Curta no Facebook

domingo, 4 de novembro de 2012

John Cale – “Sabotage/Live” (1979)




“You better be ready for war.” (“É melhor você estar pronto para a guerra”)
da letra de “Mercenaries”


Eu teria tranquilamente pelo menos outros três ou quatro discos de John Cale para incluir numa lista de ÁLBUNS FUNDAMENTAIS  o que talvez ainda seja reparado por mim, pelo Clayton ou outro colaborador do blog. Mas faço questão de começar justamente por um disco ao vivo que, via de regra, não tem a mesma “fundamentabilidade” dos de estúdio. Mas esse é um “live” diferente, como, aliás, é a marca deste genial e camaleônico cantor, compositor, arranjador e produtor galês. O referido disco é “Sabotage”, registro avassalador gravado por Cale em 1979 no lendário CBGB, boteco que, no início dos anos 70, foi palco do surgimento do punk, cena da qual o próprio foi um dos principais artífices.
Cale é um verdadeiro esteta. Já apareceu na cena artística de Nova York nos anos 60 como uma lenda. Ex-aluno do vanguardista La Monte Young, levou sua pegada erudita moderna para a não menos lendária banda Velvet Underground e, sob a batuta de Andy Warhol e ao lado de Lou Reed  formou uma das parcerias musicais mais inventivas da história da música contemporânea. Não bastasse, o cara largou o Velvet após apenas dois discos (mas suficiente para deixar sua marca) e entrou numa carreira solo regida pelo mais absoluto ecletismo, indo do mais tosco punk-rock até a mais refinada suíte romântica a la Brahms. Coisa que apenas um maestro genial como ele teria condições e conhecimento para tanto. De 1969 para cá, produziu, lançou bandas e artistas, compôs inúmeros discos próprios e/ou em parceria, fez trilhas sonoras, enfim: soltou a criatividade.
“Sabotage”, o disco em questão, faz parte de sua trilogia proto-punk iniciada no magnífico “Fear” (1974) e no não menos brilhante “Guts” (1977). Porém, é no terceiro da série que Cale detona tudo, num dos mais pungentes e, ao mesmo tempo, bem elaborados discos de rock já ouvidos. A banda é afiadíssima: Mark Aaron, esmerilhando na guitarra solo; Joe Bidewell, competente nos teclados; Doug Bowne, mantendo super bem o ritmo na bateria, às vezes dando espetáculo; George Scott, com seu baixo grave e fundamental para o arranjo e textura; Deerfrance, a musa da cena punk nova-iorquina nos backings e colaborando também na percussão; e o próprio Cale, que manda ver no piano, guitarra-base, segundo baixo, viola (originalmente seu instrumento-base) e, claro, vocal.
"Mercenaries (Ready for War)", com sua base de baixo constante, grave e pesada, começa pondo a galera pra poguear. Cale solta o verbo numa letra que critica a sociedade e o militarismo, como um bom punk, desfechando ao som da explosão da bomba que ilustra a capa. Aaron é outro que destrói nesta, dando uma noção do que viria em seguida. Mantendo a pegada e o sarcasmo, "Baby You Know" vem na sequência com um ritmo marcial e um motivo constante de teclados super legal, lembrando Joy Division. Ótima.
“Evidence” traz um riff matador de guitarra, mas não menos legal na linha de baixo. Punk até dentro dos olhos, mas com aquele toque de Cale: um inconfundível refinamento até na escolha das poucas notas de um rock básico. “Dr. Mudd”, mais melodiosa mas não menos guitarrada, antecede a excelente “Walking the Dog”,  clássico do Rhythm and Blues numa versão quase irreconhecível de tão reelaborada. O baixo sustenta a melodia numa combinação de notas dissonantes, dando até a (falsa e proposital) impressão de estar desafinado. Mas as guitarras também não deixam por menos, mandando super bem.
Aí vem um dos pontos altos do show: “Captain Hook”. Com mais de 11 minutos, que passam sem se perceber tamanha sua densidade musical, começa com um motivo minimalista de teclado constante, enquanto os outros instrumentistas deitam e rolam solando. Todos. Porém, o que parecia ser uma peça instrumental toma outro rumo, e somente ali pelos 4 min vira um rock magistral, arrastado e carregado, com a bela voz de Deerfrance fazendo coro e a de Cale – já bem rouca a esta altura do show – proferindo uma letra longa e melancólica. A canção vai num crescendo até estourar em energia e agressividade. De tirar o fôlego.
A linda “Only Time Will Tell” quebra o ritmo numa melodia suave feita por Cale especialmente para a afinada e doce voz de Deerfrance, tal como ele e Lou Reed faziam nos tempos de Velvet, como em “Femme Fatale”, para Nico, e “After Hours”, para Moe Tucker. Uma surpresa e uma graça especial ao show. Mas a delicadeza não dura muito tempo, pois a pancadaria volta novamente na faixa-título. Aliás, pancadaria “desordenada”. A destreza erudita de Cale o fez criar uma melodia sem um centro tonal claro, somente duas notas de guitarra que se repetem de quando em quando, transmitindo uma verdadeira sensação de sabotagem. Assim, as guitarras, o baixo, a bateria e as vozes se estabefeiam no espaço sonoro, cada uma tentando se encaixar dentro de uma harmonia vaga e dissonante. E a galera delira. Genial.
Para terminar, não podia ser diferente: uma marcha militar, “Chorale”, lenta e quase fúnebre. Fim da guerra e mensagem dada: todos perderam naqueles tempos de pós-Vietnã e Guerra Fria.
Um dos principais diferenciais de “Sabotage” para a grande maioria dos discos ao vivo é que todo o repertório é feito de canções inéditas compostas especialmente para esta performance. Ou seja, Cale pensou em um disco não com versões ao vivo de músicas já gravados em estúdio como geralmente se faz, mas, sim, num set list inédito que soasse como uma apresentação mesmo, tendo em vista que essas peças funcionariam melhor com a reverberação acústica ampla, ruídos, interferências e imprevisibilidades de um show. Um exemplo disso é a rouquidão de Cale naquele dia. O tom geralmente elegante e grave de sua voz dá lugar a uma interpretação rasgada e agressiva, o que intensifica a força das execuções, coisa que seria evitada em um estúdio.
Toda a trilogia, mas principalmente “Sabotage”, faz jus ao movimento punk, naqueles idos já reconhecido internacionalmente pelo sucesso de Sex Pistols,  The Clash,  Ramones e cia. mas de muito conhecida por Cale. É como se ele, artista essencial e influente para este movimento tão importante à história do rock e da cultura pop em geral, o avalizasse e dissesse aos punks: “É isso aí, gurizada”.

