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quinta-feira, 28 de junho de 2012

cotidianas #167 - A Nobre Arte



Annie, Annie, eu não vou te decepcionar. Eu não vou.
Ai, como dói minha cabeça.
Eu não vou te decepcionar, Annie.
Eu ainda sou bom. Eu sei que sou.
Não sou mais tão rápido, minhas pernas pesam.
E essa gente toda, eles acreditam que eu posso.
Apostaram em mim.
Eu preciso desse dinheiro.
Minha cabeça dói.
Mal consigo enxergar.
Eu acho que eu não agüento mais.
Desculpa, Annie.
Já não sou mais o mesmo.
Eu era bom. Eu fui dos melhores.
(Já não sou mais um garoto)
 “Se movimenta, se movimenta. Não fica no mesmo lugar que fica fácil pra ele. E levanta essa guarda...”
O que?
Que que esse cara tá falando? Ah,... o treinador.
O gongo.
Não me deixa, Annie. Não me deixa.
Mas o cara é mais jovem. Tem tanto pela frente. E eu...
“Vai lá, vai lá. Acaba com ele, campeão."
Cuspo no balde.
Levanto.
Se eu ganhar essa tudo vai voltar a ser como antes. Tudo vai ficar bem.
Eu sou o campeão. Eu sou o campeão.
Mais um round.


Cly Reis

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Siouxsie and the Banshees - "Juju" (1981)







" 'Juju' foi a primeira vez que tínhamos feito, 
por assim dizer,
'um álbum conceitual'.
Um disco que se baseou
em elementos mais escuros." 

Steven Severin

Gosto muito deste disco por ser ele um trabalho de transição. A passagem definitiva daquele grupo caracteristicamente punk do final dos anos 70, para uma linha mais gótica de estilo sombrio, de atmosferas obscuras, bem típico daquele início dos anos 80.
“Juju” de 1981, tem um pouco dos dois: o peso do punk rock e o clima do darkismo oitentista. Conheci o disco por intermédio da minha amiga Tânia Becker que gravou um fita cassete pra mim com o álbum na época que eu era duro demais pra comprar os LP’s. Como naquela época eu não conhecia este trabalho especificamente da discografia d banda, fiquei um tanto surpreso exatamente com isso que chamei atenção: como aquele disco era pesado, como era guitarrado, distorcido, e no entanto era completamente Siouxsie and the Banshees. Grande parte dessa ‘barulheira’ se deve é claro à guitarra marcante de John McGoech (ex-Magazine) que, se nunca foi um grande guitarrista (e não foi) sempre foi competente e inegavelmente tinha seu traço instrumental pessoal muito marcante com suas guitarras rascantes e supersonicas. Em “Juju” a banda ganhava outro acréscimo de qualidade que era toda qualidade e a técnica do baterista Budgie, que havia na verdade entrado no álbum anterior, “Kaleidoscope”, mas talvez por causa do direcionamento bastante eletrônico daquele álbum, não tivesse podido tirar o melhor de si, o que começaria, efetivamente, a acontecer em “Juju” e só melhoraria dali para a frente. Steven Severin não precisa nem falar: é de uma precisão e segurança impressionantes. Um relógio; e a Rainha das Trevas hipnotiza com seu vocal enfeitiçante, sedutor e assustador por vezes, indo da loucura à magia, do desespero ao transe em questão de segundos.
Canções como a vibrante “Spellbound” que abre o disco; a frenética “Haloween” e a distorcidíssima e “Monitor” com sua guitarra incontrolável, não negam que a veia punk continua lá firme; por outro lado a arrastada “Night Shift” e sobremaneira a macabra “Voodoo Dolly”, um show à parte de Sioux, não desmentem o caminho soturno que a banda seguiria mais enfaticamente a partir de então.
“Arabian Nights” de baixo bem desenhado e percussão marcante; “Into the Light” de estrutura toda quebrada; “Head Cut” com destaque novamente para a guitarra de McGoech; e a crescente “Sin in My Heart”, ficam num meio termo entre a sutileza e a brutalidade, entre as trevas e a luz, entre o agressivo e o belo, e igualmente merecem menção com entusiasmo.
Fiz uma pequena enquete entre amigos que como eu curtem Siouxsie and the Banshees, não exatamente para decidir que álbum destacaria aqui na seção, mas mais para ter uma noção do preferido dos fãs. De um modo geral, manifestou-se uma certa preferência pelo “Hyaena” de 1984, o que me surpreendeu um pouco, considerando que é um disco que, por certo, aprecio bastante mas que não destacaria a tal ponto. Embora seja uma discografia difícil de destacar qualquer álbum dada a regularidade dos trabalhos da banda, na verdade já estava decidido que para mim “Juju” seria o  ÁLBUM FUNDAMENTAL  da vez.
Mas nada impede que o “Hyaena” ou qualquer outro apareça por aqui uma hora dessas.
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FAIXAS:
  1. "Spellbound"
  2. "Into the Light"
  3. "Arabian Knights"
  4. "Halloween"
  5. "Monitor"
  6. "Night Shift"
  7. "Sin in My Heart"
  8. "Head Cut"
  9. "Voodoo Dolly"
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Ouça:

