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terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Donald Fagen - "Kamakiriad" (1993)



“O ápice da música pop:
Steely Dan e os solos Donald Fagen.
Eu nunca escutei NADA melhor e mais inteligente que isso.
Numa coleção de quase 30 mil discos esses são meus favoritos,
poderia escutar somente isso a vida toda.
Está tudo sintetizado numa coisa só:
soul, pop, jazz, rock, broadway, soundtrackish jazz, folk, funk, reggae, etc.”
Ed Motta


Gosto do Steely Dan desde 1972, quando ouvi na Continental 1120, pela primeira vez “Do It Again”. Meu próximo encontro com a banda seria dois anos depois quando “Rickie, Don't Lose That Number” fez sucesso. Mas só fui levar a banda a sério aos 17 anos, quando ouvi “Aja”. Claro que não entendi de imediato aquela mistura de música pop com jazz, já eu que estava me iniciando no assunto. Só fui começar a decifrar o SD e virar fã quando saiu o “Gaucho”, que eu comprei na Flora Viaduto o LP usado, mas inteiro, como vários de nós fizeram naqueles tempos.
Toda esta introdução tá aí em cima pra dizer que meu disco favorito da turma não é do Steely Dan, mas do cantor e tecladista do grupo, Donald Fagen, metade da laranja criativa que ele formou com o guitarrista e baixista Walter Becker, depois que demitiu todo mundo e resolveu que era muito mais interessante usar os músicos de estúdio à disposição em Los Angeles e em Nova Iorque.
O disco se chama “Kamakiriad” e foi lançado em 1993, onze anos depois do Fagen colocar nas lojas – e fazer muito sucesso – com seu primeiro trabalho solo, “The Nightfly” e a canção I.G.Y. (International Geophysical Year). Desde 1981, ele e Walter não se falavam. O guitarrista tinha produzido um monte de gente, especialmente a cantora e compositora Rickie Lee Jones em seu CD “Flying Cowboys”. Mas, em 1993, resolveram deixar de lado as diferenças e partiram para a produção do segundo disco solo de Fagen. E deu muito certo.
“Kamakiriad” é uma viagem conceitual beirando a science-fiction. Fagen inventou um carro, o tal Kamakiriad, que é autossustentável, tem até uma horta hidropônica dentro. E as faixas do disco contam os passeios malucos que Fagen faz dentro deste veículo maluco. Parece disco de bandas de prog rock mas não é. Tem um balanço e um swing digno dos melhores trabalhos do Steely Dan. Confesso que minha escolha por este disco é puramente sentimental. Comprei ele em 93 e nunca consegui parar de ouvir nestes 20 anos.
As viagens de Fagen em seu “Kamakiriad” começam com “Trans-Island Skyway”, onde Becker e o outro guitarrista Georg Wadenius criam uma teia de sons, enquanto o baixo (também tocado por Becker) segura o ritmo com o baterista Leroy Clouden. E estamos ouvindo um disco do Steely Dan. Já em “Countermoon”, Donald Fagen faz uso extensivo das possibilidades dos backing vocais, especialmente no final da canção onde Katherine Russell se estrebucha cantando “All Beware!!” sob o sax tenor do havaiano Illinois Elohainu. Como sempre fez. “Springtime” inicia com o baixo e uma percussão que parece ser programada mas não é. Assim como a bateria. Neste disco, fica mais claro o fascínio de Fagen & Becker por um ritmo mais estático, ao contrário dos discos do SD, onde nomes como os dos bateristas Steve Gadd, Jim Gordon, Ed Greene, Bernard Purdie e Jeff Porcaro brilhavam sobre as harmonias intrincadas e jazzísticas da dupla. E como em todo o disco, os sopros estão em contraponto com as guitarras e os teclados.
Esta predileção por steady rhythms - se vocês me permitem o inglês - fica bem marcada em “Snowbound”. Chris Parker mantém a batida, enquanto o órgão Hammond B-3 de Fagen vai pontuando ao lado das guitarras e do naipe de sopros. O fender rhodes tece aquelas harmonias steelydanescas. E a gente vai batendo o pezinho, se o Arthur de Faria me permitir usar esta “figura de linguagem”. “Tomorrow's Girls” é o que de mais aproximado temos no disco de um “hit”. Virou inclusive clip da MTV. Como todas as letras do Steely Dan são quase indecifráveis, devido ao intrincado jogo de palavras e referências que os rapazes criam, o clip também ficou “difícil”. Mas a canção é irresistível. Daquelas que a gente ouve e sai cantando pela rua, mesmo que ela tenha TRÊS refrãos diferentes, dentro da mesma métrica, é claro. Também aqui os produtores dão todo espaço a uma bateria de backing vocais que vão de Amy Helm (filha da mulher de Fagen, Libby Titus com o baterista do The Band, o falecido Levon Helm) aos irmãos Brenda & Curtis King. No final, Becker sola enlouquecidamente sobre uma cama de sopros.
“Florida Room” é uma das preferidas do disco. Tem um clima caribenho. E o refrão fala disso: “Quando o verão se vai / eu me apronto / para fazer aquela corrida pro Caribe / Tenho de ter /algum tempo sob o sol / Quando o vento frio chega / Eu sei onde as dálias florescem / Acabo voltando / pro seu quarto na Flórida”. O naipe de saxofones, trompetes e trombones está presente toda a música, sobre aquele ritmo “latino versão americana”. Mas o destaque absoluto é pro solo de sax tenor do grande e falecido Cornelius Bumpus. Um mestre em colocar as notas certas num espaço exíguo dos compassos que a dupla lhe dava.
Já em “On the Dunes” o clima não é tão ensolarado, pra não dizer sombrio mesmo. Fagen e Bekcer viram tudo do avesso. Começam com teclados e guitarras fazendo esta harmonia durante toda a canção. Na letra, o Kamakiriad para na praia e acontece um homicídio nas dunas, enquanto “barcos bonitos passeiam pela orla/ nas luz que escasseia/ mulheres bonitas com seu amantes a seu lado/ é como se fosse um sonho terrível/ que eu tenho toda a noite”. Mais uma vez, Bumpus manda ver no seu tenor. Entretanto, a estrela total desta canção está nos quase 4 minutos de solo de bateria de Christopher Parker sobre a harmonia final que vai se mantendo, como se fosse um ostinato. E não é um solo comum. Parker vai pontuando dentro dos espaços arquitetados por piano acústico, baixo, guitarras e sintetizadores. Genial.
“Teahouse on the Tracks” é o destino final do “Kamakiriad”, o local onde o narrador desta viagem se encontra com sua garota e diz que ela tem uma última chance de “aprender a dançar no Teahouse on the Tracks”. Aqui de novo, a bateria parece ser programada. Muita guitarra rítmica e teclados fazem a cama onde o trombone de Birch Johnson se esbalda.
Como em todos os discos do Steely Dan, Donald Fagen & Walter Becker trabalham com estruturas reconhecidas pelos ouvidos acostumados com a música pop, mas radicalizam nos detalhes, nas harmonias diferenciadas e na utilização do potencial de cada músico para cada canção. Eles sabem escolher quem vai tocar em seus discos. “Kamakiriad”, por isso, pode ser ouvido despretensiosamente. Mas se você prestar a atenção, tenho certeza que será fisgado.
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FAIXAS:
1. "Trans-Island Skyway" (Fagen) – 6:30
2. "Countermoon" (Fagen) – 5:05
3. "Springtime" (Fagen) – 5:06
4. "Snowbound" (Walter Becker, Fagen) – 7:08
5. "Tomorrow's Girls" (Fagen) – 6:17
6. "Florida Room" (Fagen, Libby Titus) – 6:02
7. "On the Dunes" (Fagen) – 8:07
8. "Teahouse on the Tracks" (Fagen) – 6:09

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OUÇA:

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

"Anarquia na Passarela" vencedor do Prêmio Açorianos 2013 - categoria Ensaio de Litaratura e Humanidades



E não é que no seu debut como escritor, meu irmão e parceiro de blog, Daniel Rodrigues já emplaca seu primeiro prêmio? Pois é. E muito merecido. Seu ótimo "Anarquia na Passarela"  foi agraciado com o prêmio mais importante das letras no Rio grande do Sul na Categoria Ensaio de Literatura. Sinceramente, não conhecia os outros concorrentes, mas pela qualidade do trabalho deste livro que mistura moda com filosofia com música com cultura pop, não me espanto nem um pouco com o resultado.
É isso aí, meu velho!
Parabéns, mais uma vez, e manda ver. Queremos ver outros como este em breve.
Tenho certeza que este prêmio é apenas o primeiro de muitos.
Que estreia, hein!


sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Dois Olhares Sobre Nova Petrópolis (1º/11/13)







Adega da Aldeia do Imigrante
foto: Daniel Rodrigues

Alguém sentado na adega
foto: Daniel Rodrigues

Cats selvagens
foto: Leocádia Costa

Detalhe da fonte do lago
foto: Leocádia Costa

Detalhe do Locomóvel - Aldeia do Imigrante
foto: Leocádia Costa

Duas gerações se encontram na igreja -
Aldeia do Imigrante
foto: Leocádia Costa

Ferraria da aldeia do Imigrante
foto: Daniel Rodrigues

Flores de Nova Petrópolis
foto: Leocádia Costa

Fonte do Lago
foto: Leocádia Costa

Für Frauen
foto: Daniel Rodrigues

Parque do Imigrante, local onde os visitantes
vestem roupas típicas e voltam no tempo
foto: Leocádia Costa


quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Entrevista com Cly Reis sobre a antologia "Os Matadores Mais Cruéis que Conheci" volume II



por Alexandre Durigon
revisor e organizador do livro
"(OMMCQC")vol.II



Clayton Reis é gaúcho, mas vive no Rio de Janeiro,
é arquiteto, cartunista, amante de música, literatura, cinema,
criador e editor do blog ClyBlog
 e um dos autores participante
s da coletânea
“Colorados – Nada Vai nos Separar”,
publicado pela editora Multifoco em 2012. 
Alexandre Durigon: Clayton, como você e a literatura se conheceram?
Cly Reis: O curioso é que relutei um pouco para aceitar a literatura na minha vida. Meu pai sempre teve muitos livros em casa, embora hoje eu consiga avaliar que não tivesse grande exigência de qualidade. Mas sempre me estimulou a ler. Tinha muitos best-sellers em casa, daqueles ordinários, tipo Sydney Sheldon, Marguerite Yourcenar e coisas do tipo, só que sempre no meio disso tudo um Cervantes, um Stoker, um Machado. Comecei a ler por essa espécie de 'pressão' dele, mas ainda sem prazer. Depois veio a época das fichas de leitura pra colégio, o que me incomodava por estar lendo coisas impostas contra a minha vontade. Aí desperdicei algumas boas leituras em nome dessa rebeldia lendo com desinteresse, fazendo de conta que lia, copiando fichas dos outros ou pegando livros fininhos pra acabar logo. O gosto mesmo acho que veio com o interesse por música, por rock. As inúmeras ligações que ambos têm. O fato de uma música do Cure ser baseada em Camus; de um Renato Russo querer ser Rosseau; de um álbum da Siouxsie remeter ao reino do espelho da Alice; de Morrissey ser apaixonado por Wilde; e mais tantas outras ligações e referências. Foi uma espécie de descoberta da palavra. As letras de música me mostraram um pouco disso. O quanto às palavras são belas e como podem adquirir tantas formas.



AD: Por que a profissão de escritor lhe interessou?

