Em semana dos 40 anos da redemocratização e em que político brasileiro fujão se acovarda e deixa o país, o MDC com muito orgulho traz a memória de alguém que nunca fugiu da raia. Aliás, nossa Elis Regina, que completaria 80 anos se viva, não deixava barato nunca! Igual aos outros convidados do programa: Titãs, Henri Mancini, Tracy Chapman, Mutantes, Kraftwerk e mais. Mas é a Pimentinha, claro, que toma conta do nosso quadro especial Sete-List e do Palavra, Lê. Fazendo reverências mil, o MDC vai ao ar na noite do Brasil às 21h na equilibrista Rádio Elétrica. Produção, apresentação e cuca legal: Daniel Rodrigues.
sinto-me logrado por néscios como se a realidade fosse propriedade de homens medíocres com sorte e que receberam uns pontos de vantagem, e eu me sento no frio maravilhado com as flores púrpuras ao longo da cerca enquanto o resto deles acumula ouro e Cadillacs e amantes, eu me deixo ocupar por palmas e por lápides e pela preciosidade de um sono como se dentro de um casulo; ser um lagarto seria bem ruim ter de se escaldar ao sol seria bastante ruim mas não tão ruim como ter de se erguer à estatura de um homem e à vida de um homem e desprovido da vontade de fazer parte do jogo, sem vontade de ter metralhadoras e torres e relógios de ponto, sem vontade de lavar o carro de extrair um dente de ter um relógio de pulso, abotoaduras um radinho de pilha pinças e algodão um armarinho com iodo, sem vontade de ir a coquetéis de ter um gramado no pátio da frente de todo mundo cantando junto sapatos novos, presentes de Natal, seguro de vida, a Newsweek 162 jogos de beisebol umas férias nas Bermudas. sem vontade para nada sem vontade, e eu me ponho a analisar as flores tão melhores do que eu o lagarto tão melhor a mangueira verde-escura a eterna grama as árvores os pássaros, os gatos sonhando ao sol amanteigado estão muito melhor do que eu, tendo agora de vestir este velho casaco subjugado a meus cigarros à chave do carro a um mapa da estrada, tendo de sair pela calçada como um homem a caminho da execução avançando seguramente em direção a ela, seguindo a seu encontro sem escolta rumando em sua direção correndo até ela a 110 km por hora, manejando maldizendo deitando cinzas cinzas mortais de cada coisa mortal queimando, a larva enfrenta menos horror os exércitos de formigas são mais valentes o beijo de uma cobra menos voraz, eu quero apenas o céu a me queimar mais e mais me aniquilar de modo que o sol surja às 6 da manhã e siga até depois da meia-noite como uma porta bêbada sempre aberta, avanço em direção a ele sem desejá-lo chegando nele chegando nele enquanto o gato se espreguiça boceja e se revira em direção a outro sonho.
No embalo do primeiro Oscar do cinema brasileiro e do sucesso de "O Auto da Compadecida 2", produção nacional que vem levando milhares de pessoas aos cinemas, o Clássico é Clássico (e vice-versa) traz aqui um confronto entre "O Auto da Compadecida ", de 2000, que impulsionou sua sequência de 2024 a ser esse novo fenômeno de bilheteria, e sua primeira versão cinematográfica, pouco conhecida, de 1969, "A Compadecida". Pois é, esta obra de Ariano Suassuna tem uma adaptação cinematográfica anterior à conhecidíssima e consagrada de 2000, e que quase ninguém sabe que existe. Diante da popularidade de "O Auto da Compadecida", de 2000, a maioria das pessoas não teria dúvidas em afirmar, mesmo sem ver o antigo, que não tem nem graça um duelo de um grande sucesso como esse contra um esquecido, empoeirado e desconhecido filme lá dos idos de não sei quando. Tipo um time multicampeão, cheio de grandes jogadores contra um outro pouco badalado de um centro menos valorizado. Barbada? Não é bem assim... "A Compadecida" tem méritos inequívocos e consegue fazer frente ao novo em diversos quesitos. Produzido com grande orçamento para a época, "A Compadecida" traz ecos ainda da estética da segunda fase do Cinema Novo, ainda que, curiosamente, para um projeto tão brasileiro contasse com um diretor húngaro, George Jonas, atrás das câmeras. A onda de treinadores estrangeiros já estava na moda, hein! Além disso, time por time, o de 1969 não ficava devendo muito: tinha nada menos que feras como Antônio Fagundes, Armando Bógus, Regina Duarte e outros bons nomes como Felipe Carone, Jorge Cherques e Ari Toledo . Como se não bastasse, a comissão técnica trazia nomes de peso como o artista plástico Francisco Brennand nos figurinos, a arquiteta Lina Bo Bardi na direção de arte, música a cargo de Sérgio Ricardo, e o próprio autor da peça, Ariano Suassuna, fazendo uma de auxiliar técnico, como responsável pelo roteiro. Isso é só pra mostrar com quem estão lidando! Com um jogo um pouco arrastado na primeira parte, "A Compadecida" cresce de produção e aos poucos vai mostrando a boa estrutura do time. O aproveitamento da estética do sertão como pano de fundo natural, a exploração das tradições culturais, a teatralidade, a alegoria religiosa, tudo colabora para o bom desempenho em campo do time do técnico europeu George Jonas. Do outro lado temos uma adaptação feita originalmente para minissérie de TV e que posteriormente foi editada e distribuída nos cinemas. A boa produção, recursos e aparato da maior rede de televisão do país, garantiam um produto final com qualidade e pronto para ser consumido com júbilo pelo público em geral. Produção padrão Globo! Ainda que a adaptação para o formato longa metragem comprometesse um pouco a montagem e tornasse abruptas algumas transições, a transposição para o cinema foi um sucesso e o então filme, não mais minissérie, tornou-se uma das maiores bilheterias do cinema nacional. Para tal êxito, o diretor Guel Arraes, responsável pelo núcleo mais criativo e interessante da emissora, sempre com boas propostas de programas, séries, especiais, teve à sua disposição nada menos que toda a vitrine disponível da maior produtora de novelas da TV brasileira e por isso mesmo, um vasto e qualificado elenco para sua escolha. É como um grande clube, com os melhores jogadores do mundo em seu elenco, que contrata um técnico e diz pra ele, " Tá aí. Escala quem você quiser". Guel optou pelo entrosamento, mesclou com a experiência e botou dois caras diferenciados para decidir. Chamou boa parte do elenco da antiga TV Pirata, Marco Nanini, Diogo Vilela e Denise Fraga, outros com quem já trabalhara em seu núcleo na emissora, como Bruno Mazzeo e Virgínia Cavendish, deixou os medalhões Rogério Cardoso e Lima Duarte ali no meio só distribuindo o jogo, e deixou sua talentosíssima dupla de ataque, Selton Melo e Matheus Natchergale, à vontade pra enlouquecer a defesa adversária. Na boa, Antônio Fagundes e Armamdo Bógus são talentosíssimos, mas o Chico e o João Grilo da nova versão são muito melhores! Mais carismáticos, mais protagonistas, mais engraçados. O humor da nova versão é mais convidativo, a proposição da obra é fazer rir e ela se sai muito bem no que pretende. O corpo de elenco é mais envolvido nessa tarefa do que no antigo que se propunha a ser um filme sobre sertanejos, com situações engraçadas.
"A Compadecida" (1969) - filme completo
"O Auto da Compadecida" (2000) - trailer
A vitória da nova versão passa por aí. Tem tantos méritos quanto o anterior mas é mais gostoso, mais cativante. Cada um a seu modo transmite sua estética de sertão e aí é um gol para cada um. Se a Globo proporciona cenários bem acabados, locações bem escolhidas, materiais de qualidade, uma iluminação de primeira (1x0), a craque Lina Bo Bardi, encarregada da concepção artística do original, com sua noção diferenciada de espaço, desequilibra e deixa tudo igual nesse quesito. 1x1. Nem a retaguarda da produção para a TV que pôs à disposição da equipe os melhores profissionais, estilistas e o guarda-roupa da maior emissora do país, impediu o gol de outro gênio, Francisco Brenant que com muita cor, alternâncias de tons, contrastes, elementos folclóricos, criou figurinos criativos e diferenciados desempatando a partida. 2x1 para A Compadecida. O autor, Ariano Suassuna, jogava para o time de 1969, do qual fora roteirista e colaborara com as mais preciosas informações e impressões para o diretor George Jonas, mas, consultado pelo diretor da nova versão, Guel Arraes, sobre a inclusão de trechos de dois outros contos seus no roteiro da nova versão e concordando com a ideia, acabou jogando de bandido e fazendo gol contra. O acréscimo da parte da disputa pela filha do Coronel (de "Torturas de um Coração e a Pena da Lei") e da herança da avó da noiva com o cofrinho cheio de dinheiro (de "O Santo e a Porca), enriquecem a trama do remake e lhe garantem o gol de empate. 2x2. Ô, Seu Suassuna, o que é isso? Jogando contra o próprio patrimônio... A cena do ataque dos cangaceiros no original é pura poesia visual. Uma fascinante coreografia com contornos circenses que põe o time de '69 em vantagem. 3x2. O julgamento dos pecadores pelo diabo tem méritos nos dois. Se no anterior a sequência é crua, externa, no meio do sertão, explorando a paisagem agreste local, e com uma edição espetacular, no recente tem um belíssimo cenário estilizado de uma capela de romeiros com efeitos digitais primários mas que comunicam bem e dialogam com a estética do cordel nordestino. 4x3. O antigo continua em vantagem. No entanto, ainda nesta sequência, a craque Fernanda Montenegro desequilibra. Embora encarando uma boa adversária, a então jovem Regina Duarte, com sua interpretação serena e altiva, ela eterniza uma Nossa Senhora doce e maternal para o cinema brasileiro. Golaço pra empatar de novo a peleia!!! 4x4. Cabe à dupla de ataque, João Grilo e Chicó, decidir o jogo. Num perfeito entrosamento e tabelinhas perfeitas, a dupla da nova versão, Selton e Natchergale, é hilária e tem passagens memoráveis. A da trama da bexiga de sangue, a do plano para o duelo com os valentões, a trapaça ao cangaceiro Severino, o pedido de casamento da filha do Coronel, a da ressurreição de João Grilo, todas cenas de chorar de rir. Tabela perfeita, desde a própria área até o outro lado do campo, sem deixar a bola cair, enganando todos os adversários, o padeiro, o padre, o cabo, o valentão, os cangaceiros, driblando até o diabo, dando um chapéu no coronel, até João Grilo deixar limpinha pra Chicó só completar praticamente em cima da linha, com o bumbum. 4x5. Dizem que o gol foi tão bonito que Chicó levou a bola, a bandeirinha de escanteio, o apito do juiz e até a rede pra casa. Dizem que pendurou a rede na varanda e dorme nela toda noite. "Como é que só dois enganaram toda essa gente? Padre, bispo, padeiro, polícia, cangaceiro, coronel e até o diabo?" Bom... Não sei. Só sei que foi assim.
(Sempre à esquerda o original) No alto, as duplas Chicó e João Grilo; na segunda linha João Grilo engambelando o cangaceiro Severino com a gaita mágica; na terceira, o cenário natural do julgamento dos pecadores do filme de 1969, e à direita o cenário da capela de romeiros do filme de 2000; logo abaixo, o diabo diante de Jesus e Nossa Senhora, nas duas versões; e por último a Compadecida, Regina Duarte no primeiro filme, e Fernanda Montenegro na varsão nova.
É, muita gente achou que era barbada, páreo corrido,
mas futebol (e cinema) não é assim.
Não tem jogo jogado.
Não é porque foi sucesso de público que a vitória tá garantida.