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sábado, 10 de novembro de 2012

cotidianas #188 - "14 Anos"



Tinha eu 14 anos de idade
Quando meu pai me chamou (quando meu pai me chamou)
Perguntou se eu não queria
Estudar filosofia
Medicina ou engenharia
Tinha eu que ser doutor

Mas a minha aspiração
Era ter um violão
Para me tornar sambista
Ele então me aconselhou
Sambista não tem valor
Nesta terra de doutor
E seu doutor
O meu pai tinha razão

Vejo um samba ser vendido
E o sambista esquecido,
O seu verdadeiro autor
Eu estou necessitado
Mas meu samba encabulado
Eu não vendo não senhor

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letra da música "14 Anos"
de Paulinho da Viola

Ouça:
Paulinho da Viola - "14 Anos"

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

"A Invenção de Hugo Cabret", de Martin Scorsese (2011)




Com cinco minutos de filme eu estava impaciente...
Com meia-hora de filme eu já estava cansado.
Passada uma hora eu já me encontrava, era sim, irritado.
O autômato:
uma usina para acender
uma lâmpada.
Nossa, que filme cansativo. Sim, mesmo com toda aquele freneticismo e correira o aclamado "A Invenção de Hugo Cabret", de Martin Sorsese, um dos melhores diretores de cinema de todos os tempos, é um pé-no-saco!. O desgaste não se dá pelo ritmo alucinate que a ação traz em grande parte do tempo, com as peripécias do menino, as perseguições na estação, a dinâmica de filmagem, mas pelo fato de que tudo isso, durante grande parte do tempo, não leva a nada. O filme demora demais para se desenvolver e sem justificativa aceitável. Não é nem em nome de uma paciência de Kurosawa , nem de uma enrolação de Tarantino, de uma contemplabilidade de um Tarkovsky, nem de um intelctualismo de um Godard, da profundidade de um Bergman... Não. Scorcese simplesmente perde tempo! Desperdiça mais de uma hora no desenvolvimento da situação do autômato para uma conclusão, deste elemento em particular, absolutamente decepcionante e de importância discutível (para não dizer dispensável) dentro de todo o contexto.
Mas não quero me fixar só do arrastamento da história. Não é só por isso que o filme é ruim: a trama é mal desenvolvida, as situações são clichês, os diálogos são bobos, os personagens excessivamente caricatos, o roteiro é fraco, as melhores características do diretor ficam apagadas. Martin Scorsese, diretor que volta e meia tenta atirar em outras direções (veja-se "Na Época da Inocência", "A Última Tentação de Cristo", "A Ilha do Medo") desta vez, tentando fazer um filme que atingisse um público diferente do seu habitual, acostumado a crueis banhos de sangue e viganças, acabou por fazer mesmo um filme INFANTIL na acepção mais completa do termo. "Ah, mas é uma declaração de amor ao cinema"... Não, não! Pode parar! Já vi homenagens mais simplórias, mais limitadas, sem toda aquela parafernália visual e bem mais objetivas, inteligentes e emocionantes do que essa. Nem as referências cinematográficas conseguem ter força o suficiente e na melhor das hipóteses, talvez, consigam excitar algum cionéfilo neófito. O que vale mesmo são os trechos dos filmes do grande homenageado, Georges Mélliès, mas que, convenhamos, não precisavam estar dentro de outro filme para se justificar e valer pelo que são.
Sinceramnte não entendi o porquê de tamanha reverenciação em torno deste filme que para mim é um dos mais fracos deste diretor, do qual sou grande admirador. Mas, como trata-se um diretor de mais acertos que erros, resta esperar que se recupere no próximo. Certamente o fará. E estarei ansioso à espera.

Cly Reis

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Engenheiros do Hawaii - "Várias Variáveis" (1991)




"Ando só, pois só eu sei, pra onde ir,
por onde andei...
Pergunte ao pó por onde andei...
Ando só, como um pássaro voando.
Ando só, como se voasse em bando...
Ando só, pois só eu sei andar,
sem saber até quando."
da letra de "Ando Só"


Este é o quinto LP, K-7 e posteriormente CD dos Engenheiros do Hawaii e particularmente considero o melhor disco dos Engenheiros.  Depois de um disco muito e provavelmente propositalmente artificial que foi “O Papa é Pop”, este é a volta da fase roqueira do Engenheiros. Musicalmente, é o auge desta primeira leva de registros deles. Guitarras muito bem gravadas, baixo marcante e o uso excessivo de pratos que foi marca registrada do primeiro disco agora é muito mais econômico e a bateria muito precisa.
Os Engenheiros sempre tiveram o cuidado de apresentar seus discos com começo, meio e fim, o que é muito difícil se vocês prestarem atenção. Poucos artistas fazem ou fizeram isso em seus discos.  Alguns pontos me chamam a atenção nesse disco. Penso que os 2 primeiros discos ("Longe Demais..." e "A Revolta...") serviram para marcar sua presença no território gaúcho e mostrar seu trabalho. Os 2 seguintes "Ouça o Que eu Digo..." e "O Papa é Pop") os colocaram no mercado nacional, em especial no Rio de Janeiro e a partir deste o merca do nacional foi plenamente atingido a partir de SP. Uma impressão que somente o Humberto Gessinger poderia confirmar.
Ah sim e temos as músicas. Depois de um início com uma quase vinheta o cartão de visitas se apresenta com “O Herdeiro da Pampa Pobre” que faz contraste com outra música contida neste disco, a “Sampa no Walkman” meio que dizendo –Viemos de lá (ou “Eu venho delooonge” como falava o Brizola”) e estamos aqui.
As minhas duas músicas preferidas são “Quarto de Hotel” soa como um prelúdio de “Sampa no Walkman” que descreve o estranhamento e as particularidades desta Capital já não tão longe demais dos Engenheiros.
É um disco que de modo geral é pouco conhecido e que merece ser escutado com o cuidado necessário e se tu não gostar, ok, pelo menos tu conheceste. Fui ver agora quando foi lançado e nesse ano em 2012 ele completa 21 anos. E eu tive em vinil.

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FAIXAS:
1."O Sonho É Popular" - 1:27
2."Herdeiro Da Pampa Pobre" (Gaúcho Da Fronteira; Vainê Darde) - 4:06
3."Sala Vip" - 4:51
4."Piano Bar" - 4:15
5."Ando Só" - 3:58
6."Quartos De Hotel" - 4:38
7."Várias Variáveis" (Humberto Gessinger; Augusto Licks; Carlos Maltz) - 0:47
8."Sampa No Walkman" - 4:24
9."Muros E Grades" (Humberto Gessinger; Augusto Licks) - 3:42
10."Museu De Cera" (Humberto Gessinger; Augusto Licks) - 4:01
11."Curtametragem" (Humberto Gessinger; Augusto Licks) - 2:02
12."Descendo A Serra" - 2:55
13."Não É Sempre" - 3:29
14."Nunca É Sempre" - 0:51

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Ouça:
Engenehiros do Hawaii Várias Variáveis


terça-feira, 6 de novembro de 2012

cotidianas #187 - O Homem Certo



  Oi, você é o Pestana, não é? perguntou o homem tirando-lhe da distração, logo depois se desculpando pela inconveniência: - Desculpa, mas o meu filho é muito seu fã – disse trazendo para junto de si o garoto que vestia uma camisa com o número 5 às costas - Eu também aliás... – completou ainda, um tanto constrangido pela última observação.
  - Sou eu mesmo – confirmou agastado o homem ali parado diante daquela vitrine no shopping.
  - Você poderia dar um autógrafo pra ele, na camiseta, por favor – agora virando o menino meio de costas de modo a permitir a escrita do ídolo.
  Pouco à vontade, Pestana apanhou a caneta que aquele pai lhe dava, apoiou parte da mão nas costas do garoto e pôs ali sua rubrica quase ilegível na qual só se distinguia o “P” enorme. “P” de Pestana.
  O dono da frente da área. 
  Dizia-se que só atravessava dali para dentro da área grande a quem ele desse autorização e olhe lá. O verdadeiro volante, o cabeça-de-área. Era combatido por muitos velhos puristas do futebol como mais um cabeça-de-bagre, isso sim, mas aquilo não era verdade. Pestana sabia jogar. Tinha uma saída de jogo limpa e fluída. Roubava a bola, olhava em torno e logo vislumbrava o companheiro bem posicionado. Passe certo! Perfeito. E o time saía para o ataque. Se precisasse também sabia conduzir. Levava bem a redonda, com habilidade, destreza, lucidez e alguma velocidade. Qualidades que o próprio Pestana reconhecia em si e por isso mesmo aspirava a meia-armação. Ah, os meia-armadores, os pensadores do jogo cerebrais como Zidane, Carpegianni, Cruyff, Platini, carregadores de bola como Kaká, os de chegada na frente como Zico, ah, e Dom Diego, ah, e Pelé. Sei que dizem que o Rei era quase atacante mas... aquele passe pro Jairzinho contra a Inglaterra e aquele pro Carlos Alberto? Só quem VÊ mesmo o jogo pra fazer aquilo. Sonhava vestir a 10 e ser o maestro de seu time. Conduzi-lo às vitórias nas situações mais complicadas. Não queria fazer o gol, mas com um toque genial deixar o companheiro na cara do gol como quem diz “faz”. Mas não. Até começara como meia na base mas o excesso de jogadores da posição fez com que disputasse posição na frente da área e ali se destacasse. Subiu para os profissionais, ganhou títulos, chegou à Seleção, se consolidou como um dos melhores volantes da história do futebol brasileiro e agora era difícil que lhe dessem aquela oportunidade de ser o mago do meio-campo.
  O menino saiu forçando o pescoço tentando olhar as próprias costas. Não agradeceu mas seu olhar emocionado dizia tudo. Nem precisava. O pai sim, se desmanchou em agradecimentos que o Pestana recebia tentando disfarçar o incômodo.
Saiu do shopping chateado com aquela idolatria estúpida e resolveu ir caminhando, mesmo, para casa, uma vez que não morava muito distante dali, de modo a ir ruminando um pouco aquela situação que lhe desagradava. Estando um final de tarde quente, parou num bar qualquer para comprar um refrigerante e ali, sem ser reconhecido, talvez pelo boné e óculos escuros que usava, ouviu dois homens que discutiam a rodada do final de semana. Um deles dizia:
  - ... ah, mas isso porque o Pestana não deixou o cara nem ciscar na frente dele.
  - Isso é verdade – concordou o outro – É um monstro aquele Pestana! Volante não tem igual – completou ainda.
  - Pra mim é um grosso que só sabe dar pancada – gritou lá de dentro o dono do boteco – Deviam proibir esses volante no futebol...
  Meio emburrado com a última observação, o Pestana resolveu sair dali sem nem acabar de beber o refresco. Ora, “grosso”! Veja só. Era só ter uma chance que mostraria que podia ser um meia. Um meia genial. Com lançamentos de Gérson e assistências de Riquelme. Ia pedir para o técnico para, daquele dia em diante, ser escalado mais à frente, com liberdade para sair e criar jogadas. Podia dar uma colaboração maior do que somente desarmar e aparecer na frente de vez em quando. Sabia que podia.
  Estava decidido, iria falar com o ‘professor’ no dia seguinte.
  E o fez. Falou com o técnico, à parte, no treinamento da manhã seguinte. O comandante não entendia o porquê daquela reivindicação agora. Estavam bem no campeonato, o time estava encaixado, ele, o Pestana, acabava de ser escolhido pelos jornalistas o volante do campeonato e era novamente chamado para a Seleção. Além do mais tinha um ótimo armador no time, igualmente convocado para o selecionado nacional. Por que isso agora? O Pestana argumentava, argumentava, mas não haveria mesmo recurso que convencesse alguém em são juízo a escalar o melhor da sua posição fora dela. Loucura!
  - Deixa estar, Pestana! – dizia o professor - Tu é o melhor ali. Ali, na frente da grande área. Tu é o cão-de-guarda. O adversário já treme só de saber que é o Pestana que tá lá protegendo a defesa. Deixa de besteira e vai jogar o que tu sabe, homem – arrematou dando um tapa carinhoso na cabeça do volante.