por Cly Reis
para Tânia Becker

Guitarman





"Guitarman", Reis, Cly (2007)
óleo sobre tela (60x30cm)

domingo, 24 de junho de 2012

cotidianas #166 - "Noite de São João"


"Festa de São João" - Portinari, Cândido
(óleo sobre tela) 1958
Era noite de São João
E eu saia com meu irmão
De bigode de rolha
E chapéu novo em folha
Brim Coringa e alpargata

Toda noite de São João
Eu sonhava em pegar da mão
De uma prenda bonita
De vestido de chita
E Maria Chiquinha

Soltando foguete (tchê)
Pulando fogueira (há)
Era noite de São João

Toda noite de São João
A quermesse era um festão
Bandeirinhas no arame
De papel celofane
Pau de sebo e de fita

Era noite de São João
E depois de comer pinhão
Vinha pé-de-moleque
Puxa-puxa e um pileque
De caninha ou de quentão

Soltando foguete (tchê)
Pulando fogueira (há)
Era noite de São João

Era noite de São João
Cordeona com violão
Esquentavam as moça
E eu nesse bate-coxa
Não podia me segurar

Toda noite de São João
Eu voava que nem balão
Namorava as estrelas
Que são primas terceiras
E afilhadas de São João

Soltando foguete (tchê)
Pulando fogueira (há)
Era noite de São João


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letra de "Noite de São João"
(Kleiton e Kledir)

Ouça:
Kleiton e Kledir - "Noite de São João"

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Lou Reed - "Transformer" (1972)




“Mas se essas calçadas [de Nova Iorque] parecerem um pouco mais familiares agora, é porque Lou mostrou-nos tudo ao redor delas há muito tempo atrás, dando rostos humanos a todos os habitantes das trevas.”
Michael Hill,
jornalista,
no texto do encarte da
reedição de 30 anos do álbum


