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sábado, 7 de abril de 2012

cotidianas #152 - "Coelho da Páscoa"


- Só o nêgo, só o nêgo!
Minha mãe que sempre tem histórias de infância intreressantes, emocionantes ou engraçadas (ou tudo isso junto) conta que era assim que o Paulinho, meu tio, seu irmão mais velho reclamava quando era incumbido de alguma tarefa como lavar a louça, limpar o pátio ou ir buscar pão, julgando-se sempre o sobrecarregado, o injustiçado, uma vítima das crueis ordens dos mais velhos.
- Só o nêgo, só o nêgo - protestava ele, não raro desobedecendo mesmo, a determinação da Dona Izaura, sua mãe, recusando um favor a um dos irmãos ou contrariando alguma tia. E foi o que aconteceu naquela tarde de véspera de Páscoa quando uma tia, irmã de minha avó que sinceramente não lembro o nome, que os visitava naquele dia, pediu para o Paulinho ir no armazém buscar cigarros para ela. Diante do já mencionado protesto e da recusa veemente, a tia ainda tentou argumentar:
- Olha, Paulinho, que amanhã é Páscoa e o Coelhinho não vai te trazer nada.
- Haha! Eu não acredito em Coelhinho. isso nem existe! Haha! - troçou ele - Manda outro.
- Paulinho, deixa de ser teimoso e vai na venda pra mim.
- Não vou, nada! Só o Nêgo? Manda a Iara.
- Paulinho, o Coelhinho da Páscoa não gosta de guri malcriado.
- Ah, essa coisa de coelho nem existe! É tudo bobagem! Eu não acredito mais nisso. - exibiu-se o neguinho todo senhor de si.
- Tu vai pra mim, Iara? - perguntou a tia, ao que a sobrinha assentiu e foi-se buscar a encomenda.
Acontece que naquele tempo, pobres que eram, meus avós não podiam nem pensar em dar-se ao luxo de dar presentes de Páscoa, Natal, Dia da Criança ou qualquer coisa do tipo, e aquela tia, com uma situação financeira um pouco melhor, fazia a boa ação de distribuir ovinhos para os filhos da irmã desfavorecida sempre que podia. Só que aquela malcriação do Paulinho não podia ficar assim. Ele ia ver só.
- Paulinho, tu vai ver que o Coelhinho da Páscoa vai é te deixar uma vara de marmelo do lado da tua cama pra tu deixar de ser malcriado.
- Aha! - e foi-se lá ele brincar rindo todo prosa.
O dia passou e à noite todos foram dormir com a expectativa de encontrar 'alguma coisa' embaixo de usas camas. Embaixo da cama é modo de dizer, pois a situação da família era tão precária que havia na verdade poucas camas para abrigar tantos filhos e a maioria dormia mesmo em colchõezinhos no chão. Assim, e expectativa na verdade era de encontrarem algo ao lado do seu colchão.
Aquela noite a pequena Iarinha ansiosa pelo regalo do Coelhinho mal pregou o olho. Até dormia mas era um sono leve, atento, esperando pela chegada do famoso Coelho da Páscoa. Como ele seria? Peludão? Grande? Trazia várias cestinhas? Até que lá pelas tantas da madrugada, quando todos os irmãos já tinham dormido... eis que ela ouve passos abafados. Faz de conta que está dormindo mas deixa um olho entreaberto. Os passos continuam a se aproximar até que ela vê: ele. Era o Coelhinho da Páscoa. Vê o Coelho grande, um peludo bípede de ar bonachão, orelhas longas e pés grandes e peludos. Apesar da emoção continua fingindo dormir enquanto o vê deixar cestinhas ao lado de cada um dos colchões. Quando vê que vai se aproximar de sua 'cama', ao rés-do-chão, fecha imediatamente o outro olho e imita uma respiração de sono profundo. Assim que sente que se afastou, volta a abrir o olho e ainda consegue vê-lo deixar alguma coisa diferente ao lado do colchão do traquinas irmão Paulinho. O que era aquilo? Puxa! uma vara de marmelo. O misterioso peludo deixa a vara e sai silenciosamente do quarto e apesar da surpresa, da excitação, da emoção, depois disso a pequena Iara finalmente adormece.
Na manhã seguinte acorda já com a algazarra dos irmãos. Aquela folia generalizada pela descoberta dos cestinhos ao lado dos catres. Tudo exatamente na mesma posição que a menina Iara vira na noite anterior, inclusive o seu, exatamente onde ele havia deixado. Tudo certinho: as mesmas posições no chão, as mesmas decorações de fitas, as mesmas cores dos ovos. Então... não tinha sido um sonho! E reforçando sua certeza de que não sonhara, naquele momento, em meio à comemoração dos outros irmãos, via o Paulinho acordar cheio de expectativa e deparar-se com aquela vara de marmelo colocada ao lado do colchão.
Tinha sido verdade mesmo!
Tinha sido verdade!
Emburrado, indignado, enfurecido, o Paulinho apanhou sua vara, correu pro meio do pátio e chorando quebrou o galho espinhento nas coxas finas ignorando a dor sob a risada dos irmãos e o regozijo da tia.
- Viu, Paulinho, eu não te disse que o Coelhinho ia te trazer uma vara de marmelo?
E o guri enfurecido continuava quebrando o presente em quantos pedacinhos fosse possível e repetindo sem parar "Eu odeio o coelhinho! Odeio esse coelho!".
A menina Iara, no entanto, só pensava no que havia visto na noite anterior. Um coelho grande, de carinha simpática, do tamanho de um homem, de patas grandes e felpudas. Tinha sido verdade, tinha sido verdade.
Não sei o que a minha mãe viu naquela noite. Sei que por certo não sonhou pois as cestas, os lugares, as cores eram exatamente como tinha visto à noite e além do mais vira a vara de marmelo ser posta lá. Pode-se dizer que a tia tivesse se fantasiado de coelho e entrado sorrateiramente no dormitóiro das crianças para pôr as cestas, mas não, além do fato de não chegar a ponto de se prestar a uma coisa dessas, embora tivesse um pouco mais de recursos, certamente não tinha tanto que pudesse desperdiçar numa fantasia, ainda mais para, muito possivelmente nem ser vista por nenhum dos sobrinhos. Pode-se também dizer que o subconsciente montou a situação toda de coelho, ovos, vara, irmão e numa espécie de sonho quase acordada tenha misturado fantasia com realidade. É, acho um pouco mais provável. Mas não importa muito. O mais bonito disso tudo é que uma criança por uma noite, sendo verdade ou não, nas condições humildes em que vivia, tenha experimentado a sensação de ver o Coelho da Páscoa. E minha mãe não é dessas que inventam coisas, que aumentam histórias para impresionar os filhos. Se ela diz que viu o Coelho, ela viu. Bom, ... ou pelo menos alguma coisa ela viu.


Cly Reis

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Pink Floyd - "The Division Bell" (1994)


“Eu tinha um cem número de problemas com a direção da banda no passado recente, antes de Roger sair. Eu achava que as músicas tinham muitas palavras, e que devido ao significado dessas palavras serem tão importantes, a música tinha-se tornado um mero veículo para as letras, o que não era muito inspirador...”
David Gilmour



Conheci Pink Floyd aos 7 anos, assistindo "The Wall", terminando o filme eu me liguei que já tinha escutado “aquela banda” e foi ai que tudo começou...
Particularmente, prefiro a “Era Gilmour”. Gosto do Waters também (tanto que até hoje assisto "The Wall"), mas o feeling do David é algo inexplicável! Não foi a toa que ele foi considerado 14º melhor guitarrista do mundo pela revista norte-americana Rolling Stone.
E esse álbum em especial, "The Division Bell" que foi lançado em 1994, é o que tem as músicas mais fantásticas que já ouvi. Solos de guitarra e vocais perfeitos.
Um belo exemplo de solo? "Coming Back To Life"!
De vocais?  "What Do You Want From Me", que, ao vivo é lindo de ver aquele bando de mulher fazendo esses backings.
Uma música em especial que cada vez que ouço me dá vontade de sair dirigindo sem rumo é  "Take It Back", não me pergunte o motivo. Mas, talvez seja por que a primeira vez que escutei foi em uma volta da praia com minha mãe, devia ter uns 13 anos, sentada no banco de trás e “obrigada” a escutar o que os adultos escutavam e, surprise: "Take It Back" na rádio.
O nome do disco faz alusão ao division bell (sino da divisão, traduzindo ao pé da letra). E nesse álbum, boa parte dele lida com as questões de comunicação, tipo a ideia de que muitos dos problemas da vida podem ser resolvidos através do diálogo. Canções como "Poles Apart" e "Lost for Words" às vezes são interpretadas como referências ao longo estranhamento entre o ex-membro Roger Waters e os restos dos integrantes da banda, Gilmour negou, no entanto que o álbum é uma alegoria sobre a separação.
Se é ou não, não sei. Só sei que é um baita álbum!
Gilmour usou vários estilos diferentes no álbum. "What Do You Want From Me" tem influências de blues de Chicago e "Poles Apart" tem vários tons folk. Nos improvisados solo de guitarra de "Marooned" usou um pedal Digitech Whammy para elevar as notas numa oitava. Em "Take It Back" usou um EBow (um dispositivo que simula o som de uma guitarra tocando com um arco, com uma Gibson J-200 passou por um aparelho de efeitos).
Como eu digo: esse cara é o cara!
Acabei falando muito do Gilmour, mas, com a saída do Waters da banda em 1985, ele disse que sem ele o Pink Floyd não ia pra frente. Daí, o Gilmour foi lá e assumiu  por completo o controle da banda, e tá ai um dos álbuns mais belos da “Era Gilmour” e do Pink Floyd!

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FAIXAS:
1. Cluster One
2. What Do You Want From Me
3. Poles Apart
4. Marooned
5. A Great Day For Freedom
6. Wearing The Inside Out
7. Take It Back
8. Coming Back to Life
9. Keep Talking
10. Lost For Words
11. High Hopes

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vídeo: Pink Floyd - "Coming Back"



Ouça:
Pink Floyd The Division Bell

Pix

quinta-feira, 5 de abril de 2012

cotidianas #151 - "Estrela da Manhã"


Eu queria a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã


Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda à parte


Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa?
Eu quero a estrela da manhã


Três dias e três noite
Fui assassino e suicida
Ladrão, pulha, falsário


Virgem mal-sexuada
Atribuladora dos aflitos
Girafa de duas cabeças
Pecai por todos pecai com todos


Pecai com malandros
Pecai com sargentos
Pecai com fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras
Com os gregos e com os troianos
Com o padre e o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto
Depois comigo


Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas
[comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples
Que tu desfalecerás


Procurem por toda à parte
Pura ou degradada até a última baixeza
Eu quero a estrela da manhã.

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Estrela da Manhã
Manuel Bandeira

Poema Concreto










fotos: Cly Reis

Stan Getz e João Gilberto - "Getz/Gilberto" (1964)


"...isto é bossa-nova,
isto é muito natural"
da letra de 'Desafinado'




A Bossa-Nova já era uma sensação nacional e João Gilberto já era seu representante mais significativo quando o estilo cameçou a despertar interesse também fora do Brasil. A sofisticação do ritmo, a singularidade da batida, a modernidade do conceito era algo que impressionava os americanos naquele final de década de 50 e no rastro desta descoberta internacional, seguiram-se diversas releituras, interpretações e parceiras. Provavelmente a mais marcante delas tenha sido a que envolveu o saxofonista norte-americano Stan Getz e o gênio brasileiro, do violão de voz maviosa, João Gilberto. Executando, na maioria, músicas de Tom Jobim, um dos mestres do gênero, com o próprio Tom ao piano, a dupla produziu algumas das melhores versões de clássicos da música brasileira no álbum "Getz/Gilberto" de 1964, combinando o violão notável de João e seu vocal ímpar, ao sax tenor grave e sedutor de Getz, conduzidos por vezes pela voz sensual, rouca, quase infantil de Astrud Gilberto, então esposa do cantor.
A propósito dela, sua interpretação para "Corcovado" é absolutamente fantástica! Não que em "The Girl from Ipanema", a outra cantada por ela no álbum, não seja ótima, mas aquele início ( "quiet night of quiet stars" ) é simplesmente de amolecer as pernas. Mas não só ela brilha em "Corcovado". João canta  de uma maneira emocionante e a entrada para o sax de Getz e , ah..., de tirar o fôlego.
Getz e João em 1963
Já a citada "Garota de Ipanema", mesmo no seu trecho em inglês, permanece graciosa como uma moça passeando pelo calçadão, com destaque especial nesta para o piano do mestre Antônio Brasileiro; em "Doralice" o vocal de João, fazendo as vezes de trumpete, conversa com o sax de Getz; "Pra Machucar Meu Coração" como propõe o título, é pra machucar mesmo, apaixonada e com um vocal sentido de João.
"Só Danço Samba" é bem ritmada e gostosa; em "O Grande Amor", ao contrário das demais, o sax de Stan Getz é que abre a canção se extendendo com um longo solo até dar espeço, primeiramente para a voz de João e depois para o piano de Tom, até voltar em um solo final arrebatador; a tristonha "Vivo Sonhado" tem um daqueles trabalhos vocais admiráveis de João nesta que é a canção de encerramento do disco; e "Desafinado", outro dos grandes clássicos da MPB, é mais um dos pontos altos do álbum com shows particulares de cada um: João com sua voz instrumental e sua batida perfeita de vioão, Getz com aquelas entradas extasiantes de seu poderoso saxofone e o maestro Tom Jobim derramando as notas de seu piano como um bálsamo sobre a canção.
Disco apaixonante. Um dos meus preferidos da discoteca. Obra prima do samba, da bossa e do jazz, ou de tudo isso junto. Daqueles que não apenas se ouve mas se saboreia. Ouvir a voz doce de Astrud, a leveza da de João e o sax envolvente de Getz é uma das melhores coisas que se pode querer num final de tarde de preferência com o sol desaparecendo atrás do Corcovado.
Sem dúvida o disco que fez definitivamente a música brasileira romper fronteiras com o ritmo/estilo/gênero que, com certeza, foi e é até hoje a maior contribuição brasileira para a música mundial.

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FAIXAS:
1."The Girl from Ipanema" (Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Norman Gimbel - versão) – 5:24
2."Doralice" (Dorival Caymmi, Antonio Almeida) – 2:46
3."Para Machucar Meu Coração" (Ary Barroso) – 5:05
4."Desafinado" (Tom Jobim, Newton Mendonça) – 4:15
5."Corcovado" (Tom Jobim, Gene Lees - versão) – 4:16
6."Só Danço Samba" (Tom Jobim, Vinícius de Moraes) – 3:45
7."O Grande Amor" (Tom Jobim, Vinícius de Moraes) – 5:27
8."Vivo Sonhando" (Tom Jobim) – 3:04
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Ouça:
Stan Getz e João Gilberto - "Getz / Gilberto (1964)


Cly Reis

quarta-feira, 4 de abril de 2012

cotidianas #150 - Milagre (II)


Maurino, Dadá e Zeca, ô
"Aldeia de Pescadores", Di Cavalcanti (1950)
óleo sobre tela
Embarcaram de manhã
Era quarta-feira santa
Dia de pescar e de pescador
Quarta-feira santa, dia de pescador
Maurino, Dadá e Zeca, ô
Embarcaram de manhã
Era quarta-feira santa
Dia de pesca e de pescador
Quarta-feira santa, dia de pescador
Se sabem que muda o tempo
Sabe que o tempo vira
Ah, o tempo virou
Maurino que é de guentar, guentou
Dadá que é de labutar, labutou
Zeca, este nem falou

Era só jogar a rede e puxar
A rede

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"Milagre"
(letra: Dorival Caymmi)

Ouça:
"Milagre" - interpretação de João Gilberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia

Internacional, 103 Anos

Inter, estarei contigo


Ainda lembro quando meu pai me exclamou certa vez entusiasmado, lá pelos idos de 1979, "tu torce pro maior time do Brasil!". Quando ele falou aquilo eu não tinha a total noção do que aquilo significava. Aquilo não era uma ordem de que ue deveria torcer para aquele time, uma determinação, era provavelmente, sim, uma conscientização. Eu era colorado quase que automaticamente, nunca isso fora posto em dúvida, tinha ganhado um uniforme do meu padrinho, ouvia falar de Internacional, via meu pai ouvindo os jogos, ouvia foguetórios e tudo mais, mas não tinha noção de que aquilo que ele me revelava era a mais absoluta realidade naquele momento. Não que o Sport club Internacional tenha deixado de ser tão grande, pelo contrário, mas hoje, Campeão de Tudo, divide estas honras de grandiosidade com os hexacampeonatos nacionais do São Paulo e do Flamengo; os tri de Libertadores do próprio São Paulo e do Santos; os brasileiros de Corinthians, Palmeiras, Vasco, só para citar alguns. Mas naquele momento era absoluto.  Em uma década de Campeonato Brasileiro o Internacional tinha conquistado o título duas vezes, havia sido terceiro colocado duas vezes também, e quarto em outras duas oportunidades e se encaminhava naquele ano, até então sem perder (o que se confirmou), para levantar a taça novamente. Sei que naquele ano de 79 fui duas vezes ao estádio na campanha do título invicto, uma contra o São Paulo de Rio Grande e outra contra o América do Rio. A lembrança é vaga, sei dos resultados mas não lembro deles. O que importa é que ali com 5 nos de idade se consolidava definitivamente minha paixão pelo Sport Club Internacional e começava a minha longa relação com o estádio Beira-Rio.
Desde então, salvo pequenos intervalos, nunca mais deixei de frequentar o nosso estádio. Lembro ( e aí lembro mesmo) que no segundo GreNal que fui assistir, em 1982, o Inter venceu por 3x1 com três gols do Geraldão. Nossa! Fiquei fã do Geraldão. Queria ser centroavante. Usar a 9. No início dos anos 80 o Colorado acumulara 4 títulos estaduais. Nem o Brasileiro conquistado pelo rival no início da década nos abatia. O que era um titulozinho contra os nossos TRÊS, sendo um INVICTO? Além disso ganhávamos torneios de prestígio no exterior, ganhamos o Juan Gamper na casa do Barcelona; nossos jogadores representavam o país em competições.
O problema é que do outro lado, o rival, aproveitando melhor uma oportunidade que o Internacional tivera antes em 1980, conquistava a Libertadores da América e aí, talvez o comparativo tenha desequilibrado as estruturas internas do clube. Tanto foi que a partir da metade da década de 80, acumulamos derrotas e fracassos. Vimos o rival empilhar 7 títulos regionais quase igualando nosso feito de oito conquistas seguidas; perdemos dois títulos nacionais um deles contra o pouco expressivo Bahia dentro de casa; fomos desclassificados numa improvável semifinal de Libertadores estando com a vantagem três vezes no jogo. Inacreditável. A maré era braba.
Mas em todos estes momentos eu estive lá com o Inter. Presenciei quase todas as derrotas estaduais do hepta do Grêmio, fui ao 1º jogo da final de 87 contra o Flamengo, à final de 88 contra o Bahia, à fatídica semifinal de 89 contra o Olímpia mas nunca deixei de ser torcedor. Digo isso porque é bem usual, principlamente do OUTRO lado que quando se está perdendo se desligue do futebol, se ocupe de outros assuntos, tente-se dar menos importância a uma coisa que para nós toredores tem TODA a importância do mundo. Não! Eu me orgulho de em todos estes anos de minha vida de colorado ter ido ao Beira-rio em praticamente todos eles e nunca ter desistido do meu time.
Mas não se enganem os que por acaso pensarem que sou um pé-frio e que sempre que estava lá levei o time à derrota: eu estava lá, na social do Beira-Rio, vendo o Nílson guardar duas neles no GreNal do Século; em 92 estava abaixado atrás do muro da coréia pra não ver a cobrança do pênalti do Célio Silva na final da Copa do Brasil (mas levantei pra ver); estava no jogo que impediu o rival de igualar nosso octa mesmo nunca tendo dado muita bola pra campeonato estadual; e mesmo quando não foi na nossa casa, no estádio deles presenciei o chocolate do 5x2.
Vi muitas coisas boas e muitas coisas ruins. Chorei de alegria e de tristeza. Prometi nunca mais pisar lá e semanas depois lá estava eu de novo. Estive lá sob calores senegalêzes, sob frios polares e sob chuvas torrenciais mas nunca deixei de estar com o Internacional.
Hoje no Rio de Janeiro acompanho o que posso daqui. Sempre vou ao Maracanã ou ao Engenhão ver o Inter e sempre que vou a Porto Alegre, programo minha viagem para que seja em algum dia que tenha jogo no Beira-rio para que eu possa ver meu time na NOSSA casa. Dos grandes momentos do clube, no Beira-Rio, só não vi a primeira final de Libertadores, pois já morava aqui e não tinha, na época, dinheiro para viajar; mas  asegunda, contra o Chivas, movi o mundo para estar no Beira-Rio e vi meu time ser Bicampeão da América.
Me orgulho de todos estes momentos. Dos felizes e dos tristes. De sempre estar com o Inter. Só me envergonho um pouco de um momento em que, devo admitir, não fui ao Beira-rio porque tive medo. Foi o jogo contra o Palmeiras que podia nos levar à segunda divisão.
Naquele jogo EU TIVE MEDO. Aliás tinha quase convicção que não conseguirÍamos e optei por não participar daquele momento triste para o clube. Era melhor que eu não estivesse lá. Ego´´ista, orgulhoso, não queria guardar isso no meu currículo de torcedor, nem presenciar tamanha decepção.
Felizmente o rebaixamento acabou não acontecendo. O Dunga fez aquele gol salvador e continuamos sendo o único clube gaúcho a não ter disputado uma série B do campeonato brasileiro, mas ficou em mim um pouco da vergonha pela covardia de quando o clube precisou de mim, eu não ter me prontificado a estar lá. Mas tenho certeza que ele me perdoa. O Internacional por certo perdoa esse filho que apesar daquela fraqueza sempre foi fiel.
Prometo nunca mais te abandonar.
Estarei sempre contigo.

Parabéns, Internacional
pelos 103 anos
de gloriosa existência.

Cly Reis

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Coluna dEle #24



Ôpa! Tô chegando!
E aí, belesma?
Por aqui tudo na Minha santa paz.
Não curto muito esse negócio de Páscoa por causa do que fizeram com o Meu guri mas já que tem feriadão vou aproveitar e tirar uns dias de folga.
Só vou ter que dar um jeito de resolver tudo até quarta-feira e pegar a estrada na quinta de manhã pra evitar engarrafamento.
Então já tão sabendo, né: nada de ficar Me enchendo o saco com orações, pedidos, milagres e essa coisa toda no feriadão porque Eu não tô, falei?
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E por falar em milagre, Eu só tô qui de olho nesse negócio todo de Copa e coisa e tal, obras, aeroportos, estradas e biriri-bororó. Fizeram tanta questão de ter a droga da Copa do Mundo e agora tão nessa lenga-lenga.
Depois não vem querer que Eu faça milagre na última hora pra essa merda toda aí dar certo.
(Eu digo que não ajudo mas vocês sabem que Eu sempre acabo dando uma forcinha. No fundo Eu tenho uma quedinha por esse lugar aí, né. Eu também não tenho vergonha nessa Minha cara.)
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Mas, agora, cá entre nós, não tem Santo que ajude com essa roubalheira nesse país!
Cruzes!
O cara tenta dar uma força pra vocês: tu olha em volta é praia, é montanha, é mata bonita; tu cava jorra petróleo, cava sai ouro, cata no pé e dá tudo que é fruta; as mulher são de primeira; o futebol é de primeira; o povo é festeiro ( se bem que às vezes Eu acho que exagerei), mas aí vocês só querem foder com tudo.
Porra!
Assim vocês não vão a lugar nenhum.
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E a propósito, também, Eu me esforço pra dar um talento artístico, uma musicalidade, uma genialidade tal pra vocês aí e tudo o que vocês conseguem me apresentar é Michel Teló?
Putaquipariu!
Esses dias Me apareceu o Natanael, um anjo da segurança aqui, ouvindo alto no celular essa tal de "Ai se eu te pego". (por que que pobre tem que ouvir celular alto sem fone de ouvido?) 
Nossa que horror aquela música!
Mandei desligar na hora. Pior é que não adiantou nada porque não é só ele que ouve isso. Tá todo mundo ouvido essa porcaria por aqui. Isso aqui tá um inferno!
Eu que me perdoe!
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E o tal do Wando veio aqui pro andar de cima.
Tenho certeza que não tava fazendo falta pra vocês, né?
Aqui também não está sendo muito bem-vindo, pra falar a verdade.
É que o malandro me chegou cheio de graça, cheio de olhares provocantes pra nêga véia. Pode?
Tive que dar uma enquadrada nele, tipo, "Ô, meu, tu não dá valor à vida, não?". Mas aí que Eu lembrei que  o fulano tava aqui em cima exatamente porque já tava morto e a parada de ameaçar ele de morte não ia pegar. 
Só sei que depois que ele chegou andei encontrando umas calcinhas novas no varal, aqui de casa.
Acho que vou ter que dar uma consultada no amigo lá de baixo e ver se ele aceita esse 'trambolho' antes que Eu me incomode com a patroa.
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Também andaram batendo aqui dois dos bons aí de vocês. Dois daqueles que quando Eu fiz, dei aquela caprichada.
Um deles é o Milton... Quero dizer Millôr. (eu sempre me confundo com aquele registro de nascimento)
Gênio, cara!
Gênio!
Adorei "A Bíblia do Caos".
E o salário...
Definitivo.
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O outro foi o Chico.
Não, não o Buarque. Esse ainda não.
Não, o Science já tá aqui.
O Anysio. O Anysio.
Gênio!
O ruim é que Eu trouxe ele e vieram junto mais 200 e poucos. Deu superlotação (hehe)
Sei que vocês não gostaram de ele ter vindo aqui pra cima mas já tava na hora. Um dia todo mundo vem.
E de mais a mais, vocês já curtiram bastante, agora deixa Eu ter a Escolinha aqui.
Praticamente só faltava o Professor Raimundo. Eu já tinha aqui o Rolando Lero, o Samuel Blaustein, o Baltazar da Rocha, a Dona Bela, o Sandoval Quaresma, o seu Eustáquio, o Galeão Cumbica, o Seu Gaudêncio, o Pedro Pedreira e o Seu Mazarito, que aliás... nossa... Aquelas piadas dele. Mas eu morro de rir quando ele faz a  bichinha (hahahaha!) Muito bom, muito bom.
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Eu, pra aguentar vocês é que tinha que usar o bordão do Professor Raimundo:
E o salário, ó!
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Olha, galera, fui!
Tenho que preparar as coisas pra viagem. Senão a patroa bronqueia.
Boa Páscoa pra vocês e não vão encher o rabo de chocolate, hein! (hehehe)
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Orações, pedidos, milagres e tudo mais para
god@voxdei.gov
(mas só vou responder qualquer coisa depois do feriadão)

Exposição 'METROPOLITANOS' - Casa de Cultura Mário Quintana - Porto Alegre - RS




por Valéria Luna


A mostra Metropolitanos – A Nova Urbanidade em Exposição, que abriu no último dia 15/03, no Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul - Casa de Cultura Mário Quintana, leva às dependências do Museu à arte das ruas pela expressão de 25 artistas gaúchos. Em Metropolitanos, a exposição nos trás a realidade exibida nos muros e viadutos, expostas ali diariamente e que, na maioria das vezes, passa despercebida aos olhos da população. Artista como: Pedro Gutierres, Carol W e Luciano Scherer levam seu trabalho “marginal” para as salas do museu, despertando uma dialética de boa discussão: "onde realmente é o lugar da arte?"
No cotidiano podemos nos deparar quase que em cada esquina com as manifestações do Cusco Rebel, Trampo e Xadalu, por exemplo. Porém a discussão acerca da mesma manifestação nas dependências do museu é a consolidação da manifestação urbana, a arte pela arte, e sua importância como obra, reforçando seu valor e todo o reflexo da arte Urbe-POA, por vezes perturbadora por ser tão explicita e singular.
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Exposição METROPOLITANOSA NOVA URBANIDADE EM EXPOSIÇÃO
ARTISTAS: Braziliano, Carla Barth,CarolW, Celo Pax, Cusco Rebel, Guilherme Nerd, Jotapê, Holie, Lidia Brancher, Luciano Scherer, Luciano Spinelli, Matheus Grimm, Nina Moraes, Paula Plim, Pablo Etchepare, Pedro Gutierres, Renan Santos, Ricardo Dias, Seilá Pax, Sergio Rodriguez, Talita Hoffmann, Trampo, Tridente, True e Xadalu

Local: Museu de Arte Contemporânea do RS, Rua dos Andradas 6° andar da Casa de Cultura Mario Quintana
Visitação: Até 15 de abril, Segunda das 14h às 19h, de Terça à Sexta das 10h às 19h, Sábados, Domingos e Feriados das 12h às 19h.



confira abaixo alguns trabalhos da exposição:

Carol W.


Carol W.


Luciano Scherer


Luciano Scherer


Luciano Scherer


Pedro Gutierres
 
Cusco Rebel

Trampo

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Valéria Luna é Relações Públicas formada pela ESURP – Escola Superior de Relações Públicas de Pernambuco. Teve seu exercício profissional pautado na Produção Executiva de Moda durante quase 10 anos de atuação no mercado do Nordeste, onde coordenou a Feira de Componentes Têxteis – COMTEX, por seis anos e, em 2008, criou a Rede ModaMercado – Rede de Profissionais de Moda, voltada para o agenciamento de profissionais em todo o país para a execução de ações de informação, como palestras, workshops e consultorias. Através da rede, realizou produção executiva de marcas e estilistas, ainda, eventos de moda pelo país.

quinta-feira, 29 de março de 2012

The Horrors - "Primary Colours" (2008)


"E quando eu lhe disse
que tinha uma outra garota
havia me chamado a atenção,
Ela chorou.
E eu a beijei,
com um beijo que
só poderia significar um adeus"
trecho de "Who Can Say"




Descobri o The Horrors em Londres.
Eu estava em uma loja de CD's, a HMV, quando ouço aquele som muito interessante tocar nos alto-falantes da loja. Puxa! Que bom isso, hein! Talvez até já fosse conhecido no Brasil, mas pra mim era novidade. Lembrava o som dos góticos dos anos 80 mas tinha identidade própria. A voz era algo entre um Ian Curtis e um Peter Murphy, o som tinha a crueza do punk do Joy Division, as atmosferas do The Cure, o barulho de Jesus and Mary Chain, o experimentalismo de um Sonic Youth. Bom isso, hein!
Perguntei a uma vendedora que som era aquele e ela me disse que era de uma banda chamada The Horrors, e me mostrou o CD que estava em destaque no balcão. Para minha surpresa, não apenas o som remetia aos darks oitentistas, a capa do álbum era uma referência clara (ou escura) ao disco clássico do The Cure, "Pornography" de 1982. Aí fui ver o nome das músicas e as referências àquele pessoal da minha época aumentava na medida que muitos dos nomes das canções remetiam de certa forma a títulos da banda Joy Division, como "The New Ice Age" (quase igual a "Ice Age" do Joy Division); Can You Remember (lembrando "I Remember Nothing", também do Joy); Three Decades, de certa forma remetendo a "Decades" e "I Can't Control Myself" ao controle perdido do clássico "She's Lost Control" da banda de Ian Curtis. Coincidência?
Até acho que não. Mas em defesa deles, deve-se dizer que mesmo os nomes tendo certa semelhança, tais faixas não tem nenhuma relação direta com a sua correspondente do grupo de Manchester.
Mas semelhanças à parte, o fato é que nem todas essas referências, homenagens, inspirações fazem de "Primary Colours" de 2008 um arremedo dos discos do pós-punk do início da década de 80. Com personalidade, com qualidade, com incremento de elementos mais atuais e com uma produção caprichada do Portishead Geoff Barrow, trouxeram de volta o climão pesado e sombrio de outrora, a melancolia barulhenta dos shoegazers e a tradicional psicodelia do rock britânico, em um dos melhores trabalhos de bandas dos últimos tempos.
Rigorosamente todas as faixas são ótimas mas em especial a de abertura, "Mirror's Image", ruidosa, perturbadora e viajante; "Who Can Say", canção de amor triste cheia de guitarras flutuantes ao melhor estilo My Bloody Valentine; a que dá nome ao disco, "Primary Colours", colorida sob os matizes do punk na faixa provavelmente mais pegada e básica do disco; e a excepcional "Sea Within' a Sea", faixa longa, de estrutura um pouco mais complexa, bem trabalhada e encantadoramente sombria que encerra de maneira gloriosa este ótimo álbum.
Soube depois que o grupo não era bem assim em seu primeiro disco, que passou por uma certa transformação e que era algo tipo um Strokes, um Libertines ou algo do tipo, só que ruim. Bom..., ainda bem que o que eu conheci foi a banda do segundo disco. Nunca me interessei em ouvir o trabalho anterior e nem preciso. Tenho certeza que não pode ser melhor que isso e que a transformação, que dizem ter ocorrido, por certo foi para melhor. E mesmo, se um dia 'der na veneta' e venham a desistir dessa linha, dessa sonoridade, mudem de ideia de novo, resolvam ser extremamente pop e fazer música para o grande público, já terão deixado um dos grandes discos deste início de século.
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FAIXAS:
1."Mirror's Image" – 4:51
2."Three Decades" – 2:50
3."Who Can Say" – 3:41
4."Do You Remember" – 3:28
5."New Ice Age" – 4:25
6."Scarlet Fields" – 4:43
7."I Only Think of You" – 7:07
8."I Can't Control Myself" – 3:28
9."Primary Colours" – 3:02
10."Sea Within a Sea" – 7:59
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Ouça:
The Horrors Primary Colours


Cly Reis

terça-feira, 27 de março de 2012

Pix

Kings of Leon - "Youth & Young Manhood" (2003)

"Um dos melhores
álbuns de estreia
dos últimos 10 anos"
New Musical Express,
em 2003

Quando eu vi o clipe de "Molly's Chambers" na MTV aquela bandinha me chamou muito a atenção. Aquilo tinha a vitalidade, a pegada, o minimalismo do punk mas com um indesmentível traço de rock sulista americano. E aqueles caras com visualzão anos 70, calças jeans de bocas largas, cabelões desgrenhados e barbas de lenhadores das montanhas parecia perfeitamente ligar o som à imagem. Esperei dar o final do clipe para ver os créditos e descobri que quem se tratava: eram uns tais de Kings of Leon e aquela música estava nó álbum "Youth and Young Manhood".
Não tive dúvidas; mais ou menos dois ou três dias depois comprei o CD. Sempre tem um risco em comprar as coisas assim, comprar um disco conhecendo apenas uma música, já dei muito com os burros n'água por causa disso, mas o disco não só não me decepcionou, como na verdade, era melhor do que eu imaginava e, para minha mais agradável surpresa, "Molly's Chambers", que eu havia gostado muito, sequer era a melhor música.
Quatro parentes, três irmãos e um primo, de família conservadora e religiosa, juntaram-se e combinaram toda a influência da música interiorana de sua região a um rock enérgico, básico, cru e rústico.
"Wasted Time" é um bom exemplo disso trazendo em doses equilibradas do bom punk rock sujo de garagem com as influências southern rock; "Happy Alone", embalada e entusiasmante, transborda de guitarras por todos os lados e traz o vocal enlouquecido de Caleb Fallowill; muito legal também é "Joe's Head" com sua levada folk-rock e um vocal muito bacana, novamente quase histérico e gritado no final da música; "Trani" e "Dusty" tiram o pé do acelerador, a primeira numa balada de vocal arrastado e ébrio e a segunda um blues caipira de primeira qualidade.
"Genius", com seu riff minimalista, é igualmente muito boa e não pode deixar de ser citada; "Spiral Staircase", um demolidor punk-country-rock de saloon é absolutamente ensandecida; a simpática "California Waiting", embora interessante, já fazia antecipar os caminhos que a banda seguiria.
No entanto, "Red Morning Light" que abre o disco e "Holy Roller Novocaine" que o encerra é que são na minha opinião as melhores faixas, ambas capturando o melhor do espírito musical de Nashville e carregando-o de rock'n roll cru e sujo.
Infelizmente a obsessão por mulheres, que os integrantes desde sempre alardearam e que já se anunciava no clipe de "Molly's Chambers", cheio de gostosas esculturais dançando, acabou prevalecendo e os rapazes optaram nos discos seguintes por fazer música para menininhas, adocicando sua música outrora tão legal, tão cheia de personalidade e reduzindo-a a um popzinho descartável e insosso. (Bom, deve ter sido por isso, não?) Não que não seja bom agradar às mulheres, fazer sucesso e tudo mais, mas artisticamente é uma pena que tenham optado por esse caminho e, de mais a mais, tenho certeza que não precisavam dessa transformação para atingir seus objetivos. Mas o fato é que os cabeludos rústicos do sul dos Estados Unidos cortaram as jubas, as barbas, ficaram com visualzinho emo, fazem um tremendo sucesso hoje em dia e certamente estão com os cofres cheios de dinheiro. Hnf...
Lamentável. Do ponto de vista musical, lamentável. Eu que tinha grande expetativa acerca dos trabalhos seguintes da banda fiquei extremamente decepcionado. Mas fazer o quê? Pelo menos temos sorte que ainda tenham conseguido deixar um belo trabalho como esse.

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FAIXAS:


1. "Red Morning Light"
2. "Happy Alone"
3. "Wasted Time"
4. "Joe's Head"
5. "Trani"
6. "California Waiting"
7. "Spiral Staircase"
8. "Molly's Chambers"
9. "Genius"
10. "Dusty"
11. "Holy Roller Novocaine"
(faixa escondida "Talihina Sky")

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Ouça:
Kings of Leon Youth and Young Manhood

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vídeo de "Molly's Chambers - Kings of Leon



Cly Reis

segunda-feira, 26 de março de 2012

Porto Alegre - 240 anos

MOÇA ELEGANTE
nanquim de Hélio Ricardo Alves,
do livro "Porto Alegre foi Assim"
As palavras não são minhas, são de minha mãe: “Porto Alegre é uma moça elegante”. Mas ouso fazê-las minhas um pouquinho que seja, pois, além da óbvia consanguinidade, eu e minha mãe (cujos olhos hoje desfrutam da beleza do Rio de Janeiro, onde reside), somos porto-alegrenses e, mais do que isso, partilhamos da mesma impressão sobre esta bela jovem de maneiras charmosas chamada Porto Alegre. E diria mais: a sabida beleza imponente e sensual das mulheres da capital gaúcha se reflete inteiramente no corpo da cidade: em suas ruas, suas esquinas, suas fachadas, seus parques, suas gentes. Podem perceber, por exemplo, que Porto Alegre tem a estatura mediana das mulheres daqui: nem muito baixa, nem muito alta. Tamanho certo! Não fosse isso, seria impossível olhar para cima e visualizar o céu de azul intenso que nos cobre tanto nos dias de gelo quanto de bafo.
Outra particularidade feminíssima da cidade é sua luz. Intensa, marcante, solar, como se fosse uma modelo que o tempo todo posasse para os cliques. Quem vive aqui entende o verdadeiro significado da expressão “cidade-modelo”. Porto Alegre, na verdade, parece que desfila. Mesmo que geologicamente parada, dá a impressão de, às vezes, caminhar, seguindo no mesmo passo firme, delicado e decidido que suas mulheres têm. Aos 240 anos, a jovem Porto Alegre é uma cidade que anda do seu jeito. Nem mais lenta, nem mais ligeira que são paulos, coritibas, maceiós ou teresinas. Apenas no seu ritmo. Ritmo de uma cidade-moça elegante.


cotidianas #148 - Pus





Eu sou sua perna
Eu sou seu braço
     sou seu baço
     sou seu abdômem


Sou em você cada pedaço
Sou seu ávido homem
"Corrente Sanguínea"
foto: Cly Reis


Eu sou seu peitos
sou sua coxa
sua corrente sanguínea
Eu sou seu plexo
seu córtex
suas narinas
Eu sou seus pelos
sua boca
sou o que você nem imagina


Eu sou sua pelve
seu sexo
eu sou sua vagina


Eu sou seu sangue coagulado
ferimento infeccionado
uma cirurgia de risco


Sou sua fratura exposta
sou seu contágio
por contato físico


Eu sou sua epilepsia
sua peste
sua epidemia


Sua doença
       vacina
sua embolia


Um vírus
(só não viram
aqueles que não queriam)


Que eu sempre fui seu mal
seu câncer
pus
e tiraria

Cly Reis