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sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Secos e Molhados - "Secos e Molhados" (1973)


"Foi meu jardim da infância,
um jardim da infância bem
barra pesada (risos).
Enfrentamos o Brasil,
o governo, a polícia,
era transgressão pura."
Ney Matogrosso



Eles foram, assim, uma espécie de mistura de New York Dolls, com Kiss, com David Bowie pelo caráter teatral, pela maquiagem, pela androginia, pela sensualidade, mas no que diz respeito à música, extremamente originais e vanguardistas na proposta, compondo uma sonoridade de influências múltiplas sem abrir mão, no entanto, da brasilidade e das raízes da cultura nacional.
Os Secos e Molhados estreavam em disco em 1973 com um trabalho recheado de ritmos variados, exotismo, lendas, folclore, poesia, psicodelia e rock'n roll. Um grupo de maquiagens exageradas, figurinos extravagantes, performances impressionantes que trazia à frente o expressivo vocalista Ney Matogrosso, um tipo exótico, provocante, cheio de requebrados, trejeitos tresloucados, de atuação singular e interpretações vocais marcantes e impecáveis. Ney chamava mais a atenção por todos os atributos enumerados, mas sua retaguarda, com os músicos Gérson Conrad, Marcelo Frias (que não permaneceu na banda) e João Ricardo, o principal letrista e compositor da banda, eram a garantia de uma sustentação perfeita além de composições precisas, inspiradas e geniais.
O clássico "Sangue Latino", cuja base marcante veio a ser utilizada, tempos depois pelos Titãs na introdução da música "Eu Não Aguento", abre o disco e, como supõe o nome, é cheia de latinidade, numa toada lenta e insinuante, com uma interpretação notável e irreparável de Ney Matogrosso. A segue outro clássico: "O Vira", ilustrado por magias, lendas e personagens fantásticos, e que mesmo com toda a evidente influência do ritmo português que lhe dá o nome, é um rock guitarrado, pesado e cheio de vitalidade.
"O Patrão nosso de Cada Dia" que vem na sequência é uma balada com ares barrocos mais uma vez com o talento de Ney extrapolando os limites; seguem a ótima "Amor", um soul-rock que muita banda por aí sonha em conseguir fazer; o blues psicodélico "Primavera nos Dentes", de belíssima introdução de piano; o rock'n roll bem percussionado de "Assim Assado"; o free jazz acelerado de "Mulher Barriguda"; e "El Rey" de Gérson Conrad (em parceria com João Ricardo, é claro) , uma curta vinheta de belíssimo trabalho de violões.
"Rosa de Hiroshima" uma balada lamentosa, cuja beleza contrasta com o pessimismo da poesia de Vinícius de Morais é outro clássico em mais uma interpretação absurda de Ney nos vocais.
Depois vem a boa, porém comum, "Prece Cósmica"; "Rondó do Capitão", adaptação do poema de Manuel Bandeira; "As Andorinhas", que assim como "O Vira" também remete à música portuguesa; e o fecha o disco de maneira magnífica com "Fala", em mais um show particular de Ney Matogrosso.
Um marco da música nacional! Um disco corajoso. Afrontador na ideia, no conceito, na atitude, na sutileza da poesia. Ícone do rock brasileiro. Do rock,sim! Por mais que em muitos momentos possa não parecer um disco de rock efetivamente, tal a singeleza das letras, a leveza dos vocais, os arranjos de viola ou de cordas, "Secos e Molhados" inova na linguagem alavancando o rock nacional a outro patamar criativo. disco essencial extremamente influente para qualquer banda do cenário pop rock que tenha aparecido depois dele.
antes de finalizar, não poderia deixar de falar da capa, igualmente uma das mais marcantes, criativas e emblemáticas da discografia nacional e que curiosamente, surgiu quase que por acaso, meio de improviso, na hora, no estúdio fotográfico. A ideia de utilizar os produtos de secos e molhados (nome dado a comércio de produtos alimentícios) já existia, no entanto, o lampejo de colocar as cabeças em bandejas, dando uma conotação um tanto antropofágica à imagem, veio na hora, ficando assim os integrantes sentados em tijolos sob a mesa, apenas com as cabeças colocadas em furos feitos nela, com as bandejas encaixadas aos seus pescoços.
Até a capa é espetacular!

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FAIXAS:
1. "Sangue Latino" (João Ricardo/Paulinho Mendonça) 2:07
2. "O Vira" (J. Ricardo/Luhli) 2:12
3. "O Patrão Nosso de Cada Dia" (J. Ricardo) 3:19
4. "Amor" (J. Ricardo/João Apolinário) 2:14
5. "Primavera nos Dentes" (J. Ricardo/J. Apolinário) 4:50
6. "Assim Assado" (J. Ricardo) 2:58
7. "Mulher Barriguda" (J. Ricardo/Solano Trindade) 2:35
8. "El Rey" (Gerson Conrad/J. Ricardo) 0:58
9. "Rosa de Hiroshima" (G. Conrad/Vinicius de Moraes) 2:00
10. "Prece Cósmica" (J. Ricardo/Cassiano Ricardo) 1:57
11. "Rondó do Capitão" (J. Ricardo/Manuel Bandeira) 1:01
12. "As Andorinhas" (João Ricardo/C. Ricardo) 0:58
13. "Fala" (J. Ricardo/Luli)


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Ouça:
Secos e Molhados 1973


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Conhecendo o "Novo" Maracanã

Rio, Maracana - 21:10 - Botafogo x Internacional - Primeira inpressao bastante positiva do estadio reformado. Bons acessos, cuidados com seguranca e internamente, conforto e vista privilegiada independente do ponto que se esteja. Sensacao de teatro. De uma casa de espetaculos dedicada ao futebol. Em breve sera o Beira- Rio que ficara asim. Mas enquanto assisto o jogo na casa do inimigo vou me concentrar em torcer.
Boa sorte, Colorado.

