
de François Truffaut
- É meio incerto, mas acreditamos que tenha sido com o advento de um tipo de arquivo físico chamado fita cassete. O conceito de álbum, obras musicais produzidas pelo artista, muitas vezes conceituais, pensadas da capa à última música, começou a desmoronar. As pessoas tinham 60, 90 minutos para gravar o que quisessem e muitos faziam coletâneas descriteriosas. Mas não foi tão grave, muitos ainda gravavam LP's nas fitas e tinham discotecas portáteis. Contudo, o compact disc, um disco digital com maior capacidade e possibilidades de armazenamento, só veio a piorar as coisas: eram 80 minutos no mínimo ou horas intermináveis com os tais arquivos MP3, este por certo você já ouviu falar?
O homem de uniforme laranja concordou com a cabeça e então o outro prosseguiu:
- Este sim foi o começo do fim: o MP3. Cada vez mais compactaram-se aparelhos, as possibilidades de agrupamentos de arquivos musicais eram infinitas. Aparelhos portáteis cada vez menores no tamanho mas com cada vez maior capacidade interna. Todos só faziam compilações pessoais. Os álbuns foram deixando de existir. Para eles, lá em cima, era perfeito. Enquanto as pessoas ouvissem música em seus aparelhos apenas para ir ao supermercado, correr, fazer musculação, cada vez mais iam perdendo os critérios, o senso crítico, iam pensando cada vez menos...
Baixou a cabeça como a lamentar pelo que estava relatando mas tomou novo fôlego e continuou:
- Mas não era suficiente, você entende? Tinham que se certificar que não estivéssemos ouvindo uma obra inteira nos nossos aparelhos, que não tivéssemos a contestação sarcástica de um Dylan, a fúria de um Kurt Cobain, o ódio de um Johnny Rotten, a politização de um Bob Marley. Nada que nos fizesse pensar. Aí começaram as proibições. Primeiro passou a ser proibido ter aparelhos antigos em casa. Toca-discos, 3 em 1, gramofones, tudo o que tocasse os antigos discos de vinil.
- O que eram esses... discos de vinil? - perguntou o ouvinte.
- Eram os LP's dos quais falei. Discos, disco mesmo. De mais ou menso 30 cm de diâmetro, havia menores, os compactos, mas a maioria eram os grandes, conhecidos como bolachões. Tinham faixas gravadas em ambos os lados e eram reproduzidos em aparelhos giratórios, mais comumente a 33 e 1/3 rotações por minuto, pelo contato de uma agulha que lia sua superfície. A agulha ia deslizando da borda externa para dentro e assim que chegava no limite interno era necessário que se levantasse a agulha, virasse o disco para se ouvir o outro lado.
- Pouco prático, não? - observou o outro que até então apenas ouvia atento.
- Até pode parecer, mas você não imagina o prazer que dava em sentir o primeiro contato da agulah com o vinil. O chiado que fazia ao roçar nele, a expectativa para o final de cada lado e para o início do outro...
Montag não entendeu muito bem mas acreditou que provavelmente tratasse de algo especial.
- Mas então? Como chegamos a este ponto? Como as coisas são hoje.
Retomou então o homem:
- Bem... não é difícil imaginar. Em seguida aos discos proibiu-se os CD's, os dispositivos portáteis, a compra de arquivos em bloco ou de um mesmo artista, os downloads passaram a ser monitorados pelo governo, foram proibidas então as músicas com letra, instrumentos e por fim, percebendo que até um Beethoven, um Sivuca ou um Glass podem estimular pensamentos mesmo sem palavras, resolveram criar a Rádio Estatal e esse o som que sai das paredes. O único som que é permitido. É lobotômico, você sabia? Deve-se evitar ouvi-lo prolongadamente. Mas a população ouve. Gostaram da música do governo. Aliás o povo sempre foi assim, gosta do que der pronto para ele.
Suspirou fundo, olhou na direção das árvores:
