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sexta-feira, 23 de março de 2012

Pix

Gilberto Gil - "Refazenda" (1975)


"Renda tecida com fios do milho, milho ouro, milho sol, (...) Esperança transmutada em verde de verdade, verdes notas mágicas, o encanto da fazenda nova. Reencantação. A árvore da trindade: abacate, tomate, mamão. Árvore milagrosa: um fruto diferente a cada estação. (...) Refazenda segue sendo a vontade de Deus para cada estação."
Gilberto Gil,
explicando o conceito do disco
em 1975


Demorou pra aparecer um Gil por aqui. já teve A.F. do Caetano, do Chico, do Jorge, do João, dos Tons (o o Jobim) e nada do ex-ministro. E não foi porque merecesse menos que qualquer um desses outros. Pelo contrário. É exatamente por ter uma obra tão qualificada, com tantos discos interessantes que foi difícil apontar um pra ser seu primeiro Fundamental aqui do blog.
Depois de muito avaliar, ouvir, reouvir, trocar uma ideia com o meu irmão e parceiro de blog, o Daniel Rodrigues, cheguei à conclusão que o grande disco de Gilberto Gil é mesmo o seu "Refazenda" de 1975, parte integrante da trilogia (de quatro discos) completada por "Refavela", "Realce" e "Refestança".
Em "Refazenda", Gil penetra no coração do Brasil para compor uma obra cheia de sensibilidade, inspiração e riqueza sonora. Com composições que remetem ao homem do campo, à natureza, ao sertenejo, a temas rurais, ritmos regionais e paisagens naturais, o baiano entrega-nos algumas de suas canções mais marcantes.
Já na faixa que dá nome ao disco, a primorosa "Refazenda", de belíssimos arranjos de cordas e flauta, se utiliza da figura dos frutos, das árvores, do verde para falar sobre simplicidade, sobre o tempo das coisas, sua natureza e o amadurecimento que tudo requer.
Os temas naturais aparecem também na singela "Tenho Sede" de Dominguinhos, canção belíssima que chove, brota, escurece e emociona. Gil trata do homem simples na divertida "Jeca Total", uma canção aparentemente primária, com uma tuba minimalista, onde provoca sobre quem é verdadeiramente caipira, com alguns pontos que nos fazem pensar sobre o fato de um homem como Tiririca estar no Congresso Nacional; e vai no fundo da alma de um homem do campo deslocado na cidade grande, na emocionante "Lamento Sertanejo", minha preferida do disco, uma canção acústica chorosa de interpretação comovente. Ainda funde fauna brasileira, com rock e cultura oriental em "O Rouxinol", parceria com Jorge Mautner e visita novamente o oriente, outro de seus interesses culturais-musicais, em "Meditação", canção breve, curta com sonoridade que alude à música japonesa.
Tem ainda o chorinho "Pai e Mãe; a exaltação do povo e da alegria na ótima "Ê, Povo, ê"; a introspectiva "Retiros Espirituais" com referência a "Banho-de-Lua" consagrada no Brasil na voz de Celly Campelo ( "luar tão cândido" ); e "Essa é Pra Tocar no Rádio", um jazz experimental e acelerado, que embora interessante, perde para a versão definitiva registrada em seu disco em parceria com Jorge Ben.
Num disco tão interiorizado, nada mais correto que o artista olhar para dentro de si mesmo e é o que acontece em "Ela", faixa que abre o disco onde Gilberto Gil examina a própria alma, abre o coração e declara seu amor por sua maior musa, a música, num samba-rock embalado absolutamente saboroso
E temos enfim um Gilberto Gil nos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS. Agora, como eu disse, com uma obra tão tão significativa  e interessante, é certo que outros aparecerão por aqui. Este foi só para abrir a porteira.
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FAIXAS:
1.Ela (Gilberto Gil)
2.Tenho Sede (Dominguinhos/Anastácia)
3.Refazenda (Gilberto Gil)
4.Pai e Mãe (Gilberto Gil)
5.Jeca Total (Gilberto Gil)
6.Esse é Pra Tocar no Rádio (Gilberto Gil)
7.Ê, povo, ê (Gilberto Gil)
8.Retiros Espirituais (Gilberto Gil)
9.O Rouxinol (Gilberto Gil/Jorge Mautner)
10.Lamento Sertanejo (Gilberto Gil/Dominguinhos)
11.Meditação (Gilberto Gil)

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Ouça:
Gilberto Gil Refazenda


Cly Reis

quinta-feira, 22 de março de 2012

"Ao Sul de Lugar Nenhum" de Charles Bukowski - L&PM Editores




Uma vez, assistindo a um daqueles programas de TV Cultura sobre literatura, falava-se de Machado de Assis, sobre curiosidades, personagens, obras, vida pessoal, e na matéria havia opiniões e depoimentos de outras pessoas ligadas às letras, e uma delas, um membro da Academia Brasileira de Letras, que sinceramente não lembro o nome agora, declarava que lia pelo menos um Machado por ano porque era importante para ele para "purificar a língua". E acho que ele tem razão. Faz bem para a lama ler um Machado. Depois disso, por coincidência ou não, acho que nunca deixei de ler, ou mesmo reler, um Machado regularmente.
Mas onde quero chegar com isso?
É que ontem, terminando de ler o "Ao Sul de Lugar Nenhum" de Charles Bukowski, de certa forma, tive a mesma exclamação, de que é importante ler pelo menos um Bukowski a cada ano. Mas não é para purificar a língua, embora eu, fã, considere que na sua crueza, na sua objetividade, o Velho Safado escreva de uma forma realmente magnífica. É importante ler um Bukowski de vez em quado para lembrarmos de como somo humanos. Mas não humanos naquele sentido bibibi-bobobó de solidariedade, fraternidade e todo aquele papinho, mas humanos no sentido de não nos esquecermos da nossa natureza. Do como realmente é o homem e como é o mundo à nossa volta. Não que eu desfaça dos sentimentos belos e puros mas num mundo como o nosso, é bom estar atento, conhecer as feras e Charles Bukowski com seu mundo de bêbados, putas, cavalos, trabalhadores, perdedores e desesperançados, com seu humor cáustico faz com que não esqueçamos disso.
Apesar de bruto, de azedo, de magoado é gostoso ler Bukowski, ele nos faz rir do absurdo, repensar algumas coisas, ridicularizar outras e ver que não são tão sem propósito assim.
O livro não é nenhuma novidade. É considerado, inclusive, o melhor livro de contos dele (eu considero o "Crônicas de Um Amor Louco"). Eu é que havia comprado no ano passado e deixado lá na estante para uma hora dessas quando desse vontade de ler, e agora calhou de ler meu Bucowski do ano.
E fez-me bem, fez-me bem.
Um grande barato o pequeno faroeste improvável do conto "Pare de olhar para as minhas tetas, senhor"; demais o incrível e até emocionante "Amor por $17,50; legal também o divertido "O diabo estava cheio de tesão; e muito bom o conto "Maja Thurup" uma história sobre um canibal domesticado.
Meio chatos os últimos dois contos em que se prolonga demais falando de cus e hemorroidas, embora um deles, "Todos os cus do mundo e também o meu" (olha o título) tenha um final brilhante.
Agora ainda falta ler o Machado.
Mas o ano é longo e estamos em março ainda.

cotidianas #147 - O Filho do Diabo

Quem seria àquela hora?
As batidas insistentes na porta interrompiam sua habitual sesta, da qual não abria mão, principalmente naquela época do ano em que fazia muito calor. Lidara a manhã inteira no campo de algodão e agora que conseguia descansar o corpo exausto um inconveniente vinha incomodá-lo. Quem seria?
Levantou-se ainda meio sonolento, vestiu a calça e foi até a porta ainda vestindo a camiseta regata. Abriu apenas a porta interna de madeira, deixando fechada a porta telada que lhe socorria dos insetos à noite. A claridade da rua ofuscou por um momento seus olhos, mas assim que fixou a visão, deparou-se com um negro retinto magro de chapéu de abas largas na cabeça e vestido com um terno escuro com camisa branca e  uma gravata estreita fixada no colarinho por um pregador prateado. O negro que exibia um sorriso largo, amplo, branco e com um sutil ar debochado, inclinou-se suavemente para a frente, aproximando o rosto da tela de mosquitos, encarando o dono da casa com interesse.
- Em que posso ajudá-lo? - quis saber o jovem Bob com uma certa irritação por ter sido acordado.
O desconhecido, sem desfazer o sorriso, respondeu com outra pergunta:
- Não se lembra de mim, irmão?
Bob não era bom fisionomista, mas tinha certeza de nunca ter visto aquele cidadão antes, até porque não haveria como esquecer um sorriso daqueles que parecia ter todos os dentes do mundo.
- Não, acho que não - respondeu esperando ser, então, informado acerca da ocasião da apresentação entre os dois. Mas não foi o que recebeu.
- Tem certeza, irmão?
A insistência do estranho, aliada à inconveniência da visita começavam a lhe incomodar um pouco mais agora. Sem falar naquele incômodo tratamento excessivamente aproximador, ainda mais por aquelas bandas do Mississipi, principalmente entre os pretos, como ambos eram.
- Sim, tenho certeza! Agora vai dizendo o que quer ou vai caindo fora - levantando a voz.
- Desculpe, irmão.  - disse o estranho sem desfazer um milímetro da bocarra sorridente - é que por um momento achei que seu rosto me fosse familiar...
- E então? O que quer? - insistiu.
- Sua mãe está, irmão?
Bob não conseguiu disfarçar um certo embaraço:
- Minha mãe morreu faz 7 anos, cara! o que é que você quer afinal?
- Ah, sinto muito, irmão. Me solidarizo com sua dor. - agora escondendo os dentes mas mantendo um tom de troça e levando o chapéu ao peito como em condolência.
- E pare de me chamar de irmão. - ordenou finalmente tomando aquela atitude que já queria ter tomado desde que o homem o chamara daquela maneira pela primeira vez naquela tarde
- Mas não somos todos irmãos perante... Ele, irmão? - argumentou em tom cínico movendo apenas os olhos na direção do céu.
- E quer saber: vai dando o fora daqui antes que eu pegue a minha espingarda e te ponha pra fora cheio de chumbo no rabo.
- Desculpe, irmão. Eu não quis incomodar.
- Eu já disse pra não me chamar mais de irmão, cara! Chega dessa merda, eu vou pegar a minha arma.
E já ia virando quando o sujeito falou:
- Se prefere assim, Robert.
Interrompeu o movimento e parou intrigado.
- Como sabe o meu nome?
- Eu sei muitas coisas, Robert - agora definitivamente abandonando o tratamento de irmão.
- Quem é você? - perguntou o rapaz agora verdadeiramente curioso.
-Não se lembra de mim, Robert?
Não tendo resposta do rapaz que continuava encarando-o como que procurando alguma informação em algum lugar remoto da memória, o estranho de sorriso cheio continuou:
- É, acho que não poderia lembrar, mesmo. Mas conheci sua mãe.
Foi perceptível quando Robert arregalou os olhos.
Continuou:
- Ela ia a esses bares de pretos onde nós costumávamos tocar. Eu toquei com o teu pai, sabia?
A revelação pareceu estremecer o rapaz.
- Conheceu meu pai? Você sabe quem ele é?
- Ah, pode estar certo disso, irmão. O homem era bom naquilo. No blues, sabe? As mulheres caíam por ele. Foi o que aconteceu com a tua mãe. O problema é que quase sempre os maridos, os namorados não gostavam muito disso. Foi o que aconteceu com o homem dela. É, filho, um irmão que vivia com ela não gostou muito dessa brincadeira e "PUM!". Mandou bala no teu pai, irmão.
Então a mãe envolvera-se com um blueseiro. O pai fora assassinado. Por ciúmes! A revelação era assustadora. A mãe sempre lhe dissera simplesmente que o pai sumira no mundo. Por que nunca lhe contara aquilo?
- Tinha o teu mesmo nome, guri - disse agora mudando de tratamento novamente - De certo tua mãe quis homenagear. - completou esticando a última palavra ealargando ainda mais o sorrisão.
E continuou:
- O problema é que ele ficou me devendo uma coisa antes de morrer. Não estava nos meus planos que chegasse um sujeito qualquer de cabeça enfeitada e enchesse teu pai de bala. Aí que eu não tive tempo de cobrar.
- Eu não tenho muito dinheiro, moço, mas quanto é que ele ficou devendo? Sendo coisa justa e se estiver dentro do meu possível eu posso ver se consigo dar um jeito.
Riu alto desta vez e balançou a cabeça negativamente o estranho.
- Não, não. Não se trata de dinheiro.
- O quê, então?
- Teu pai pediu minha ajuda e eu ajudei. Ele só tocava daquele jeito por minha causa, cara! Eu que afinei o violão pra ele. E olha que ele tocava demais, filho. Mas, tinha que vir aquele côrno gordo e "PÁ!". Eu não estava pronto pra levar o que era meu naquele dia, sabe? Aí que ele se salvou. Eu não consegui levar o que ele havia tratado comigo.
- Ainda não entendo...
- Entende, sim - mostrou ainda mais os dentes brancos o negro parado à porta.
- Você já tocou o blues, rapaz? - perguntou o estranho.
- Não. Minha mãe sempre me dizia que isso era coisa de vagabundos, que um homem de bem tem que trabalhar e não ficar andando com um violão, uma guitarra, uma gaita por aí. Nunca me deixou pegar num violão. - explicou o rapaz um tanto confuso.
- Tem um violão aí? - quis saber o negro apesar de já saber a resposta.
- Acho que tem um sim que a minha mãe guardava escondido de mim, no sótão.
- Vai lá buscar, filho. Eu espero.
Hesitou um pouco mas curioso, fechou também a porta de madeira, além da outra vazada que já estava fechada, por alguma garantia qualquer que desconhecia, e foi-se lá para dentro a buscar o instrumento.
Subiu ao sótão rapidamente e achou fácil atrás das antigas coisas da mãe falecida. Estava branco de poeira e as cordas irremediavelmente oxidadas. Espanou o violão como pode, desceu as escadas e levou ao estranho que esperava imóvel e com o mesmo sorriso de quando o deixara naquele mesmo lugar.
- Aqui está. - apresentou ao estranho.
- Sabe tocar?
- Já disse que não sei. Minha mãe nunca me deixou me aproximar disso - reforçou o rapaz.
- Eu acho que sabe... Toca. - disse apontando para o violão.
O rapaz então o empunhou com uma destreza que surpreendeu a ele mesmo. Levou à altura do peito e mesmo duvidando de si próprio moveu os dedos às cordas. De uma maneira inexplicável, assim que começou a mover os dedos, passou a produzir um som mágico, uma melodia admirável. O violão guardado todos aqueles anos estava perfeitamente afinado. E, cara, aquilo era blues! Era blues! Nunca havia tocado. Nem as cordas enferrujadas o impediam de fazer aquilo daquela maneira magistral. Que música era aquela? Nunca havia ouvido mas era como se a tivesse conhecido a vida toda. Robert podia não saber que música era aquela mas o estranho sabia: chamava-se"Me and the Devil Blues".
- Viu, guri. - agora já variava o tratamento entre irmão, filho, guri, cara...
- Como pode? Eu nunca...
- Foi seu pai. De alguma forma a alma dele permanece em você. E sabe como é que é, filho: trato é trato.
Robert só então parecia se dar conta do que se passava ali. De quem era aquele negro retinto permanentemente sorridente ali à sua frente. Sempre ouvira falar que os homens daquela região faziam muito desses tais pactos há muito tempo atrás mas nunca acreditara que fosse verdade.
- É alguma brincadeira? - quis certificar-se Robert.
- Temo que não, irmão.
- E o que acontece agora?
- Você vai lá dentro, veste um bom terno e vem comigo - como se fizesse alguma diferença vestir-se bem ou mal indo para o lugar onde o homem pretendia levá-lo.
- E se eu não quiser? - perguntou com uma ponta de medo do que teria como resposta.
- Bom, guri, esse foi só um primeiro encontro. Só quis que você soubesse das coisas, soubesse que eu estou por perto, de olho em você. Não esperava mesmo que viesse logo de cara. Se você não quiser vir hoje não tem problema, mais cedo ou mais tarde vai acabar tendo que vir. Mas pode ter certeza que eu não vou-te deixar escapar que nem aconteceu com o teu pai. - e perguntou só para confirmar - Mas então, você vem ou não?
- Não vou, não. Nem hoje nem nunca. Eu não tenho nada a ver com isso. Não tenho nada a ver se um blueseiro bêbado prometeu a alma pra Este ou pr'Aquele.
- Tem sim, guri. Tem sim - falou pacientemente e depois continuou - Mas não precisa ficar nervoso. Eu vou-me embora. Foi um prazer conhecê-lo, Robert - disse agora fazendo a mesma mesura da chegada, curvando-se e levando o chapéu ao peito, com os olhos cravados no rapaz e o sorriso, agora parecendo sinistro, absolutamente inalterado.
Virou as costas, desceu os dois degraus do alpendre e tomou o caminho de terra que começava na frente da casa. Andou poucos passos mas logo deteve-se voltando a cabeça para a casa, lançando um último olhar para o rapaz e fazendo questão de lembrá-lo daquilo que ele, Robert, no seu íntimo não tinha a menor dúvida:
- Eu volto - disse o negro, agora finalmente fechando o sorriso.
Robert só então abriu a porta de tela e ficou parado no alpendre com o violão em uma das mãos ao lado do corpo, acompanhando com os olhos o homem que ia caminhando pela estrada. Foi se afastando, se afastando e quando quase sumia da vista, um carro passou levantando poeira e que fez com que o estranho desparecesse finalmente ali pela altura da encruzilhada.



Cly Reis

O Frango Atirador

quarta-feira, 21 de março de 2012

The Pogues - "Peace & Love (1989)


"Essa porra de mundo tem dez anos para se ajeitar. Dez anos."
Shane McGowan



Num primeiro momento pode parecer apenas um bando de irlandeses bêbados. Talvez porque seja realmente um bando de irlandeses bêbados.
Não, não. É uma maldade afirmar isso além de ser apenas parte da verdade: digo que não é toda a vadede porque alguns membros da banda são ingleses e ademais, de bêbado mesmo, efetivamente, só se pode chamar o vocalista e líder da banda Shane McGowan que já foi internado várias vezes, já sumiu e foi dado como desaparecido, entre outros fatos de menor relevância.
Mas não deixe-se levar pelas fanfarras nas músicas, pelo vocal embriagado de Shane ou pelos eventuais temas de bebedeiras, rum e vidas vazias. Tudo isso esconde na verdade um som interessantíssimo oriundo do punk rock britânico, mas incrementado com sons de música tradicional irlandesa, raízes celtas, com toques do country rock americano, o melhor do folk e do southern rock yankee; doses de jazz; inspiração nas trilhas de filmes-noir e muitas experimentações instrumentais diversas de origens e etnias diferentes. E "Peace and Love", álbum do The Pogues lançado em 1989, pouco conhecido pelo grande público mas um dos mais bacanas daquele período ali do final dos 80, tem um pouquinho de cada um desses elementos, resultando num trabalho bem diversificado e eclético dentro da proposta da banda.
"Gridlock", a instrumental que abre o disco poderia ser tranquilamente tema de um filme antigo policial ou de espioagem; "White City" que a segue é um country-rock de levada descontraída; já "Young Ned of the Hill" nos leva a sons árabes e ciganos; e a bonita "Misty Morning, Albert Hill" é praticamente uma canção tradicional irlandesa considerando seu arranjo e instrumentação.
"Cotton Fields" um punk-rock acelerado acompanhado de um acordeão que parece uma locomotiva é uma das grandes dos disco; "Blue Heaven" é alegre, ensolarada e traz elementos de música latina e salsa; e "Down all the Days" baixa um pouco a rotação numa belíssima canção aparentemente simples mas muito bem arranjada e bem trabalhada pelo produtor Steve Lillywhite.
Em "Lorelei", ma canção nada mais que simpática, McGowan retoma a parceria com Kirsty McColl com que gravou o maior sucesso da banda "If I Should Fall from Grace with God" e com quem gravaria depois ainda uma faixa para o projeto Red Hot +Blue, chamada "Just One of Those Things".
"Gartloney Rats" é divertidíssima com seu estilão cancan de cabaré; assim como a acelerada "Boat Train", exemplo perfeito daquilo que eu havia mencionado no início: um bando de bêbados irlandeses. Na misteriosa "Tombstone' voltam a explorar ritmos orientais; o disco contnua com "Night Train to Lorca", outra muito legal, trazendo todo um climão de filmes western; e homenageiam Londres em "London You're a Lady", um belíssimo valseado conduzido pela voz ébria de McGowan. Mas é "USA" a grande música do disco. Uma canção intensa, bem percussionada destacando bem a bateria, em uma interpretação admirável de McGowan e uma harmônica matando a pau durante toda a música. Show de bola!
A capa tem uma curiosidade interessante: note que o boxeador tem 6 dedos na mão direita, o que permite que se escreva a palavra PEACE do título do álbum com uma letra em cada um deles, exceto o polegar.
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FAIXAS:
1."Gridlock" (Jem Finer, Andrew Ranken) - 3:33
2."White City" (Shane MacGowan) - 2:31
3."Young Ned Of The Hill" (Terry Woods, Ron Kavana) - 2:45
4."Misty Morning, Albert Bridge" (Finer) - 3:01
5."Cotton Fields" (MacGowan) - 2:51
6."Blue Heaven" (Phil Chevron, Darryl Hunt) - 3:36
7."Down All The Days" (MacGowan) - 3:45
8."USA" (MacGowan) - 4:52
9."Lorelei" (Chevron) - 3:33
10."Gartloney Rats" (Woods) - 2:32
11."Boat Train" (MacGowan) - 2:40
12."Tombstone" (Finer) - 2:57
13."Night Train to Lorca" (Finer) - 3:29
14."London You're A Lady" (MacGowan) - 2:56
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Ouça:
Pogues Peace and Love



Cly Reis

segunda-feira, 19 de março de 2012

Os Causo de Dois Morro - Grandes nome nascido em Dois Morro


Pôca gente sabe mas Dois Morro é responsáver por grande número de gente importante e personalidade istórica.
Diz que Betovo também
seria um Doismorrense.
Mas sempre que alguém perguntava p'ele
se era ou não ele num ouvia,
entonce que persiste a dúvida.
Em Dois Morro, por ezempro, nasce o grande compositêro Chico Buraco de Dois Morro. Ééééé! Não sabio? Pois é! Tão estranhando o sobrenome? Mas o que se assucedeu-se foi o seguinte: o Chico namorô uma tar de Yolanda, alemoa bozuda lá das colônia, si enloqueceu por ela, si enrabixou com a xina e mudô o nome pra Chico Buraco d’Yolanda. O que uma potranca não faiz com a cabeça dum homi...
Marilin Mão-Rói tomém nasceu lá. Sim, senhor! Essa alemoa tinha mania de roê as unha. Roía, roía até ficá em carne viva. Por isso o pessoar da cidade chamavo ela assim: Marilin Mão-Rói. Era tão nervosa que dispois passô a tomá uns remédio e morreu-se por causa disso.
O tar de Aírto da Sirva que corria umas carrera de cancha-reta lá pelas grota e um dia ganhou na Mega-Sena e passaro a chamé ele de Airto Senna; tinha uns metido a artista: o tar do Van Grogue, um maluco que pintava uns quadro tudo esquisito e qui era chamado assim, de Grogue, porque vivia sempre tragueado. Bebia tanto, tanto qui um dia tentando fazê as barba, errô e cabô tirando um do zovido; e ôtro sujador-de-parede que nasceu pras nossas banda lá foi o tar do Miguel Ângelo. Um pintorzinho assim meio mais ou meno, que pintô o teto da igrejinha de Dois Morro. Té qui não ficô muito feio.
Ah, tem tamém o Chega-e-espirra que escreveu aquele conto sobre a goiabada com quejo chamado “Romeu e Julieta” e ganhou esse pelido porcaus'deque tava sempre pestiado e já chegava na cas dos ôtro espirrando; tem tomém o Graão Béu que invencionô o telefone celulósico; a Cleópa aquela bonitona que foi mora nos Egípcios; o Curto Cabaia que era um guri que cantava uma música barulhenta chamada "Cheira a Catinga Juvenir" e que, como era cobaia, morreu-se numa experiênça de atirar no própio quengo só pra vê o que 'contecia; O Napoleão que era um maluco que vivia dizendo que era Napoelão... Ah, muita gente buena!
Como cês pode percebê, Dois Morro tem paper fundamentar não só na ciênssa, como nas arte, como na conomia e em todos os campo da história da umanidade.
Mas o grande nome mesmo da hestória de Dois Morro e até mesmo da humanidade foi José Maria Catulino Azambuja Nepomuceno de Almeida Soares Santos Silva da Silva Zung Tsei da Silva Roosevelt Czrlyck Pereira Ferreira Macieira Pedreira Moreira Oliveira Arantes do Nascimento da Anunciação Cambraia Zuninga Xinapre Rodrigues Brasileiro Doismorrense de Orleans e Bragança.
Grande nome.
Mas nóis chamava ele só de Tico.
Mas que era um dos maior nome da estórea, isso era.

postado por Chico Lorotta

cotidianas #146 - Bagulho no Bumba



Dr. Hyde









Dr. Hyde - Reis, Cly
óleo sobre tela (0,70x0,50)

sexta-feira, 16 de março de 2012

Cream - "Disraeli Gears" (1967)


"La crème de la crème"


Depois de uma estreia como aquela com o espetacular "Fresh Cream", criou-se toda uma expectativa  acerca do segundo disco do trio formado por Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker. E a mega-banda não só não decepcionou, como talvez tenha feito um disco ainda melhor que o primeiro. Se em "Fresh Cream" o baixista-vocalista Jack Bruce havia tomado as iniciativas de composição na maior parte das músicas, sendo inclusive acusado pelos colegas de lançar um single sem a concordância dos demais, neste Clapton que no início servira muito como um catalisador da banda, tomava agora as rédeas da situação e mostrava com quem é que estavam lidando. Clapton, que no primeiro não havia composto (diretamente) nenhuma música e só tinha vocais secundários, em "Disreali Gears" ia pro jogo e botava na roda algumas de suas melhores canções, além de emprestar sua voz a alguns dos grandes clássicos do rock'n roll. "Sunshine of Your Love" é a melhor prova disso, numa composição brilhante, iluminada com a marca inconfundível da guitarra de Clapton, em um dos riffs mais conhecidos da história do rock e fazendo pela primeira vez na banda o vocal principal. O fantástico blues psicodélico "Strange Brew" com ele, Clapton, desta vez dividindo os vocais com Bruce e Baker matando a pau na batera, é outra daquelas de arrepiar; e "Tales of Brave Ulysses" igualmente manda muito bem e não fica para nada trás numa canção forte, imponente e de contornos épicos (uma das minhas favoritas do álbum).
Fora a participação mais efetiva de Eric Clapton em composições, vocais e concepção; e o fato de Ginger Baker, com problemas de bebida, não aparecer tanto nas composições nem exibir performances tão marcantes como antes; a diferença fundamental do primeiro álbum para este é na verdade o fato que "Disraeli Gears" não é tão baseado diretamente em blues como o outro, soando no fim das contas, muito mais psicodélico e experimental do que seu antecessor, o que pode ser notado de forma bem evidente em canções como "World of Pain" balada carregada de wah-wah, "S.W.L.A.B.R" barulhenta de feedbacks de guitarra e com uma batida de rolos constantes de Baker; e na viajante "We're Going Wrong".
Apesar de não ser o foco principal, o blues está presente, sim, e aparece não só já citada "Strange Brew"; um pouco mais sutilmente em "Blue Condition", a única de Baker no disco, uma espécie de blues estilizado; e brilhantemente na maravilhosa "Take It Back", com outro show da guitarra de  Clapton e Bruce destruindo na harmônica. Em "Dance the Night Away" o arranjo vocal e o trabalho dos dois, Bruce e Clapton, cantando juntos é algo que deve ser destacado (demais!); "Outside Woman Blues" retoma as experimentações de blues com energia e peso do trabalho anterior; e o disco encerra com a tradicional "Mother's Lament", uma hitorieta triste interpretada de forma descontrída e teatral.
Adquiri há pouco tempo o LP na Feira do Rio Antigo, popular Feira do Lavradio. Minha fita K7 havia ficado em Porto Alegre. Reposição importante. Um dos discos que quando eu ponho é daqueles que dá um enorme prazer em ouvir. é sempre especial quando passeio com os dedos pelos vinis , chego nele e penso, "Puxa, eu vou ouvir o "Disraeli Gears!".
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FAIXAS:
1."Strange Brew"
2."Sunshine of Your Love"
3."World of Pain"
4."Dance the Night Away"
5."Blue Condition"
6."Tales of Brave Ulysses"
7."S.W.L.A.B.R." (She Was Like A Bearded Rainbow)
8."We're Going Wrong"
9."Outside Woman Blues"
10."Take It Back"
11."Mother's Lament"

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Ouça:
Cream Disraeli Gears



Cly Reis

quinta-feira, 15 de março de 2012

O Frango Atirador

cotidianas #145 - É ele


Aquela, de início, parecia ser uma manhã como qualquer outra. Acordou, escovou os dentes, tomou café, arrumou-se e saiu para trabalhar. Mas tão logo botou o pé na rua percebeu que alguma coisa estranha estava acontecendo. Cumprimentou o vizinho que, não só não lhe respondeu, como saiu voando para dentro de casa como se tivesse visto um monstro. Achou estranho mas pensou que o homem podia estar com algum problema pessoal ou algo do tipo. Continuou andando mas ao longo do caminho até o ponto de ônibus, notou que as pessoas o olhavam de um modo esquisito. Alguns lhe dirigiam olhares raivosos, outros repulsivos, outros pareciam com medo, outros mostravam espanto e, não raro, muitos destes olhares vinham acompanhados de dedos apontados em sua direção, cochichos ou correrias. Às vezes conseguia ouvir um comentário que outro dos que passavam mais perto e o que mais escutava era "É ele".
Na fila do ônibus não foi diferente e teve que aguentar todas aquelas pessoas lhe encarando de viés e cochichando um para o outro "É ele", com o que alguns concordavam, "É ele, sim"; outros duvidavam "Não pode ser ele"; e outros mesmo reforçavam "É ele, sim. Tenho certeza".
A maioria das pessoas optou por sequer entrar no ônibus quando este chegou, mas os que entraram ficaram todos amontoados num canto do ônibus tentando, entre eles, confirmar se era quem estavam pensando, deixando o sujeito sozinho no outro lado. Apesar da separação dos passageiros, o veículo seguia normalmente até que o próprio motorista, assim que percebeu quem conduzia, negou-se a seguir viagem  e abandonou o carro ali mesmo em meio a uma movimentada avenida. Os outros, confirmada a impressão de que aquela era a pessoa que pensavam, apressaram-se em seguir o motorista deixando aquele cidadão sozinho no carro.
Sem opção, mas por sorte já próximo do local de trabalho, seguiu o resto do caminho a pé, e claro, não sem ser fuzilado pelos olhares de todos que por ele passavam e ouvir aquele constante cochicho de "É ele".
Chegou ao prédio onde trabalhava e, na portaria, o seu Zé, porteiro costumeiramente simpático, já o encarou com um olhar incriminador. Dirigiu-se ao elevador, cumprimentou a ascensorista que simplesmente saiu do seu posto, bem como outros dois passageiros que a seguiram e abandonaram a cabine. Não pode deixar de ouvir, às suas costas, dos dois que permaneceram no elevador, a mesma coisa que ouvira desde que acordara, "É ele", "É, sim. É ele, com certeza".
Saltou no andar do escritório onde trabalhava e, assim que pisou no hall, deu seu tradicional "bom dia" geral, como costumava fazer todas as manhãs, o que foi retribuído desta vez com um verdadeiro mar de caras fechadas e olhares inquisidores.
"É ele, mesmo", "É ele" era o que ouvia conforme passava pelas mesas dos colegas, enquanto dirigia-se à sua. Antes de chegar, porém, ao seu posto, foi interceptado pelo chefe:
- Muito bonito, hein! Quem diria, o senhor...
- Mas... - tentou argumentar sabe-se lá o que, mas de qualquer forma, nem teve tempo.
- Eu não quero saber. Ponha-se daqui pra fora - disse o chefe já virando as costas sem dar explicação.
Viu-se completamente confuso, sem norte, sem saber o que se passava. Tentou pedir explicação a um colega sobre o que era aquilo tudo, tentou justificar que só poderia tratar-se de um engano, mas este simplesmente retirou-se quase em disparada para o banheiro. O que era aquilo? O que estavam atribuindo a ele? Sob a mira dos olhares fulminantes dos outros e sem chance de obter ali qualquer explicação, só lhe restava sair dali e voltar para casa.
Tomou o elevador, desta vez vazio na descida, mas ao chegar no térreo encontrou o saguão cheio de gente com aspectos ameaçadores e o seu Zé, o zelador, à frente deles apontando na sua direção: "Olha, eu não falei que era ele?".
Os outros, estranhos, que encontravam-se ali no hall do prédio concordaram  aos gritos "Ééééé!!!", "É ele". Algum gritou "Pega!". Outro, "Mata ele". Aí assustou-se! Agora estava assustado de verdade.
Saiu rompendo, acotovelando a pequena multidão e vencendo-a a muito custo, viu-se na rua, na calçada. Tinha que fugir. Não sabia de que, não sabia porquê mas tinha que fugir daquele povo que agora começava a ficar selvagem. Tinha que encontrar algum lugar onde se sentisse seguro, onde não o acusassem, onde não o odiassem.
Foi caminhando com passo acelerado pensando para onde poderia ir, mas enquanto isso o jornaleiro o apontava, o mendigo o apontava, uma mulher com carrinho de bebê o apontou histérica e pediu socorro, até o cachorro de uma velhinha começou a rosnar pra ele, e então outra pequena multidão começou a se acumular e logo também passou a persegui-lo.
Agora corria. Correu, correu até que viu aquele grupo de perseguidores afastados o bastante. Deu por si e estava próximo ao parque da cidade e, aproveitando a camuflagem natural que ofereciam as plantas, achou por bem embrenhar-se entre os arbustos a fim de despistar a horda. Além do mais, se conseguisse atravessar o parque, a casa de sua mãe não ficava muito distante, do outro lado.
Conseguiu.
Atravessou, seguiu por algumas ruas esgueirando-se, escondendo o rosto como podia, até que viu-se diante do portão da casa de sua mãe. Dirigiu-se apressadamente para a porta e nem lembrando-se que tinha a chave, confuso que estava, tocou a campainha.
A porta abriu-se e o que viu então foi a mãe, ladeada por dois policiais.
- Que vergonha, meu filho! Tu hein...
E dirigindo-se aos dois policiais:
- É ele. Podem levar.

Cly Reis

quarta-feira, 14 de março de 2012

Corpo Leste

'Corpo Leste'
grafite sobre papel-manteiga


cotidianas #144 - Alquímico



alquímico

minha mistura
à tua
cura
"pele 3"
foto: Cly Reis

lava
limpa
remedia
venena
envenena

nosso envolver
atua
alma
magma
larva
quente
borda
transborda

nosso verter
sua
verte
vértice
derrama
saliva
dente
ardente

teu inverter
ter
bálsamo
antídoto
queima
sente
água
aguardente

meu versar
sara
inverte
inerte
alquimia
fortuna
sina
toxina

nossa mistura
ura
versa
poetiza
expressa
ansia
cia
sacia


O Bode Espiatório

terça-feira, 13 de março de 2012

segunda-feira, 12 de março de 2012

cotidianas #143 - Highway Star


- Habilitação e documento do carro, por favor - pediu com o corpo inclinado deixando o rosto à altura do vidro.
O motorista apressou-se em se apalpar e procurar a documentação um tanto atabalhoadamente,  e tendo-a enfim em mãos, passou-a ao policial que aguardava pacientemente.
Este olhou, leu, avaliou alguma coisa, conferiu o rosto do motorista, voltou a olhar para o documento, virou o verso, arqueou as sobrancelhas, fez cara de descontente, balançou levemente a cabeça em sinal negativo e finalmente falou algo:
- Gosta de correr, então, né amigo?
- Queisso, seu guarda...
- O senhor sabia que estava trafegando a 130 quilômetros por hora numa via onde o máximo permitido é 60? - perguntou o guarda batendo com a carteira na palma da mão.
- É mesmo? - indagou verdadeiramente impressionado.
- É. - respondeu seco - O que é que o senhor tem a me dizer sobre isso? - perguntou agora só por perguntar, sem o menor interesse pela resposta injustificável, pela desculpa esfarrapada ou por alguma explicação furada.
- Seu guarda, o senhor pode não acreditar mas eu nem notei que estava tão rápido. É que eu tava aqui dirigindo e tal e daí começou a rolar "Highway Star" no CD e... -suspendeu a empolgação que crescia enquanto falava - Acho que o senhor não ia compreender mesmo - desanimando totalmente da explicação.
- Deep Purple?- quis confirmar o guarda mesmo sabendo perfeitamente que era aquilo mesmo.
- É. - confirmou o infrator, agora entre a confusão e o entusiasmo.
- É, não dá pra deixar de pisar ouvindo "Highway Star". Vai embora, vai. Dessa vez passa mas vê se manera com esse acelerador, hein. Se eu te pegar correndo de novo assim não vai ter Ian Gillan que te salve.
- Obrigado, seu guarda. - disse já ligando o carro e saindo em velocidade moderada.
O guarda ainda ficou algum tempo vendo o veículo se afastar até sumir na auto-estrada. Depois guardou o bloco no bolso e voltou para a viatura e enquanto caminhava até ela fazia com as mãos como se tocasse uma guitarra invisível no ar. "Highway Star".



Cly Reis

Red Hot Chilli Peppers - "Blood Sugar Sex Magik" (1991)


"They're Red Hot"
Robert Johnson


Eles pintaram como uma interessante surpresa ali pela metade do anos 80 com sua mistura rock-funk-rap. Não que aquilo fosse uma absoluta novidade, mas o som daqueles malucos do Red Hot Chilli Peppers trazia um pouco mais de malícia, de tempero, de pimenta. Mas tinha outro diferencial em relação a outras bandas que tentassem fazer aquele tipo de som: um baixista habilidosíssimo de formação no hard-rock e punk, mas de influências jazzísticas notórias.
Os primeiros discos da banda causaram boa impressão, prometiam mas não pareciam tirar o máximo que eles podiam dar, em "Mother's Milk" de 1989 já mostravam um som mais encorpado, mas foi em "Blood Sugar Sex Magik" de 1991, seu 5° trabalho que os Red Hot Chilli Peppers, com a ajuda do mestre de estúdio, Rick Rubin, conseguiram lapidar seu som e produzir uma das obras-primas dos anos 90.
O funk dos caras estava calibrado, as composiçõe mais ousadas e seguras, as tentativas iam na mosca e Flea, o homem do baixo, estava, especialmente, endiabrado.
"The Power of Equality" vem à frente já para comprovar tudo isso: com uma linha de baixo swingada, a guitarra preenchendo os espaços e o vaocal rappeado de Kieds, abre o disco em grande estilo.
"If You Have to Ask" tem um refrão totalmente Funkadelik, num funk à antiga com uma guitarra novamente muito bacana. Aliás, mesmo sem grandes arroubos, com um estilo discreto, jogando mais pro time do que em nome da glória pessoal, o guitarrista John Frusciante mata a pau em várias como na gostosa "Apache Rose Peacock", na embalda "Funky Monks" e na selvagem "Greeting Song".
Com uma evidente ão do produtor, "Breaking the Girl", uma das grandes dos disco, é ousada em sua concepção com suas influências indianas, instrumentação com flautas e com ênfase no trabalho de bateria e percussão.
Não há como não destacar "Give It Away", o grande hit do álbum. Um funkaço alucinado com um a guitarra retinindo, uma incrível linha de baixo sinuosa e escorregadia, e um dos refrões mais bacanas e originais da história do rock.
Na sequência já vem outra das minhas preferidas onde uma batida marcada e pesada seguida de um riff com wah-wah apresentam "Blood Sugar Sex Magik" que tem outra interpretação marcante de Anthony Kieds, quase sussurrando nos versos e expplodindo em vigor nos refrões.
E tem a ótima "Suck My Kiss", forte ,aressiva e pesada; "The Righteous and the Wicked " com outro baixão mataror de Flea; a superlegal "Naked in the Rain"; e a boa "My Lovely Man" que homenageia o ex-guitarrista falecido Hillel Slovak.
A rotação só baixa mesmo no disco com "I Could Have Lied" e "Under the Bridge", uma balada sobre drogas com um coral apoteótico no final. "Sir Psycho Sexy" poderia tranquilamente ter a honra de fechar o disco  pela grandiosidade que vai assumindo ao longo de sua extensão de mais de 8 minutos, mas a tarefa fica bem nas mãos de "They're Red Hot", cover de Robert Johnson aceleradíssima e ensandecida, que faz jus aos adjetivos que carregam no nome: Eles são relamente quentes!
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FAIXAS:
1. "The Power of Equality" 4:03
2. "If You Have to Ask" 3:37
3. "Breaking the Girl" 4:55
4. "Funky Monks" 5:23
5. "Suck My Kiss" 3:37
6. "I Could Have Lied" 4:04
7. "Mellowship Slinky in B Major" 4:00
8. "The Righteous and the Wicked" 4:08
9. "Give It Away" 4:43
10. "Blood Sugar Sex Magik" 4:31
11. "Under the Bridge" 4:24
12. "Naked in the Rain" 4:26
13. "Apache Rose Peacock" 4:43
14. "The Greeting Song" 3:14
15. "My Lovely Man" 4:39
16. "Sir Psycho Sexy" 8:17
17. "They're Red Hot (Robert Johnson)" 1:11

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Ouça:
Red Hot Chilli Peppers Blood Sugar Sex Magik