Cly: Na verdade, acho que não posso tratar as coisas nesses termos ainda. Não se trata, no meu caso, de uma profissão, embora a possibilidade me encante muito. Gosto muito de escrever. Gosto da liberdade da palavra e, como disse, de todas as possibilidades que ela oferece. Tive uma banda, de duração muito efêmera, na qual explorávamos exatamente isso: a liberdade. O que conseguíssemos tirar de um conjunto de palavras era aproveitado, frases desconexas podiam ser interessantes, contar uma estória no formato musical era válido, fazer uma paródia inteligente era algo estimulante. Acho que aí que comecei a escrever mesmo. Sem vergonha, sem filtros, valorizando o que saía de mim.
Fui muito estimulado também por três escritores, fundamentalmente: André Gide, que embora tenha um texto mais formal em determinada fase, defendia essa liberdade de escrita. Nunca vou me esquecer de quando li a introdução de "Os Frutos da Terra" e ele dizia ali "escrevi este livro numa época em que a literatura cheirava a mofo". Aquilo me fascinou e, efetivamente, o livro não obedece a nenhuma regra de ordem, formato ou conceito.
Também por Clarice Lispector e suas descrições apaixonadas pelo ato de escrever, como "escrever é uma pedra lançada num poço fundo", ou, "escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando esta palavra morde a isca, alguma coisa se escreveu...". Notável!!!
E, por último, mas fundamentalmente, Charles Bukowski que, digamos assim, me tirou o medo de parecer fraco, ridículo, pretensioso ou incapaz. Sua garra, sua vontade de escrever, sua qualidade, sua crueza, sua simplicidade me seduziram. Quando escreveu "Não há nada que impeça um homem de escrever a não ser que ele impeça a si mesmo (...) A rejeição e o ridículo apenas lhe darão mais força.", aquilo parece que tinha sido escrito para mim. Acho lindo quando ele diz, "Não há perdas em escrever, faz seus dedos dos pés rirem enquanto você dorme; faz você andar como um tigre."



AD: Por que participar de uma antologia?
Cly: Exatamente por não ser um escritor profissional, me parece uma boa oportunidade de, por enquanto, mostrar meu trabalho de uma maneira mais ampla. Internet é ampla, mas determinados tipos de conteúdo tem que atingir um público específico e como sabemos, nem todo mundo lê o que está na internet. Muita gente vê um texto grande e já se assusta, só passa os olhos. Acho que a impressão papel direciona para quem realmente está interessado em determinado assunto. A pessoa não comprará, não pegará emprestado um livro, não manterá na bolsa, se não tiver um mínimo de interesse por aquilo. E me interessa que cause interesse. Eu quero ser lido.



AD: Fale um pouco sobre a (OMMCQC) II?
Cly: Gostei da proposta. Essa coisa de assassinos, matadores, maneiras de matar. Meu irmão que também escreve, foi quem me avisou que havia uma seleção de textos aberta e, como no meu blog, não raro tenho algum conto nesta linha, foi só selecionar um que considerasse que teria boas chances de entrar.



AD: Como você define o processo que envolve a compilação de uma antologia?
Cly: Na verdade, nós, autores selecionados, não participamos disso de forma muito direta, embora, em particular neste caso, da antologia (OMMCQC) II, o editor mantenha-nos sempre bastante atualizados sobre as etapas que estão acontecendo. Pelo que percebo, ainda que o trabalho seja árduo e intenso, desde as escolhas até a publicação, parece-me extremamente prazeroso e compensador. Logicamente que envolve muita dedicação e vontade, mas parece trazer suas compensações. 



AD: Como você vê o mercado editorial brasileiro para os novos autores?
Cly: Eu ainda preciso 'experimentá-lo' de maneira mais efetiva mas ele me parece menos assustador do que se me afigurava antes. Me parece que quem quer, QUER MESMO, e tem qualidade, de uma maneira ou de outra acaba publicando. As oportunidades estão por aí, é só procurá-las e ter perseverança.



AD: Em sua opinião, é possível viver de literatura no Brasil?
Cly: Acho que sempre representa um temor a possibilidade de viver de arte no Brasil. Parece impossível a não ser que já se traga algum sobrenome, uma fama momentânea, um 'paitrocínio' ou algo do tipo. Posso estar enganado. Espero estar enganado. Sinceramente, acho que não correria um risco dessa natureza. Mesmo que venha a engrenar uma carreira de escritor em algum momento, sinto que deva manter uma outra atividade mais estável.



AD: De que maneira a internet atua em sua vida de escritor?
Cly: Ah, para mim, atualmente é meu meio. É meu canal. Coloco praticamente toda a minha produção criativa na internet, no meu blog. Na internet, na verdade, a gente nunca tem certeza de estar sendo lido, muitas vezes o visitante só vai lá e passa os olhos, se acovarda com um texto muito longo, mas só o fato de escrever e colocar ali para quem quer que possa se interessar já é válido. E se uma dessas pessoas realmente ler, apreciar, se fizer um comentário então, já terá sido extremamente compensador.



AD: Fale um pouco sobre o seu conto, "Hoje eu vou comer sua bunda"?
Cly: É um conto do qual gosto muito. Gosto da estrutura dele. Imodestamente, o considero muito bom nesse sentido. As passagens de tempo, os pontos de convergência, o desenvolvimento, a aceleração e desaceleração, são méritos de construção que só o bom leitor consegue perceber.
A minha matadora, anônima na verdade é uma assassina quase casual mas que gostou da coisa, ainda mais pelo fato do novo hobby estar ligado a um fetiche.
O curioso é que muito frequentemente, talvez por uma preocupação subconsciente de não ser interpretado como machista, coloco as mulheres em condição de destaque nos contos e, tendo escrito muitas histórias de assassinatos, frequentemente me aprecem boas matadoras. 



AD: Para encerrar: quais seus planos daqui pra frente? Já tem um livro na manga, projetos, publicações?
Cly: O editor, Afobório, me elogiou de forma muito bonita, o que me estimulou bastante. Tenho uma boa produção de textos nos mais variados estilos, tenho uma crônica já publicada e até agora, 100% de aproveitamento nas tentativas de inclusão em publicações, o que também é muito estimulante. Por enquanto penso em incluir mais alguns contos em outras seleções que abrirem por aí, mas não é de se descartar tentar alguma coisa individual em breve. Também estou com um projeto em andamento de publicação de cartoons e tirinhas, que também são um ponto forte do meu blog, isso ainda é algo em curso, mas que aguardo com muita expectativa.


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*entrevista publicada originalmente na página da antologia no Facebook:
 https://www.facebook.com/pages/Os-Matadores-Mais-Cru%C3%A9is-Que-Conheci/527931777301099?fref=ts

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Ravi Coltrane – 3º Canoas Jazz Festival – Parque Getúlio Vargas - Canoas/RS (24/11/2013)



foto: Paulo Moreira
Cheguei atrasado ao terceiro dia do Canoas Jazz Festival e só vi o final do show do octeto de Luizinho Santos. Mas o que vi só me confirmou o que eu já sabia: que iria ser uma excelente apresentação. Vi todas as outras vezes em que o octeto se apresentou e eles nunca fizeram nada menos do que um concerto espetacular. Peço desculpas ao Luiz e à Bethy por esta falta grave, porém, involuntária da minha parte. Vi inteiro, porém, o show de Alegre Correa. Este guitarrista de Passo Fundo morou fora do Brasil durante muito tempo e agora está de volta à Floripa. No palco com ele, um quinteto, com destaque absoluto para Uilian Pimenta, um pianista que vai dar muito o que falar. No repertório, canções compostas pelo guitarrista que abrem espaço para todos os integrantes da banda solarem. O problema, em minha opinião, é o próprio Alegre que insistiu em fazer vocalises acompanhando seus solos de guitarra em TODAS as músicas, deixando-as umas iguais às outras. Além disso, o som não favoreceu, deixando o líder da banda com um volume abaixo do que se esperava. A aparição de Jorginho do Trompete na última música ajudou a levantar o astral, pois tocou um solo muito bom no flugelhorn.
A coisa começou a esquentar quando o baterista Kiko Freitas subiu ao palco com seu trio, integrado pelo mestre Paulo Russo no baixo acústico - uma verdadeira instituição musical do Brasil - e o não menos exímio pianista gaúcho radicado no Rio, Rafael Vernet. Começando com "Beautiful Love", do repertório do Bill Evans Trio, logo se viu que a magia iria se instalar na próxima hora e não deixaria a cena. De "Prenda Minha", tocada no baixo de Russo, até "Piano na Mangueira", tivemos um concerto memorável. Uma aula de musicalidade e de empatia entre os três integrantes. Kiko até exagerou, iniciando uma versão de "Someday My Prince Will Come" com um solo de bombo legüero! Agora, todos estão esperando por um registro do trabalho deste grupo.
Bem, pra finalizar o "filho do homem" merece um capítulo à parte. Acompanho o trabalho de Ravi Coltrane desde 2000, quando o vi tocar no Free Jazz Festival. Sempre o considerei um bom saxofonista, que conseguia fugir da sombra acachapante de seu pai, um dos pilares do jazz moderno. Mas confesso que não estava preparado para revê-lo com a maturidade e a desenvoltura com que se apresentou em Canoas. Acompanhado por um quarteto formado por excelentes músicos (David Virelles, ao piano, Hans Glawichnig, no baixo acústico, e o impressionante Johnathan Blake na bateria), Ravi desfilou sua técnica exuberante, tanto no sax tenor quanto no soprano.

Mas parecia que faltava alguma coisa. De repente, foi como se o espírito do pai se apossasse de seu filho. Respondendo a este estímulo, reinterpretou "For Turiya", composta por Charlie Haden para Alice Coltrane, mãe de Ravi e uma figura importantíssima na sua escolha pela música, quando a dúvida ainda o acometia. E para mostrar que está em paz com o legado de seu pai, Ravi e seu grupo fizeram no bis uma versão monumental da clássica "Giant Steps", canção definidora do trabalho solo de Trane no início da década de 60. O público saiu de Canoas flutuando. E esperando a confirmação da quarta edição do festival.
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O que me mobilizou a ir ao Canoas Jazz Festival especialmente foi para ver Ravi Coltrane. Embora seja grande fã de jazz, poucas atrações me motivariam a ir a um ponto fora de Porto Alegre tão contramão. Mas desde que soube, através do Paulo Moreira, que Ravi Coltrane viria, não pensei duas vezes. Valia a pena.
Isso tudo porque Ravi é nada mais, nada menos do que pode se chamar de, como Paulo bem disse aqui, “o filho do homem”, e este homem se chama John Coltrane. Não à toa as quase invariáveis referências que faço a ele em meus textos musicais aqui no ClyBlog, pois o saxofonista é, para mim, o maior jazzista e um dos maiores músicos que já baixaram por estas bandas a qual chamamos de planeta Terra. Um mito na correta acepção da palavra. Eu e Leocádia Costa, que (não podia ser diferente) estava lá comigo, nutre como eu uma profunda admiração por sua obra, com a qual mantemos uma relação quase religiosa. Ver seu filho, o também jazzista, também saxofonista, também band leader (e muito parecido fisicamente com o pai) era uma ocasião especial.
Confesso que, por conhecer pouco do trabalho de Ravi, mesmo tendo ciência de que não são a mesma pessoa Ravi e John, fui com certo medo de me frustrar não sei exatamente com o quê: se em ser algo que não me tocasse tanto; que me desse a impressão de ser ele apenas uma farsa com um sobrenome que garante o credibilidade; que fosse tecnicamente perfeito, mas seco de emoção. Sei lá.
Mas, depois do excelente show de Kiko Freitas Trio, os temores foram embora na primeira execução de Ravi e seu trio. Irreparável. Ravi, como os bons virtuoses do jazz, é o próprio equilíbrio entre técnica e coração. O que se ouve em mestres do sax tenor como Dexter Gordon, Wayne Shorter, Coleman Hawkins, Sonny Rollins ou Joe Henderson vê-se claramente nele. Como, de forma exímia, foi seu pai, incomparável tanto pelo motivo óbvio, o de ser outra pessoa, quanto pelo de ser o maior ícone do jazz mundial. Ravi, no entanto, alinha-se a estes mestres que inclui John, dando uma bela continuidade e evolução ao que todos já construíram.
Show lindo e tocante, principalmente nas bem destacadas por Paulo, "For Turiya", tema enlevado e elevado cujo tema é, por si só, cheio de desvelos e assimetrias. Agora imaginem o improviso de Ravi? Espetacular, de tirar do chão. Extasiante. Aliás, este último é o termo que pode ser empregado para o bis do show, quando Ravi e sua maravilhosa banda retornaram para executar uma arrepiante “Giant Steps”. Num compasso mais acelerado e até mais pulsante que a clássica versão de 1959, não só parecia que John Coltrane havia baixado ali, em plena Canoas, como que Wynton Kelly assumira o piano, Jimmy Cobb as baquetas e Paul Chambers o baixo. Ao final, foi interessante ver o público quase sem acreditar no que presenciou demorando em sair da frente do palco mesmo depois de os músicos se despedirem totalmente.
Realmente essa sensação de deleite se manteve, ainda mais para mim e Leocádia, que compartilha comigo a admiração pelos Coltrane pai e, agora, filho. É das coisas mais bonitas ver esse tipo de laço que só a consanguinidade e a relação pai-filho suportam, ainda mais quando esta se expressa em uma arte tão elevada e grandiosa.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Pix

Interzone 4









"Interzone 4"
foto e manipulação digital: REIS, Cly


REIS, Cly

Coluna dEle #33



Ôpa! Como diria o Compadre Washington, "Cheguei, estou no Paraíso". No Meu caso, eu tô mesmo. Literalmente.
E aí? Como é que vão?
Tudo na Minha santa paz?
Então tá bom.
Eu não vinha dando as caras por aqui porque afinal de contas blog não paga Minhas contas e Eu tenho uma mulher e sete bilhões de filhos pra sustentar. Aí tenk ir à luta, né...
A coisa não tá fácil pra ninguém.

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Mas daqui de cima tô vendo que vocês aí do Brasil resolveram fazer uma limpeza na casa. Finalmente começaram a prender esses safado. 
Hum! Muito bom. Já não era sem tempo.
Há muuuuito tempo que Eu digo: "Não roubarás, não roubarás..." e neguinho não Me leva a sério.
Taí, ó. 
Toma.
Só o problema de vocês agora é que se continuarem prendendo tudo que é político ladrão as penitenciárias vão ficar tão lotadas de ladrões que vai ter ladrão saindo pelo ladrão.
(Ih, mas os presídios já estão assim!)
É uma ladroage que não acaba mais.

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E por falar em safadeza, e esses americanos que resolveram espionar Eu e todo mundo!
Mas que audácia!
Quem eles pensam que são? Os donos do mundo?
Eu ainda mando nessa merda.
E o pior é que o pessoal das  telecomunicomunicações aqui de cima andou descobrindo que els tinham até NOS grampeado.
Pode???
Tinha uma escuta na Minha sala.
Agora tu vê. Não se respeita mais nem as barba branca.

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E a propósito de respeitar, tem um aplicativo novo, aí, um tal de Lulu que tá meio que desmoralizando , comprometendo e deixando furiosos muitos barbados por aí.
Eu mesmo, por exemplo, fui praticamente difamado nesse brinquedinho.
Imagina que Me deram nota 2,5.
Eu!!! Eu, praticamente um deus da alcova levo uma nota irrisória dessas.
E pior: ainda tive que engolir aquelas hashtags, #prepotente, #seachaumdeus, #velhodemais, #tiodasukita, #arrotaepeida, #chulefedorento, #pintopequeno. Pinto pequeno??? E o cara tem que ler uma coisa dessas!
Irmãs, irmãs, lembrem do que Eu sempre disse, "Não levantai falso testemunho". (Ou o bicho vai pegar, viu?)
Estou acionando Meus advogados.
#sesentindochatiado

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Mas mudando de assunto, essa Copa sai ou não sai?
Eu soube que andou desabando estádio aí, não? Do Corinthians, né?
Bom, eu não queria falar nada mas é das Minhas leis: aqui se faz aqui se paga. 
Toda aquela roubalheira, safadeza, apito-amigo e tudo mais uma hora ia ser cobrado.
Um dia Meu castigo pega.

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Subiram dois pra cá, na tragédia do tal do estádio, mas subiu também a Enciclopédia do Futebol.
Sei que vocês aí embaixo, principalmente os botafoguenses vão sentir falta dele, mas vocês já o tiveram por bastante tempo. Deu duas copas pra vocês, né. Já tava na hora. 
Além do mais, o nosso time aqui, o Coríntios, tava precisando de um lateral-esquerdo pro nosso time. Agora com o Niltinho ali na ala e o Mané na direita,  e o Telê na casamata, pode mandar o time do Diabo que a gente ganha. Aliás, sabem como eles se auto-entitulam? Os Diabos Vermelhos.
#seachando o Manchester United.

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E esse calor, gente?
Nossa!
Eu é mais! Ninguém merece.
Tenho que falar com o Pedrinho pra dar um jeito nisso.
Odeio verão. Esse céu fica um verdadeiro infeno.

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É, e tá acabando o ano, tá entrando dezembro e já é mês de aniversário do Jotacê.
Imagina que ele me pediu a nova versão do I-Save 5S.
Foda foi quando Eu vi aquela fila enorme. Ah, véi... Eu pensei comigo, "Euzinho é que não vou ficar nessa fila". Fiquei na minha, em casa, numa boa. Cinco minutos antes de abrir a loja, fui pra fila e entrei lá na frente, em primeiro. Ah, só faltou desabar o mundo. Não teve santo que não reclamasse.
Só disse uma coisa pra eles e resolveu a questão: "Eu sempre estive aqui, no primeiro lugar d fila, porque eu sou onipresente."
Pronto. Calaram a boca.
Comprei o presente do guri.
Mas só vai abrir no Natal.