- O K7 até voltou a ganhar alguma força no submundo mas tão logo os homens souberam iniciaram uma nova onda de perseguições e buscas. E é aí onde você entra.
- Mas eu não sou mais um coletor – defendeu-se rapidamente Montag – Eu, eu... durante uma busca para coleta eu peguei um aparelho. Eu não o coloquei na prensa. Guardei no bolso. Eu o levei para casa e consegui ouví-lo. Ainda usei os fones de ouvido da Central, mesmo. Os que usamos para sermos avisados das buscas. Eu ouvi.
- O que você ouviu, Montag. É este o seu nome, não? Montag?
- Sim, é. No aparelho, um reprodutor de MP3 havia um arquivo chamado “Help”. Eu ouvi aquilo... havia uma música chamada “Yesterday”. Ela simplesmente... me fez chorar. Não sabia que músicas podiam fazer isso com a gente.
- Oh, sim... Eles eram conhecidos como The Beatles. Dizem que foram os maiores. “Help!” foi um grande álbum – confirmou o outro com ar de satisfação – A música é muito poderosa. Por isso não querem que as ouçamos.
- Quer ficar conosco?
- Adoraria. Ainda mais agora que sou uma espécie de “ameaça ao governo” - riu.
- Pois bem, aqui somos apenas uns 80, mas há muitos outros em muitas outras colônias clandestinas como esta pelo mundo afora. Pessoas dispostas a manter vivo o encanto, a magia e o ideal dos artistas e das suas obras fonográficas. Não foi pensado! Na verdade tudo começou meio que por acaso. Um homem aqui, outro ali, amante incondicional de música tratou de guardar no lugar mais seguro e intransponível, seu cérebro, no mínimo, uma música que amasse muito. Todos os detalhes possíveis, a melodia, a entonação, a batida, um ruído secreto. São homens-música. Deu-se que calhou de juntarmo-nos aqui e nestes outros lugares que falei, onde o governo ignora ou prefere que fiquemos desde que não “importunemos” sua ordem. O que eles não sabem é que assim que temos notícia de que uma outra “música” que faça parte de uma obra esteja pronta, tratamos de trazê-la para cá ou levá-la para onde possa compor um álbum. A propósito, não me apresentei, sou “Águas de Março” de Tom Jobim.
E apontou adiante mostrando:
- Aquele ali é “Non, Je Ne Regrete Rien”, de Édith Piaf; aquele outro sentado é “Little Red Rooster”, de Willie Dixon, na versão de Howlin' Wolf; aquele outro é “Anarchy in the U.K. Dos Sex Pistols; aquela moça bonita de vermelho é “Venus In Furs” do Velvet Underground. E vê aqueles todos juntos? Aquelas nove peassoas? Conseguimos reunir todas as músicas do “Let It Bleed” dos Rolling Stones – sorriu com satisfação.
- Não é fácil – continuou- Nem sempre conseguimos reunir álbuns inteiros, às vezes temos 4, 5 homens-música mas os outros estão espalhados por aí, por outras colônias, ou simplesmente vagando solitários com sua música favorita guardada em sua cabeça até que um dia as músicas sejam permitidas novamente e que aqueles clássicos possam voltar a serem gravados. Você ainda tem o aparelho? O arquivo?
- Sim, sim. Eu trouxe na fuga – apressou-se em mostrar, tirando do bolso.
- Acha que pode decorar sua letra, melodia, os detalhes de sua percussão? Acha que consegue identificar os instrumentos?
- Creio que sim.
- Pois então, ouça bem, ouça quantas vezes precisar e trate de gravar na sua mente. Assim que tiver terminado faremos o que você sempre fez, destruiremos o arquivo para que o governo não tenha motivo para prender qualquer um de nós. Temos alguns fones velhos se precisar.
- Eu gostaria muito.
- Vamos lá. Vamos à cabana buscar – conduzindo Montag com a mão em seu ombro.
No caminho para a choupana que lhes servia de alojamento, passaram por uma menina de uns dezessete anos que cantarolava alto o suficiente apenas para que quem estivesse perto dela conseguisse ouvir, “in dreams i walk with you...”. Era “In Dreams” de Roy Orbison.


