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domingo, 24 de fevereiro de 2013

ARQUIVO DE VIAGEM - CANELA / RS




Vizinha menos badalada de Gramado e muitas vezes quase confundida com esta, Canela tem sim também tem seus encantos prórpios, suas atrações e boas alternativas de diversão e gastronomia. Com atrativos naturais impressionantes como o Parque da Ferradura, a Floresta de Sequóias e a Cascata do Caracol, garante  interesse e bons programas para os turistas, além das comprinhas de artigos de couro e artesanato no seu simpático centro com visita obrigatória à bela catedral de pedra que imita o estilo gótico.
Também valem uma conferida o super-bacana Museu da Moda, as fábricas de chocolate ao longo da estrada para Gramado com seus museuzinhos temáticos próprios em cada uma, o interessantíssimo Mundo a Vapor com reproduções em miniatura (funcionando) da produção industrial à base de vapor ao longo da história, e o simpático Castelinho Caracol, uma casa original alemã do início do século passado com seu mobiliário e utensílios originais preservados.
Para diversão e entretenimento tem o Alpen Park, um parque de diversão com atrações tradicionais como montanha russa, trenó e etc., mas também com atividades naturais como arvorismo, tirolesa, rapel e coisas do gênero; e o super-legal Parque Terra Mágica Florybal, um grande parque temático de propriedade de uma das fábricas de chocolate, de ótima estrutura com áreas de estar, playground infantil, restaurante, cinemas 7D, bonecos mecânicos e esculturas gigantescas. Um barato!
Seguem algumas fotos da minha passagem por lá neste último mês de janeiro:

Centro de Canela, com a Catedral ao fundo

A bela catedral de pedra de Canela

Uma velha locomotiva
no centro da cidade

O Castelinho Caracol,
uma antiga casa alemã

O interior do Castelinho Caracol
com seu mobiliário original

Fachada do Museu da Moda
na estrada entre Canela e Gramado

O interior do Museu da Moda:
as vestes desde a origem da civilização

A entrada do Mundo a Vapor reproduzindo um
acidente real de um trem desgovernado que
despencou da Estação Montparnasse, em Paris

Dentro do Mondo a Vapor maquetes com
funcionamento de várias instalações a vapor.
Aqui, uma pedreira.

Uma das fábricas de chocolate ao longo da estrada.
Aqui a fachada da Caracol

No interior, as instalações da fábrica

Ainda na Caracol, uma pequena tour mostrando a origem do chocolate

Visitamos as vinícolas
na parte mais afastada da cidade.
Esta, a Jolimont


Ainda na vinícola,
o vinho armazenado em barris de madeira


E no final da visita à vinícola
uma degustaçãode variados tipos de vinhos


Visita ao Alambique Flor do Vale

Lá conhecemos as estapas da fabricação da cachaça


Opção de diversão: o Alpen Park

O Parque Florybal


No percurso de entrada do Florybal,
uma cascata de chocolate...

... e no passeio, encontramos
seus dinossauros mecânicos


A Floresta de Sequóias

Vista do alto do
Parque da Ferradura

E a belíssima Cascata do Caracol




por Cly Reis



sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

cotidianas #204 - Tchau, mãe...



Estava fazendo compras no supermercado e uma velhinha me seguia pelas gôndolas, sempre sorrindo.

Eu parava para pegar algum produto, ela parava e sorria: uma graça a velhinha !

Já na fila do caixa, ela estava na minha frente com seu carrinho abarrotado, sorrindo:

- Espero não tê-lo incomodado, mas você se parece muito com meu falecido filho...

Com um nó na garganta, respondi não haver problema, tudo estava bem.

- Posso lhe pedir algo incomum?  - disse-me a senhora idosa.

- Sim. Se eu puder lh e ajudar...

- Você pode se despedir de mim dizendo "Adeus, mamãe, nos vemos depois" ? Assim dizia meu filho querido... ficarei muito feliz!