  No treino daquela manhã, o Pestana foi melhor do que nunca. Parecia estar em dia de jogo a valer. Deu carrinho, roubou bolas, saiu jogando, avançou com a bola e ainda, depois de um lançamento de mais de 50 metros, no pé do atacante, que o deixou na pinta pra meter pra dentro, saiu olhando pro treinador como quem diz “viu só”. Mas aquele treinamento parecia reservar algo de especial, e o habilidosíssimo meia do time, craque de bola, em uma jogada despretensiosa, à toa, parecia ter torcido o tornozelo. Médico em campo. Todas as atenções nele. Hum... Pela experiência de boleiro aquilo era coisa pra pelo menos um mês. Era a grande chance do Pestana. Depois da sua solicitação aberta e da exuberante exibição técnica no treinamento, habilitava-se claramente para a vaga já na próxima partida, dali há dois dias, até porque o técnico não tinha grandes opções no elenco para a reserva.
  - Eu posso fazer a dele, professor – prontificou-se, confiante, ao final do treino.
  - Vamos ver, vamos ver. Eu vou testar algumas formações – disse o técnico com aquele jeito de raposa velha.
  O velho fez mistério até a última hora e só na concentração anunciou que utilizaria um dos garotos dos juniores para a criação das jogadas. Um garoto que até prometia mas que além de muito ‘verde’ nem se aproximava da qualidade técnica dele, Pestana, mesmo jogando de volante durante todos esses anos. O abatimento do Pestana foi tão visível que o técnico foi ter com ele:
  - Eu não podia te trocar de lugar hoje porque os caras tem um dos melhores ponta-de-lança do campeonato, Pestana. Só tu ali na frente pode parar aquele 10 deles. Tu é o Homem Certo pra isso. Só tu, Pestana. Só tu.
  O Pestana fez que sorriu sem levantar os olhos e deu a entender que estava conformado. Não proferiu palavra durante toda a viagem da concentração para o estádio, nem na palestra do vestiário, nem pediu a palavra na hora dos gritos de ordem e incentivo. Entrou em campo calado e com um olhar fixo no vazio e um leve sorriso no canto da boca.
  Ouviu ainda algum colega gritando, “Vamo lá, Pestana!” Pega ele, pega ele”. Assentiu automaticamente sem nem saber com o que estava concordando e ouviu então o apito do juiz. Começava o jogo. Foi truncado, pegado, marcado, sem grandes jogadas. Foi assim durante quase todo o tempo. Um insistente zero a zero que devia-se muito aos fatos de que, no time do Pestana, a articulação havia ficado a cargo de um garoto que claramente sentia a pressão da responsabilidade, e de que, do outro lado, o adversário não conseguia armar uma jogada sequer, pois sempre deparava-se com um Pestana especialmente inspirado naquela noite.
  O jogo já ia-se encaminhando para o apagar das luzes quando uma bola, numa área morta do campo, ali pela intermediária, espirrou e ficou entre o Pestana e o atacante. Típica bola pra dividida. E dividida, qualquer um sabia que o Pestana não perdia uma. Arrepiava, levantava o que encontrava no caminho e era melhor o adversário sair da frente. Aquela em especial até estava mais para ele, facilmente chegaria antes do outro. Era provável até que o atacante pipocasse e só fizesse de conta que ia na bola. Mas o Pestana pareceu retardar o arranque. Será? O rival sentiu confiança e foi com sede na bola. O Pestana então ameaçou uma entrada mais viril e o atacante adversário, num golpe de instinto, até para se proteger, armou-se de toda uma virilidade que não costumava usar. Ora, sabemos o que acontece quando quem não sabe jogar duro tem que fazê-lo. Acaba por ser desleal. E foi o que aconteceu. O atemorizado avante adversário entrara por cima da bola enquanto, inexplicavelmente o Pestana, na última hora aliviara e entrara frouxo na jogada. O tornozelo virou de uma forma que poucas vezes se viu num campo de futebol. Coisa feia! Apito, falta, expulsão, empurra-empurra, médico em campo e todo aquele alvoroço. O Pestana saía de maca. Mas saía... rindo. Inexplicavelmente saía rindo com o pé praticamente virado ao contrário.
  Sempre que o tempo está para chuva o tornozelo do Pestana dói. Nunca voltou a andar perfeitamente. Na modesta casa em que vive no subúrbio, guarda os troféus, os recortes de jornal, as camisas da Seleção e contempla uma parede forrada de fotos. Pôsters de meias, de armadores, de pontas-de-lança. Zico, Caju, Rivelino, Ronaldinho Gaúcho, Zidane, Messi... Agora volta da cozinha levemente claudicante com a cerveja na mão e posta-se diante da TV para ver o programa de esportes. Nunca deixou de ver as resenhas esportivas mesmo depois que deixara de jogar. Por coincidência estão a falar dele no programa.
  "Pra mim, o melhor volante que eu vi jogar foi o Pestana. E não era desses cabeça-de-bagre, não. Sabia jogar. Sabia passar, conduzir pro ataque, lançar. Tinha bola pra ser meia se quisesse", sentenciava o comentarista.
  Desligou a TV e foi manquitolando para o quarto.
  Pestana faleceu poucos anos depois. Sozinho, com sérias dificuldades financeiras e problemas de alcoolismo. Deixou este mundo de bem com o futebol e mal consigo mesmo.


de Cly Reis
baseado no conto "Um Homem Célebre"
de Machado de Assis






segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Coletânea "Colorados - Nada Vai nos Separar"



A editora carioca Multifoco , por iniciativa de uma de suas editoras, a escritora Jana Lauxen , estará lançando ainda este mês o livro “Colorados - Nada Vai nos Separar” , uma coletânea de textos de apaixonados pelo Sport Club Internacional com episódios, histórias, curiosidades, memórias, emoções, declarações de amor, etc., relatadas pelos próprios torcedores. Os textos, enviados pelos autores à editora, foram escolhidos por seleção e os melhores, ou os que mais se adequavam à proposta, aparecem nesta publicação na qual tenho o prazer de estar incluído com uma crônica anteriormente publicada aqui no blog por ocasião do aniversário de 103 anos do clube.
O livro que está em fase de impressão e acabamento, deve ser pré-lançado no dia 17 de novembro para os autores e creio que esteja, dali em diante, em breve, disponível para aquisição pública.
Então, amigos colorados, é aguardar que logo logo estará nas livrarias mais uma daquelas publicações que nos enchem de orgulho e emoção a cada linha, a cada relato e nos fazem ter certeza do quanto é bom ser colorado.
Aguardem, aguardem!


Cly Reis



domingo, 4 de novembro de 2012

John Cale – “Sabotage/Live” (1979)




“You better be ready for war.” (“É melhor você estar pronto para a guerra”)
da letra de “Mercenaries”


Eu teria tranquilamente pelo menos outros três ou quatro discos de John Cale para incluir numa lista de ÁLBUNS FUNDAMENTAIS  o que talvez ainda seja reparado por mim, pelo Clayton ou outro colaborador do blog. Mas faço questão de começar justamente por um disco ao vivo que, via de regra, não tem a mesma “fundamentabilidade” dos de estúdio. Mas esse é um “live” diferente, como, aliás, é a marca deste genial e camaleônico cantor, compositor, arranjador e produtor galês. O referido disco é “Sabotage”, registro avassalador gravado por Cale em 1979 no lendário CBGB, boteco que, no início dos anos 70, foi palco do surgimento do punk, cena da qual o próprio foi um dos principais artífices.
Cale é um verdadeiro esteta. Já apareceu na cena artística de Nova York nos anos 60 como uma lenda. Ex-aluno do vanguardista La Monte Young, levou sua pegada erudita moderna para a não menos lendária banda Velvet Underground e, sob a batuta de Andy Warhol e ao lado de Lou Reed  formou uma das parcerias musicais mais inventivas da história da música contemporânea. Não bastasse, o cara largou o Velvet após apenas dois discos (mas suficiente para deixar sua marca) e entrou numa carreira solo regida pelo mais absoluto ecletismo, indo do mais tosco punk-rock até a mais refinada suíte romântica a la Brahms. Coisa que apenas um maestro genial como ele teria condições e conhecimento para tanto. De 1969 para cá, produziu, lançou bandas e artistas, compôs inúmeros discos próprios e/ou em parceria, fez trilhas sonoras, enfim: soltou a criatividade.
“Sabotage”, o disco em questão, faz parte de sua trilogia proto-punk iniciada no magnífico “Fear” (1974) e no não menos brilhante “Guts” (1977). Porém, é no terceiro da série que Cale detona tudo, num dos mais pungentes e, ao mesmo tempo, bem elaborados discos de rock já ouvidos. A banda é afiadíssima: Mark Aaron, esmerilhando na guitarra solo; Joe Bidewell, competente nos teclados; Doug Bowne, mantendo super bem o ritmo na bateria, às vezes dando espetáculo; George Scott, com seu baixo grave e fundamental para o arranjo e textura; Deerfrance, a musa da cena punk nova-iorquina nos backings e colaborando também na percussão; e o próprio Cale, que manda ver no piano, guitarra-base, segundo baixo, viola (originalmente seu instrumento-base) e, claro, vocal.
"Mercenaries (Ready for War)", com sua base de baixo constante, grave e pesada, começa pondo a galera pra poguear. Cale solta o verbo numa letra que critica a sociedade e o militarismo, como um bom punk, desfechando ao som da explosão da bomba que ilustra a capa. Aaron é outro que destrói nesta, dando uma noção do que viria em seguida. Mantendo a pegada e o sarcasmo, "Baby You Know" vem na sequência com um ritmo marcial e um motivo constante de teclados super legal, lembrando Joy Division. Ótima.
“Evidence” traz um riff matador de guitarra, mas não menos legal na linha de baixo. Punk até dentro dos olhos, mas com aquele toque de Cale: um inconfundível refinamento até na escolha das poucas notas de um rock básico. “Dr. Mudd”, mais melodiosa mas não menos guitarrada, antecede a excelente “Walking the Dog”,  clássico do Rhythm and Blues numa versão quase irreconhecível de tão reelaborada. O baixo sustenta a melodia numa combinação de notas dissonantes, dando até a (falsa e proposital) impressão de estar desafinado. Mas as guitarras também não deixam por menos, mandando super bem.
Aí vem um dos pontos altos do show: “Captain Hook”. Com mais de 11 minutos, que passam sem se perceber tamanha sua densidade musical, começa com um motivo minimalista de teclado constante, enquanto os outros instrumentistas deitam e rolam solando. Todos. Porém, o que parecia ser uma peça instrumental toma outro rumo, e somente ali pelos 4 min vira um rock magistral, arrastado e carregado, com a bela voz de Deerfrance fazendo coro e a de Cale – já bem rouca a esta altura do show – proferindo uma letra longa e melancólica. A canção vai num crescendo até estourar em energia e agressividade. De tirar o fôlego.
A linda “Only Time Will Tell” quebra o ritmo numa melodia suave feita por Cale especialmente para a afinada e doce voz de Deerfrance, tal como ele e Lou Reed faziam nos tempos de Velvet, como em “Femme Fatale”, para Nico, e “After Hours”, para Moe Tucker. Uma surpresa e uma graça especial ao show. Mas a delicadeza não dura muito tempo, pois a pancadaria volta novamente na faixa-título. Aliás, pancadaria “desordenada”. A destreza erudita de Cale o fez criar uma melodia sem um centro tonal claro, somente duas notas de guitarra que se repetem de quando em quando, transmitindo uma verdadeira sensação de sabotagem. Assim, as guitarras, o baixo, a bateria e as vozes se estabefeiam no espaço sonoro, cada uma tentando se encaixar dentro de uma harmonia vaga e dissonante. E a galera delira. Genial.
Para terminar, não podia ser diferente: uma marcha militar, “Chorale”, lenta e quase fúnebre. Fim da guerra e mensagem dada: todos perderam naqueles tempos de pós-Vietnã e Guerra Fria.
Um dos principais diferenciais de “Sabotage” para a grande maioria dos discos ao vivo é que todo o repertório é feito de canções inéditas compostas especialmente para esta performance. Ou seja, Cale pensou em um disco não com versões ao vivo de músicas já gravados em estúdio como geralmente se faz, mas, sim, num set list inédito que soasse como uma apresentação mesmo, tendo em vista que essas peças funcionariam melhor com a reverberação acústica ampla, ruídos, interferências e imprevisibilidades de um show. Um exemplo disso é a rouquidão de Cale naquele dia. O tom geralmente elegante e grave de sua voz dá lugar a uma interpretação rasgada e agressiva, o que intensifica a força das execuções, coisa que seria evitada em um estúdio.
Toda a trilogia, mas principalmente “Sabotage”, faz jus ao movimento punk, naqueles idos já reconhecido internacionalmente pelo sucesso de Sex Pistols,  The Clash,  Ramones e cia. mas de muito conhecida por Cale. É como se ele, artista essencial e influente para este movimento tão importante à história do rock e da cultura pop em geral, o avalizasse e dissesse aos punks: “É isso aí, gurizada”.

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A edição em CD, lançada em 1999, traz ótimos extras. Primeiro, as três faixas do EP “Animal Justice”, de 1977, uma espécie de “quarto da trilogia”. Por último, a excelente obra gothic-punk "Rosegarden Funeral of Sores", posteriormente gravada super bem pelos darks do Bauhaus  em que Cale, apenas com um sintetizador marcando a percussão, uma linha de baixo e uma guitarra urrando faz arrepiar a espinha de medo de qualquer vivente.

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FAIXAS:
1. "Mercenaries (Ready for War)"
2. "Baby You Know"
3. "Evidence"
4. "Dr. Mudd"
5. "Walkin' the Dog" (Rufus Thomas, Jr.)
6. "Captain Hook"
7. "Only Time Will Tell"
8. "Sabotage"
9. "Chorale"

 
Bônus tracks (CD 1999)

10. "Chickenshit"
11. "Memphis" (Chuck Berry)
12. "Hedda Gabler"
13. Rosegarden Funeral of Sores"

todas de autoria de John Cale, exceto indicadas

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sábado, 3 de novembro de 2012

"Avenida Paulista", de Luiz Gê - Companhia das Letras (2012)


Terminei há poucos dias a leitura da HQ “Avenida Paulista” , do arquiteto,artista, quadrinista e roteirista Luis Gê, que é uma espécie de cult dos quadrinhos nacionais. Originalmente idealizado apenas para uma publicação anual especial de uma empresa privada, por conta de sua qualidade propagada boca-a-boca e na imprensa, acabou virando objeto de desejo de fãs dos quadrinhos e colecionadores. E eis que finalmente agora, 12 anos depois de seu lançamento original, atendendo aos apelos destes curiosos, ela é publicada para o publico em geral com as devidas revisões e adaptações do autor para esta condição, agora comercial e de grande tiragem.
Luis Gê nos leva a uma admirável e inusitada viagem no tempo mostrando a formação e crescimento da cidade de São Paulo como um todo, focando mais especificamente, é claro na avenida que é uma espécie de centro nervoso da cidade, passeando por ela desde que era um caminho de tropeiros, depois uma área de chácaras de lazer de nobres paulistanos, logo uma concentração de casarões refinados e luxuosos, acompanhando a destruição de patrimônios afetivos e históricos da cidade, chegando até o crescimento descriterioso e devastador com os grandes edifícios bancários e multinacionais; e visitando possíveis futuros imagináveis e impressionantes segundo a mente do autor. Tudo isso narrado de maneira singular, surreal. poética e criativa com um roteiro notável muitíssimo bem elaborado.
A HQ peca um pouco pela quantidade excessiva de caixas de texto, alguns explicativos ou informativos, que se, por um lado, situam bem a história do lugar, contextualizam bem os momentos históricos e apresentam personagens, por outro lado quebram um pouco o ritmo do livro. Mas nada que desdoure a qualidade obra como um todo. Quadrinhos de alta qualidade, “Avenida Paulista” é História mas contada de uma maneira diferente, de uma maneira muito particular, dotada de todo o envolvimento de quem viveu aquele lugar durante toda a vida, permitindo-se, contudo, devaneios que todo o artista tem direito de deixar fluir, de deixar a mente viajar.
Deixe-se levar nessa viagem também.


Cly Reis

Liniers: Hermano Macanudo




As cores de Liniers


Estive em agosto alguns dias na cidade maravilhosa e acreditem que pude ser espectadora de inúmeras mostras e exibições culturais que nos levam a universos distintos e distantes. 
O universo de Liniers (1973-) não é assim tão belo. Ele pinça do cotidiano através do seu traço imagens que retratam um pouco do que vivemos como seres humanos, e digo, humanos no sentido crítico de que construimos maravilhas e horrores todos os dias.
Liniers consegue realizar o que o artista mais genuíno tem como missão: ele amplia esse universo e coloca um zoom onde interessa convergir o olhar com mais calma, com mais cuidado. 
Maitena (1962-) escritora, cartunista, taurina nascida em Buenos Aires, comenta: "Liniers desenha um mundo duro com absoluta delicadeza. Uma alegria melancólica que contrasta com a felicidade boba. Seu trabalho é belo e divertido. Ele é um rapaz macanudo". Para quem não entende o significa do macanudo explico, quer dizer em espanhol extraordinário, excelente, estupendo, magnífico, bacana ou supimpa. Enfim, sua expressão é tudo isso, e um pouco disso pode-se ver na mostra Macanudismo, realizada na Caixa Cultural do Rio de 10 de julho a 09 de setembro deste ano. Personagens como os pinguins, a menina Enriquetta, seu urso Madariaga, os duendes, o gato Fellini entre outros misturam-se as influências musicais de Liniers seja no palco, tocando com o músico Kevin Johansen y The Nada ou nas capas dos LPs para André Calamaro e Cheba Massolo. Calamaro diz que: "Liniers é um flautista de Hamelin e atrás dele marcham seus personagens, seus leitores (nós) e ele mesmo! " A música aparece também nas tirinhas referindo-se aos dois músicos prediletos Tom Waits e Bob Dylan. De tudo o que vi gostei muito de dois pontos da mostra. Primeiro das crônicas em quadrinhos que ele publica semanalmente "Cosas que si pasan se estás vivo" e que também dá nome ao blog do cartunista, concentrando preciosidades do cotidiano, dessas que somente um Mestre observador pode capturar e disponibilizar a todos nós. E da relação que ele, Liniers tem com os cadernos e que me deixa sensibilizada, porque sempre tive essa mesma percepção do objeto, tão comum a todos nós, humanos iniciados nas letras: "Desde criança gosto de cadernos em branco, gosto de imaginar no que eles podem se transformar. Os cadernos servem pra tudo. Servem pra brincar, pra desenhar sem pensar, só pelo prazer de fazê-lo - para me desestruturar. Nos cadernos vale tudo". ;)


Dialética Liniersiana


Luz de Liniers

Compilação de "Cosas que te Pasan si Estás Vivo" ao fundo

Música no HQ

Tiras originais publicadas no jornal argentino La Nación
e nas compilações Macanudo de 2011 e 2012


 texto e fotos: Leocádia Costa



quinta-feira, 1 de novembro de 2012

PJ Harvey - "Dry" (1992)



" 'Dry' foi a primeira chance que
eu tive de fazer um disco
e eu pensei que pudesse ser a ultima.
Então, eu pus tudo o que eu tinha nisso."
PJ Harvey


O aparecimento da britânica Polly Jean Harvey na cena musical alternativa, ali pelo início dos anos 90, foi como que um sopro de vida no meio, sobretudo no cenário feminino. Foi um refrescor, uma nova energia, uma revitalização. Há tempos não aparecia uma mulher no mundo do rock com aquela vitalidade, força, pegada, criatividade e qualidade. Via-se muitas cantoras pop rebolando o traseiro e gemendo, algumas band-leaders interessantes como Courtney Love, um L7 aparecia de vez em quando, um Babies in Toyland, Shirley Manson do Garbage despontava, mas aquela garota magrela, de boca larga, olhar descaído e nariz aquilíneo era diferente. Era superior.
Seu primeiro álbum, “Dry” de 1992, comprova isso com um rock básico, certeiro, potente e sem concessões. Sem inventar muito, com linhas de baixo fortes, marcantes, muita distorção e composições que chegam a parecer ‘burras’ de tão simples mas que na verdade guardavam uma alta dose de síntese, PJ e sua competente banda nos brindavam com um disco vibrante, forte, quente e cheio de energia.
Destaque para “Oh My Lover” que abre o disco derramando sensualidade e paixão sobre uma base de grave e distorcida; “O Stella” caprichando nas guitarradas e quebrando tudo; para “Dress’, pegada, ritmada, de bateria alta, uma das melhores do disco; para a endiabrada “Sheela-Na-Gig”; para o tratamento de violinos na semi-acústica mas não menos anárquica “Plants and Rags”; para a interpretação espetacular de PJ na sombria “Fountain”; e para a ótima “Joe”, acelerada, barulhenta e visceral.
PJ Harvey começava sua trajetória fazendo o simples e talvez por isso tenha acertado na mosca. Sem frescura. Sem invencionice. Rock básico, cru, puro. Assim, seco!
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FAIXAS:
1. Oh My Lover - 3:57
2. O Stella - 2:36
3. Dress - 3:16
4. Victory - 3:16
5. Happy And Bleeding - 4:50
6. Sheela-Na-Gig - 3:11
7. Hair - 3:45
8. Joe - 2:33
9. Plants And Rags - 4:07
10. Fountain - 3:52
11. Water - 4:32

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Ouça:
PJ Harvey Dry




Cly Reis

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

cotidianas #186 - E tu?



Debruçado sobre o colo de minha amiga, divagava a respeito da louça. Branca. Contrastando com o preto do café. Eu dizia para ela, amiga, que, embora meu irmão tivesse uma xícara da mesma marca e mesmo tamanho, porém preta, não era a mesma coisa justamente por essa diferença cromática. Preto e branco não se distinguem quase dadas suas naturezas primárias, disso todo mundo sabe. Mas não é a mesma coisa. Pelo menos em relação a xícaras, e disso eu sei. Essa, a branca, por exemplo, não é uma xícara qualquer. Não! Nutro por ela um amor profundo, ensejado, tátil, vivo, quase uma devoção.
Mas retornando à divagação inicial, ressaltei para ela – amiga, é bom que se diga – o para mim significativo contraste do café amargo e negro que manchava a louça de branco ainda imaculado, coisa rara numa cozinha – local onde residia a xícara, para quem não sabe. Expus à amiga sobre a relação que via com o meu interior: eu sou “preto no branco”.
Minutos depois ela estava usando o meu pertence.
Aliás, todo mundo dentro da minha casa usa a xícara, até o meu irmão quando a preta está suja. E ela é nova, comprada há pouco, o que aumenta consideravelmente a frequência das bicadas em si. Deixo. Não sinto ciúme. Afinal, o pertence é meu, me pertence. Só eu e ela, xícara, sabemos dessa nossa afinidade. Disso tudo, uma coisa sim me preocupa: será esta xícara apenas uma, como se diz por ai, “paixão”? Porque, saibam, paixões me preocupam! São intensas, dolorosas, ferventes, patológicas algumas vezes. Fujo delas! Tamanho apego não seria porque essa xícara talvez fosse alguma ex-namorada apaixonada de outra vida que, decrescente em sua escala evolutiva, materializou-se recipiente nesta encarnação? Ou uma maldição de alguma ex que, nesta vida mesmo, tenha feito algum trabalho, encanto, simpatia, sei lá, para me amarrar a ela e, propositalmente, usufruí-la assim, tão limitadamente? Tenho tantas “ex” assim?... Preocupa-me, preocupa-me.
Mas enquanto eu não identifico o despacho nem concluo nada vou deliciando-me em sua aba, na curva do seu corpo em minha palma, em sua borda arredondada perfeita para a minha boca.
No entanto, ainda outra coisa me encuca: ela não tem nome. Pois saibam, tudo lá em casa recebe nome. O cardigan é o Joy; o aparelho de som é o Bass; o peixe de enfeite é o Webster;  o micro-ondas é o Predador e por aí vai. E logo tu, xícara, tão amada, significativa, imaculada (ainda) não te tornaste oficialmente alguém? Ainda és coisa? Provavelmente a confirmação do porque desse estado primitivo venha a, tristemente, revelar a mim aquilo que eu não queria mas, de certa forma, já previa: trata-se apenas de um amor passageiro. Paixão, como se diz por aí.
Tomara Deus ela me sopre ao ouvido em algum momento seu nome – em breve, de preferência; sussurrando, de preferência – para que eu possa, enfim, sagrá-la cidadã honorária da minha casa.


PS: Cito aqui Castro Alves, que só nestes versos substituiria meu limitado texto; “Dize tu, severa musa/ Musa libérrima/ Audaz...”


(Escrito originalmente em 1994 e revisto em 2012)

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

"Anarquia na Passarela - A Influência do Movimento Punk nas Coleções de Moda", de Daniel Rodrigues (Ed. Dublinense, 2012)



"Um dos êxitos da onda punk
foi ratificar uma propriedade antropológica do homem:
a existência de um impulso estético
natural dentro do espírito humano
que lhe é necessário para a vida,
sendo a indumentária uma das mais potentes formas de comunicar e expressar  esse impulso."
Daniel Rodrigues



Tenho que admitir que mesmo extremamente orgulhoso pelo fato de meu irmão, Daniel Rodrigues estar lançando um livro, fiquei com um pé atrás quanto ao que me esperaria nas páginas do seu "Anarquia na Passarela - A Influência do Punk nas Coleções de Moda" (Dublinense, 2012). Não digo pela qualidade. Conheço sua capacidade, sua inteligência, seus textos tanto do seu blog de cinema O Estado das Coisas Cine quanto daqui mesmo do ClyBlog com suas resenhas, poemas e contos brilhantes. Não! Não me refiro a isso. Ficava um pouco receoso de que esforçando-se em embasar solidamente suas premissas, afirmações, teses, o livro pudesse acabar ficando maçante e arrastado.
Pra ser sincero, acho que isso até acontece na introdução ("O Início do Fim do Mundo"), que embora instigante quanto ao conteúdo que irá ver-se dali para diante, fica meio preso às explicações e porquês de uma maneira meio ansiosa de resumir muito em pouco espaço. Mas é só a introdução, a impressão logo se desfaz e a partir do primeiro capítulo, "No Fun", embarcamos numa deliciosa viagem músico-comportamental empolgante e envolvente. Dá vontade de não para de ler! Dá vontade de ouvir imediatamente aquelas bandas, aqueles cantores, aquelas músicas citadas. Dá vontade de sair pogueando! O livro é uma caixa de som! Sai música dele. Mas não só isso: dá vontade de usar aquela calça rasgada no joelho, de usar aquele bracelete de couro, uma camisa com dizeres desaforados...
Ele é extremamente bem fundamentado, estudado, repleto de referências, citações, com alto grau e profundidade de pesquisa mas passa longe de ser pedante e cansativo. Ele flui. Flui muitíssimo bem.
Consegue conjugar um gosto pessoal musical, inequívoco e indesmentível, com muita informação, embasamento teórico e análise detalhada e  numa proporção perfeita e exata de modo a tornar a leitura absolutamente agradável e sempre interessante.
O ponto de convergência específico do punk com a moda, tema central do livro, além de muito bem sustentado como já foi dito, é analisado com enorme sensibilidade e perspicácia de modo que não escapa do autor nenhum elemento que possa ser realmente relevante no paralelo proposto. Especificamente, a análise pormenorizada da coleção primavera-verão 2002 de Jean-Paul Galtier, onde esmiuça praticamente todos os ingredientes do trabalho do estilista francês é brilhante e admirável, indo de um baile vienense a uma festa de pogo com a naturalidade de quem realmente se jogou de cabeça no assunto.
Em suma, um baita livro! Vencendo minha desconfiança inicial, revela-se não só como uma leitura altamente recomendável como uma publicação de referência em ambos os âmbitos, o da música (punk, pré, pós e todos seus derivados) quanto o da moda, abrangendo o comportamento de um modo geral.
Talvez minha análise fique um tanto suspeita por eu ser irmão do autor, blablablá e aquela coisa toda. Garanto-lhes que não há aqui nenhuma tendenciosidade. Até por isso, pelo meu parentesco, tratei de ler o livro com o botão do senso crítico acionado no nível máximo, pronto para se tivesse que ser duro, severo, antipático, fazê-lo sem titubear. Mas nõa precisei. É impossível não se render e deixar-se levar pelo som das páginas de "Anarquia na Passarela".
Recomendabilíssimo!!!
Leia no volume máximo.


Cly Reis

cotidianas #185 - "Livros"


"Então, por pura gentileza,
sabendo quanto apego eu tinha aos livros,
trouxe-me de minha própria biblioteca
volumes que eu prezava mais do que meu ducado"
Próspero, em "A Tempestade", de Shakespeare


cena do filme "Fahrenheit 451" de François Truffaut
Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso) 

É o que pode lançar mundos no mundo.
Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada 

São livros e o luar contra a cultura.
Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou ­ o que é muito pior ­ por odiarmo-los 

Podemos simplesmente escrever um:
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada 

Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.
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letra da música "Livros"
de Caetano Veloso



quinta-feira, 25 de outubro de 2012

De Frente com Davi

Sócio do Internacional como sou, fui agraciado em um sorteio do consulado do Rio de Janeiro com um ingresso para o jogo de ontem à noite contra o Vasco da Gama em São Januário, que felizmente vencemos. Para ir ao jogo, tive, ontem à tarde, que retirar o ingresso no hotel onde a delegação estava hospedada e lá conversando sobre assuntos do clube com a pessoa que me entregaria o ingresso, abordando assuntos sobre a administração do futebol do clube, do vestiário, esta pessoa achou por bem chamar o vice-presidente de futebol que estava ali por perto para sanar algumas dúvidas que eu manifestava quanto ao que vem acontecendo com o time e no tocante à eleição que se aproxima. Assim, tive uma longa e produtiva conversa com o senhor Luciano Davi, o atual homem-forte do futebol do Internacional. Levou-me para uma sala à parte no restaurante do hotel de modo a garantir que o que fosse me falar não vazasse para algum repórter ou alguém mal intencionado, e igualmente me pediu discrição quanto ao que iria revelar, de modo a não expôr o clube em algumas circunstâncias ou influenciar no processo eletivo.
Bom, não sou jornalista e não teria a obrigação de, como se costuma dizer 'embarrigar' a notícia. Poderia muito bem dar aqui alguns furos de reportagem e causar um certo estardalhaço e alvoroço com algumas coisas que o vice de futebol do Inter me falou, mas, não só por ter-lhe dado minha palavra de que aquelas informações não se espalhariam mas também para não deixar o clube excessivamente vulnerável, só vou citar aqui alguns pontos do que falamos que não sejam assim tão comprometedores nem possam causar algum transtorno à atual gestão e ao Internacional como instituição.
Acredito que não esteja traindo sua confiança quando revelo que Luciano Davi me disse que parte técnica do trabalho de Dorival Júnior deixava a desejar e o mesmo fora demitido porque havia perdido completamente o controle do vestiário; que tentaram nomes de peso como Muricy, Tite e Abel para sua vaga e que sendo impossível qualquer um deles optaram por Fernandão por este conhecer bem todo o plantel, estrutura do clube e ter o grupo na mão; que aprovou a atitude de Fernandão no episódio do esporro geral mas que não avalizava o modo como foi feito, na imprensa, em coletiva depois de um jogo; disse ainda que este incidente demorou uma semana para ser absorvido, atenuado e resolvido mas que no fim das contas, numa confraternização interna descontraída onde todos puderam colocar o que estava incomodando ou o que achavam de errado, tudo ficou resolvido e o grupo ficou fortalecido; e ainda a propósito disso, disse-me que não há problemas internos e que Fernandão tem sim o grupo de atletas sob seu comando. Revelou-me ainda que num vestiário difícil por ter jogadores de seleção, de salários altos, etc., faz cobranças constantes pessoalmente, principalmente às 'estrelas', para que dêem retorno a seus investimentos e altos rendimentos; que neste vestiário tem que ser pai, amigo, irmão, psicólogo e sobretudo chefe, dando fortes duras em jogadores que as vezes nós torcedores julgamos que sejam bajulados e mimados. Por fim, enalteceu o trabalho da base elogiando muito o zagueiro Jackson e mostrando grande  expectativa para o crescimento do volante Josimar, saudou as já realidades Fred e Cassiano e nessa linha, disse que é necessário e inevitável uma reformulação do plantel para o ano que vem uma vez que a média de idade do grupo está muito alta (Forlán 33 anos; Guiñazu, 34; Kleber, 32; Índio, 37; e por aí vai).
Enfim..., teve mais coisas mas algumas é melhor deixar que o tempo revele ou que algum jornalista de verdade o faça. Sei que algumas coisas que coloquei aqui já eram de se supor, outras são meio que um chover no molhado mas o que restou da minha pequena entrevista com Luciano Davi foi que vi uma pessoa séria, com muita personalidade e muito mais firmeza do que eu imaginava. Sei que muitas das coisas que me falou são um pouco tendenciosas puxando a brasa pro assado da administração atual de modo a convencer mais um sócio. Sei, sei. Mas o que percebi é que independente da panfletagem que possa ter havido por trás desse papo, a impressão que ficou foi a de um dirigente sério e uma diretoria que pensa grande e não está indiferente aos problemas e questões cruciais do clube. Se sua chapa, a de situação, do atual presidente e candidato Giovanni Luigi, terá meu voto na eleição do final do ano, não sei ainda. A conversa serviu para que eu tivesse subsídios para avaliar melhor e desfazer algumas más impressões do departamento de futebol atual. Mas ainda vou pensar. Vou pensar.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Vasco x Inter - São Januário - RJ

ESTÁDIO S. JANUÁRIO, 20:37 - Eu nem queria vir. O Internacional não está fazendo por me merecer no momento, mas como ganhei o ingresso do consulado do clube aqui do Rio, aqui estou.
Vamo vê no que dá isso. Não tô levando muita fé mas... obrigação de torcedor é torcer.
Vamo, vamo meu Inter!

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

58ª Feira do Livro de Porto Alegre



Queridos amigos leitores do ClyBlog, de 26 de outubro até dia 11 de novembro no centro histórico da cidade de Porto Alegre acontecerá a 58ª edição da Feira do Livro que elegeu o escritor/publicitário Luis Coronel como seu Patrono. Durante 17 dias ações dirigidas à promoção da literatura estarão distribuídas em dois espaços referenciais da capital gaúcha: a Praça da Alfândega e o Cais do Porto. 
A Praça acolherá os editores e livrarias com suas bancas ao ar livre embaixo dos Jacarandás, ainda mais privilegiados pela reforma realizada no espaço pelo Monumenta/IPHAN. A Praça da Alfândega recobrou os ares da antiguidade e continuará recebendo as programações geral e internacional, sempre das 12h30 às 21h, em espaços como o Santander e CCCEV.
O Cais do Porto é o espaço reservado às crianças, escolas e famílias, das 9h30 às 20h. Lá o mundo infantil-juvenil impera à beira do Lago Guaíba. Muitas ações educativas são oeferecidas e há também espaço para as editoras e livrarias especializadas na literatura para a piazada.
Cerca de 670 autógrafos, 195 atividades infantis e juvenis, 175 encontros com o livro, 78 atividades na Hora do Educador, 82 atividades artísticas, 30 oficinas e 07 atividades paralelas estarão a disposição do público gratuitamente.
A cada dia da 58ª edição uma temática centralizará as atividades e vocês poderão acompanhar os destaques de cada tema, na página do ClyBlog no Facebook no Facebook e alguns deles aqui mesmo no blog.

Sintam-se na Casa da Palavra e do Imaginário que é a Literatura!
Boa deriva a todos!