Curta no Facebook

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Se Jogadores de Futebol Gravassem Discos







O ClyBlog já de muito versa sobre música e sobre futebol, não raro os dois juntos e misturados. A ver pelas competições entre bandas, como a Copa The Cure, a Copa Legião Urbana e a Copa Beatles – esta, em suas fases finais neste momento –, mas também por conta de crônicas, contos, ÁLBUNS FUNDAMENTAIS e até poesias, vários deles debaixo do guarda-chuva ClyBola, seção motivada pelo clima de Copa do Mundo no Brasil.

Pois eis que, nesta mesma vibe, o designer inglês James Campbell Taylor também captou tal sinergia entre bola e ritmo e inventou brilhantes capas de discos como se jogadores emblemáticos da história do futebol fossem também cantores – afinal, o “palco” desses artistas da bola eram os gramados. E que trabalho criativo! Sem recorrer a obviedades, mas também salientando particularidades dos jogadores como apelidos, comportamento dentro de campo e marcos de suas carreiras, Taylor (torcedor do Leicester City) casou essa naturalidade de cada atleta às tendências gráficas de seu país no tempo em que jogavam. Para isso, baseou-se, principalmente, no conceito visual de selos e gravadoras como Capitol, Parlophone, Verve, Columbia e Sire para atingir esse objetivo.

E Taylor marcou um golaço. Além de ricos detalhes como autógrafos rabiscados, o desgaste do papelão da capa do vinil e a saliência provocada pela pressão exercida pela gramatura do disco dentro do envelope, a concepção para cada um ficou redondinha como um chute certeiro. Destaque para as do Ronaldo Fenômeno e do Roberto Baggio que, não bastasse o esmero de comporem uma arte minimalista usando as clássicas combinações entre cores e caracteres, tal como faz a Blue Note, ainda escreve abaixo os clubes onde cada um jogou, igual à nominata dos músicos participantes daquela gravação que o selo sempre usa. Outras geniais: a do craque alemão Franz Beckenbauer no álbum “Der Kaiser” ao estilo dos LP’s de música clássica da Deustsche Grammophon; a do irlandês Georges Best, super mod anos 60; ou a do inglês David Beckham, que (afora o bem sacado título: “Spice Boy”) brinca com o design pop-mainstream da Mercury nos anos 90.

Veja as 24 artes, que fazem dar até vontade de escutar os discos. Fica a pergunta no ar: será que além do talento com os pés eles também mandariam bem no gogó?

Arthur Antunes Coimbra - "Zico"
A&M Records

Roberto Baggio - "Il Divino Codino"
Blue Note

David Beckham - "Spice Boy"
Mercury Records

Bob Charlton - "War Kid"
Decca

Emilio Butragueño - "El Buitre"
Warner

Eusébio da Silva Ferreira - "Pantera Negra"
Verve

Franz Beckenbauer - "Der Kaiser"
Gramophon

George Best - "Best! The Fifth Beatle"
Parlophone

Gerd Müller - "Der Bomber"
iR

Gianni Rivera - "Golden Boy"
RCA Victor

Jairzinho - "Furacão da Copa"
TAMLA

Johan Cruyff - "Totaal Voetbal"
Philips

Lineker and Gascoine - "Have a Word With Him"
Factory

Diego Armando Maradona - "El Pibe de Oro"
Atlantic

Mario Kempes - "El Matador"
Capitol

Michel Platini - "Le Roi"
Epic

Paolo Rossi & Marco Tardelli - "Eroi di Madrid"
RCA

Edson Arantes do Nascimento - "O Rei Pelé"
Capitol Records

Roger Milla - "Dance Party"
Island Records

Ronaldo Luís Nazário de Lima - "O Fenômeno"
Blue Note

Doutor Sócrates - "Calcanhar de Ouro"
Sire Records

Carlos Valderrama - "El Pibe"
Columbia

Marco Van Basten - "De Hollandse Zwan"
Polygram

Zinedine Zidane - "Zizou"
EMI








O Bode Espiatório

domingo, 15 de junho de 2014

The Beatles Rock Cup - classificados para as semifinais

Quatro.
Não, não estou falando do número de integrantes da maior banda de todos os tempos.
Quatro foram as competidoras que restaram na Copa The Beatles do clyblog.
A surpresa da fase ficou por conta da eliminação de Black Bird que vinha trucidando até mesmo fortes adversários, até então, mas ficou pelo caminho pelas mãos de Please Please Me; e o destaque para A Day in the Life que, no grande clássico da rodada, despachou a grande Let It Be. Bom, mas só uma poderia passar.
E a coisa é assim mesmo. Restam quatro e de cada um dos dois confrontos, só uma passará e, ao final, só uma levará o caneco.
Confira abaixo as quatro classificadas para as semifinais. O sorteio é amanhã mesmo.




sábado, 14 de junho de 2014

The Beatles Rock Cup - quartas-de-final

Qualquer quartas-de-final é difícil. Agora imagina na Copa Beatles? Só pedreira, só jogaço. Pois restaram apenas 8 das 96 canções que começaram a competição. A banca terá dificuldades na decisão dos confrontos, certamente.
Curiosidade: metade das músicas são do disco “Let it Be”, que mostra o quanto a galera deu preferência pela fase mais madura da banda, mas por outro lado também por ser um disco que buscou uma “volta às raízes” dos rapazes de Liverpool. As outras obras, claro, não ficam pra trás. O seminal “Please Please Me” vem representado por sua faixa-título. Do “Branco”, “Blackbird” vem se mostrando forte candidata, passando fácil por todos os adversários que pegou até então. E, evidentemente, a obra-prima "Sgt. Pepper's..." tinha que ter a sua também! “A Day in the Life”, outra poderosa concorrente, que faz o talvez mais difícil jogo das quartas ao enfrentar a clássica “Let it Be”. Completando, tem ainda a bela “Golden Slumbers”, do “Abbey Road”, cuja campanha sólida vem surpreendendo os adversários fase a fase. Enfim, vai sair fumaça! Veja os confrontos:

cotidianas #302 - Gira Bola



Gira Bola

Bola gira, gira bola;
Gera grito, grito sobra;

Vai pra cima, mas cai suave;
Passa na linha, encosta na trave;

Esfera esfria, foi para fora;
Volta quente, tá no campo agora,

Vem quadrada, domina redondo;
Toque de lado, é o time propondo;

Toca com o pé, encosta com a mão;
É tumulto, vira reclamação;

É tiro curto, solta um canhão;
É gol! É gol! Grita a nação!


sexta-feira, 13 de junho de 2014

Jorge Ben - "África Brasil" (1976)


"O Jorge [Ben] é o cara que eu conheço
que consegue colocar mais
palavras num mesmo verso."
Jô Soares



Se a expressão samba-rock pode ser atribuída à música de um artista, esse cara com certeza é Jorge Ben. Agora, se tem um disco para o qual esta mesma expressão possa ser aplicada com perfeição, esse álbum é o "África Brasil". Neste disco de 1976, Jorge Ben com a ajuda de uma banda de peso, cheia de suíngue, embalo, com músicos de diversas procedências e influências, trocava o violão pela guitarra elétrica e conjugava magistralmente os elementos básicos destes dois estilos, enriquecendo-os ainda com outros como funk, soul e jazz, obtendo um resultado absolutamente inigualável. Pode-se dizer que "África Brasil" é mais ou menos como Bob Dylan 'abandonado' as canções folk e pegando a guitarra... Só que aqui sem as vaias.
Com eletricidade, potência, ímpeto e pegada, "O Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)", que dá as boas-vindas no disco, é o sonho de qualquer banda que tenha tentado dotar seu rock de embalo. Com um riff contagiante e pungente, um baixo envolvente e uma cozinha que mescla funk, samba e batidas afro, a música que fala de um atacante carismático e goleador, a quem torcida saíra de casa somente para ver jogar, talvez seja o melhor exemplo dessa sonoridade pretendida e obtida por Jorge Ben neste álbum.
"Hermes Trismegisto Escreveu", uma das referências e amarração com o disco "A Tábua de Esmeralda" é uma incrível soul music da melhor qualidade onde reaparecem os interesses do cantor por assuntos místicos; já demonstrados em outros trabalhos; o futebol por sua vez, também volta a aparecer em "Meus Filhos, Meu Tesouro", batucada, carregada de brasilidade e ritmo, é interessantemente cantada à rock por Jorge Ben, chegando a rasgar a voz em determinados momentos, numa descontraída declaração de amor aos filhos. As boas "O Filósofo" e "O Plebeu" mantém a tradição do sambalanço de letras quase ingênuas características do cantor; e o clássico "Taj Mahal" ganha uma versão mais elétrica, mais guitarrada, mas interessantemente, cheia de cuícas.
"Xica da Silva", que serviu de trilha sonora para o filme homônimo, narra, em um samba manemolente e sensual, a história de uma negra que ascendeu à aristocracia brasileira graças a um caso com um nobre português na época do Império, bem naquele estilo característico de letra de Jorge Ben, de versos extensos com o máximo de palavras possíveis como observou muito bem certa vez o apresentador Jô Soares numa entrevista com o diretor do filme, Cacá Diegues.
Em "A História de Jorge", o cantor faz aquela tradicional auto-referência ("Jorge de Capadócia", "Jorge Well") dotando desta vez o personagem de mesmo nome que ele com o poder de voar; em "Camisa 10 da Gávea", Jorge Ben expressa mais uma vez sua paixão pelo futebol manifestando dessa vez sua admiração pelo ainda jovem craque rubro-negro, Zico, num samba-jazz cadenciado com mais um trabalho admirável do baixista Dadi, o Leãozinho da música de Caetano Veloso, ex-Novos Baianos e que viria a tocar em bandas como A Cor do Som e Barão Vermelho.
O Babulina faz a também costumeira homenagem a seu santo de devoção e igualmente xará, São Jorge, no rock-jazz-samba frenético e acelerado "O Cavaleiro do Cavalo Imaculado"; e fecha o disco com a faixa que lhe empresta o nome, "África Brasil", que na verdade não seria mais que uma versão da música "Zumbi", do álbum "A Tábua de Esmeralda", em outra referência-laço com aquele disco clássico, se não fosse sua agressividade rock, gritada e rasgada, a ponto de me lembrar "California Über Alles" dos Dead Kennedy's.
 "África Brasil" foi o responsável pela retomada da minha coleção de LP's uma vez que há uns 3 anos atrás, numa exposição sobre vinil, no CCBB resolvi comprar a reedição em bolachão deste clássico que havia acabado de sair (cara $$$), antes mesmo de comprar um novo toca-discos. Mas agora tenho ambos, o LP e o toca-discos. Bom,... e na verdade tenho o CD também.
Por muitos, "África Brasil" chega a ser apontado como o melhor disco nacional de todos os tempos e embora não seja o meu, entendo a preferência e não considero nenhum absurdo. Com certeza é um dos grandes álbuns da discografia nacional e mais uma obra-prima da fase mais criativa de Jorge Ben.
Salve Jorge!
Salve a África!
Salve "África Brasil"!
*******************

FAIXAS:
01 – Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)
02 – Hermes Trismegisto Escreveu
03 – O Filósofo
04 – Meus Filhos, Meu Tesouro
05 – O Plebeu
06 – Taj Mahal
07 – Xica da Silva
08 – A História de Jorge
09 – Camisa 10 da Gávea
10 – Cavaleiro do Cavalo Imaculado
11 – Africa Brasil (Zumbi)


********************
Ouça:


Cly Reis

Equipamentos Medievais de Tortura


















"Equipamentos Medievais de Tortura"
fotos e manipulação digital: REIS, Cly

quinta-feira, 12 de junho de 2014

cotidianas #301 - Franzina




Franzina,
Estrangeira, londrina,
Sobre os ombros a névoa do organdi...
Reaparecida em minha sensação!

Estávamos os dois quase juntos, juntinhos,
                 Povo
                 Parque Antárica
Insulados na multidão erva de campo indiferente
Era gostoso estar assim unidos
                                          esquecidos...
Qual o teu nome? o meu?
Seguindo a bola.
                         Campeonato.
                   APEA
             Taça
Os dois apaixonados pelo jogo.
                                   Por nós.

Falta muito?
- Dez minutos.
- Meu Deus!
- É agora!

E foi. Bianco avançou demais; Guariba... não; Netinho centrou; Mário caiu, mas Formiga emendou e a bola...
                                               Friedenreich!
                                        Goal!
                                 Delírio-vinho!
                         Alegria bacante!
                As Grandes Dionisíacas!
       Elaphebolion em dezembro!
Alle-goak, goak, goak!...

Olhaste-me brasileira
                                 Paulistano
Com duas lágrimas nas hortênsias dos teus olhos;
e teu ombro apoiou-se no meu peito de rapaz...
Asa de pomba! asa de pomba de organdi!...

Franzina,
Reapareceste-me agora na lembrança,
Doce como a pálpebra que se fecha para o sonho...
Ai! saudade de amor!
Ai! sublime tortura!
Ai! memória de peito comovido
Onde poisa macia uma asa de mulher!...

*****************************************
"Franzina"
(Mário de Andrade)

terça-feira, 10 de junho de 2014

COTIDIANAS ESPECIAL nº300 - O Encadernador de Livros


O Encadernador de Livros
de Jowilton Amaral da Costa


— Bom dia. O senhor é o seu Lobato? — Perguntou Antônio, estudante de Medicina do segundo período da Universidade Federal de Sergipe. Um jovem alto, com grandes olhos azuis e cabelo loiro pixaim, com longos dreadlocks escondidos embaixo de uma touca com as cores da bandeira jamaicana. Um observador menos atento não suspeitaria minimamente do tamanho de suas madeixas. Trazia consigo, com muita dificuldade, os três volumes da última edição do Sobotta.
— Sim, sou eu mesmo. Quem é você, filho? — Falou o velho, esticando seu rosto macilento, por entre a janela, a qual o parapeito servia de mesa de trabalho, em direção ao jovem que acabara de chegar, e apertando os olhos, por de trás de duas grossas lentes de grau, rodeadas por uma medonha armação, na tentativa de enxergar melhor seu interlocutor. O velhusco se assemelhava a uma fuinha usando óculos “fundo de garrafa”. Essa imagem fez com que Antônio sufocasse uma gargalhada.
— Sou filho do doutor Porfírio. Ele me mandou aqui para deixar estes livros para o senhor encapar. — Respondeu Antônio, quase bufando, após pousar as “bíblias” no resguardo.
— Ah, sim, que honra. O seu pai é meu cliente há muitos anos. Não só ele, mas também seu avô, seu bisavô, seu... Enfim, toda a sua nobre família, meu caro. Uma linhagem de médicos respeitados em todo país. Não é mesmo?
— É. — Respondeu Antônio sem empolgação.
Justamente por causa dessa “linhagem de médicos respeitados em todo país” que Antônio estava sendo obrigado a cursar Medicina. Logo ele que não suportava ver sangue e morria de medo e asco dos cadáveres que tinha de manipular nas aulas de anatomia. Detestava biologia, detestava a medicina, detestava seu pai por interferir em suas escolhas e, principalmente, odiava a si mesmo por ser um poltrão e não enfrentar o tirano e dizer que seu sonho não era aquele. Ele sonhava em estar em cima de um palco cantando reggae. E realmente era bom nisso, verdadeiramente muito bom. Possuía todos os predicados de um líder de banda de sucesso. Tinha carisma, era bem apessoado, e dominava o público como poucos, além de ser dono de uma voz poderosa, voz de “negão”. Não obstante a sua pele alva, ele sabia que havia genes da mãe África correndo em seu sangue. Seu cabelo provava isso. E se sentia orgulhoso. No entanto, o doutor Porfírio não podia ouvir falar em reggae, muito menos imaginar que seu único filho não haveria de seguir seus passos. O cabelo à moda Rastafári foi engolido muito a contragosto, engasgadamente. Antônio teve que prometer ao pai que cortaria assim que iniciasse as disciplinas profissionalizantes.
— Então você é o Antônio. Conheci você quando ainda era um nenenzinho que apenas engatinhava e chorava. — Falou e sorriu, mostrando seus dentes enegrecidos e soltando um bafo pútrido, com odor de sangue e pus. Antônio não conteve um calafrio de repugnância. Percebeu também que não só o hálito do velho era fétido, e sim todo ele. Seu Lobato parecia estar envolto por uma redoma mal cheirosa. O jovem sentiu-se mal. Precisou respirar profundamente para controlar uma ânsia de vômito que o arrebatou.
— Sim, sou eu mesmo. — Falou apressadamente, prendendo a respiração. Desejava sair de perto daquele sujeito o quanto antes. — Meu pai pediu que o senhor o avisasse por telefone quando os livros estivessem prontos. Ele vem buscá-los pessoalmente.
— Sim, sim, está muito bem. Eu ligarei para o doutor. Ele não disse mais nada? — O velho interrogou.
— Ah, também disse que os livros deveriam ser encadernados com o material especial, e desta vez gostaria de uma cor clara.
— Pois está muito bem. Cor clara. — Concluiu encarando Antônio com uma feição de curiosidade, e emendou:
— O doutorzinho ainda não sabe de nada, não é mesmo? — Seu rosto abriu-se numa carranca esquálida e grotesca. Antônio suspeitou que aquilo fosse um tipo de risada, e não conteve outra tremedeira, desta vez de medo.
— Não sei do que o senhor está falando, seu Lobato.
— Pois muito bem, sim, sim, está tudo certo. Em breve o doutorzinho saberá. Todos de sua família sabem. Sim, sim, todos eles sabem, sabem sim... Sabem sim... —Continuou a repetir as últimas palavras como num mantra, parecendo ter entrado em transe e esquecido completamente a presença do pretenso pop star, que aproveitou para dar o fora dali o mais rápido que pôde.
Seu Lobato, ainda falando só, dirigiu-se aos fundos de sua casa, saindo da exígua sala onde trabalhava encadernando livros. Ele exercia esta profissão há muitos anos, incontáveis anos, sempre na expectativa de pedidos como aquele, que valessem a pena. Um trabalho com o material especial equivale a quase três meses de trabalho com os forros comuns. Três volumes salvariam o ano inteiro. O velhinho com cara de mamífero mustelídeo encontrava-se radiante quando abriu o alçapão ao rés do chão da cozinha e gritou, ajoelhado, olhando para baixo:
— THALES, OH THALES! — Desceu alguns degraus e chamou novamente. — THAAAALES. — Silêncio absoluto. — Não é possível que você esteja dormindo de novo, seu indolente de uma figa. — Ralhou o velho. — THALES, SEU CRETINO! APAREÇA! De repente, surge em meio às trevas do porão um sujeito muito alto, muito gordo e possuidor de uma imensa cabeça, vestido apenas com um fraldão geriátrico. Era Thales. O gigantesco homem, com mais de dois metros de altura, era portador de retardo mental, que o transformara numa criança hipercrescida. Sua idade cronológica era quarenta anos enquanto a mental não passava dos sete.
— Oi mestre. — Disse Thales, levantando uma de suas mãos rechonchudas e acenando para o homenzinho enrugado. — Depois ergueu a perna direita, virou-se de lado, apontando suas nádegas na direção de seu Lobato, fez uma cara de esforço e... “Bruuuuuu bru bru bruuuu”, soltou um sonoro gás pelo seu vaso traseiro. — Ops, desculpe mestre. — Gargalhou.
— Seu moleque malcriado. — Esbravejou o mestre encapador.
O Porão era um misto de curtume e matadouro. Peles, couros e peças de carne incomuns num açougue estavam pendurados por todos os lados. Seu Lobato encaminhou-se para a gaveta onde guardava as peles prontas para uso.
— Maldição. — Exclamou.
— O que aconteceu mestre? Perguntou Thales.
— Não temos mais peles brancas, só pardas e negras. Thales, hoje de madrugada nós sairemos para caçar. — O rosto do gigante iluminou-se.
O porão era na verdade um túnel, com vários corredores e com muitas passagens secretas para superfície. Estendia-se, em baixo do assoalho da cidade, por vários quilômetros quadrados. A antiga casa, situada na colina do Bairro Santo Antônio, próximo à igreja, era da família de seu Lobato há cento e cinquenta anos. Há um século e meio aqueles túneis eram usados em benefício da nobre e milenar arte de encadernar livros com pele humana.
Escolheram para caçada noturna um túnel que conduzia ao centro da cidade, que se exteriorizava dentro de uma casa abandonada a trezentos metros da Rua da Cultura. Aquele era o local predileto de seu Lobato para a espreita de suas vítimas. Na verdade eles estavam numa ruela, quase um beco, cercada por construções antigas em decrepitude e terrenos baldios, que cortava caminho em direção ao terminal rodoviário. Pelo o dia o atalho era muito usado, todavia, durante a noite o lugar se tornava deserto, silencioso e lúgubre. A quietude somente era cortada, aqui e acolá, pela algazarra de grupos de amigos que passavam no entorno. Contudo, sempre acontecia de alguém apressado e corajoso, ou mesmo um desavisado boêmio acabar entrando naquela sinistra passagem, vindo das festas que aconteciam nas proximidades.
Thales estava eufórico, aqueles passeios eram uma grande diversão para ele. Correr atrás das pessoas, vestido e pintado como um palhaço, segurando um enorme porrete, e assustá-las, trazia uma excitação extraordinária a sua limitada mente.
Após uma hora de espera, uma potencial presa aproximou-se. Vinha cambaleante e segurava em um das mãos uma garrafa de bebida. Parecia estar falando sozinho, com um interlocutor invisível. Ele gritava apontando o dedo para as paredes e imprecava cheio de fúria para um ouvinte imaginário. Seus longos cabelos sararás balançavam ao ritmo de sua indignação.
— É isso mesmo que o senhor ouviu, eu vou largar este maldito curso e vou fazer o que eu amo, está me ouvindo, hã? Está me ouvindo, papai? Eu vou largar aquela maldita faculdade.
Enquanto falava também dançava, dando pulinhos de um lado para o outro, jogando os braços para o alto, seguindo uma melodia que só cantava em sua cabeça, ao mesmo tempo em que vertia o líquido da garrafa em caudalosas goladas.
Logo depois da visualização da vítima, Thales saiu furtivamente do esconderijo e levou silenciosamente seu corpanzil para o fim da rua, na outra esquina. O relógio da catedral acabara de anunciar três horas da manhã. Seu coração batia descompassado de emoção. Finalmente, depois de muitos dias, ele iria brincar. Pena que durava tão pouco.
Seu Lobato ficou onde estava aguardando ansiosamente o momento oportuno. Ao ver o jovem bêbado aproximar-se de onde Thales estava, levou a boca um apito e três curtos silvos singraram no ar da madrugada: “Pii, pii, pii.”. Era a deixa que Thales esperava.
Um enorme palhaço segurando um porrete de ferro saiu das sombras e caminhou lentamente para a saída da rua, fechando a estreita passagem com seu imenso corpo, sorriu macabramente e arrastou seu bastão metálico no chão de paralelepípedos. O homem que dançava parou. Tentou acertar seu corpo entorpecido na direção do colosso bizarro a sua frente. Apertou os olhos, balançou para frente e para trás desequilibradamente e falou:
— Mas que “cabrunco” é isso!
Thales começou a andar vagarosamente de encontro a seu novo amiguinho. O pique-e-pega iria começar. A velocidade da aproximação foi aumentando gradualmente, até chegar ao ponto de uma corrida alucinada, com o porrete acima de sua cabeça, firmemente agarrado por suas enormes mãos, enquanto expelia de sua boca um som assustadoramente gutural.
Essa cena “estifenquinguiana” fez com que o ébrio despertasse. Todo o álcool que circulava por seu corpo sublimou como num passe de mágica, dissipando-se, sendo substituída por uma torrencial descarga de adrenalina. Sentiu o gosto metálico na boca, e correu em disparada sem olhar para trás. Quase no mesmo instante avistou uma pequena silhueta, escondida num terreno abandonando, cercada por madeirites, que acenava chamando-o para lá. Não pensou duas vezes e seguiu na direção da mão que balançava. Passou a toda velocidade por uma pequena porta de madeira apodrecida que foi imediatamente fechada atrás de si. Quando se virou, resfolegando, e olhou para o velhinho que lhe encarava, espantou-se e disse:
— Hei, eu conheço... “Plof”. Sua frase foi interrompida por uma machadada, habilidosamente desferida, e com uma potência incrível para um velhinho de aparência tão frágil, que dividiu seu crânio em duas partes como a uma melancia. Minutos depois Thales chegou esbaforido.
— Thales pegue o corpo. — Mandou seu Lobato.
O grandalhão agachou-se e colocou o homem morto embaixo do seu braço direito, como um menino que carrega displicentemente seu brinquedo quebrado. Thales não esboçava nenhum tipo de emoção em suas feições, talvez, apenas, um mínimo de frustração por sua diversão evanescer tão rapidamente.
O corpo foi esfolado, toda a pele retirada delicadamente e com uma precisão cirúrgica, e jogada numa bacia de zinco contendo sal é um pouco de água. Pedaços da traseira também foram salgados e penduradas num varal. Ossos, vísceras e o restante da carne do humano abatido foram jogados para serem corroídos num tonel repleto de ácido fosfórico em altíssima concentração. Todo o sangue foi congelado. O sangue das vítimas era o segredo da longevidade e da vitalidade assombrosas daquele homenzinho espetacular e de seu gigante de estimação.
A curtição de pele humana segue os mesmo passos da convencional de couro animal. No entanto, o tempo levado da pele crua humana até o ponto ideal para a arte da encadernação é muito menor.
Em apenas dois dias a pele do jovem de cabelos rastafári foi usada para encapar os livros de doutor Porfírio, que acabara de chegar de um congresso de Reumatologia na França, e embora estivesse com muita saudade de casa e de seu filho, resolveu passar no “ateliê” de seu Lobato para pegar seus livros. Ele sempre ficava excitado quando via aquela arte. Sua família, oriunda da Europa, mantinha esta tradição desde o século XVII, e ele não via a hora de contar seus segredos para Antônio.
Já com os volumes de anatomia na mão, e se despedindo do velho Lobato, disse empolgadamente:
Ah, seu Lobato, o senhor é mesmo um artista. — Elogiou doutor Porfírio, ao passo que acarinhava seus dedos pela extensão dos volumes, sem imaginar, que sua pele roçava a pele de seu próprio filho. 



Jowilton Amaral da Costa é Cirurgião-Dentista e Escritor, nascido em Fortaleza, Ceará, hoje reside em Nossa Senhora de Lourdes, Sergipe. Tem quarenta anos, é casado e tem duas filhas. Possui cinco contos já publicados (Com a Benção de Deus, O Diário de um Soldado Colérico, Os Movimentos Rápidos dos Olhos, O Amaldiçoado G. T. Sullivam e Prato Frio) em livros de antologias. E mais três a serem publicados em breve (Os Observadores, A Estranha Família K e O Planeta X) também em antologias. Escreve contos de terror, suspense e policial, além de crônicas. Divulga seus textos em sua página Loucos Pensamentos, no facebook (www.facebook.com/loupen).

The Beatles Rock Cup - oitavas-de-finais

Confira aí os confrontos sorteados das oitavas-de-finais da Copa The Beatles:


Exposição "Salvador Dalí" - CCBB - Rio de Janeiro/RJ (Junho/2014)










Exterior do CCBB
Tive o prazer de poder visitar a exposição "Salvador Dalí", aberta no Centro Cultural Banco do Brasil, aqui no rio, onde estão expostas mais de 150 obras do artista espanhol. Verdadeiramente impressionante sob todos os aspectos, técnico, criativo, expressivo, etc. A obra do catalão, notória pelo surrealismo, é vista ao longo de toda sua carreira apresentando todas suas diversas fases, sua natural evolução em cada uma delas e suas próprias transformações conceituais e formais.
Selfie com Dalí
Além, é claro, das telas surrealistas, propriamente ditas, as grandes atrações da exposição, é interessante observar com atenção as ilustrações feitas por Dalí para livros como "Dom Quixote", "Alice no País das Maravilhas" e "Fausto"; as adaptações cinematográficas em parceria com Luis Buñuel e o trecho de sonho dirigido por Alfred Hitchcock no filme "Spellbound"; e dedicar uma especial atenção às obras de sua última fase, pouco antes de falecer, na qual seu surrealismo ganhava elementos mais geométricos e abstratos, e suas telas traziam um conteúdo mais carregado de homenagens e reminiscências, parecendo já antecipar sua morte.
É um imenso privilégio ter no Brasil uma exposição deste porte e significância e não menor, é o de poder visitá-la e apreciar a obra de um dos grandes mestres das artes de todos os tempos. Grande mostra. Quem tiver a oportunidade de ir, não perca.

Abaixo, algumas imagens da exposição:




Auto-retrato cubista

Primeira fase ainda com bastantes elementos abstratos

Obra ainda da primeira fase do artista

Público prestigiando a exposição

"Monumento Imperial a Mujer Niña".
Em destaque, uma pequena "Monalisa",
um dos muitos enigmas, símbolos e referências
ocultos nos quadros de Dalí. 

Publicações com destaque para o artista

A obra de Dalí sempre repleta de símbolos e significados.
O elemento ovo sempre muito presente.

"La Velocidad máxima de La madonna de Raffael"

Materiais de antigas exposições da obra de Dalí

Série de obras remetendo a botânica

Da série de ilustrações para "Dom Quixote",
os Moinhos de Vento

Das ilustrações para "Alice no País das Maravilhas",
A Toca do Coelho

As páginas de "Alice...", de Carrol,
ilustradas por Dalí

ilustrações para a obra "Fausto"
de Goethe

Na última fase da carreira,
a presença mais constante de elementos geométricos

Homenagem de Dalí a Michelângelo
já nos últimos anos de vida.

Mulher transfigurando-se em violino

Este blogueiro na instalação interativa que reproduz
a sala, criada por Dalí,
imitando o rosto de Mae West
********************************************

Exposição Salvador Dalí
visitação: até 22 de setembro, de quarta a segunda, das 9h às 21h
local: Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro
Rua Primeiro de Março, 66, Centro, Rio de Janeiro (RJ)

ingresso: gratuito


Cly Reis