- Claro, senhora, não há nenhum problema - disse eu para alegria da velhinha.

A velhinha passou a caixa registradora, se voltou sorrindo e, agitando sua mão, disse:

- ADEUS, filho...

Cheio de amor e ternura, lhe respondi efusivamente:

- ADEUS, mamãe, nos vemos depois?

- Sim... nos vemos depois, querido!

Contente e satisfeito com o pouco de alegria dado à velhinha, passei minhas compras.

- R$ 554,00, diz a moça do caixa.

- Tá louca? Dois sabonetes e duas pilhas?

- Mas as compras da sua mãe..... ela disse que você pagaria!!!!!

- Velha filha da puta !!!!!!!!!!!!

Boca




"Boca"
foto: REIS, Cly (2012)

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Coluna dEle #29



Bom dia, Meus filhos!

Como vão, tudo bem?

Farei uso deste espaço que Me é concedido neste blog para dar uma declaração importante:

EU VOU RENUNCIAR.

É gente cansei. Cansei desse mundo. Vocês só Me causam confusão, complicação, fazem tudo ao contrário do que Eu ensinei, só Me decepcionam. É guerra, é poluição, é Michel Telo, é Psy, é Renan Calheiros... Além disso meu sistema operacional tá todo fudido: aí chove demais, venta demais, chove de menos, treme o chão, é onda gigante, sem falar que tem um buraco enorme na camada de ozônio e o cara que eu contratei pra arrumar disse que não tem conserto.

Ah, olha... Larguei!

É muita coisa pra Minha cabeça!

E também tem a coisa da idade. Eu já to ficando muito velho pra dar conta de tudo isso. É, já são 14 bilhões de anos! Pode não parecer com esse Meu corpinho de 6 milhões, mas a verdade é que a idade tá pegando e a Minha saúde já não anda lá essas coisas. O São Lucas, padroeiro dos médicos, anda dizendo que a Minha pressão atmosférica tá alta, ando com umas dor estranha no peito, Meu fígado tá destruído por causa do trago, e vivo brigando com o Pedrinho pra ele não mandar muita água porque Meu joelho, que Eu machuquei jogando bola, sempre dói quando o tempo tá pra chuva. Coisa de velho mesmo, né?

Até pensei em mandar tudo pro espaço, sabe. Em acabar com o Mundo. Ia fazer isso no final do ano passado, lembram? Aquela coisa toda de calendário Maia e blablablá, mas como vocês devem ter notado, pois ainda estão aí, resolvi que não era a melhor solução.
Só vou Me retirar. “Saio da vida pública para entrar na História”, como diria o meu amigo, aqui, o Gegê. Vou deixar atudo í pra vocês se ‘divertirem’. Pra vocês se virarem um pouco. Não tem uns malucos aí que tão sempre querendo dominar o mundo? O Dr. Ghori, o Lex Luthor, os Estados Unidos não querem sempre ser donos de tudo? Então! Taí, podem levar. Eu tô fora!

Na verdade, só vou sair mesmo no final do mês. Ainda tem que arrumar as coisas, encaixotar tudo, preparar a mudança e, passar umas instruções pros santos, padroeiros, anjos, etc., e de certa forma preparar uma transição.

Depois Eu vou decidir o que é que Eu vou fazer. Talvez Eu vá pra Minha casa nos Campos Elíseos e fique lá só pescando e tomando cerveja.

Mas talvez Eu acabe sentindo falta do que fazer. Falta disso tudo. Falta de vocês...

Até o final do mês talvez Eu acabe revendo a Minha decisão.

Vamos ver, vamos ver.
 
