Curta no Facebook

Mostrando postagens classificadas por data para a consulta theatro são pedro. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por data para a consulta theatro são pedro. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

André Abujamra & Marcos Suzano - Torakutan - Porto Verão Alegre 2026 - Teatro Simões Lopes Neto - Multipalco Theatro São Pedro - Porto Alegre/RS (13/01/2026)

 

Torakutan Arado da Nova Era
No motor do peito, o som desperta,
Não é apenas barulho, é a trilha certa.
Torakutan chega com o peso do aço,
Abrindo caminho, rompendo o cansaço.
Como o trator que curva o horizonte,
Buscamos a pureza direto na fonte.
Não viemos para derrubar o que é bom,
Mas para limpar o terreno com o nosso tom.
Trecho do semimanifesto “Torakutan”

Tem encontros artísticos que a gente para pra pensar e se admira: “como que isso não aconteceu antes?!”. No caso de André Abujamra e Marcos Suzano, dois craques da música brasileira, até já havia ocorrido, mas não com a intensidade e inteireza que o novíssimo projeto Torakutan apresentou-nos em um inspiradíssimo (e inédito!) show em Porto Alegre, durante a programação do Porto Verão Alegre 2026. Perfeitamente sintonizados em seus estilos, referências e, principalmente, liberdade artística, Abu e Suzano fizeram do palco do Simões Lopes Neto um altar de criatividade e musicalidade, improvisando e inventando, ali mesmo na hora, vários números, mesmo quando havia algum “roteiro”.

Sempre bem-humorado, o “Mulher Negra”, o “Homem Bruxa”, o Karnak ou seja lá o que se queira creditar a esse artista especial, Abu - a quem conheci anos atrás em Gramado e que virou um amigo desde lá - conversou e interagiu com a plateia o tempo todo, entre os números e, às vezes, durante os mesmos. Suzano, menos falante mas muito simpático, largou observações que também tiraram risos da galera. Usando programadores digitais (que conseguem gravar na hora e sequenciar os acordes tocados, mantendo a base das músicas) e poucos instrumentos (Abu: guitarra, piano e flauta chinesa, e Suzano: uma diversidade de instrumentos percussivos, tanto físicos quanto eletrônicos), eles começaram executando o que se pode chamar de “Intro Torakutan”, um show de improvisação que já deu a noção do que viria.

 Vieram, na sequência, a delicada “Pangea”, do repertório de Abujamra, com sua tradicional poesia humanista-universalista (“Antigamente o continente era colado/ A África ficava aqui do lado/ Angola, Senegal/ Coladinho no Candeal”). No primeiro “improviso maluco” da noite, conforme Abu anunciou, ouviu-se de ritmos nordestinos e africanos a trance music! Outra linda de Abu, sobre a perda de sua mãe, “O Mar” (presente no álbum “Omindá”, de 2018), foi tocada com alto grau de emoção, visto que ela, no passado, conheceu seu pai, o ator e diretor de teatro Antônio Abujamra, justo em Porto Alegre, de onde vem parte de sua família – na plateia estavam presentes diversos parentes de Abu, inclusive o diretor e idealizador do festival, o ator Zé Victor Castiel, seu primo. Mas tinha ainda mais: Abu contou que, quando apresentou a letra da música para seu pai, este, sincero e mordaz como era, não gostou do que leu. Porém, dias depois, foi ele quem faleceu. A música, onírica e profunda: diz assim em seus versos: “O mar é como a vida, o mar/ Que tá calmo e no outro não”.

Um trecho da emocionante "O Mar"

Na sequência, foi a vez de Suzano trazer uma de seu repertório, a malemolente “Desentope Batucada”, do seu disco solo “Sambatown”, de 1996. Nesta foi uma das vezes em que pudemos ouvir o pandeiro de Suzano, que vale por uma escola de samba inteira. Mais um “improviso maluco”, agora com a participação efetiva do público. Abu pediu para que três pessoas da plateia dissessem cada uma alguma palavra. Saíram: “lucidez”, “panela” e “amor”, que, juntas, viraram o título do xote criado na hora, inclusive a própria letra, feita por outra pessoa da plateia a pedido do artista via IA no celular. A música resultante, embora um pouco errática em algumas horas, saiu legal, além de engraçada, sonora e filosófica, visto que coloca todos diante da dicotomia analogia x digital.

Com maravilhas de improvisos desses dois feras entre as músicas (como no duelo de baião entre guitarra e pandeiro, um dos momentos mais aplaudidos), rolou ainda uma música-tema da “terceira maior big band do mundo” (afinal, Os Mulheres Negras é conhecido por ser a segunda), “Torakutan”, uma versão diferente de “Porquá Mecê”, também do repertório dos tempos d’Os Mulheres, e a crítica “Mendigo”, que Suzano disse ter ficado impressionado quando ouviu pela primeira vez, em 2015, no disco “Homem Bruxa”, de Abu.

Para encerrar, mais improvisação e a brilhante “Espelho do Tempo”, noutro momento carregado de emoção, pois é uma peça que fala da ancestralidade e escrita por Abu para seu pai. “O presente é o reflexo do passado/ E o futuro é o reflexo do presente”. Versos bastante simbólicos estes para finalizar um show em que se vê dois artistas à frente de seu tempo. Entre a brincadeira e a poesia, Abu diz que a palavra “Torakutan”, quer dizer, em algum dos vários idiomas nos quais brinca de traduzir, “farol de luz”. Vimos dois deles no palco.

🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶

A dupla começa o show no Simões Lopes Neto!


