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sábado, 3 de janeiro de 2015

"Um Olhar do Paraíso", de Peter Jackson (2009)




Particularmente me agradam os filmes de Peter Jackson, não são ótimos, mas são filmes bons de assistir, tranquilos, tem suas enrolações e problemas no roteiro, mas nada que estrague o filme por completo, e sim, temos todos estes elementos nesta obra. "Um olhar do Paraíso" (2009) filme tem um começo muito bom, logo na apresentação da personagem principal, sua primeira fala, me fez ajeitar a cadeira na frente da TV e pensar, "vai lá Peter Jackson, me surpreenda", e o filme segue em uma pegada bacana, até chegar no meio para o final. Nos seus últimos filmes, como a trilogia "O Senhor dos Anéis” e “O Hobbit", é aí que o diretor se perde, o filme fica chato, não sabe para onde vai, se vai para o mistério ou fantasia, tem romance adolescente pós-morte e literalmente ele fica no limbo, cheio de altos e baixos.

Susie e a bela fotografia em tons de laranja
O longa é sobre Susie Salmon (Saoirse Ronan), uma jovem garota de 14 anos que leva uma vida normal junto com os seus pais e irmãos mais novos, até certo dia, que ao voltar da escola, Susie é atraída até a armadilha feita pelo seu estranho vizinho, George Harvey (Stanley Tucci), que a estupra e depois esquarteja a menina, e esconde o corpo dentro de uma mala. Pesado não? Aí que você se engana, apesar de ser um fato forte o diretor acerta em não fazer um filme pesado, (nada de tirar a vovozinha da sala para não chocar ela), o filme escolhe um caminho tranquilo, de uma grandiosidade visual incrível, que suaviza o clima. Claro que a cena do crime é muito bem trabalhada, closes fechados, o assassino com um uma expressão nervosa, Susie inocente, com ar de assustada, o clima de tensão é forte, você alí querendo ajudar a menina, tudo muito bem feito.

Os figurinos são incríveis, roupas e maquiagem de parabéns, assim como a ambientação das casas, da cidade de Susie em geral, já que a historia do filme acontece nos anos 70, e essa época é bem retratada visualmente. Já os cenários não reais, não me agradaram, achei legal a ideia do filme, o limbo mudar de acordo com os sentimentos da menina, a um excelente trabalho com as cores o Laranja se destaca em Susie com seu cabelo (que não é laranja, é claro, mas o trabalho da fotografia da tons alaranjados a ele) e o azul de George Harvey, que se destaca em seus olhos . Mas os cenários não reais são genéricos de mais, os efeitos especiais, parecem que foram feitos de qualquer jeito, temos momentos do filme como a cena em que o pai de Susie quebra barquinhos que ele construía dentro de garrafas e que sua filha gostava muito, ao mesmo tempo a menina assisti grandes embarcações batendo contra rochas no limbo, nossa, os barcos nas garrafas gigantes não ficaram bons, uma cena com uma ideia bacana em que e os efeitos atrapalham, e a cena que mostra o destino do assassino tem um efeito muito tosco.

Os pais de Susie e uma das "aparências" do limbo
Estes altos e baixos estão presentes em todo filme, inclusive, nas atuações do elenco (que é um baita elenco no papel). Temos Saoire Ronan brilhando como Susie, a menina está super bem, seu jeito angelical (com ajuda do trabalho da equipe de fotografia mais uma vez) conquista a todos, não é uma atuação para ganhar um Oscar, mas a garota se saiu muito bem, não é um personagem fácil de se fazer, e ela está natural, não exagera no drama, consegue fazer com que o espectador facilmente se envolva com ela e seus dramas. A história é praticamente um diário pós-morte de Susie, nesse diário acompanhamos sua busca por vingança ao tentar ajudar seu pai a descobrir quem é o assassino, e também o seu desejo de ver seus familiares seguirem em frente, superarem o trauma de sua perda. Por isso ela fica no limbo, por não se definir, não aceitar sua morte. Mesmo com todo esse drama o filme ainda fala da descoberta da sexualidade na adolescência, não achei necessário isso, mas não atrapalha o desenvolvimento da personagem, inclusive essa descoberta é o que liberta Susie par enfim viver no paraíso. Outra atuação acima da media fica por conta de Stanley Tucci que faz o papel do assassino, o cara está "estranho", com um ar de perturbado, sempre se cuidando, dificilmente erra nos seus planos. Tem uma aparência inocente, mas uma presença desconfortável, difícil de descrever seu personagem, porque pouco sobre ele nos é contado. Quem não tem medo do desconhecido, do que não consegue compreender? E George Harvey é assim, e o roteiro trabalha bem isso. Mais uma parada para falar da maquiagem, que é o que realmente faz esse personagem, o olhar dele, as lentes azuis que colocaram no ator, sempre sendo destacadas em contraste com os ambientes escuros em que ele aparece, trabalho de mestres. Um excelente personagem somado a um bom ator, renderam uma indicação merecida ao Oscar. O resto do elenco, embora tenham bons atores, eles não nos entregam bons personagens, são atuações muito fracas. Temos Abigail Salmon (Rachel Weisz) mãe de Susie, acho que é a pior personagem do filme (porém a mais linda), logo no início, após a morte da filha, ela tenta convencer como mãe perturbada que perdeu a filha, mas não engrena, depois ela foge de casa, vai para o campo colher girassóis e some do filme, retorna apenas no final, esse é um resumo da personagem, e para completar Rachel Weisz, também não se esforça muito para ajudar, ai vem Jack Salmon (Mark Walber), pai de Susie, é um ator bem mediano, que no filme atua de maneira mediana, passa o filme todo atrás de sua filha (porque não é encontrado o corpo, e ela é dada como desaparecida), com a "ajuda" de Susie ele vai em busca da verdade por trás do desaparecimento. Um personagem que poderia ser grandioso, mas as soluções que o roteiro dá para Jack, eu não aceitei muito bem, ele passa o filme todo atrás da verdade, ele faz de tudo, enfrenta polícia, investiga vizinho, realmente um pai sofrendo por uma grande perda, para em 5 minutos antes do final do filme, ele simplesmente aceita "bom morreu minha filha, vida que segue", é uma mudança repentina, o filme não trabalha bem a construção do personagem, temos também Lynn (Susan Sarandon) a avó de Susie, que simplesmente é a "maluca" do filme, que serve como alívio da tensão (apesar da atuação abaixo da média da ótima atriz) sempre com mensagens positivas, tentando fazer gracinhas, achei ela meio deslocada, simplesmente não funcionou, se for dar mais um destaque vai para Lindsey Salmon (Rose Mciver) irmã de Susie, que tem uma importância do meio para o final, é uma atuação esforçada de Rose.

No final temos uma obra interessante, e de fácil identificação (ainda mais para as pessoas que tem filhos), fala de uma violência real, comum nos dias de hoje, a sensação de insegurança, o perigo que pode morar ao lado, na forma de um vizinho inocente, isso ajuda você a entrar no filme, é uma fotografia muito bela, que torna essa imersão agradável. A direção de Jackson é o básico dele, o que não ajuda muito os atores, tecnicamente não agrada, mas a história é atraente e a mensagem que filme passa, de que as perdas não podem ser esquecidas, mas sim podem ser superadas, me fez refletir, e quando um filme provoca esse tipo de sensação, de reflexão, é muito bom.

Obs: Ghost é muito melhor.




quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

cotidianas #342 - Picasso a Rir


"A Mulher que chora"
PICASSO, Pablo
bloco-notas
amor divino é assim.
invisível.

bloco-notas
novembro 1. dia de todos os santos. rimbaud-o. vai pró diabo. picasso sabe. foda-se como ele realmente sabia! por onde andará ele agora?

bloco-notas
picasso sai-se com esta: quando ele morrer que ninguém diga nada.
deixem que a vida continue a mover-se como um mito.
até que de súbito alguém toque um sino. depois de uma diz porque porque é que é maior que um século.
ou mais perfeitamente dois séculos.

diário. domingo. 8 abril, 1973.
picasso morre.
abril é o mais cruel dos meses etc. que fica?
os ossos de brian jones. amigo de jim morrison. o lenço estampado
de jimi hendrix. anjo de tira de couro. a grinalda de garland.
o colarinho engomado de baudelaire. o gorro
escultural de voltaire. o elmo dos cruzados como um templo em si. a mala de rimbaud. o seu membro artificial genuflecte. espaço surrealista. o cérebro de pássaro de brancusi.
cocaína superfície lisa. o espelho de mão de carole lombard. p spbretudo de rothko, o negro vestido de malha de piaf. fotografias. picasso a rir. picasso a dançar. picasso a pescar. picasso a andar de cadillac. um desgosto uma pincelada. a luz delizando através da janela da vivenda. o sol a nascer e a pôr-se e a dormir em limpos lençóis brancos impecavelmente dobrados e
a camisa de picasso com o colarinho em forma de barco
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"Picasso a Rir"
Patti Smith


quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

A Arte do Clyblog em 2014








Em 2014 tivemos alguns trabalhos interessantes na comunicação visual do blog brincando com publicidade, parodiando filmes, homenageando grandes álbuns, ou mesmo apenas deixando a criatividade fluir. Fosse m chamadas nas redes sociais, em novos logos para as seções ou nas Copas do Mundo das bandas, as novidades visuais foram aparecendo ao longo do ano. Neste finalzinho de 2014, deixamos aqui com vocês algumas das imagens, gravuras, adaptações, zoeiras, memes mais legais que pintaram no clyblog este ano. E um Feliz Ano Novo a todos. Em 2015 tem mais.


para pessoas de visão

caça-palavras.
Você achou.


O meme que virpu clássico na internet também serviu ao Clyblog.
"É óbvio, sua besta."

Aprecie sem moderação

Keep Following

Você está com sorte

Curta o Clyblog e não se preocupe com mais nada

É só um blog mas nós adoramos


Logo da Copa Rock do Clyblog
que teve edições das bandas The Cure, Legião Urbana e Beatles

O Fuleco Rock'n Roll

Chamada da Copa The Cure

Final da Copa The Cure na qual "A Forest" sagrou-se a grande Campeã
Uma das chamadas da Copa Legião Urbana

Chamada da Copa L.U.
Renato Russo chamando no gol.



A finalíssima entre dois grandes sucessos da Legião Urbana.
No final, deu "Tempo Perdido" 



Chamada da Copa Beatles

Mais uma chamada, desta vez com os rapazes da Abbey Roa
atravessando o gramado do estádio de Anfield Road, do Liverpool

Um chuta, outro sobe, outro defende outro cabeceia.
Outra da Copa Beatles

Chamada da Copa inspirada no "Hard Day's Night"

E o título nas mãos de "A Day in the Life",
a maior música do Beatles, segundo a nossa Copa

Cartazes de filmes. Aqui "O Poderoso Chefão"


Nosso grito será ouvido no cyberespaço


Um mudo diferente de tudo que você conhece

Tempo de Violência?
Talvez, tempo de inteligência.

Ultraviolento

E pensar que você hesitou

Pop Art

As capas de discos.
Homenagem ao clássico "Physical Graffiti do Led Zeppelin

Carne é assassinato e não curtir é crime

Prazeres conhecidos

Voto inteligente


As felicitações dEle
Feliz 2015

O Bode Espiatório

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Suzanne Vega - "Nine Objects of Desire" (1996)

Os (12) Objetos de Desejo de Miss. Suzanne


“Quem se lembra de Suzanne Vega apenas pelo hit mundial ‘Luka’
está perdendo a chance de conhecer
uma das artistas mais inteligentes da música do nosso tempo.
Ela vem de um passado folk,
mas a partir do trabalho com o produtor Mitchell Froom
lançou alguns dos melhores discos da carreira.
Este álbum traz Suzanne Vega num estado encantado.
Falando de coisas que acontecem à sua volta com um olhar delicado,
a compositora e violonista nos transporta para perto dela.
O disco é permeado de sonoridades instigantes.
Doses certeiras de dúvida existencial,
sensualidade, paixão e alguns mistérios.”
Fernanda Takai



Na minha adolescência, eu e meus amigos sempre tivemos gostos musicais parecidos. Éramos praticamente unânimes quanto a The Cure e The Smiths, por exemplo. Mas todos tinham suas paixões, aqueles pelos quais nutriam um sentimento especial. Não que se deixasse de gostar também em certa medida do que os outros preferiam; mas aquele era “queridinho” de cada um. Tinha quem fosse fã de Sting, de Depeche Mode, de New Order, de Genesis. A minha “queridinha” era Suzanne Vega. Sempre me encantaram a elegância, a limpidez da voz e o lirismo das músicas dessa compositora, violonista, poeta e cantora surgida nos anos 80 com seu estilo folk-pop arrojado que remete a Leonard CohenLou ReedBob Dylan e a bossa nova – especialmente Astrud Gilberto. Percebi que, desde o início, ela trilhara por um caminho de invariavelmente trabalhos bem elaborados, que, por consequência, lhe renderam grandes sucessos, como “Tom’s Diner”, “Book of Dreams”, “Blood Makes Noise” e, principalmente, o belo e melancólico megahit “Luka”. A música, um dos melhores exemplos de perfect pop de toda a história do rock, encheu seus bolsos e a deixou mundialmente conhecida.

Mesmo com o estrelato, Suzanne Veja nunca quis ser apenas “a cantora de Luka”. Com o inseparável violão, ela construiu uma carreira sólida e em crescente evolução, primando pelas letras literárias, harmonias e arranjos sofisticados e pungentes, batida do violão marcante, influências da MPB, dos sons étnicos e até da vanguarda (haja vista as parcerias com Philip Glass). Depois do aclamado álbum de estreia (produzido por Lenny Kaye e Steve Addabbo, de 1985), teve como parceiro e arranjador o competente Anton Sanko, com quem cunhou “Solitude Standing”, de 1987, e “Days of Open Hand”, de 1990. Quis o destino, entretanto, que, em 1991, ela conhecesse o também versátil Mitchell Froom – que trabalhara com Elvis Costello no passado. Não só trocou de parceiro na música como o assumiu na vida, casando-se com Froom e tendo como fruto (até se separarem, em 1998) uma filha, Ruby, e dois excelentes discos: o “febril” “99.9 F°”, de 1992; e este, o primoroso “Nine Objetcs of Desire”, de 1996.

Auge da musicalidade da artista, auge da feminilidade da mulher. Mãe pela primeira vez e próxima de completar 40 anos, Suzanne realça a sua beleza alva e doce de bailarina profissional (é graduada em Dança Moderna desde os 18) e compõem um disco arrasador em que vida artística e pessoal se homogeneízam. São 12 faixas em que Miss. Suzanne aborda temas como sexo, maternidade, prazer, orgasmo, castidade, culpa. Elementos do imaginário feminino e íntimo, do erotismo à religião, estão expostos, na epiderme. Tudo com uma sensibilidade ímpar e num invólucro perfeito. Desde a capa, em que Suzanne aparece com uma maçã, a picardia está presente. Mas do jeito dela, sob sua ótica (tanto que a maçã não é eroticamente vermelha, mas exoticamente verde). Na arquitetura sonora, Froom estabelece um diálogo igualmente inteligente entre sons eletrônicos, instrumentos de base e timbres, modulados pela mesa de som com tamanha adequação que somente alguém muito próximo à artista como ele poderia realizar.

Uma batida tribal dá os primeiros acordes, quando entra um brilhante riff de guitarra heavy-country. É “Birth-Day”, faixa inicial que relata, numa poesia forte, o momento do parto (“Uma coisa eu sei/ esta dor vai passar/ Atravesso tudo o que me resta sentir/ Eu espero para conhecer o meu amor se tornando real”). No refrão, o nascimento; e os sons não se fazem cândidos, mas, sim, estouram saborosamente ruidosos. Como diria Tom Zé: um rebento como um “orgasmo invertido”.

Em “Headshots”, a sensação de sensibilidade à flor da pele é evidente. Desde a bateria e o baixo retumbantes até à voz e a respiração de Suzanne, a qual é ouvida no mesmo patamar sonoro que os enigmáticos samples de cítara, do gongo oriental e do sensual assovio. Exímia contadora de histórias, na tradição dos bons trovadores folk-country norte-americanos, Suzanne fala sobre uma mulher que vê estampado num anúncio de “procura-se” o rosto de um ex-amor, que agora parece triste e fatalmente distante dela: “A placa diz ‘Headshots’/ É tudo que eu vejo/ Um menino torna-se uma imagem/ De culpa e simpatia/ E então eu penso em você/ Em memória/ Dos dias em que estávamos juntos/ E eu sabia que você me amava/ Essa era a diferença/ Daquilo que vemos/ Mas isso é história.../ Ah...”.

Enteada de um escritor porto-riquenho, Ed Vega (com quem aprendera o gosto pela poesia e literatura), Suzanne cresceu, por causa dele, na região latina de Manhattan, Nova York. Por isso, sua veia de música brasileira não só se justifica como é extremamente presente. “Caramel”, hit do disco, talvez seja o segundo melhor exemplo disso em seu cancioneiro: uma linda bossa nova com todos os elementos característicos da batida de João Gilberto e a complexidade harmônica de Tom Jobim. A letra, sobre um amor impossível, carrega em referências sensoriais ao paladar (“caramelo”, “canela”, “pele”). E ela diz: “Então, adeus/ doce apetite/ Nem uma única mordida/ Poderia satisfazer...”. A voz de Suzanne é suave, sugerindo um sussurro de dor e prazer. O refrão é ainda mais belo com a característica pronúncia perfeita de seu canto. E o charme do solo de clarinete, então!? Um show.

Digo que “Caramel” é a “segunda” grande bossa de Suzanne Vega porque a melhor é “Thin Man”. Tocado com instrumentos de rock, mas em um inconfundível ritmo de samba, tem uma das mais belas melodias de voz criadas pela compositora. O violão, centro harmônico da melodia, desenha a canção como fazem todos os bons “filhos de João”. Sensual e cadenciada, põe a personagem no universo de um homem de modos finos e misterioso. “Ele não é meu amigo, mas ele está comigo/ E ele me promete uma paz que eu nunca conheci/ Eu não posso desistir, não, eu tenho que resistir/ Mas eu podia mesmo ser a única a resistir àquele beijo tão verdadeiro...”

A capacidade de incutir toques étnicos ao folk (como já procedera claramente em "Room off the Street", “In the Eye” e “As a Child”, de discos anteriores) faz com que Suzanne Vega não restrinja as influências apenas à música brasileira ou latina, mas também aos sons árabes e orientais. “Stockings”, sobre uma moça que se atrai pela voluptuosa amiga (“Você sabe onde a amizade termina e paixão se inicia?/ É entre o que liga suas meias-calças à sua pele...”), é exatamente isso: uma linha de violão de natureza country, porém simplificado, direto ao ponto, quase um riff de guitarra. E acompanhando o canto limpo dela a percussão de tablas, isso sem falar nas cordas, que Froom escreve em notas bem próprias das danças arábicas.

“Casual Match”, pouco variável e mais fraca do disco, nem por isso chega a desnivelar o repertório, pois na sequência vem a outra “música de trabalho” de “Nine Objects...”: “No Cheap Thrill”, pop-rock infalível como Suzanne sabe fazer com o pé nas costas; e “Lolita”, uma rumba estilizada que, mais uma vez literária, Suzanne referencia à imagem da clássica ninfeta nabukoviana, revelando a farsa deste estereótipo (“Ei, garota/ Não seja como um cão toda a sua vida/ Não peça/ Algumas poucos migalhas de afeto/ Não tente/ Para ser mulher de alguém/ Tão jovem/ Você precisa de uma palavra de proteção...”).

A maternidade, em forma de “descobrimento” de si mesma e da nova vida que entra em seu universo, volta na emocionante “World Before Columbus”. Mais do que uma declaração de amor à filha (“Se o seu amor fosse tirado de mim/ Cada cor seria preto e branco/ Seria tão monótono como o mundo antes de Colombo...”), Suzanne faz uma crítica ao materialismo do mundo moderno e uma ode ao verdadeiro afeto, engendrando um deslocamento temporal e simbólico típico de escritores como ela (“Aqueles homens que têm cobiça por terra/ E por riquezas estranhas e novas/ Quem ama essas bugigangas de desejo/ Oh, eles nunca vão ter você”).

“Honeymoon Suite” resgata a Suzanne Vega original, a trovadora de violão em punho, num country voz-viola tão germinal que parece ter sido extraído de um filme de faroeste. Enigmática, imaginativa. E para fechar todo esse clima de volúpia, um... jazz! Sim, um jazz swing marcado no piano e cheio de simbologias à morte, à passagem do tempo e ao prazer carnal: “Se você me perguntar como faz para chegar ao/ meu humilde mapa/ Eu sei por que porta você pode entrar/ Mostre-me sua fraqueza/ E o tempo está queimando, queimando, queimando/ Queima até o fim”. Um final digno desse caldeirão de ideias e sentimentos.

(Mas eu falei “final”? Ops!)

Ainda não é o fim! Suzanne Vega ainda nos revela, depois de um longo silêncio após o término da 11ª faixa – como aquele presente picante escondido meio ao alcance para que possa ser revelado com surpresa –, “My Favorite Plum”, uma valsa sexy conduzida na guitarra do craque Tchad Blake em que reveem-se o gozo e o prazer que entra pela boca, tendo a delicada e saborosa fruta vermelha como metáfora-chave.

Um disco que, desde que conheci se tornou um dos favoritos da discoteca. Já havia me impressionado bastante com “99.9F°”, quando a parceria com o então marido começou. Mas este representa na carreira dela uma consolidação de várias coisas: musicalidade, personalidade e, principalmente, feminilidade. È tão forte e sincero que o deleite de escutar suas canções é quase carnal: quando se está numa faixa, já se sabe a delícia que será quando chegar à seguinte. Deseja-se ouvir cada uma delas. E que cheguem, e que se aproveite enquanto estão tocando, e quando terminam, e quando começa outra, e quando virá a próxima, nossa!... Hum, acho melhor parar por aqui, porque 12 vezes é demais.
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FAIXAS:
1. Birth-Day (Love Made Real) - 3:38
2. Headshots (Suzanne Vega/Mitchell Froom) - 3:08
3. Caramel - 2:53
4. Stockings - 3:30
5. Casual Match (Vega/Froom) - 3:10
6. Thin Man - 3:39
7. No Cheap Thrill - 3:10
8. World Before Columbus - 3:26
9. Lolita (Vega/Froom) - 3:33
10. Honeymoon Suite - 2:56
11. Tombstone - 3:07
12. My Favorite Plum - 2:47

todas as composições de Suzanne Vega, exceto indicadas
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OUÇA O DISCO:







sábado, 27 de dezembro de 2014

"Uma Aventura na África", de John Huston (1951)



Um filme do tempo do cinema moleque, onde um roteiro simples, mas com bons personagens, interpretados por excelentes atores, faziam grandes obras. Uma obra leve e cômica, que ao mesmo tempo consegue ser tensa, com um suspense bem feito, uma ótima direção do premiadíssimo John Huston.

Um casal de irmãos missionários Rose Sayer (Katharine Hepburn) e o reverendo Samuel Sayer (Robert Morley) vivem tranquilamente na antiga Congo Belga (atual Republica do Congo), até o inicio da primeira grande guerra, onde o exercito alemão aparece para controlar o país. Devido a luta para resistir ao controle dos alemães, o reverendo Samuel acaba morrendo, e Rose se vê sozinha, pois a maioria dos nativos foram presos ou assassinados e alguns viraram soldados do exército alemão. Se passam alguns dias e com chegada de Charlie Alnutt (Humphrey Bogart), um barqueiro que vive na região, viajando pelos rios abordo do seu barco “Rainha da África”. Charlie no primeiro encontro com Rose não causa boa impressão, mas agora ele é a única chance dela sair com vida do pequeno vilarejo e também, por que não se vingar dos alemães?

A irmã Rose despejando as bebidas do embriagado barqueiro
Rose Sayer é uma personagem de uma força de vontade incrível, que nunca perde sua feminilidade, se no começo do filme ela passa a imagem de esnobe e aristocrática, o jeito que ela olha para Charlie, as roupas que ela veste, você não consegue imaginar que ao longo do filme você vai torcer por aquela personagem. Dai vem a tragédia, a chega a guerra, ela perde tudo, só não perde seu espirito de luta, sua vontade de se vingar daqueles que acabaram com sua vida, mesmo nos momentos em que ela está frágil, que parece perdida, rapidamente ela se recompõem. Rose não é uma donzela em perigo que espera ser salva, e sim ela vai atrás da salvação, e pode se dizer que ela acaba salvando Charlie.

Charlie Alnutt logo na sua primeira aparição, diferente de Rose ele já te conquista, abordo de sua “Rainha da África” (que barco barulhento!!!), chamando atenção de todos na vila, atrapalhando a missa dos irmãos Sayer, logo depois, em uma hilariante cena onde ele almoça com os irmãos, nos é mostrado sua simplicidade e humildade. Com o passar do filme, também fica claro que ele tem problemas com as bebidas, mas com a ajuda Rose ele supera isso e consegue se transformar em um homem novo. Ele não é um galã, longe disso, ele não tem bons modos, não se veste bem, anda boa parte do filme sujo, mas a sua personalidade, o seu jeito de ser, são apaixonantes.

As dificuldades (reais) de atravessar o Rio Congo
O filme em sua grande parte se passa dentro do barco e o casal tentando atravessar o rio Congo, para destruir um grande barco alemão que dominava aquela região, mas para chegar até lá terão que passar por uma emboscada do exército alemão, sem falar dos perigos naturais do Rio do Congo. A trama mostra as diferenças deste casal sem fazer rodeios, tudo bem claro, por exemplo, o plano de destruir o barco é ideia de Rose, que Charlie é totalmente contrário, mas por ela se mostrar irredutível ele acaba ajudando, é um inicio de relacionamento difícil, mas a cada perigo superado pelo casal seus laços são fortalecidos. Uma cena que acho fantástica e que muda completamente o relacionamento dos dois, é quando Rose percebe que o humor de Charlie sempre muda após ele beber, fica agressivo, então ela toma uma decisão, jogar todo estoque de bebidas na água, uma por uma, provocando a revolta de Charlie, que na hora fica revoltado, mas em seguida percebe que não necessita mais da companhia da bebida, pois agora ele tem uma companheira muito melhor.

A produção do filme sofreu muito durante as filmagens, boa parte do filme foi gravada no Congo, atores e pessoas da produção ficaram doentes, as dificuldades de ajustar as câmeras, algumas cenas tiveram que ser refeitas em estúdio, mesmo com toda a dificuldade, o resultado final foi algo épico. Podemos reclamar de maneira injusta (pelo menos eu acho injusto) dos efeitos especiais do filme que são muito precários, é o que tinha na epoca e o filme tentou fazer o melhor, a única cena desse tipo que me incomodou, foi o momento onde o casal de protagonista foi atacado por uma nuvem de mosquitos (algo que realmente aconteceu com a equipe de filmagem), na cena os mosquitos foram colocados digitalmente, o que ficou muito falso, os atores ficaram um pouco perdidos sem saber para onde olhar, se colocassem eles se debatendo e reclamando dos mosquitos, a cena já ficaria bem clara, sem haver a necessidade de mostrar os insetos.

A memorável cena do beijo.
É realmente uma aventura na África, e você realmente entra nesta aventura, o filme é dinâmico, não cansa, apesar não ter a velocidade que estamos acostumados a ver nas produções atuais, sim ele é meio lento em alguns momentos, mas isso é muito bom, porque aí você pode ver a beleza da fotografia do filme, apreciar a bela paisagem, que o diretor faz questão de mostrar. Sem falar que temos duas estrelas no auge de suas carreiras, Katharine Hepburn e Humphrey Bogart (Bogart até mesmo ganhou seu único Oscar de melhor ator por este filme), estão incríveis, não são atores, porque a imagem que eles passam é que é tudo real, são naturais, mesmo com toda dificuldade de gravar o filme, diálogos incríveis, cenas memoráveis, como o primeiro beijo do casal, ou quando o barco encalha e os dois descem para puxar o barco, a uma perfeita química entre eles, os personagens vão se transformando, se misturando, um absorvendo o outro, fantástico o trabalho desta dupla.

Vale muito a pena ver o filme, ele é muito agradável e suave, uma obra de arte, na verdade é apenas uma historia bem contada. Simples, não? Mas os prazeres mais simples são tão bons.


Obs: Passei dias falando com um sotaque inglês “Mrs. Alnutt”.


"Kandinsky: Tudo Começa Num Ponto" - CCBB - Rio de Janeiro









Janeiro nem chegou e já traz boas novas. Chega ao Rio de Janeiro no final do próximo mês exposição do grande artista plástico russo, um dos pioneiros da arte abstrata e dos precursores do modernismo, Wassily Kandisky, um dos meus favoritos nas artes, por sinal. Tive o prazer e a felicidade de visitar uma exposição do artista em Paris, no Centre Pompidou mas não por já ter visto uma que deixarei de visitar esta nova aqui de baixo das minhas barbas.
Além das obras do próprio Kandinsky, incluindo pinturas, litografias, fotografias, pequenas instalações, esculturas e outros objetos, a mostra contará também com trabalhos de artistas influenciados diretamente ou que influenciaram a obra do homenageado. Entre as atrações da exposição, antes da estreia da abertura por estas bandas, informações de outros locais que sediaram a mostra dão conta que a parte interativa é um dos grandes baratos do evento. Bom, não tem jeito, é esperar para ver.
A exposição aqui no Rio abre dia 28 de janeiro de 2015 e vai até 30 de março de 2015 no Centro Cultural Banco do Brasil e é de graça.
Não tem como perder.


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"Kandinsky: Tudo Começa Num Ponto"
local: CCBB - Centro Cultural Banco do Brasil
Av. Primeiro de Março, 66 - Centro
período: de 28 de janeiro de 2015 a 30 de março de 2015
horário: 9h às 21h, de quarta a segunda
ingresso: gratuito
maiores Informações: Kandinksi Tudo Começa num Ponto CCBB