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quarta-feira, 26 de novembro de 2014

60ª Feira do Livro - As Imagens


 



Escolhas difíceis

Mergulhada na leitura

Qualquer lugar é bom para se plantar uma flor

Peça infantil

Despertando o interesse pela arte desde cedo

Autógrafos

Atenção à leitura

Olha o sino.
Cortejo de encerramento em homenagem ao Xerife Julio La Porta

Jornal Fala Brasil 20 anos

Pela janela

O patrono Airton Ortiz

Animando as crianças

Oficina de grafite

Batendo pernas pela Feira

Ninguém quis ficar de fora


Boas risadas

O Pequeno Batman no banco da praça

A noite do poeta predileto

Livros para todas as idades,...

... todos os estilos,...

... e todas as culturas

Literalmente, devorando um livro

O pai da Mônica, Maurício de Sousa

Reservado

Escadaria

A expressão já diz tudo, da satisfação por um livro

Espaço para quadrinhos, fanzines e cultura pop

O cortejo de encerramento da 60ª Feira do Livro




fotos: Otávio Fortes, Mariana Fontoura, Luís Ventura e Iris Borges
cedidas por Leocádia Costa
coordenadora da equipe de fotos CRL/2014

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Lee Morgan – “The Sidewinder” (1964)





“Quando a melodia de ‘The Sidewinder’
me veio à mente,
não estava pensando naquele tipo de cobra,
mas sim num cara mau”.

Lee Morgan



O trompetista norte-americano Lee Morgan é um dos maiores nomes da história do jazz, inegavelmente. Porém, seu caminho poderia ter sido ainda mais frutífero não fossem essas coisas inexoráveis da vida. No caso dele, a morte. Porém, durante os 36 anos em que esteve no planeta Terra iluminando-o com sua música, o período entre 1963 e 1964 lhe é especialmente relevante. Foi quando ele produziu algumas de suas mais significativas obras. Poderia muito bem falar aqui do hard bop “The Gigolo”, com sua explosão soul de “Yes I Can, No You Can't”, que lançou, em 1965, com uma afinadíssima banda (Harold Mabern, piano; Bob Cranshaw, baixo; Billy Higgins, bateria; e o mestre Wayne Shorter, no sax tenor). Podia, igualmente, voltando dois anos no tempo, exaltar o brilhante “Search for the New Land”, cuja faixa-título é dos colossos do jazz mundial mas que, para além disso, é inteiramente radioso, contando com os mesmos Higgins e Shorter e mais as luxuosas adições de Reggie Workman, no baixo, e os dedos mágicos de Grant Green na guitarra e de Herbie Hancock ao piano. Ainda caberia trazer o obscuro bop modal “Tom Cat”, em que Morgan se juntara, logo depois, às feras Jackie McLean (sax alto), Curtis Fuller (trombone), McCoy Tyner (piano), Cranshaw (baixo) e seu “padrinho” Art Blakey (bateria).
Porém, a fase era tão produtiva que Morgan não ficou apenas nesses grandes feitos. Outro deles pode ser considerado ainda mais revolucionário e esplendoroso: “The Sidewinder”. Juntamente com o já resenhado aqui nos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS "Empyrean Isles", de Hancock, compõe o duo de discos que lançaram, há exatos 50 anos, as bases do jazz-funk, inspirando toda uma geração de jazzistas (Vince GuaraldiMiles Davis, Green, Henri Mancini, João Donato, Don Salvador) além da soul music e do pop-rock. Foram os discos que fizeram o jazz sair do chão. A beleza formal dos acordes complexos ganha aqui ainda mais malícia, gingado, groove.
Nascido na Filadélfia, o prodígio Edward Lee Morgan começou pré-adolescente a soprar seu instrumento inspirado em Miles, Clifford Brown – seu ídolo – e Dizzy Gillespie, com quem tocara no início da carreira. Em 1956, aos 19 anos, tem a chance de integrar a The Jazz Massangers de Blakey, mesmo ano em que assina pela primeira vez com o selo Blue Note, do qual saiu quatro anos e sete discos depois. Nessa época já se via o virtuosismo, a fluência e o vigor de seu toque, destacando os poderosos registros agudos, estilo que foi aperfeiçoando ao longo dos anos (inclusive, na célebre participação como sideman em “Blue Train”, memorável álbum de John Coltrane de 1957). Até que, após passagens por gravadoras menores, em 1963 retorna à “casa” e, com a mão Rudy Van Gelder na mesa de som e produção de Alfred Lion (além da sempre linda arte de Reid Miles na capa), leva ao estúdio da Blue Note, em Nova York, os camaradas Cranshaw e Higgins juntamente com as feras Joe Henderson, no sax alto, e a Barry Harris, no piano, para registrar “The Sidewinder”.
Como todo bom jazzista, Morgan é altamente ligado ao blues. Entretanto, ele injeta ao rhythm’n’blues uma carga ainda inédita do funk oriundo das ruas dos guetos urbanos, que tinham, desde os anos 50, na figura de James Brown, Otis Redding, Solomon Burke e Aretha Franklin seus principais representantes. A química foi infalível. A faixa-título faz as honras de abertura, mostrando como se faz jazz com inteligência, apuro técnico e alma soul. Cranshaw dedilha um acorde de quatro notas que desencadeia uma explosão de groove, com Higgns, brilhante, metendo swing na caixa e no prato; Harris, segurando tudo num gostoso tempo 2 x 2; e os sopros, que mandam ver no chorus. Impossível não balançar o esqueleto! Tão lindos quanto o improviso de Morgan, de Harris e de Henderson – músico experiente como Morgan que de cara já diz a que veio –, o de Cranshaw, atrevido, fecha a sequência de solos, quando a banda retoma inteira para concluir o número. Para coroar o feito de Morgan, ninguém menos que uma de suas principais inspirações, James Brown, regravou a faixa menos de um ano depois. O Godfather of Soul gostou tanto da homenagem que pôs a The James Brown Band a executar uma mais acelerada versão de “The Sidewinder” em “James Brown Plays James Brown: Yesterday and Today”, com nada menos que um naipe de cinco metais à frente.
“Totem Pole”, com base de acordes circulares do baixo, traz uma estrutura mais tradicional do hard bop. Porém, os solos são de uma malemolência inquestionável. Morgan arranja o seu numa combinação orgânica com o piano de Harris, que dialoga com o trompete durante todo o improviso. Nesta, Handerson, que já havia soltado as garras na anterior, realiza um de seus mais memoráveis solos. Capaz de unir a bossa-nova e o be-bop a um virtuosismo de cores parkerianas, ele incrementa a música com seu estilo particular.
“Gary's Notebook” traz ainda mais embalo e um riff complexo, tocado com simetria pelos sopros. De encher os olhos. Morgan mais uma vez se dá o direito de iniciar os improvisos, ditando um toque fluente e variante que Henderson e Harris seguem com desenvoltura. Na mesma linha e ritmo, "Boy, What A Night" é mais uma de impressionar pela sincronia de toda a banda, seja no chorus ou nos momentos de realce dos instrumentos. Desta vez, é o sax de Henderson que inicia os trabalhos, num conceito interessante em que ele estende as notas, criando intervalos diferenciados e elásticos. Que Morgan é sempre um espetáculo é sabido; mas nesta Harris não fica para trás, seja na marcação swingada da base, seja no solo, certamente o destaque da faixa. Tomada de blues, a improvisação do piano bem poderia figurar em qualquer rock de Little Richard ou Jerry Lee Lewis.
Colorida, “Hocus Pocus” fecha o álbum em alto astral. Morgan eleva a escala, num tocar radiante. Van Gelder inteligentemente deixa o microfone captar ao fundo a empolgação de algum dos músicos, que acompanha com a voz algumas frases dos instrumentos (provavelmente o próprio band leader) – o que faz lembrar Charles Mingus em sua ode ao blues “Oh Yeah”, de 1962. Henderson e Harris mantêm o clima e a qualidade indiscutível. Perto do final, Higgns, dos principais responsáveis pelo conceito do álbum, uma vez que o amarra de ponta a ponta com um ritmo gingado e bluesy, ganha seus momentos de improviso também, conversando com o trompete de Morgan. Este, por sua vez, também não deixa terminar a gravação sem emitir suas peculiares notas agudas, que surpreendem o ouvido e o deliciam ao mesmo tempo.
“The Sidewinder” entrou para a história como o maior sucesso de Lee Morgan, atingindo o 10º lugar na categoria R&B da Billboard. Os anos subsequentes iriam alçar o músico cada vez mais ao posto de um dos grandes do jazz universal, ao lado de craques da sua geração como Sonny Rollins, Hancock, Shorter, Henderson, Cannonball Adderley, Ornette Coleman e Coltrane. Porém, como havia ocorrido com este último em 1967, vitimado por um câncer, os céus tinham outros planos para Lee Morgan. Todo aquele talento foi bruscamente ceifado por um brutal assassinato pelas mãos da própria esposa, de quem recebeu um tiro no coração quando tocava num clube em Nova York em 1972. O motivo? Não se sabe. O crime ainda hoje é mal explicado. O que a levou a cometer tal ato? Será que, domesticamente, Morgan encarnava o tal “cara mau” a quem o próprio se referiu? Não se sabe – e nem importa. Resta, sim, sua obra, que somente um cara com uma boa dose de “maldade” podia ter criado. Uma maldade no sentido de “malícia”. Afinal, não há males que vêm para bem?
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FAIXAS:
1 - The Sidewinder – 10:25
2 - Totem Pole – 10:11
3 - Gary's Notebook – 6:03
4 - Boy, What a Night – 7:30
5 - Hocus Pocus – 6:21
todas as composições de Lee Morgan


Lee Morgan  - "The Sidewinder"




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OUÇA O DISCO:




domingo, 23 de novembro de 2014

"The Smiths - A Light That Never Goes Out - A Biografia", Tony Fletcher (2014)





"Quando escrevi sobre o Echo and the Bunnymen e sobre o R.E.M.,
no fim dos anos 80,
o processo pareceu relativamente fácil.
Na época, eu não entendi que isso se devia ao fato de os dois grupos serem entidades em total funcionamento,
com integrantes seguros na companhia uns dos outros
a ponto de
apenas me contarem sobre os demais
o que gostariam de ouvir sobre si mesmos,
e suficientemente jovens para não serem especialmente
protetores com seus legados
ou terem deixado para trás qualquer lembrança ruim(...)
Com os Smiths o processo foi muito complicado."
Tony Fletcher



Sempre vou com uma certa reserva quando leio biografias de artistas porque muitas vezes os relatos que compõe o trabalho não passam de um amontoado de fofocas, diz-que-me-diz, achismos, especulações, fatos nunca confirmados ou sem evidências, restando apenas, de realidade mesmo, apenas fatos incontestes de domínio público que saíram no jornal, entrevistas concedidas e coisas do tipo (aí é mole). Mas fui surpreendido positivamente pela ótima biografia de uma das minhas bandas favoritas, “The Smiths – A Light That Never Goes Out – A Biografia”, onde autor, Tony Fletcher, um jornalista, biografo já experimentado, rodado, experiente com outras bandas, mergulha fundo na história do quarteto de Manchester, The Smiths, buscando elementos desde as origens históricas das famílias, do povoamento de Manchester, do contexto social da cidade, do país, até chegar à formação dos meninos em escolas católicas severas, em bairros operários, deparando-se com crise, desemprego, mas com as descobertas musicais que os levariam a serem o que foram.
Contemporâneo dos integrantes dos Smiths e até mesmo presente em alguns episódios, o autor destrincha com habilidade os fatos que envolveram a curta trajetória da banda, relatando-os de forma competente numa narração muito bem estruturada e envolvente.
Para os fãs, o livro só fará reforçar a admiração pela banda, pelas suas virtudes, suas técnicas individuais, suas inspirações, e por seu repertório, embora revele de forma bastante imparcial e impiedosa a personalidade difícil, egocêntrica e quase insuportável de Morrissey, revelando-a, entre outras razões, como um dos principais motivos para o fim prematuro do grupo.
Mas, de todo modo, é absolutamente fascinante conhecer um pouco da descoberta mútua de Morrissey e Marr, o início da parceria, as primeiras composições, conhecer um pouco mais sobre cada música, o sucesso, a idolatria e tudo mais.
“The Smiths – A Biografia” é extremamente revelador no que diz respeito ao regime praticamente amadorístico com o qual a banda conduzia suas questões empresariais, fato tão decisivo para a abreviação da história da banda como para o fato de torná-la diferenciada e fazer com que não caísse na vala comum de bandas de megasucesso; aprofunda a questão do envolvimento com drogas por parte do baixista Andy Rourke; mergulha nas turnês e em seus bastidores, conseguindo no êxtase e nas catarses do público; esmiúça o processo construtivo, passo a passo, de vários canções do grupo, com destaque especial para “How Soon Is Now?”, um dos maiores clássicos da banda e uma de suas grandes pérolas, cheia de camadas de guitarra e outros recursos de estúdio; e ajuda a esclarecer o fim, até então nunca muito bem explicado.
Nada daquelas biografias chatas, cansativas. Não! Ótimo livro, leitura fluída, fácil sem ser limitado e ainda por cima de uma banda do meu coração. Uma vida curta mas cheia de histórias, polêmicas, conflitos e desdobramentos. Pouco tempo de existência mas o suficiente para escrever seu nome definitivamente na história do rock.



Cly Reis



quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Exposição “Naturezas Mortas”, de Leopoldo Gotuzzo – MALG – Pelotas/RS (Novembro/2014)









Uma das 28 telas da exposição
Ir a Pelotas é sempre um prazer. Além das ligações emocionais e familiares, a cidade é dona de belezas próprias por suas ruas, gentes e fachadas. Parece Porto Alegre, parece Rio de Janeiro, arranha a França e Portugal, e é interior gaúcho. Satolep, como o compositor e escritor Vitor Ramil apelidou sua terra-mãe em anagrama, tem cartões postais e museus sempre com algo interessante a se ver. Um destes espaços de visitação certa é o MALG – Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo, administrado Centro de Artes da Universidade Federal de Pelotas. E um facilitador: sempre que vamos até lá, nos instalamos num hotel no Centro da cidade, que fica a menos de uma quadra do museu. Aí, é inevitável dar pelo menos uma passadinha para conferir o que está rolando.

Pois numa dessas escapadas pude presenciar uma bela exposição justamente do artista que dá nome ao espaço chamada “Naturezas Mortas”. Certamente o maior pintor pelotense (e olha que não são poucos), Gotuzzo é realmente diferenciado. Dono de uma pincelada solta e forjada no impressionismo de Degas, Cèzanne e Renoir, estudou em Roma, Paris e Madri, notabilizando-se, ao longo da extensa vida (morreu aos 96 anos) pelo domínio do desenho e pelo tratamento da cor e da luz.

A exposição em si é parte do acervo permanente do MALG e traz 28 quadros a óleo de Gotuzzo com o tema que lhe dá título. Com curadoria de Carmen Regina Diniz e Lauer Santos, essa singela mas significativa seleção concentra telas dos anos 20 a 60 retratando flores, bonecos, frutas, legumes e objetos. Tudo muito lindo, em especial “Boneca”, de 1925, a mais antiga entre as obras, óleo sobre tela de pura sensibilidade onde o artista propositalmente infunde a figura dentro de um cenário em que esta, parecendo num primeiro momento uma menina de verdade, revela-se em miniatura, identificando-se, assim, a sua verdadeira natureza inanimada.

Outras, como as duas alusivas a mandarins chineses (de 1962, criadas quando este já se encontrava radicado no Rio de Janeiro), também são de rara beleza e detalhismo. Ainda, “Dálias”, “Resma de cebolas” e “Uvas” impressionam pela luz que o traço de Gotuzzo consegue extrair. Uma exposição pequena, mas que vale a pena conferir quem estiver ou for a Pelotas.


'A Bailarina', a mais antiga e das mais belas telas

Cebolas em rico detalhe

Cores retratam uvas maduras que parecem vivas

Detalhe de 'O Mandarim'

Flores vivas no óleo sobre eucatex de Gotuzzo

Natureza morta retrata flores suaves

Obra da série 'O Mandarim'

Ramalhete multicolorido pintado em grande proporção






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Naturezas Mortas”, de Leopoldo Gotuzzo
Visitação: até 30 de novembro, de terça a domingo, das 10h às 19h
Local: MALG – Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo (General Osório, 725, Centro, Pelotas/RS)
Ingresso: Gratuito


"A Doença do Sono", de Ulrich Köhler (2011)




Um filme do diretor alemão Ulrich Köhler, que se passa no Camarões, com alguns atores franceses, uma grande mistura, uma grande história, porém com uma narrativa um tanto confusa. Neste filme também temos a África pobre, sofrida, mas diferente da maioria dos filmes, onde isso é muito destacado, aqui não, você acaba focando demais no drama dos dois principais personagens, fazendo com que a miséria da África fique em segundo plano.

Em "A Doença do Sono" (2011), Ebbo Velten (Pierre Bokma) é um médico especialista na doença do sono, por isso passou os últimos vinte anos gerenciando um projeto com fundos europeus para erradicação e controle da doença do sono no Camarões. Após aparentemente terminar seu trabalho, sua mulher, que vivia com ele na África, decide voltar para Alemanha, onde sua filha adolescente ficou para concluir os estudos, então Ebbo tem que decidir entre ficar na África ou retornar para junto de sua família, ele decide ficar. Alguns anos depois um jovem médico francês de descendência africana, Alex Nzila ( Isacar Yinkou) é mandado para a África para avaliar a o tratamento sobre a doença do sono , e também para substituir Ebbo.

Papéis invertidos;
o médico alemão totalmente integrado ao local e
o 'africano' deslocado na África.
Ebbo  é alemão mas está há tanto tempo trabalhando no Camarões, que já abraçou o estilo de vida africano. Fica claro ao longo do filme o medo que Ebbo tem de retornar a Europa, mesmo tendo praticamente erradicado a doença do sono em sua vila (que agora tem apenas um paciente diagnosticado com a doença), ele continua pedindo ajuda financeira para manter seu projeto para controlar a epidemia do sono. Na África ele é um médico respeitado, tem prestígio na vila onde trabalha, coisa que não aconteceria caso ele voltasse para Alemanha com sua família, onde seria apenas mais um. Ebbo passa o filme todo (e você também) com a dúvida, se ele é ainda um europeu vivendo na África ou já é um “nativo”.

O outro protagonista do filme é o medico francês Alex Nzila (Jean-Chritophe Folly) descente de africanos (especificamente congolês), que se voluntaria para ir até o Camarões analisar o trabalho de Ebbo e escrever um relatório para Organização Mundial da Saúde (OMS), para decidir de se o projeto deve continuar ou não. Alex já se sente perdido na Europa, e busca ir até a África para se encontrar, e também por ser um forte crítico de como são feitas as ajudas humanitárias no continente africano. Como homem negro e descendente de africanos, Alex achou que seria fácil sua adaptação na África, mas o coitado sofre muito, com a língua, com a moeda, com o trabalho, com as condições de higiene e com os mosquitos. Seus primeiros passos na Africa são cômicos, se negando a pegar carona no carro que o governo lhe enviou, por julgar o carro velho demais, logo em seguida sofre mais um pouco para encontra a casa onde vai ficar na vila, pois ele chega à noite e o local é no meio da floresta e não tem luz elétrica.

Acima, Ebbo e sua primeira esposa,
na foto abaixo, sua mal explicada
segunda esposa e família
O filme tem uma história convidativa, mas o jeito lento que ela é contada atrapalha, os personagens que começam com dúvidas no começo do filme, evoluem muito pouco ao longo do filme, terminam com mais dúvidas, são praticamente iguais o filme o todo. O diretor vai jogando mais problemas para os personagens resolverem, sem que eles tenham resolvidos os problemas anteriores, chega o final e você fica sem respostas para alguns. Personagens aparecem do nada, de repente eles somem, como a esposa africana (ou amante, pois não fica claro se ele terminou o primeiro casamento) de Ebbo, que aparece, dá à luz a um filho do doutor, faz uma festa para comemorar a chegada do bebê, onde aparece sua família. Também vemos que embora Ebbo tenha ajudado financeiramente a família da “esposa”, há um conflito entre Ebbo e parte da família, temos um diálogo rápido ,onde isso é jogado, depois nem esposa nem família aparecem, não sabemos direito o motivo da briga, não tinha necessidade da família aparecer, mais uma coisa para Ebbo resolver e que não é resolvida. Essas pequenas falhas no roteiro são o único destaque negativo do filme.

É uma obra que vale a pena ser assistida, traz assuntos bacanas, aqui, a África é só um cenário, um belo cenário, a fotografia do filme está muito bela. Não é um personagem, como fazem muitos filmes, que destacam a pobreza, a miséria, aqui vemos pessoas comuns, acontecendo o mesmo com os médicos voluntários, não são tratados como deuses, também são pessoas comuns, e que tem seus problemas, e isso pode afetar o trabalho deles, que não é fácil. Mas o que me conquistou no filme foi a crítica que o diretor fez de como são feitas essas ajudas humanitárias aos países africanos, não basta só mandar dinheiro, tem que tem um olhar mais “humano” para essas pessoas, pois o filme deixa bem claro o desvio de verbas que ocorre lá. Outra jogada magnífica do diretor e colocar o personagem branco totalmente inserido na cultura africana, maravilhado com tudo aquilo, e um personagem negro totalmente o oposto, que faz o papel do europeu chegando em terras estranhas, embora ela tenha raízes africanas. Achei isso fantástico, essa quebra de estereótipos.

Assista ao filme e descubra se é possível homens se transformarem em hipopótamos.




cotidianas #335 - Testamento de Charles Lansbury



"Eu, charles Lansbury, em plena posse de minhas faculdades mentais, estabeleço e declaro pelo presente testamento as minhas últimas vontades, a fim de, pela maneira mais justa possível, distribuir os bens que possuo neste mundo entre os homens que me sucederem.
Em primeiro lugar deixo aos bons pais e mães; mas em custódia, para seus filhos entretanto, todos os apelidos carinhosos e encarrego os referidos pais a usá-los justa, porém generosamente, à proporção que as necessidades de sua prole assim exigirem.
Deixo às crianças exclusivamente, mas somente enquanto perdurarem suas infâncias, todos e cada um dos dentes-de-leão e margaridas dos campos, com o direito de brincar livremente no meio deles, segundo o costume infantil, prevenindo-os ao mesmo tempo contra os cardos. E lego para elas as margens amareladas dos riachos e as areias douradas por baixo de suas águas, e os aromas dos salgueiros que caem sobre as referidas águas, e as nuvens brancas que flutuam ao alto, acima das árvores gigantescas.
E dexo às crianças os dias intermináveis de alegria, com mil maneiras de contentamento, e a Noite, e a Lua e a cauda da Via Láctea para se maravilharem, mas dependente; entretanto, dos direitos abaixo concedidos aos amantes; e dou a cada criança o direito de escolher uma estrela que será sua.
Aos amantes lego seu mundo imaginário, com tudo o que possam vir a precisar, como as estrelas do firmamento, as rosas vermelhas pelos muros, a neve do espinheiro,os suaves acordes da música, ou o que quer que possam desejar que represente para ambos a permanência e a beleza de seu amor.
E para queles que não são mais crianças, nem jovens, nem amantes eu deixo a Lembrança..."

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Wilston Fish e Charles Lansbury
do testamento de Charles Lansburry (1879)

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Marilyn Manson - "Antichrist Superstar" (1996)



Duas versões da capa do álbum
"Vejo meu trabalho como
sendo alguém que deve provocar as pessoas.
Não quero ser apenas mais um.
Não quero ser apenas um rosto risonho
que aparece na TV apresentando
algum tipo insípido de lixo de fácil digestão."
Marilyn Manson



O mundo do rock sempre teve seus palhaços. Desde que David Bowie inventou inventou um personagem extraterrestre, tirou as sombrancelhas, abusou da maquiagem e adotou um visual andrógino, o número de artistas do universo pop a aderirem a máscaras, maquigens, caras pintadas, personalidades paralelas, encenações, etc. só fez aumentar. New York Dolls, Kiss, Gwar, Alice Cooper, mais recentemente o Slipknot, e até os brasileiros dos Secos e Molhados são apenas alguns desses arlequins fantasiados que a cena musical nos apresentou o longo dos anos. Mas quando eu falo 'palhaços' não tenho a intenção de ser pejorativo. Acho legal essa coisa do personagem, da pose, da indumentária. Utilizo a figura mais pelo fato de esconderem-se atrás de um “rosto artificial”, criarem um determinado padrão de procedimentos pré-concebidos, e pela teatralidade que a proposta exige. Mas acho legal, acho que tem tudo a ver com rock. Muitos não valem nada, é verdade, são muita imagem, muita pose, muito efeito especial, pirotecnia, estardalhaço, mas música, que é bom, nada. Mas de vez em quando o mundo do rock nos sai com um desses bufões que valem a pena e um dos mais relevantes dos últimos tempos é um cara que combina um nome feminino de um dos maiores símbolos sexuais da história do cinema com o de um dos mais brutais e terríveis assassinos psicopatas de todos os tempos. A combinação sexo+cinema+violência+rock, acrescida de muito peso, doses equilibradas e precisas de tecnologia, somada a uma quase convincente teatralidade, resulta em um dos personagens musicais mais interessantes do cenário nas últimas décadas: eu falo de nada mais nada menos que Marilyn Manson.

Escabroso, satânico, pervertido, sádico, bizarro, escatológico? Pode ser tudo isso e pode não ser nada também, mas o fato é que o cidadão nascido Brian Hugh Warner, trazia no meio da década de 90 com a banda que leva seu nome artístico, um industrial vibrante, renovado, cheio de peso e tecnologia, apadrinhado por um dos mestres do gênero, Trent Raznor, do Nine Inch Nails, que produziu seu álbum de estreia de 1994, “Portrait of an American Family” e seu brilhante segundo álbum, “Antichrist Superstar” uma pequena ópera rock que, de forma mais perfeita, coesa e técnica que seu antecessor, funde elementos eletrônicos, metal e pop.

Numa época em que o CD já mandava no pedaço e os álbuns não podiam contar mais com a divisão lados A e B para marcar características diferentes dentro de uma mesmo álbum, como em "Low" do já citado Bowie, "Autobahn" do Kraftwerk, o "V" da Legião Urbana, “Antichrist Superstar”, sem este recurso, é dividido em 'ciclos', “O Hierofante”, “A Inauguração do Verme” e “A Ascenção do Desintegrador”, com características musicais sutilmente diferente entre si, referindo-se cada uma delas a fases da vida/carreira do artista e reforçando a intenção conceitual da obra.

Se tematicamente o trabalho é repleto de referências filosóficas, especialmente em relação a Nietzsche, e discute questões como a formação de mitos, da exposição de mídia e do pensamento coletivo, sonoramente o disco é uma pedrada com inserções eletrônicas, samples, e um trabalho minucioso, cuidadoso e preciso de Trent Raznor na mesa de produção. A abertura com “Irresponsible Hate Anthem”, é incendiária; “The Beautiful People” com seu início galopante é um tijolaço; a provocativa “Mister Superstar”, detona; e a faixa que dá nome ao disco e que abre o último ciclo, “A Ascenção do Desintegrador”, com seus gritos que sugerem uma espécie de saudação nazista, abordando exatamente a idolatria cega a devoção a falsos líderes, soa messiânica e monumental.

Não dá pra deixar de destacar também o metal bem pop “Dried Up...”; a ótima “Wormboy”; a bomba "Angel with the Scabbed Wings"; a muito bem elaborada "Kinderfeld"de ótimo trabalho de produção; e a levada funkeada do baixo de “Minute to Decay”.

Muitos fãs levam a sério toda a imagem que Marilyn Manson tenta passar e, sendo justo com ele, tenho que admitir que o cara se esforça um pouco mais do que outros similares para dar credibilidade ao seu personagem. Mas particularmente prefiro me ater mesmo ao som que foi uma das coisas mais revigorantes no cenário metal dos últimos tempos com a fúria e o peso que o gênero exige, mas com um toque pop e uma teatralidade que acabaram por ser os diferenciais de MM.

Satanismo, autodeformações físicas, perversões, maltratos a animais? Hum... Não sei. Acredite se quiser. Eu recomendo apenas ouvir. Na dúvida, apenas ouça.
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FAIXAS:
  • Ciclo I - O Hierofante
1. "Irresponsible Hate Anthem" - 4:17
2. "The Beautiful People" - 3:38
3. "Dried Up, Tied and Dead to the World" - 4:16
4. "Tourniquet" - 4:29 


  • Ciclo II - A Inauguração do Verme
5. "Little Horn" - 2:43
6. "Cryptorchid" - 2:44
7. "Deformography" - 4:31
8. "Wormboy" - 3:56
9. "Mister Superstar" - 5:04
10. "Angel with the Scabbed Wings" - 3:52
11. "Kinderfeld" - 4:51


  • Ciclo III - A Ascensão do Desintegrador

12. "Antichrist Superstar" - 5:14
13. "1996" - 4:01
14. "Minute of Decay" - 4:44
15. "The Reflecting God" - 5:36
16. "Man That You Fear" - 6:10
99. "Track 99" - 1:31
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Ouça:




por Cly Reis


Ninho de Cobras










"Ninho de Cobras - I"

"Ninho de Cobras - II"

"Ninho de Cobras - III"

"Ninho de Cobras - IV"


RODRIGUES, Daniel
fotografia com manipulação digital (2014)