Cly Reis

segunda-feira, 27 de maio de 2024

Philip Glass - "Symphony Nº 4 'Heroes'” ou "'Heroes' Symphony - by Philip Glass from the Music of David Bowie & Brian Eno” (1997)



As várias capas e edições de "Heroes" pelos selos
Point Music, Orange Mountain, Universal e Decca
  
“A influência contínua destas obras, ‘Low’ e ‘Heroes’, garantiu a sua estatura como parte dos novos ‘clássicos’ do nosso tempo. Assim como os compositores do passado recorreram à música do seu tempo para criar novas obras, o trabalho de Bowie e Eno tornou-se uma inspiração e ponto de partida para uma série de sinfonias de minha autoria”.
 
Philip Glass

Chegados os anos 90, Philip Glass já era uma lenda digna da idolatria. Ligado à música de vanguarda da Costa Leste norte-americana, pela qual surgiu nos anos 60, o autor das “Glassworks” e de peças revolucionárias como “Music in Twelve Parts”, “Koyaanisqatsi” e "Metamorphosis" já havia ultrapassado a linha entre erudito e popular fazia muito tempo, desde suas trilhas sonoras marcantes para o cinema quanto por sua aproximação com o rock e a world music. Porém, afeito a desafios, Glass deu-se conta de um gap em sua já extensa obra àquela época: por incrível que parecesse, faltava-lhe ainda a composição de uma sinfonia. Sim, Glass havia escrito óperas, concertos, corais, peças para câmara e teatro, prelúdios, partitas, balês, sonatas, trilhas sonoras e toda categoria musical que se possa imaginar. Menos sinfonia, justamente o gênero que tanto consagraria os grandes nomes da música clássica, aquele pelo qual os fariam mundialmente conhecidos, como Beethoven (5ª e ), Mahler (Trágica), Mozart (41ª ou Júpiter), Berlioz (Fantástica) e Shostakovich (8ª).

Glass precisava preencher essa lacuna. No entanto, dada a importância deste tipo de obra para um autor do gabarito dele, entendia que precisava ser algo especial. O “coelho da cartola” foi, mais uma vez, a versatilidade e o ecletismo: usar o rock como base para isso. Igual ao que compositores clássicos antigos faziam ao se referenciarem na obra de seus ídolos, só que de uma forma bem inovadora. Sobre temas do clássico disco “Low”, de David Bowie, de 1977, gravado na Alemanha e cuja batuta de Brian Eno mereceu-lhe créditos de coautoria, Glass elaborou sua primeira sinfonia em 1992. Um sucesso de crítica e, principalmente, junto aos próprios Bowie e Eno, que adoraram a homenagem, O mais legal da rica versão de Glass para as faixas do Lado B de “Low”, as de caráter mais ambient e avant-garde do álbum, foi que ele não criou uma ópera-rock, dando somente um teor erudito a sonoridades pop mas, sim, extraindo o que havia de “erudito” de cada música, de cada detalhe, fosse na instrumentalização, no redesenho sonoro ou mesmo na escolha de quais faixas usar.

Caminho aberto para as sinfonias, e Glass, então, não parou mais. Escreveu, nos anos subsequentes, as de nº 2 (1994) e nº 3 (1995) - formando, atualmente, 14 peças neste celebrado formato. Porém, a talvez melhor de sua carreira seja a que veio logo a seguir, em 1997: a “Sinfonia nº 4” ou simplesmente “Heroes”. Animado com a primeira experiência sinfônica e encorajado pelos próprios autores, Glass repete a dose de se inspirar noutro álbum célebre de Bowie/Eno: “Heroes”, de 1978, que forma, junto com "Low" e “Lodger”, de 1979, a famosa trilogia alemã que redefiniu o futuro da música pop com sua ousada combinação de influências da world music, da vanguarda experimental e do rock.

