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sexta-feira, 13 de abril de 2012

Os Causo de dois Morro - O maior estádio do mundo

Pelo que nóis andô sabendo aqui em Dois Morro vai tê Copa do Mundo no Brasir. Eu sube que tão recauchutando uns campo de futebor por aí. Hmm...
Minerão, Ponte Nova, Maracanão... Faço pôco!!!
Estádio mesmo é o Municipar.
Pôca gente sabe mas Dois Morro tem o maior estádio do mundo. Todo mundo fala de Maracanhã, Uêmbli... Tudo fichinha perto do Estádio Municipar de Dois Morro "Epaminonda Nepomuceno Neto”, que nóis chama só de Municipar, mesmo.
O Municipar de Dois Morro
meio mal conservado
No Municipar? Ah, cabe mais ou mens uns trêis Macarranã drento. Coisa linda dissivê.
E muito antes de se inventá essas coisa de arena murtiuso nóis já usava o Municipar pra gineteada, feira gropecuária, exposição de profiteróle, fandangada, matadôro, moter e ôtras cozas más.
O inauguramento do Municipar deu-se em 1886 num amistoso entre Doismorrense contra os Amigos do Arlindo Cachaça. O púbrico totar deu de mais de 500.000 pessôa. Ganhemo de 5x1: dois do Zuninga, um do Xinapre, um do juiz, um do bandeirinha, um do maqueiro, um do Beijoqueiro e um do gandula; o golo deles foi contra do nosso beque, o Morrão, que tava bêbado.
Cês acho que o Bombonera é calderão? É porque cês num conhecero o municipar. Procês tê uma ideia, o alambrado era tão perto do campo que o torcedor ali na ponta, perto da cerca é que batia o escanteio. As mulhé passavo as mão nas perna dos jogador que elas achavo bonito. Ééééé! Pressão totar!
Durante muitos ano o Doismorrense mandô seus jogo lá. Foi Dezacampeão nacionar, Tri da Conquistadores da Mérica (não por ter ganhado trêis vêiz, porque na vardade nóis ganhemo 6 título, mas a gente dizia que era tricampeão porque o time era tri bom) e 5 vêiz campeão mundiar. Depois nóis cansemo de tanto ganhá e encerramo o futebor profissionar. Hojendia o Municipar tá lá. Bandonado. Jogado às traça. Curpa da diministração incompetente do novo Perfeito, o Dr. Emiliano Vendelino. Ladrão, safado, senvergonho.
Com um poquinho de esforço e se não robasse tanto, podia tê levado a Copa pra Dois Morro. Era só dá uma ajeitadinha no Municipar e ele tava novo em folha.
Mas há de se fazê o quê?
Mas que era um tempo bão aquele que a gente ia no Municipar pra vê o Doismorrense jogá, isso era. Ia as família pro estádio, ia a piazada, ia os boi, ia os porfiteróle, os muffin. E o espetáclo era garantido: os craque do Doismorrense não decepcionava a gente. Sempre tinha no mínimo uns 3 jogador do adeversário com a perna quebrada. Aquilo é que era futebor bonito.
Ah, tempo bão.


postado por Chico Lorotta

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Arte Espontânea









Arte Espontânea
superfície de compensado manchada e arranhada

fotos: Cly Reis

Hank Williams - "Memorial Album (1953)

"Poucos compositores deste século
souberam expressar a
profunda dor da solidão
e da saudade por causa do amor
tão sombria e docemente como Hank Williams"
Matt Johnson, The The