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Por enquanto o meu e-mail é o mesmo
Cartas de despedida, agradecimentos, homenagens, desaforos, xingamentos ou qualquer coisa do tipo para;
Levarei em consideração pedidos para permanecer no cargo.
Tchau, fiquem Comigo e que Eu lhes abençoe.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

ARQUIVO DE VIAGEM - BENTO GONÇALVES - RS

Bom, conforme prometido, mais algumas fotos e momentos da minha viagem de férias, neste último mês de janeiro pela Serra Gaúcha, com uma passadinha por Porto Alegre. Vou começar pela cidade de Bento Gonçalves, onde, na verdade, acabei passando pouco tempo, um dia apenas, mas que foi suficiente para fazer um programa muito bacana que foi o passeio de Maria Fumaça. A pequena viagem, de mais ou menos 2 horas, que passa por Garibaldi e chega em Carlos Barbosa, cidades vizinhas, é incrementada com números musicais regionalistas e típicos italianos, apresentações teatrais e degustações de vinhos, espumantes e sucos, além de informações diversas passadas pelas simpáticas, atenciosas e competentes guias da empresa responsável pelo passeio.
De quebra, a aquisição do ingresso para o trem dava direito a uma visita à Epopéia Italiana, uma espécie de parque temático, lá mesmo em BG, com cenários, apresentações teatrais, filmes e degustações, que remontam a saga de imigrantes italianos, no fim do século XIX, que fizeram a vida no Rio Grande do Sul.
Como estávamos hospedados em Gramado, além deste dia muito bem aproveitado, acabamos não retornando a Bento Gonçalves, uma vez que o deslocamento de carro de uma cidade para a outra era de algo em torno de duas horas, embora soubéssemos de outras atrações interessantes que a cidade reserva para os turistas. Preferimos desfrutar de outras atrações da Serra mais próximas de onde estávamos e ficamos, então, ali por Gramado, Canela, Nova Petrópolis e arredores.
Bom,... na verdade o fato de ter faltado coisas, de não ter visto e visitado tudo acaba sendo uma boa desculpa para retornar, não?
Quem sabe em breve...

Chegando em Bento
no Pipa Pórtico

Na entrada da Estação do trem

A Maria Fumaça

Olha o trem fazendo a curva

Bento Gonçalves
pela janela

As atrações musicais
durante o passeio

Fachada do Epopéia Italiana
(não era permitido fotografar no interior,
exceto em pontos autorizados)

Um dos locais livres para fotografia,
o trecho final que reproduzia uma
pequena vila italiana

Pertences originais trazidos de uma família italiana
da colonização do Estado

E no final do percurso cênico,
uma polentinha frita preparada na hora


U2 - "The Unforgettable Fire" (1984)



"Um homem veio em nome do amor
Um homem veio e foi
Um homem veio para justificar
Um homem para subverter."
"Pride (In the Name of Love"


Durante algum tempo esse foi o disco da minha vida. Achava a melhor coisa que já tinha ouvido. Mas com o tempo a gente vai conhecendo outras coisas e vai vendo que não é bem assim e que tem muitos superiores em vários aspectos, mas o que não tira em nada os méritos do ótimo “The Unforgettable Fire” do U2, de 1984, o quarto álbum da banda de Dublin.

Disco bem trabalhado, trabalho pensado, bem produzido. Daqueles discos com estrutura. Disco pra se ter em LP. Disco com lado A e lado B.

Tem discos que já abrem abafando, tirando o fôlego do ouvinte, outros meio que te preparam para o que vai vir como é o caso. “A Sort of Homecoming” é um bom cartão de visitas, interessante, agradável, competente pra abrir o disco mas apenas prepara o terreno, na verdade, para “Pride (In the Name of  Love)”, uma das melhores da banda e uma espécie de hino do U2. “Wire” que a segue é elétrica, é agitada, cumpre bem sua parte no todo mas na verdade é mais uma boa ponte para outra das grandes, a faixa que dá nome ao disco, “The Unforgettable Fire”, uma composição intensa, com bateria forte e marcada e interpretação vocal emocionante de Bono Vox. Na continuação vem “Promenade”, uma balada leve com a marca do produtor Brian Eno, fechando o lado A e funcionando como uma espécie de apagar das luzes de uma etapa do disco.