Abu: uma cabeça rara


Suzano: craque da percussão


Abu cantando trecho de "Candelara", do repertório da Karnak, 
acompanhando o pandeiro de Suzano


Torakutan em ação


Aplausos e mais aplausos ao final


Nós no camarim com o amigo Abu


🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶


texto: Daniel Rodrigues
fotos e vídeos: Daniel Rodrigues e Leocádia Costa

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Cátia de França convida Juliana Linhares - 32º Porto Alegre em Cena - Teatro Simões Lopes Neto - Multipalco Theatro São Pedro - Porto Alegre/RS (16/09/25)

 

Desde a primeira vez que escutei Cátia de França alimentava a vontade de vê-la ao vivo. Anos atrás, isso era um desejo apenas remoto. Esta paraibana genial, dona de composições ímpares e de um estilo que agregava à geração nordestina um toque feminino e original, já era uma figura cultuada entre apreciadores da música popular brasileira com seu mitológico álbum de estreia, "20 Palavras ao Redor do Sol", de 1979. Para vê-la, talvez nem na sua Paraíba, tendo em vista que a carreira, distante do estrelato, trouxe alguns hiatos nestes mais de 40 anos em que lançou apenas outros seis trabalhos de estúdio, sendo a maioria por selos independentes.

Porém, como a "Fênix", título da espetacular e emblemática canção que abre o show em ritmo de baião-rock, Cátia renasceu. Em 2024, lança o já clássico disco "No Rasto da Catarina" e ressurge para um novo público e para os antigos amantes de sua música. Indicado ao Grammy Latino e tornado cult imediatamente, o disco, somado ao título que ela recebe de patrimônio cultural da Paraíba, enfim, motivam a que a artista venha pela primeira vez ao Rio Grande do Sul, aproveitando a programação do 32º Porto Alegre em Cena. 

E toda e expectativa não foi frustrada, tanto para nós da plateia, que vimos um show vibrante, melodioso e cheio de empoderamento, quanto para a própria Cátia, impressionada com o calor do público do Sul. Com o repertório do excelente "No Rastro...", entremeado por vários números do seu célebre trabalho inaugural, a apresentação contou ainda com a animada participação da potiguara Juliana Linhares, uma ótima cantora e performer que somou sua voz a da ídola Cátia, bem como cantou também músicas de seu repertório.

Num quase lotado e bastante empolgado Teatro Simões Lopes Neto, o há pouco inaugurado novo espaço do Multipalco Theatro São Pedro, Cátia, uma entidade negra de 78 anos, trouxe emocionantes execuções das novas canções, como a ótima reggae-xote-rock "Bósnia", composta nos anos 90 mas muito atual em um mundo de guerras da Ucrânia e Gaza. Outra que tocou, principalmente as mulheres presentes, foi "Negritude", manifesto negro e feminista de uma representante tomada de "lugar de fala", pois mulher, preta, nordestina, idosa e LGBT. A letra diz: "Já não tenho medo/ Minha pele agora é minha lei/ Meu cabelo é diferente/ A vasta mistura me torna mais gente".

Igualmente belas, "Espelho de Oloxá", parceria com as jovens musicistas Regina Limeira e Khrystal Saraiva, a impactante "Em Resposta", o blues-rock "Academias e Lanchonetes" e a sertaneja "Conversando Com o Rio", num rico arranjo. Também das recentes, a caribenha "Malakuyawa", sobre a sabedoria da velhice, o gostoso samba-soul "Indecisão" e a balada "Meu Pensamento II" (que ficaria muito bem na voz de Alcione, #ficaadica).

Das clássicas, "20 Palavras Girando ao Redor do Sol", tema principal do disco de 1979, arrasou. Da mesma forma, a balada filosófica "Kukukaya", sobre a criação da vida, e o arrasador forró "Quem Vai Quem Vem". Sob a atmosfera da poesia de João Cabral de Melo Neto, a qual perfaz todo aquele brilhante disco, Cátia ainda traz ao público porto-alegrense as parcerias "Ensacado", dela com Sérgio Natureza, e a feminíssima "Djaniras", esta, com Xangai e Israel Semente.

Cátia canta um de seus clássicos com a irreverente 
e talentosa Juliana Linhares, "Quem Vai Quem Vem"

Juliana dá sua contribuição com energia no palco e uma sincera reverência a Cátia, uma de sua referências musicais junto com Amelinha e Elba Ramalho - esta última, por sinal, com quem guarda semelhanças no timbre vocal. Além do xote tangueado "Tereco e Mariola", duas outras de seu repertório sacudiram o público em especial: o maracatu "Bombinha" e o cativante xote "Balanceiro", que teve seu refrão cantado pela galera: "Eu não posso mudar o mundo/ Mas eu balanço/ Eu balanço o mundo".

Para finalizar, Cátia e Juliana reservaram duas antigas: o irresistível baião "O Bonde" ("Óia lá vai o bonde") e, no bis, outra clássica: "Coito das Araras", com direito a Cátia tocando triângulo. Aí, a plateia já estava de pé antes mesmo de aplaudi-la por minutos.

A vontade de assistir ao vivo Cátia de França foi totalmente satisfeita. O que só veio a comprovar outra coisa que senti na música dela também desde a primeira vez que ouvi: que ela faz um dos sons mais modernos que a música brasileira já inventou. Nordestina, brasileira e universal. E resistente. Afinal, como a Fênix, Cátia renasceu das cinzas para "desassossego dos seus inimigos" e deleite de nós fãs.

🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶

Começando o show com Cátia e sua competente banda

Uma entidade negra no palco

Cátia e banda somados agora à voz de Juliana Linhares

A espetacular "Coito das Araras", que encerrou brilhantemente o show de Cátia de França


Encerrando o belíssimo primeiro show da musicista paraibana no RS



texto: Daniel Rodrigues
fotos e vídeos: Daniel Rodrigues e Leocádia Costa

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Marmota Jazz - Theatro São Pedro.- Porto Alegre (5/12/2017)



Há uma crescente renovação nas hostes do jazz e da música instrumental não só no Rio Grande do Sul como no Brasil. Mas aqui esta renovação traz ventos de criatividade e densa criação musical. Foi o que vimos, no Theatro São Pedro, no show de lançamento do disco "A Margem", do Marmota Jazz, grupo formado por Leonardo Bittencourt aos pianos acústico e elétrico; Pedro Niederauer Moser, na guitarra; André Mendonça, no baixo acústico; e Bruno Braga, na bateria.

Notabilizada pela qualidade de seus integrantes e pela fineza nas composições e arranjos, a banda resolveu dar um passo à frente, incorporando elementos eletrônicos e distorções, especialmente na guitarra de Moser. A platéia lotada de jovens vibrou com as invenções do quarteto e aplaudiu de pé a performance. O novo repertório é complexo com os meninos viajando nos temas que se transmutam, seja nos tempos das composições, seja em suas harmonias. Para meu gosto pessoal e intransferível, preferiria que o guitarrista Pedro Moser não abusasse tanto dos efeitos. Como ele próprio me disse depois do espetáculo, "foi um show roqueiro”. Eu não diria isso, pois as novas tendências do jazz e da música instrumental fazem uso de todos os recursos, acústicos e/ou eletrônicos, em suas apresentações. Vide o caso do saxofonista do momento, Kamasi Washington, que se apresenta com teclados e DJ. Mas acredito que a experiência com os efeitos ainda será mais e melhor explorada no som do grupo.

Como eu estava num camarote central, no terceiro piso do TSP,, onde o som chegava embolado, não consegui entender o que disse o ator Marcos Contreiras em sua intervenção recitada durante uma das músicas novas. O Marmota também me lembrou as atuações das bandas fusion dos anos 70, como Return to Forever, Pat Metheny Group e Mahavishnu Orchestra, pela intensidade do trabalho e pela constante mudança de climas durante a mesma composição. Todos os integrantes tem seus momentos de brilho mas, além da guitarra "billfriseriana" de Moser, Leonardo Bittencourt mostrou toda a sua destreza ao piano acústico, Bruno Braga mesclou sutileza com intensidade na sua bateria e o baixista André Mendonça é a âncora do grupo. Enquanto os outros viajam, ele segura as pontas com um approach às vezes lírico, às vezes funcional. A inventividade do grupo conseguiu vencer as dificuldades e apresentou um espetáculo que lavou a alma dos que foram ver o lançamento do segundo disco.

texto: Paulo Moreira
foto: Marilene Bittencourt

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Vitor Ramil – Theatro São Pedro - Porto Alegre/RS (22/10/2017)



Vitor Ramil apersenta seu novo Campos Neutrais no São Pedro
Muito se falou sobre a excelência do disco e do show "Campos Neutrais" do grande Vitor Ramil. Ouvi o disco durante a semana e fui ao show no domingo, dia 22. O disco traz o rigor da gravação, do apuro técnico e da utilização dos recursos do Estúdio Audio Porto para nos deslumbrar. Já o show é a música viva, em contato com o público - sem conhecer o trabalho, em sua maioria - e respirando aquela atmosfera engendrada por Vitor, pelos percussionistas e pelo Quinteto Porto Alegre com os arranjos do Vagner Cunha.

Como me disse o próprio autor, os arranjos de sopros foram realizados após a gravação das percussões. A mistura orgânica entre os metais e ritmos percussivos chamou a atenção da minha amiga Beatriz Gil e aponta para um outro caminho melódico. As participações da sobrinha Gutcha e do genro Felipe Zancanaro são perfeitas. As letras percorrem os afetos - "Isabel", para a filha; "Ana", com a "ajuda" de Bob Dylan, para a esposa e companheira de sempre - mas também enfocam situações e narradores diversos.

Como o violinista rumo à morte em "Stradivarius" e a guarita da beira da praia em "Hermenegildo". A indignação com a política vem em forma poética em "Palavra Desordem". A importância das cidades da moradia, "Satolep Fields Forever", e da visita, "Duerme Montevideo" também está presente. Aliás, nesta última está o verso que resume bem as intenções de Vitor: "Viver é maior que a realidade". O conceito de Campos Neutrais está perfeitamente realizado, tanto no disco como no palco.


Paulo Moreira

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Meredith Monk - “Dolmen Music” (1980)



“Se Monk está procurando um lugar no firmamento clássico,
é a música clássica que tem muito a aprender com ela.
Ela pode aparecer ainda mais à medida que o novo século se desenrola,
e as gerações posteriores invejarão aqueles que conseguiram vê-la viver".
Alex Ross,
jornalista e crítico musical

“A voz humana pode muito bem ser o Instrumento mais expressivo de todos,
capaz da mais sutil das nuance e da exclamação mais dramática,
 mas poucos exploraram toda a sua gama tão
completamente quanto Meredith Monk”.
John Kelman,
jornalista e crítico musical




Um jornalista amigo meu, logo após assistir o espetáculo de Meredith Monk no Theatro São Pedro durante o 22º Porto Alegre em Cena, em 2015, comentou abismado com o que vira: “Meredith Monk veio de outro planeta”. Embora entenda a força de expressão, pois em parte é um asteísmo justo, hei de discordar dele: Monk não vem de longe, de um lugar desconhecido, mas, sim, do próprio planeta Terra. De seus recônditos, das profundezas, da natureza mais genuína e inobservada por nós, reles normais. Em Monk habitam uma índia shokagawe, uma japonesa enka, uma bruxa celta, uma inca quíchua, uma indiana vadava, uma caçadora africana, uma fêmea das cavernas. Ou, simplesmente, uma mulher, misteriosa e mágica, moderna e atemporal, autêntica e viva. 