Conheci Hank Wiliams através do The The. Seu líder e homem-banda, Matt Johnson, resolveu homenagear o lendário cantor country com a gravação de um álbum só com versões e releituras das músicas de Hank, chamado "Hanky Panky". Matt já havia feito um música numa linha mais country para a trilha do filme "O Juiz" e me deixara uma boa impressão, despertando alguma curiosidade quanto ao que poderia na matéria que se propunha então. Ouvi o "Hanky Panky" do The The, gostei bastante e fiquei bastante curioso a partir disso para ouvir, então, o verdadeiro, o original, uma vez que ouvira muito falar a respeito dele mas nunca havia escutado suas músicas interpretadas por ele mesmo. Até porque o astro country dos anos 40 e 50, tinha a fama de ser maldito, marginal e muito rock'n roll antes mesmo do termo ser efetivamente abençoado por Chuck Berry.
O disco que destaco aqui é um dos poucos dos quais falo nesta seção que não tenho. Ouvi e tenho, na verdade uma coletânea com todos os grandes sucessos do cantor chamada "Hank Willliamms 40 Greatest Hits", mas como o legal aqui é destacar sempre uma obra concebida, seu contexto histórico, suas circunstâncias de produção, etc., aponto como Fundamental o "Memorial Album", terceiro disco de Williams e contentor de alguns de seus grandes sucessos como "Move it on Over e "Your Cheatin' Heart".
"Move it on Over" é uma canção descontraída, alegre, conduzida por um violino e cantada naquela voz anasalada de Williams com uns propositais falseamentos de 'rouquidão' que já eram tradicionais nas suas interpretações; divertida também é a grande "Hey, Good Lookin'", fronteira entre o country, o blues e o rock;  "Your Cheatin' Heart" ainda, até hoje, persiste como uma das  mais belas baladas já feitas e ganhou posteriormente versão de Elvis Presley; e "You Win Again", brilhante, teve versão gravada pelos Stones presente nos extras do álbum  "Some Girls" .
"Cold, Cold Heart", outra balada, tem outra interpretação marcante ; "Half as Much" e "I Could Never Be Ashamed of You", também lentas, de dor-de-cotovelo, fazem o estilo bem campeiro característico; e "a ótima "Kaw-Liga", bem rock'n roll no conceito, tem uma batida indígena forte e marcada acompanhada por um violino.
Influência evidente para artistas como os já citados Elvis e  Rolling Stones , além de outros como Bob Dylan, Neil Young, Johnny Cash, The Smiths entre tantos outros, Hank Williams, ali por aquele final de anos 40 representava mais um passinho que a música dava em direção ao que seria o rock'n roll.

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FAIXAS:
  1. Your Cheatin' Heart
  2. Settin' The Woods On Fire
  3. You Win Again
  4. Hey, Good Lookin'
  5. Crazy Heart
  6. Move It On Over
  7. Cold, Cold Heart
  8. Kaw-Liga
  9. I Could Never Be Ashamed Of You
  10. Half As Much
  11. My Heart Would Know
  12. I'm Sorry For You, My Friend
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Ouça:
Hank Williams Memorial Album



Cly Reis

terça-feira, 10 de abril de 2012

Maurice Ravel - "Bolero" (1928)

"Ele sabe muito bem o que fez.
Não se pode falar de forma
nem de desenvolvimento ou modulação (...)
é uma coisa que se autodestroi,
uma partitura sem música, uma fábrica orquestral sem objeto,
um suicida cuja arma é apenas o alargamento, a amplificação do som."
Jean Echenoz, 
escritor francês, autor do romance "Ravel"


Um único movimento.
Uma sequência rítmica que se repete ao longo de mais de 15 minutos assumindo variações, adquirindo forma, desfazendo-se e incorporando elementos. Ora erguendo-se em ênfases, ora reduzindo-se quase a silêncio.
Uma obra-prima minimalista de linhas grandiosas, tons heróicos, um acento levemente ibérico e percussão quase militar.
Uma composição crescente que vai ganhando corpo, forma, amplitude pelo acréscimo progressivo de instrumentos, partindo de um vazio sonoro até chegar um final apoteótico no qual todos os elementos se unem para propiciar um êxtase total.
Modelo de composição altamente moderno e sofisticado, influente para a música da sequência do século 20, encontrado com frequencia em gêneros tidos por vezes como limitados ou burros, como a música eletrônica, por exemplo.
Este é o "Bolero".
De Maurice Ravel.
Um único movimento.
Um movimento único.