O Frango Atirador


Interzone II







"Interzone II" - REIS, Cly
fotografia com manipulação digital




REIS, Cly

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Brian Eno e John Cale - "Wrong Way Up" (1990)




“É muito fácil para mim falar de ‘Spinnig Away’, porque ela tem uma característica que eu gosto muito, e que já eu usei antes também. Eu gosto muito de ter contrastes de velocidade. Por exemplo, de ter ritmos staccato muito, muito rápidos, ritmos picotados, em que vocais muito líquidos correm por cima deles. Algo como duas qualidades bem opostas: um ritmo que é staccato e ligeiramente oscilante. Se você ouvir a forma como os tambores começam nessa música, eles têm uma sensação estranha e fora de equilíbrio. Seu som é nítido. Os vocais e os violinos, por outro lado, não são tocados com o mesmo espírito, eles estão quase em um universo musical diferente. Eles flutuam em cima deste mar de ação, esse mar de atividade. E os violinos tocam em um compasso diferente.”
 Brian Eno


“Wrong Way Up” foi uma paixão instantânea. Adquiri o CD poucos anos depois de seu lançamento, 1990, mas já o mirava desde quando li na revista Bizz que Brian Eno – de quem já gostava, pois até lhe tinha em K7 “Before and After Science”, de 1977, além de admirar as parcerias/produções a bandas e artistas que de muito já ouvia, como as com David BowieTalking HeadsU2, Devo, entre outros – e John Cale – de quem sabia em parte da importância e qualidade também pelas produções a outros artistas e pelo The Velvet Underground, obviamente, mas não tinha ainda noção de sua magnitude como hoje – haviam, finalmente, se juntado para um trabalho em comum. Os dois já tinham se pechado 16 anos antes no show ao vivo transformado em disco “June 1, 1974”, projeto conjunto com Nico e Kevin Ayers que, justamente por contar com tantos talentos juntos, não abria espaço para cada um explorar mais de si mesmos. Os dois também participavam frequentemente dos projetos de um e de outro (Cale em “Another Green Wolrd”, de Eno, de 1975; Eno em “Fear”, de Cale, de 1974), mas algo único, em par, não. “Wrong...” surgia-me, assim, com uma grande expectativa de poder ouvir reunidos aqueles que considero, juntos com Phil Spector e George Martin, os dois maiores produtores de estúdio da história, duas figuras fundamentais para o rock e com bagagens ricas, até parecidas em alguns aspectos. Britânicos (um nascido na Inglaterra, o outro no País de Gales), ambos fundaram bandas clássicas, Roxy Music e Velvet Underground, respectivamente, e foram os integrantes que saltaram fora no início (Eno, depois do primeiro disco; Cale, após do segundo) para tocarem seus projetos solo. De formação acadêmica e erudita, também sempre tiveram estilos marcantes em tudo que produziram e, muito por conta disso, preferiram trilhar por uma carreira que apontava não só para a musical, mas para outras artes, como plásticas, cinematográfica e cênica.

O que esperar, então, deste aguardado encontro? Ainda mais considerando que lhes era comum há bastante tempo o valor das parcerias, basta ver as de Eno (David Byrne, Jon Hassell, Harold Budd, Robert Fripp) e as de Cale (Nico, Terry Riley, Lou Reed). Por que nunca haviam pensado em algo próprio até então? A resposta parece nos direcionar a uma mera coincidência ou falta de oportunidade, pois o resultado é uma afinidade tamanha que chega, às vezes, a parecer que sempre compuseram juntos. Para mim, o efeito foi o que lhes disse na primeira linha deste texto: arrebatamento imediato, que perdura até hoje por um álbum que não canso de ouvir, um dos preferidos de minha discoteca.

Apesar da sugestão do nome, algo como “caminho errado ascendente”, em que se nota certa ironia por parte de dois artistas de vanguarda que sempre optaram pelo caminho autoral e não-comercial, o disco é um verdadeiro caminho fácil. Fácil de ouvir, fácil de gostar. Complexo em harmonias e arranjos, mas totalmente aprazível e saboroso aos ouvidos. Composto de 12 faixas, metade cantada por cada um e todas compostas em dupla (exceto “The River”, só de Eno), “Wrong...” tem cara de projeto artesanal, haja vista a sucintez da instrumentalização e até do projeto gráfico (do próprio Eno), mas que consegue ser universal e supermoderno sem soar pretensamente high-tech, resgatando referências folclóricas, pop e clássicas. Um resumo do que poderia ser chamado de world music. Valendo-se dos predicados de cada um, como o conhecimento apurado de ambos da mesa de estúdio, a técnica de Eno aos teclados e sintetizadores, seus cuidados com os detalhes, a pegada erudito-modernista de Cale e, claro, a criatividade absurda dos dois como compositores, “Wrong...” lhes extrai o que há de melhor. “Lay my Love”, bela e imponente, abre dando este tom: simbiose entre instrumentos eletrônicos e acústicos, polirritmia, escalas em intervalos quebrados – típico de Cale – e referências étnicas principalmente nos contracantos – típico de Eno. “Empty Frame”, um rock-soul anos 50, e “Crime in the Desert”, espécie de twist minimalista, ambas sob uma textura eletrônica e também na voz solo de Eno, trazem o mesmo conceito. 

Cale sussurra a leve “In the Backroom”, de clima árabe especialmente no andamento. O canto elegante do galês volta em “Cordoba”, estupenda, das melhores do álbum. Minimalista e propositalmente em volume mais baixo que o restante das faixas, é toda composta em detalhes de texturas e sonoridades, em que os elementos vão se incorporando um a um sobre uma base de teclados e uma batida programada. Muito cool, nela se sentem os ecos das tradições moura e.católica da histórica cidade espanhola. A sempre marcante viola de Cale tange um curto mas exuberante solo que remete à atmosfera misteriosa da região da Andaluzia.

“Spinning Away”, mais uma maravilhosa, tem visível mão dos dois. A começar pela de Cale, que pinta com o som de sua viola com cores renascentistas esta peça. Mas a melodia é bastante característica de Eno, tais como as que coescreveu com Byrne em “Remain in Light”, do Talking Heads, em 1980, ou as que já experimentava em “Before...” ("No One Receiving"), visto suas camadas de linhas vocais em tom médio lembrando cantos tribais e a base percussiva da guitarra, que se conjuga com a programação rítmica. A cara da proposta do disco. 

Mais uma linda canção e outro show de Cale aos vocais, charmoso e variante nas escalas: a enigmática “Footsteps”. Com uma aura oriental, seja nos acordes agudos de teclado-solo, seja nos adornos que adensam seu “climão” sombrio, seja no som seco da tabla tocada por Ronald Jones. Ao final da faixa, esta mesma batida amadeirada marca em três tempos espaçados o começo da seguinte e, talvez, melhor do disco – embora seja difícil a escolha. “Been There, Done That” é ritmada e num tom mais alto, o que contrasta com a gradação média para menor da soturna anterior. Nela, a ideia de percutir os fios dos instrumentos de corda aparece de novo. De refrão pegajoso (“Been there, done that/ Been there, don’t wanna go back”), é um dos melhores exemplos de pop world music que pode existir. Novamente, o entrecruzamento de cantos aproveita muito bem os timbres aveludados tanto de Eno quanto de Cale – como ocorrera em outra ótima faixa, “One World”, música de trabalho do álbum –, assemelhando-se um com o outro em vários lances.

O disco fecha com talvez a mais bonita música de todo o cancioneiro de Eno: “The River”. Balada estilo anos 50, em que o tom grave de sua voz cantando com suavidade faz-se extremamente marcante (“So deep in the water/ Sleep, dark as the night...”), é uma cantiga de ninar doce e lírica escrita para sua filha Irial no dia de seu nascimento – o que justifica ser a única sem parceria na composição. A participação do outro filho do compositor, Roger Eno, aos teclados, aumenta o clima familiar e emotivo da canção, que desfecha com o violino de Neil Catchpole desenhando o andamento de maneira lânguida e cadenciada, até sumir leve e gradualmente, caindo em um sono tranquilo.

“Wrong...” é um disco que não data, semelhante a "Nightclubbing", de Grace Jones (1981), "Low", de Bowie (1976) ou “Off the Wall”, de Michael Jackson (1979), trabalhos que souberam casar a tecnologia que suas épocas lhes disponibilizaram com uma essência tradicional, trazendo inovações de estilo e técnica, mas, principalmente, por conterem um conceito bem definido e apurado. Por isso mantêm-se frescos através do tempo, atemporais. 

Porém, mais do que a contribuição que trouxe ao universo pop, o disco é, antes de mais nada, um feliz encontro de artistas muito afins, onde fica evidente a identidade e admiração mútuas que têm um pelo outro. Tarimbados àquela altura, podiam muito bem, como vários outros veteranos já incorreram, trilhar pelo “caminho fácil”: gravar standards um de outro, intercalando-se. Cale cantaria, por exemplo, "Third Uncle" ,“Babies on Fire" e outras quatro e Eno fazia o mesmo: ficava com versões de "All Tomorrow's Parties""Heartbreak Hotel" e completava com mais quatro. Pronto: fechava um disco com 12 faixas, quando muito mais umazinha nova (a de trabalho, claro) para justificar para a mídia um reencontro. Mas estamos falando de John Cale e Brian Eno, meus caros, dois dos maiores nomes da música do século passado e que, graças!, ainda vivos e produzindo bem, continuam sendo permanentemente ascendentes anos 2000 afora e até quando existir esta fascinante arte chamada música.

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“One World” (vídeo oficial) - Brian Eno e John Cale



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FAIXAS:
1. Lay My Love - 4:44
2. One Word - 4:34
3. In the Backroom - 4:02
4. Empty Frame - 4:26
5. Cordoba - 4:22
7. Spinning Away - 5:27
8. Footsteps - 3:13
9. Been There, Done That - 2:52
10. Crime in the Desert - 3:42
11. The River - 4:23

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Ouça:
Brian Eno e John Cale_Wrong Way Up



domingo, 11 de agosto de 2013

cotidianas #239 Especial Dia dos Pais - A Bicicleta


São interessantes as recordações que se têm dos pais. Estas vêm à mente de forma pessoal e carinhosa, quanto mais quando bem vividas, o que ocorreu em vários momentos entre eu e meu pai, o velho Antonio Carlos, que se foi deste plano há pouco mais de quatro anos. A tal bicicleta a que me refiro no título, que provavelmente à maioria dos filhos seria lembrada por conta da vez em que seu pai o ensinou a andar de magrela, no meu caso, não é bem assim. Aliás, nem é este tipo de bicicleta. Desta, a minha bicicleta (ou melhor, a dele), tenho lembrança por causa de um acontecimento ocorrido em uma tarde qualquer no bairro em que me criei e onde ainda vivo, a Intercap, em Porto Alegre.
 Jogávamos bola eu e meus amigos como fazíamos religiosamente por puro prazer e sadia vagabundagem todo santo dia. Escola de manhã, futebol à tarde; certo. Não éramos muitos naquele dia, uns quatro ou cinco no máximo. Meu irmão, se a memória não me falha, coincidentemente, não estava. Nesta época, o campinho em que jogávamos, afetuosa e sarcasticamente por nós intitulado de Lixa Munumental Stadium, ou simplesmente Lixa, era ainda um terrenão aberto de piso de areão muito áspero que, como uma lixa, relava a pele de qualquer um que caísse no chão e era repleto de mato rasteiro ao lado oposto à rua perpendicular à da minha casa e cujas dimensões não eram nem de um campo oficial, para 11 jogadores, nem de futebol sete, tal como ficou depois que a Prefeitura transformou seu entorno em praça, incorporando-o ao espaço público. Havia duas goleiras feitas de pedaços de pau pregados e tamanhos desiguais de cada lado do campo, suficientes para que dois times jogassem um contra o outro, e isso era mais que suficiente para a nossa alegria. Eu tinha uns 12 ou 13 anos.
Como não éramos muitos naquela tarde, usávamos apenas uma das goleiras, a que dava de costas para a minha rua. Lá pelas tantas, fim de tarde, vi subindo-a, acompanhado de algum amigo que não recordo quem, meu pai. Vindo do trabalho, provavelmente descera na Av. Ipiranga e caminhara as cinco quadras até a praça em direção à nossa casa, uma quadra a mais dali. Muito querido e respeitado por minha turma de amigos, foi cumprimentado com apreço pela gurizada, pois era, de fato, uma figura simpática e brincalhona mas que não escondia, sempre que podia, uma boa dose de autoconvencimento. Se “achava” para algumas coisas seu Antonio, o que era folcloricamente engraçado. Não à toa, pois em torno de sua figura se formaram certas lendas entre os amigos e conhecidos que ouvíamos frequentemente. Uma delas era a de que jogara, na juventude, no linguajar futebolístico, “muita bola”. Os amigos que o viram jogar nesta época o reverenciavam, relembrando partidas em que sua atuação fora fundamental para a vitória em peleias inesquecíveis na tal “Sede”, um outro campo também encravado em um terreno baldio do bairro mais adiante dali e igualmente transformado em praça tempo depois, porém este realmente com tamanho de campo oficial e com um pouco mais de estrutura que a Lixa. Por causa disso, na Sede se disputavam concorridos campeonatos da região nos anos 70 e 80, e meu pai atuara, pelo que se dizia, com brilhantismo de craque nestes tempos de ouro.
A aura mítica recaía não somente sobre meu pai. Outros contemporâneos de peladas dele também mereciam elogios, como o Caio (também morto faz alguns anos), de quem se dizia ter a cobrança de falta mais apimentada da Intercap: dava apenas dois passos de distância para a bola, suficientes para desferir um chute forte e indefensável no ângulo do arqueiro. Mas era meu pai quem mais empilhava lendas da bola no arrabalde. Era comum eu e meu irmão ouvirmos dos amigos jurássicos, invariavelmente admiradores: “Jogava muito o nêgo Antonio!” ou: “Batia um bolão o teu pai, hein?”. Vi-o jogar uma vez, ao que me lembro, anos mais tarde, final dos anos 80, na sede campestre dos funcionários municipais, na Zona Sul da cidade (longe da minha casa, que fica na Sudeste), como zagueiro, curiosamente a mesma posição minha, porém, ele no lado direito do campo, e eu, canhoto de perna como meu irmão, no esquerdo. Ao que recordo de minha cabeça dispersa de piá que estava lá mais interessado em passear e tomar um refrigerante no bar, a atuação dele foi segura e sem rodeios.
Voltando àquele fim de tarde, meus amigos e eu, gurizada arreada e sempre pronta para tirar sarro de qualquer coisa, tinha respeito por meu pai, mas não a mesma veneração que os mais velhos lhe imputavam, pois mantínhamos certo ceticismo com tais fábulas. Batíamos aquela bolinha ali despretensiosamente e, se não me engano, no momento em que meu pai apontou, um dos nossos, metido a boleiro, tentava dar uma bicicleta. Até conseguia a seu jeito, pedindo para que o outro repetisse o cruzamento para que ele emendasse, novamente, aquela virada no ar com os pés trocados num chute em direção ao gol. A cena fez despertar o Antonio convencido. Putz! Imediatamente ele se despediu do tal amigo (ou o deixou esperando) e veio até nós. Largando a bolsa de trabalho no pé da trave, disse-nos no seu saudoso tom de “sabe tudo”:
- Isso não é bicicleta! Vocês não sabem nada! Bicicleta se pula com as duas pernas no ar. Agora vou mostrar pra vocês o que é uma bicicleta!
Meio incrédulos, nós, entre risos desconfiados e irônicos, acatamos. Pensávamos igual, mesmo sem precisar falar: “o que esse véio vai fazer caindo de costas no chão vestido de calça social, sapatos e camisa? Decerto vai ‘furar’ na bola, espirrar o taco ou mandá-la longe do gol!” Tudo nos levava a crer que aquilo daria em trapalhada...
- Vai lá, – mandou para o que estava com a bola – cruza aqui na área pra mim. Cruza alto! –pontuou, apontando para cima de sua cabeça cerca de um metro acima e na direção oposta ao gol.
Meu pai, já de costas para o goleiro, posição em que poderia executar a tal bicicleta desacreditada, aguardava o passe. Obediente, o guri rolou levemente a redonda no areão na ponta esquerda para dar impulso e a lançou para a área. Alto, como pedira. Num movimento incrivelmente perfeito, como só um Zico, Pelé ou Leônidas da Silva (criador do lance) executariam, seu Antonio tomou impulsão e voou de costas cerca de um metro e meio do chão. Pernas totalmente esticadas para alcançar a bola lá naquela altura. E alcançou. Com precisão, acertou-a com o bico do pé direito, o qual era acompanhado simultaneamente pelo esquerdo, que, como ele apregoara teoricamente, teria de subir junto e ao mesmo tempo que o outro pé. O chute? Saiu como um canhão. Pegou na trave superior tal um tiro, balançando a madeira falseante, ricocheteou com quase a mesma velocidade no chão e foi parar dentro do gol. Tudo muito rápido. O goleiro, congelado, nem se mexeu. Como se diz na gíria do futebol, nem viu a cor da bola. Um golaço.
Embasbacados, vimos meu pai, faceiro e inflado, levantar-se com as costas todas sujas da areia rosada do campinho e com os fundilhos da calça rasgados. Não importava. Nós, guris, nem nos atrevemos a fazer gozação por causa da calça tal impressionados que ficamos com o que presenciamos. Calou-nos a boca. E a ele importava menos ainda, pois sua satisfação em ter executado com tamanha perfeição aquele malabarismo e nos dado a lição certamente lhe deixara nas nuvens para o resto do dia.

Esta imagem tão remota me veio esta semana como um presente e uma homenagem que gostaria de prestar no Dia dos Pais ao saudoso seu Antonio, colorado passional como eu e meus irmãos, que com certeza ficaria muito contente de saber que relembro deste episódio. Definitivamente, cada filho tem a memória da bicicleta que merece.



quinta-feira, 8 de agosto de 2013

cotidianas #238 - "RPM 33 1/3"


- Como foi que tudo isso começou?
imagem adaptada do filme "Fahrenheit 451"
de François Truffaut
- É meio incerto, mas acreditamos que tenha sido com o advento de um tipo de arquivo físico chamado fita cassete. O conceito de álbum, obras musicais produzidas pelo artista, muitas vezes conceituais, pensadas da capa à última música, começou a desmoronar. As pessoas tinham 60, 90 minutos para gravar o que quisessem e muitos faziam coletâneas descriteriosas. Mas não foi tão grave, muitos ainda gravavam LP's nas fitas e tinham discotecas portáteis. Contudo, o compact disc, um disco digital com maior capacidade e possibilidades de armazenamento, só veio a piorar as coisas: eram 80 minutos no mínimo ou horas intermináveis com os tais arquivos MP3, este por certo você já ouviu falar?
O homem de uniforme laranja concordou com a cabeça e então o outro prosseguiu:
- Este sim foi o começo do fim: o MP3. Cada vez mais compactaram-se aparelhos, as possibilidades de agrupamentos de arquivos musicais eram infinitas. Aparelhos portáteis cada vez menores no tamanho mas com cada vez maior capacidade interna. Todos só faziam compilações pessoais. Os álbuns foram deixando de existir. Para eles, lá em cima, era perfeito. Enquanto as pessoas ouvissem música em seus aparelhos apenas para ir ao supermercado, correr, fazer musculação, cada vez mais iam perdendo os critérios, o senso crítico, iam pensando cada vez menos...
Baixou a cabeça como a lamentar pelo que estava relatando mas tomou novo fôlego e continuou:
- Mas não era suficiente, você entende? Tinham que se certificar que não estivéssemos ouvindo uma obra inteira nos nossos aparelhos, que não tivéssemos a contestação sarcástica de um Dylan, a fúria de um Kurt Cobain, o ódio de um Johnny Rotten, a politização de um Bob Marley. Nada que nos fizesse pensar. Aí começaram as proibições. Primeiro passou a ser proibido ter aparelhos antigos em casa. Toca-discos, 3 em 1, gramofones, tudo o que tocasse os antigos discos de vinil.
- O que eram esses... discos de vinil? - perguntou o ouvinte.
- Eram os LP's dos quais falei. Discos, disco mesmo. De mais ou menso 30 cm de diâmetro, havia menores, os compactos, mas a maioria eram os grandes, conhecidos como bolachões. Tinham faixas gravadas em ambos os lados e eram reproduzidos em aparelhos giratórios, mais comumente a 33 e 1/3 rotações por minuto, pelo contato de uma agulha que lia sua superfície. A agulha ia deslizando da borda externa para dentro e assim que chegava no limite interno era necessário que se levantasse a agulha, virasse o disco para se ouvir o outro lado.
- Pouco prático, não? - observou o outro que até então apenas ouvia atento.
- Até pode parecer, mas você não imagina o prazer que dava em sentir o primeiro contato da agulah com o vinil. O chiado que fazia ao roçar nele, a expectativa para o final de cada lado e para o início do outro...
Montag não entendeu muito bem mas acreditou que provavelmente tratasse de algo especial.
- Mas então? Como chegamos a este ponto? Como as coisas são hoje.
Retomou então o homem:
- Bem... não é difícil imaginar. Em seguida aos discos proibiu-se os CD's, os dispositivos portáteis, a compra de arquivos em bloco ou de um mesmo artista, os downloads passaram a ser monitorados pelo governo, foram proibidas então as músicas com letra, instrumentos e por fim, percebendo que até um Beethoven, um Sivuca ou um Glass podem estimular pensamentos mesmo sem palavras, resolveram criar a Rádio Estatal e esse o som que sai das paredes. O único som que é permitido. É lobotômico, você sabia? Deve-se evitar ouvi-lo prolongadamente. Mas a população ouve. Gostaram da música do governo. Aliás o povo sempre foi assim, gosta do que der pronto para ele.
Suspirou fundo, olhou na direção das árvores:
- O K7 até voltou a ganhar alguma força no submundo mas tão logo os homens souberam iniciaram uma nova onda de perseguições e buscas. E é aí onde você entra.
- Mas eu não sou mais um coletor – defendeu-se rapidamente Montag – Eu, eu... durante uma busca para coleta eu peguei um aparelho. Eu não o coloquei na prensa. Guardei no bolso. Eu o levei para casa e consegui ouví-lo. Ainda usei os fones de ouvido da Central, mesmo. Os que usamos para sermos avisados das buscas. Eu ouvi.
- O que você ouviu, Montag. É este o seu nome, não? Montag?
- Sim, é. No aparelho, um reprodutor de MP3 havia um arquivo chamado “Help”. Eu ouvi aquilo... havia uma música chamada “Yesterday”. Ela simplesmente... me fez chorar. Não sabia que músicas podiam fazer isso com a gente.
- Oh, sim... Eles eram conhecidos como The Beatles. Dizem que foram os maiores. “Help!” foi um grande álbum – confirmou o outro com ar de satisfação – A música é muito poderosa. Por isso não querem que as ouçamos.
- Quer ficar conosco?
- Adoraria. Ainda mais agora que sou uma espécie de “ameaça ao governo” - riu.
- Pois bem, aqui somos apenas uns 80, mas há muitos outros em muitas outras colônias clandestinas como esta pelo mundo afora. Pessoas dispostas a manter vivo o encanto, a magia e o ideal dos artistas e das suas obras fonográficas. Não foi pensado! Na verdade tudo começou meio que por acaso. Um homem aqui, outro ali, amante incondicional de música tratou de guardar no lugar mais seguro e intransponível, seu cérebro, no mínimo, uma música que amasse muito. Todos os detalhes possíveis, a melodia, a entonação, a batida, um ruído secreto. São homens-música. Deu-se que calhou de juntarmo-nos aqui e nestes outros lugares que falei, onde o governo ignora ou prefere que fiquemos desde que não “importunemos” sua ordem. O que eles não sabem é que assim que temos notícia de que uma outra “música” que faça parte de uma obra esteja pronta, tratamos de trazê-la para cá ou levá-la para onde possa compor um álbum. A propósito, não me apresentei, sou “Águas de Março” de Tom Jobim.
E apontou adiante mostrando:
- Aquele ali é “Non, Je Ne Regrete Rien”, de Édith Piaf; aquele outro sentado é “Little Red Rooster”, de Willie Dixon, na versão de Howlin' Wolf; aquele outro é “Anarchy in the U.K. Dos Sex Pistols; aquela moça bonita de vermelho é “Venus In Furs” do Velvet Underground. E vê aqueles todos juntos? Aquelas nove peassoas? Conseguimos reunir todas as músicas do “Let It Bleed” dos Rolling Stones – sorriu com satisfação.
- Não é fácil – continuou- Nem sempre conseguimos reunir álbuns inteiros, às vezes temos 4, 5 homens-música mas os outros estão espalhados por aí, por outras colônias, ou simplesmente vagando solitários com sua música favorita guardada em sua cabeça até que um dia as músicas sejam permitidas novamente e que aqueles clássicos possam voltar a serem gravados. Você ainda tem o aparelho? O arquivo?
- Sim, sim. Eu trouxe na fuga – apressou-se em mostrar, tirando do bolso.
- Acha que pode decorar sua letra, melodia, os detalhes de sua percussão? Acha que consegue identificar os instrumentos?
- Creio que sim.
- Pois então, ouça bem, ouça quantas vezes precisar e trate de gravar na sua mente. Assim que tiver terminado faremos o que você sempre fez, destruiremos o arquivo para que o governo não tenha motivo para prender qualquer um de nós. Temos alguns fones velhos se precisar.
- Eu gostaria muito.
- Vamos lá. Vamos à cabana buscar – conduzindo Montag com a mão em seu ombro.
No caminho para a choupana que lhes servia de alojamento, passaram por uma menina de uns dezessete anos que cantarolava alto o suficiente apenas para que quem estivesse perto dela conseguisse ouvir, “in dreams i walk with you...”. Era “In Dreams” de Roy Orbison.


Cly Reis

Pix


terça-feira, 6 de agosto de 2013

Stevie Wonder - “Songs In The Key Of Life” (1976)





“Songs In The Key Of Life’é apenas
um aglomerado de pensamentos
no meu subconsciente que meu Criador
decidiu me dar como força,
amor + amor – ódio = energia do amor capaz de fazer 
o possível para
trazer 
à minha consciência 
uma ideia.
Uma ideia para mim
é um pensamento formado
 no subconsciente,
o desconhecido e, 
por vezes,
aquilo que se procura no impossível.” 
Stevie Wonder
texto do encarte original



Chegou a hora de falar de um monumento da música do Século XX e que vai ficar pra sempre na vida de todo mundo: “Songs In The Key Of Life”, de Stevie Wonder. Conheci este disco nas ondas da Continental Superquente 1120, em 1976. A rádio começou a tocar o primeiro de muitos hits do disco, "Isn't She Lovely". E aí me apaixonei. Comprei o disco em 1979 e começou uma longa história de amor e devoção com este disco com D maiúsculo.

Ele começa com um gospel wonderiano de arrepiar chamado "Love's in Need of Love Today". Nela, todos os instrumentos são tocados por ele - especialmente os sintetizadores -, a não ser uma percussão incidental. Os vocais também são todos de Stevie, que se esmera em criar um efeito de coral de igreja batista norte-americana. Um começo de impacto. O Stevie religioso se manifesta com "Have a Talk With God", na qual novamente está no comando de todos os instrumentos. Nela, SW diz: "Quando você achar que a vida está muito difícil/ apenas tenha uma conversa com Deus". Religiosidade sem pregação. "Village Ghetto Land" mostra o lado de preocupação social. Os sintetizadores - uma obsessão wonderiana na época - tão o tom sombrio de um gueto cheio de violência, lixo e descaso das autoridades.

Na sequência, uma das surpresas do disco: uma faixa instrumental chamada "Contusion". Uma espécie de homenagem de Stevie ao guitarrista Jeff Beck, que participou de vários discos dele durante a década de70 e recém havia lançado o também monumental "Blow by Blow". "Contusion" não ficaria mal como bonus track do disco de Beck. Comandada pela guitarra de Michael Sembello (que faria sucesso no começo dos anos 80 com "Maniac", lembram?) a música ganha os vocais de SW e outros vocalistas e se transforma em um fusion soul. Só ele mesmo poderia fazer algo do gênero. Pra fechar o Lado 1, um tributo ao mestre Duke Ellington e ao jazz: "Sir Duke" tem um naipe de sopros que faz lembrar a big bands de Duke e Count Basie, entre outros. O arranjo esperto de SW faz a gente bater o pé numa batida irresistível. Uma delícia!

No formato vinil, o lado 2 começa com Stevie recordando seus tempos de criança em Detroit, já cego em "I Wish". Nela, SW manda ver na bateria, base de todo o arranjo. Tirando o baixo de Ben Watts e os sopros, Stevie comanda o show dizendo "Eu gostaria que aqueles dias pudessem voltar uma dia / Eu gostaria que aqueles dias nunca tivessem desaparecido". Uma evocação da infância difícil, mas de muita luta. Foi lá que ele começou a tocar os primeiros instrumentos. Depois deste momento balançado de memória, vem a minha música preferida por motivos sentimentais: "Knocks Me Off My Feet". Uma balada tendo o piano como base, mas a letra é que dá o tema: "Não quero te incomodar/mas tem alguma sobre o teu amor/ que me faz fraco e me deixa fora de mim", numa tradução nada literal. Linda canção e que me emociona sempre que a ouço. E vendo ouvindo há mais de 30 anos. Isso é o que se pode chamar de uma música que fica contigo. Lembranças sentimentais à parte, vem "Pastime Paradise", cujo riff de sintetizadores imitando cordas virou a base de "Gangsta Paradise" de Coolio na década de 90. Novamente, as preocupações sociais de Stevie Wonder afloram: segregação, exploração, mutilação são os problemas que ele aponta. A solução deve ser integração, consolação, salvação para a paz no mundo. Tudo temperado com coro de Hara Krishnas e de uma igreja de Los Angeles.

É neste disco que Stevie dá vazão à suas indagações sobre o mundo. Contextualizando: os Estados Unidos tinham passado por uma tempestade social com o caso Watergate, a crise do petróleo e o crescimento da violência urbana, especialmente nos guetos. Estes fatos iriam desembocar nos anos 80 com o surgimento do rap e do hip hop, levando adiante a mensagem de Wonder. "Summer Soft" inicia como mais uma balada de SW, mas se transforma na segunda parte, quando o destaque fica com o órgão pilotado pelo grande Ronnie Foster (cuja importância para a música brasileira acontece em 1982, quando produz "Luz", o grande disco de Djavan). "Ordinary Pain" também tem uma ligação com a MPB. Em 84, no seu disco "Fullgás", Marina Lima fez uma versão da primeira parte desta música ("Pé na Tábua") . Mas SW foi engenhoso. Faz uma música de amores perdidos e a divide em duas, apresentando a versão masculina, suave, e a feminina, uma funkeira cantada por Shirley Brewer.

O Lado 3 começa com Aisha, a filha recém nascida de Wonder chorando. Esse choro se transforma na batida irresistível de "Isn't She Lovely", uma das canções mais conhecidas dele. O solo de harmônica desta canção é das melhores performances instrumentais que eu já ouvi. Um mega hit merecido e cantado até hoje nos shows, onde Stevie apresenta Aisha já adulta - e maravilhosa! "Joy Inside My Tears" traz SW outra vez no comando de todos os instrumentos, excetuando os teclados de Greg Phillinganes. Esta é daquelas canções que vão te pegando aos poucos. São necessárias várias audições pra entrar no clima. Mas depois te garanto, tu vais sair na rua cantando o refrão "You, you, you / have made life history / You brought some joy inside my tears".

"Black Man" é a epítome da preocupação de Wonder em integrar todas as raças. Ele traz para o final da música um professor que pergunta aos alunos questões sobre aventureiros, descobridores, políticos que tiveram grande feitos e as crianças respondem a raça de cada um deles. Brancos, negros, índios, todos mencionados e mostrando que somos iguais. Uma bela mensagem de integração numa base funk. Fechando o disco, o lado 4 abre com uma preciosidade: "Ngiculela", onde Wonder canta uma história de amor em uma língua africana, em espanhol e em inglês, sobre uma base instrumental feita somente por ele. Mágico, assim como a próxima faixa. "If It's Magic" é outra surpresa. O arranjo traz Dorothy Ashby na harpa e Wonder no vocal e na harmônica somente no final. Suavidade e beleza num momento de reflexão.

Na sequência, Stevie traz ninguém menos que Herbie Hancock pra pilotar o piano elétrico Fender Rhodes em "As", outra música de amor onde ele declara sua paixão dizendo que "Eu sempre te amarei/ Até que os arco-íris queimem o céu/ Até que os oceanos cubram todas as montanhas/ Até que a Mãe Natureza diga que seu trabalho está pronto". Nada vai impedir Stevie de sentir este amor por uma mulher, pelas crianças e pela humanidade. E se você conseguir ficar parado nesta canção, é porque está morto!!! Fechando o disco original, vem um petardo dançante chamado "Another Star" com as participações de George Benson na guitarra e Bobbi Humphrey na flauta. Stevie compreende o ideário pop e faz a gente cantar o tempo inteiro com um coro de backing vocais entoando apenas "lálálá". Impressionante o comando que ele tem das formas musicais que formam o que se convencionou chamar de "música pop". E o tempo todo em "Songs in The Key of Life” somos surpreendidos pelas sacadas geniais que ele arma, transformando e transmutando as formas do soul, do jazz, do funk, do gospel. Uma hora com um grupo convencional de guitarra, teclados, baixo,bateria e percussão. E em outra fazendo dos sintetizadores uma orquestra de cordas ou um órgão de igreja para passar sua inquietação sobre os destinos do mundo. Tudo isso em 1976!

No disco original ainda vinha um compacto duplo (vocês sabem o que é isso? Um disquinho de vinil com duas músicas de cada lado). A primeira é "Saturn", na qual tirando duas guitarras e um teclado, ele toca todos os instrumentos e faz todas as vozes. "Ebony Eyes" tem sabor de bubblegum pop com a novidade daquele momento, o talk box, que Peter Frampton tinha popularizado em seu disco "Frampton Comes Alive". Destaque também pro solo de sax de Jim Horn. "All Day Sucker" é um funkão que traz três guitarras (!!) fazendo a base para Stevie e os backing vocais de Carolyn Denis. E o compacto termina com ma faixa que se poderia chamar de balada jazzy chamada "Easy Goin' Evening (My Mama 's Call)”. O Fender Rhodes e a harmônica tocam a melodia, enquanto Nathan Watts faz a base para este final sereno de um totem da música de todos os tempos. Se você não conhece, aqui vai um presentinho do tio Paulo Moreira: logo abaixo um link para o disco completo. Desculpem o tamanho do texto, mas um disco desses merece!

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FAIXAS:
1. "Love's in Need of Love Today” - 7:06
2. "Have a Talk with God" (Wonder, Calvin Hardaway) - 2:42
3. "Village Ghetto Land" (Wonder, Gary Byrd) - 3:25
4. "Contusion" - 3:46
5. "Sir Duke" - 3:54
6. "I Wish" - 4:12
7. "Knocks Me Off My Feet" - 3:36
8. "Pastime Paradise" - 3:28
9. "Summer Soft" - 4:14
10. "Ordinary Pain" - 6:23
11. "Saturn" (Michael Sembello, Wonder) – 4:54
12. "Ebony Eyes” – 4:11
13. "Isn't She Lovely?" - 6:34
14. "Joy Inside My Tears" - 6:30
15. "Black Man" (Wonder, Byrd ) - 8:30
16. "Ngiculela” “(Es Una Historia)” “(I Am Singing)" - 3:49
17. "If It's Magic" - 3:12
18. "As" - 7:08
19. "Another Star" - 8:28
20. "All Day Sucker" – 5:06
21. "Easy Goin' Evening (My Mama's Call)" – 3:55

todas de Stevie Wonder, exceto indicadas

(ordem da versão em CD)

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OUÇA:




quarta-feira, 31 de julho de 2013

cotidianas #237 - Informação Demais


- Temos o seu filho.
- O que?
- Temos o seu filho - repetiu a voz do outro lado da linha.
- Ah, para com essa palhaçada. Muito bom dia.
 E já ia desligar o telefone, convicto de se tratar de uma brincadeira ou  um trote, quando a voz confirmou:
- O Pedro, não é? Peguei seu filho Pedro no intervalo no Dom João V. Eu disse que trabalhava com o senhor, senhor Ronaldo, na Prisma TX. Não é lá que o senhor trabalha?
Não era brincadeira. Não era trote. O homem sabia demais. Sabia tudo da vida dele! As informações batiam. Como poderia confirmar se o filho estava na escola ou não. Poderia discretamente usar o celular enquanto falava com o suposto sequestrador.
Não. Não tardou em ser advertido.
- Nem tente usar o 9633-1204. Eu estou monitorando. Se alguma ligação sua sair do seu celular, eu não garanto pela integridade do Pedrinho. Acho que a dona Selma não ia gostar nada se alguma coisa acontecesse com o garotinho dela.
Não estava brincando. Sabia tudo da vida dele. Como sabia tanto. Seria alguém próximo, um 'amigo', um vizinho, 'um ex-namorado da esposa. O que quereria/
- Tá bom... O que você quer?
- R$150.000,00.
- Eu não tenho isso!
- Tem sim, que eu sei. Além da Prisma tem sua outra atividade, não?
Até disso ele sabia. Como? Não tinha jeito, era o filho. Não podia barganhar. Não tinha todo o dinheiro mas tinha bastante. Podia conseguir.
- Tá bom, tá bom. como é que eu faço.
O homem do outro lado da linha deu as instruções, ele anotou e se comprometeu a, de maneira alguma envolver polícia. suas ligações estavam sendo monitoradas, afirmava o criminoso. Não correria o risco. Não pelo filho. Desligou o telefone e foi até o banco.
Do outro lado, o homem, levando ao gancho o fone no telefone público, na calçada em frente ao prédio onde o senhor Ronaldo morava, conseguia dali mesmo ver o carro do otário cheio de adesivos: "Pedro a Bordo"; "Eu amo minha esposa - Selma você é tudo pra mim"; "Colégio Dom joão V - excelência em educação"; "Prisma TX Comunicação e Marketing" e ainda "Quer ganhar R$5.000 por dia trabalhando em casa? Pergunte-me como - 9633-1204".
Conta fácil: R$5.000,00 por dia, 30 dias R$150.000,00.
Ele devia ter isso. Se não tivesse tudo, teria uma boa quantia.

sábado, 27 de julho de 2013

cotidianas #236 - Encontro


"Muito falaram de mim nestes últimos tempos, disse-me Deus. Numerosos ecos chegam a meus ouvidos. é até mesmo um pouco embaraçosos. Sim, eu sei, estou na moda. Mas tudo o que dizem de mim o mais das vezes não me agrada muito e acontece mesmo que não o compreenda absolutamente. Assim, por exemplo, vós que sois d ofício (não vos ocupais da literatura?), vós devereis dizer-me de quem é esta pequena frase que, em meio a tantos disparates, me agradou: "Não se deve falar de Deus senão naturalmente..."

- A pequena frase é minha- disse enrubescendo.

- Pois bem. Então escuta-me - disse Deus, que a partir deste momento me trata por tu. - Alguns desejariam sempre que eu interviesse e perturbasse para eles  a ordem estabelecida. Seria complicar demasiado as coisas, e trapacear, se eu não permanecesse fiel às minhas leis. Que aprendam um pouco melhor a submeter-e a elas, que compreendam que é dessa maneira que melhor proveito tirarão delas. O homem pode mais do que imagina.

- O homem está na merda - disse eu.

- Pois que saia dela - continuou Deus; é para patentear-lhe a minha estima que deixo safar-se sozinho.

E mais ainda:

-Seja dito que isso não me deu tanto trabalho assim. Aconteceu naturalmente. Tudo nasceu, como que independente da minha vontade (...) De modo que a menor vergôntea, em se desenvolvendo, me explica melhor a mim mesmo que todos os raciocínios dos teólogos (...)

- Devo confessar-te ainda que estou grandemente desiludido com os homens. Os que mais se dizem meus filhos a pretexto de me adorar voltam as costas a tudo o que par eles eu preparei na Terra. Sim, precisamente os que me chamam de pai. E como podem supor que eu possa me comprazer em vê-los emagrecer, sofrerem e privarem-se por amor a mim?

Realmente, isso me interessa muito! 

Escondi meus mais belos segredos nas moitas, como vós fazeis com vossos filhos na páscoa. Gosto principalmente dos que se esforçam por achá-los."



trecho de "Os Novos Frutos"
de André Gide


sexta-feira, 26 de julho de 2013

Black Grape - "It's Great When You're Straight... Yeah" (1995)


"Shaun Ryder nos Happy Mondays não era eu.
Ele era uma caricatura"
Shaun Ryder,
da autobiografia “Twisting my Melon”



“Os Happy Mondays nunca mais haviam gravado nada de muito interessante. Não como Happy Mondays”.

Assim terminei a resenha do disco "Pills 'n' Thrills and Bellyaches", aqui nos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS. Pois é. Pois não é que pouco tempo depois de anunciarem o fim da banda, apareciam com um novo projeto, encabeçado pela dupla de frente do Happy Mondays, Shaun Ryder e o dançarino Bez? Era o Black Grape.

Contando com músicos de diversas outras bandas, um DJ, metais, percussionistas, o som dos ex- Mondays aparecia agora ainda mais dançante, mais black, incrementado com elementos rap, hip-hop, funk e reggae, e “It's Great When You're Straight... Yeah” de 1995, seu álbum de estreia soa como uma grande festa cheio de vibes, fanfarras e curtição.

“Reverend Black Grape”, que abre o disco já dá o tom, numa faixa embalada, cheia de funk, tempero e salvas, com uma harmônica marcante e gostosa que pontua a canção ao longo de sua duração. Uma nova religião estava sendo inaugurada e o seu líder era um reverendo devasso! A ótima “In the Name of the Father”, com ares meio indianos, teve inclusive um trecho adaptado para o tema do filme “Madagascar'; a irônica “Kelly's Heroes”, mais rockada, tem uma guitarra sobreposta aos outros instrumentos, que conduz a música de maneira vibrante; a chapada “Tramazi Party”, aludindo aos 'comprimidinhos' das festas, cheia de metais, é louca, frenética e muito legal; “Shake Well Before Opening” lembra muito “Bob's Yer Uncle” dos próprios descendentes; “A Big Day in north” vai numa levada mais lenta e sensual; “Shake Your Money” tem um embalo todo reggae, num clima mais ameno; e “Little Bob”, encerra a festa em grande estilo, mantendo o clima lá em cima,  num encerramento digno de um grande álbum.

Era como se fosse o Happy Mondays com outro nome tendo acompanhado a evolução sonora daquele tempo, as tendências, os recursos, o momento. Se era o que tinha que acontecer para que voltassem a fazer um grande disco, que fosse. O resultado deu certo.

Ao que parece, soube por alto, os Happy Mondays estão de volta à ativa, mas sem o mesmo brilho de outrora, ou mesmo sem o brilho do próprio Black Grape. Uma sugestãozinha apenas: já pensaram em mudar de nome de novo?

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FAIXAS:
  1. " Reverend Black Grape " – 5:12 
  2. "In the Name of the Father" – 4:21 
  3. "Tramazi Parti" – 4:45 
  4. "Kelly's Heroes" – 4:22 
  5. "Yeah Yeah Brother" – 4:10 
  6. "A Big Day in the North" – 4:10 
  7. "Shake Well Before Opening" – 5:40 
  8. "Submarine" – 3:50 
  9. "Shake Your Money" – 4:13 
  10. "Little Bob" – 5:33

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Ouça:

Happy Mondays - "Pills'n' Thrills and Bellyaches" (1990)



“Eu vi os Happy Mondays na TV
e eles me lembraram os Beatles
da fase “Strawberry Fields.”
Paul Mc Cartney



Eles foram praticamente os responsáveis pela falência da gravadora que lançou o Joy Division. Tá certo que a Factory era administrada de uma maneira um tanto amadorística pelo ilustríssimo Tony Wilson  mas a viagem para Barbados pra a gravação de um álbum, estourando prazos, orçamento e o saco de todo mundo foi a gota d'água para o já moribundo selo de Manchester. Mas antes de afundar a gravadora, os Happy Mondays foram responsáveis por um dos grandes discos dos anos 90, altamente influente e, de certa forma, um dos precursores da mistura de rock com a house-music. “Pills'n' Thrills and Bellyaches”, embora não fosse um disco eletrônico, tivesse guitarras distorcidas e riffs bacanas, pelas levadas dançantes, pela psicodelia, pelas repetições, pelas programações de bateria e vocais femininos ocasionais, de certa forma reproduzia as diretrizes dos estilos que ganhavam força nas pistas de dança naquele início de anos 90. A clássica “Bob's Yer Uncle” que o diga, com seu ritmo gostoso, sensual, embalado, seu tecladinho grudento e os gemidos femininos no refrão. Exemplar bem característico da mistura do pop britânico com os principios das pistas de eletrônico. Estupenda!

“Loose Fit”, apesar de mais cadenciada também remetia à dance-music, com seu riff infinitamente repetido e programação de bateria constante com tons latinos, assim como “God's Cop” com uma guitarra rascante e cortante mas cheia de funk e embalo. “Holiday”, alegre, ritmada, festiva, de levada de guitarra muito bacana; e “Step On”, com uma linha de teclado gostosíssima, todo seu balanço e uma espécie de vocal “Pica-Pau” também traduzem bem o espírito e ênfase do álbum.

A ótima “Kinky Afro”, um pop rock swingado que abre o disco, foi centro de polêmica por conta do verso “I had to crucify some brother today” pelos quais a banda foi acusada de racismo. A polêmica nunca foi totalmente esclarecida mas, talvez pelo fato da música ser tão legal, tão bacana, tão boa, a maioria das pessoas não deu muita importância para se era ou não, e preferiu dançar, alienadamente ao ritmo dela.

Dois detalhes interessantes sobre a banda: um deles é que o nome Happy Mondays era exatamente uma alusão às avessas à música “Blue Monday” do New Order, como que indicando uma ideia de contramão ao cenário musical do momento.

O outro é que a banda, composta originalmente por Shaun Ryder nos vocais, seu irmão, Paul no baixo, Mark Day nas guitarras, Paul Davis no teclados e programações, e Gary Wheelan na bateria, tinha ainda um integrante quase que simbólico. O carismático Bez, um amigo dos rapazes, parceiro de noitadas, que para não constar que não tocasse nenhum instrumento, creditavam-lhe as maracas, sendo que nos shows, na maior parte das vezes, apenas dançava no palco com uma performance absolutamente singular.

Embora tenham marcado aquele início de anos 90 com um dos gfrandes discos do período, Os Happy Mondays nunca gravaram mais nada de muito interessante. Não como Happy Mondays, pelo menos. Pouco tempo depois do anúncio do fim da banda, surgiram com o interessantíssimo projeto Black Grape, que de certa forma dava continuidade ao trabalho original do grupo, mas com outro tipo de leitura. Mas isso é assunto para um outro ÁLBUM FUNDAMENTAL.

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FAIXAS:
  1. "Kinky Afro" – 3:59
  2. "God's Cop" – 4:58
  3. "Donovan" – 4:04
  4. "Grandbag's Funeral" – 3:20
  5. "Loose Fit" – 5:07
  6. "Dennis and Lois" – 4:24
  7. "Bob's Yer Uncle" – 5:10
  8. "Step On" (John Kongos, Christos Demetriou) – 5:17
  9. "Holiday" – 3:28
  10. "Harmony" – 4:01
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Ouça:

O Frango Atirador