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segunda-feira, 24 de junho de 2013

14 Video Portraits by Robert Wilson








“Vídeo, cinema e fotografia são oferecidos como documentos de desempenho, mas raramente se aproximam da experiência tridimensional, o soa como eles irradiam através do teatro, iluminação, uma vez que envolve um lado, a antecipação da audiência, o gesto sutil do ator individual”

 Noah Khoshbin & Matthew Shattuck. 





“Se ele se move, eles vão vê-lo” 
Andy Warhol. 





“A carreira de Robert Wilson tem a assinatura de uma grande criação artística”
Susan Sontag.


O Santander Cultural realizou em 2010 a Mostra Robert Wilson – Video Portraits numa parceria antenada com as redes sociais e novas tecnologias durante a 17º edição do Porto Alegre em Cena na cidade de Porto Alegre. Em todo o espaço expositivo via-se os 14 vídeo-retratos produzidos pelo artista norte-americano em alta definição no suporte de telas de 1,5m de altura. Wilson está entre o teatro e as artes visuais de vanguarda, sendo um multiartista conhecido também por suas técnicas de iluminação e cenários no teatro americano.

Os vídeo-retratos apresentados nessa Mostra reuniam atores, artistas, dançarinos, escritores, atletas, pessoas de todas as origens, e animais que refletem a amplitude da carreira de Wilson. Entre eles figuravam: o chinês Zhang Huan, o escritor Gao Xingjian, os atores Brad Pitt e Steve Buscemi, Alan Cumming e Winona Ryder, Ditta von Teese, Jeanne Moreau e Johnny Depp entre outros. Produzidos a partir de uma parceria entre Robert Wilson e as câmeras Voom HD Networks uma empresa de TV onde Robert foi artista residente a partir de 2004. Os Vídeo-Portraits são retratos de celebridades e anônimos caracterizados por um formato que vai além da fotografia, inclui cinema e teatro, literatura e música de múltiplas dinâmicas reveladas no retrato do vídeo. As criações de Wilson apresentam uma linguagem de movimentos mínimos, gestos sutis e coreografados, somados a arranjos cenográficos sofisticados, aqui as trilhas musicais e as palavras também tem força. Aliás a ligação de Wilson partindo inspiradamente do ambiente cenográfico com a música vem desde 1976 quando apresenta o trabalho com seu parceiro Philip Glass "Einstein on the Beach".

Para estes vídeo-retratos a música torna-se parte integrante da peça, em vez de apenas uma ilustração auditivo de um tema visual. Executando a gama de gravações de campo às pontuações do jogo de vídeo, desde o clássico ao blues, ao rock ao punk dos retratos de vídeo contêm uma lição na abordagem contemporânea de apropriar-se de toda a história das gravações sonoras. Alguns críticos que abordaram as obras chegaram a questionar se Wilson está sinalizando com essas gravações sonoras um caminho da música do futuro. Será?
A impressão que temos é que o artista transporta para a tela em HD o seu velho conhecido – o palco. Nele faz todas as intervenções e correlações possíveis. A fotografia se dá pela quase imobilidade dos personagens que se congelam e se movimentam num tempo nem sempre real, brincando assim com a observação do espectador e com a sua própria noção de tempos.

Um das obras que mais gostei é a que apresenta o escritor Gao Xingjian (Prêmio Nobel da Literatura 2000 vive na França e em 1997 tornou-se cidadão francês - é também tradutor da obra de Samuel Beckett e Eugène Ionesco, além disso é roteirista, diretor de teatro e pintor). O vídeo-retrato com seu nome está datado no ano de 2005 e tem música de Peter Cerone “Never Doubt I Love, Desert”. A música pontua o tempo que a escrita percorre pelo rosto de Gao. E sugere as relações estabelecidas entre um lugar onde a solidão é uma situação permanente e um estado emocional onde o deserto pode confirmar ou negar de maneira provocativa uma afirmação duvidosa. Nesta obra o que se move quase todo o tempo é a escrita e o personagem serve de meio para recebê-la. A face do escritor recebe a frase “La solitude est une condition nécessaire de la liberte” escrita em letra manuscrita no idioma francês. Aos poucos ela se forma cruzando o rosto do escritor e tão logo está escrita começa a desaparecer culminando com a abertura dos olhos dele ainda sob a pontuação da música. 