O lado B abre com "4th. of July", uma vinheta instrumental arrastada, densa, soturna que praticamente introduz para o que virá em seguida, a fantástica “Bad” com seu riff simples e leve, contrastando com o climão pesado da letra sobre heroína, em outra atuação notável do vocalista (uma de minhas favoritas!). Praticamente espelhando o lado A, “Indian Summer Sky”, é outra canção de pegada vigorosa, assim como “Wire”, ambas lembrando o estilo do primeiro trabalho da banda. Segue com a excelente “Elvis Presley and America”, com destaque total para a bateria de Larry Müllen Jr.; e o álbum fecha com outra faixa curta, “MLK” (iniciais de Martin Luther King), com Bono cantando emotivamente quase à capela, apenas sobre uma base contínua de teclado, numa despedida digna de um grande disco.

Trabalho muito apoiado na bateria, enfatizada e destacada em diversas faixas, sem contudo deixar o disco pesado ou barulhento. Tudo certinho: doses certas de força, graça, emoção e contundência. Depois do bom, porém cru, “War”, o U2 lapidava algumas pontas brutas e apresentava um trabalho mais equilibrado e definidor de seu estilo a partir dali.

Mesmo ainda hoje admirando muito "The Unforgettable Fire", como já havia dito, a gente vai aprendendo, ouvindo outras coisas, descobrindo novos sons, outros artistas e, no fim das contas, posso afirmar que não trata-se mais do meu disco favorito. Mas ainda goza de minha total admiração e carinho, sendo um dos mais queridos da discoteca e um dos xodozinhos da coleção e certamente altamente recomendável para fãs, admiradores e curiosos.
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FAIXAS:
Lado A
1. "A Sort of Homecoming"
2. "Pride (In the Name of Love)"
3. "Wire"
4. "The Unforgettable Fire"

5. "Promenade"

Lado B
1. "4th. of July"

2. "Bad"
3. "Indian Summer Sky"
4. "Elvis Presley and America"
5. "MLK"


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Ouvir:
U2 The Unforgettable Fire




Cly Reis

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Navegante Errante





foto: Doris de Oliveira - fototeca Cioma Breitman
Museu Joaquim José Felizardo - Pref. mun. de Porto Alegre
O Naval foi e sempre será o bar da minha infância. Encravado em pleno Mercado Público de Porto Alegre, centro histórico da cidade, o típico boteco, aberto nos longínquos anos de 1907, é parte essencial da história de porto-alegrenses como eu, tendo em vista sua tradição e notoriedade. Aquele pé-direito altíssimo; as portas de madeira estilo português; o piso de lajotas intercalando preto e branco; o cheiro de trago no ar; as mesas de madeira com plástico grosso por cima; os porta-retratos com fotos antigas; os afrescos do teto; o enorme cartaz acima das cabeças com a imagem de um navio; as fotografias pitorescas nas paredes; o ar que parecia tomado por uma neblina de satisfação. Tudo ali me encantava desde quando, guri, levado por meu pai e, muitas vezes, juntamente com meu irmão, comecei a frequentar o bar Naval. Ia a vários outros com meu pai, mas ao Naval era especial. Não era sempre. Às vezes, no dia de pagamento de meu pai, funcionário da prefeitura, saíamos da repartição dele na Borges de Medeiros e rumávamos direto para lá, felizes. E mesmo com essa frequência menos assídua era incrível como sempre me senti em casa, tal como se o bar fosse uma extensão da minha.

Aquela aura do local me dava impressão de que, ao adentrar pela porta, fosse pela de dentro do Mercado, fosse pela da calçada, que dá para a rua, saíamos do resto do mundo para entrar, exclusivamente, no Naval, como navegantes num barco solto no meio do mar. A percepção de criança fazia com que, inclusive, eu nunca atinasse exatamente de qual dos quatro lados do Mercado Público se entrava para acessá-lo. Parecia que era pelo lado do Guaíba... mas, não, era pelo Largo... ou pelo lado da Prefeitura...? Afora a justificativa do senso de direção ainda em desenvolvimento em uma criança como eu, não posso deixar de pensar hoje que a entrada para aquele museu boêmio era, na verdade, imaginária.

A melhor parte para nós eram as comidas. Comida de boteco típica, daquelas suculentas, sempre com o mesmo gosto anos a fio. Tínhamos nossos pratos prediletos: as almôndegas gigantes, espetacularmente bem fritas, e a chuleta de porco, um respeitável bife cujo sabor especial era um verdadeiro segredo. Tinha também uma pimenta maravilhosa, a melhor que já comi na vida, feira na casa, que só passei a apreciar mais velho, pois era muito forte para meu paladar naquela época.

Não bastasse todo esse espírito, ainda o aspecto humano era de total acolhimento por parte dos garçons, que, na minha mente infantil, estavam ali desde sempre (e, quem sabe, não estavam?). Paulo Naval, um português de olhar entre o arguto e o carinhoso cujo nome resume a simbiose de sua existência com o local, visto que ele e o bar eram parte da mesma coisa; e Mauro, tipo turco dono de olhos verdes intimidadores até o momento em que abria seu sorriso largo e receptivo. Ambos eram amigos de meu pai, a quem tratavam como verdadeira deferência. No entanto e até por isso, Paulo chamava-o, com uma permissividade cúmplice de quem sabia de muita safadeza de meu pai, de “negro sem-vergonha”. O local sempre recebeu desde cidadãos comuns até personalidades, como Lupicínio Rodrigues, Carlos Gardel, Túlio Piva, Elis Regina, Glênio Peres, Leonel Brizola, Jânio Quadros, Olívio Dutra. Mas não havia distinção: podia ser político, conhecido, operário, personalidade, artista, zé-niguém, jovem, ancião, bicha, vesgo. Independia: anônimos ou famosos, todos os clientes eram tratados com o maior dos respeitos e atenção, e, alguns, como meu pai, pessoa comumente querida aonde ia (ainda mais nas rodas de birita e botecos da vida), ganhavam, sim, uma atenção especial.

Episódio clássico que mostra essa afetuosidade foi a ocasião em que meu pai, num dos tais dias de pagamento, pegou todo seu ordenado e se atirou para o Naval, sozinho. Lá, tomou todas a ponto de não ter condições de voltar para casa tamanho o porre. Tentou dar uns passos, mas caiu em plena rua. Pois então que o Paulo, sabendo que o pai tinha recém recebido o salário e que estava com este todo sacado dentro da bolsa, tomou a liberdade de abri-la e guardar o dinheiro consigo. Depois, chamou um taxi, pagou do seu bolso o taxista e mandou meu pai pra casa. No dia seguinte, já refeito do pileque, meu pai voltou ao bar para resgatar seu pertence, agradecer e pagar o taxi. Paulo não aceitou o dinheiro. Meu pai sempre se emocionava ao se lembrar desse ato de pura amizade, tanto pela consideração que tiveram com ele, rara para com um cliente, quanto pela ética de como agiram.

Por essas e outras, não à toa o Naval me parecia algo realmente poético. E Paulo Naval era um poeta de mão cheia, autor do livro "O Garçom e o Cliente - No Balcão do Naval" cujo lançamento ocorreu em pleno bar num concorrido coquetel. Recordo de uma vez que, sentados numa das mesas, ele, orgulhoso, de avental enxovalhado e paninho branco úmido na mão, recitou uma de suas obras. Momento inesquecível para mim.