“Transformer” é de certa forma um álbum escuro, um álbum sombrio, que mostra o lado B do mundo, das pessoas , das ruas. As drogas, a prostituição, as perversões, a solidão, de certo modo permeiam todo o desenvolvimento desta obra do ex-Velvet Underground, Lou Reed. Produzido por David Bowie e por Mick Ronson, “Transfromer”, de 1972, é um dos exemplares mais significativos das constantes contribuições entre Bowie e outros artistas, sobremaneira, das que se seguiriam, na chamada ‘fase berlinense’, com Brian Eno e Iggy Pop.
A clássica “Walk on the WildSide” com seu baixo insinuante, seu clima cool e seu charmoso trumpete, exprime perfeitamente todo esse universo com putas de esquina, cafetões agressivos, garotos vendendo drogas e mentes desajustadas. Outras complementam o conceito underground como a ótima e um tanto sadomasoquista, “Vicious” de fraseado marcante de guitarra; a embalada e gostosa “Hangin’ Round”, uma trilha para vidas confusas; e a transformação de uma garota para a ‘noite de trabalho’ em “Make Up”.
Na teatral “New York Telephone Conversation”, Reed praticamente recita a letra sob um acompanhamento de piano numa exposição sobre a cidade e seus habitantes como um todo; a adorável “Satellite of Love” é um pouco mais iluminada com seu belo coro feminino do final; “Wagon Wheel” é o típico rock loureediano, básico e objetivo ao passo que “I’m So Free” tem a cara do produtor, Bowie; “Goonight Ladies” com sua tuba engraçada é um perfeita despedida para aquelas damas da noite que Reed refere-se o tempo inteiro e um final perfeito para o disco, no fim das contas.
Mas em contraste com toda o clima pesado do temas, do disco, dos tipos, das vidas, das amarguras, minha principal lembrança deste disco sempre remete a um dia de sol em que estava em  Veneza  e entrei em uma loja de vidros de Murano e a atendente, uma bela jovem loura, ouvia música em um pequeno discman. Logo percebi que era Lou Reed mas por um momento não identifiquei a música, até que me veio. Próximo ao balcão como estava, comentei simplesmente, “’Perfect Day’...”, ao que a balconista sorriu e respondeu em inglês “É, você gosta?”. “Adoro”, respondi. É do álbum...” - interrompi tentando sinceramente buscar na memória a informação que naquele momento me falhava - “...’Transformer’”, completei lembrando finalmente, ao que ela confirmou novamente em inglês “yeah!”, seguido por outro gracioso sorriso.
Não continuei nenhuma conversa, acho que não quis sacrificá-la com meu inglês sofrível e sequer me aventurei no italiano. Compramos algumas coisas, saímos do loja e nos metemos afora pelas vielas de Veneza novamente. Era um belo dia de sol, um  belo dia para se andar em  Veneza .
Um dia perfeito.

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FAIXAS:

1- Vicious
2- Andy's Chest
3- Perfect Day
4- Hangin' 'Round
5- Walk on the Wild Side
6- Make Up
7- Satellite of Love
8- Wagon Wheel
9- New York Telephone Conversation
10- I'm So Free
11- Goodnight Ladies

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Ouça:

terça-feira, 19 de junho de 2012

cotidianas #165 - "Disneylândia"



Filho de imigrantes russos casado na Argentina
Com uma pintora judia,
Casou-se pela segunda vez
Com uma princesa africana no México

Música hindú contrabandiada por ciganos poloneses faz sucesso
No interior da Bolívia zebras africanas
E cangurus australianos no zoológico de Londres.
Múmias egípcias e artefatos íncas no museu de Nova York

Lanternas japonesas e chicletes americanos
Nos bazares coreanos de São Paulo.
Imagens de um vulcão nas Filipinas
Passam na rede dc televisão em Moçambique

Armênios naturalizados no Chile
Procuram familiares na Etiópia,
Casas pré-fabricadas canadenses
Feitas com madeira colombiana
Multinacionais japonesas
Instalam empresas em Hong-Kong
E produzem com matéria prima brasileira
Para competir no mercado americano

Literatura grega adaptada
Para crianças chinesas da comunidade européia.
Relógios suiços falsificados no Paraguay
Vendidos por camelôs no bairro mexicano de Los Angeles.
Turista francesa fotografada semi-nua com o namorado árabe
Na baixada fluminense

Filmes italianos dublados em inglês
Com legendas em espanhol nos cinemas da Turquia
Pilhas americanas alimentam eletrodomésticos ingleses na Nova Guiné

Gasolina árabe alimenta automóveis americanos na África do Sul.
Pizza italiana alimenta italianos na Itália

Crianças iraquianas fugidas da guerra
Não obtém visto no consulado americano do Egito
Para entrarem na Disneylândia


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letra da música "Disneylândia"
(Titãs)

Ouça:
Titãs Disneylândia

O Frango Atirador


domingo, 17 de junho de 2012

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Radiohead - "OK Computer" (1997)







“Escuta, não fica aí de cara feia porque o nome da sua banda é roubado de uma música minha.”
contando sobre quando participara de um amistoso entre amigos do Zidane e amigos do Figo, em Lisboa, e o técnico Luís Felipe Scolari o escalara de titular deixando o baterista do Radiohead no banco. Chico referia-se então ao fato de que David Byrne, quando do lançamento de"A Opera do Malandro" ouvira a expressão 'Rádio Cabeça' na música "O Último Blues" de Chico e inspirara-se nela para dar nome a uma canção do disco "True Stories" dos Talking Heads ("Radio Head"), que por sua vez, originou o nome da banda Radiohead.


Durante muito tempo alimentei uma certa implicância com o Radiohead. Acho que muito em função de uma discussão que tive com uma irmã de uma amiga minha, fã dos caras, que  desfazia do The Cure, que ouvíamos naquele momento, reduzindo sua qualidade e importância, ao passo que enaltecia exageradamente a turminha do sr. York. No fundo, no fundo a discussão descabida tratou-se na verdade de uma desinteligência de ambos: dela porque é inegável que o Radiohead nada mais é do que um fruto de bandas oitentistas pós-punk como o próprio Cure e outras tantas, tendo herdado deles inclusive a melancolia, as atmosferas, o pessimismo; e minha porque não há como negar que trata-se de uma das mais originais e criativas bandas dos últimos tempos e que, se se espelharam em alguma coisa do pessoal sombrio dos anos 80, o produto obtido pelo Radiohead a partir destas influências apresenta mais qualidade e técnica do que aqueles conseguiram outrora, mas o que não significa que seja melhor ou pior, uma vez que primor, originalidade e virtuosismo não garantem necessariamente superioridade qualitativa. E este é outro aspecto que me incomoda: o endeusamento da imprensa e do público ‘cabeça’. É como se nunca tivessem visto (ouvido) nada igual. Calma aí!!! É bom? É. É original? É. É criativo? Sim. Mas não é o último baluarte da genialidade musical e nem deve-se ajoelhar e dizer amém pra tudo que os caras fazem.
Em parte essa negação à reverência coletiva também me fez manter distância do Radiohead durante muito tempo. Mas não precisava ir nem tanto ao mar nem tanto à terra. Não precisava necessariamente concordar com todos os entusiastas mas podia muito bem admitir que têm, sim, trabalhos significativos. Vencendo essa barreira, há pouco tempo, depois de muita resistência, adquiri o que considero o melhor e mais significativo trabalho da banda, o álbum “OK Computer”, de 1997, coisa que já devia ter feito há muito tempo, uma vez que SEMPRE admirei muito o álbum, que no fim das contas é um dos melhores dos anos 90, um dos melhores dos últimos 20 anos e um dos grandes da história do rock.
“Ok Computer” , de 1997, é exatamente o momento em que o Radiohead resolve que não quer ser uma banda como qualquer outra, não fazer álbuns comuns, não se fixar num modelo musical básico, e a partir de então dá outro rumo ao seu som. Deixam de trabalhar com o que seria lógico, óbvio e, inquietos, partem para experimentações e possibilidades sonoras variadas e ousadas. Incrementam seu som de elementos eletrônicos, sem contudo fazer um disco especificamente neste estilo. Pelo contrário: não abre mão do caráter rock e alterna ruídos, efeitos, texturas, baterias eletrônicas com guitarras pesadas, distorções e levadas aceleradas.
Quanto às letras, os temas variam entre desespero, depressão, decepção, alienação, angústia, tragédias... De um modo geral, uma visão crítica e nada otimista do mundo que nos cerca, tudo sob a visão de um dos grandes letristas dos tempos atuais.
A ‘ode’ à tecnologia, “Airbag”, e sua bateria eletrônica alucinada; as guitarras de rompantes furiosos em “Paranoid Android” e praticamente flutuantes em “Subterranean Homesick Alien”; a intensidade dramática de “Karma Police” e sua ‘camada’ eletrônica do final; a melodia doce contrastando com a letra depressiva de “No Surprises”; e a energia pegada de “Electioneering” merecem meu destaque particular, embora também mereçam menções “Let Down”e sua cara bem noventista; a boa “Lucky” e a dorida “Exit Music (For a Film).
E no fim das contas minha antagonista e eu tínhamos razão, mas ao mesmo tempo nenhum dos dois tinha: não se pode desfazer de aristas dos quais o próprio Radiohead bebeu na fonte, mas eu também, por minha parte, não tenho o direito de negar que trata-se de uma das melhores e mais importantes bandas dos últimos tempos, e, especialmente, “OK Computer”, um disco excepcional. Um daqueles poucos que já nasceram clássicos.