Um texto tão carregado de emoção precisa de tempo para ser absorvido. A frase evoca reflexões. O tempo da escrita coincide com o tempo real de leitura da frase, mas não com o que a frase diz. Qual tempo de solidão é necessário para que se escreva tal reflexão? Ainda – esta frase faz parte de algum livro do escritor ou é uma frase universalmente conhecida? Será que a intenção de Wilson é fazer com que o espectador perceba que escrever é um trabalho interno profundo? E que esse mergulho na construção do texto, faz parte do processo de criação sobre o que se coloca de fato no papel?

Outro aspecto que me chamou atenção é que essa mesma obra foi exposta em Museus com diferentes suportes o que legitima o diálogo entre o meio digital e os espaços expositivos sejam eles de vanguarda ou tradicionais, sendo esse um fator que se relaciona a proposta de trabalho de Wilson que interliga novamente áreas aparentemente incompatíveis. 

Os vídeos-retratos foram exibidos em Los Angeles, Berlim, Áustria, Itália, Espanha, Rússia, EUA, Singapura, Alemanha e em New York em plena Times Square. Fico imaginando o impacto destes retratos numa avenida que é conhecida por um fluxo de imagens, cores e agitação constantes. As obras de Wilson são coloridas, contrastadas e com uma definição incrível, totalmente conectadas ao universo pixelado e frenético da Times Square que guarda para si uma profusão de anúncios publicitários, divulgação de espetáculos e reúne os mais refinados investidores mundiais. O que diria Warhol , um dos pais e Mestre destas relações entre comunicação e Arte sobre, por exemplo, a imobilidade da pantera negra que Robert expõe nesta Mostra? “Se ele se move, eles vão vê-lo", diz Andy. E quando ele se moverá? Se isso acontecer a que momento poderemos capturar esse gesto? Eis que o desafio está lançado: perceba e questione seu corpo em reação a estas obras, teste sua paciência em esperar por um movimento e transporte-se a figura do leitor de Arte, em frente a contemporaneidade explícita de Wilson independente de qual personagem ou cidadão esteja retratado na sua frente. Participe desse espetáculo e perceba o quanto você faz parte disso tudo.
Gao Xingjian: assista ao vídeo-retrato





Pix



sábado, 22 de junho de 2013

Cyber Insekt










"Cyber Insekt" - REIS, Cly
concreto armado revestido de tinta acrílica e verniz




REIS, Cly

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Coluna dEle #32



Milhares de anjos, santos, almas, espíritos, etc., reuniram-se em
manifestação por melhores condições de pós-vida.
E aí, filharada?
Como é que estão as coisas por aí?

O bicho tá pegando?
Pelo que Eu tenho visto as coisas estão pegando fogo (literalmente) aí no Brasil.
E não é por causa da tal do Neymar, da Espanha ou da copa-teste da FIFA.
Ao que parece vocês aí embaixo 'tão furibundos da vida, mesmo, hein!

Tem razão, tem razão, Eu no lugar de vocês também estaria puto.
Há tempos que estão fazendo vocês de palhaços mas parecia que ninguém reagia.
Não adiantava só ficar Me pedindo, Me pedindo. Tinha que agir.
Tá certo, tá certo.