A experiência das sinfonias anteriores - bem como dos trabalhos com grande orquestra, como as óperas - foi, contudo, fundamental para que Glass chegasse à sua quarta empreitada neste tipo de obra mais equipado musical, formal e esteticamente. Glass sabia exatamente como fruir os sons e arranjos das canções originais para criar uma peça ainda mais singular. Ele utiliza flautins, clarinetes baixos, metais (trompete, trombone, trombone baixo, trompa e tuba), percussões (tambor lateral, tambor tenor, bumbo, pandeiro, pratos, triângulo, vibrafone, tam-tam, castanholas e carrilhão), harpa, celeste e cordas (violino, viola, violoncelo e contrabaixo).

O melhor exemplo é o tema-título, o "1º Movimento". Quem escuta os acordes orquestrados de Glass dificilmente identifica a música de Bowie, aquele glitter rock potente e dramático. Aliás, talvez a única característica mais visível que ele tenha mantido nos quase 10 minutos que se transcorrem (em detrimento dos aproximadamente 3min30' da versão comercial de Bowie ou, no melhor dos casos, dos pouco mais de 6min da versão estendida) seja a dramaticidade, tendo em vista que a transforma num adagio instrumental cheio de idas e vindas, volumes e variações de intensidade, Mas, principalmente: o veterano minimalista deu uma personalidade única à música, recriando-a. O entendimento de Glass sobre o que ele ouve em “Heroes” é tão singular quanto genial, coisa de quem tem ouvido absoluto ou uma outra percepção sobre as coisas: uma audição além daquilo que os reles mortais alcançam. 

A “Heroes” de Glass, por sinal, é mais colorida do que a séria expressividade dada pelo autor da canção. E não se ceda à tentação de cogitar que a “Heroes” sinfônica é meramente uma orquestração do tema que a originou, como se fosse possível encaixar uma sobre a outra. É, sim, uma outra “Heroes” - ou melhor, a mesma, só que sentida de outra forma. E embora as dessemelhança, por incrível que pareça, há ainda um fio de identificação, como que a "alma" da criação tivesse se mantido. A se pensar em outros trabalhos da música erudita dos anos 90, década pouco densa em obras significativas nesse campo em relação a suas antecessoras, “Heroes, Moviment I” é comparável a outras três marcantes obras: “Kristallnacht”, de John Zorn, "Food Gathering in Post-Industrial America, 1992", de Frank Zappa, e “Blu”, de Ryuichi Sakamoto.

Na sequência, “Abdulmajid”, de um arranjo primoroso, pega emprestada com suavidade a atmosfera árabe deste b-side de “Heroes”, uma world music bastante eletrônica em sua concepção primal, próximo ao som de Jon Hassell e Terry Riley. Ela ganha, agora, um conjunto de cordas em variações de 5 e 7 tempos, castanholas e uma percussão cintilante de sinos, esta última, executora do “riff”. Assim como o movimento inicial, este andante é prova da tarefa nada óbvia a que Glass se propôs, uma vez que seria, por exemplo, muito mais fácil arranjar para orquestra o tema de feições orientais (e já instrumental) “Moss Garden”, uma das faixas de “Heroes” de Bowie que não aproveitou. Já “Sense of Doubt”, originalmente instrumental, é provavelmente a que menos trabalho lhe deu em adaptar, visto que sua estrutura melódica forjada nos sintetizadores já intui o som da orquestra.

Para “Sons of the Silent Age”, mais uma das originalmente cantadas assim como “Heroes”, Glass suprime as vozes e dá a roupagem mais clássica de todas do repertório. Elegante, explora bastante os sopros doces em contraste com os registros graves de tuba e trombone baixo. Pode-se dizer um balê glassiano, que traz as repetições circulares de cordas e sopros, as quais dão a sensação hipnótica peculiar de sua música, mas ao mesmo tempo bastante renascentista, fazendo remeter a outros mestres formadores de sua musicalidade como Bach e Mozart.