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FAIXAS:
01. Airbag
02. Paranoid Android
03. Subterranean Homesick Alien
04. Exit Music (For A Film)
05. Let Down
06. Karma Police
07. Fitter Happier
08. Electioneering
09. Climbing Up The Wall
10. No Surprises
11. Lucky
12. The Tourist
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Ouvir:

terça-feira, 12 de junho de 2012

O Frango Atirador


O Frango Atirador


Pix


cotidianas #163 - Dia dos Namorados - "Casa-te"




"O Abraço"
Klimt, Gustav (1905)

O texto abaixo é de uma carta de um pretendente norte-americano do século XIX que publico aqui no blog neste Dia dos Namorados pelo fato de admirar toda a sinceridade, a entrega, e a pureza dos sentimentos da manifestação do pretendente, mesmo com a tamanha simploriedade com que o faz (talvez aí resida o maior mérito da declaração). Desejo a todos neste dia que tenham ou que possam encontrar alguém que um dia possa lhes dizer coisas desse tipo com tamanho sentimento,simplicidade e verdadeiro amor como este apaixonado fez à sua amada.
Um ótimo Dia dos Namorados a todos.


“Fico triste quando não te vejo. Casa-te, por que não? E vem viver comigo. Eu te farei tão feliz quanto possa. Não precisarás trabalhar muito; e quando estiveres cansada, poderás recostar em meu colo e eu cantarei para que descanses. Tocarei para ti uma melodia ao violino quantas vezes me pedires e tão bem quanto possa; e largarei de fumar, se o quiseres... Creio que eu sempre  seria muito bom para ti, porque te amo muito. Não te farei trazer água e madeira, nem alimentar o porco, nem ordenhar a vaca, nem ir aos vizinhos pedir leite emprestado. Queres te casar?"

Pix


Salomé de Wilde









"Salomé de Wilde"
óleo sobre tela - 150 x70cm



Reis, Cly

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Cocteau Twins - "Treasure" (1984)





“A voz de Deus”
como a imprensa britânica,
entusiasticamente apelidou
Liz Fraser quando do aparecimento da banda