Só não precisa quebrar tudo, mas de resto, tá certo.
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O problema é que a manifestação de vocês inspirou o pessoal daqui, e agora, aqui em cima não tem mais santo nem anjinho. Isso aqui virou um inferno!
'Tão alegando que eu tô a tempo demais no poder, querem santuários padrão Vaticano, tem santo desconhecido querendo que seu dia seja feriado, purgatório de primeiro mundo. Ah... Não aguento mais!
Esses santos-do-pau-oco arrancaram os portões do céu, queimaram o Livro da Vida, tão despedaçando as nuvens, depredando as estrelas, tentaram até invadir Meu palácio do governo e tudo mais.
Ah, não! Aí tive que recorrer à força. Convoquei a Guarda-Celestial.
Botei os tanques na rua e mandei baixar a porrada nos baderneiros.
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Aí ouvi dizer na TV daqui que estamos de volta à 'Era das Trevas', que era melhor no tempo do Coisa-Ruim, que repressão é ditadura. Ah, véi, ... só tô defendendo o Meu trono.
E de mais a mais, esses que tão falando não fazem nem ideia do que era na época do Capeta.
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Tem até campanha no Faithbook pra fazer convocação:
"Vem pra Lua!".
É, eles se concentram ali, no satélite, depois vêm em marcha universo afora. Só que aí vem deixando um rastro de destruição. 
E cada dia tem mais almas nas manifestações. Impressionante! 
Esses anjinhos não trabalham, não?
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E pensar que tudo isso começou só porque eu quis aumentar em 20 dinheiros o imposto eternidade.
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Pior que até o Filhão resolveu ir nas passeatas.
Botou uma daquelas máscaras esquisitas, do cara de sorrio largo e bigodinho fino, escreveu um cartaz com hidrocor e foi fazer arruaça.
Já avisei que essas coisas de abraçar causa não deram muito certo pra ele em outro momento.
Vai chegar uma hora que vão querer tirar ele pra Cristo, e aí... já viu.
Vão querer crucificar alguém.
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Pior que isso é que hackearam o site oficial daqui, o Mundo.org, pra escrever umas besteiras, tipo:
"#TuPensaQÉDeus,PorAcaso?", "Não é por 20 dinheiros, é pela fila da reencarnação", "#IssoAquiTáLongeDeSerUmParaíso", "Tem dinheiro pro Papa mas não tem pra reformar a escadaria do céu".
Aí, no meio dessas baboseiras eu li "#OGiganteAcordou". Puxa, fiquei todo animado. Aí olhei pra dentro da calça e o gigante continuava lá dormindo, como em todos esses últimos anos.
Putz...
Alarme falso.
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Sei que a situação está ficando insustentável.
Vou ter que tomar alguma atitude enérgica. 
Das duas uma: ou Eu largo o barco e deixo pra eles governarem (se conseguirem); ou eu garanto o Meu lado, mando fechar o FaithBook, boto os chamo os Cavaleiros do Apocalipse, mando dispersar essa porra toda.
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Mas ainda vou avaliar as reivindicações.
Ãhnn??? O que??? Não tem reivindicações claras?
Aí fica difícil de negociar.
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Reivindicações, manifestos, xingamentos, hashtags, pedidos, súplicas, orações para;

O Frango Atirador


quinta-feira, 20 de junho de 2013

Antonio Carlos Jobim - "Wave" (1967)


Acima, a capa original
seguida da capa da reedição.
“O essencial é invisível aos olhos
 e só pode ser percebido
com o coração.”
Antoine de Saint-Exupéry


O ano de 1967 carrega uma aura mítica para a música moderna, pois marcou incisivamente a vida e a obra de artistas importantes e, consequentemente, da música em geral. Na Inglaterra, os Beatles mandam às favas o Iê-Iê-Iê e ousam dar um passo adiante com o lançamento de "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", mudando para sempre a rota da música pop. Com semelhante peso, mas nos Estados Unidos, o The Velvet Underground, sob a batuta de Andy Warhol, surpreenderia o mundo com um LP de estreia onde casam rock, poesia, psicodelia, contracultura e vanguarda. Aqui no Brasil, também ventos de revolução: Gilberto GilCaetano VelosoMutantes e cia. lançam “Tropicália”, disco-manifesto do movimento tropicalista, que influenciaria todas as gerações seguintes de “emepebistas” e roqueiros brazucas e estrangeiros. Isso para ficar em apenas três exemplos.

Porém, 1967 também selaria a carreira de outro artista, experiente e já consolidado desde os anos 50: o maestro e compositor Antonio Carlos Jobim. Depois da exitosa estreia solo no mercado fonográfico norte-americano quatro anos antes, Tom havia antes disso ajudado a difundir para o mundo a já consagrada bossa nova. Para completar, ainda realiza, no início daquele mesmo ano, um feito jamais alcançado por um músico latino até então: gravar com o maior cantor popular de todos os tempos, Frank Sinatra. O disco “Francis Albert Sinatra and Antonio Carlos Jobim”, um sucesso de vendas, é tão definitivo que decreta, aliado ao desencanto de uma Rio de Janeiro que passou de paradisíaca a ditatorial com o Golpe de 64, além da força dos festivais, popularescos demais para a sofisticação da bossa nova, o fim da chamada primeira fase deste estilo. Então, para que caminho ir agora? Render-se ao poderio yankee e seguir produzindo uma música “made in USA” ou voltar para um Brasil linha-dura e atrasado tecnicamente simplesmente para não fugir às raízes?