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Bom vô indo lá que tenho um mundo de coisas pra resolver. Texau, Meus filhos.
Por hoje, fui.
A gente se fala.
Tamo junto.
É nóis.

Que Eu vos abençoe e fiquem Comigo.

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cartinhas, pedidos de Natal, orações, desejos, súplicas, pedidos de redução de pena dos mensaleiros, recadinhos sacanas, retratações do Lulu para 
god @voxdei.gov


Ele






quinta-feira, 28 de novembro de 2013

cotidianas #256 - Uma Floresta



Quem é amante de música como eu vai entender essa história, mas quem é fã da banda inglesa The Cure vai, mais do que isso, se identificar. Embora tenha ocorrido há uns bons anos, a sensação daquele acontecimento ainda me é bastante presente. Os “bons anos” a que me refiro significam 23 deles atrás, em 1990. O local: a emblemática loja Mesbla da Voluntários da Pátria, Centro de Porto Alegre.

Era um início de noite de um dia útil qualquer, terça, quarta, qualquer coisa assim. Hora do pico: pessoas pegando condução, umas correndo para os compromissos noturnos, outras voltando para casa, comércio fechando, meretrício abrindo, ambulantes aproveitando o movimento para vender, frotas de coletivos lotando as ruas, muito zunzunzum. Minha mãe, que trabalhava na Senhor dos Passos, combinou comigo de nos encontrarmos ao final de seu expediente, por umas 18h30. Ela precisava comprar algo ou simplesmente pesquisar preços, não lembro ao certo. Lembro, sim, de pegá-la em seu trabalho e rumarmos em direção da Mesbla, por ficar ali perto e por ser um dos poucos estabelecimentos que se mantinham abertos até mais tarde do que o horário normal do comércio.

A Mesbla, para os que não conhecem, era uma loja de departamentos (tal qual uma Magazine Luiza ou Colombo da vida) de origem francesa cuja falência, decretada em 1999, diz-se, se deu por má administração. Porém, naquela época, princípio dos anos 90, a Mesbla ainda reinava, embora, por debaixo dos panos, já se prenunciava a derrocada, o que só veio a público anos depois, quando tentaram em vão salvar o negócio e as lojas foram fechando aos poucos até definhar. Havia outra loja Mesbla na esquina da Otávio Rocha com Dr. Flores (onde funciona hoje uma Manlec). No entanto, a da Voluntários era “A” Mesbla. Majestosa. Moderna. Convidativa. Numa época em que outras boas lojas de departamento já guerreavam entre si com ofertas e preços, as também extintas Grazziotin, Hipo-Incosul, JH Santos e Arapuã (que se situavam se não na mesma rua, no entorno), nenhuma batia a Mesbla. Lá era o shopping de uma Porto Alegre que, naquele então, tinha apenas o Iguatemi como grande centro comercial.

Parte desta importância se devia, certamente, à arquitetura do Edifício Mesbla. Projetado pelo arquiteto Arnaldo Gladosch, em 1944, o prédio, marco da arquitetura comercial da cidade, se já era vistoso por fora, com sua fachada acompanhando a curvatura da rua e cuja superfície explorava a textura dos tijolos em tom terroso-escuro, por dentro, então!... No seu interior, os três primeiros pisos eram integrados através de mezaninos em forma de anéis, enquanto os demais, destinados a escritórios, desenvolviam-se perifericamente, liberando uma área central que possibilitava uma iluminação vinda do cume em todos os pisos de loja. Isso sem falar na visibilidade do seu todo, apreciável de qualquer ponto em que se estivesse.

Depois que aquela Mesbla fechou as portas, antes mesmo de a empresa anunciar a falência, duas situações vividas por mim envolvendo o prédio – hoje pertencente ao Centro Cultural do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia e onde se pretende, em breve, instalar a nova sede do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul – me geraram sentimentos opostos. Uma delas, em 1997, de puro deleite, quando pude visitar a 1ª Bienal do Mercosul, evento o qual, inteligentemente, se valeu da beleza e da disposição espacial do prédio para integrar lindamente o desenho de sua arquitetura a quadros, esculturas e instalações da nata da arte moderna brasileira. A outra circunstância, no entanto, nada tem de encantadora, pois foi quando, a trabalho, em 2009, fui à TV Ulbra à época em que as emissoras da universidade, então dona do imóvel, se transferiram da cidade de Canoas para lá. Encontrei tudo “remendado”: divisórias, paredes móveis e estúdios montados no hall que, numa lógica funcional e burra, descaracterizaram totalmente o local, dando-me, logo ao entrar, a nítida sensação de que não estava no mesmo lugar. Nada daquele visual clean e do espaço amplo, que fazia destacar com clareza os produtos e as pessoas que circulavam. Não localizei nem a grande escada em alas simétricas ao fundo da área central, nos moldes dos primeiros magazines de departamentos do século XIX, que facilitavam a progressão vertical do público no interior da loja.

Naquele início de noite com minha mãe, no entanto, não subi as escadas da Mesbla. Enquanto ela comprava-pesquisava suas bugigangas noutros andares, eu permaneci no térreo, pois ali ficava o que me interessava: os discos. O setor de Música e Vídeo era ao fundo e à esquerda do salão principal, com seus módulos para LP’s separados por categorias (Cantor Nacional, Banda Nacional, Gauchesco, por exemplo) mais os mostruários de fitas K7 e as de VHS, que não recordo como ficavam expostas. Ao chegar, o vendedor do departamento, um rapaz de uns 30 anos de quem não lembro o nome (perdoem-me, mas quem me conhece sabe que tenho dificuldade de gravar nomes, ainda mais quando de um acontecimento de tanto tempo atrás), cumprimentou-me como pede a conduta de um bom atendimento varejista. Porém, percebi que ele ficou observando (com motivo de sobra) aquele pré-adolescente de 12 anos vestido de blusa preta, calças jeans rasgadas num dos joelhos, tênis tipo basquete sujos, cabelo pixaim com corte quase moicano, óculos de grau com armação redonda e de cor azul fluorescente e, para arrematar, pendurado no pescoço por uma corrente metálica, um crucifixo de ferro fundido de uns 14 cm de altura, que tomava a extensão do tórax, comprado não numa loja de artigos de rock, mas num antiquário da rua Fernando Machado. Sim: eu me vestia desse jeito, algo entre o punk, o dark e eu mesmo. E pior: minha mãe, mais por coragem do que por amor, mesmo que fizesse algum comentário a respeito de um exagero ou outro, andava com seu filho numa boa pelo Centro ou onde fosse. Inclusive em lojas de departamentos.