.......................................................

A edição em CD, lançada em 1999, traz ótimos extras. Primeiro, as três faixas do EP “Animal Justice”, de 1977, uma espécie de “quarto da trilogia”. Por último, a excelente obra gothic-punk "Rosegarden Funeral of Sores", posteriormente gravada super bem pelos darks do Bauhaus  em que Cale, apenas com um sintetizador marcando a percussão, uma linha de baixo e uma guitarra urrando faz arrepiar a espinha de medo de qualquer vivente.

***********************************

FAIXAS:
1. "Mercenaries (Ready for War)"
2. "Baby You Know"
3. "Evidence"
4. "Dr. Mudd"
5. "Walkin' the Dog" (Rufus Thomas, Jr.)
6. "Captain Hook"
7. "Only Time Will Tell"
8. "Sabotage"
9. "Chorale"

 
Bônus tracks (CD 1999)

10. "Chickenshit"
11. "Memphis" (Chuck Berry)
12. "Hedda Gabler"
13. Rosegarden Funeral of Sores"

todas de autoria de John Cale, exceto indicadas

***********************************************

sábado, 3 de novembro de 2012

"Avenida Paulista", de Luiz Gê - Companhia das Letras (2012)


Terminei há poucos dias a leitura da HQ “Avenida Paulista” , do arquiteto,artista, quadrinista e roteirista Luis Gê, que é uma espécie de cult dos quadrinhos nacionais. Originalmente idealizado apenas para uma publicação anual especial de uma empresa privada, por conta de sua qualidade propagada boca-a-boca e na imprensa, acabou virando objeto de desejo de fãs dos quadrinhos e colecionadores. E eis que finalmente agora, 12 anos depois de seu lançamento original, atendendo aos apelos destes curiosos, ela é publicada para o publico em geral com as devidas revisões e adaptações do autor para esta condição, agora comercial e de grande tiragem.
Luis Gê nos leva a uma admirável e inusitada viagem no tempo mostrando a formação e crescimento da cidade de São Paulo como um todo, focando mais especificamente, é claro na avenida que é uma espécie de centro nervoso da cidade, passeando por ela desde que era um caminho de tropeiros, depois uma área de chácaras de lazer de nobres paulistanos, logo uma concentração de casarões refinados e luxuosos, acompanhando a destruição de patrimônios afetivos e históricos da cidade, chegando até o crescimento descriterioso e devastador com os grandes edifícios bancários e multinacionais; e visitando possíveis futuros imagináveis e impressionantes segundo a mente do autor. Tudo isso narrado de maneira singular, surreal. poética e criativa com um roteiro notável muitíssimo bem elaborado.
A HQ peca um pouco pela quantidade excessiva de caixas de texto, alguns explicativos ou informativos, que se, por um lado, situam bem a história do lugar, contextualizam bem os momentos históricos e apresentam personagens, por outro lado quebram um pouco o ritmo do livro. Mas nada que desdoure a qualidade obra como um todo. Quadrinhos de alta qualidade, “Avenida Paulista” é História mas contada de uma maneira diferente, de uma maneira muito particular, dotada de todo o envolvimento de quem viveu aquele lugar durante toda a vida, permitindo-se, contudo, devaneios que todo o artista tem direito de deixar fluir, de deixar a mente viajar.
Deixe-se levar nessa viagem também.