O que para alguém menos preparado seria uma encruzilhada, para o “maestro soberano” foi resolvido de forma leve como uma onda que quebra mansa na praia. Ao invés de criar um paradoxo, Tom criou “Wave”, álbum gravado em apenas três dias do mês de julho daquele fatídico 1967 no célebre estúdio Rudy Van Gelder, em Nova York (uma antiga igreja adaptada cuja elogiada acústica presenciou sessões memoráveis do jazz, como "Night Dreamer"  de Wayne Shorter  e “Maiden Voyage”, de Herbie Hancock). Nele, se vê um artista inteiro e num momento de alta criatividade. Valendo-se de toda a técnica disponível somente naquele país até então, além de contar participações mais do que especiais – como a do mestre Ron Carter deixando sua assinatura faixa por faixa com seu baixo acústico, ou da fineza do spalla da Orquestra Filarmômica de Nova York, Bernard Eichen –, Tom apura ainda mais a sofisticação harmônica e melódica da bossa nova, seja nas composições inéditas ou nos novos arranjos para as antigas.

A começar pela faixa-título, que já nasce clássica. “Wave”, uma das mais conhecidas e celebradas canções brasileiras, abre o disco em seu primeiro e primoroso registro, dois anos antes de receber do próprio Tom a linda letra que a identificaria – e a qual, mesmo ouvindo somente os sons, é impossível não cantarolar ao escutá-la: “Vou te contar/ Os olhos já não podem ver/ Coisas que só o coração pode entender/ Fundamental é mesmo o amor/ É impossível ser feliz sozinho...”. Instrumental como praticamente todo o disco, mostra a beleza e o refinamento da orquestração do maestro alemão Claus Ogerman (que assina os arranjos), em sua terceira parceria com o colega brasileiro.

 Elegante, o disco resgata o legado da bossa nova, porém, sempre lhe trazendo algo a mais. Em “The Red Blouse” e “Mojave” (minha preferida), principalmente, nota-se a força da influência do primordial violão sincopado e dissonante de João Gilberto, tocado pelo próprio Tom – que ainda opera piano e cravo no disco. Vinicius, o outro protagonista da bossa nova, também se faz presente indiretamente na letra da única cantada do álbum: “Lamento”. Nova versão para “Lamento no Morro”, interpretada por Roberto Paiva na trilha da peça “Orfeu da Conceição”, que Tom compusera com Vinícius em 1956 –, é mais uma vez resultado do avanço proposto por Tom. Mesmo meses depois de gravar com a maior referência em voz da época, ele não se intimidou e pôs-se a fazer algo que não lhe era tão comum até então: cantar. Insatisfeito com sua primeira experiência vocal, no LP anterior, “The Wonderful World of Antonio Carlos Jobim” (1965), o maestro, ora veja!, voltou a estudar canto e respiração. O empenho resultou numa peça majestosa, que virou um marco da segunda fase da bossa nova. O lindo solo de trompete é um exemplo disso, uma vez que, pincelando-a com uma elegância toda jazzística, renova uma canção arranjada, em virtude do tema da peça original, como um samba de morro.

Há ainda “Dialogo”, um belo samba-canção em que o trompete e a trompa dizem notas sofridas um para o outro; “Look at the Sly” (regravação para “Olhe o Céu”), de perfeita harmonização entre orquestra e instrumentos solo; “Triste”, que, assim como a faixa-título, estreia aqui e viraria um clássico posteriormente – ainda mais na gravação de Elis Regina com o próprio compositor, sete anos depois; e “Batidinha”, um samba com os ares da Copacabana dos anos 50 fortes o suficiente para soprarem e serem sentidos na cosmopolita Big Apple. O disco termina alegre com a colorida “Captain Bacardi”, onde Tom aproxima Brasil, Cuba e Estados Unidos com leveza e sabedoria.