Como não tinha por hábito comprar filmes para assistir no videocassete, pois me eram caros (alugava-os como solução), meu interesse ali era voltado especialmente para os discos de vinil. Diletante já naquela época, colecionava junto com meu irmão o que me era possível com a mesada, mas a maioria dos discos, inevitavelmente, eram apenas objetos de desejo que eu não cansava de admirar nas prateleiras das lojas. Repetia este ritual de contemplação mais uma vez ali na Mesbla, dedilhando volume após volume para, ávido por conhecer mais, descobrir novos títulos, ver os já conhecidos e aqueles que almejava ter ou rever os que já figuravam na discoteca de casa. Passando pela letra C da fileira de Bandas Internacionais, deparei-me com os LP’s de um dos meus grupos preferidos desde aqueles idos: o The Cure. Tinham posto para venda os mais populares em vendagem e conhecimento do cliente mediano, afinal, tratava-se de uma loja de departamentos que, vendedora de produtos muito mais caros e rendosos, não se preocupava em ser especialista justamente em discos. Disco era coisa para aficionados como eu. E o vendedor.

Havia ali dois ou três do Cure, provavelmente “The Head on the Door”, álbum de carreira repleto de hits da banda, de 1985, e “Standing on a Beach”, de um ano depois, a coletânea com os maiores sucessos de Robert Smith e Cia. até então, um campeão de vendagens. O terceiro, no entanto, não podia ser classificado exatamente um estrondo de vendas. Não era o exótico “The Top” nem o deprê “Pornography”, mas, sim, o único LP oficial ao vivo da banda até aquele momento, de 1984: o “Concert”. Embora fosse dos que já tivesse em casa, puxei-o da pilha com surpresa e emoção e fiquei a admirar a capa. Foi quando ouvi uma voz atrás de mim perguntar-me com empolgação:

- Tu gosta de The Cure?!

Virei-me e constatei que quem me perguntava era o vendedor da loja. Respondi que sim com um sorriso tanto de surpresa quanto de identificação. Comentei que meus preferidos (na época era) do Cure eram o “Pornography” e o “Faith”, os bem gothic-punk, mas que gostava muito, no “Concert”, entre outras coisas, da sonoridade da bateria do Andy Anderson, um negrão que assumira as baquetas do grupo naquela época e que tocava forte como um bate-estacas. Foi visível que o tal moço da loja também se identificou comigo, tendo ficando, inclusive, positivamente espantado por aquele pirralho conhecer e gostar do mesmo que ele, de uma geração mais velha – situação que vira e mexe me ocorria quando era mais guri. Ele ainda disse:

- Eu fui no show deles no Gigantinho. Foi demais. – contou-me com emoção. – Cara, me dá esse disco aqui que eu vou colocar pra rodar.

Sim: ele interrompeu uma Paula Abdul ou George Michael qualquer que tocava sonolentamente na vitrola e substituiu por The Cure. Pelo “Concert”. O som dos alto-falantes, espalhados por toda a loja, saía, tirando as interrupções para os anúncios em voz dos vendedores ao microfone, somente dali. Ou seja: toda a Mesbla estava prestes a escutar The Cure. Ele pôs na primeira faixa. Chiados da agulha no sulco e entra um sobe-som da plateia ovacionando a banda que, percebe-se, entrava no palco naquele instante para abrir o “concerto”. Robert Smith dá boa noite e anuncia a canção de abertura. Andy Anderson faz um longo rolo na bateria conjugando tom-tom e surdo, abrindo caminho para que toda a banda entrasse explodindo naquele clima soturno e denso, de guitarras distorcidas, teclados espaciais e bateria possante. Era “Shake Dog Shake", para delírio do público, meu e do vendedor.

Escutamos a música inteira entre uma conversa e outra sobre partes da mesma que achávamos legal e sobre nossa paixão pelo Cure. Tudo num volume ambiente, afinal, o som ia para toda a loja. Não que Cure não pudesse tocar na Mesbla, mas o “Concert”, cheio de músicas da fase dark da banda, carregado em sonoridades ruidosas e perturbadoras, além do fato de ser ao vivo, o que adensa as vibrações irregulares por causa do rumor da plateia, não era exatamente o mais aconselhável para uma situação como aquela. Por isso, respeitávamos os ouvidos das senhoras que, como minha mãe, estavam lá para comprar uma colcha, roupa de banho, artigos para casa, etc. Mas nossa vontade era de arrebentar as caixas de som! Durante a conversa, concordamos que a melhor performance da bateria era a de “A Forest”. Sem dúvida. Afinal, aquela marcação de ritmo da música original pedia mesmo uma batida forte. Empolgado, ele virou o lado e foi direto nesta faixa. Largou a agulha ainda no fervor da multidão, que vibrava com o final de “A Hundred Years”, a anterior. Foi a partir dali que a luminosa e moderna loja Mesbla se transformou...

A clássica abertura de teclados, num tom grave e ritualístico, mórbido como que vindo de dentro de uma caverna, e as espaçadas frases da guitarra prenunciando o riff, levam a galera ao êxtase. E nós também. Começava um dos épicos do Cure. Já alheio a qualquer outra coisa que estivesse por perto, inclusive o seu gerente ou outros clientes, o vendedor aumentou o volume. Naquele mesmo momento, a sensação foi de que anoitecera dentro da Mesbla e de que entrávamos definitivamente para dentro de uma selva fechada e escura. Parecia que ninguém mais existia em nossa volta. Só nós, a música e uma floresta.

A introdução de “A Forest”, de pouco mais de 1 minuto, parece ter durado uma hora. Nós, diante daquele som, não falávamos, talvez com receio de alertar os bichos à espreita. Até que, finda a abertura, entra, enfim, a tal batida, marcada em dois tempos, pesada, esmurrando as caixas da bateria e até mais acelerada que na versão original. Arrasador! Meu companheiro silvícola não se conteve e aumentou ainda mais o volume. Para o máximo! Os acordes de “A Forest” retumbavam pelos corredores, fazendo vibrar as mesas, os eletrodomésticos, as vidraças e as louças do setor de Bazar.

Robert Smith dizia: “The sound is deep/ In the dark/ I hear her voice/ And start to run/ Into the trees/ Into the trees...” (“O som é profundo/ Na escuridão/ Eu ouço a voz dela/ E começo a correr/ Para dentro das árvores/ Para dentro das árvores...”). E corríamos, ali, parados. Sentíamos o som reverberar por todo o espaço, tomando totalmente os 15 metros de altura que iam do chão ao teto (ou seria a copa?).

Absorvidos por aquela atmosfera selvagem, os versos: “Again and again and again...” nos fazia investir mais ainda mata adentro. E de novo, e de novo, e de novo. Será que saberíamos voltar agora? “I’m lost in a Forest”? We lost in a Forest? O maravilhoso solo de guitarra, cheio de efeito de pedal, já avançava e levava a canção para o final, em que os instrumentos pouco a pouco vão morrendo, perdendo-se no escuro da noite silvestre. Anderson dá o último soco da bateria; ficam apenas as guitarras e os teclados, que logo se retira, para, por fim, manterem-se as cordas, que saem de cena uma a uma. Cessam as guitarras e fica apenas o baixo, que suspira espaçadamente os últimos pares de acordes: “tan dan - tan dan - tan dan...”, até sua propagação esvaecer de vez no espaço.

Bastou a música terminar para tudo voltar a ser como era antes. Claridade, senhoras comprando ou pesquisando preços, crianças correndo e berrando, vendedores vendendo. Uma loja de departamentos. Entretanto, entreolhamo-nos com a sensação de que algo diferente ainda pairava no ar, mas que não tínhamos mais como saber ao certo o que era. Retomados, trocamos ainda algumas animadas palavras de “cureanos” até que minha mãe retornou para irmos embora. Despedi-me do parceiro de viagem calorosamente, afinal, só nós sabíamos a experiência que tínhamos vivido naqueles 6 minutos e 46 segundos minutos entre o primeiro e o último acorde de “A Forest” que pareceram durar uma madrugada inteira.

Indo em direção à porta de saída, minha mãe ainda observou impressionada:

- Tu faz amizade rápido, hein, Dã?!

- ... É-é... – respondi meio bobo, ainda sem muita noção do que se sucedera ali naquele magazine entre tantos objetos supérfluos e desnecessários, entre tantas pessoas que eu não conhecia e jamais conhecerei.


O segurança abriu-nos a porta da entrada e, ao sairmos para a rua, educadamente deu-nos “boa noite” antes de fechá-la novamente como quem passa o cadeado numa jaula. Antes de a passagem ser totalmente fechada, porém, juro ter escutado, vindo lá de dentro da loja, o uivo de um lobo, o que, lamentavelmente, logo se perdeu no ruído metálico da frenagem desvairada dos ônibus que cumpriam, com suas toneladas de realidade, a correria irracional da vida, deixando-me com a dúvida, até hoje, se realmente escutei aquilo.



terça-feira, 26 de novembro de 2013

"Autobiography", Morrissey - ed. Penguin (2013)









"Infelizmente, não sou homossexual,
sou humanossexual,
atraído por seres humanos.
Mas não muitos."
Morrissey 
(trecho do livro)


Às vezes fico meio desligado do mundo, na correira do dia-a-dia, e acabo ficando meio desatualizado das coisas. Só vim a saber agora que Morrissey, ex-vocalista dos Smiths, venerado quase religiosamente por milhões de fãs pelo mundo afora, acaba de lançar sua própria biografia e que a mesma é um sucesso absoluto e surpreendente de vendas na Inglaterra, batendo recordes e mais recordes de vendas. Na verdade, não é tanta surpresa se considerarmos que a menos de uma década, Morrissey foi apontado em pesquisa entre os leitores de um conceituado jornal britânico, como o maior inglês vivo. Exagero? Não sei, mas em Londres pude perceber um pouco desse carinho que a população tem por ele e notar uma espécie de idolatria superior sempre pairando no ar em qualquer coisa que lhe diga respeito.
Particularmente, não sou muito fã das biografias, mas neste caso, por ser deste personagem tão talentoso,  peculiar e que admiro sobremaneira; pelas particularidades acerca dos Smiths; pelas curiosidades possíveis sobre sua relação com o guitarrista Johnny Marr; pelos motivos um tanto nebulosos até hoje que levaram ao fim da banda; e pelo fato de ser redigida por ele mesmo, dono de uma escrita ácida, poética e sobretudo, altamente qualificada, há predicados o suficiente para me fazer abrir esta gloriosa exceção e adquiri-la.
Tenho que tê-la. Tenho que lê-la.
Mas eu, e os demais fãs brasileiros, vamos ter que esperar mais um pouquinho. Por enquanto, "Autobiography", que é como se chama, com toda a simplicidade, a biografia do cantor, só circula pelas bandas da Terra da Rainha e não há previsão para lançamento no Brasil.
Por certo repetirá o sucesso que vem fazendo por lá.
Aguardaremos ansiosos por aqui, Moz.


Cly Reis