Cly Reis

Liniers: Hermano Macanudo




As cores de Liniers


Estive em agosto alguns dias na cidade maravilhosa e acreditem que pude ser espectadora de inúmeras mostras e exibições culturais que nos levam a universos distintos e distantes. 
O universo de Liniers (1973-) não é assim tão belo. Ele pinça do cotidiano através do seu traço imagens que retratam um pouco do que vivemos como seres humanos, e digo, humanos no sentido crítico de que construimos maravilhas e horrores todos os dias.
Liniers consegue realizar o que o artista mais genuíno tem como missão: ele amplia esse universo e coloca um zoom onde interessa convergir o olhar com mais calma, com mais cuidado. 
Maitena (1962-) escritora, cartunista, taurina nascida em Buenos Aires, comenta: "Liniers desenha um mundo duro com absoluta delicadeza. Uma alegria melancólica que contrasta com a felicidade boba. Seu trabalho é belo e divertido. Ele é um rapaz macanudo". Para quem não entende o significa do macanudo explico, quer dizer em espanhol extraordinário, excelente, estupendo, magnífico, bacana ou supimpa. Enfim, sua expressão é tudo isso, e um pouco disso pode-se ver na mostra Macanudismo, realizada na Caixa Cultural do Rio de 10 de julho a 09 de setembro deste ano. Personagens como os pinguins, a menina Enriquetta, seu urso Madariaga, os duendes, o gato Fellini entre outros misturam-se as influências musicais de Liniers seja no palco, tocando com o músico Kevin Johansen y The Nada ou nas capas dos LPs para André Calamaro e Cheba Massolo. Calamaro diz que: "Liniers é um flautista de Hamelin e atrás dele marcham seus personagens, seus leitores (nós) e ele mesmo! " A música aparece também nas tirinhas referindo-se aos dois músicos prediletos Tom Waits e Bob Dylan. De tudo o que vi gostei muito de dois pontos da mostra. Primeiro das crônicas em quadrinhos que ele publica semanalmente "Cosas que si pasan se estás vivo" e que também dá nome ao blog do cartunista, concentrando preciosidades do cotidiano, dessas que somente um Mestre observador pode capturar e disponibilizar a todos nós. E da relação que ele, Liniers tem com os cadernos e que me deixa sensibilizada, porque sempre tive essa mesma percepção do objeto, tão comum a todos nós, humanos iniciados nas letras: "Desde criança gosto de cadernos em branco, gosto de imaginar no que eles podem se transformar. Os cadernos servem pra tudo. Servem pra brincar, pra desenhar sem pensar, só pelo prazer de fazê-lo - para me desestruturar. Nos cadernos vale tudo". ;)


Dialética Liniersiana


Luz de Liniers

Compilação de "Cosas que te Pasan si Estás Vivo" ao fundo

Música no HQ

Tiras originais publicadas no jornal argentino La Nación
e nas compilações Macanudo de 2011 e 2012


 texto e fotos: Leocádia Costa



quinta-feira, 1 de novembro de 2012

PJ Harvey - "Dry" (1992)



" 'Dry' foi a primeira chance que
eu tive de fazer um disco
e eu pensei que pudesse ser a ultima.
Então, eu pus tudo o que eu tinha nisso."
PJ Harvey


O aparecimento da britânica Polly Jean Harvey na cena musical alternativa, ali pelo início dos anos 90, foi como que um sopro de vida no meio, sobretudo no cenário feminino. Foi um refrescor, uma nova energia, uma revitalização. Há tempos não aparecia uma mulher no mundo do rock com aquela vitalidade, força, pegada, criatividade e qualidade. Via-se muitas cantoras pop rebolando o traseiro e gemendo, algumas band-leaders interessantes como Courtney Love, um L7 aparecia de vez em quando, um Babies in Toyland, Shirley Manson do Garbage despontava, mas aquela garota magrela, de boca larga, olhar descaído e nariz aquilíneo era diferente. Era superior.
Seu primeiro álbum, “Dry” de 1992, comprova isso com um rock básico, certeiro, potente e sem concessões. Sem inventar muito, com linhas de baixo fortes, marcantes, muita distorção e composições que chegam a parecer ‘burras’ de tão simples mas que na verdade guardavam uma alta dose de síntese, PJ e sua competente banda nos brindavam com um disco vibrante, forte, quente e cheio de energia.
Destaque para “Oh My Lover” que abre o disco derramando sensualidade e paixão sobre uma base de grave e distorcida; “O Stella” caprichando nas guitarradas e quebrando tudo; para “Dress’, pegada, ritmada, de bateria alta, uma das melhores do disco; para a endiabrada “Sheela-Na-Gig”; para o tratamento de violinos na semi-acústica mas não menos anárquica “Plants and Rags”; para a interpretação espetacular de PJ na sombria “Fountain”; e para a ótima “Joe”, acelerada, barulhenta e visceral.
PJ Harvey começava sua trajetória fazendo o simples e talvez por isso tenha acertado na mosca. Sem frescura. Sem invencionice. Rock básico, cru, puro. Assim, seco!
****************************************

FAIXAS:
1. Oh My Lover - 3:57
2. O Stella - 2:36
3. Dress - 3:16
4. Victory - 3:16
5. Happy And Bleeding - 4:50
6. Sheela-Na-Gig - 3:11
7. Hair - 3:45
8. Joe - 2:33
9. Plants And Rags - 4:07
10. Fountain - 3:52
11. Water - 4:32

************************************
Ouça:
PJ Harvey Dry




Cly Reis

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

cotidianas #186 - E tu?



Debruçado sobre o colo de minha amiga, divagava a respeito da louça. Branca. Contrastando com o preto do café. Eu dizia para ela, amiga, que, embora meu irmão tivesse uma xícara da mesma marca e mesmo tamanho, porém preta, não era a mesma coisa justamente por essa diferença cromática. Preto e branco não se distinguem quase dadas suas naturezas primárias, disso todo mundo sabe. Mas não é a mesma coisa. Pelo menos em relação a xícaras, e disso eu sei. Essa, a branca, por exemplo, não é uma xícara qualquer. Não! Nutro por ela um amor profundo, ensejado, tátil, vivo, quase uma devoção.
Mas retornando à divagação inicial, ressaltei para ela – amiga, é bom que se diga – o para mim significativo contraste do café amargo e negro que manchava a louça de branco ainda imaculado, coisa rara numa cozinha – local onde residia a xícara, para quem não sabe. Expus à amiga sobre a relação que via com o meu interior: eu sou “preto no branco”.
Minutos depois ela estava usando o meu pertence.
Aliás, todo mundo dentro da minha casa usa a xícara, até o meu irmão quando a preta está suja. E ela é nova, comprada há pouco, o que aumenta consideravelmente a frequência das bicadas em si. Deixo. Não sinto ciúme. Afinal, o pertence é meu, me pertence. Só eu e ela, xícara, sabemos dessa nossa afinidade. Disso tudo, uma coisa sim me preocupa: será esta xícara apenas uma, como se diz por ai, “paixão”? Porque, saibam, paixões me preocupam! São intensas, dolorosas, ferventes, patológicas algumas vezes. Fujo delas! Tamanho apego não seria porque essa xícara talvez fosse alguma ex-namorada apaixonada de outra vida que, decrescente em sua escala evolutiva, materializou-se recipiente nesta encarnação? Ou uma maldição de alguma ex que, nesta vida mesmo, tenha feito algum trabalho, encanto, simpatia, sei lá, para me amarrar a ela e, propositalmente, usufruí-la assim, tão limitadamente? Tenho tantas “ex” assim?... Preocupa-me, preocupa-me.
Mas enquanto eu não identifico o despacho nem concluo nada vou deliciando-me em sua aba, na curva do seu corpo em minha palma, em sua borda arredondada perfeita para a minha boca.
No entanto, ainda outra coisa me encuca: ela não tem nome. Pois saibam, tudo lá em casa recebe nome. O cardigan é o Joy; o aparelho de som é o Bass; o peixe de enfeite é o Webster;  o micro-ondas é o Predador e por aí vai. E logo tu, xícara, tão amada, significativa, imaculada (ainda) não te tornaste oficialmente alguém? Ainda és coisa? Provavelmente a confirmação do porque desse estado primitivo venha a, tristemente, revelar a mim aquilo que eu não queria mas, de certa forma, já previa: trata-se apenas de um amor passageiro. Paixão, como se diz por aí.
Tomara Deus ela me sopre ao ouvido em algum momento seu nome – em breve, de preferência; sussurrando, de preferência – para que eu possa, enfim, sagrá-la cidadã honorária da minha casa.


PS: Cito aqui Castro Alves, que só nestes versos substituiria meu limitado texto; “Dize tu, severa musa/ Musa libérrima/ Audaz...”


(Escrito originalmente em 1994 e revisto em 2012)

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

"Anarquia na Passarela - A Influência do Movimento Punk nas Coleções de Moda", de Daniel Rodrigues (Ed. Dublinense, 2012)



"Um dos êxitos da onda punk
foi ratificar uma propriedade antropológica do homem:
a existência de um impulso estético
natural dentro do espírito humano
que lhe é necessário para a vida,
sendo a indumentária uma das mais potentes formas de comunicar e expressar  esse impulso."
Daniel Rodrigues



Tenho que admitir que mesmo extremamente orgulhoso pelo fato de meu irmão, Daniel Rodrigues estar lançando um livro, fiquei com um pé atrás quanto ao que me esperaria nas páginas do seu "Anarquia na Passarela - A Influência do Punk nas Coleções de Moda" (Dublinense, 2012). Não digo pela qualidade. Conheço sua capacidade, sua inteligência, seus textos tanto do seu blog de cinema O Estado das Coisas Cine quanto daqui mesmo do ClyBlog com suas resenhas, poemas e contos brilhantes. Não! Não me refiro a isso. Ficava um pouco receoso de que esforçando-se em embasar solidamente suas premissas, afirmações, teses, o livro pudesse acabar ficando maçante e arrastado.
Pra ser sincero, acho que isso até acontece na introdução ("O Início do Fim do Mundo"), que embora instigante quanto ao conteúdo que irá ver-se dali para diante, fica meio preso às explicações e porquês de uma maneira meio ansiosa de resumir muito em pouco espaço. Mas é só a introdução, a impressão logo se desfaz e a partir do primeiro capítulo, "No Fun", embarcamos numa deliciosa viagem músico-comportamental empolgante e envolvente. Dá vontade de não para de ler! Dá vontade de ouvir imediatamente aquelas bandas, aqueles cantores, aquelas músicas citadas. Dá vontade de sair pogueando! O livro é uma caixa de som! Sai música dele. Mas não só isso: dá vontade de usar aquela calça rasgada no joelho, de usar aquele bracelete de couro, uma camisa com dizeres desaforados...
Ele é extremamente bem fundamentado, estudado, repleto de referências, citações, com alto grau e profundidade de pesquisa mas passa longe de ser pedante e cansativo. Ele flui. Flui muitíssimo bem.
Consegue conjugar um gosto pessoal musical, inequívoco e indesmentível, com muita informação, embasamento teórico e análise detalhada e  numa proporção perfeita e exata de modo a tornar a leitura absolutamente agradável e sempre interessante.
O ponto de convergência específico do punk com a moda, tema central do livro, além de muito bem sustentado como já foi dito, é analisado com enorme sensibilidade e perspicácia de modo que não escapa do autor nenhum elemento que possa ser realmente relevante no paralelo proposto. Especificamente, a análise pormenorizada da coleção primavera-verão 2002 de Jean-Paul Galtier, onde esmiuça praticamente todos os ingredientes do trabalho do estilista francês é brilhante e admirável, indo de um baile vienense a uma festa de pogo com a naturalidade de quem realmente se jogou de cabeça no assunto.
Em suma, um baita livro! Vencendo minha desconfiança inicial, revela-se não só como uma leitura altamente recomendável como uma publicação de referência em ambos os âmbitos, o da música (punk, pré, pós e todos seus derivados) quanto o da moda, abrangendo o comportamento de um modo geral.
Talvez minha análise fique um tanto suspeita por eu ser irmão do autor, blablablá e aquela coisa toda. Garanto-lhes que não há aqui nenhuma tendenciosidade. Até por isso, pelo meu parentesco, tratei de ler o livro com o botão do senso crítico acionado no nível máximo, pronto para se tivesse que ser duro, severo, antipático, fazê-lo sem titubear. Mas nõa precisei. É impossível não se render e deixar-se levar pelo som das páginas de "Anarquia na Passarela".
Recomendabilíssimo!!!
Leia no volume máximo.


