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segunda-feira, 24 de junho de 2013

14 Video Portraits by Robert Wilson








“Vídeo, cinema e fotografia são oferecidos como documentos de desempenho, mas raramente se aproximam da experiência tridimensional, o soa como eles irradiam através do teatro, iluminação, uma vez que envolve um lado, a antecipação da audiência, o gesto sutil do ator individual”

 Noah Khoshbin & Matthew Shattuck. 





“Se ele se move, eles vão vê-lo” 
Andy Warhol. 





“A carreira de Robert Wilson tem a assinatura de uma grande criação artística”
Susan Sontag.


O Santander Cultural realizou em 2010 a Mostra Robert Wilson – Video Portraits numa parceria antenada com as redes sociais e novas tecnologias durante a 17º edição do Porto Alegre em Cena na cidade de Porto Alegre. Em todo o espaço expositivo via-se os 14 vídeo-retratos produzidos pelo artista norte-americano em alta definição no suporte de telas de 1,5m de altura. Wilson está entre o teatro e as artes visuais de vanguarda, sendo um multiartista conhecido também por suas técnicas de iluminação e cenários no teatro americano.

Os vídeo-retratos apresentados nessa Mostra reuniam atores, artistas, dançarinos, escritores, atletas, pessoas de todas as origens, e animais que refletem a amplitude da carreira de Wilson. Entre eles figuravam: o chinês Zhang Huan, o escritor Gao Xingjian, os atores Brad Pitt e Steve Buscemi, Alan Cumming e Winona Ryder, Ditta von Teese, Jeanne Moreau e Johnny Depp entre outros. Produzidos a partir de uma parceria entre Robert Wilson e as câmeras Voom HD Networks uma empresa de TV onde Robert foi artista residente a partir de 2004. Os Vídeo-Portraits são retratos de celebridades e anônimos caracterizados por um formato que vai além da fotografia, inclui cinema e teatro, literatura e música de múltiplas dinâmicas reveladas no retrato do vídeo. As criações de Wilson apresentam uma linguagem de movimentos mínimos, gestos sutis e coreografados, somados a arranjos cenográficos sofisticados, aqui as trilhas musicais e as palavras também tem força. Aliás a ligação de Wilson partindo inspiradamente do ambiente cenográfico com a música vem desde 1976 quando apresenta o trabalho com seu parceiro Philip Glass "Einstein on the Beach".

Para estes vídeo-retratos a música torna-se parte integrante da peça, em vez de apenas uma ilustração auditivo de um tema visual. Executando a gama de gravações de campo às pontuações do jogo de vídeo, desde o clássico ao blues, ao rock ao punk dos retratos de vídeo contêm uma lição na abordagem contemporânea de apropriar-se de toda a história das gravações sonoras. Alguns críticos que abordaram as obras chegaram a questionar se Wilson está sinalizando com essas gravações sonoras um caminho da música do futuro. Será?
A impressão que temos é que o artista transporta para a tela em HD o seu velho conhecido – o palco. Nele faz todas as intervenções e correlações possíveis. A fotografia se dá pela quase imobilidade dos personagens que se congelam e se movimentam num tempo nem sempre real, brincando assim com a observação do espectador e com a sua própria noção de tempos.

Um das obras que mais gostei é a que apresenta o escritor Gao Xingjian (Prêmio Nobel da Literatura 2000 vive na França e em 1997 tornou-se cidadão francês - é também tradutor da obra de Samuel Beckett e Eugène Ionesco, além disso é roteirista, diretor de teatro e pintor). O vídeo-retrato com seu nome está datado no ano de 2005 e tem música de Peter Cerone “Never Doubt I Love, Desert”. A música pontua o tempo que a escrita percorre pelo rosto de Gao. E sugere as relações estabelecidas entre um lugar onde a solidão é uma situação permanente e um estado emocional onde o deserto pode confirmar ou negar de maneira provocativa uma afirmação duvidosa. Nesta obra o que se move quase todo o tempo é a escrita e o personagem serve de meio para recebê-la. A face do escritor recebe a frase “La solitude est une condition nécessaire de la liberte” escrita em letra manuscrita no idioma francês. Aos poucos ela se forma cruzando o rosto do escritor e tão logo está escrita começa a desaparecer culminando com a abertura dos olhos dele ainda sob a pontuação da música. 

Um texto tão carregado de emoção precisa de tempo para ser absorvido. A frase evoca reflexões. O tempo da escrita coincide com o tempo real de leitura da frase, mas não com o que a frase diz. Qual tempo de solidão é necessário para que se escreva tal reflexão? Ainda – esta frase faz parte de algum livro do escritor ou é uma frase universalmente conhecida? Será que a intenção de Wilson é fazer com que o espectador perceba que escrever é um trabalho interno profundo? E que esse mergulho na construção do texto, faz parte do processo de criação sobre o que se coloca de fato no papel?

Outro aspecto que me chamou atenção é que essa mesma obra foi exposta em Museus com diferentes suportes o que legitima o diálogo entre o meio digital e os espaços expositivos sejam eles de vanguarda ou tradicionais, sendo esse um fator que se relaciona a proposta de trabalho de Wilson que interliga novamente áreas aparentemente incompatíveis. 

Os vídeos-retratos foram exibidos em Los Angeles, Berlim, Áustria, Itália, Espanha, Rússia, EUA, Singapura, Alemanha e em New York em plena Times Square. Fico imaginando o impacto destes retratos numa avenida que é conhecida por um fluxo de imagens, cores e agitação constantes. As obras de Wilson são coloridas, contrastadas e com uma definição incrível, totalmente conectadas ao universo pixelado e frenético da Times Square que guarda para si uma profusão de anúncios publicitários, divulgação de espetáculos e reúne os mais refinados investidores mundiais. O que diria Warhol , um dos pais e Mestre destas relações entre comunicação e Arte sobre, por exemplo, a imobilidade da pantera negra que Robert expõe nesta Mostra? “Se ele se move, eles vão vê-lo", diz Andy. E quando ele se moverá? Se isso acontecer a que momento poderemos capturar esse gesto? Eis que o desafio está lançado: perceba e questione seu corpo em reação a estas obras, teste sua paciência em esperar por um movimento e transporte-se a figura do leitor de Arte, em frente a contemporaneidade explícita de Wilson independente de qual personagem ou cidadão esteja retratado na sua frente. Participe desse espetáculo e perceba o quanto você faz parte disso tudo.
Gao Xingjian: assista ao vídeo-retrato





Pix



sábado, 22 de junho de 2013

Cyber Insekt










"Cyber Insekt" - REIS, Cly
concreto armado revestido de tinta acrílica e verniz




REIS, Cly

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Coluna dEle #32



Milhares de anjos, santos, almas, espíritos, etc., reuniram-se em
manifestação por melhores condições de pós-vida.
E aí, filharada?
Como é que estão as coisas por aí?

O bicho tá pegando?
Pelo que Eu tenho visto as coisas estão pegando fogo (literalmente) aí no Brasil.
E não é por causa da tal do Neymar, da Espanha ou da copa-teste da FIFA.
Ao que parece vocês aí embaixo 'tão furibundos da vida, mesmo, hein!

Tem razão, tem razão, Eu no lugar de vocês também estaria puto.
Há tempos que estão fazendo vocês de palhaços mas parecia que ninguém reagia.
Não adiantava só ficar Me pedindo, Me pedindo. Tinha que agir.
Tá certo, tá certo.

Só não precisa quebrar tudo, mas de resto, tá certo.
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O problema é que a manifestação de vocês inspirou o pessoal daqui, e agora, aqui em cima não tem mais santo nem anjinho. Isso aqui virou um inferno!
'Tão alegando que eu tô a tempo demais no poder, querem santuários padrão Vaticano, tem santo desconhecido querendo que seu dia seja feriado, purgatório de primeiro mundo. Ah... Não aguento mais!
Esses santos-do-pau-oco arrancaram os portões do céu, queimaram o Livro da Vida, tão despedaçando as nuvens, depredando as estrelas, tentaram até invadir Meu palácio do governo e tudo mais.
Ah, não! Aí tive que recorrer à força. Convoquei a Guarda-Celestial.
Botei os tanques na rua e mandei baixar a porrada nos baderneiros.
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Aí ouvi dizer na TV daqui que estamos de volta à 'Era das Trevas', que era melhor no tempo do Coisa-Ruim, que repressão é ditadura. Ah, véi, ... só tô defendendo o Meu trono.
E de mais a mais, esses que tão falando não fazem nem ideia do que era na época do Capeta.
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Tem até campanha no Faithbook pra fazer convocação:
"Vem pra Lua!".
É, eles se concentram ali, no satélite, depois vêm em marcha universo afora. Só que aí vem deixando um rastro de destruição. 
E cada dia tem mais almas nas manifestações. Impressionante! 
Esses anjinhos não trabalham, não?
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E pensar que tudo isso começou só porque eu quis aumentar em 20 dinheiros o imposto eternidade.
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Pior que até o Filhão resolveu ir nas passeatas.
Botou uma daquelas máscaras esquisitas, do cara de sorrio largo e bigodinho fino, escreveu um cartaz com hidrocor e foi fazer arruaça.
Já avisei que essas coisas de abraçar causa não deram muito certo pra ele em outro momento.
Vai chegar uma hora que vão querer tirar ele pra Cristo, e aí... já viu.
Vão querer crucificar alguém.
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Pior que isso é que hackearam o site oficial daqui, o Mundo.org, pra escrever umas besteiras, tipo:
"#TuPensaQÉDeus,PorAcaso?", "Não é por 20 dinheiros, é pela fila da reencarnação", "#IssoAquiTáLongeDeSerUmParaíso", "Tem dinheiro pro Papa mas não tem pra reformar a escadaria do céu".
Aí, no meio dessas baboseiras eu li "#OGiganteAcordou". Puxa, fiquei todo animado. Aí olhei pra dentro da calça e o gigante continuava lá dormindo, como em todos esses últimos anos.
Putz...
Alarme falso.
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Sei que a situação está ficando insustentável.
Vou ter que tomar alguma atitude enérgica. 
Das duas uma: ou Eu largo o barco e deixo pra eles governarem (se conseguirem); ou eu garanto o Meu lado, mando fechar o FaithBook, boto os chamo os Cavaleiros do Apocalipse, mando dispersar essa porra toda.
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Mas ainda vou avaliar as reivindicações.
Ãhnn??? O que??? Não tem reivindicações claras?
Aí fica difícil de negociar.
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Reivindicações, manifestos, xingamentos, hashtags, pedidos, súplicas, orações para;

O Frango Atirador


quinta-feira, 20 de junho de 2013

Antonio Carlos Jobim - "Wave" (1967)


Acima, a capa original
seguida da capa da reedição.
“O essencial é invisível aos olhos
 e só pode ser percebido
com o coração.”
Antoine de Saint-Exupéry


O ano de 1967 carrega uma aura mítica para a música moderna, pois marcou incisivamente a vida e a obra de artistas importantes e, consequentemente, da música em geral. Na Inglaterra, os Beatles mandam às favas o Iê-Iê-Iê e ousam dar um passo adiante com o lançamento de "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", mudando para sempre a rota da música pop. Com semelhante peso, mas nos Estados Unidos, o The Velvet Underground, sob a batuta de Andy Warhol, surpreenderia o mundo com um LP de estreia onde casam rock, poesia, psicodelia, contracultura e vanguarda. Aqui no Brasil, também ventos de revolução: Gilberto GilCaetano VelosoMutantes e cia. lançam “Tropicália”, disco-manifesto do movimento tropicalista, que influenciaria todas as gerações seguintes de “emepebistas” e roqueiros brazucas e estrangeiros. Isso para ficar em apenas três exemplos.

Porém, 1967 também selaria a carreira de outro artista, experiente e já consolidado desde os anos 50: o maestro e compositor Antonio Carlos Jobim. Depois da exitosa estreia solo no mercado fonográfico norte-americano quatro anos antes, Tom havia antes disso ajudado a difundir para o mundo a já consagrada bossa nova. Para completar, ainda realiza, no início daquele mesmo ano, um feito jamais alcançado por um músico latino até então: gravar com o maior cantor popular de todos os tempos, Frank Sinatra. O disco “Francis Albert Sinatra and Antonio Carlos Jobim”, um sucesso de vendas, é tão definitivo que decreta, aliado ao desencanto de uma Rio de Janeiro que passou de paradisíaca a ditatorial com o Golpe de 64, além da força dos festivais, popularescos demais para a sofisticação da bossa nova, o fim da chamada primeira fase deste estilo. Então, para que caminho ir agora? Render-se ao poderio yankee e seguir produzindo uma música “made in USA” ou voltar para um Brasil linha-dura e atrasado tecnicamente simplesmente para não fugir às raízes?

O que para alguém menos preparado seria uma encruzilhada, para o “maestro soberano” foi resolvido de forma leve como uma onda que quebra mansa na praia. Ao invés de criar um paradoxo, Tom criou “Wave”, álbum gravado em apenas três dias do mês de julho daquele fatídico 1967 no célebre estúdio Rudy Van Gelder, em Nova York (uma antiga igreja adaptada cuja elogiada acústica presenciou sessões memoráveis do jazz, como "Night Dreamer"  de Wayne Shorter  e “Maiden Voyage”, de Herbie Hancock). Nele, se vê um artista inteiro e num momento de alta criatividade. Valendo-se de toda a técnica disponível somente naquele país até então, além de contar participações mais do que especiais – como a do mestre Ron Carter deixando sua assinatura faixa por faixa com seu baixo acústico, ou da fineza do spalla da Orquestra Filarmômica de Nova York, Bernard Eichen –, Tom apura ainda mais a sofisticação harmônica e melódica da bossa nova, seja nas composições inéditas ou nos novos arranjos para as antigas.

A começar pela faixa-título, que já nasce clássica. “Wave”, uma das mais conhecidas e celebradas canções brasileiras, abre o disco em seu primeiro e primoroso registro, dois anos antes de receber do próprio Tom a linda letra que a identificaria – e a qual, mesmo ouvindo somente os sons, é impossível não cantarolar ao escutá-la: “Vou te contar/ Os olhos já não podem ver/ Coisas que só o coração pode entender/ Fundamental é mesmo o amor/ É impossível ser feliz sozinho...”. Instrumental como praticamente todo o disco, mostra a beleza e o refinamento da orquestração do maestro alemão Claus Ogerman (que assina os arranjos), em sua terceira parceria com o colega brasileiro.

 Elegante, o disco resgata o legado da bossa nova, porém, sempre lhe trazendo algo a mais. Em “The Red Blouse” e “Mojave” (minha preferida), principalmente, nota-se a força da influência do primordial violão sincopado e dissonante de João Gilberto, tocado pelo próprio Tom – que ainda opera piano e cravo no disco. Vinicius, o outro protagonista da bossa nova, também se faz presente indiretamente na letra da única cantada do álbum: “Lamento”. Nova versão para “Lamento no Morro”, interpretada por Roberto Paiva na trilha da peça “Orfeu da Conceição”, que Tom compusera com Vinícius em 1956 –, é mais uma vez resultado do avanço proposto por Tom. Mesmo meses depois de gravar com a maior referência em voz da época, ele não se intimidou e pôs-se a fazer algo que não lhe era tão comum até então: cantar. Insatisfeito com sua primeira experiência vocal, no LP anterior, “The Wonderful World of Antonio Carlos Jobim” (1965), o maestro, ora veja!, voltou a estudar canto e respiração. O empenho resultou numa peça majestosa, que virou um marco da segunda fase da bossa nova. O lindo solo de trompete é um exemplo disso, uma vez que, pincelando-a com uma elegância toda jazzística, renova uma canção arranjada, em virtude do tema da peça original, como um samba de morro.

Há ainda “Dialogo”, um belo samba-canção em que o trompete e a trompa dizem notas sofridas um para o outro; “Look at the Sly” (regravação para “Olhe o Céu”), de perfeita harmonização entre orquestra e instrumentos solo; “Triste”, que, assim como a faixa-título, estreia aqui e viraria um clássico posteriormente – ainda mais na gravação de Elis Regina com o próprio compositor, sete anos depois; e “Batidinha”, um samba com os ares da Copacabana dos anos 50 fortes o suficiente para soprarem e serem sentidos na cosmopolita Big Apple. O disco termina alegre com a colorida “Captain Bacardi”, onde Tom aproxima Brasil, Cuba e Estados Unidos com leveza e sabedoria.

“Wave” é, por várias razões, um trabalho de homenagem à bossa nova mas, acima de tudo, um passo adiante na trajetória de seu autor e da música brasileira. Um disco que soube manter nova a bossa. Se Tom Jobim ainda sofria com a crítica dos detratores por fazer um samba sem personalidade e para estrangeiro ver, “Wave” se impõe com seu altíssimo refinamento e apuro, forjando uma obra tão homogênea que é impossível classifica-lo só como bossa nova, samba, jazz ou (termo que seria inventado tempo depois) world music. É, simplesmente, música, música sem fronteiras, daquelas que não perdem a validade e que poderia, se Tom estivesse vivo, ter sido gravada ontem sem se sentir a diferença de épocas. Ao mesmo tempo universal e fincada em suas raízes. Algo que só mesmo quem carrega “brasileiro” no nome poderia realizar, fosse no Brasil ou em qualquer parte do mundo.
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Os versos iniciais de “Wave”, contou Tom Jobim certa vez, surgiram de duas fontes: a primeira frase é de autoria de ninguém menos que Chico Buarque, a quem Tom entregara a música para que o amigo inventasse a letra. Porém, bloqueado, Chico não consegui passar do verso: “Vou te contar”. Cansado de esperar pelo parceiro, sobrou, então, o restante ao próprio Tom escrever, o qual se inspirou num texto do escritor infanto-juvenil francês Antoine de Saint-Exupéry extraído do clássico “O Pequeno Príncipe”, obra a qual Tom havia musicado em 1957 para a interpretação do ator e diretor teatral Paulo Autran.
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FAIXAS:
1. "Wave" - 2:51
2. "The Red Blouse" - 5:03
3. "Look To The Sky" - 2:17
4. "Batidinha" - 3:13
5. "Triste" - 2:04
6. "Mojave" - 2:21
7. "Diálogo" - 2:50
8. "Lamento" (Vinicius de Moraes/Tom Jobim) - 2:42
9. "Antígua" - 3:07
10. "Captain Bacardi" - 4:29

todas de Tom Jobim, exceto indicada
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Ouça:





quarta-feira, 19 de junho de 2013

cotidianas #231 - Olhos Fechados Abertos


"Olho na Boca" - RODRIGUES, Daniel
grafite sobre sulfite com manipulação digital (15,5x13cm)

 
Talvez a vida seja mais importante quando estamos de olhos fechados. Para bem e para mal. Talvez, se formos contar todos os milésimos e até segundos de piscadelas, as horas de sono e as fechadas de olho involuntárias que praticamos durante um dia inteiro, perceberemos que passamos a maior parte do tempo de olhos fechados do que abertos. Esse simples ato serve para situações tão díspares: surpresa, frustração, dor, insegurança, incredibilidade, resignação, esquecimento, choro, conquista, derrota, tristeza, cansaço, concentração. Oramos assim. Saboreamos um prato gostoso assim. Paqueramos assim, fechando um olho e deixando o outro aberto. Talvez passemos, sim, mais tempo da vida de olhos fechados do que abertos se formos ver (ver?). Quando nascemos, intercalando com os momentos de mama, dormimos quase todo o tempo, mas, diz-se que, antes disso, na barriga, passamos ali um bom tempo só de olhos fechados (fora que deve ser de um escuro tão cândido que é quase como o de não abrir os olhos).
De modo a reter as sensações, daquelas importantes, fechamos os olhos. Ouve-se música desse jeito. Quantas vezes já não o fiz, e sempre repito, ao escutar o verso: “I’m So Sorry” de Morrissey em “Suedehead”, ou o primeiro pronunciar de Lennon em “Dear Prudence”. Até em filmes, em que se supõe manter-se permanentemente de olhos abertos, há momentos em que, inevitavelmente, os fechamos, tamanha a surpresa que nos acomete. É-me assim na cena d’”A Fonte da Donzela”, do Bergman, quando ela bate com a cabeça no chão e começa a fluir a água – para ficar em apenas um exemplo do arrebatamento que nos provoca o cinema, esse exercício lúdico de luz e escuro.
Cantamos, todos, fechando os olhos. Sinatra, João, Cathy, Ibraim, Ramil, Cobain, Cássia, Elis, Ella. Isso parece que nos faz sentir melhor os sons que emitimos, não sei porque. Também dançamos, invariavelmente, desse modo: selando as vistas. Seja sozinho, no meio da pista ou em qualquer lugar, naquele ritualismo extasiante, ou acompanhado, juntinho, sentindo um corpo no outro. Para isso, fechar os olhos é fundamental, nem que seja para poder abri-los alegres depois.
E quando algo é sério, é fato: os cerramos, como para um gol feito desperdiçado ou um gol adversário na hora mais indevida do jogo. Beijamos, quando amamos, de olhos fechados. Às vezes, por longos minutos, sem abri-los. Semicerrados, talvez, mas, de forma prática, fechados. No êxtase, apertamos bem forte os olhos naquele prazer intenso. Gozo não é gozo de olho aberto! Com tesão, antes do gozo, é aquele fechar e abrir devagar, câmera lenta, curtindo a sensação que te absorve.
Olhar, portanto, torna-se a raridade, o menos comum. Por que não gastar, então, esses lapsos do tempo, entre uma piscada e outra, para enxergar? Tem o sol, o raio do sol, o verde da grama, o vermelho do sangue, o movimento das gentes, os filmes bons e ruins, os telhados, as letras dos livros, o traço do pintor, as bobagens coloridas da tevê, os bichos, o rosto de quem se ama. O céu. Tanta coisa... Ver tudo que é visível ou nem tanto. Ver o invisível. Digo-lhes: dá.
Pois, por vários motivos que não só esses (talvez precise me concentrar, achando o que quero na escuridão, para lembrar-me de mais), creio que a vida toda seja mais importante quando estamos de olhos fechados. Refleti sobre isso ontem quando, de olhos fechados, fui beijado sobre minha pálpebra, num beijo dado de olho fechado em um olho fechado, o meu. Meu globo ocular, faceiro de tanta emoção, agitava-se por debaixo daquele beijo. Acho que os olhos têm um canal direto com o coração (há de se estudar mais nossa anatomia).
Tomo-me de paz ao pensar que esta pessoa que me beija tão solenemente de olho fechado em meu olho fechado acompanhará todos os momentos de olhos abertos (e fechados) da minha vida até o fim dela, quando, enfim, os fecharei para sempre. A morte, penso, calando neste instante os olhos levemente, é a confirmação de que, por todo o tempo anterior a esta, recebemos luz. Mas que, no agora de quando for, simplesmente, não mais. Escuro. A morte, essa não-luz, talvez seja, por isso, a síntese.
Talvez os cegos sejam os verdadeiros abençoados por Deus. Talvez.
Meu último fechar de olhos, quando silenciá-los de vez, quero, por isso tudo, seja com ela, absorvido na beleza do escuro que sempre me acompanhou.


Pix


domingo, 16 de junho de 2013

Kraftwerk - "Computer World" (1981)



"Computar é a maior diversão"


Sim, definitivamente eles são homens do futuro! Eles voltaram do futuro e caíram no século XX, quando os computadores ainda eram equipamentos complexos, possuídos apenas de grandes empresas ou de poucos privilegiados, alguns de porte gigantesco, elemento do imaginário de ficções científicas, para nos contar que este mesmo mundo estaria interligado por estes aparelhos, em rede, que estaríamos todos vigiados sem privacidade, que seríamos todos catalogados e reconhecidos apenas por números, que alguns tantos amariam estas máquinas  como se fossem pessoas, que o maior prazer de muitos seria ficar diante de uma tela e que teríamos aparelhos portáteis que nos tornariam praticamente... robóticos.
Loucura?
Podia parecer.
Mas não se cumpriu?
(Só não somos, exatamente, 'operadores' de calculadoras portáteis, mas sim de mini-computadores de mão multifuncionais, o que no espírito da coisa, da praticamente na mesma)
Sim, por meio de um disco, “Computer World” de 1981, os robôs do Kraftwerk antecipavam tudo isso. Depois de terem anunciado a tecnologia da comunicação, a mecanização da sociedade, a intensificação do trânsito nas grandes cidades, eles então nos diziam que o mundo seria dominado pelos computadores. Sim, sem dúvida eles vieram do futuro. Sempre achei que não eram humanos, mesmo.
E as músicas? Ah... Sinfonias modernas com a cara dos novos tempos. Minimalismo, detalhe, construção, ousadia, genialidade. De um brilhantismo e uma leitura atualíssima ainda hoje, em pleno século XXI. Bom, talvez porque ainda não tenhamos chegado ao tempo em que elas foram produzidas.

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FAIXAS:
1. Computer World
2. Pocket Calculator
3. Numbers
4. Computer World ..2
5. Computer Love
6. Home Computer
7. It’s More Fun to Compute


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Ouvir:
Kraftwerk Computer World


Cly Reis

sábado, 15 de junho de 2013

cotidianas #230 - The Times

Sentou-se bêbado à mesa e escreveu um fundo
Do Times, claro, inclassificável, lido,
Supondo (coitado!) que ia ter influência no mundo...

Santo Deus!... E talvez a tenha tido!


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"The Times"
Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa)

Cena do crime do assassinato de um alienígena








Cly Reis

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Morrissey volta ao Brasil


Fui informado ontem, pelo meu amigo e colega de blog, José Júnior, do retorno de Morrissey ao Brasil para nova série de shows.
Puxa...
Acho que vou ser obrigado a fazer um tricampeonato. Vou ver o ex-vocalista do The Smiths pela terceira vez.
Em princípio, estão programadas três datas no país, uma delas aqui no Rio de Janeiro, no dia 04 de agosto. As outras devem ser 30 de julho em São Paulo e 02 de agosto em Brasília.
Os valores para Rio e SP já foram divulgados, inclusive, e os fãs podem começar a sacar suas carteiras, pendurar no cartão de crédito ou quebrar os porquinhos.
Vamos lá, então?
(Júnior, providencia a caixa de lencinhos de papel, porque da última vez, contigo, eu vi o show todo embaçado)

Seguem abaixo os preços dos ingressos, sendo que clientes Citibank, Credicard e Diners têm prioridade para uma pré-venda, no site da Tickets for Fun, de 14 e 20 de junho:




São Paulo - 30 de julho - Credicard Hall
- R$ 100 (plateia superior com visão parcial)
- R$ 140 (plateia superior III)
- R$ 160 (plateia superior II)
- R$ 180 (plateia superior I)
- R$ 220 (pista)
- R$ 450 (pista premium e camarote II)
- R$ 520 (camarote I)


Rio de Janeiro - 4 de agosto - Citibank Hall- R$ 200 (pista)
- R$ 350 (poltrona)
- R$ 420 (pista premium)
- R$ 500 (camarote)


*os preços dos ingressos para Brasília ainda não foram informados.


Plebe Rude - "O Concreto Já Rachou" (1985)



"O Concreto Já Rachou"
da letra de "Brasília"



Eles eram uma espécie de primo-pobre das bandas de Brasília. Uma espécie de patinho-feio. Enquanto a Legião Urbana arrebatava multidões de fiéis e o Capital Inicial , com um pop bem feito agradava em cheio ao grande público, a Plebe Rude com seu estilo mais cru, letras diretas e contundentes, até fazia seu sucesso também, mas nunca a ponto de alcançar a dimensão dos outros dois conterrâneos. Talvez por terem sido a menos concessiva no que diz respeito às suas raízes punk. Embora a Legião preservasse elementos de punk rock em seu repertório e o Capital s trabalhasse de maneira mais acessível no seu repertório, a Plebe Rude era que se mantinha mais fiel ao estilo e à atitude com um discurso mais enérgico e uma postura mais coerente.
Em seu EP de estreia, "O Concreto Já Rachou", de 1985, com apenas 7 músicas, a Plebe atacava as gravadoras, as autoridades, a TV, o sistema de uma maneira geral, com letras inteligentes, mas um tanto toscas, sem a brilhatura de um Renato Russo, por exemplo, o que fazia toda a diferença não só para a própria banda que o cantor integrava, como para o Capital Inicial que se impulsionou muito a partir de algumas delas como "Fátima" e "Música Urbana".
Mas a Plebe Rude não apenas se ressentia um elemento carismático, aglutinador, como ainda apresentava dois vocalistas (Philippe Seabra e Jander Bilafra) que se alternavam no microfone e, por vezes, como na excelente "Brasília", dividiam mesmo, simultaneamente a função principal. Nesta ótima faixa, sem cair na mesmice de falar de políticos, falcatruas, leis absurdas, etc., com sua letra dupla interpretada brilhantemente pelos dois, expunham toda a sujeira que a cidade estava (e está) mergulhada sob os olhos incapazes, conformados, perplexos e/ou covardes de seus habitantes e, mais amplamente, da população do país. A frase título do disco, presente na música sentenciava: o sonho da cidade ideal havia ruído e Brasília era um mar de lama. Punk direto e certeiro!
Mas dizer que a banda foi punk à risca em "O Concreto Já Rachou" seria um exagero. É lógico que, como a grande maioria dos artistas que assinou com gravadoras grandes naquela metade dos anos 80 teve que ceder um pouquinho aqui ou ali, mas parece que as cessões que a Plebe fez não foram o suficiente para subverter o cerne de seu som. É o caso de "Até Quando Esperar", por exemplo, que alcançou com bom destaque as paradas de sucesso, na qual até aceitam incluir o excepcional violoncelista Jaques Morelenbaum ao seu punk rock, à sua letra crítica e desesperançosa, sem contudo, com isso, perder a agressividade e a contundência do coração da canção, agregando ainda um certo acento solene proporcionado pelo grave do violoncelo. Ou também em "Sexo e Karatê", na qual mesmo com a participação de Fernanda Abreu suavizando o ritmo frenético, e com uma letra divertida de encontros e desencontros telefônicos, além de abordar a solidão, deixa transparecer ainda uma crítica à programação das emissoras, em especial à eterna inimiga pública, a Rede Globo de Televisão.
Mas se topavam estas pequenas 'adaptações' ao sistema, provavelmente sugeridas pelo produtor, Herbert Vianna, não por isso deixavam de criticar a indústria musical e todos seus meios para roubar a identidade dos artistas em nome do dinheiro, como na incisiva "Minha Renda", onde mencionam exatamente recursos como estas suavizações ("um lá menor aqui e um coralzinho de fundo / minha letra é muito forte? se eu quiser eu a mudo"); as imposições das gravadoras ("você é um músico não é um revolucionário / faça o que eu te digo que eu te faço um milionário"); respingando até mesmo no próprio produtor em trecho cantado pelo próprio vocalista dos Paralamas do Sucesso ("já sei o que fazer pra ganhar muita grana / vou mudar meu nome para Herbert Vianna").
"Proteção", outra das que teve boa execução nas rádios, talvez seja uma das mais fortes do disco, atacando em especial às autoridades, o exército, o fantasma da ditadura e o resto de censura que ainda perdurava com força naquela metade dos anos 80. Destaque para o vocal de Jander Bilafra, marcante, soturna e sinistra, repetindo quase o tempo todo, na segunda voz, o verso "para sua proteção", conferindo uma certa mecanicidade e uma espécie de sensação de presença vigiada sugerida pela letra.
Destaque ainda para a boa "Seu Jogo", sobre vidas vazias, com uns metaizinhos bem dispensáveis; e para "Johnny Vai à Guerra" sobre a inocência perdida por jovens em batalhas militares sem sentido.
 Um dos melhores álbuns daquela geração brazuca dos anos 80, e com certeza um dos pilares da santíssima trindade do rock brasiliense juntamente com o "Dois" do Legião Urbana e o álbum homônimo do Capital Inicial, "O Concreto Já Rachou" tem assegurado seu lugar de destaque na galeria dos grandes álbuns nacionais de todos os tempos. Depois daquilo os palácios , os ministérios, as obras de Niemeyer nunca mias teriam conserto. O estrago já estava feito. O concreto havia sido irremediavelmente danificado e a Plebe Rude havia colocado seu nome na história da música brasileira.

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FAIXAS:
1. Até Quando Esperar
2. Proteção
3. Johnny Vai à Guerra (Outra Vez)
4. Minha Renda
5. Sexo e Karatê
6. Seu Jogo
7. Brasília

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Ouvir:
Plebe Rude O Concreto Já Rachou




Cly Reis

quarta-feira, 12 de junho de 2013

cotidianas #229 - Especial Dia dos Namorados



"Amar!
Render-se absolutamente,
prostrar-se diante da divina imagem
morrer mil mortes imaginárias,
aniquilar todo traço do ego,
achar todo o universo corporificado
e entesourado na imagem viva de outra pessoa!
Adolescência, dizemos.
Besteira!
Este é o germe da vida futura, a semente que escondemos bem no fundo de nós,
que abafamos e sufocamos e fazemos
tudo para destruir,
à medida que avançamos de uma experiência
para a outra
e nos confundimos, nos atrapalhamos
e perdemos nosso caminho."

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Henry Miller

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Creedence Clearwater Revival - "Cosmo's Factory" (1970)


ANDRÉ : É...é uma pesquisa sobre o tipo de música
que as pessoas preferem.
Será que o senhor podia me responder algumas perguntas?

GORDO: Tu quer saber o tipo de música que eu prefiro? Rock.

ANDRÉ: Rock. Tem alguma banda preferida?

GORDO: Creedence.
diálogo do filme 
"O Homem que Copiava"



Não sei se alguém lembra, mas nos anos 90 o Guarani de Campinas tinha um jogador chamado Creedence Clearwater. Não jogava nada. Centroavante daqueles grandalhões, plantados, estáticos. Me chamava a atenção um pai chegar ao ponto de batizar o filho com o nome de uma banda de rock. Tem que gostar muito. Tem que ser muito boa a banda.

Na época eu não conhecia o grupo, mas sempre tive curiosidade de ouvi-los. Conheci, efetivamente, tarde, apenas quando vi o filme “O Homem que Copiava”, no qual em uma cena, ao som de um rock'n roll empolgante, o protagonista André, numa locadora de vídeo, pergunta para um cliente de fones de ouvido, um gordo que via com frequência por ali, qual seria sua banda favorita, ao que o homem desconfiado pela abordagem estranha, responde “Creedence”, quando então revela-se para o espectador que a música de fundo da cena era na verdade a que o cliente ouvia nos seus headfones, seguindo-se a partir dali  uma emocionante cena de assalto e perseguição.

Acho que ali foi definitivo para eu curtir Creedence. Nesse meio tempo, entre o filme e os dias atuais, conheci mais algumas coisas, descobri que já tinha ouvido em outros comerciais de TV, que algumas coisas que eu conhecia eram deles e eu sequer sabia, e assim fui gostando cada vez mais. Passei a querer muito ter algum disco dos caras mas encontrava coisas caras, passava alguma prioridade na frente, ou mesmo, não sabia exatamente o que adquirir. Foi por intermédio do meu Sagrado Livro "1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer" que eu tive a dica do álbum “Cosmo's Factory”, que entre algumas outras da banda ali destacados, me pareceu o mais interessante pela descrição da resenha e pelo fato de ter a tal música do filme. O curioso é que nunca o encontrava. Me deparava com outros da banda mas nunca com este que estava decidido a comprar. Mas eis que há pouco tempo topei com ele por aí e não hesitei. Finalmente tinha o meu Creedence!

“Cosmo's Factory” abre com a interessantíssima “Ramble Tamble”, uma canção que começa enérgica, num ritmo alucinante, para depois mergulhar numa viagem psicodélica, algo meio progressivo, com um belíssimo, longo e arrastado solo de guitarra de interlúdio, para no final ganhar ritmo novamente e encerrar em grande estilo. “Before You Accuse Me”, que a segue, é uma versão mais encorpada do clássico de Bo Diddley, embora não consiga por essa consistência superar a original. A dobradinha na sequência é pra quebrar tudo: “Travelin' Band”, a tal música do filme, e “Ooby Dooby”, que a segue, são duas pedradas enlouquecidas, bombásticas! Rock'n roll de primeira! Dois petardos frenéticos de fazer o cidadão sair dançando esteja onde estiver.

“Lookin' Out My Backdoor” e “Up Around the Bend” salientam mais o sotaque caipira característico da banda e presente na maioria das músicas; “Run Though the Jungle” é forte e intensa com destaque para o baixão poderoso e imponente; e “Who'll Stop the Rain”, um dos maiores sucessos da banda é uma canção folk-rock com um certo apelo pacifista, muito comum àquele início dos anos 70.

Imortalizada na voz de Marvin Gaye, “I Heard It Through the Grapevine” ganha uma versão extensa com ares grandiosos, numa execução impetuosa, cheia de energia, com bateria alta e vocal rasgado em determinados momentos, nesta que é uma das grandes músicas do álbum que poderia tranquilamente encerrá-lo tal a sua monumentalidade, mas que ainda tem adiante “Long As I Can See the Light”, uma soul-music chorosa e melancólica que, aí sim, o encerra, diga-se de passagem muito dignamente, cumprindo perfeitamente o papel de faixa final de um grande disco.

Agora entendo porque Creedence é a banda preferida do carinha do filme, na locadora. Agora entendo porque é a banda preferida de tanta gente e é essa verdadeira lenda do rock. Agora entendo porque um pai chega a ponto de pôr num filho o nome de uma banda... Não...Não. Na verdade, aí eu já acho um pouquinho demais. É muito bom, mas não é pra tanto. Menos, menos...

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FAIXAS:
  1. Ramble Tamble
  2. Before You Accuse Me
  3. Travelin' Band
  4. Ooby Dooby
  5. Lookin' Out My Back Door
  6. Run Through the Jungle
  7. Up Around the Bend
  8. My Baby Left Me
  9. Who'll Stop the Rain
  10. I Heard It Through the Grapevine
  11. Long as I Can See the Light
A edição de aniversário de 40 anos do álbum, em CD, traz ainda três faixas extra:
12. Travelin' Band (demo tape)
13. Up Aropund the Bend (ao vivo)
14. Born on the Bayou

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cena do assalto - "O Homem que Copiava"

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Ouvir:


quinta-feira, 6 de junho de 2013

Em Algum Lugar do Futuro...








trabalho da disciplina de Desenho III para a faculdade de arquitetura
lápis aquarelado sobre sulfite 29,7x21cm (1998)

cotidianas #228 - O Piadista


Niltinho sempre se dava bem com as mulheres.
Era impressionante.
Não que fosse um absurdo, Niltinho não era uma cara que pudesse se dizer, assim, monstruoso, horrível ou algo do tipo. Não. Mas era impressionante tamanho sucesso e eficácia.
E não tinha mulher difícil. Não tinha conquista impossível. O Niltinho mirava, atacava e era certeiro. Invariavelmente ganhava.
Mesmo quando estava com um de nós, os rapazes da turma por perto, fazia questão de ir sozinho até a mulher. Se dirigia à vítima, falava alguma coisa, despertava o interesse e logo o que se se via a pantera jogar o pescoço para trás e desandar numa risada gostosa. Sempre acontecia. Sempre riam. O que ele falava? Alguma piada, por acaso? Vá lá se saber. Nunca deixou que nenhum de nós o acompanhasse quando ia abordar uma presa. Mas independente do que falava, de como falava, de como abordava, era infalível. Voltava ele, no mínimo, com um número de telefone anotado num guardanapo.
Chegamos a perguntar para uma conhecida nossa, garota do bairro, que crescera junto com a gente, se tornara um mulherão e que, claro, já havia ficado com o Niltinho, o que viam naquele cara. A resposta dela foi simplesmente:
- Ah, sei lá. Acho que ele me faz rir.
Certa vez, na balada, eu que não tinha o mesmo sucesso do meu amigo pegador mas também tinha meus momentos, saí da festa com uma bela mulher morena, bastante apreciável, mas nada comparável à amiga dela, que ficou com o Niltinho, e que era simplesmente de fechar o comércio. Acabamos no apartamento que as duas dividiam e tendo as coisas ficado quentes para ambos os casais, fiquei na sala com a bela morena e o Niltinho foi com a de cabelo castanho para o quarto.
A morena foi simplesmente espetacular... Mas isso apenas durante o pequeno período que conseguimos nos concentrar no que fazíamos, pois uns 10 minutos depois do Niltinho ter entrado no quarto com a outra garota, risadas ensandecidas e incontidas irromperam do quarto.
Incessantes.
Incontroláveis.
Só parava para tomar fôlego, para respirar, mas logo voltava mais aguda e mais forte ainda.
Eu e a morena paramos o que estávamos fazendo, nos olhamos interrogativamente e voltamos nossos olhos para a porta do quarto como se pretendêssemos ter uma visão de raio-X e entender o que estava acontecendo lá dentro. Não conseguimos mais fazer nada aquela noite. As risadas eram o que se poderia chamar de selvagens.
Pela manhã, me recompondo no sofá, enquanto a garota dormia, vi sair do quarto a bela parceira do meu amigo, só de calcinha e cobrindo os seios com o antebraço.
- Ai, desculpa. Não sabia que você tava aí ainda - disse levemente encabulada.
- Desculpa você - disse calçando os sapatos - eu ainda aqui na sua sala.
- Que nada - fez ela já despreocupada com minha presença e com seus trajes menores.
Ia se dirigir ao banheiro quando me ocorreu um comentário que poderia ser muito esclarecedor no caso do Niltinho:
- O meu amigo deve ser muito bom de contar piada, não? Dava pra ouvir daqui sua risada.
- Piada? - fez ela arregalando os olhos - Aquilo foi muito SÉÉÉRIO! - completou com um ar grave entrando finalmente no banheiro.
Ainda pude ouvir lá de dentro um:
- Nossa...
Aí sim, fiquei embasbacado e mais intrigado que nunca.
O que me restava era acordar o meu amigo e ir embora dali.
No caminho, no carro ainda perguntei para ele, o que havia acontecido. Ele se limitou a responder que ela havia gostado dele.
Ótimo. Muito esclarecedor.
No chopp do dia seguinte contei para o resto da turma do episódio. Ficaram loucos! Qual era o segredo? Como podia? Chegou o Niltinho na roda e o colocamos contra a parede, pressionamos. Nada. Só aquela tranquilidade: "Eu falo o que elas querem ouvir". Não bastava. Cercamos por todos os lados mas era como se não houvesse mistério no que fazia. Simplesmente chegava e fazia.
Nisso, entre um choppinho e outro, avistamos uma loira fenomenal numa mesa próxima à nossa, no bar. O que eu posso dizer é que às vezes Deus nos sai com alguma coisa realmente absurda e aquela era uma delas. Resolvemos desafiar o Niltinho. Àquelas alturas já nem era mais pelo segredo, pelo mistério, não era um teste, uma vez que tínhamos praticamente convicção de que ele conseguiria facilmente, era mais pela confirmação, pelo evento, pelo acontecimento em si:
- Niltinho, quero ver tu conquistar aquela lá. Não, aquilo já nem é mais mulher. eu nem sei dizer o que é tudo aquilo mas aquilo não pode ser um ser humano.
- Deixa a moça lá. Vamos continuar nosso papo aqui. - dizia ele fingindo contrariado.
- Tu tá arregando? Será quer tu não pode com essa?
- Deixa pra lá.
- Ah, tá com medo! - zombaram os outros para encorajá-lo.
- Não, não é... Tá bom, tá bom, eu vou lá. O que que 'cês querem, que eu dê um beijo, que eu traga um telefone, que eu traga ela pra sentar aqui?
- Ah, qualquer coisa. Vai lá, vai lá - insistimos já nem nos preocupando alguma prova da conquista, pois sabíamos que o Niltinho não era de se vangloriar à toa. Se ele dissesse que tinha marcado um motel, a gente acreditaria.
Levantou-se, dirigiu-se à mesa onde a deusa estava com outra amiga e falou dirigindo o olhar para a loira:
- Oi, meu nome é Nilton, tudo bem?
A loira apenas assentiu.
- Posso sentar?
A loira fez cara de indiferente.
- Posso te perguntar uma coisa? - lançou ele - Tu conheces aquela do papagaio?




Cly Reis

terça-feira, 4 de junho de 2013

Jamelão - "Jamelão Interpreta Lupicínio Rodrigues" (1972)





“Eu não sou músico, não sou compositor,
não sou cantor, não sou nada.
Eu sou é boêmio.”
Lupicínio Rodrigues


Há quem ironize que Lupicínio Rodrigues era, como cantor, um grande compositor. O célebre músico gaúcho é, inegavelmente, um dos maiores nomes da história da música brasileira, precursor do chamado samba-canção, antes mesmo de contemporâneos seus como Cartola, Herivelto Martins e Nelson Cavaquinho. É reconhecido nacionalmente – mesmo nunca tendo saído da (até hoje) nada promissora mercadologicamente terra-natal Porto Alegre – e já foi gravado por centenas de intérpretes das mais distintas gerações e vertentes, que vão de Orlando Silva a Elis Regina, de Ângela Maria a João Gilbertode Isaura Garcia a Caetano Velosode Nelson Gonçalves a Arrigo Barnabé. Mas era comum acharem que Lupi não servia para cantar. A voz miúda, a la Mário Reis, dolorida como suas letras, não tinha, principalmente naquele longínquos anos 30, quando surgiu para a música, nada a ver com o, este sim, apreciado vozeirão dos cantores impecáveis e técnicos da Rádio Nacional, a “Globo” da época, primeira era Vargas.

Há controvérsias. Tanto que o histórico “Roteiro de um Boêmio”, álbum com quatro discos de 78 rpm gravado em 1952 por Lupicínio com seu vocal original, daquele jeito mesmo, cool e sutil, é considerado por fãs como o definitivo registro do autor de “Se Acaso Você Chegasse”. Mas o jornalista e compositor Hamilton Chaves, mesmo tentando dar uma força ao amigo, mandou-lhe ver na veracidade: “Tu não é cantor, rapaz. Põe na tua cabeça! Neste país subdesenvolvido, cantor é quem tem voz operística”. O próprio Lupi sabia que estava longe de um Caruso. Considerava-se, antes de tudo, um boêmio – o que, de fato, era acima de qualquer coisa. As paixões, os remorsos, as angústias, as brigas, as bebedeiras, as traições, as desilusões, enfim, tudo o que há de mais intenso e sentimental vivido por ele de bar em bar pelas ruas da cidade servia de substrato para o universo de suas composições. Misto de Lord Byron com Nelson Rodrigues, este dândi do subúrbio compôs, fosse sozinho ou com parceiros de copo e canção (como Alcides Gonçalves, Felisberto Martins e David Nasser), obras-primas do chamado samba “dor-de-cotovelo”, uma magnífica metonímia inventada por ele próprio para classificar seu estilo mais característico.

Porém, como dizia outro célebre sambista, Ataulfo Alves, “a maldade desta gente é uma arte”, e a desconfiança com sua autointerpretação sempre pairou, ainda mais por quem, a estas alturas, já tinha sido imortalizado na voz de Francisco Alves, Cyro Monteiro e uma penca de cantores “oficiais”.

Até que surge alguém para dar ponto final à discussão. Amigo pessoal de Lupicínio desde quando, excursionando pelo Rio Grande do Sul nos anos 50, o conheceu, o ilustre Jamelão se encantou com a obra de Lupi e passou a incluir suas músicas em seu repertório tanto de shows como em discos. Autointitula-se, então, sem o menor zelo, como seu principal intérprete. E tinha razão. Nem a impostação excessiva, nem o minimalismo asséptico, mas, sim, um canto possante com toques da malandragem do morro. A lapidação disso está em “Jamelão Interpreta Lupicínio Rodrigues” (Continental, 1972), que traz 12 joias representativas do tesouro que é a obra deste autor, desde as primeiras canções “Meu Pecado” e “Sozinha”, os sucessos radiofônicos “Exemplo” e “Vingança” até clássicos absolutos, como “Nervos de Aço” – aqui, bonita num compasso mais ligeiro que o normal.

Carrancudo e de personalidade forte, Jamelão, antes de tornar-se marca registrada do Carnaval do Rio de Janeiro como o maior puxador de sambas-enredo pela escola Mangueira, desde os anos 60, já era conhecido nas gafieiras como crooner por sua voz encorpada tomada de intensidade e sentimento. E o cancioneiro de Lupicínio fecha totalmente com isso. Acompanhado da excepcional Orquestra Tabajara, uma big-band ao estilo dos grandes grupos de jazz norte-americanos, Jamelão dá um verdadeiro show. Os arranjos, notados com perfeição pelo maestro Severino Araújo, também caem como uma luva, o que não é de se estranhar, uma vez que a melodia lupiciniana, marcadamente escrita em tom menor, carrega com bastante originalidade o arrebatamento sensual do tango e a breguice cult do bolero - além, é claro, da malemolência do samba carioca. Jamelão, por sua vez, solta o gogó a serviço da obra do amigo, um constante flerte entre o vulgar e o sofisticado, entre o coloquialismo e a alta literatura, entre a ironia e o drama. As versões incluídas neste trabalho ganham, assim, a força interpretativa do cantor e o apuro das harmonias, achando a roupagem certa que a música do mulatinho merece.

“Vingança”, de abertura pontuada no naipe de sopros, é notável. “O remorso talvez seja a causa/ Do seu desespero/ Ela deve estar bem consciente/ Do que praticou/ Me fazer passar tanta vergonha/ Com um companheiro/ E a vergonha/ É a herança maior que meu pai me deixou”. Versos de um gênio. A interpretação, que parece sair do âmago de Jamelão, é intensificada pela orquestração, que intercala o andamento suave do piano com os arroubos emocionados da orquestra. “Ela disse-me assim”, a respeito da culpa torturante de um homem pego com as calças na mão pelo marido da amante com ela, é outro destaque do disco: cadenciada, sentida, quase chorosa.

Mais uma história tragicômica é contada em “Um favor”, em que um pobre-diabo pede a quem lhe possa ajudar a encontrar a amada que lhe deu um pé na bunda (“Faça esse mundo acordar/ Para que onde ela esteja/ Saiba que alguém rasteja/ Pedindo pra ela voltar”). O arranjo é especial, principalmente na “deixa” metalinguística da letra ao clamar que músicos e seus instrumentos auxiliem neste chamado desesperado. Claro que a “flauta o trombone e clarim” atenderam. E assim segue em todas as faixas, repletas de dor, angústia e amores não correspondidos como é típico na música de Lupicínio Rodrigues. E Lupicínio Rodrigues cantado por Jamelão, aí mesmo que fica insuperável.

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FAIXAS:

1. Meu recado (Felisberto Martins/ Lupicínio Rodrigues)
2. Homenagem
3. Sozinha
4. Um favor
5. Exemplo
6. Quem há de dizer (Alcides Gonçalves/Lupicínio)
7. Cigano (Martins/Lupicínio)
8. Amigo ciúme (Onofre Pontes/Lupicínio)
9. Torre de babel
10. Nervos de aço
11. Ela disse-me assim
12. Vingança

todas de Lupicínio Rodrigues, exceto indicadas

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Ouça: