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segunda-feira, 26 de março de 2012

Porto Alegre - 240 anos

MOÇA ELEGANTE
nanquim de Hélio Ricardo Alves,
do livro "Porto Alegre foi Assim"
As palavras não são minhas, são de minha mãe: “Porto Alegre é uma moça elegante”. Mas ouso fazê-las minhas um pouquinho que seja, pois, além da óbvia consanguinidade, eu e minha mãe (cujos olhos hoje desfrutam da beleza do Rio de Janeiro, onde reside), somos porto-alegrenses e, mais do que isso, partilhamos da mesma impressão sobre esta bela jovem de maneiras charmosas chamada Porto Alegre. E diria mais: a sabida beleza imponente e sensual das mulheres da capital gaúcha se reflete inteiramente no corpo da cidade: em suas ruas, suas esquinas, suas fachadas, seus parques, suas gentes. Podem perceber, por exemplo, que Porto Alegre tem a estatura mediana das mulheres daqui: nem muito baixa, nem muito alta. Tamanho certo! Não fosse isso, seria impossível olhar para cima e visualizar o céu de azul intenso que nos cobre tanto nos dias de gelo quanto de bafo.
Outra particularidade feminíssima da cidade é sua luz. Intensa, marcante, solar, como se fosse uma modelo que o tempo todo posasse para os cliques. Quem vive aqui entende o verdadeiro significado da expressão “cidade-modelo”. Porto Alegre, na verdade, parece que desfila. Mesmo que geologicamente parada, dá a impressão de, às vezes, caminhar, seguindo no mesmo passo firme, delicado e decidido que suas mulheres têm. Aos 240 anos, a jovem Porto Alegre é uma cidade que anda do seu jeito. Nem mais lenta, nem mais ligeira que são paulos, coritibas, maceiós ou teresinas. Apenas no seu ritmo. Ritmo de uma cidade-moça elegante.


cotidianas #148 - Pus





Eu sou sua perna
Eu sou seu braço
     sou seu baço
     sou seu abdômem


Sou em você cada pedaço
Sou seu ávido homem
"Corrente Sanguínea"
foto: Cly Reis


Eu sou seu peitos
sou sua coxa
sua corrente sanguínea
Eu sou seu plexo
seu córtex
suas narinas
Eu sou seus pelos
sua boca
sou o que você nem imagina


Eu sou sua pelve
seu sexo
eu sou sua vagina


Eu sou seu sangue coagulado
ferimento infeccionado
uma cirurgia de risco


Sou sua fratura exposta
sou seu contágio
por contato físico


Eu sou sua epilepsia
sua peste
sua epidemia


Sua doença
       vacina
sua embolia


Um vírus
(só não viram
aqueles que não queriam)


Que eu sempre fui seu mal
seu câncer
pus
e tiraria

Cly Reis

sexta-feira, 23 de março de 2012

Pix

Gilberto Gil - "Refazenda" (1975)


"Renda tecida com fios do milho, milho ouro, milho sol, (...) Esperança transmutada em verde de verdade, verdes notas mágicas, o encanto da fazenda nova. Reencantação. A árvore da trindade: abacate, tomate, mamão. Árvore milagrosa: um fruto diferente a cada estação. (...) Refazenda segue sendo a vontade de Deus para cada estação."
Gilberto Gil,
explicando o conceito do disco
em 1975


Demorou pra aparecer um Gil por aqui. já teve A.F. do Caetano, do Chico, do Jorge, do João, dos Tons (o o Jobim) e nada do ex-ministro. E não foi porque merecesse menos que qualquer um desses outros. Pelo contrário. É exatamente por ter uma obra tão qualificada, com tantos discos interessantes que foi difícil apontar um pra ser seu primeiro Fundamental aqui do blog.
Depois de muito avaliar, ouvir, reouvir, trocar uma ideia com o meu irmão e parceiro de blog, o Daniel Rodrigues, cheguei à conclusão que o grande disco de Gilberto Gil é mesmo o seu "Refazenda" de 1975, parte integrante da trilogia (de quatro discos) completada por "Refavela", "Realce" e "Refestança".
Em "Refazenda", Gil penetra no coração do Brasil para compor uma obra cheia de sensibilidade, inspiração e riqueza sonora. Com composições que remetem ao homem do campo, à natureza, ao sertenejo, a temas rurais, ritmos regionais e paisagens naturais, o baiano entrega-nos algumas de suas canções mais marcantes.
Já na faixa que dá nome ao disco, a primorosa "Refazenda", de belíssimos arranjos de cordas e flauta, se utiliza da figura dos frutos, das árvores, do verde para falar sobre simplicidade, sobre o tempo das coisas, sua natureza e o amadurecimento que tudo requer.
Os temas naturais aparecem também na singela "Tenho Sede" de Dominguinhos, canção belíssima que chove, brota, escurece e emociona. Gil trata do homem simples na divertida "Jeca Total", uma canção aparentemente primária, com uma tuba minimalista, onde provoca sobre quem é verdadeiramente caipira, com alguns pontos que nos fazem pensar sobre o fato de um homem como Tiririca estar no Congresso Nacional; e vai no fundo da alma de um homem do campo deslocado na cidade grande, na emocionante "Lamento Sertanejo", minha preferida do disco, uma canção acústica chorosa de interpretação comovente. Ainda funde fauna brasileira, com rock e cultura oriental em "O Rouxinol", parceria com Jorge Mautner e visita novamente o oriente, outro de seus interesses culturais-musicais, em "Meditação", canção breve, curta com sonoridade que alude à música japonesa.
Tem ainda o chorinho "Pai e Mãe; a exaltação do povo e da alegria na ótima "Ê, Povo, ê"; a introspectiva "Retiros Espirituais" com referência a "Banho-de-Lua" consagrada no Brasil na voz de Celly Campelo ( "luar tão cândido" ); e "Essa é Pra Tocar no Rádio", um jazz experimental e acelerado, que embora interessante, perde para a versão definitiva registrada em seu disco em parceria com Jorge Ben.
Num disco tão interiorizado, nada mais correto que o artista olhar para dentro de si mesmo e é o que acontece em "Ela", faixa que abre o disco onde Gilberto Gil examina a própria alma, abre o coração e declara seu amor por sua maior musa, a música, num samba-rock embalado absolutamente saboroso
E temos enfim um Gilberto Gil nos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS. Agora, como eu disse, com uma obra tão tão significativa  e interessante, é certo que outros aparecerão por aqui. Este foi só para abrir a porteira.
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FAIXAS:
1.Ela (Gilberto Gil)
2.Tenho Sede (Dominguinhos/Anastácia)
3.Refazenda (Gilberto Gil)
4.Pai e Mãe (Gilberto Gil)
5.Jeca Total (Gilberto Gil)
6.Esse é Pra Tocar no Rádio (Gilberto Gil)
7.Ê, povo, ê (Gilberto Gil)
8.Retiros Espirituais (Gilberto Gil)
9.O Rouxinol (Gilberto Gil/Jorge Mautner)
10.Lamento Sertanejo (Gilberto Gil/Dominguinhos)
11.Meditação (Gilberto Gil)

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Ouça:
Gilberto Gil Refazenda


Cly Reis