Outra que Glass consegue unir a originalidade de seu olhar sobre a obra alheia e o frescor daquilo em que se baseia é “Neuköln”, a música que os ingleses Bowie e Eno compuseram em homenagem a um dos bairros de Berlim no período em que se refugiaram na capital alemã para produzir “Low/Heroes/Lodger”. Nesta, o compositor norte-americano se esbalda sobre a ideia-base, a de uma peça eletroacústica que conjuga sintetizadores, guitarras e frases arábicas de um áspero sax alto tirada do atonalismo de Cage e La Monte Young, admirados por Eno. Sabedor de todos estes caminhos como poucos, tanto dos antecessores quanto dos contemporâneos, Glass reúne as pulsões sonoras distintas e promove uma reunião de tempos e intenções, redimensionando a própria música. Ele não deixa de aproveitar nenhuma nota, nenhum som para atribuir a “Movement V - Neuköln” um caráter particularmente épico. 

Encerrando, outra na qual Glass mostra o quanto suas antenas são capazes de sintetizar mundos. Homenagem de Bowie e Eno aos pais do pop eletrônico, a banda alemã Kraftwerk, ‘V2 Schneider” (referência ao sobrenome de um dos fundadores e principais compositores dos “homens-máquina”, Florian Schneider) ganha uma retextura de Glass à sonoridade high-tech em um corpo sonoro tradicional e secular. Conforme diz o crítico musical especializado em música clássica Richard Whitehouse, “V2 Schneider” abre com movimentos rítmicos animados em metais e percussão, cordas e sopros trocando temas à medida que a música ganha em incisividade. “O movimento rítmico solidifica-se num ostinato pulsante, ao longo do qual a atividade ganha intensidade textural e dinâmica, construindo um pico de que é encimado pelo vigoroso acorde de encerramento, arredondando assim toda a obra com um efeito decisivo”, completa. Ao traduzir Bowie/Eno, Glass retraduzia o kratrock alemão presenciado in loco pela dupla britânica e, por tabela, todos os que inventaram a música eletrônica, como o “germaníssimo” Karlheinz Stockhausen e a turma da Música Nova de Darmstadt dos anos 50.

Em 1971, dois jovens músicos de aparência kitsch interessados em arte para além do rock assistiam empolgados à estreia em Londres de “Music in Changing Parts”, obra da primeira fase de Glass. Esses jovens eram David Jones e Brian de La Salle Eno, já artistas consagrados, mas nem por isso incapazes de admirar um de seus heróis na música. Tamanha reverência parece ter, de alguma forma, influído para que esse “herói” concretizasse, mesmo que apenas mais de três décadas depois, a autoexigência de compor sinfonias tendo como objeto exatamente aqueles dois rapazes fãs de tanto tempo. Sucessor de “Low” na fase alemã de Bowie, “Heroes” fazia-se, agora sinfônico, igualmente sucessor, mas na carreira de Glass - que ainda concluiria a veneração à trilogia berlinense com “Symphony Nº 12  - Lodger”, de 2022. Criadores e criaturas se intercambiam e se referenciam mutuamente. Como dizem os versos da música que dá nome a ambas as obras, a de Bowie/Eno e a de Glass, “Nós podemos ser heróis”. Todos são.

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Como ocorre com obras do catálogo ligado à música clássica, “Heroes Symphony” ganhou mais de uma edição. Em pelo menos duas delas, a peça vem acompanhada no CD de outras duas também orquestrais: o "Concerto para Violino", de 1987 (edição Deutsche Grammophon/Decca, de 2014), e outra em conjunto com “Low Symphony” (Universal, 2003). 