 Tal qual um raio de sol iluminando o dia é como surge A Voz de Deus na canção que abre o terceiro álbum dos escoceses do Cocteu Twins, quando pela primeira vez conseguem extrair o melhor de sua potencialidade melódica, lírica e estética. Não que os trabalhos anteriores fossem ruins, mas a mecanicidade das programações de bateria, especialmente no primeiro trabalho, “Garlands” e a rigidez dos vocais da vocalista Elizabeth Fraser na época, quando a banda podia até mesmo ser enquadrada na cena dark tal a densidade e obscuridade das musicas, desperdiçava exatamente o que a banda tinha de melhor e comprovaria futuramente, que era a melodiosidade instrumental e o potencial lírico de sua vocalista.
Em “Head Over Heels”, segundo álbum o caminho começava a ser encontrado, as programações ainda estavam lá e ainda soavam frias, os climas ainda eram sombrios, mas já se notava uma evolução compositiva significativa e sobremaneira uma maior leveza na condução da vocalista, de evidente capacidade até então subexplorada. Mas era então em “Treasure”, de 1984, que o milagre acontecia e aquela abertura de álbum, com a voz semi-soprano de Liz Fraser surgindo doce e frágil, como que levantando do horizonte, anunciava que os Cocteau Twins encontravam o caminho que seguiriam dali para frente com cada vez maior apuro e perfeição técnica, desenvolvendo como nenhuma outra banda uma música de climas etéreos, incorpóreos, imateriais.
Com uma bela levada de violão à espanhola , “Ivo” tem uma interpretação envolvente e apaixonada de Fraser, fazendo nos refrões algo parecido com pequenos e graciosos soluços. “Lorelei” que a segue é alegre, fresca, cheia de sinos e pirilampos, enfeitando suas variações e brincadeiras vocais. Num clima todo clerical, “Beatrix”, com seus teclados sacros sobre uma notável linha de baixo de Simon Raymonde, traz a voz de Liz Fraser no máximo de seu potencial operístico, nesta que é uma das canções mais arrepiantes do disco.
Num álbum cujas canções levam títulos que remetem a seres fantásticos, lendas celtas ou personagens mitológicos, “Persephone” (a deusa dos mundos inferiores na mitologia grega) é uma pequena viagem ao inferno, lembrando muito a sonoridade do primeiro disco, “Garlands”, com programação de bateria dura, forte, pesada, marcada, indesmentivelmente eletrônica, mas aqui claramente com uma intenção formal mais consolidada. Montando uma atmosfera toda sombria e claustrofóbica, somados à batida fria, a guitarra de Robin Guthrie aparece mais ruidosa que nunca, o baixo de Raymonde cria uma espécie de camada sonora e Liz Fraser canta desesperada e angustiadamente, no limite entre o belo e o trágico.
“Pandora”, a outra deusa grega do disco, ao contrário da anterior, é como uma brisa amena, como uma fonte de água cristalina, como uma chuva de verão, tal a leveza da guitarra de Guthrie e a beleza dos vocais sobrepostos, ecoados e misturados de Fraser, cantando versos ininteligíveis, palavras inexistentes ou meras vocalizações de sonoridade interessante.
Num fado valseado que caracterizaria bem o som da banda dali para a frente, “Amelia”, apaixonante, traz mais uma interpretação de tirar o fôlego de Miss Fraser, cantarolando sem letra e explorando toda sua capacidade praticamente de cantora clássica.
“Cicely” é mais crua, com a bateria eletrônica soando dura; “Aloysius” tem uma bela melodia de escala decrescente de guitarra; e a nebulosa “Otterley” é praticamente sussurrada sobre leves dedilhados de violão, antecipando a sonoridade que seria tônica no trabalho seguinte, “Victorialand”.
“Donimo” anuncia o final do com a voz de Liz emergindo com uma doçura incrível, depois florescendo em sons até atingir um êxtase de emoção num final mais que digno para um disco como este.
Embora a banda não morra de amores pelo álbum, penso que a partir dele é que o trio escocês escreveu seu nome na história do rock com uma linguagem absolutamente singular. Muitos trabalham essa linha etérea, muitos a linha pop-lírico, alguns se parecem, alguns tantos como Lush, Bat for Lashes, St. Vincent, The Moon Seven Times, surgiram por causa deles; mas nenhum deles conseguiu colocar todos os ingredientes de melancolia, beleza, dramaticidade, paixão, dor, magia, juntos com tamanha perfeição como os Cocteau Twins. E isso, aliado à unidade sonora que conseguem, a essa assinatura inconfundível que criaram no universo pop, somando-se à voz de qualidades únicas e incomparáveis de Liz Fraser, garante a eles seu lugar de respeito no mundo da música e o de “Treasure” entre os FUNDAMENTAIS.

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FAIXAS:
  1. "Ivo" – 3:53
  2. "Lorelei" – 3:43
  3. "Beatrix" – 3:11
  4. "Persephone" – 4:20
  5. "Pandora (for Cindy)" – 5:35
  6. "Amelia" – 3:31
  7. "Aloysius" – 3:26
  8. "Cicely" – 3:29
  9. "Otterley" – 4:04
  10. "Donimo" – 6:19
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Ouça:


quarta-feira, 6 de junho de 2012

The Doors - "Strange Days" (1967)





“Os dias estranhos nos encontraram
E por suas horas estranhas
Ficamos sozinhos à espera.”
da letra de “Strange Days”