Cunhada na vanguarda dos anos 60, a norte-americana Monk é compositora, cantora, coreógrafa e criadora da new opera, além de música de teatro, filmes e instalações. Uma das artistas mais originais e influentes do nosso tempo, é pioneira da chamada "técnica vocal estendida" e "performance interdisciplinar", que muito caminho abriu para artistas internacionais como Björk, Elizabeth Fraser, Laurie Anderson, Diamanda Galas e brasileiros como Arnaldo Antunes, Tom Zé e Walter Franco. Monk cria obras que prosperam na interseção de música e movimento, imagem e objeto, luz e som, descobrindo e tecendo novos modos de percepção. “Dolmen Music”, de 1980, considerada uma de suas obras-primas, traz uma mostra expressiva desse caldeirão de ideias e referências.

Contemporânea de conterrâneos como Philip Glass, Morton Feldman, Terry Riley, Harry Partch e Steve Reich, Monk é, como estes, parte de uma linha evolutiva da música clássica através dos séculos. Talvez até mais que eles, entretanto, ela junta todos os tempos e estilos em um único elemento-base: a voz. Dona de uma capacidade sintética espantosa, ela faz remontar Palestrina e Boulez num átimo. Assim, Monk destila em “Dolmen Music” peças da mais inquietante beleza. Quando muito, conta com a participação de Steve Lockwood no segundo piano e a percussão e violino do produtor Collin Walcott (o “CO” do Codona, grupo avant-garde formado por ele com DOon Cherry e NAná Vasconcellos nos anos 70).

Na primeira parte, é praticamente apenas isso: voz e piano. Suficiente para Monk, sobre melismas e vocalises, criar paisagens de som que desenterram sentimentos, energias e memórias para as quais não há palavras. E nem precisam. Vê-se isso num de seus clássicos: “Gotham Lullaby”, que abre o álbum. Sobre uma delicada base de piano em contraponto, que, cíclica, engendra dois tempos de 4 compassos para, obsessiva e incondicionalmente, voltar sempre à mesma nota, ela explora do mais sentimental registro de soprano a sufocados gritos de desespero. Regravada por Björk em 2015, é uma canção de ninar de um lugar fictício e obscuro – e absolutamente interno.

Na minimalista “Travelling”, o piano, tal como já explorara em “Key”, de 1970, se transforma em elemento percussivo para acompanhar o canto tribal, que se vale de perfil sonoro prolongado das notas para conferir-lhes variações de modulação, a exemplo dos gritos de guerra indígenas. Noutra hora, é a mezzo clássica que aparece, a qual lembra por demais Liz Fraser do Cocteau Twins. Sua exploração sonora vai do som mais gutural ao agudo nasal em exercícios vocais de difícil execução. Já “The Tale” – que fechou sua apresentação em Porto Alegre numa engraçada performance de bruxa dos contos de fantasia – parece brincadeira de criança, mas é de uma complexidade inequívoca. A breve letra (“I still have my hands/ I still have my mind/ I still have my money/ I still have my telephone…”) é um artifício chistoso para desencadear uma peça de caráter mínimo em que Monk põe mais uma vez sua interminável capacidade vocal a serviço da imaginação. É impossível não visualizar uma bruxa encanecida e enrugada, pois, sobre o tema sonoro picaresco do órgão elétrico, ela encarna a personagem, ornamentando falas e risadas por meio de ressonâncias e modulações.

“Biography”, outra assistida no show de 2015, é uma das mais incríveis canções escritas nos últimos 50 anos na música mundial. Não é exagero o que digo, afinal, “Dolmen Music” como um todo é considerado um dos 20 trabalhos fundamentais para se entender a música da segunda metade do século XX conforme aponta o crítico e pesquisador musical italiano Piero Scaruffi. E este tema, composto em 1973, é bastantemente representativo dentro do repertório de Monk. Não à toa sua execução deixa todo mundo pasmado como ocorrera em Porto Alegre, um misto de estarrecimento e encanto. Nela, Monk parece sintetizar todo o sofrimento da condição feminina neste mundo opressivo e desigual ao contar a biografia de uma anônima e simbólica mulher. Tudo sem precisar de palavras, somente através dos sons. O triste tema do piano faz base para o canto que vai da mais íntima angústia à histeria. Os melismas aprontados por Monk vão pouco a pouco se transformando, ganhando mais intensidade mas, igual e fatalmente, aproximando-se do insano. O choro aflito é desenhado em traços dissonantes e atonais, remetendo aos arranjos vocais lancinantes de Ligeti em “Requiem” e de Penderecki em “Canticum Canticorum Salomonis”. A loucura avança aos limites, e Monk passa a articular palavras sem sentido em vibratos, tremulos e glissandos. Um pássaro ferido grita, um animal acuado na jaula grita. Há momentos em que, alucinada, a mulher conversa consigo mesma, alternando a própria voz e tentando fazer emergir o que ainda lhe resta de sanidade. Até sucumbir de vez. Em sustenidos, o piano, impassível em sua melancolia, anuncia que, enfim, tudo terminou. Música que vale ouvir e reouvir sempre.

A segunda metade do disco é totalmente dedicado à faixa-título, miniconcerto para seis vozes, piano, violino, violoncelo e percussão. O arsenal técnico e criativo de Monk é explorado aqui com maior complexidade, mas sem se descaracterizar do restante. Afinal, é a voz que permanece no comando, capaz de fazer-nos projetar mundos exóticos e sem distinção temporal. “Overture And Men's Conclave”, primeira parte da peça, começa nas três vozes femininas e cello repetindo uma pequena célula de 4 compassos, em que a última nota se estende. As vozes masculinas, monódicas como a dos modos gregorianas e microtonais como a dos cantos tibetanos, entram em contracanto.  O uso do “kobushi”, vibrato lento muito usado como ornamento música japonesa, passa a dar cores cada vez mais orientais à música, cuja intensidade aumenta, fazendo a música avolumar-se.

A predominantemente ressonante “Wa-ohs”, na sequência, é trazida do repertório de “Songs from the Hill/Tablet”, trabalho de Monk de um ano antes. Novamente, a referência à música do Oriente é visível, haja vista que o coro forma um quase um mantra de monges budistas. Percussivas, as vozes funcionam como gongos soando. Logo após, acordes cadenciados de cello conduzem a bela “Rain”, em que os timbres femininos vão entrando em frases esparsas até encurtarem seus espaçamentos e construírem um andamento mutável, em que as modificações das células rítmicas vão se alterando no decorrer e ganhando novas conformações.

Cheia, a polifônica “Pine Tree Lullaby” conta apenas com as vozes em cascata, engendrando um canto litúrgico e zen ao mesmo tempo. Não menos impressionante, “Calls” aproxima-se do arrojo do rock ao usar o violoncelo sendo friccionado pelo arco, mas não na horizontal como normalmente, e sim na direção vertical. O efeito é de um som trasteado, vibrado, atritado. Soma-se a isso ainda as baquetas de percussão no próprio instrumento, que não necessariamente percutem o cello, mas, sim, colocadas bem próximas às cordas, deixam-se percutir pela vibração gerada pela esfregação da crina do arco. As vozes retornam para a derradeira “Conclusion”, onde novamente Monk resgata o lamentoso tema central da abertura da peça, adicionando agora gemidos, ruídos, palavras quebradas e onomatopeias das mais diversas.

 Se se pensar a obra de Meredith Monk dentro de uma linha evolutiva da música clássica se perceberá que sua música abarca todas as épocas. Vem desde a Idade Média, passando pelo Renascimento, Barroco, Romantismo, Ópera, Decadentismo, Modernismo até chegar ao nas vanguardas do século XX e todos os seus inúmeros direcionamentos. Por este ângulo, é fácil explicar o porquê da minha emoção quando a vi no palco. Era a emoção de estar vivenciando algo superior. O privilégio de vê-la ao vivo é como presenciar uma ópera de Wagner regida por ele mesmo, é como escutar um recital de Chopin com o próprio ao piano. Monk, no panteão dos compositores clássicos, nos traz essa exploração da voz como uma linguagem que expande os limites da composição musical na história de arte, uma linguagem eloquente em si própria. E que nos faz identificar algo submerso em nós mesmos. Nós, esses habitantes de um indistinto planeta Terra que Monk nos faz reconhecer.
****************************

FAIXAS:
1. “Gotham Lullaby” - 4:14
2. “Travelling” - 6:15
3. “The Tale” - 2:47
4. ”Biography” - 9:26
5. “Dolmen Music” - 23:39
a. “Overture And Men's Conclave”        
b. “Wa-ohs”     
c. “Rain“
d. “Pine Tree Lullaby”   
e. “Calls”            
f. “Conclusion”

todas as composições de autoria de Meredith Monk.
********************* 
OUÇA O DISCO:


por Daniel Rodrigues

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Vitor Ramil & Orquestra de Câmara do Theatro São Pedro – Theatro São Pedro - Porto Alegre/RS (22/10/2016)



Visão geral do palco do Theatro São Pedro
com Vitor e a orquestra.
“Ares de milonga sobre Porto Alegre/
Nada mais, nada mais”.
da letra de
Ramilonga



Pode parecer contraditório, mas, às vezes, dependendo da intensidade emotiva que determinado show ao vivo tem para mim, é mais difícil escrever sobre ele. Foi assim com o do Paul McCartney, em 2010, do Gilbert Gil e orquestra, em 2014, e o da Meredith Monk, ano passado. Todos muito bem sorvidos pelos ouvidos e sentidos, mas que, na hora de transpor pro papel, parece que a emoção me congela. Pois outro desta lista foi o do cantor, compositor e escritor Vitor Ramil, que assisti ao lado das hermanas Leocádia e Carolina Costa em 2013. Naquela feita, como nestes outros que citei, não consegui escrever a respeito daquele que foi certamente um dos grandes shows que assisti. Música no seu mais alto nível. Pois o tempo se encarregou de me dar uma nova chance, igualmente acompanhado das duas e novamente tendo como cenário o majestoso e familiar Theatro São Pedro. E com um adicional incontestável: Vitor tocando com a Orquestra de Câmara do teatro. Ou seja, motivos de sobra para que, enfim, esse momento tão especial fosse por mim registrado.
Minha obrigação atestou-se já de início. Ainda sem o protagonista no palco, a orquestra, formada basicamente pelas cordas (cellos, violinos e violas), estremece-nos com uma luxuosa execução do Prelúdio das “Bachianas nº 4”, de Heitor Villa-Lobos. Que começo! Quando sobe finalmente, o gracioso Vitor brinca: “Quero ver se vocês vão querer me ouvir agora depois do Villa-Lobos”. “Foi no mês que vem”, de poesia romântico-lírica, numa brincadeira com o tempo cronológico e afetivo (“Vou fiquei/ No teu chegado e tu chegada ao meu/ Penso, grande é Deus/ Um paraíso prum sujeito ateu...”) dá início ao refinado e absolutamente musical espetáculo, tanto quanto o de dois anos atrás embora diferente. Não somente pelos arranjos da orquestra, assinados por Vagner Cunha e regidos pelo também bem-humorado maestro Antônio Borges-Cunha, os quais cumpriram, com muita felicidade a função de realçar os traços das canções. Mas, sim, pela obra maior de Vitor Ramil, um dos maiores músicos da atualidade no Brasil.
A habilidade como violonista e cantor destacam ainda mais o lindo timbre de voz, suave como uma pluma, e a capacidade criativa do compositor de criar melodias lindamente improváveis. O professor de artes Celso Loureiro Chaves diz, no texto do programa: “Há sempre uma surpresa nessas melodias. Quando pensamos que elas vão para um lado, elas tomam outro caminho e terminam como ninguém – a não ser Vitor – poderia ter pensado”. Essa é a sensação que se tem na tensa e quase expressionista “Livro aberto” – infelizmente prejudicada pelo pandeiro muito mal tocado por uma das integrantes da orquestra, único resvalo de todo o espetáculo –, a qual vai ganhando ares hipnóticos que as cordas ajudam a intensificar.
Para qualquer fã de Vitor, não precisa nem dizer que "Noite de São João", obra do célebre “Ramilonga”, de 1997, na qual ele musica uma poesia de Fernando Pessoa, foi das mais emocionantes. A regência de Borges-Cunha lhe empresta cores lúdicas, enquanto o músico entoa com absoluta delicadeza a melancólica e rica melodia. Igualmente de embasbacar, “Milonga das 7 Cidades” (mais uma de “Ramilonga”), a suplicante “Perdão” (“Perdoo o sol/ Que aquece meu corpo/ Perdoo o ar/ Que me alimenta/ Perdoo a dor/ Que desistiu de mim/ E a solidão/ Que não foi tanta como eu quis...”) e “Vem”, onde, a capella, Vitor arrasa no canto (a letra, fez sobre um prelúdio de Bach) enquanto o maestro conduz um belíssimo arranjo, chamando atenção para a segunda parte, em que todos abandonam os arcos para, delicada e ordenadamente, tangerem com os dedos as cordas de seus instrumentos.
Original do disco “Délibáb”, de 2010, “Querência” traz a poesia pampeana de João da Cunha Vargas, a quem muitos, incluindo a mim, passou a conhecer através das músicas de Vitor. Dos dois é outra das mais incríveis que se ouviu, esta apenas na voz e violão: “Deixando o Pago”, milonga capaz de transmitir ao mesmo tempo bravura e fragilidade, tristeza e sensação de liberdade: “Cruzo a última cancela/ Do campo pro corredor/ E sinto um perfume de flor/ Que brotou na primavera/ À noite, linda que era/ Banhada pelo luar/ Tive ganas de chorar/ Ao ver meu rancho tapera”.
No final do show, executando "Astronauta Lírico".
Hit gravado por nomes como Gal Costa, Milton Nascimento, Chico César e Maria Rita, “Estrela Estrela”, amada pelo público, é a que mais foi possível ouvir o coro da plateia, silenciosa a maior parte do tempo, pois extremamente atenta a todos os acordes que se pronunciavam. Esta ganha um arranjo suave, acompanhando sua aura lunar e fugidia. Já em “Indo ao Pampa”, mais uma de “Ramilonga”, Loureiro Chaves escreve um arranjo especial no qual explora a atmosfera indiana da original e transpõe isso para a orquestra. Um show! Das melhores do set-list, a qual explode no refrão em ataques intensos das cordas. Especial também é o canto de Vitor, que avança impressionantemente de um tom médio para o agudo sem desafinar jamais. Que cantor!
 Outra das incríveis de seu repertório, igualmente adorada pelo público, “Astronauta Lírico”, levou-nos às lágrimas. Delicadeza resume bem essa canção, onde se nota novamente a esfíngica forma de Vitor compor. Valendo-se praticamente de “lugares comuns” da poesia, os versos, escritos com tamanha sensibilidade e destreza, são de uma poesia sem igual: “Quero perder o medo da poesia/ Encontrar a métrica e a lágrima/ Onde os caminhos se bifurcam/ Flanando na miragem de um jardim...”. E o refrão, em que ele consegue quebrar em três tempos uma pequena palavra como “terra”!? (sem que isso fique esquisito, aliás, pelo contrário: harmonizando lindamente palavra e som.)
 O primeiro bis é a própria “Ramilonga”, de lindo arranjo das cordas que veste a música num crescendo nesta que é a mais perfeita tradução da melancólica mas poética Porto Alegre, cidade cujos versos “nunca mais/nunca mais” se encaixam assustadoramente bem. O desfecho foi com a milonga “Mango”, talvez não a melhor escolha para um último número, haja vista a extensa lista de sucessos que fariam o público ir para casa embora levitando (“Loucos de cara”, “Joquim”, "Satolep"
, “Não é céu”), mas nada que desagradasse - pelo contrário, pois foi suficiente para, junto com o restante, fazer-nos ir para casa suspensos sim.
 Se ficou muita coisa de fora, é compreensível, pois é realmente difícil sintetizar cerca de 40 anos de música em um projeto complexo em formato e que envolve tantas mãos como este. Porém, certamente o que vimos manteve intacta a sublime obra deste gaúcho de Pelotas que tanto representa, com profundidade artística e até semiológica, a arte e o modo de ser do pampa. Vitor nos prova o quanto se é capaz de ser regional e universal ao mesmo tempo. Vitor nos mostra que existe outro Brasil que não só de Carnaval e Nordestes pasteurizados. Vitor nos evidencia que há uma beleza nessa combalida e vulgarizara imagem do ser gaúcho. Em Vitor nos identificamos e ele em nós.
 E sim, Vitor: não deixas nada a desejar diante do mestre Villa-Lobos, podes ter certeza.







por Daniel Rodrigues

terça-feira, 1 de setembro de 2015

“Esse Tal de Borghettinho” – Sessão de autógrafos com Márcio Pinheiro e Renato Borghetti – Livraria Saraiva – Shopping Praia de Belas – Porto Alegre/RS


Nós com o Borghettinho
foto:editora Belas-Letras
“[Renato Borghetti é] um dos maiores símbolos da música
 do Rio Grande do Sul em qualquer estilo,
em qualquer época.” 
Márcio Pinheiro

“Não tive uma formação musical, tive muitas.” 
Renato Borghetti



Um dos maiores virtuoses da gaita no mundo; dos principais compositores do Rio Grande do Sul vivos; um dos mais importantes artífices da fusão do tradicionalismo gaúcho com outros ritmos (jazz, MPB, rock, tango); ator fundamental no reconhecimento e expansão da música nativista; militante da música instrumental no Brasil; único a ganhar Disco de Ouro com um álbum de canções “não-cantadas”. Se fosse só por isso, já seria de bom tamanho para que fôssemos Leocádia e eu à sessão de autógrafos do livro em homenagem a Renato Borghetti. Mas têm ainda mais dois fatores consideravelmente afetivos que, para nós, se equiparam a tais qualidades no que se refere a essa simpática figura que, saído daqui do frio gauchesco – assim mesmo, pilchado e cabeludo –, rompeu as barreiras froteiriças do Estado e se embrenhou por querências nacionais e internacionais.
Borghettinho dando uma palhinha
de sua música na Saraiva
foto: Daniel Rodrigues

Primeiro, que “Esse tal de Borghettinho” (Belas-Letras, 2015) é escrito nada mais nada menos do que por meu amigo Márcio Pinheiro, jornalista cuja experiência de décadas militando em várias áreas das várias redações pelas quais passou (todas as principais, de Jornal da Tarde a JB, de Estadão a Zero Hora) são usadas a serviço de um texto cristalino, criativo, exemplar e não menos emotivo. No livro, que não li ainda mas estou louco para tal, certamente não é diferente. Qualidade a favor da qualidade nesta biografia que é a primeira escrita por Márcio (já era hora, meu amigo!). Foi ele mesmo que, querido e brincalhão como sempre, disse-me na hora do autógrafo: “Agora vou retribuir, pois só eu que tenho um autógrafo teu”. Empatamos.

A dupla com as capas de 
"Esse tal de Borghettinho" à frente
foto: Daniel Rodrigues
O segundo motivo é que todas as qualidades possíveis de se ressaltar de Borghettinho se somam a outro fator que, a Leocádia e eu, é bastante simbólico: a lembrança de sua figura no palco da Concha Acústica do Multipalco Theatro São Pedro no primeiro show que assistimos juntos, no verão (alto verão!) de 2012. Fevereiro, exatamente. Sol de 40 graus em um show no final da tarde de horário de verão. Ou seja, 18h que significavam sol das 17h! Nada que, no entanto, tirasse nossa admiração daquela encantadora e marcante apresentação. Claro, que dissemos isso a Borghetti, que, simpático como de costume, demonstrou ter gostado.

Autógrafos de Márcio e
Borghettinho a nós
foto: Daniel Rodrigues
Antes da concorrida sessão de autógrafos, quando tanto Márcio quanto Borghettinho nos fizeram uma carinhosa dedicatória, o músico ainda se apresentou junto com seus companheiros de banda. Momento único.

A obra, vale ressaltar, ainda conta com texto de apresentação do jornalista Juarez Fonseca, caprichados projeto gráfico e capa de Celso Orlandin Jr. e coordenação editorial de Fernanda Fedrizzi. Leitura obrigatória para todo gaúcho, para todo admirador de música e para qualquer um que se interessa em conhecer quem é esse cara que há quase 40 anos se esconde atrás da cabeleira, do chapéu “desabado”, com descreve Márcio, e claro, dos maravilhosos sons que produz. Esse tal de Borghettinho.










segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Agenda de shows em Porto Alegre


A época de shows está ótima! Além das recentes apresentações de Jorge Benjor, no Rio de Janeiro, Toquinho & Maria Creuza, no Teatro Bourbon Country, e Gerson King Combo, na Quadra dos Bambas da Orgia, estes dois últimos, em Porto Alegre, outras três programações musicais interessantíssimas – e totalmente diferentes umas das outras – estão por vir nos próximos dias e meses. E à medida do possível, claro, vou relatando-as aqui no ClyBlog. Papel e caneta para me agendar:





28/8 – Caetano Veloso & Gilberto Gil, Auditório Araújo Vianna: Já falei num post exclusivo sobre esse verdadeiro espetáculo histórico que Porto Alegre presenciará. Dois dos maiores artistas da modernidade. Muita expectativa.






04/09 – Meredith Monk & Vocal Emsemble, Theatro São Pedro: Uma das cabeças mais geniais da música erudita contemporânea, a multiartista norte-americana abre o Porto Alegre em Cena. Indizível o privilégio de assistir a essa que é, junto com Philip Glass, Steve Reich e sir. Maxwell Davies, a maior compositora viva da música de vanguarda.








19/10 – Ratos de Porão, Bar Opinião: Pra arrematar (por enquanto), que tal o hardcore furioso do Ratos tocando na íntegra seu seminal “Crucificados pelo Sistema”, que completa 30 anos de lançamento? A regalia não termina aí: a abertura será d’Replicantes. Tá bom pra ti?













sábado, 8 de fevereiro de 2014

Quatro Vezes Com Nico: Cada Vez Mais Perto, Mas Nunca de Fato

Nico Nicolaiewsky no Açorianos 2013
por Leocádia Costa
Vi Nico Nicolaiewsky pessoalmente em quatro diferentes escalas de proximidade. Neste 7 de fevereiro de 2014, dia em que ele se distancia definitivamente de mim e de todos que permanecemos na terra, no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre e, principalmente, na Sbórnia, percebo com pesar que nunca mais situações como essa ocorrerão. Por isso faço questão de lembrá-las uma a uma, relatando a partir da de maior distância dessas três para as de maior proximidade:
Tive, nas duas primeiras e mais afastadas oportunidades, o prazer de assistir, dar muitas risadas e, principalmente, apreciar o talento de Nico como maestro Pletskaya no Tangos & Tragédias ao lado do Hique Gomes (que, pôxa, como deve estar sentindo agora, né?), uma em 1999 e outra em 2004. Sempre me impressionou a capacidade artística e lírica desse artista refinado e de vasto conhecimento harmônico e composicional, um cara que, desde o Grupo Musical Saracura, nos anos 70, antes de eu ter nascido, já se confundia com a história recente da música popular do Rio Grande do Sul. Além do espetáculo Tangos & Tragédias em si, concebido por ele junto com Hique há mais de 30 anos, é das mãos de pianista clássico e da criatividade de artista eclético que saíram músicas tão peculiares dos gaúchos e porto-alegrenses como o ato de passear no Bric da Redenção, de tomar chimarrão, de assistir a um Gre-Nal. Tangos & Tragédias tem essa aura, com certeza. Do show das clássicas temporadas no Theatro São Pedro, um deles vi do “puleiro” da galeria lateral do quarto mezanino, bem longe e de cima. O outro, da plateia baixa, mais perto e sem deformação, porém ainda não perto o bastante.
Aproximando mais o zoom, outra situação ocorrida entre mim e ele, agora fisicamente bem mais próxima, deu-se em 2001. Estagiava na Dez Propaganda, que ficava na r. Dona Laura equina com Goethe, e Nico, muito amigo dos sócios da empresa, combinou com algum deles de deixar o acordeom na agência por algum motivo que nunca soube e nem perguntei à época. O importante da história é que coube ao estagiário Dani – eu mesmo – descer ao térreo e, na calçada, em plena luz do dia (umas 17h da tarde, mais ou menos), recolher das mãos dele próprio, dentro da tradicional caixa de madeira escura (provavelmente em carvalho e com certeza original e muito antiga), o pesado instrumento. Lembro que, adolescente, me impressionei ao vê-lo Nico, e não Pletskaya. Já o tinha visto assim no filme “Pulso”, do José Pedro Goulart, mas, assim, ao vivo... Era conflitante com o outro que tinha visto também ao vivo, mas de mais longe no palco do São Pedro.
Ali, naquela hora, por acanhamento ou pura bobice, nem lhe apertei nem a mão. Não o toquei. E a oportunidade nunca mais se montaria à minha frente. Apenas abracei aquele bloco de madeira maciço envelhecido, o que, imediatamente, fez-me transportar para um tempo diferente daquele de uma tarde de trabalho comum de 2001. Aquilo é uma peça de antiquário! Tinha, além disso, a certeza aterradora de que, ali dentro, havia um objeto valioso: a gaita, aquela que o via colar junto ao peito e tocar lindamente no Tangos & Tragédias. Meus sentidos se alarmaram para que não houvesse nenhum tropeço, nenhum escorregão imbecil, e meus bíceps ganharam, milagrosamente, uma força inexistente para aqueles braços franzinos de adolescente. Além da responsabilidade que me foi atribuída, sabia que aquele invólucro intimidante e mágico continha uma joia, a qual, de alguma forma, sentia que também me pertencia. Pertencia ao meu imaginário sonoro e onírico.
Precisaram-se passar 12 anos para que o visse novamente. Quase com a mesma proximidade que daquela vez do acordeom, quando pude até apertar sua mão não fosse a timidez do passado. Mas tratava-se, infalivelmente, de um momento diferente e, quem sabe, estava até mais próximo noutras esferas de percepção. Na entrega do Prêmio Açorianos de Literatura, em 9 de dezembro de 2013, em que meu livro era um dos concorrentes, tive a felicidade de vê-lo no palco do Teatro Renascença fazendo a trilha musical do evento. A beleza e o lirismo que, engraçadamente, deu a músicas do cancioneiro popular chulo como “Tô nem aí”, “Ai seu eu te pego” e “Tchu Tcha Tcha” no seu último projeto, o elogiado pocket show “Música de Camelô”, tiraram risadas e suspiros de encantamento da plateia, mas não conseguiram esconder um Nico cansado, pálido, magro e aparentemente mais velho que os 56 anos que somava. Foi sua última apresentação. Relembrando desta noite, me recordo daquela segunda ocasião que assisti ao Tangos, em 2004. Notei que, discretamente, a cada momento solo do Hique Gomes, aquilo representava mais do que uma pausa para descanso: era, sim, um alívio por conta do peso do acordeom. O tal acordeom estava forçando suas costas. Ele tirava as alças dos ombros e não conseguia esconder a expressão de dor e a mão que levava às costelas. Fiquei com aquela imagem gravada, que me veio novamente quando soube pela mídia, há aproximadamente 20 dias, da leucemia que o acometeu e o vitimou rapidamente.
Subi ao palco para receber, das mãos de Márcia do Canto, sua esposa, que apresentava a cerimônia, meu troféu Açorianos e tive, ali, pela última vez bem perto de Nico. A metros. Uns três passos, quase que só o piano nos separando. O que não consegui perceber, visto minha ansiedade com a premiação, era que Nico já não estivesse mais tão ali como meus olhos e ouvidos insistiam em achar ser verdade. A foto que Leocádia Costa registrou com felicidade denota, no desfoque e na iluminação artificial, justamente isso: ele já estava no ar. Hoje, enfim, ele foi definitivamente para o ar. Longe, longe. De mim e de todos daqui da terrinha. Talvez, no entanto, mais perto ainda dos sons. O resto fica na memória, que rompe as escalas de proximidade ou distância.
Vá com os sons, Nico Nicolaiewsky.


NICO NICOLAIEWSKY
1957-2014