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FAIXAS:
1. “Movement I - Heroes” (David Bowie/Brian Eno) - 9:28
2. “Movement II - Abdulmajid” (Bowie/Eno) - 9:24
3. “Movement III - Sense of Doubt” (Bowie) - 7:29
4. “Movement IV - Sons of the Silent Age” (Bowie) - 8:37
5. “Movement V - Neukoln” (Bowie/Eno) - 7:58
6. “Movement VI - V2 Schneider” (Bowie) - 7:17

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OUÇA O DISCO:


Daniel Rodrigues

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Richard Strauss - "Assim Falou Zaratustra" (1895)


“Nunca fui revolucionário.
O único revolucionário em nossa época
foi Strauss!
Arnold Schoenberg

“Há sempre seu quê de loucura no amor;
mas também há sempre
 seu quê de razão na loucura.”
trecho de “Assim Falou Zaratustra”,
de Friedrich Nietsche



É bem provável que, por insistência dos estúdios cinematográficos, o diretor Stanley Kubrick encomendara uma trilha sonora original para um filme que ele rodaria, a ser lançado em 1968, ao compositor Alex North (que trabalhara com ele em “Spartacus”, de 1960). O filme em questão chamar-se-ia nada mais nada menos que “2001: Uma Odisseia no Espaço”, obra-prima do cinema. Porém, nada do que North compôs foi aproveitado no filme. Kubrick sabia muito bem o que queria para a trilha. Além de obras de Grygöry Ligeti, Johann Strauss e Aram Khatchaturian, ele usou o clássico pós-romântico “Assim Falou Zaratustra”, de Richard Strauss. O resultado foi tão certeiro que, até hoje, a peça é conhecida como “a música do 2001”. Não à toa. “Zaratustra”, que inicia epicamente o longa, é uma música de proporções sonoras e simbólicas gigantescas que resume, através de seus sons intensos e saborosamente dissonantes, a força da transformação da humanidade que o filme retrata.
Pois de força de transformação o alemão Richard Strauss entendia. De alma rebelde, apaixonada e inquieta, Strauss foi um punk de seu tempo. Ele aprendeu as formas clássicas, estudou Franz Liszt e Richard Wagner (a quem idolatrava), e, embora o rivalizasse, era amigo e admirador de Gustav Mahler. Mas Strauss subverteu tudo isso. Entre outras loucuras saudáveis, meteu trítonos diabólicos e necrofilia na história bíblica da ópera “Salomé”, de 1906, e, dois anos antes, anteviu o american way of life com quatro décadas de antecedência com sua “Symphonia Domestica” ao descrever o dia a dia de uma família norte americana comum. Porém antes, na sua série de “poemas sinfônicos” (na qual bancou musicar autores pouco quistos como Richard Dehmel e Max Stirner), Strauss já havia trazido ao mundo outra saudável transgressão, a talvez primeira ponte concreta entre a tradição tonal e o atonalismo que desembocaria no trio de Viena, Berg, Webern e, principalmente, Schoenberg – a quem influenciou sobremaneira tanto em estilo quanto em atitude. “Assim Falou Zaratustra”, de 1895, é, em seus cerca de 35 minutos, uma obra revolucionária em forma e proposta que traz diversos lances dessa ruptura. Isso fica evidente nas torrentes sonoras e nas dissonâncias maravilhosamente bem arranjadas. Fortes e certeiras.
Depois das inconfundíveis quatro notas da Quinta de Beethoven (o “Tchan-tchan-tchan-tchaaaaan!”), o início de “Zaratustra” é talvez o mais marcante da história de toda a música. Como bem captou Kubrick para a cena inicial de um filme que versa sobre os limites do homem, esta passagem deve sua força cósmica às leis naturais do próprio som e como ele se distingue em nosso cérebro. Quando se fere uma corda afinada num dó inferior e, em seguida, dedilha-a de novo prendendo pela metade, o tom sobe para o próximo dó. Esse é o intervalo da oitava. Fazendo-se o mesmo nas divisões subsequentes, dá-se origem a outros intervalos, o que é considerado os primeiros passos da série harmônica natural, que reverbera como um arco-íris sempre que a corda é colocada em vibração.
Em “Zaratustra”, essa explicação teórica fica fácil de perceber: dós profundos para começar, trompas tocando um dó mais agudo, um sol, um dó mais agudo ainda, e um mi natural, que rapidamente desliza para mi bemol, formando um dó menor em tom sombrio. Na repetição, mi bemol sobe para mi natural, originando um reluzente acorde de dó maior. São aproximadamente 1 minuto e 20 e poucos segundos que causam, invariavelmente, uma sensação instintiva de prazer e agitação. O último acorde ainda demora em terminar, sustentando-se por segundos sem cair, exemplo que influenciou outros músicos a usarem do mesmo expediente, como Arvo Pärt, no final da parte “Ludus”, de “Tabula Rasa”, ou os Beatles, ao concluírem de forma esplendorosa "A Day in the Life".
Anos atrás, quando escutei pela primeira vez a obra inteira, de tão impressionante que é o “tema do amanhecer”, confesso que me pareceu todo o restante muito inferior. Mera imaturidade de meu ouvido, pois, sem dúvida, não quer dizer que a abertura tire o brilho do restante. Baseada no livro homônimo do conterrâneo Friedrich Nietsche (ainda vivo e em voga na época), a música de Strauss traduz de maneira intensa e carregada a magnitude poética do texto filosófico, que passeia pelas contradições e embates entre homem e natureza. Para isso, Strauss se vale de volumosos contingentes orquestrais, que geram ondas de impressionante impacto sonoro, graduando a expressividade e aliando força e requinte nas partes mais grandiosas. Desenvolve cellos e violinos, sem sair do leitmotiv, que é reavivado de tempo em tempo ao longo da peça, seja em forma de frases, em suposições de seus acordes ou em novas citações.
Na segunda metade, Strauss adensa a orquestração. É a vida em estado de tensão/renovação. Torrentes de cordas anunciam a entrada marcante dos sopros: trompas e trompetes tomam o espaço. “Ó! miséria de todos os que dão! Ó! eclipse do meu sol! Ó! desejo de desejar! Ó! fome devoradora da fortuna”, diz Nietsche sobre o “Canto da Noite”.
Porém, “antes do nascer do sol”, o prado, então “verde e colorido”, torna-se “triste e cinzento”. Flautas emitem sons de pássaros assustados, que veem a aurora sobre ataques de trombas ameaçadores. “As pernas do conhecimento fatigaram-se-lhes e agora caluniam até os seus brios da manhã.” O que restará de nós, natureza? Após desenvolver notas sonolentas e cambaleantes, a melodia vai se esvanecendo até se... suspender. Justo no renasce do dia, Strauss o mata, poeticamente. Assim falou (o seu) Zaratustra.
Intenso em personalidade, Strauss morreria em 1943 e, mesmo com um breve e mal explicado envolvimento com o Reich de Hitler, sua obra venceu o tempo. Durante sua vida, não procurou as facilidades: sempre mirou os desafios como quem tem sede de mudança. Se hoje é normal as guitarras do rock rasgarem os alto-falantes ou a atonalidade da vanguarda ser aceita e até deglutível, muito se deve a ele. Strauss é um artista que rendeu sua vida à arte dos sons, e este trecho do Zaratustra de Nietsche parece ter sido escrito para ele: “Acaso aspiro à felicidade? Eu aspiro à minha obra”.

Abertura de "2001 - Uma Odisséia no Espaço"


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FAIXAS:
1 - Einleitung (Introdução), ou nascer do sol
2- Von den Hinterweltlern (Dos Antigos Homens)
3 - Von der großen Sehnsucht (Da Grande Saudade)
4 - Von den Freuden und Leidenschaften (Das Alegrias e Paixões)
5 - Das Grablied (O Túmulo-Canção)
6 - Von der Wissenschaft (Da Ciência)
7 - Der Genesende (A Convalescença)
9 - Das Tanzlied (A Dança-Canção)
10 - Nachtwandlerlied (Canção do Sonâmbulo)
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Ouça: