Curta no Facebook

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Um Coração Lunar Com Um Pouco de Som





Amy Hildebrand - Dia 582
“Eu quero me refletir como uma só pessoa;
alguém que vai crescer, ter filhos, envelhecer e morrer.
Nem todos os meus dias serão bons, nem todas as minhas fotos serão boas, mas elas irão me refletir”
(Amy Hildebrand - 'O Nascimento da Realização' -
13.10.2009 – fotos 31 a 48)






Conheci a jovem Amy Hildebrand através da minha irmã e sócia, estudante de Pedagogia Carolina Costa em abril de 2012, dois meses antes do projeto que divulgou Amy ao Mundo ser concluído. O trabalho de Carolina sob o título “O ato de ver: solidariedade, justiça e respeito” para a disciplina de Estudos Sociais da PUCRS me impressionou bastante, porque dialogava com a nossa forma de compreender o universo visual das pessoas com cegueira e baixa visão na Aprata (http://www.aprata.com.br/) nos últimos cinco anos.

O trabalho começava com uma seleção das fotos de Amy e depois o breve texto: “Ela é cega e formada em fotografia”. Mais adiante Carolina destacava: “Amy é casada, tem dois filhos e nunca aprendeu a ler em Braille. Graças aos tratamentos feitos durante sua vida, conseguiu recuperar 20% da visão, o que de fato já se faz suficiente em meio ao talento extraordinário que possui. ´Eu sou uma pessoa com albinismo, mas eu também sou uma fotógrafa, esposa, mãe e artista. O albinismo é apenas um aspecto em mim e não é ele que me define´ declara Amy Hildebrand”.

Amy por causa do albinismo nasceu cega. O albinismo é um distúrbio congênito caracterizado pela ausência completa ou parcial de pigmento na pele, cabelo e olho, devido à ausência ou defeito de uma enzima envolvida na produção de melanina que afeta a visão, levando a baixos percentuais de visão ou até mesmo cegueira. Em 17 mil pessoas no mundo apenas uma pode ser albina e, por isso mesmo, essa característica torna a pessoa alguém raro. Na sua família não havia nenhum bebê albino até Amy nascer, mas por “algum motivo desconhecido a desordem apareceu em três das quatro gestações” , conta Amy.  Mas não é o albinismo que faz dessa jovem mulher alguém tão especial e sim a maneira como ela vive o que seria uma limitação visual.  Sua família não se acomodou com o diagnóstico médico e expôs Amy a vários estímulos que a levaram a mudar o rumo de sua vida.

Lendo as entrevistas que Amy concedeu a jornalistas mundo afora percebemos que a atuação da família e a sua força de vontade foram fundamentais no processo de cura: “Acredito que tudo esteja relacionado ao ambiente onde crescemos. Ninguém nunca nos disse que não poderíamos fazer algo. Fazíamos. E quando não conseguíamos, meus pais diziam que era porque talvez não fosse adequado para nós. Nunca disseram algo como ´você não pode por causa do seu problema de visão".

Durante a adolescência Amy passou a enxergar cores, formas e sombras, ela relata seu primeiro registro visual: “Lembro do piso de linóleo vermelho da cozinha. O sol entrava pela janela, e a poeira pairava no ar. Lembro de simplesmente deitar lá e ficar olhando o sol incidindo sobre o piso, o contraste entre o vermelho do linóleo e a luz, as sombras, minha mãe fazendo as tarefas domésticas. As cores eram tão vívidas. Eu amava isso. É como se fosse um sentimento aliado a uma experiência visual. É algo muito forte para mim. Muita cor, mas também muito amor”. Buscando a melhor forma de se expressar encontrou a fotografia: “Sempre me senti confortável com uma câmera nas mãos. Parecia o jeito mais natural de me expressar. Me perguntavam como eu enxergava o mundo, e nunca encontrei uma maneira adequada de responder isso, até começar a fotografar”. A fotografia pode ser entendida como um desenho com luz e contraste. A baixa visão levou Amy a interpretar muito o contexto ao longo dos dias, assim seu trabalho com fotografia faz com que as pessoas possam enxergar o que ela vê e da maneira que ela vê.
Amy lançou na internet o blog With Little Sound (tradução: Com pouco som) que lembra um diário com mil fotos e 29 textos escritos ciclicamente. As fotos são diárias e os textos de 30 em 30 dias. O período mais difícil para Amy fotografar foi quando seu padrasto foi diagnosticado com câncer terminal, numa entrevista a BBC Brasil ela comentou: “Mas depois de sua morte tentei ser o mais positiva possível”.

As fotos de Amy estão intercaladas entre textos. A numeração das fotos segue seu fluxo, assim como os dias das nossas vidas. Alguns períodos são mais intensos, noutros as imagens se concentram nos interiores das casas, na intimidade com a sua família. O que mais impressiona é que ela manteve seu plano inicial estabelecido nas regras e extraiu do seu cotidiano imagens essencialmente artísticas, nos deixando ver o que está mais forte no seu momento de vida. O afeto permeia a Arte de Amy durante todo o tempo. Imagens me acompanham desde que conheci o Blog, alguns olhares dela se identificam com o meu olhar de fotógrafa. Os desfoques me agradam. As cores ofuscantes também. As composições rendem inúmeras interpretações semióticas.

Separei para vocês as minhas imagens prediletas. Os textos mais bonitos a meu ver são os que falam das festas de Natal e dos filhos, me lembram cartas a partir dos posts de 10.02.2010 quando deixam de ser escritos diretamente no Blog e parecem ser cartas scanneadas. Alguns posts são mais reflexivos beirando o estado permanente de  deriva de quem está apreendendo cada momento: “Today reminded me of one of the first days of this project. I see the light at the end of the tunnel and I find myself hesitating on moving forward”(“Hoje me lembrou um dos primeiros dias deste projeto. Eu vejo a luz no fim do túnel e eu me encontro hesitando em avançar” – texto da foto número 720 ).

As regras estabelecidas por Amy em 14.09.2009 me chamaram atenção e demonstram a persistência diária (“postar uma foto por dia; a foto tem que resumir o meu dia, seja ele emocional, físico, real ou fantasioso e depois deste post preliminar, vou escrever a cada 30 dias”).  Além disso, sempre despedia-se do leitor com a palavra coração entre aspas, numa demonstração de quanto há de afeto nessa conquista. Em chinês, os pensamentos são movimentos do coração - mente e coração são a mesma palavra.
“Coração”


Leocádia


PS. 1: Amy esteve em Porto Alegre/RS em outubro de 2012 a convite do projeto “Saber Viver” como palestrante e trouxe sua mostra “1000 Fotos em 1000 dias”.
P.S. 2: O albinismo faz parte da vida de outras pessoas talentosas:  Jonhy e Edgar Winter: músicos texanos; Connie Chiu: primeira modelo albina no Mundo admitida por Jean-Paul Galtier;  Ademir da Guia: jogador de futebol, conhecido por negro-aço. Possui estátua no Palmeiras onde é um dos ídolos da história do Clube; Hermeto Pascoal  alagoano toca sanfona, violão, contrabaixo, flauta, saxofone e uma infinidade de outros instrumentos musicais. Aprendeu a tocar sanfona por ter que ficar horas em casa. Ele não podia ajudar os pais na lavoura por causa das queimaduras de Sol. Nos anos 1970, participou das gravações de um álbum do astro do jazz Miles Davis  que o chamou de “músico mais impressionante do mundo”; Sivuca: Também apelidado de “Cabelo de Milho”, “Sarará Crioulo” e “Gênio Louro”, Sivuca nasceu em Itabaiana, na Paraíba, sob o nome Severino Das de Oliveira em 1930. Na época da guerra racial na África do Sul, saiu com a cantora negra Miriam Makeba em turnê mundial. O ousado músico gostava de experimentar e chegou até a tocar Bach usando sua sanfona.
***********************************


Amy Hildebrand - Dia 1

Amy Hildebrand - Dia 85

Amy Hildebrand - Dia 112


Amy Hildebrand - Dia 261

Amy Hildebrand - Dia 336

Amy Hildebrand- Dia 420

Amy Hildebrand- Dia 665

Amy Hildebrand - Dia 725

Amy Hildebrand - Dia 872

Amy Hildebrand - Dia 919

Amy Hildebrand - Dia 1000


Sites e páginas pesquisados:  
http://guiadoscuriosos.com.br/blog/tag/albinos-famosos/  Marcelo Duarte 
www.bbc.co.uk – Jessica Fiorelli
www.zerohora.com.br – Larissa Roso
http://pt.wikipedia.org/wiki/Albinismo - Wikipédia
http://www1.folha.uol.com.br/bbc/1070976-fotografa-que-nasceu-cega-registra-uma-imagem-por-dia.html - Folha de São Paulo
http://withlittlesound.blogspot.com.br/ - blog de Amy Hildebrand





domingo, 3 de fevereiro de 2013

cotidianas #201 - Amor. E um Videogame


- Eu quero terminar tudo.

-Calma, guarda um pouco de bolacha para amanhã. – Ele disse, afastando o pote dela.

-Não, você não entendeu. Entre nós. Quero acabar.

-O quê? – A mão bateu no pote, as bolachas amanteigadas rolaram pelo tapete. Os dois começaram a juntar.

-Não te amo mais.

-Quebrou.

-Exato! – Disse ela sem olhar diretamente para ele. Jogava as bolachas no pote de vidro.

-Não, quebrou o pote. Rachou no meio. – Ele respondeu constrangido. A rachadura dividia o pote em dois.

-Bom, não importa. Eu não te amo mais. Decidi começar 2013 sem medo, sem receios. Chega dessa relação, ela está esgotada.

Ele terminou de juntar as bolachas do chão. Ficou em silêncio, olhando os farelos. Pensando em coisas passadas.

-E sabe o que mais? – Ela pegou o pote rachado. Jogou no lixo, junto com as bolachas sujas. Só terminou a frase quando voltou. – Acho que você também não me ama.

-Hum.

-Hum, o quê? Você tá ligando o videogame?!

-Tô quase virando.

-Você não me respeita, mesmo. Não me dá valor.

Ele disse sem olhá-la:

-Você terminou comigo mesmo eu desligando, toda santa vez, esse videogame para te ouvir. Por que você acha que, justamente agora, após o fim, eu vá fazer esse esforço?

-Eu não acredito.

-Além do mais, o videogame tem fim. Seus falatórios, não.

-Cretino. É por isso que não te amo mais. Porque você só pensa em você.

-Vai catar coquinho.

-Hum?!

-O macaco. No videogame. Nessa fase ele cata coquinhos. Na anterior são bananas.

-Você ouviu o que eu disse? Que eu terminei porque você só pensa em você!?

-Não. Você terminou comigo porque é egoísta e tem um trauma de infância que faz você gostar de quem te trata mal.

-Como é?! – Ela gritou de susto. Para dentro e para fora de si.

-O dia que te pedi em namoro, você não aceitou.

-Não gosto de flores, serenatas, não gosto de bajulações.

-Mas disse que queria namorar comigo quando me viu ficando com uma guria daquela festa.

-Nem sabia disso.

-Sabia sim. – Ele balançou os braços. O macaquinho havia caído da árvore. – Você atualizou o status do nosso Facebook, ainda no mesmo dia, e foi comentar no perfil da menina.

-Bom…

-Você odiou aquele poema que eu te escrevi.

-Achei meloso.

-Mas me escreveu uma carta de amor, como comentário, naquela postagem que eu fiz no Facebook. A postagem em que eu dizia ter saído com aquela amiga muito especial.

-Cachorro.

-Quem dera eu fosse.

-Não, no videogame. Cuidado com o cachorro. – Ela sentou-se do lado dele.

-Você odeia quando não te dou atenção. Mas se o foco da conversa não é você, você diz que eu não te escuto.

A garota ficou em silêncio. Ele continuou:

-Então, tudo bem. Se com todo o meu esforço, você ainda quer terminar, termine de uma vez. Pelo menos agora posso focar minha atenção em coisas que não sejam você e seus monólogos.

-Você não fica nem triste?

-Claro, poxa  Eu te amo, mais do que qualquer guria que já peguei. Mas você precisa aprender que namorar não significa ser dono de nada. A gente não se pertence. A gente se doa um para o outro. Não é obrigação. É porque se quer.

-Hum.

-Agora é a vez do ursinho no jogo. – Ele já estava na última fase.

-Que fofinho.

-O coelhinho é mais fofinho.

-Não, seu bobo. Você é fofinho.

Ele olhou para ela. Ela retribui, sorrindo. Algo brilhou… na TV.

-Você vai perder o jogo. – Ela comentou vendo o urso cair num buraco.

-Mas vou ganhar outra coisa.

Os dois se beijaram.

-Eu te amo.

-Eu que te amo.

-Você não ganhou o jogo. – Ela disse.

-Ganhei você.

-Que lindinho!

-Eu sei.

-Não. Tô falando do coelhinho do jogo. Apareceu ali.
  
de Luan Pires




Luan Pires é formado em Jornalismo. Escritor "de chuveiro" e viciado em literatura. Cresceu lendo os livros de Agatha Christie, ama Machado de Assis e acha a Capitu a personagem mais fascinante de todos os tempos.
Ver filmes é uma de suas paixões. Viciado em café e fascinado por tempestades repentinas. Libriano, organizado - e chato também.
Mas é boa gente, pelo menos se esforça para isso..

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

The Prodigy - "Music For Jilted Generation" (1994)





 “Fodam-se eles e suas leis”
“Their Law”

“The Fat of the Land”, álbum de 1997 cheio de hits e responsável pelo estouro definitivo dos ingleses do The Prodigy é constantemente saudado e festejado como sendo seu grande trabalho. É um grande álbum, é verdade, e no seu devido tempo merecerá a atenção aqui nesta seção, mas na minha opinião o verdadeiro crescimento e consolidação de uma linguagem e um estilo aconteceu em seu disco anterior o ótimo “Music for Jilted Generation” de 1994, onde aquele punkismo que ficaria mais explícito, não só na agressividade do disco seguinte, em músicas como “Breathe” por exemplo, ou mesmo no visual dos integrantes, especialmente do performer Keith Flint, começava a tomar forma e se justificava não apenas sonoramente mas também enquanto atitude, uma vez que a banda batia de frente com as autoridades inglesas que na época criavam todas as dificuldades possíveis para relizações de raves e festas do gênero. Com “Their Law”, uma paulada metal-eletrônica feita em parceria com os industriais do Pop Will Eat Itself, desafiavam a polícia, botavam o dedo na cara da Ordem Pública e mandavam todos ‘se foder’, literalmente, num petardo sonoro pesado e agressivo. Uma verdadeira bomba hardcore eletrônica como poucas vezes havia-se ouvido até então.

“Voodoo People” é outra matadora! Com sua guitarra cortante, suja, entrecruzada, entrecortada, e uma batida atropeladora é simplesmente violenta e selvagem. “Break and Enter’, que a rigor abre o disco após uma breve vinheta, é igualmente acelerada e pegada sem contudo ser tão feroz quanto às outras já citadas, apresentando por sua vez uma base genial extremamente bem trabalhada totalmente quebrada e inconstante complementada por um sample vibrante de um vocal feminino, numa das melhores faixas do álbum. A envenenada “Poison” é psicodélica, psicótica, caótica, ousada em sua composição aparentemente desencontrada, e com o vocal brilhantemente fazendo partes de percussão; “Speedway” é extremamente criativa ao incorporar samples de carros de corrida ao seu andamento já bem acelerado; e a boa "No Good" é um convite irrecusável para uma pista de dança com seu ritmo frenático e empolgante. “3 Kilos”, que abre o ‘pacote de narcóticos’, como é descrito na capa o conjunto das três últimas faixas, é estilosa com seu andamento cool e seu charmoso solo de flauta; a mutável “Skylined” vai ganhando corpo e peso, capricha nas repetições e explode num ritmo galopante forte e intenso; e a perturbadora “Claustrophobic Sting”, com seu sample de saco-de-risadas fecha o disco em grande estilo numa faixa longa, forte e alucinante.

Músicas como a acelerada “Full Throttle”, “One Love” com seus toques árabes;  e a elétrica “The Heat (The Energy)”, são boas faixas, dançantes, vibrantes mas na minha opinião momentos menores no álbum, o que não tira em nada o brilho do trabalho como um todo. Se depois de um álbum interessante porém quase primário, e que soava até meio ‘infantilóide’, como seu “Experience” de 1992, em “Music for Jilted Genaration”, Liam Howlett a cabeça pensante por trás do projeto, corrigia o rumo, aparava as arestas, caprichava nos samples achava o meio termo entre o eletrônico e o peso e mandava ver num álbum que pode ser considerado um dos pioneiros na introdução de elementos de peso e guitarras na música eletrônica. O que veio depois foi só conseqüência.
***************************************

 FAIXAS:
1. Intro
2. Break and Enter
3. Their Law
4. Full Throttle
5. Voodoo People
6. Speedway (theme from “Fastlane’)
7. The Heat (The Energy)
8. Poison
9. No Good (Start The Dance)
10. One Love (Edit)

  • The Narcotic Suite
11. 3 Kilos
12. Skylined
13. The Claustrophobic Sting

***********************************
Ouça:

Cotidianas Especial #200 - Arte


"A arte naturaliza a todos na mesma pátria superior"
Machado de Assis
"Na arte já não nos preocupam os padrões, mas as exceções."
Oscar Wilde


-A arte tem mais valor do que a verdade - argumentava para os jornalistas, parafraseando Nietszche, a fim de defender seu trabalho.

Controverso, ousado, digressor, admirado, odiado, por vezes repudiado, apresentava um trabalho inegavelmente original. Muitas vezes chocante, é verdade, mas indubitavelmente único. Agressivo, de gosto duvidoso, repugnante, sem noção, sem limite, eram apenas algumas das muitas definições e adjetivos utilizados mundo afora por onde suas obras eram instaladas em galerias, mostras, exposições e bienais, dividindo opiniões e gerando manifestações de toda a ordem.

Uma sala com um centena de baldes com fetos humanos mortos, um pele esticada de um homem esfolado servindo como tela na parede, uma instalação com urubus vivos comendo carniça de porcos, pessoas comendo e vomitando o tempo inteiro dentro de uma jaula são apenas alguns exemplos das bizarrices proporcionadas por aquele que era considerado por muitos o maior artista vivo. É lógico que obras como essas eram incansavelmente combatidas por ONG's, Igreja, Direitos Humanos, Direitos do Animais, que muitas vezes ganhavam as brigas e impediam a exposição de acontecer ou sequer desembarcar numa cidade, mas muitas vezes tinham que engolir e aceitar que aquelas obras grotescas fossem expostas, nestes casos, gerando manifestações, passeatas, cartazes, pixações e depredações públicas.

Foi o que aconteceu daquela vez. A exposição seria realizada. Já havia garantias do departamento de Cultura, da prefeitura, o museu havia ganho na Justiça o direito de mostrá-la alegando que a não apresentação de qualquer uma daquelas obras feriria a liberdade de expressão, seria censura, etc. Da parte do artista, desta vez abriria mão até mesmo de seus polpudos cachês, mas fazia questão de que não houvesse qualquer interferência em seu trabalho e que o mesmo ficasse oculto e inacessível até o dia da abertura da mostra. Até lá, apenas seus homens, seus montadores, carregadores e funcionários teriam acesso, por uma entrada exclusiva, à sala onde a instalação seria montada. Era difícil aceitar algo assim, ainda mais sabendo-se do histórico de obras polêmicas, mas como tratava-se de um gênio diferenciado, não poderiam ficar barganhando e correr o risco de perder a oportunidade de ter um nome como aquele expondo na sua cidade. Seria um evento único e irrepetível.

Assim, homens de macacão recebiam caminhões, entravam com caixas enormes e paineis de vidro por um acesso alternativo do prédio, modo que ninguém tivesse contato com aqueles materiais, enquanto lá dentro, outros montavam aquela misteriosa 'obra-de-arte'.

Perguntado uns dias antes por jornalistas sobre o que o público poderia esperar, o criador, misterioso, limitou-se a dizer que seria uma obra mutável, de transformação. Que haveria, sim, um momento crucial logo na abertura do evento, mas que a obra continuaria acontecendo até quando os organizadores achassem que devesse durar ali dentro da galeria, mas que certamente continuaria em curso de qualquer modo. Os repórteres tentaram maiores explicações, mas como todo o artista, excêntrico, retirou-se sem maiores informações.

Assim, ansiosos por presenciar o momento crucial da anunciada transformação da obra, um dia antes da exposição filas formavam-se pra ver o que aquele suposto gênio havia preparado daquela vez. Infelizmente para muitos a sala onde sua instalação fora montada tinha sua limitação física e apenas algo em torno de cem pessoas puderam entrar num primeiro momento, os que seriam,  por assim dizer os  privilegiados.

As portas do Centro Cultural abriram-se às 10 da manhã e aquela centena de contemplados correu para a sala onde o artistas preparara sua obra. Ignorando as outras esculturas, telas, fotografias nos salões vizinhos artistas valorosos e renomados, apressavam-se para chegar ao salão 3-sul. Chegando lá, depararam-se com algo surpreendentemente simples para toda aquele alarde: que via-se era apenas uma grande caixa de vidro, de mais ou menos 25 metros quadrados. Esta era a grande obra? Não exatamente. Deve-se dizer que aqueles painéis eram de vidro blindado, inquebrável, que foram fechados no local, lacrados hermeticamente e que entre suas paredes estava, nada mais nada menos do que nosso artista, nu com uma pistola calibre 22 na mão. A pequena multidão se dividia entre sensações de admiração, decepção, pânico, expectativa e curiosidade. "Pelado, que ridículo". "Quer se mostrar, o palhaço". "E aquela arma na mão?". "Será que a arma é de verdade?". "Iria ele...?"."Não, ele não faria isso". "Não chegaria a tal ponto". "Não levaria sua ARTE a tal limite.."

Foi quando às 10 horas e 08 minutos se ouviu o disparo. Pedaços do cérebro voaram grudando-se ao vidro. Alguns só gritavam, outros se acotovelavam tentando sair dali, outros riam, outros choravam, outros tiravam fotos, outros desmaiavam  alguns aplaudiam.

A polícia, a retirada do público, a imprensa, o isolamento da área, os bombeiros tentando arrombar a caixa, a retirada do corpo depois de horas de trabalho, o fechamento do Centro Cultural, a repercussão pública, as consequências, tudo aquilo apenas complementava a obra que havia-se iniciado com aquele tiro, ou melhor, havia-se iniciado quando o viram nu dentro de um cubo transparente. Tudo correu conforme a intenção original concebida pelo artista.

Aquela havia sido e seria por muito tempo, sem dúvida, a maior obra de arte de todos os tempos.


Cly Reis


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

domingo, 27 de janeiro de 2013

Férias na Serra Gaúcha




O Rio Guaíba e Porto Alegre ao fundo
(foto: Iris Borges)
Férias!!! Ah!!!
Foi bom mas acabou.
Férias desse ano que foram bem legais em especial pelo fato de terem sido desfrutadas na minha terra natal, o Rio Grande do Sul, porém numa região onde nunca havia dedicado muito tempo, a Região Serrana.
Depois de uma breve passadinha pela capital, Porto Alegre, minha cidade de origem, revendo parentes e curtindo os amigos, nos deslocamos para Gramado, onde fizemos base, e nos movimentamos dali pela região, pulando para Canela ali ao ladinho, passando às vezes por Nova Petrópolis, indo até Bento Gonçalves, um pouco mais distante e estendendo o passeio por Garibaldi e Carlos Barbosa de trem.
Embora já conhecesse Gramado e Canela, como disse, nunca havia dedicado mais que um dia para apreciar seus encantos e curtir suas atrações, só que desta vez tive dez dias para isso e aí foi outra coisa. Já Bento foi inédito para mim e certamente mereçerá uma nova visita, principalmente para uma conferida nas áreas mais afastadas e nas vinícolas locais, assim como Garibaldi e Carlos Barbosa, que vimos quase que só de passagem.
O charme de Gramado, as belezas naturais de Canela, a marca da colonização italiana em Bento Gonçalves e arredores, tudo isso desfrutando daquela saborosíssima gastronomia local e dos mais deliciosos vinhos... ah, as férias já estão deixando saudades.
Por enquanto vão algumas fotinhos apenas mas depois, logo em seguida, dedicarei postagens específicas sobre cada um dos locais.
É, agora é voltar ao trabalho...


Com o irmão, Daniel e os primos, Lê e Lúcio
da antiga, aliás, eterna banda
(foto: Leocádia Costa)
Passeio no Brick da Redenção com os amigos
Iris e Christian
(foto: Leocádia Costa)
Entrando em Gramado
O impressionante Mini-Mundo em Gramado
Na Rua Coberta em Gramado
Hmmmm!!! Um Café Colonial.
Com o Rei no Dreamland,
o museu de Cêra de Gramado.
No Hollywood Dream Cars em Gramado.
Lago Negro, Gramado.
A belíssima Cascata do Caracol,
em Canela
Centro de Canela, com a Catedral de Pedra,
ao fundo
No Mundo a Vapor, em Canela
O parque temático Floribal,
em Canela
Com o Predador no
Parque Floribal
Visitando uma vinícola lá
no interiorzão de Canela
Degustando uma cachacinha num alambique
em Canela
Passeio de Maria-Fumaça de Bento Goçalves
até Carlos Barbosa.
Me acabando no vinho.
Numa cantina italiana.
Maravilhosa gastronomia serrana.


C.R.

sábado, 26 de janeiro de 2013

"1001 Músicas para Ouvir Antes de Morrer", de Robet Dimery - ed. Sextante (2012)



Ganhei no último Natal e venho devorando desde então, aos poucos, parcimoniosamente e deliciosamente o livro "1001 Músicas para Ouvir Antes de Morrer", do jornalista Robert Dimery. Depois de ter adotado o "1001 Discos..." do mesmo autor, como minha bíblia pessoal, assim que soube da existência desta nova publicação tratei de recomendar pra quem me perguntou o que gostaria de ganhar na festa natalina. Felizmente ganhei.
Não precisaria nem dizer que é um barato, extremamente gostoso ir descobrindo músicas desconhecidas que aguçam  a curiosidade de ouvi-las, lembrando de outras, percebendo virtudes em algumas que nunca tinha pensado, aprendendo curiosidades sobre as composições, histórias e tal, concordando com a indicação e avaliação do autor, ou achando absurdo algumas estarem ali. Ah, mas tem muitas pela frente. Ainda estou na parte dos anos 50 e o livro traz até canções lançadas ainda no seu ano de lançamento, 2012. Ufff! Falta muito.
Mas certamente será um prazer. Sem falar no quanto me enriquecerá de subsídios para os ÁLBUNS FUNDAMENTAIS. Ih, agora sim, ninguém me segura.



Cly Reis

Danzig - "Danzig II - Lucifuge" (1990)



“Vós tendes por pai o Diabo,
e quereis satisfazer os desejos de vosso pai”
citação do livro de João, da Bíblia,
no encarte da edição original do álbum



Dia desses estava eu numa loja de CD’s comprando uma camiseta do Johnny Cash, e como não raro acontece, o som que tocava na loja me chamou a atenção. Um metal semi-acústico alicerçado no blues, interpretado com ênfase, paixão e vigor. Interessantíssimo aquilo! Fui até o balconista e perguntei do que se tratava, ao que ele me respondeu que era Danzig. Ora, já havia ouvido falar da banda mas nunca efetivamente havia escutado. A surpresa foi agradabilíssima. Perguntei o nome da música. Aquela chamava-se “I’m the One”. Estusiasmante, extasiante! Ao melhor estilo dos blueseiros da antiga mas cantado com a força do metal.

Procurei saber de onde era aquela música e a mesma fazia parte do álbum chamado “Lucifuge” que, já na primeira audição, ratificando a boa impressão inicial apresentava-se como um maravilhoso exemplar de uma espécie de blues-metal bastante original na sua concepção, execução e interpretação.

Embora utilizando-se, sim, de instrumentos elétricos, de peso e vocais impetuosos, A produção caprichada do ótimo Rick Rubin (de "BloodSugarSexMagik" dos Chilli Peppers e a série "American" de Johnny Cash , por exemplo) estreita de maneira admirável as correntes do metal com as características mais primárias do bom e velho blues tradicional dos grandes mestres, isso sem falar nas temáticas, é claro, sinistras, cheias de lendas e demônios comuns a ambos os estilos.

Além da já citada “I’m the One”, minha favorita, destaque especial também para a primeira “Long Way Back from Hell” um metal galopante, potente, forte e vigoroso; para a balada “Blood and Tears”; para o ótimo blues-metal apocalíptico "777";  e para a excelente “Killer Wolf”, referência ao lendário blueseiro Howlin’ Wolf, pelo título e pela interpretação. No restante, todas são boas canções mas, se pode-se apontar um defeito é que, talvez uniformes demais, algumas acabem soando muito parecidas com as outras. Mas nada que desdoure ou invalide todos os méritos deste ótimo trabalho.

Só algum tempo depois de conhecer o Danzig foi que descobri que o líder, vocalista, idealizador, Glen Danzig era o vocalista do extinto Misfits, que para falar a verdade, nunca me agradou muito. Já o Danzig, bastou um pouquinho daquele blues diferente, envenenado, sujo, satânico pra me pegar pelos ouvidos.
*********************************

FAIXAS:
  1. "Long Way Back from Hell" - 4:27
  2. "Snakes of Christ" - 3:59
  3. "Killer Wolf" - 4:14
  4. "Tired of Being Alive" - 4:03
  5. "I'm the One" - 4:09
  6. "Her Black Wings" - 4:47
  7. "Devil's Plaything" - 3:58
  8. "777" - 5:40
  9. "Blood and Tears" - 4:20
  10. "Girl" - 4:18
  11. "Pain in the World" - 5:46
***********************************
Ouça:
Danzig II Lucifuge



Cly Reis