Cly Reis

cotidianas #185 - "Livros"


"Então, por pura gentileza,
sabendo quanto apego eu tinha aos livros,
trouxe-me de minha própria biblioteca
volumes que eu prezava mais do que meu ducado"
Próspero, em "A Tempestade", de Shakespeare


cena do filme "Fahrenheit 451" de François Truffaut
Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso) 

É o que pode lançar mundos no mundo.
Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada 

São livros e o luar contra a cultura.
Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou ­ o que é muito pior ­ por odiarmo-los 

Podemos simplesmente escrever um:
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada 

Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.
***********************************
letra da música "Livros"
de Caetano Veloso



quinta-feira, 25 de outubro de 2012

De Frente com Davi

Sócio do Internacional como sou, fui agraciado em um sorteio do consulado do Rio de Janeiro com um ingresso para o jogo de ontem à noite contra o Vasco da Gama em São Januário, que felizmente vencemos. Para ir ao jogo, tive, ontem à tarde, que retirar o ingresso no hotel onde a delegação estava hospedada e lá conversando sobre assuntos do clube com a pessoa que me entregaria o ingresso, abordando assuntos sobre a administração do futebol do clube, do vestiário, esta pessoa achou por bem chamar o vice-presidente de futebol que estava ali por perto para sanar algumas dúvidas que eu manifestava quanto ao que vem acontecendo com o time e no tocante à eleição que se aproxima. Assim, tive uma longa e produtiva conversa com o senhor Luciano Davi, o atual homem-forte do futebol do Internacional. Levou-me para uma sala à parte no restaurante do hotel de modo a garantir que o que fosse me falar não vazasse para algum repórter ou alguém mal intencionado, e igualmente me pediu discrição quanto ao que iria revelar, de modo a não expôr o clube em algumas circunstâncias ou influenciar no processo eletivo.
Bom, não sou jornalista e não teria a obrigação de, como se costuma dizer 'embarrigar' a notícia. Poderia muito bem dar aqui alguns furos de reportagem e causar um certo estardalhaço e alvoroço com algumas coisas que o vice de futebol do Inter me falou, mas, não só por ter-lhe dado minha palavra de que aquelas informações não se espalhariam mas também para não deixar o clube excessivamente vulnerável, só vou citar aqui alguns pontos do que falamos que não sejam assim tão comprometedores nem possam causar algum transtorno à atual gestão e ao Internacional como instituição.
Acredito que não esteja traindo sua confiança quando revelo que Luciano Davi me disse que parte técnica do trabalho de Dorival Júnior deixava a desejar e o mesmo fora demitido porque havia perdido completamente o controle do vestiário; que tentaram nomes de peso como Muricy, Tite e Abel para sua vaga e que sendo impossível qualquer um deles optaram por Fernandão por este conhecer bem todo o plantel, estrutura do clube e ter o grupo na mão; que aprovou a atitude de Fernandão no episódio do esporro geral mas que não avalizava o modo como foi feito, na imprensa, em coletiva depois de um jogo; disse ainda que este incidente demorou uma semana para ser absorvido, atenuado e resolvido mas que no fim das contas, numa confraternização interna descontraída onde todos puderam colocar o que estava incomodando ou o que achavam de errado, tudo ficou resolvido e o grupo ficou fortalecido; e ainda a propósito disso, disse-me que não há problemas internos e que Fernandão tem sim o grupo de atletas sob seu comando. Revelou-me ainda que num vestiário difícil por ter jogadores de seleção, de salários altos, etc., faz cobranças constantes pessoalmente, principalmente às 'estrelas', para que dêem retorno a seus investimentos e altos rendimentos; que neste vestiário tem que ser pai, amigo, irmão, psicólogo e sobretudo chefe, dando fortes duras em jogadores que as vezes nós torcedores julgamos que sejam bajulados e mimados. Por fim, enalteceu o trabalho da base elogiando muito o zagueiro Jackson e mostrando grande  expectativa para o crescimento do volante Josimar, saudou as já realidades Fred e Cassiano e nessa linha, disse que é necessário e inevitável uma reformulação do plantel para o ano que vem uma vez que a média de idade do grupo está muito alta (Forlán 33 anos; Guiñazu, 34; Kleber, 32; Índio, 37; e por aí vai).
Enfim..., teve mais coisas mas algumas é melhor deixar que o tempo revele ou que algum jornalista de verdade o faça. Sei que algumas coisas que coloquei aqui já eram de se supor, outras são meio que um chover no molhado mas o que restou da minha pequena entrevista com Luciano Davi foi que vi uma pessoa séria, com muita personalidade e muito mais firmeza do que eu imaginava. Sei que muitas das coisas que me falou são um pouco tendenciosas puxando a brasa pro assado da administração atual de modo a convencer mais um sócio. Sei, sei. Mas o que percebi é que independente da panfletagem que possa ter havido por trás desse papo, a impressão que ficou foi a de um dirigente sério e uma diretoria que pensa grande e não está indiferente aos problemas e questões cruciais do clube. Se sua chapa, a de situação, do atual presidente e candidato Giovanni Luigi, terá meu voto na eleição do final do ano, não sei ainda. A conversa serviu para que eu tivesse subsídios para avaliar melhor e desfazer algumas más impressões do departamento de futebol atual. Mas ainda vou pensar. Vou pensar.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Vasco x Inter - São Januário - RJ

ESTÁDIO S. JANUÁRIO, 20:37 - Eu nem queria vir. O Internacional não está fazendo por me merecer no momento, mas como ganhei o ingresso do consulado do clube aqui do Rio, aqui estou.
Vamo vê no que dá isso. Não tô levando muita fé mas... obrigação de torcedor é torcer.
Vamo, vamo meu Inter!

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

58ª Feira do Livro de Porto Alegre



Queridos amigos leitores do ClyBlog, de 26 de outubro até dia 11 de novembro no centro histórico da cidade de Porto Alegre acontecerá a 58ª edição da Feira do Livro que elegeu o escritor/publicitário Luis Coronel como seu Patrono. Durante 17 dias ações dirigidas à promoção da literatura estarão distribuídas em dois espaços referenciais da capital gaúcha: a Praça da Alfândega e o Cais do Porto. 
A Praça acolherá os editores e livrarias com suas bancas ao ar livre embaixo dos Jacarandás, ainda mais privilegiados pela reforma realizada no espaço pelo Monumenta/IPHAN. A Praça da Alfândega recobrou os ares da antiguidade e continuará recebendo as programações geral e internacional, sempre das 12h30 às 21h, em espaços como o Santander e CCCEV.
O Cais do Porto é o espaço reservado às crianças, escolas e famílias, das 9h30 às 20h. Lá o mundo infantil-juvenil impera à beira do Lago Guaíba. Muitas ações educativas são oeferecidas e há também espaço para as editoras e livrarias especializadas na literatura para a piazada.
Cerca de 670 autógrafos, 195 atividades infantis e juvenis, 175 encontros com o livro, 78 atividades na Hora do Educador, 82 atividades artísticas, 30 oficinas e 07 atividades paralelas estarão a disposição do público gratuitamente.
A cada dia da 58ª edição uma temática centralizará as atividades e vocês poderão acompanhar os destaques de cada tema, na página do ClyBlog no Facebook no Facebook e alguns deles aqui mesmo no blog.

Sintam-se na Casa da Palavra e do Imaginário que é a Literatura!
Boa deriva a todos! 


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Gilberto Gil - "Gilberto Gil" (1969)




“Meu caminho pelo mundo eu mesmo traço
Que a Bahia já me deu régua e compasso
Quem sabe de mim sou eu
Aquele abraço
Pra você que me esqueceu:
aquele abraço.”


Foi tudo meio no susto. Por conta do nefasto AI-5, os militares endureciam no limite máximo a repressão a comunistas, subversivos e a todo mundo que lhes incomodava. E isso incluía – ora por serem comunistas, ora subversivos, ora incomodativos (ora os três) – muitos artistas. Mesmo sem alcance mental muitas vezes para entender o que reprimiam, os milicos achavam melhor, por via das dúvidas, manter quem fosse calado. Foi o que aconteceu com Gilberto Gil  que, em 1969, junto com seu companheiro de Tropicália, Caetano Veloso  foi “convidado” a se retirar do Brasil. O destino foi Londres, onde, ativo e com senso de oportunidade, Gil se tornou mais cosmopolita do que já era. Mas não foi Londres que lhe fez assim. O gênio tropicalista saíra de terras brasileiras com um já vasto repertório que o colocava, já naquela época, entre os grandes criadores da música mundial. E o pouco falado disco produzido por ele a toque de caixa antes de se mandar embora é, visto hoje, ano em que o artista completa 70 anos, um de seus melhores e mais marcantes trabalhos, moderno do início ao fim.
 A começar pelo repertório, tudo foi, de fato, meio no susto. Sem muito tempo para dar critério à escolha das faixas, Gil apanhou o violão e gravou tudo num talagaço só. Registrou 12 delas às vésperas de viajar, desde composições suas a inspiradas regravações, como “17 Léguas e Meia”, de Humberto Teixeira, e “2001”, de Tom Zé e Rita Lee. Nove delas foram escolhidas,  resultando numa playlist magnífica com o que havia de mais pulsante na MPB da época. O violão de Gil, musical e absurdamente rítmico, é simplesmente fumegante: consegue evocar numa coisa só a África, a tradição indígena, a cidade moderna, o rock estrangeiro, a influência barroca, o Brasil rural. “Cérebro Eletrônico”, rock filosófico que abre o disco em alto ritmo (“Cérebro eletrônico nenhum me dá socorro em meu caminho inevitável para a morte”), e “Volks-Volkswagen Blue”, blues eletrificado no melhor estilo Bob Dylan, são exemplos claros de sua batida poderosa e vigor de interpretação.
Mas nem tudo foi tão assim de sobressalto. O produtor Manuel Berembein pegou as masters gravadas por Gil e largou na mão do ensandecido Lanny Gordin, nas guitarras, Wilson das Neves, bateria, Sérgio Barroso, baixo, e do maestro Chiquinho de Moraes nos teclados, o qual também fez as orquestrações. Aí, o “estrago” se completou. Criativos e psicodélicos à altura do autor, eles deram o corpo que faltava para que o álbum não fosse apenas acústico, mas, sim, um marco da fusão do rock com a MPB. Tropicalismo puro. O resultado é uma simbiose perfeita, como se todos tivessem tocando juntos e ainda escolhido o melhor take para cada faixa.
 Muito influenciado por Jimmi Hendrix à época, Gil passou pelas notas de seu violão e seu modo de cantar essa atmosfera rocker para o restante da banda, que eleva volume e distorção a todo o momento. “A Voz do Vivo”, de Caetano, mostra bem isso. Sob um riff super distorcido de Lenny, ruídos espaciais e uma batida funkeada, lembra (ou melhor, antecipa!) a psicodelia do rock inglês dos anos 90. O ritmo e a até o jeito de cantar meio insolente, abafado sob a massa sonora, lembra Primal Scream do "Screamadelica" (1991). Outra que antevê algo que seria aclamado três décadas depois é “Vitrines”, tecnicamente mais deficitária mas parecidíssima em ideia, letra e construção melódica com as “músicas de plástico” de Beck em “Odelay” (1994).
“Futurível” é outra ótima e também bastante vanguarda, com uma letra inteligente inspirada nos autores de ficção científica da época (Orwell, Bradbury) que critica o processo de massificação cultural que robotiza o ser humano (“O mutante é mais feliz/ Porque na nova mutação/ A felicidade é feita de metal”). Finaliza o disco o bate-papo hiperfilosófico entre Gil e o artista plástico Rogério Duarte (autor da capa, por sinal) sobre existência, cultura e infinitude, um mosaico sonoro com cara de “Revolution 9” dos Beatles
Mas a grande joia é justamente o hit do disco, o partido-alto dedicado, não à toa, às três gerações-chave do samba (Dorival CaymmiJoão Gilberto e Caetano Veloso: “Aquele Abraço”. O “até breve” de Gil para os brasileiros era uma mensagem direta e sem medo aos militares, que o expulsavam de sua terra, dedicando uma homenagem ao Rio de Janeiro, símbolo tropical(ista!) de “bossa” e “palhoça”, de “mata” e “mulata”. Alegre e amorosa, mas forte, lúcida e de alto comprometimento pessoal. Gil não manda dizer: diz abertamente e com propriedade. Ao mesmo tempo, manda um abraço para “todo o povo brasileiro”. Um dos maiores sambas e uma das melhores canções da MPB de todos os tempos, é um hino, um manifesto que conseguiu não ser barrado pela censura, tamanha sua força e identificação com o público.
Tudo precisamente instintivo – ou instintivamente preciso, como preferirem. Afinal, mesmo que no susto, não é por acaso que um disco como esse sai como saiu. Não com Gil.

********************************************

FAIXAS:
01. Cérebro Eletrônico (Gilberto Gil)
02. Volks-Volkswagem-Blue (Gil)
03. Aquele Abraço (Gil)
04. 17 légua e meia (Humberto Teixeira)
05. A voz do vivo (Caetano Veloso)
06. Vitrines (Gil)
07. 2001 (Rita Lee/Tom Zé)
08. Futurível (Gil)
09. Objeto semi-identificado (Gil/ Rogério Duprat/ Rogério Duarte)

Bonus Tracks da versão em CD:
10. Omão Laô (Gil)
11. Aquele Abraço - versão integral (Gil)
12. Com medo, com Pedro (Gil)
13. Cultura e Civilização (Gil)
14. Queremos Guerra - com Jorge Ben e Caetano Veloso (Ben)

***********************************************

Ouça:


segunda-feira, 15 de outubro de 2012

"Águas de Olinda" - Aquarelas de Leonardo Filho - Casa do Patrimônio - Olinda/PE



Aquarela de Leonardo Filho
Bica do Rosário, Olinda
No ano em que Olinda completa 30 anos que foi declarada Patrimônio  Histórico  e Cultural da humanidade pela UNESCO, o aquarelista Leonardo Filho realiza a partir da próxima segunda-feira, 15/10, exposição e oficina de arte na Casa do Patrimônio em Olinda. A ação é realizada pelo Iphan - Instituto do Patrimônio Histórico e Artistico Nacional, através da Casa do Patrimônio de Olinda em parceria com a Secretaria de Educação da cidade, e faz parte de mais uma articulação de Educação Patrimonial. Na mostra o artista vai apresentar, 25 aquarelas retratando os monumentos tombados da cidade.
“Esta exposição acontece em um momento especial, no qual completo 50 anos de carreira como artista plástico e desenhista”. Revela o artista. “Olinda, suas ladeiras, becos e bicas, são para mim, fonte de constante de inspiração. “Portanto, nada melhor do que começar a comemorar aqui, na minha cidade”. Completa o artista com 74 anos de vida.
Duas turmas, com 15 vagas cada, serão formadas para as oficinas, durante o período ás segundas-feiras ás 10h e nas sextas-feiras às 14h. Ambas serão destinadas para o público geral e em especial, aos alunos da rede pública a partir dos 12 anos de idade. As inscrições podem ser feitas na Casa do Patrimônio (Rua do Amparo, nº 59, Carmo, Olinda) das 8h às 17 horas.

***********************************************

SERVIÇO

Águas de Olinda

Exposição e Oficina de Arte com o artista plástico Leonardo Filho.
Período da mostra e das oficinas – 15 de outubro a 15 de novembro de 2012.
Local: Casa do Patrimônio (Rua do Amparo, nº 59, Carmo, Olinda)
Horário de visitação: 8h às 17 horas.
Informações: 3429.6003

domingo, 14 de outubro de 2012

cotidianas #184 - Esteira


Todos chegaram cansados da viagem. Horas dentro do avião, atraso no embarque, até turbulência pegaram. André era um dos que queria mais recolher a bagagem e ir para casa depois de dias trabalhando fora. Postou-se impaciente igual aos companheiros de voo em frente à esteira de bagagens, última etapa antes cruzar a porta de saída e rumar definitivamente para casa e cuidar, enfim, da sua vida.


"Veia" - Rodrigues, Daniel
Os pertences ainda não circulavam na esteira ainda desligada, imobilidade esta que gerava aqueles minutos de inquietação e desconforto. Mas não só por causa do cansaço e da pressa; também porque este é sempre um momento delicado, tendo em vista que, forçadamente, fica-se lado a lado com estranhos sem poder sair, presos ali exclusivamente por causa daquilo que lhes pertence. É uma situação em que é possível enxergar na posição vertical aquelas mesmas pessoas que, se foram vistas dentro do avião, foi ou sentadas ou meio desconjuntadas acomodando as malas. Naquele ínterim, André pôde ver de pé, por exemplo, um homem careca troncudo e muito vermelho, cara de poucos amigos; uma loira carnuda de batom avermelhado e fresco que André não entendera em que momento entre o desembarque e a esteira ela conseguiu retocar; e um jovem bastante alto com cara de atleta, o qual desconfiava já ter visto na tevê jogando vôlei.

Seus olhos percorriam curiosos e silenciosos os outros, vendo se achava algo interessante a se fixar já que não tinha outra opção do que fazer. Tinha crianças, velhas, jovens, tudo gente muito normal. Até que, enfim, a esteira começou a se mover. Alegria geral. Fez-se aquele leve, porém irracional alvoroço que as pessoas não conseguem conter. Neste instante, veio à cabeça de André o recorrente pensamento de que sempre sua bagagem é das últimas a aparecer, não sabia o porquê. Mas tentava agora contrariar o próprio pessimismo, e torcia para que, dessa vez, fosse diferente, pois aguardava ansiosamente pelo que vinha.

Começaram a rodar as bagagens. A primeira apontou lá longe. Depois vieram outras, entre maletas, pacotes, bolsas, mochilas, caixas, até prancha de surf. Giravam em carrossel diante dos olhos atentos de todos, como que desfilando em uma vitrine de compras. A porta expulsava cada volume como um orifício escuro que se abria e eliminava o que já não lhe cabia mais; aquilo que, pressionando a saída, ansiava por ser expelido e ver a luz. Tal um organismo.

As pessoas iam pegando as suas malas. Colocavam-nas nos carrinhos e saíam; alguns felizes, outros aliviados, outros ainda mais estressados. André via tudo esperando sua vez com os olhos fixos na saída. Expectativa. Depois de várias passarem por ele, aumentando ainda mais a ansiedade, enfim, a sua chegou. As abas de borracha, feito um hímen, resistiram um pouco, mas logo foram vencidas pela força de expulsão daquele lindo bebê, todo lambuzado de sangue e líquido amniótico, com o cordão umbilical ainda grudado a si. Saiu do buraco movimentando os pés, as mãos e a cabeça, saudável a olhos vistos, e seu choro estridente ecoava no salão amplo do aeroporto, vencendo a atmosfera. André emocionou-se e encheu os olhos d’água. Ouviram-se aplausos empolgados. Comoção de todos: passageiros, funcionários, quem passava. O senhor vermelho, antes sisudo, surpreendeu-lhe, cumprimentou-o efusivamente. Outra senhora a quem André nem tinha visto antes também veio lhe dar os parabéns, contando que já tinha dois meninos e dizendo-lhe que filho é uma bênção de Deus. A loira de bastante carne, até então desdenhosa, olhava-o agora com um sorriso tímido, mas insinuante.

Até que os rolamentos contínuos da esteira fizeram com que a criança chegasse à altura de onde André estava. Ele abaixou-se, agarrou cuidadosamente o bebê e beijou-lhe a testa melada. Cessou o choro; só se ouviam agora os grunhidinhos de conforto pelo calor do colo. André deu meia-volta e rumou vitorioso a passos cuidadosos para o portão de desembarque dizendo baixinho ao ouvido do filho suas primeiras palavras de pai. Saiu ovacionado, sob mais aplausos, sumindo na distância depois de atravessar a porta da rua, que se abriu elegantemente dando-lhes passagem, como que dizendo: ”Tenha a bondade”.  Já com a bagagem na mão, uma senhora, enxugando as lágrimas, falou muito comovida ao senhor a seu lado:

- Ai, que coisa mais linda esse momento! Estou emocionada. Que feliz que deve ser esse homem. Como eu queria ter o que ele tem...