E pensar que eu não gostava de  Doors ...
Minha principal restrição é que achava a música dos caras com muita ênfase nos teclados. Coisa de recém iniciado. Não percebia todo o blues, a influência de ritmos latinos (rumba, tango, bolero), o legado que deixaram, a atitude, a rebeldia, sem falar nas letras chapadas e chapantes de Jim Morrisson. O que poso dizer hoje do the Doors é que simplesmente têm algumas das canções de rock mais empolgantes que eu já ouvi na vida, e continuo ouvindo sempre com renovado entusiasmo.
Já destaquei aqui o primeiro álbum , de mesmo nome da banda, de 1967, e agora os  ÁLBUNS FUNDAMENTAIS  vão com seu sucessor, “Strange Days”, do mesmo ano, e, inclusive, com muito material que fora descartado do primeiro trabalho, fazendo deste praticamente uma seqüência.
A faixa que dá nome ao disco de melodia sensual e letra pessimista, “Strange Days”; a charmosissíma, “People Are Strange” com sua sinceridade cáustica; a psicodélica “You’re Lost Little Girl” que mais tarde receberia uma versão muito interessante de Siouxsie e sua turma; são algumas das melhores do álbum. Além delas, a excitante “Love Me Two Times”, carregada no blues, é das coisas mais fantásticas do grupo e daquelas que sempre me enlouquecem quando ouço; e “When the Music Is Over”, a exemplo de “The End” no primeiro disco, é um final marcante numa longa peça musical dramático-poética como só os Doors sabiam fazer.
Dias estranhos aqueles em que eu não gostava de  Doors .

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FAIXAS:
  1. "Strange Days" - 3:09
  2. "You're Lost Little Girl" - 3:03
  3. "Love Me Two Times" (Robby Krieger)– 3:16
  4. "Unhappy Girl" – 2:00
  5. "Horse Latitudes" – 1:35
  6. "Moonlight Drive" (Jim Morrison) – 3:04
  7. "People Are Strange" – 2:12
  8. "My Eyes Have Seen You" – 2:29
  9. "I Can't See Your Face In My Mind" – 3:26
  10. "When the Music's Over" – 10:59
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Ouça:

terça-feira, 5 de junho de 2012

cotidianas #162 - HÍFEN



hífen-se
vocês
boas-vidas
mal-educados
joões-ninguém

hífen-se todos
ofendam-se
se quiserem
fodam-se
chaves-de–fenda
olhos–do-cu

Admirem-se vocês
super-homens
supermães
superprotetoras
e bons samaritanos

malmequeres
amores-perfeitos
cor-de-rosa
lixem-se
danem-se vós

hifenize-se
exorcizem-se

agora, imagine-se
obra-prima
manjar-dos-deuses
abelha-rainha
(pensa só)

dir-te-ei, então
dir-te-ei:

comigo-ninguém-pode!



Cly Reis

segunda-feira, 4 de junho de 2012

sábado, 2 de junho de 2012

LEONILSON



"Empregada de Novela e
mais chique que Madame" 1991
escritos de Leonílson -
agendas, cadernos, anotações.
O caminho para as ideias
A mostra do artista Leonilson, não por um acaso, está localizada em um dos principais e mais acolhedores espaços da cidade. Lugar este onde a arquitetura convida o visitante a entrar literalmente em uma experiência artística: a Fundação Iberê Camargo. A curadoria é de Ricardo Resende, diretor geral do Centro Cultural São Paulo e consultor do Projeto Leonilson, e de Bitu Cassundé, crítico de arte e curador. Quem quiser conferir, a mostra vai até este domingo, 3 de junho.
Leonilson é um daqueles artistas que dificultam a catalogação, o enquadramento de estilo e como na maioria dos casos, é pouco conhecido em toda a sua extensão de artista contemporâneo. Cearense, nasceu em 1957, José Leonilson Bezerra Dias. Mudou-se para São Paulo com a família ainda criança e aos 20 anos, ingressou na Licenciatura em Educação Artística, na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), tornando-se aluno de artistas como Nelson Leirner, Júlio Plaza e Regina Silveira. Em 1980, ele realizou sua primeira exposição individual, no Museu de Arte Moderna da Bahia, e desde então produziu intensamente até o ano de seu falecimento, em 1993.
A mostra em cartaz reúne mais de 350 obras, dando ao espectador um amplo panorama da produção do artista. A seleção abrange desde o início da carreira, na década de 1970, até o período final de produção, no início dos anos noventa. Entre os destaques da exposição estarão as agendas e os cadernos que mostram um pouco mais sobre o seu processo artístico, além de revelar a fixação que ele tinha pelo registro do desenvolvimento das suas idéias.
"Isso e a Lua
(Not the Last Chance)" 1989
Fazem parte também de 'Sob o peso dos meus amores' as ilustrações que o artista realizou para uma coluna do jornal Folha de São Paulo, entre 1991 e 1993. Também estarão reunidos trabalhos de amigos artistas como Leda Catunda, Sérgio Romagnolo, Daniel Senise, Luiz Zerbini e Albert Hien. Foi com este último que Leonilson estabeleceu uma parceria e amizade duradoura, que seguiria até o fim da vida. A instalação How to rebuild at least one eighth part of the world [Como reconstruir ao menos uma oitava parte do mundo], de 1986, que abre a exposição na Fundação Iberê Camargo, foi realizada com a parceria de Hien. A obra foi fruto do questionamento sobre o acidente nuclear de Chernobyl, materializando na instalação uma utopia de salvação do planeta.





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Fundação Iberê Camargo - (Av. Padre Cacique, 2000 - Porto Alegre) 
Exposição - Sob o peso dos meus amores
Artista - Leonilson
Período da mostra: até 03 de junho
Curadoria: Ricardo Resende e Bitu Cassundé




sexta-feira, 1 de junho de 2012

Echo and the Bunnymen - "Crocodiles" (1980)


"você quer saber o que há
de errado com este mundo?"
(do texto do encarte do álbum)



Que baita disco!
Daqueles excelentes da primeira à última.
Gravado ainda sob a sombra do punk, “Crocodiles” do Echo and the Bunnymen, tinha o vigor e a energia do estilo vigente naquele final de anos 70, mas já antecipava tendências do som dos 80, do pós-punk e do gótico.
“Going Up”, a canção que abre “Crocodiles’ não podia ser um exemplo melhor, com sua primeira parte pegada, crua, guitarrada, e seu trecho final arrastado, soturno, sombrio. Já “Stars are Stars” fica num bom meio termo entre as sonoridades e “Rescue”, de riff marcante, vocal preciso e refrão fácil é mais cadenciada já sinalizando para uma linha que a banda seguiria dali para a frente; “Villiers Terrace”, agressiva à sua maneira, tem sonoridade forte suavizada por um piano que lhe confere um certo charme; e “Pictures on my Wall’, com seu climão meio western, já remete mais à melancolia dark oitentista.
Mas se o assunto é pegada punk, “Pride”, que chega a ser suja e gritada, não desonra a classe; e “All That Jazz” com seu furioso ‘refrão instrumental’ é uma das melhores do disco. Já “Monkeys”, um pop-rock cuja crueza fica um pouco disfarçada pela produção cuidadosa, funciona de forma fundamental como gancho de entrada para “Crocodiles”, um punk-rock furioso, agressivo, cheio de energia, daqueles de convidar para a roda de ‘pogo’.
O disco fecha com a fantasmagórica “Happy the Man”, canção lúgubre e obscura que acaba com o já mencionado trecho final de “Going Up”, igualmente sorumbático e sombrio, de certa forma terminando o disco por onde começou.
Impecável no começo, impecável no fim. Ou seja, álbum perfeito do começo ao fim.
Baita disco!
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FAIXAS:
  1. "Going Up" – 3:57
  2. "Stars Are Stars" – 2:45
  3. "Pride" – 2:41
  4. "Monkeys" – 2:49
  5. "Crocodiles" – 2:38
  6. "Rescue" – 4:26
  7. "Villiers Terrace" – 2:44
  8. "Pictures on My Wall" (Sergeant, McCulloch, Pattinson) – 2:52
  9. "All That Jazz" – 2:43
  10. "Happy Death Men" – 4:56
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Ouça: