Curta no Facebook

quinta-feira, 21 de julho de 2011

cotidianas #94 - Um Dia na Vida


Um Dia na Vida
(açúcar, ameixa, biscoito... açúcar, ameixa, biscoito.)
Eu li as notícias de hoje, oh rapaz!
Sobre um sortudo que ganhou na loteria
E embora as notícias fossem um tanto tristes
Bem, não pude deixar de rir
Eu vi a fotografia


Ele arrebentou a cabeça num carro
Não tinha percebido que o semáforo havia mudado
Uma multidão parou e o encarou
Já tinham visto seu rosto em algum lugar
Mas ninguém tinha certeza se não era um Senador.

Eu vi um filme hoje, cara
O exército inglês acabara de vencer a guerra
Uma multidão teve que ir embora
Mas eu tive de olhar
Tendo lido o livro, eu adoraria te excitar!

Acordei, caí da cama
Passei uma escova pela minha cabeça
Desci as escadas e tomei um café,
E olhando para cima, vi que estava atrasado


Achei meu casaco e peguei meu chapéu
Subi no ônibus segundos depois
Subi as escadas e fumei um cigarro
E alguém falou, e eu entrei em um sonho


Eu li as notícias de hoje, rapaz
Quatro mil buracos em Blackburn, Lancashire
E embora os buracos fossem bem pequenos
Eles tiveram que contá-los um a um
Agora sabem quantos buracos são necessários para encher o Albert Hall
Eu adoraria te excitar!

“A Day in the Life”
Lennon/MacCartney

Ouça:
The Beatles  - A Day in the Life

postado por Daniel Rodrigues

cotidianas #93 - A importância de um amigo


Na cola do Dia do amigo aí vai uma piada que exemplifica bem o valor de um amigo.
************************
Um humilde caipira lá do interior foi contemplado em um sorteio com uma viagem num navio 5 estrelas. Além da viagem em si, do conforto, do luxo, a embarcação estaria cheia de VIP's, cantores, atores famosos, etc. Mas como sorte de pobre tem que vir sempre seguida de uma certa desconfiança, o navio do cruzeiro sorteado lá pelas tantas teve problemas e em meio à viagem, na vastidão do Atlântico, afundou.
O caipira conseguiu se salvar e vendo uma mulher se afogando, conseguiu salvá-la também. A muito custo, conseguiu nadar e fazer com que fossem conduzidos pelas ondas até uma pequena ilhota no meio do oceano. Lá descobriu que a ilha estava completamente deserta e descobriu também que salvara, nada mais nada menos que a Jennifer Lopez. Isso mesmo aquela cantora, e atriz que tem uma bunda enorme. O caipira num primeiro momento manteve os bons modos e o respeito, mas com o passar do tempo, o socorro não vindo, com a 'seca' batendo e com aquele mulherão na sua frente, passou a assediar constantemente a  famosa atriz. Em princípio J-Lo resistia, mas não tardou muito, embora seu salvador não fizesse muito o seu tipo, num misto de gratidão pela vida salva, de resignação, de indiferença, ou mesmo de necessidade física, acabou cedendo e satisfazendo os desejos sexuais do capial.
Aquilo, naturalmente, acabou repetindo-se com frequência e cada vez mais, conformada com a situação de ter que viver o resto da vida naquela ilha e por ao menos ter um companheiro, nossa querida e gostosa estrela até mesmo passou a guardar por ele um grande apêgo, poderia-se dizer quase amor, o que, pode-se afirmar seguramente, era correspondido por ele. Sendo assim, já superada toda e qualquer repulsa por parte da atriz, toda noite, todo dia, ou toda hora, era 'ferro-e-ferro'. Era como se cada dia fosse o último. Mas até que o ritmo começou a diminuir. Nosso caipira já não a procurava com tanta frequência e mostrava-se cada vez mais taciturno e sorumbático. Um dia ela, atenciosa e preocupada, resolveu perguntar o que o incomodava:
- Sabe o que é Dona Jennifer: -sempre a chamava de dona mesmo já tendo mantido com ela todo tipo de relações íntimas possíveis - é que lá no interior onde eu morava eu tinha um  amigo, o Nézinho, e a gente conversava de tudo, eu contava minhas coisa pr'ele e ele contava pr'eu e eu é sentindo uma bruta farta dele.
- Mas não basta eu aqui? Nós dois? - perguntava ela, que já tinha aprendido português àquelas alturas, intrigada e uma ponta de comiseração.
- É diferente, Dona Jennifer - dizia ele - Faz farta tê arguém com quem a gente possa trocá uma ideia.
- Mas você pode conversar comigo.
- É diferente... - ia repetindo mas se deteve percebendo algo - Mas oiando bem assim até que a senhora dá os ares do João. Acho que a senhora pode fazer uma coisa que eu pode me ajudá.
Ela logo se animou coma possibilidade de reabilitar a alegria de seu companheiro de ilha, praticamente marido.
- A senhora assim com o cabelo preso, com esse pedaço de terno véio e com esse bigodinho - dizia enquanto desenhava no rosto dela um bigode falso com o carvão da fogueira da noite anterior - fica o Nézinho cuspido e escarrado.
- Agora tá bom? - devidamnte caracterizada - Não vai mais sentir falta do Nézinho?
- Tá quase bão. Ainda farta arguma coisa... - disse ainda claramente insatisfeito.
- Que é? - perguntou ela não escondendo a decepção.
- Dona Jennifer, a senhora podia caminhar lá até aquele coqueiro e vim vindo pra cá, pra mode quê parecê que o João tá vindo assim na minha direção, como se eu tivesse encontrando ele depois de tempo. Pra ficar mais naturar, sabe.
Ela prontamente, disposta a reanimar seu único homem no mundo, foi até a árvore e de lá, com o cabelo preso, seu bigode desenhado e trajada com seu trapo de paletó foi-se dirigindo até ele. Ao chegar bem próximo, ele enfim exclamou alegre:
- Nézinho, meu amigo véio! Quanto tempo! Nézinho, nem sabe quem eu tô comendo...

********************
Moral da história: não adianta de nada comer a Jennifer Lopez se você não tiver um amigo pra contar.

domingo, 17 de julho de 2011

Trio 3-63 – Projeto UniMúsica – Salão de Atos da UFRGS – Porto Alegre -RS (14/07/2011)


Olorum no toró: uma homenagem a Moacir Santos


Moacir Santos (1926-2006)
Tem dias que a chuva parece precipitar além do normal. E o último 14 de julho foi assim – pelo menos em Porto Alegre. Choveu 48 horas sem parar. E não era qualquer chuvinha. Era “chuva que Deus mandava”, incessante, bastante. Mas tanta água vinda do céu foi, para os mais atentos, o prenúncio de algo transcendental que aconteceria na noite deste fatídico e molhado dia. Numa homenagem ao maestro pernambucano Moarcir Santos, um dos maiores gênios da música universal dos últimos tempos, o Trio 3-63, dentro do Projeto UniMúsica 30 anos – tempomúsicapensamento, fez um inesquecível show para cerca de 400 destemidos – e abençoados – espectadores no Salão de Atos da UFRGS.
Trio 3-63: apresentação curta porém marcante

Formado pela flautista Andrea Englert, pelo pianista Paulo Braga e pelo percussionista Marcos Suzano, três feras, o Trio 3-63 destilou um show curto mas emocionante do início ao fim, onde predominou a execução perfeita, unindo técnica e alma, e, claro, a reverência a Moacir Santos, instrumentista, arranjador e compositor, autor de obras-primas da MPB, como o célebre álbum “Coisas”, de 1960, e “Opus 3 nº 1”, de 1979. Moacir, que viveu grande parte de sua vida artística nos Estados Unidos, onde é venerado, foi, ao lado de Tom Jobim  e Hermeto Paschoal, o grande mestre da revolução harmônica da música brasileira moderna. Sua estética tem, com um hibridismo impressionante, toques de jazz e erudito misturados aos ritmos essencialmente brasileiros, bebendo no vasto folclore do nordeste (maracatu, coco, roda, xaxado, cantos religiosos), na tradição dos ritmos afro-brasileiros (lundu, jongo, candomblé, samba, marcha, choro, maxixe) e até caribenhos (rumba, habanera, cuban jazz). Tudo sempre com muito bom gosto e perfeição.
Marcos Suzano, fera da percussão
No show, o Trio 3-63 destilou clássicos como “Coisa nº 1”, “Paraíso” e “Outra Coisa”. Porém, fizeram mais do que isso. A começar pela inteligente incursão a obras de outros compositores influenciados e/ou influenciadores de Moacir Santos, como os “Motivos Nordestinos”, do percussionista e compositor Luiz D’Anunciação, e “A Inúbia do Cabocolinho”, do maestro e pesquisador musical Guerra-Peixe, ex-professor de Moacir nos seus primórdios tempos em Pernambuco. Nesta seara, ainda apresentaram a gostosa “Radamés y Pelé”, de Tom Jobim (homenageado que, por sua vez, homenageava, além do craque da bola, outro craque, este dos sons, Radamés Gnatali, grande influenciador da bossa nova e de Moacir), além de uma composição do próprio Paulo Braga, “Farol”, onde claramente o pianista conjuga todas essas referências.




Mas o trio guardaria ainda outras duas surpresas. Primeiro que, a certa altura, o trio passou a quinteto. Primeiramente, com a entrada no palco do multi-instrumentista Lui Coimbra, que tocou violão e cantou a suave e brejeira “A Santinha lá da Serra”, parceria de Moarcir com o poeta Vinícius de Moraes. Depois, ao cello, Lui acompanhou a banda em outra novidade do show: “The beautiful life” e “Love Go Down”, canções inéditas no Brasil resgatadas por Andrea no acervo de Moacir nos EUA.
Ao final do show, junta-se aos integrantes o cantor e percussionista Carlos Negreiros, negro alto, tipo etíope, todo de branco como que uma entidade da umbanda. Com seu bongô e sua bela voz grave, mas de refinado alcance dos agudos, cantou com os quatro “Coisa nº 8 - Navegação”, de charmosa melodia e letra poética (“Depois de tanto palmilhar/ Desvios e bifurcações/ Da proa desta embarcação/ Consigo interpretar, enfim/ A carta de navegação/ Que o mar traçou dentro de mim”), proporcionando o momento mais emocionante do show. Foi também Negreiros quem creditou a Olorum, senhor da criação e dos céus, o milagre de estarmos ali, mesmo com o toró que o próprio orixá fazia cair lá fora. Só podia ser uma mensagem divina, pois fomos, de fato, abençoados nesta noite. Por Olorum e por Moacir Santos, cuja poderosa alma estava lá também, encharcando-se de alegria e beleza como nós todos.