Na esteira de meu pai, eu e meus irmãos também éramos muito queridos lá. Lembro da primeira vez que fomos com minha irmã, ainda uma criança de uns 4 ou 5 anos, sob os olhos arregalados de minha mãe, que permitiu o passeio com a pequena mas não sem certo receio. Mas deu tudo certo. Engraçado que, por conta daqueles dias de calor louco de Porto Alegre, misturado ao cansaço de sair cedo de casa conosco, ela acabou dormindo profundamente em nosso colo, chegando a ficar com o corpo todo mole. Parecia uma boneca de pano, pois, além de não acordar, precisava ser segurada permanentemente para não desmoronar. Naquele dia, Paulo e Mauro, felizes com a ilustre visita como se fosse a de uma familiar sua, bateram uma foto dela ainda acordada, tomando uma Mirinda de garrafa. Essa foto foi parar na parede do bar, ficando ali desde então.

Os anos se passaram. Cresci, a dinâmica de minha vida se alterou e, nesse meio tempo, entre outras mudanças, meu pai, motivo de meu contato primeiro com o Naval, foi para o outro plano. Mesmo assim, sempre procurei com uma frequência até parecida com a que tinha na infância dar uma passada por lá, fosse para sentar e comer, levar algo pronto para casa ou apenas dar um alô para o Paulo e o Mauro. Sentia-me, no fundo, com certa responsabilidade de manter a herança emocional de meu pai para com eles. Via-os nessas ocasiões, e era muito bom. Mas os anos de casa e a rotina religiosamente diária já os havia desgastado. Normal. Envelhecidos, mantinham a mesma simpatia e sorriso aberto, fazendo as mesmas perguntas a cada vez que eu ia (em que eu e meu irmão trabalhávamos, se eu ou meu irmão que é arquiteto, como estavam minha mãe e minha irmã, essas coisas de gente afeita a ti). No entanto, era perceptível que estavam cansados e que aquele cenário se alteraria, mas eu, talvez por apego ao sentimento de magia alimentado desde a infância, nem pensei em cogitar.

Mas as mudanças, de fato, ocorreram. Outro dia, dando voltas no Mercado Público, resolvi, como de costume, visitar os amigos Paulo e Mauro. Fui tomado de surpresa quando cheguei à porta do Naval. O local, todo reformado, agora tinha límpidas paredes brancas, arquitetura requintada e ar totalmente asséptico. Descaracterização própria de uma protomodernidade ignorantemente desmemoriada. A foto de minha irmã não estava mais lá, assim como os porta-retratos velhos, o cartaz do navio e tampouco a névoa de prazer. Até a porta que dava pra rua havia virado uma simplória janela. Dava pra ver que uma conceituada consultoria empresarial havia agido ali implacavelmente e passado o rodo em tudo que fosse nostálgico e não-moderno, deixando o local com cara não de botequim do Mercado Público de Porto Alegre, mas com cara de boteco bacaninha da Vila Madalena paulista. E, eu, com cara de bobo.

Perguntei a um garçom, um loiro baixinho, onde estavam o Sr. Paulo e o. Sr. Mauro. “Se aposentaram”, respondeu, olhando-me com uma expressão de estranhamento desdenhoso como se eu fosse um navegante errante em águas alheias. Mas meu desapontamento era a maior prova de que, na verdade, era ele o deslocado. Aquela indiferença modernosa e acéfala, que valoriza apenas o novo e cuja falta de alcance nem se presta a procurar no passado sentidos para o hoje, era o maior sinal da ação desrespeitosa desses tempos atuais. De fato, tudo que não fosse jovem tinha ficado para trás ali: aquelas conversas revolucionárias ou jogadas fora, aquelas bebedeiras homéricas ou o simples trago no fim do expediente, aqueles amores arrebatadores ou meros galanteios, aquelas figuras pitorescas ou cidadãos comuns, aquelas geniais ideias artísticas ou importantes acordos políticos. Tudo isso pertenceu a um tempo espacial diferente disso que se vive no dia a dia. Um tempo não-racional impossível de ser percebido por um simples garçom como os de hoje, que bate ponto como um escriturário. Tive o impulso de perguntar onde tinham posto a foto de minha irmã... mas recolhi a fala. Agradeci e fui embora, com um fio de melancolia e resignado com um mundo que insiste em ser muito real.

Mesmo assim, não deixei de frequentar o Naval. Volto lá de vez em quando. A comida é outra, gostosa também. Mas incomparável. Trata-se de outro Naval, pois “aquele” Naval, dos mocotós violentos, dos saraus de poesia, dos bate-papos inflamados, do chope perfeitamente tirado e dos tipos elegantemente extravagantes e encantadores, como foi meu pai, não existe mais. Perdeu-se no horizonte do oceano de lembrança, rumando para outra dimensão de tempo e espaço. Contudo, talvez minha paixão pelo Naval permaneça porque explique, justamente, esta minha atemporalidade ou o sentimento de, às vezes, estar deslocado no tempo. Assim como me acontecia quando subia à proa do Naval e me sentava à nau, com as pernas curtinhas que não encostavam o convés do tombadilho, para navegar longe sem sair do lugar. 

sábado, 9 de fevereiro de 2013

cotidianas #202 - Especial Carnaval - "Sangue, Suor e Cerveja"




Não se perca de mim
Não se esqueça de mim
Não desapareça
A chuva tá caindo
E quando a chuva começa
Eu acabo de perder a cabeça
Não saia do meu lado
Segure o meu pierrot molhado
E vamos embolar
Ladeira abaixo
Acho que a chuva
Ajuda a gente a se ver
Venha, veja, deixa
Beija, seja
O que Deus quiser...
A gente se embala
Se embora se embola
Só pára na porta da igreja
A gente se olha
Se beija se molha
De chuva, suor e cerveja...
Não se perca de mim
Não se esqueça de mim
Não desapareça
A chuva tá caindo
E quando a chuva começa
Eu acabo de perder a cabeça
Não saia do meu lado
Segure o meu pierrot molhado
E vamos embolar
Ladeira abaixo
Acho que a chuva
Ajuda a gente a se ver
Venha, veja, deixa
Beija, seja
O que Deus quiser...
A gente se embala
Se embora, se embola
Só pára na porta da igreja
A gente se olha
Se beija se molha
De chuva, suor e cerveja...
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"Sangue, Suor e Cerveja"

Billie Holiday - "Lady in Satin" (1958)





"Era o anjo das trevas.
Billie cantava com beleza demais
e dor demais."
Peggy Lee (cantora)



Sempre quis ter esse disco da Lady Day até por saber que fora de um dos últimos atos de sua conturbada carreira e por felicidade, agora, encontrando um relançamento da Columbia Records, que botou no mercado também outros títulos interessantes de jazz, finalmente o tenho em minha discoteca.
"Lady in Satin", de 1958, com certeza não é o melhor trabalho pessoal da cantora, não tem suas performances mais brilhantes ou o melhor de seu potencial vocal, mas até pelo fato de sua voz, outrora doce, suave, maviosa, mostrar-se extremamente fragilizada pelo estado de saúde debilitado, naquele que seria o último ano de sua vida, resultado do uso excessivo de ácool e heroína ao longo de toda sua trajetória, faz com que suas interpretações ganhem em dramaticidade e intensidade. Assim, cada ciúme soa mais trágico, cada desilusão mais sentida, cada decepção mais dolorida, cada adeus mais triste. "I'm a Fool to Wanto You", que abre o disco, é um ótimo exemplo disso, onde com a voz limitada, fraca, rasgando na garganta em determinados momentos, nos proporciona uma interpretação emocionate e única. "You don't Know What love Is" chega a ser mesmo ruim tal a deficiência da cantora contrastando, contudo, com o brilhantismo do arranjo e da execução da orquestra; em "For All We Know" e "Glad to Be Unhappy" é possível notar o esforço da cantora tentando se superar (e conseguindo); e "The End of Love Affair", que encerra o disco, mesmo com um fio de voz, Billie ainda consegue nos brindar com outra atuação vocal comovente em outra das grandes faixas do álbum. Em "Get Along" Billie é graciosa; em "For Heaven's Sake" consegue mesmo a duras penas trazer de volta o velho encanto com muito brilho; e tem ainda interpretações fenomenais na ótima "But Beautifull" e na excepcional "You've Changed", a preferida do prórpio meastro Ray Ellis que admite, de início, ter ficado decepcionado com o que encontrou de Billie Holiday no estúdio, mas que depois, ouvindo o resultado, percebeu que aquilo que registraram era uma das melhores coisas que já havia escutado na vida.
Um triste porém belo epitáfio de uma das maiores e mais importantes cantoras de todos os tempos. De certa forma, um documento de uma vida, pois tudo estava ali naquele final, naquele álbum, naquela voz rouca, débil, triste, dolorosa: toda a vida de sofrimentos, erros, paixões, desilusões, vícios, mas também de beleza, amor, sensibilidade e talento.

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FAIXAS:
01 - I’m a Fool to Want You
02 - For Heaven’s Sake
03 - You Don’t Know What Love Is
04 - I Get Along Wiyhout You Very Well
05 - For All We Know
06 - Violet for Your Furs
07 - You’ve Changed
08 - It’s Easy to Remember
09 - But Beaultiful
10 - Glad to Be Unhappy
11 - I’ll be around
12 - The End of a Love Affair

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Ouça:
Billie Holiday Lady In Satin



Cly Reis

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Medusa









"Medusa" - REIS, Cly
grafite sobre sulfite (22x10cm)

"Colorados - Nada Vai Nos Separar", organizado por Jana Lauxen - Ed. Multifoco (2012)


Finalmente saiu, mesmo!
Agora já o tenho em mãos.
Saiu a coletânea "Colorados - Nada Vai Nos Separar" , da qual eu faço parte como um dos autores, organizada pela escritora Jana Lauxen, com 19 textos selecionados de torcedores colorados espalhados pelo mundo afora.
Edição caprichada, bonita, muito bem acabada e com textos interessantíssimos e emocionantes com estilos, formatos e propostas diferentes dos escritores, no entanto, em todos os casos com algo importante em comum: a paixão pelo Sport Club Internacional.
O formato pocket, além de proporcionar um manuseio e transporte mais prático, é moderno, simpático e faz com que seu preço fique bastante acessível o que deixa qualquer colorado sem nenhuma desculpa pra não ter o seu.
Participam da coletânea, além de mim, Clayton Reis Rodrigues, os colorados Fábio Araújo e Eduardo Sauner de excelentes textos; o crítico de cinema, Beto Canales; Caroline de Souza Matos; Lulu Penteado com sua síntese perfeita de tudo que envolve o Internacional; Cícero Pereira da Silva: Eliane Becker; Jeremias Soares; o blogueiro do Vamo, Vamo Inter, José Paulo Pinto; o 'multiartista' Jorge Dimas Carlet; Luciana Lima da Silva; Sinara Fross com seu texto-poema de formato criativo e original; o talentoso Márcio Mór Giongo; o infiltrado Max Peixoto e sua aventura; Poliana Patricia Glienke; Rosália Speck; a simpática Nathalia Hoffman, 'vizinha' aqui do Rio de Janeiro; e a editora e organizadora Jana Lauxen.
Não sei se já tem em alguma livraria perto de você, mas se tiver, compre. Ficou bem legal.
E vamo, vamo, Internacional que nós, teus seguidores, estaremos sempre contigo.

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Ficha Técnica:
"Colorados – Nada Vai Nos Separar"
Editora
Multifoco, 2012.
130 páginas.
Formato pocket (10 x 14)




C.R.