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terça-feira, 7 de maio de 2013

Pirilampos











"A luz brilha no céu
Pirilampos"

"Pirilampos" - REIS, Cly
grafite sobre papel heliográfico (7x5cm)



REIS, Cly

domingo, 5 de maio de 2013

cotidianas #220 - Baader-Meinhoff



imagem do filme "O Grupo Baader-Meinhoff
A violência é tão fascinante
E nossas vidas são tão normais
E você passa de noite e sempre vê
Apartamentos acesos
Tudo parece ser tão real
Mas você viu esse filme também.

Andando nas ruas
Pensei que podia ouvir
Alguém me chamando
Dizendo meu nome.

Já estou cheio de me sentir vazio
Meu corpo é quente e estou sentindo frio
Todo mundo sabe e ninguém quer mais saber
Afinal, amar o próximo é tão demodé.

Essa justiça desafinada
É tão humana e tão errada
Nós assistimos televisão também
Qual é a diferença?

Não estatize meus sentimentos
Pra seu governo,
O meu estado é independente.

Já estou cheio de me sentir vazio
Meu corpo é quente e estou sentindo frio
Todo mundo sabe e ninguém quer mais saber
Afinal, amar o próximo é tão demodé.

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"Baader-Meinhoff Blues"
letra: Renato Russo

Ouça:
Legião Urbana -" Baader-Meinhoff Blues"

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Ramones - "Ramones" (1976)



“Hey, Ho!
Let’s Go!”



Em pouco menos de uma semana e com pouco mais de 6 mil dólares, aqueles quatro rapazes esculhambados de calças jeans rasgadas, jaquetas de couro e cabelos descuidados tinham mudado definitivamente a história da música. Sim, o punk já vinha em curso, era um processo, foi o experimentalismo, depois foi a sujeira, foi o minimalismo, o peso, teve Kinks, Sonics, teve Doors, Velvet, Stooges, MC5, e tantos outros, mas parece que tudo foi para que chegasse naquele ponto em síntese e personificação. E essa materialização chamava-se Ramones.
Em seu primeiro disco, gravado meio às pressas e com o orçamento máximo que o agente da banda Danny Fields conseguiu obter; com canções rápidas e certeiras, poucos acordes, sem firulas, sem solos elaborados e com uma produção bruta e tosca, os Ramones fizeram um dos discos mais importantes de todos os tempos, pela musicalidade revolucionária, pela atitude, e pela influência que passou a exercer dali para frente em praticamente tudo o que se ouve (e se vê) em música pop até hoje.
Embora eu prefira o terceiro, "Rocket to Russia", um pouco mais bem cuidado e mais profissional, não tem como negar o valor, importância e a curtição que é este “Ramones” de 1976.
As boas?
Todas!
Mas merecem menções especiais “Judy is a Punk” a primeira das garotas punk dos nomes de músicas dos Ramones e que mais tarde ganharia a companhia de outras como Sheena, Suzy e Jackie; "I Don't Wanna Walk Around With You", boa pra poguear; "I Wanna Be Your Boyfriend" que é, assim, uma espécie de canção romântica dos Ramones; e “Blitzkreig Bop” que traz a expressão clássica que virou uma espécie de marca da banda, “Hey, ho! Let’s Go!”.
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FAIXAS:
  1. "Blitzkrieg Bop" - 2:14 (Tommy Ramone, Dee Dee Ramone) 
  2. "Beat On The Brat" - 2:31 (Joey Ramone) 
  3. "Judy Is A Punk" - 1:32 (Joey Ramone, Dee Dee Ramone) 
  4. "I Wanna Be Your Boyfriend" - 2:24 (Tommy Ramone) 
  5. "Chain Saw" - 1:56 (Joey Ramone) 
  6. "Now I Wanna Sniff Some Glue" - 1:35 (Dee Dee Ramone) 
  7. "I Don't Wanna Go Down To The Basement" - 2:38 (Dee Dee Ramone, Johnny Ramone) 
  8. "Loudmouth" - 2:14 (Dee Dee Ramone, Johnny Ramone) 
  9. "Havana Affair" - 1:56 (Dee Dee Ramone, Johnny Ramone) 
  10. "Listen To My Heart" - 1:58 (Ramones) 
  11. "53rd & 3rd" - 2:21 (Dee Dee Ramone) 
  12. "Let's Dance" - 1:51 (Jim Lee) 
  13. "I Don't Wanna Walk Around With You" - 1:42 (Dee Dee Ramone) 
  14. "Today Your Love, Tomorrow The World" - 2:12 (Ramones)

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Ouvir:
Ramones 1976


Cly Reis

quarta-feira, 1 de maio de 2013

"Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge" (partes 1 e 2), animação de Jay Oliva (2012)




Comprei por recomendação do meu amigo e parceiro de blog, Christian Ordoque, a animação “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge”, que dá vida à legendária obra de Frank Miller, considerada por muitos a maior HQ de todos os tempos. Não, não vá confundir com o último filme da trilogia proposta por Christopher Nolan de mesmo nome, até interessante mas que, a propósito, rouba muitos elementos desta história em quadrinhos, sem no entanto se utilizar efetivamente dela.
Este aqui, um desenho animado chancelado pela própria DC Comics e lançado em 2 partes, é uma  adaptação competentíssima do diretor Jay Oliva, desenhista e diretor de episódios para TV, emocionante para os fãs de Batman, cultuadores da obra e fãs de quadrinhos em geral, reproduzindo com originalidade respeitosa o clássico de Miller, recriando em cenas espetaculares e empolgantes os quadros estáticos que vimos outrora somente no papel e que sempre ansiamos que se tornassem filme.
Pra quem não conhece, em "o Cavaleiro das Trevas", Bruce Wayne, ou o Batman, já um senhor com uma certa idade, diante de uma nova onda de crimes e desordem em Gotham City, volta de um silêncio de 10 anos nos quais esteve afastado de suas atividades de herói mascarado para botar ordem na cidade; mas este retorno, de certa forma, mexe com quem estava quietinho lá no Asilo Arkham, o Coringa e incomoda as autoridades a ponto do governo americano, apelar para o Super-Homem para, digamos, 'aquietar' novamente o Homem-Morcego.
A luta na lama com o Mutante, o confronto final com o Coringa, o encontro do palhaço com a decadente Mulher-Gato, a intervenção do Super-Homem numa guerra atômica, e a batalha épica do Homem-Morcego contra o Homem-de-Aço, tudo muitíssimo bem adaptado, e sem economizar no realismo, no sangue e na brutalidade, numa versão que seria provavelmente impensável para o cinema, como foi sempre um desejo dos fãs, tamanha a fidelidade ao original.
Embora os últimos episódios do Homem-Morcego, na visão do competente Nolan, tenham sido bastante bons e menos caricatos que os anteriores feitos para o cinema, até que a indústria tome coragem de ser menos comercial, aceite botar a classificação etária lá em cima, esteja disposta a arriscar a imagem pública do personagem e abrir mão de bilheterias astronômicas, nada em matéria de Batman terá superado essa preciosa adaptação.
Fiquei verdadeiramente emocionado de ver, enfim, em movimento, "O Cavaleiro das Trevas". O verdadeiro "Cavaleiro das Trevas" dos quadrinhos.
Imperdível!
Item obrigatório para bat-fãs.





Cly Reis

terça-feira, 30 de abril de 2013

Persephone












"Por certo três sementes de romã
bastaram para que Proserpina se lembrasse" 

"Persephone - REIS, Cly
grafite sobre sulfite





REIS, Cly

Persephone 2








"Persephone" - REIS, Cly
grafite sobre sulfite (7x7cm)



REIS, Cly

segunda-feira, 29 de abril de 2013

cotidianas #219 - A Cópula


Depois de lhe beijar meticulosamente 
o cu, que é uma pimenta, a boceta, que é um doce, 
o moço exibe à moça a bagagem que trouxe: 
culhões e membro, um membro enorme e turgescente. 

Ela toma-o na boca e morde-o. Incontinenti, 
Não pode ele conter-se, e, de um jacto, esporrou-se. 
Não desarmou porém. Antes, mais rijo, alteou-se 
E fodeu-a. Ela geme, ela peida, ela sente 

Que vai morrer: - "Eu morro! Ai, não queres que eu morra?!" 
Grita para o rapaz que aceso como um diabo, 
arde em cio e tesão na amorosa gangorra 

E titilando-a nos mamilos e no rabo 
(que depois irá ter sua ração de porra), 
lhe enfia cona adentro o mangalho até o cabo.


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"A Cópula"
Manuel Bandeira

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Ahmad Jamal Trio - "The Awakening" (1970)



Acima, a capa original de 1970 e
abaixo a capa de edições posteriores.



“Ele me impressionou com
seu conceito de espaço,
sua leveza de toque,
seu comedimento.”

Miles Davis,

sobre sua primeira audição de Ahmad Jamal, em 1953




Eu era um jovem da era pré-Google, sem dinheiro para comprar livros caros (neste caso, seriam dos caros) e sem muita orientação do que procurar para conhecer mais sobre um estilo de música que sempre me encantava quando ouvia: o jazz. Já conhecia "Kind of Blue" do Miles Davis alguma coisa de Wynton Marsalis e amava desde criança as trilhas do seriado Snoopy, que descobri serem de um tal de Vince Guaraldi vendo os créditos do desenho. Fora isso, mais nada. Assim, em minhas idas ao Centro de Porto Alegre para vasculhar e comprar discos (mais vasculhar do que comprar), entrava nas lojas e percorria com os dedos e os olhos a prateleira de vinis que dizia “Jazz” (embora já tivesse conhecimento suficiente para saber que a maioria das lojas não sabia classificar essa seção, por isso não era incomum achar um Richard Clayderman ou um Toto). Então que, numa dessas vezes, numa Multisom que até já fechou, encontrei um LP que tinha a maior cara de ser bom (e de jazz de verdade): “The Awakening”, de Ahmad Jamal Trio. Não só era o mais fino jazz como era, sim, muito bom, excelente.

Uma sonoridade refinada e viva exala do piano altamente técnico de Jamal, de uma identidade e emoção absurdas. É o que se vê na fenomenal faixa-título e de abertura, um dos melhores temas de jazz até hoje pra mim. Inicia com acordes soltos, que supõem um esboço da melodia, dando aos poucos forma a um jazz embalado e de clima suspenso com um toque erudito, seja pelos encadeamentos de acordes farfalhantes de Jamal, seja no padrão modal variante em si mesmo, mas sem suplantar a tônica. Intercala ataques ferozes até o mais suave dedilhar, ora rápido e miúdo nas teclas brancas agudas, ora altivo e imponente nas notas graves.

A aura clássica se intensifica na sequência, com outra obra-prima: “I Love Music”, uma peça lírica digna de Chopin e Rachmaninoff. Mas, como nos compositores românticos, este “amor” esconde mais mistérios do que se possa imaginar. Melancólica e densa, com um toque hispânico, abre com o piano em solo, num som cheio e ondulante. O baixo de Jamil Nasser e a bateria de Frank Gant entram depois de quase três minutos num complemento que envereda a música para uma amplitude sensorial ainda maior, mas mesmo assim as atenções se mantêm no estilo pronunciado do teclado de Jamal, desenhando uma harmonia rebuscada que alude, ao mesmo tempo, a um concerto beethoviano e às danças espanholas de Manuel De Falla.

Elevando o clima num jazz de compasso ligeiro e ritmo suingado, Jamal exercita variações de estruturas sobre uma base blues constante do baixo em “Patterns”, não menos magnífica. “Dolphin Dance” – delicada e etérea –, “You’re My Everithing” – ressonante, ora fugidia, ora acentuada – e “Stolen Moment” – apaixonante em sua construção em escalas – dão passagem para um desfecho forte e elegante com “Wave”, na mais impressionista versão do clássico de Tom Jobim  Nesta, o pianista norte-americano se vale de um expediente pelo qual foi reconhecido desde seu surgimento nos clubes de jazz de Chicago, nos anos 50: o de simplificar a estrutura musical de standarts, permitindo-se dar novas cores ao tema.

Vim a saber, à medida em que fui entrando mais no mundo do jazz, que este disco, que comprei numa louvável reedição de 1986 da WEA, havia sido lançado originalmente 16 anos antes. Além disso, soube que este pianista, das poucas lendas do jazz ainda vivas, atualmente com 73 anos, é simplesmente uma das maiores influências de Miles Davis, Red Garland, Bill Evans e toda uma geração de jazzistas, pianistas ou não. O que sei é que, adquirido às escuras, “The Awakening” é até hoje um dos preferidos da minha discoteca, que vira a mexe volta ao toca-discos com o mesmo prazer da primeira audição. O prazer de uma descoberta.
 
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FAIXAS:
  1. "The Awakening" - 6:19
  2. "I Love Music" (Emil Boyd, Hale Smith) - 7:19
  3. "Patterns" - 6:19
  4. "Dolphin Dance" (Herbie Hancock) - 5:05
  5. "You're My Everything" (Harry Warren, Joe Young, Mort Dixon) - 4:40
  6. "Stolen Moments" (Oliver Nelson) - 6:27
  7. "Wave" (Antonio Carlos Jobim) - 4:25
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Minotauro 3




"Minotauro 3" - REIS, Cly
grafite e giz de cêra sobre papel heliográfico (20x10cm)



REIS, Cly

quinta-feira, 25 de abril de 2013

cotidianas #218 - Sub Rosa




foto: Robert Mapplethorpe
Saúdo
Aquele ser
que contunde
- contundente –
na pele
impele medo
em pele e osso

Vejo no fundo
aquele que
consente
conscientemente
(Que consciente mente)
Mente!

Com senso
- consenso –
consensual ou sem
ou sem ele
ou sem “L”
sem sensualidade
sem sutileza
sem tato
em sua idade
já tinha dado


de Cly Reis

terça-feira, 23 de abril de 2013

Adriana Partimpim - "Partimpim Tlês" (2012)


Ganhei de presente de minha amada Leocádia Costa o último CD do projeto Partimpim, de Adriana Calcanhoto: o “Partimpim Tlês” (isso mesmo, três com “L”, bem queridinho e infantil). Como esperado, um encanto de disco. Assim como os dois primeiros, o já fundamental “Adriana Partimpim”, de 2004, e “Partimpim 2”, lançado somente cinco anos depois, o novo da série traz canções infantis (ou não) para crianças (ou não) com muita poesia e numa roupagem ao mesmo tempo lúdica e arrojada, tendo em vista os arranjos primorosos que vão do intimismo à vanguarda. 

Tudo é muito artesanal, mas não que se exima de usar toda uma parafernália tecnológica e uma produção caprichadíssima. A banda, por exemplo, conta com nada menos que craques como Kassin, Moreno Veloso, Domenico e Berna Ceppas. Enfim, um projeto que já dura nove anos e que tem como diferencial não subestimar a inteligência dos pequenos. A instrumentação rebuscada, o primor das harmonias, o alto nível dos autores e parceiros (que vão desde Augusto de Campos e Ferreira Gullar até Péricles Cavalcanti e Arnaldo Antunes, tudo mostra o quanto este público merece, sim, não só Xuxa ou coisa pior.

Mas o disco? Repleto de pérolas do cancioneiro infantil ou, melhor ainda, identificadas com muita sensibilidade por Adriana como sendo também música que criança pode ouvir. Por que não? É o caso da sacada de “Taj Mahal”, de Jorge Ben compositor cujas letras, de fato, sempre tiveram um quê de infantil. Também é o que acontece com a ecológica “Passaredo”, de Chico Buarque e Francis Hime, e a mais surpreendente e brilhante delas: “Lindo Lago do Amor”, hit de Gonzaguinha nos anos 80 mas que nunca havia sido identificada como podendo ser também para os pequenos ouvintes. Tem ainda, ao contrário do primeiro da série, que só continha músicas de outros compositores, canções próprias de Adriana – tal como já ocorrera a partir do segundo volume. Destas, “Salada Russa”, parceria com Paula Toller, é um verdadeiro barato com sua letra inteligente que brinca com divertidas e inteligentes antífrases (despertando, inclusive, a curiosidade nas crianças sobre as figuras de linguagem).

Das inéditas, também tem a graciosa “Criança Crionça”, do poeta concretista Augusto de Campos e seu filho, o compositor Cid Campos – que conta com a participação especialíssima nos créditos do ronronar da gatinha de Adriana, a Sofia; a poética e etérea “Por que os Peixes Falam Francês?”; e a fofa canção-de-ninar “Também Vocês”, feita, como diz na dedicatória, para Lucinda Verissimo cantar para seu avô (Luís Fernando Veríssimo).

Destaques ainda para “De Onde Vem o Baião”, de Gilberto Gil (feita originalmente para Gal Costa que a gravou em 1978), e o clássico da bossa-nova “O Pato”, que há tempos estava caindo de maduro para Adriana gravar no Patimpim.

O CD desfecha em tom leve e quase “soninho” com Dorival Caymmi e sua “Acalanto”, autor que também mereceu outra homenagem com a maravilhosa “Tia Nastácia”, feita originalmente para a trilha sonora do Sítio do Pica-Pau Amarelo da Globo, nos anos 70. Esse é o melhor exemplo de que Adriana Calcanhoto, que assumiu o sobrenome Partimpim até nos créditos, pegou pra si a responsabilidade de seguir adiante com a tradição de trilhas para criança inteligentes como se fizera tempo atrás em obras referenciais como "Plunct Plact Zum!!!", “O Grande Circo Místico” ou “Arca de Noé” mas que, em tempos de progressiva imbecilidade da sociedade, vinha se estabelecendo. Ainda bem que a Adriana (a Partimpim!) está aqui para salvar a nós e à criançada. Longa vida a Adriana, seja a Partimpim ou a Calcanhoto.

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Trinca-Ferro





REIS, Cly
grafite sobre sulfite
aprox. 10x10cm

domingo, 21 de abril de 2013

cotidianas #217 - Figura de Pensamento


Litotes era uma metonímia muito graciosa. Na flor da idade, começava a despertar interesse dos oxímoros. Assim, sua mãe, Dona Antonomásia, não deveria ter-se surpreendido tanto com um pedido para ceder a mão da filha, como foi aquele que recebera naquele final de tarde, afora pelo fato de ter vindo de quem viera.

Sr. Assíndeto era um homem que embora muito considerado, tido como um anacoluto, uma espécie de zeugma na cidade, via pairarem sobre ele, por conta de seus pleonasmos, maldosas metalepses acerca de um certo eufemismo, o que lhe garantia uma certa má reputação nas elipses sociais.

Contudo, Dona Antonomásia, que criara sozinha a filha desde a catacrese do marido, o saudoso Sinédoque, recebeu com boas alegorias o circunlóquio, afinal o anacoluto Sr. Assíndeto era praticamente um hipérbato, sem falar em sua gradação de posses e bens. Não cria nas cacofonias do povo, por certo eram onomatopeias como sempre. Imaginem um epizeuxes como aquele homem se teria essas... ambiguidades. Certamente a filha ficaria bem, e de mais a mais, garantiria seu futuro.

Deu então sua assonância à aliteração dos dois. A diácope deu-se na paradoxa metropolitana, alguns meses depois com grande sinestesia.

Pouco tempo depois veio a público que o Sr. Assíndeto sofria de uma séria anadiplose. Dizia-se irreversível. Seus disfemismos, tão maldosamente comentados por todos, deviam-se na verdade aos efeitos já avançados da metáfora que o consumia aos poucos. Resolveu então retirar-se com Litotes para um lugar mais tranquilo, um sítio que tinha na cidadezinha de Silepse, no interior do estado, onde meses depois veio a acontecer sua catacrese, deixando toda sua generosa hipálage para a jovem viúva.


Cly Reis

ELVIS


sexta-feira, 19 de abril de 2013

David Bowie - "Space Oddity" (1969)



No alto, a capa original e
abaixo a capa da reedição de 1972.
"Controle de solo para Major Tom...
Controle de solo para Major Tom..."
início de "Space Oddity"



David Bowie desembarcava na Terra.
A odisséia mutante de Bowie exibindo toda sua versatilidade começava verdadeiramente ali. Apesar de já ter um álbum em sua discografia, foi com "Space Oddity" de 1969, que aquele rapaz inglês de olhos diferentes se consolidava como artista respeitado e estabelecia as bases para a própria obra dali para a frente.
As levadas marcantes de violão, a influência folk, o rock sofisticado, a beleza cósmica e a melancolia chapada da maravilhosa "Space Oddity"; todo o clima de descontração e improvisação jam do final de "Unwashed and Somewhat Dazed"; a brincadeira divertida da vinhetinha "(Don't Sit Down)", mais tarde retirada de edições posteriores do disco; a leveza de "Letter to Hermione"; a interpretação emocionante de "Cygnet Committee"; o rock gostoso de "Janine"; o primor da balada "An Ocasional Dream"; o refrão quebrado da brilhante "God Knows I'm Good"; o arranjo notável de "Wild Eyed Boy From Freecloud"; e a magnitude da peça psicodélica monumental "Memory of a Free Festival", crescente, somando elementos, até culminar num final apoteótico.
Um disco que afirmava Bowie como artista altamente criativo e logo em seguida o confirmaria como um dos grandes nomes da história do rock, preparando para a chegada da nave de seu Ziggy Stardust e sua explosão definitiva no universo pop. A grande viagem espacial só estava começando.


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FAIXAS:
  1. "Space Oddity" – 5:15
  2. "Unwashed and Somewhat Slightly Dazed" – 6:55
  3. "(Don't Sit Down)" – 0:39
  4. "Letter to Hermione" – 2:28
  5. "Cygnet Committee" – 9:33
  6. "Janine" – 3:18
  7. "An Occasional Dream" – 2:51
  8. "Wild Eyed Boy From Freecloud" – 4:45
  9. "God Knows I'm Good" – 3:13
  10. "Memory of a Free Festival" – 7:05
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Ouvir:
David Bowie Space Oddity



Cly Reis

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Coluna dEle #31



E aí, cambada, o que mandam de novo?
Por aqui as coisas vão indo como Eu mando.
Como vocês devem ter notado, apesar do mundo às vezes parecer um Inferno, Eu não renunciei, ao contrário da intenção que manifestei.
Vou ficar em casa fazendo o quê? Ouvindo a Dona Encrenca latindo o dia todo? Não. Pelo menos Eu me distraio com as trapalhadas de vocês.
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Mas por falar em renúncia e o que havia Me estimulado a tomar uma decisão parecida, que foi a arregada do Nazi XIX; poucos dias depois da minha última coluna aqui, saiu o nome do tal Sumo-Pontífice, hein.
Mas tinha que ser logo argentino, cara?
Nem eu suporto aqueles caras!
Quando Eu tava fazendo a Argentina, tava ali cheio de ingredientes pra misturar; tipo patriotismo, alegria, esperança, beligerância, beleza; e sem querer Eu esbarrei com o braço num pote que tava em cima da mesa cheio de soberba. Derramou aquela coisa por todo aquele território e desde então não tem Eu que os aguente.
Agora tu vê: a figura que os caras fazem de Mim é daquele gordo, ridículo, cabeludo e ainda por cima aspirador-de-pó. Pode isso?
(E olha que o cara não engraxa nem a chuteira do Pelé, hein.)
Se eles valessem o que acham que valem Eu, que sou o dono dessa coisa toda, tava rico.
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Mas deixando esse assunto de lado. E as Coréias, hein?
Isso vai dar merda.
Depois ficam de foguetinho pra cá, foguetinho pra lá, o seu Negão mete a colher no bolo, aperta o botãozinho lá e vai tudo pelos ares.
Olhem o que vocês vão fazer com o Meu mundo.
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E por falar em guerra, assuntos internacionais, líderes filhos-das-puta e tudo mais, trouxe aqui pra cima a tal Margareth.
Sei que por muitos ela já estaria aqui há muito tempo e de uma maneira bem menos natural do que aconteceu, mas o importante é que subiu e livrei vocês dela. Ruim ficou aqui em cima que ela tá querendo montar um Parlamento e instituir medidas de austeridade. Sem falar nas discussões que a Maria vem tendo com ela. Nossa Senhora!!! A Nêga véia já falou pra ela que aqui a Dama de Ferro é outra.
Isso não vai dar boa coisa.
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E a propósito de obituário, como não tava mais aguentando o chato do Chorão gritando nos Meus ouvidos, tive quer trazer o Emílio aqui pra cima pra ouvir uma coisa mais relax. Sambinha sofisticado. Gostoso.
Curto pra caralho os “Aquarela Brasileira”. Tenho todos.
Adoro aquela, “Pelo Amor de Deus”.
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Mas mudando de saco pra mala, e esse babaca do Feliciano que fica falando as coisas em Meu nome?
E o pior; só fica botando no Meu!
“Que Eu matei esse, que Eu matei aquele”. Assim fica ruim pra Mim, nêgo!
Os home até já andaram batendo aqui em casa Me intimando a depôr porque vão reabrir inquérito das mortes do Lennon e dos Mamonas.
Porra, cara, vê se Me erra.

E a propósito: Feliciano não me representa.
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Por hoje é só, p-p-pe-pe-pessoal (hehehe)
Volto assim que tiver um tempinho pra escrever e assunto pra falar.
Fui.

Juízo, que Eu os abençoe e fiquem Comigo.
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Orações, pedidos, súplicas, desejos, vontades, manhas, caprichos, frescuras para:

Clay Rex










"Clay Rex" - REIS, Cly
grafite sobre sulfite - diâm. 5cm

segunda-feira, 15 de abril de 2013

The Smiths Party - Bar Saloon - Rio de Janeiro (13/04/2013)



Tive o prazer de ir, no último sábado, na The Smiths Party, no Bar Saloon, em Botafogo. O lugar, muito acanhado, muito estreito não era o mais adequado, na minha opinião, para um evento tão interessante, com boa divulgação e que teve muito boa procura. Todas as (poucas) mesas estavam ocupadas desde muito cedo, o balcão não tardou a estreitar a circulação no corredor e tenho impressão que, não fosse a chuva que chegou a ser forte em determinados momentos naquele dia todo até quase na hora do show, a procura teria sido até maior e teria gente pendurada no lustre.
Mas enquanto espetáculo, as dimensões do lugar não foram empecilho para que quem estava lá dentro tivesse curtido muito. Primeiro, a apresentação da parte dos Smiths Cover que não tocou The Smiths  apresentando sucessos dos anos 80, bandas que influenciaram e foram influenciadas por Smiths, com grande competência, de um modo geral. Depois, o time completo, com meu amigo, Roberto Freitas à frente, com sua habitual performance  impecável contando com a retaguarda segura e precisa de seus novos parceiros, nesta que foi a primeira apresentação do The Smiths Cover Brasil com nova formação.
Muito bom show, mais uma vez. Já é redundância elogiar. Destaques para mim, para “Suedehead”, “Still Ill”, “Girl Afraid” e “Bigmouth Strikes Again”.
Tive ainda a honra de ter um texto meu, solicitado pelo Roberto, lido na abertura do show. A galera ansiosa pelo início, não deu muita bola, não ouviu muito ou nem percebeu que aquilo era algo relacionado com o show, mas de qualquer forma sinto-me feliz em ter feito parte daquele momento e dessa retomada do The Smiths Cover Brasil. Obrigado, Roberto, pelo show, sempre empolgante, e por me permitir participar disso tudo.

Abaixo o referido texto, lido antes do início da segunda parte do show:

The Smiths Cover Brasil mandando ver no Bar Saloon.
Naquele setembro de 1987, a cidade de Manchester ficava um pouco mais cinza, o universo particular de muitas pessoas ficava mais vazio, e muitas dessas pessoas pelo mundo afora ficavam um pouco mais sozinhas. Era como se tivessem perdido um amigo, um amor, alguém da família. Algumas delas não foram fortes o bastante e tiraram até mesmo de suas próprias vidas como se a partir daquele fato nada mais importasse. Uma banda com um nome despretensioso, como se fossem Zés-Ninguém, de melodias aparentemente simples e letras singelas acabava de anunciar sua separação. Era o fim do The Smiths.
Mas que diferença uma banda faz? Como um grupo de rock apenas é capaz de causar tamanha comoção? De fazer nos sentirmos... assim? Quem já foi preterido por alguém, já hesitou em revelar seus sentimentos a outra pessoa, já voltou sozinho de uma festa, entendia perfeitamente do que aquele carinha topetudo com jeito tímido e ao mesmo tempo impetuoso, falava e se identificava com aquilo tudo. Steven Morrissey exprimia exatamente o que a gente sentia ou já havia sentido em algum momento da vida, colocando aquelas questões com rara sensibilidade e poesia.
Mas talvez letras intimistas e inteligentes não bastassem se não contassem com um emolduramento digno daquelas palavras. Johnny Marr, guitarrista e parceiro de composições, conseguia extrair de seu instrumento melodias mágicas, supostamente modestas, porém compostas com enorme técnica e inspiração, sem apelar para exibicionismos de solos quilométricos ou distorções rascantes. E Andy Rouke e Mike Joyce, costumeiramente menos lembrados, mas não menos importantes, eram a sustentação precisa e segura para aquela dupla genial de compositores.
Mas eles haviam decidido acabar...
Contudo, felizmente, não muito tempo depois do alardeado fim, quase que como um alento, nosso querido Morrissey anunciava que seguiria nos presenteando com sua voz suave e corrosiva e sua pena doce e ácida. Embora em sua exitosa carreira solo tenha já nos brindando com músicas incríveis que nos pegam pelo coração sendo algumas canções realmente excepcionais e grandiosas, nós fãs sabemos que até hoje, ainda que tenha produzido bons trabalhos, a bem da verdade, nunca encontrou verdadeiramente um parceiro à altura do brilhantismo de Johnny Marr.
Talvez por isso, no fundo do peito da cada fã, sobreviva a esperança (quase sem esperança) de que um dia se reconciliem e voltem a fazer aquelas canções que nos fizeram chorar e que salvaram nossas vidas.
Enquanto isso, não com menos prazer, nos conformamos em ter APENAS Morrissey. Como se fosse pouco.



Cly Reis

"Amor", de Michael Heneke (2012)








O filme “Amor”, como todos os outros de Michael Haneke, vem dividindo opiniões. Alguns ressaltam a sinceridade e coragem do longa. Outros defendem que a história é apelativa e gratuita no sentido de chocar. Fato é, entretanto, que “Amor” é atípico. Difícil dizer que o filme não é bom. Mas, ao mesmo tempo, é o tipo de longa que não encabeça a lista de favoritos de ninguém. A história é instigante, forte, e se possível, seca e doce, ao mesmo tempo. “Amor” é um potente soco no estômago.

Na história conhecemos um casal de idosos, Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emamanuelle Riva, em excelente atuação!), que precisa lidar com as complicações de saúde da segunda. Michael Haneke, que assina o roteiro também, se propõe a mostrar como Georges se entrega aos cuidados da esposa, levantando uma polêmica questão: qual seria o maior gesto de amor de Georges? Acabar com a dor da esposa que não quer mais viver, ou prolongar até onde for possível a existência dela?

Com 5 indicações ao Oscar: melhor filme, melhor atriz, melhor roteiro original, melhor direção e melhor filme estrangeiro, o filme faturou o último prêmio. Além disso, também foi o vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes. Isso o coloca ao lado de uma seleta lista de títulos que conseguiram a dobradinha Oscar de Filme Estrangeiro e Palma de Ouro: “Orfeu Negro”, de 1959, e “Um Homem, Uma Mulher”, de 1966. Mas os prêmios, para este novo projeto Haneke, é um aspecto totalmente irrelevante. “Amor” suscita debate e chama a atenção para a fragilidade da vida. Todos nós, um dia, teremos o rumo do fim. Nada de espetacular está aí. O fim é sutil e consistente. Triste e belo. E o maior prêmio do longa é nos lembrar disso.


TRAILER


quinta-feira, 11 de abril de 2013

Biskra










"Biskra - à noite -
Moitas silenciosas; mas o deserto em derredor
vibra com canto de amor dos gafanhotos."

"Biskra" - REIS, Cly
grafite sobre sulfite (7x3cm)

REIS, Cly