“Wave” é, por várias razões, um trabalho de homenagem à bossa nova mas, acima de tudo, um passo adiante na trajetória de seu autor e da música brasileira. Um disco que soube manter nova a bossa. Se Tom Jobim ainda sofria com a crítica dos detratores por fazer um samba sem personalidade e para estrangeiro ver, “Wave” se impõe com seu altíssimo refinamento e apuro, forjando uma obra tão homogênea que é impossível classifica-lo só como bossa nova, samba, jazz ou (termo que seria inventado tempo depois) world music. É, simplesmente, música, música sem fronteiras, daquelas que não perdem a validade e que poderia, se Tom estivesse vivo, ter sido gravada ontem sem se sentir a diferença de épocas. Ao mesmo tempo universal e fincada em suas raízes. Algo que só mesmo quem carrega “brasileiro” no nome poderia realizar, fosse no Brasil ou em qualquer parte do mundo.
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Os versos iniciais de “Wave”, contou Tom Jobim certa vez, surgiram de duas fontes: a primeira frase é de autoria de ninguém menos que Chico Buarque, a quem Tom entregara a música para que o amigo inventasse a letra. Porém, bloqueado, Chico não consegui passar do verso: “Vou te contar”. Cansado de esperar pelo parceiro, sobrou, então, o restante ao próprio Tom escrever, o qual se inspirou num texto do escritor infanto-juvenil francês Antoine de Saint-Exupéry extraído do clássico “O Pequeno Príncipe”, obra a qual Tom havia musicado em 1957 para a interpretação do ator e diretor teatral Paulo Autran.
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FAIXAS:
1. "Wave" - 2:51
2. "The Red Blouse" - 5:03
3. "Look To The Sky" - 2:17
4. "Batidinha" - 3:13
5. "Triste" - 2:04
6. "Mojave" - 2:21
7. "Diálogo" - 2:50
8. "Lamento" (Vinicius de Moraes/Tom Jobim) - 2:42
9. "Antígua" - 3:07
10. "Captain Bacardi" - 4:29

todas de Tom Jobim, exceto indicada
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Ouça:





quarta-feira, 19 de junho de 2013

cotidianas #231 - Olhos Fechados Abertos


"Olho na Boca" - RODRIGUES, Daniel
grafite sobre sulfite com manipulação digital (15,5x13cm)

 
Talvez a vida seja mais importante quando estamos de olhos fechados. Para bem e para mal. Talvez, se formos contar todos os milésimos e até segundos de piscadelas, as horas de sono e as fechadas de olho involuntárias que praticamos durante um dia inteiro, perceberemos que passamos a maior parte do tempo de olhos fechados do que abertos. Esse simples ato serve para situações tão díspares: surpresa, frustração, dor, insegurança, incredibilidade, resignação, esquecimento, choro, conquista, derrota, tristeza, cansaço, concentração. Oramos assim. Saboreamos um prato gostoso assim. Paqueramos assim, fechando um olho e deixando o outro aberto. Talvez passemos, sim, mais tempo da vida de olhos fechados do que abertos se formos ver (ver?). Quando nascemos, intercalando com os momentos de mama, dormimos quase todo o tempo, mas, diz-se que, antes disso, na barriga, passamos ali um bom tempo só de olhos fechados (fora que deve ser de um escuro tão cândido que é quase como o de não abrir os olhos).
De modo a reter as sensações, daquelas importantes, fechamos os olhos. Ouve-se música desse jeito. Quantas vezes já não o fiz, e sempre repito, ao escutar o verso: “I’m So Sorry” de Morrissey em “Suedehead”, ou o primeiro pronunciar de Lennon em “Dear Prudence”. Até em filmes, em que se supõe manter-se permanentemente de olhos abertos, há momentos em que, inevitavelmente, os fechamos, tamanha a surpresa que nos acomete. É-me assim na cena d’”A Fonte da Donzela”, do Bergman, quando ela bate com a cabeça no chão e começa a fluir a água – para ficar em apenas um exemplo do arrebatamento que nos provoca o cinema, esse exercício lúdico de luz e escuro.
Cantamos, todos, fechando os olhos. Sinatra, João, Cathy, Ibraim, Ramil, Cobain, Cássia, Elis, Ella. Isso parece que nos faz sentir melhor os sons que emitimos, não sei porque. Também dançamos, invariavelmente, desse modo: selando as vistas. Seja sozinho, no meio da pista ou em qualquer lugar, naquele ritualismo extasiante, ou acompanhado, juntinho, sentindo um corpo no outro. Para isso, fechar os olhos é fundamental, nem que seja para poder abri-los alegres depois.
E quando algo é sério, é fato: os cerramos, como para um gol feito desperdiçado ou um gol adversário na hora mais indevida do jogo. Beijamos, quando amamos, de olhos fechados. Às vezes, por longos minutos, sem abri-los. Semicerrados, talvez, mas, de forma prática, fechados. No êxtase, apertamos bem forte os olhos naquele prazer intenso. Gozo não é gozo de olho aberto! Com tesão, antes do gozo, é aquele fechar e abrir devagar, câmera lenta, curtindo a sensação que te absorve.
Olhar, portanto, torna-se a raridade, o menos comum. Por que não gastar, então, esses lapsos do tempo, entre uma piscada e outra, para enxergar? Tem o sol, o raio do sol, o verde da grama, o vermelho do sangue, o movimento das gentes, os filmes bons e ruins, os telhados, as letras dos livros, o traço do pintor, as bobagens coloridas da tevê, os bichos, o rosto de quem se ama. O céu. Tanta coisa... Ver tudo que é visível ou nem tanto. Ver o invisível. Digo-lhes: dá.
Pois, por vários motivos que não só esses (talvez precise me concentrar, achando o que quero na escuridão, para lembrar-me de mais), creio que a vida toda seja mais importante quando estamos de olhos fechados. Refleti sobre isso ontem quando, de olhos fechados, fui beijado sobre minha pálpebra, num beijo dado de olho fechado em um olho fechado, o meu. Meu globo ocular, faceiro de tanta emoção, agitava-se por debaixo daquele beijo. Acho que os olhos têm um canal direto com o coração (há de se estudar mais nossa anatomia).
Tomo-me de paz ao pensar que esta pessoa que me beija tão solenemente de olho fechado em meu olho fechado acompanhará todos os momentos de olhos abertos (e fechados) da minha vida até o fim dela, quando, enfim, os fecharei para sempre. A morte, penso, calando neste instante os olhos levemente, é a confirmação de que, por todo o tempo anterior a esta, recebemos luz. Mas que, no agora de quando for, simplesmente, não mais. Escuro. A morte, essa não-luz, talvez seja, por isso, a síntese.
Talvez os cegos sejam os verdadeiros abençoados por Deus. Talvez.
Meu último fechar de olhos, quando silenciá-los de vez, quero, por isso tudo, seja com ela, absorvido na beleza do escuro que sempre me acompanhou.


Pix


domingo, 16 de junho de 2013

Kraftwerk - "Computer World" (1981)



"Computar é a maior diversão"


Sim, definitivamente eles são homens do futuro! Eles voltaram do futuro e caíram no século XX, quando os computadores ainda eram equipamentos complexos, possuídos apenas de grandes empresas ou de poucos privilegiados, alguns de porte gigantesco, elemento do imaginário de ficções científicas, para nos contar que este mesmo mundo estaria interligado por estes aparelhos, em rede, que estaríamos todos vigiados sem privacidade, que seríamos todos catalogados e reconhecidos apenas por números, que alguns tantos amariam estas máquinas  como se fossem pessoas, que o maior prazer de muitos seria ficar diante de uma tela e que teríamos aparelhos portáteis que nos tornariam praticamente... robóticos.
Loucura?
Podia parecer.
Mas não se cumpriu?
(Só não somos, exatamente, 'operadores' de calculadoras portáteis, mas sim de mini-computadores de mão multifuncionais, o que no espírito da coisa, da praticamente na mesma)
Sim, por meio de um disco, “Computer World” de 1981, os robôs do Kraftwerk antecipavam tudo isso. Depois de terem anunciado a tecnologia da comunicação, a mecanização da sociedade, a intensificação do trânsito nas grandes cidades, eles então nos diziam que o mundo seria dominado pelos computadores. Sim, sem dúvida eles vieram do futuro. Sempre achei que não eram humanos, mesmo.
E as músicas? Ah... Sinfonias modernas com a cara dos novos tempos. Minimalismo, detalhe, construção, ousadia, genialidade. De um brilhantismo e uma leitura atualíssima ainda hoje, em pleno século XXI. Bom, talvez porque ainda não tenhamos chegado ao tempo em que elas foram produzidas.

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FAIXAS:
1. Computer World
2. Pocket Calculator
3. Numbers
4. Computer World ..2
5. Computer Love
6. Home Computer
7. It’s More Fun to Compute


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Ouvir:
Kraftwerk Computer World


Cly Reis

sábado, 15 de junho de 2013

cotidianas #230 - The Times

Sentou-se bêbado à mesa e escreveu um fundo
Do Times, claro, inclassificável, lido,
Supondo (coitado!) que ia ter influência no mundo...

Santo Deus!... E talvez a tenha tido!


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"The Times"
Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa)

Cena do crime do assassinato de um alienígena








Cly Reis

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Morrissey volta ao Brasil


Fui informado ontem, pelo meu amigo e colega de blog, José Júnior, do retorno de Morrissey ao Brasil para nova série de shows.
Puxa...
Acho que vou ser obrigado a fazer um tricampeonato. Vou ver o ex-vocalista do The Smiths pela terceira vez.
Em princípio, estão programadas três datas no país, uma delas aqui no Rio de Janeiro, no dia 04 de agosto. As outras devem ser 30 de julho em São Paulo e 02 de agosto em Brasília.
Os valores para Rio e SP já foram divulgados, inclusive, e os fãs podem começar a sacar suas carteiras, pendurar no cartão de crédito ou quebrar os porquinhos.
Vamos lá, então?
(Júnior, providencia a caixa de lencinhos de papel, porque da última vez, contigo, eu vi o show todo embaçado)

Seguem abaixo os preços dos ingressos, sendo que clientes Citibank, Credicard e Diners têm prioridade para uma pré-venda, no site da Tickets for Fun, de 14 e 20 de junho:




São Paulo - 30 de julho - Credicard Hall
- R$ 100 (plateia superior com visão parcial)
- R$ 140 (plateia superior III)
- R$ 160 (plateia superior II)
- R$ 180 (plateia superior I)
- R$ 220 (pista)
- R$ 450 (pista premium e camarote II)
- R$ 520 (camarote I)


Rio de Janeiro - 4 de agosto - Citibank Hall- R$ 200 (pista)
- R$ 350 (poltrona)
- R$ 420 (pista premium)
- R$ 500 (camarote)


*os preços dos ingressos para Brasília ainda não foram informados.


Plebe Rude - "O Concreto Já Rachou" (1985)



"O Concreto Já Rachou"
da letra de "Brasília"



Eles eram uma espécie de primo-pobre das bandas de Brasília. Uma espécie de patinho-feio. Enquanto a Legião Urbana arrebatava multidões de fiéis e o Capital Inicial , com um pop bem feito agradava em cheio ao grande público, a Plebe Rude com seu estilo mais cru, letras diretas e contundentes, até fazia seu sucesso também, mas nunca a ponto de alcançar a dimensão dos outros dois conterrâneos. Talvez por terem sido a menos concessiva no que diz respeito às suas raízes punk. Embora a Legião preservasse elementos de punk rock em seu repertório e o Capital s trabalhasse de maneira mais acessível no seu repertório, a Plebe Rude era que se mantinha mais fiel ao estilo e à atitude com um discurso mais enérgico e uma postura mais coerente.
Em seu EP de estreia, "O Concreto Já Rachou", de 1985, com apenas 7 músicas, a Plebe atacava as gravadoras, as autoridades, a TV, o sistema de uma maneira geral, com letras inteligentes, mas um tanto toscas, sem a brilhatura de um Renato Russo, por exemplo, o que fazia toda a diferença não só para a própria banda que o cantor integrava, como para o Capital Inicial que se impulsionou muito a partir de algumas delas como "Fátima" e "Música Urbana".
Mas a Plebe Rude não apenas se ressentia um elemento carismático, aglutinador, como ainda apresentava dois vocalistas (Philippe Seabra e Jander Bilafra) que se alternavam no microfone e, por vezes, como na excelente "Brasília", dividiam mesmo, simultaneamente a função principal. Nesta ótima faixa, sem cair na mesmice de falar de políticos, falcatruas, leis absurdas, etc., com sua letra dupla interpretada brilhantemente pelos dois, expunham toda a sujeira que a cidade estava (e está) mergulhada sob os olhos incapazes, conformados, perplexos e/ou covardes de seus habitantes e, mais amplamente, da população do país. A frase título do disco, presente na música sentenciava: o sonho da cidade ideal havia ruído e Brasília era um mar de lama. Punk direto e certeiro!
Mas dizer que a banda foi punk à risca em "O Concreto Já Rachou" seria um exagero. É lógico que, como a grande maioria dos artistas que assinou com gravadoras grandes naquela metade dos anos 80 teve que ceder um pouquinho aqui ou ali, mas parece que as cessões que a Plebe fez não foram o suficiente para subverter o cerne de seu som. É o caso de "Até Quando Esperar", por exemplo, que alcançou com bom destaque as paradas de sucesso, na qual até aceitam incluir o excepcional violoncelista Jaques Morelenbaum ao seu punk rock, à sua letra crítica e desesperançosa, sem contudo, com isso, perder a agressividade e a contundência do coração da canção, agregando ainda um certo acento solene proporcionado pelo grave do violoncelo. Ou também em "Sexo e Karatê", na qual mesmo com a participação de Fernanda Abreu suavizando o ritmo frenético, e com uma letra divertida de encontros e desencontros telefônicos, além de abordar a solidão, deixa transparecer ainda uma crítica à programação das emissoras, em especial à eterna inimiga pública, a Rede Globo de Televisão.
Mas se topavam estas pequenas 'adaptações' ao sistema, provavelmente sugeridas pelo produtor, Herbert Vianna, não por isso deixavam de criticar a indústria musical e todos seus meios para roubar a identidade dos artistas em nome do dinheiro, como na incisiva "Minha Renda", onde mencionam exatamente recursos como estas suavizações ("um lá menor aqui e um coralzinho de fundo / minha letra é muito forte? se eu quiser eu a mudo"); as imposições das gravadoras ("você é um músico não é um revolucionário / faça o que eu te digo que eu te faço um milionário"); respingando até mesmo no próprio produtor em trecho cantado pelo próprio vocalista dos Paralamas do Sucesso ("já sei o que fazer pra ganhar muita grana / vou mudar meu nome para Herbert Vianna").
"Proteção", outra das que teve boa execução nas rádios, talvez seja uma das mais fortes do disco, atacando em especial às autoridades, o exército, o fantasma da ditadura e o resto de censura que ainda perdurava com força naquela metade dos anos 80. Destaque para o vocal de Jander Bilafra, marcante, soturna e sinistra, repetindo quase o tempo todo, na segunda voz, o verso "para sua proteção", conferindo uma certa mecanicidade e uma espécie de sensação de presença vigiada sugerida pela letra.
Destaque ainda para a boa "Seu Jogo", sobre vidas vazias, com uns metaizinhos bem dispensáveis; e para "Johnny Vai à Guerra" sobre a inocência perdida por jovens em batalhas militares sem sentido.
 Um dos melhores álbuns daquela geração brazuca dos anos 80, e com certeza um dos pilares da santíssima trindade do rock brasiliense juntamente com o "Dois" do Legião Urbana e o álbum homônimo do Capital Inicial, "O Concreto Já Rachou" tem assegurado seu lugar de destaque na galeria dos grandes álbuns nacionais de todos os tempos. Depois daquilo os palácios , os ministérios, as obras de Niemeyer nunca mias teriam conserto. O estrago já estava feito. O concreto havia sido irremediavelmente danificado e a Plebe Rude havia colocado seu nome na história da música brasileira.

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FAIXAS:
1. Até Quando Esperar
2. Proteção
3. Johnny Vai à Guerra (Outra Vez)
4. Minha Renda
5. Sexo e Karatê
6. Seu Jogo
7. Brasília

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Ouvir:
Plebe Rude O Concreto Já Rachou




Cly Reis

quarta-feira, 12 de junho de 2013

cotidianas #229 - Especial Dia dos Namorados



"Amar!
Render-se absolutamente,
prostrar-se diante da divina imagem
morrer mil mortes imaginárias,
aniquilar todo traço do ego,
achar todo o universo corporificado
e entesourado na imagem viva de outra pessoa!
Adolescência, dizemos.
Besteira!
Este é o germe da vida futura, a semente que escondemos bem no fundo de nós,
que abafamos e sufocamos e fazemos
tudo para destruir,
à medida que avançamos de uma experiência
para a outra
e nos confundimos, nos atrapalhamos
e perdemos nosso caminho."

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Henry Miller