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FAIXAS:
1. Boléro (16:13)
2. La Valse (13:17)

*Os primeiros lançamentos em disco de "Bolero" apareceram em um compacto que tinha "La Valse" no outro lado. Teve vários outros formatos posteriormente mas ainda há edições onde se encontra esta primeira disposição.
*Há divergências quanto à duração oficial da peça: originalmente, pela partitura de Ravel ela teria algo em torno de 14 minutos, porém execuções mais lentas chegam mesmo a ter durações superiores a dezoito.
* A minha versão, que tenho em casa, da Slovak Radio Symphony Orchestra, tem duração de pouco mais de dezesseis minutos.
*"La Valse", apenas pra não deixar passar, também é uma peça bastante interessante. Intensa, de tom grandioso, misterioso e de valseado levemente insinuado. Muito valorosa também e não deve ser ignorada, de forma alguma.


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Ouça:
Bolero - Maurice Ravel (Orquestra Sinfônica de Londres - regência Valerie Gergiev)
La Valse - Maurice Ravel (Orquestra Filarmônica Radio France - regência de Myung-Whun Chung)

Cly Reis

sábado, 7 de abril de 2012

cotidianas #152 - "Coelho da Páscoa"


- Só o nêgo, só o nêgo!
Minha mãe que sempre tem histórias de infância intreressantes, emocionantes ou engraçadas (ou tudo isso junto) conta que era assim que o Paulinho, meu tio, seu irmão mais velho reclamava quando era incumbido de alguma tarefa como lavar a louça, limpar o pátio ou ir buscar pão, julgando-se sempre o sobrecarregado, o injustiçado, uma vítima das crueis ordens dos mais velhos.
- Só o nêgo, só o nêgo - protestava ele, não raro desobedecendo mesmo, a determinação da Dona Izaura, sua mãe, recusando um favor a um dos irmãos ou contrariando alguma tia. E foi o que aconteceu naquela tarde de véspera de Páscoa quando uma tia, irmã de minha avó que sinceramente não lembro o nome, que os visitava naquele dia, pediu para o Paulinho ir no armazém buscar cigarros para ela. Diante do já mencionado protesto e da recusa veemente, a tia ainda tentou argumentar:
- Olha, Paulinho, que amanhã é Páscoa e o Coelhinho não vai te trazer nada.
- Haha! Eu não acredito em Coelhinho. isso nem existe! Haha! - troçou ele - Manda outro.
- Paulinho, deixa de ser teimoso e vai na venda pra mim.
- Não vou, nada! Só o Nêgo? Manda a Iara.
- Paulinho, o Coelhinho da Páscoa não gosta de guri malcriado.
- Ah, essa coisa de coelho nem existe! É tudo bobagem! Eu não acredito mais nisso. - exibiu-se o neguinho todo senhor de si.
- Tu vai pra mim, Iara? - perguntou a tia, ao que a sobrinha assentiu e foi-se buscar a encomenda.
Acontece que naquele tempo, pobres que eram, meus avós não podiam nem pensar em dar-se ao luxo de dar presentes de Páscoa, Natal, Dia da Criança ou qualquer coisa do tipo, e aquela tia, com uma situação financeira um pouco melhor, fazia a boa ação de distribuir ovinhos para os filhos da irmã desfavorecida sempre que podia. Só que aquela malcriação do Paulinho não podia ficar assim. Ele ia ver só.
- Paulinho, tu vai ver que o Coelhinho da Páscoa vai é te deixar uma vara de marmelo do lado da tua cama pra tu deixar de ser malcriado.
- Aha! - e foi-se lá ele brincar rindo todo prosa.
O dia passou e à noite todos foram dormir com a expectativa de encontrar 'alguma coisa' embaixo de usas camas. Embaixo da cama é modo de dizer, pois a situação da família era tão precária que havia na verdade poucas camas para abrigar tantos filhos e a maioria dormia mesmo em colchõezinhos no chão. Assim, e expectativa na verdade era de encontrarem algo ao lado do seu colchão.
Aquela noite a pequena Iarinha ansiosa pelo regalo do Coelhinho mal pregou o olho. Até dormia mas era um sono leve, atento, esperando pela chegada do famoso Coelho da Páscoa. Como ele seria? Peludão? Grande? Trazia várias cestinhas? Até que lá pelas tantas da madrugada, quando todos os irmãos já tinham dormido... eis que ela ouve passos abafados. Faz de conta que está dormindo mas deixa um olho entreaberto. Os passos continuam a se aproximar até que ela vê: ele. Era o Coelhinho da Páscoa. Vê o Coelho grande, um peludo bípede de ar bonachão, orelhas longas e pés grandes e peludos. Apesar da emoção continua fingindo dormir enquanto o vê deixar cestinhas ao lado de cada um dos colchões. Quando vê que vai se aproximar de sua 'cama', ao rés-do-chão, fecha imediatamente o outro olho e imita uma respiração de sono profundo. Assim que sente que se afastou, volta a abrir o olho e ainda consegue vê-lo deixar alguma coisa diferente ao lado do colchão do traquinas irmão Paulinho. O que era aquilo? Puxa! uma vara de marmelo. O misterioso peludo deixa a vara e sai silenciosamente do quarto e apesar da surpresa, da excitação, da emoção, depois disso a pequena Iara finalmente adormece.
Na manhã seguinte acorda já com a algazarra dos irmãos. Aquela folia generalizada pela descoberta dos cestinhos ao lado dos catres. Tudo exatamente na mesma posição que a menina Iara vira na noite anterior, inclusive o seu, exatamente onde ele havia deixado. Tudo certinho: as mesmas posições no chão, as mesmas decorações de fitas, as mesmas cores dos ovos. Então... não tinha sido um sonho! E reforçando sua certeza de que não sonhara, naquele momento, em meio à comemoração dos outros irmãos, via o Paulinho acordar cheio de expectativa e deparar-se com aquela vara de marmelo colocada ao lado do colchão.
Tinha sido verdade mesmo!
Tinha sido verdade!
Emburrado, indignado, enfurecido, o Paulinho apanhou sua vara, correu pro meio do pátio e chorando quebrou o galho espinhento nas coxas finas ignorando a dor sob a risada dos irmãos e o regozijo da tia.
- Viu, Paulinho, eu não te disse que o Coelhinho ia te trazer uma vara de marmelo?
E o guri enfurecido continuava quebrando o presente em quantos pedacinhos fosse possível e repetindo sem parar "Eu odeio o coelhinho! Odeio esse coelho!".
A menina Iara, no entanto, só pensava no que havia visto na noite anterior. Um coelho grande, de carinha simpática, do tamanho de um homem, de patas grandes e felpudas. Tinha sido verdade, tinha sido verdade.
Não sei o que a minha mãe viu naquela noite. Sei que por certo não sonhou pois as cestas, os lugares, as cores eram exatamente como tinha visto à noite e além do mais vira a vara de marmelo ser posta lá. Pode-se dizer que a tia tivesse se fantasiado de coelho e entrado sorrateiramente no dormitóiro das crianças para pôr as cestas, mas não, além do fato de não chegar a ponto de se prestar a uma coisa dessas, embora tivesse um pouco mais de recursos, certamente não tinha tanto que pudesse desperdiçar numa fantasia, ainda mais para, muito possivelmente nem ser vista por nenhum dos sobrinhos. Pode-se também dizer que o subconsciente montou a situação toda de coelho, ovos, vara, irmão e numa espécie de sonho quase acordada tenha misturado fantasia com realidade. É, acho um pouco mais provável. Mas não importa muito. O mais bonito disso tudo é que uma criança por uma noite, sendo verdade ou não, nas condições humildes em que vivia, tenha experimentado a sensação de ver o Coelho da Páscoa. E minha mãe não é dessas que inventam coisas, que aumentam histórias para impresionar os filhos. Se ela diz que viu o Coelho, ela viu. Bom, ... ou pelo menos alguma coisa ela viu.


Cly Reis